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quarta-feira, 2 de abril de 2014

O COMBOIO MÁGICO

        
                                                                foto de Lara Rocha 

           Era uma vez um comboio pequeno, todo colorido, que nunca antes tinha sido visto a passar pela floresta. Esse comboio não andava sobre carris, tinha rodas e andava na terra, mas era um comboio. De dia, o comboio rodava pela floresta, feliz, a cantarolar, sorria a quem passava e de repente desaparecia, e voltava a aparecer mais adiante, diferente…mas nunca se via ninguém a sair de lá. Parecia que entrava em alguns sítios e tornava-se invisível.
            Outras vezes, o comboio andava na terra e levantava voo, como se pudesse andar e atravessar as nuvens, mas não se via asas. À noite, este comboio ficava cheio de lindas luzes, parecia um presépio, ou muitas casas todas juntas, e viam-se outras luzes à sua volta…seriam pirilampos ou fadas? Não se conseguia ver porque estava escuro. Toda a gente falava do comboio.
Um grilo sentia uma agitação estranha, mas não sabia o que estava a acontecer. Adorava ficar à porta da sua toca, à noite, a conviver e a cantar com as cigarras, e outros grilos. Faziam grandes concertos juntos, e havia muita gargalhada, pela noite fora. De repente, o grilo olha para o horizonte, e no escuro vê muitas luzinhas a brilhar.
- Amigos…o que é aquilo? – Pergunta o grilo assustado
            Todos olham.
- Só consigo ver que são muitas luzes juntas! – Diz uma cigarra
- Será uma festa? – Pergunta outro grilo
- Um circo? – Pergunta outra cigarra
- Não ouvi anunciar nenhuma festa, nem nenhum circo! – Responde o grilo pensativo
- Eu também não! – Respondem todos
- Devem ser aqueles encontros de gente estranha. – Comenta outra cigarra
- Aqueles que se juntam e fazem um barulho insuportável? – Pergunta outra cigarra
- Não são os sapos, nem os pirilampos…os outros. – Explica a cigarra
- Ela está a falar daqueles parecidos com os anões, muito estranhos. – Esclarece outra cigarra
- Áhhh! – Respondem todos
- Aqueles que deixam tudo uma porcaria, e queimam a floresta, cortam as árvores e as flores…e coisas parecidas ou piores! – Diz o grilo
- Isso mesmo! – Respondem todos
- Os homens…- Resmunga outra cigarra
- Esses. – Confirma o grilo
- Devíamos corre-los daqui. – Sugere outro grilo
- Não faltará muito para o fazermos. – Diz outro grilo
            Uma pica - pau sai do tronco a rir.
- Não é nada disso que estão a dizer.
- O quê? – Perguntam todos
- Acordamos-te? – Pergunta um grilo preocupado
- Não. Eu estava a acabar a minha renda, e vou agora dormir. Ouvi o que disseram. Aquelas luzes não são de um circo, nem de uma festa, nem de…humanos…até me dá azia no estômago a dizer esta palavra! Lhec.
- Lhec. – Repetem todos
- Então o que são aquelas luzes? – Pergunta o grilo
- São o nosso novo inclino. – Responde a pica-pau
- Inclino? – Perguntam em coro
- Sim! O quê? Nunca o viram? – Pergunta a pica-pau intrigada
- Não! – Respondem todos
- Estão muito desatualizados. – Responde a pica-pau
- Ai, conta tudo…- Pede uma cigarra
- Aquelas luzes todas são de um pequeno comboio que veio aqui parar. Se calhar ainda não o viram porque ele anda mais de dia. Não sabemos como veio aqui parar, nem de onde é, nem o que veio cá fazer…ele é muito estranho. Umas vezes, vê-se…outras vezes…parece que se torna invisível ou que desaparece em qualquer sítio…e à noite…tem todas aquelas luzes…umas vezes vêem-se, outras vezes, não.  
- O quê? – Perguntam todos
- Mas…isso não é possível! – Diz outro grilo
- Isso é muito estranho…- Comenta outro grilo
- Está-me a cheirar muito mal… - Diz uma cigarra muito pensativa
- Não fui eu. – Gritam todos
- Não estou a falar desse cheiro. Quero dizer que alguma coisa de muito errado se está a passar aqui. – Diz a cigarra pensativa
- Alguma vez falaste com ele? – Pergunta outro grilo á pica-pau
- Não. – Responde a pica-pau
- Vamos lá mais perto. – Sugere outra cigarra
- Não será perigoso? – Pergunta outro grilo
- Não. – Assegura a pica-pau
            Põem patas ao caminho e vão ter com o comboio. Aproximam-se um pouco a medo.
- Boa noite…aproximem-se! Não mordo. – Diz o comboio
- Quem és tu? – Pergunta a pica-pau
- És novo aqui, não és? – Pergunta uma cigarra
- Sim, sou novo aqui. Venho de muito longe. Gostei tanto deste sítio que decidi descansar aqui. Espero que não se importem! – Diz o comboio
- Fica á vontade! – Diz a pica-pau
- Desde que não destrua o nosso cantinho… - Diz uma cigarra
- Óh…destruir? Que horror…na…na…eu adoro a natureza, nunca lhe faria mal, nem a vocês. – Assegura o comboio.
- Porque é que tens tantas luzes…e às vezes deixas de ter luzes? – Pergunta outra cigarra curiosa e intrigada
- Porque…quando estou acordado, tenho as luzes acesas, quando estou a descansar ou a dormir as luzes apagam-se. – Explica o comboio
- Áh! – Respondem em coro
- Mas, entrem…e conheçam-me por dentro. – Diz o comboio
- Entramos por onde? – Perguntam em coro
- Pela porta que se vai abrir. – Responde o comboio
- Mas quem és tu? – Pergunta a cigarra
- Sou um comboio.
- Um comboio? – Perguntam todos em coro
- Sim, um comboio. Nunca ouviram falar de mim?
- Já! – Respondem todos
- Mas os comboios não são enormes? – Pergunta um grilo
- São…e eu também sou grande. – Diz o comboio
- Grande? – Perguntam em coro e riem
- Não se deixem levar pelas aparências…entrem e verão.
            E abre-se uma porta enorme. Todos soltam grandes exclamações de encanto e algum medo. Entram e fecha-se a porta.
- Bem-vindos a bordo…amigos! Conheçam-me à vontade.
- Áh! É mesmo enorme… - Repara uma cigarra
- Eu disse para não se deixarem levar pelas aparências. – Diz o comboio a rir
- Uau! – Suspiram todos, encantados.
Dentro do comboio a surpresa é total…um espaço enorme, cheio de cenários diferentes, cada qual o mais bonito, a três dimensões que parece estarem mesmo nessas paisagens. O comboio estica-se mais e alarga.
- Querem tomar alguma coisa? – Pergunta o comboio
- Chá… - Dizem as cigarras em coro
- Tens? Se tiveres, eu também tomo. – Pergunta a pica-pau.
- É para já…minhas donzelas.
            O comboio prepara um belo chá para as cigarras e para a pica-pau
- Aqui tem, meninas…querem açúcar?
- Não, obrigada. – Respondem todas
            Elas bebem e suspiram.
- Huummm… - Dizem em coro
- Mas que chá requintado…- Comenta a pica-pau
- Huummm…que sabor raro. – Comenta outra cigarra
- Está uma manjar das deusas… - Diz outra cigarra
- Não conhecia estes sabores, mas adoro. – Comenta outra cigarra
- Onde se encontra este chá tão bom? – Pergunta outra cigarra
- À saída, eu ofereço-vos uma caixa…ou então vem tomá-lo aqui, sempre que quiserem. – Diz o comboio
- Obrigada. – Dizem em coro.
- Fiquem à vontade. Qualquer coisa é só pedirem ou dizerem. – Diz o comboio
            Todos exploram o comboio. Tinha roupas de diferentes culturas, jóias, chapéus, gorros, cobertores, lanternas, mantas, fatos-de-banho, máquinas fotográficas e de filmar, milhares de fotografias de animais, paisagens e outros objectos. Tinha pratos de comidas típicas de países diferentes, borboletas e flores de todas as cores, voavam milhares de bolas de sabão e havia muita música, muitas luzes a piscar. De repente, o comboio levanta voo.
- Agora, olhem pelas janelas, e vejam a vossa floresta de cima, à noite.
            Recolhem-se as fotografias e abrem-se umas janelas enormes. Apagam-se as luzes do comboio, e todos olham pelas janelas.
- Ááááááááhhhhhh! - Suspiram todos a sorrir encantados
- Estamos a andar? – Pergunta uma cigarra
- Sim! É seguríssimo andar aqui. – Responde o comboio
- Que linda que é a nossa floresta! – Diz outro grilo
- De dia e de noite. – Acrescenta outro grilo
- Olha as casa dos anões… - Repara outra cigarra
- Maravilhoso. – Suspira outra cigarra
- É mesmo! – Sorri o comboio
- Já tinhas andado por aqui? – Pergunta a pica-pau
- Sim, quando cheguei. – Diz o comboio
            Depois da vista de sonho, o comboio volta a pousar. E acontecem coisas muito diferentes, todos brincam, saltam em piscinas de espuma, atiram espuma uns aos outros, mergulham em piscinas de água quente, e jacuzzis, escorregam em colchões de esponja e de plástico, brincam uns com os outros, convivem alegremente até ficarem com muito sono.
Agradecem tudo, e voltam para a sua toca quase a arrastarem-se depois de tanta coisa nova e tão boa que experimentaram e conheceram. Estão mesmo cansados, mas muito felizes, quase ao nascer do dia.
            Nos dias que se seguiram, toda a gente quis visitar o comboio cheio de surpresas, e passeios fantásticos. O comboio fez muitas e boas novas amizades.
            Ele adorava receber visitas e levar os amigos a passear, mas às vezes também se cansava e precisava de ficar sossegado no seu canto, a descansar, de luzes apagadas, para criar novas magias. Todos já sabiam quando isso acontecia, e deixavam-no descansar. Quando estava totalmente recuperado, recomeçava tudo…as visitas, as magias, as luzes, os passeios, e muito mais. Este não era um comboio qualquer…este, era o comboio mágico, cheio de magia e amizade.
            Todos nós às vezes precisamos de algum tempo para estarmos fechados em nós mesmos, e descansar, para renascermos, novos, com uma nova força, uma outra energia, uma outra maturidade, e perspectiva das coisas.
Às vezes precisamos de viajar no nosso comboio interior, e descobrir ou revisitar memórias felizes, matar saudades, recordar momentos únicos e irrepetíveis que ainda hoje nos fazem arrepiar.
Às vezes todos nós precisamos de silêncio e paz, para nos encontrarmos com aquele ser único e irrepetível que somos…e procurar respostas, ou simplesmente, embalar o coração quando ele sofre.
            Às vezes…precisamos de abraçar novamente a criança que fomos, e tirá-la para fora do nosso comboio, para que reencontremos a felicidade de viver, e para que possamos renascer, criar coisas novas.
            Todos nós somos comboios cheios de magia!  

FIM
Lálá
(31/Março/2014)




sábado, 29 de março de 2014

A visita surpresa

Era uma vez quatro meninas que adoravam a Lua, principalmente quando ela ficava enorme e luminosa, que parecia uma enorme bola de luz.
Todas as noites, as meninas falavam da Lua, olhavam-na, desenhavam-na, liam-lhe histórias e mandavam-lhe beijinhos.
A Lua ouvia-as deliciada, e enchia-se de carinho, como se fosse uma mãe derretida com as suas filhas.
- Quando vens cá abaixo, Lua? – Perguntavam as meninas antes de dormir.
         A Lua não respondia…apenas sorria e murmurava:
- Um dia destes!
         As meninas pediam às estrelas, esse desejo, mas até aquela noite, não se tinha realizado. A Lua decidiu fazer-lhes uma surpresa. Como tinha de continuar a brilhar no céu, tirou uns pedaços de si, delicadamente, como se fossem pedaços de algodão ou de penas. Tão leves…
Enrolou um pedaço, e fez uma bola gigante. Outro pedaço pôs em forma de meia bola, outro em forma de meio arco fininho, outro em formato quase da espessura de uma unha. Que lindo.
Soprou esses pedaços delicadamente em direcção ao Planeta Terra e ordenou-lhes que fossem pousar em sítios específicos…na casa das meninas que tanto gostavam dela.
Rapidamente, e porque eram tão leves, os pedaços da Lua atravessaram o espaço e o planeta terra, passando pelas muitas nuvens finas e grossas, e chegaram à terra.
Cada pedacinho pousou em sítios diferentes: a lua gigante, pousou num ninho, outro pedaço na beirada da janela do quarto da menina, outro pedaço num monte de erva fofa, e o outro, num lago de patos que ficava em frente à casa das 4 meninas.
Os cães desatam a ladrar, ao ver aqueles pedaços de lua, e as meninas acordam assustadas. Vão à janela ver se há alguma coisa de estranho, e logo reparam nos pedaços.
- Ááááááhhhh…! – Suspiram as 4 meninas, muito surpresas, e um bocadinho assustadas.
- O que é isto? – Pergunta uma menina…
- Eu não tinha isto na minha janela. – Diz outra menina.
- E o ninho não tinha aquela bola enorme…- Diz outra menina.
- Pois não! – Respondem em coro
- E o que é aquilo naquele monte de erva? – Pergunta outra menina
- E aquilo no lago…? – Pergunta outra menina.
- Nunca vi isto! – Diz uma menina.
- Nem eu. – Acrescentam as outras.
- Parece… - Todas olham para a lua
- A lua! – Gritam em coro.
- Sim. A lua realizou o nosso desejo…? – Pergunta uma menina.
         A Lua sorri-lhes e diz:
- Sim, queridas…esses pedaços são uma prenda minha para vocês.
- Ááááááhhhh… - Suspiram todas felizes e sorridentes.
- Isto é tudo teu? – Pergunta outra menina
- Sim. Este era um desejo vosso não era? Vocês pediam todas as noites às estrelas, que eu vos fosse visitar! – Diz a Lua
- Era! – Respondem em coro, sorridentes.
- É que nós gostamos muito de ti…- Diz outra menina.
- Sim, eu sei. Foi por isso que vos mandei um pedacinho de mim, para cada uma de vocês…ou para todas, como quiserem. – Diz a Lua
- Como fizeste isto? – Pergunta outra menina
- Estás aqui e aí? – Pergunta outra menina
- Eu estou aqui, mas também estou aí…esses são pedacinhos de mim. – Explica a lua.
- Mas como fizeste isso? – Pergunta outra menina.
- Eu tenho esse poder, de me dividir por muita gente, e muitos lados. Em cada pedacinho desses, vai um pedacinho de mim, do meu carinho por vocês! – Explica a lua.
- Ááááááhhhh! – Respondem em coro surpresas
- E eles não se desfazem? – Pergunta outra menina
- Não! – Garante a Lua
- Vamos ali buscá-los… - Sugere uma menina
- Sim! – Concordam todas.
- Façam o que quiserem. Não quero é que se chateiem umas com as outras, por minha causa…muito pelo contrário, quero que se unam e que sejam amigas! – Recomenda a lua
 - Claro! – Dizem todas
- Sempre fomos amigas… - Diz outra menina
- Às vezes zanga-mo-nos… - Confessa outra menina
- Mas fazemos as pazes. – Corrige outra menina
- Pois claro. E assim é que deve ser! – Diz a Lua
- A mamã e o papá ficam muito felizes por sermos amigas. – Diz outra menina
- Pois. – Dizem todas
- Eu também fico! – Diz a lua.
- Adoramos a tua visita…- Diz outra menina
         As 4 meninas apanham os pedaços de lua em silêncio para não acordar os pais. Juntam todos os pedaços no seu quarto e acariciam-nos, abraçam-nos, beijam-nos, como se fossem bonecos. Brincam com eles, felizes.
- São levezinhos…! – Diz uma menina
- Pois são. – Respondem todas
- Que fofinhos…! – Diz outra menina.
         E cada menina dorme com um pedacinho de lua. Nos dias seguintes, trocam os pedacinhos com que dormem. E mostram à lua, como estão a tratar bem do seu carinho. Como se fosse um tesouro! Todas as noites contam histórias aos pedacinhos de lua, e à lua, cantam canções, embalam-nos, abraçam-nos, e enchem-nos de mimos.
- Muito obrigada, lua…! – Dizem todas em coro
         E a lua sorri orgulhosa.


Moral da história:
Todos temos objectos que guardamos com todo o carinho, pequenas coisas, que nos fazem lembrar bons momentos, e fazem-nos sentir a presença de pessoas que foram e, ou, são muito especiais para nós…ou aquelas que fizeram parte da nossa vida, mas seguiram outros caminhos. Todos temos pedacinhos de lua que guardamos para sempre no nosso pensamentos e no nosso coração. Assim, mesmo longe estão sempre perto!


FIM
Lálá
(29/Março/2014)



domingo, 9 de março de 2014

OS BODINHOS

Era uma vez várias famílias compostas por: Bodes, cabras, cabrinhas e cabritos, com lã de várias cores, uns com chifres maiores, outros mais pequenos. Eram famílias felizes, unidas, que viviam na corte de uma grande casa de família de camponeses, com outros animais.
            O seu dia-a-dia era sempre o mesmo: comer, brincar, saltar, dar leite e dormir. Mas um dia, tudo muda. Recebem na sua corte a visita que um ser muito especial. Uma linda mulher com asas de borboleta, brilhantes.
            Ninguém sabe quem é, nem o que está ali a fazer. Nunca a tinham visto, por isso ficaram todos assustados e agitados. Pais e filhos unem-se quanto mais podem.
- Ai, mamã…o que é isto? – Pergunta um cabritinho assustado
- Não sei, filho! Mas seja o que for, não nos fará mal…acho eu… - Diz a mãe cabra, também com medo
- Isto se não der cabo de nós antes… - Murmura o bode
- Não assustes mais os meninos! Nem a nós. – Pede a cabra
- Vais dizer que não estás com medo…
- Claro que estou com medo, mas não devemos mostrá-lo aos nossos filhos.
- Ora, eles têm de se habituar à realidade…na vida real, nem tudo é bonito e bom, não há só bons corações, também há mau. Não há super-heróis salvadores.
- Certo, mas isso não ajuda neste momento.
- É o fim do mundo! - Murmura outro bode
- Ai, não…! – Choram os pequenos
- Vamos para um forno! – Suspira uma cabra
- Óh não! – Gritam todos
            O ser especial ri
- Calma! Eu vim eu paz. Não vos vou fazer mal…! Nem cozinhar-vos – Todos suspiram de alívio – Também não é o fim do mundo…Sei que estão assustados porque não me conhecem, é normal…mas não sou uma coisa má…sou do bem, e vim trazer-vos uma prenda!
            Todos entreolham-se surpresos e até um pouco desconfiados.
- Não…não é nenhuma armadilha! – Diz o ser mágico
- Ui. Ela até lê os nossos pensamentos! – Comenta um bode que tinha pensado exactamente isso…que ela seria uma armadilha.
- Diga logo o que vem cá fazer! – Pede uma cabra
- Está bem!
            Abana as asas, e tira de lá um lindo cristal.
- Óóóóóóhhh… que lindo! Uau! – Suspiram todos encantados
- Este cristal vai dar-vos poderes especiais! – Explica a mulher
- Poderes especiais? – Perguntam em coro
- Desculpe menina, com todo o respeito…isso é bom ou é mau? – Pergunta outro bode
- É bom! Vocês têm uma missão muito importante!
- Missão? – Perguntam todos em coro
- Sim! Com este cristal vão ganhar poderes especiais, e divertir umas pessoas muito especiais num lugar muito longe.
- Desculpe…eu gostava de colaborar, mas não podemos sair daqui! – Desculpa-se uma cabra
- Vão poder sair…e vão sair…sem ninguém dar por isso! E voltarão sem ninguém perceber! – Diz a mulher
- Como? – Perguntam em coro
- Vamos tornar-nos invisíveis? – Pergunta outra cabra
- Não é bem! Quer dizer…sim, vão tornar-se invisíveis por algum tempo, mas vão reaparecer noutro sítio!
- Ááááhhh…! – Exclamam em coro
- Desculpe…não acredito nisso! – Diz outro bode
- Tem todo o direito de não acreditar, mas espere para ver.
- Mas o que temos de fazer? – Pergunta uma cabrinha
- Vocês vão ter o poder de se transformar em personagens de circo…e fazer as habilidades que eles fazem!
- o quê? – Perguntam em coro
- Eu? No circo? – Pergunta um bodinho
- Nunca fui ao circo…não sei como é! – Diz outra cabrinha
- Nem eu! – Dizem todos
- Não se preocupem! O cristal vai encarregar-se de tudo isso…só têm de se deixar levar e divertir-se muito.
            De repente o cristal abre-se e sai de dentro dele, uma explosão de raios de luzes de todas as cores, sobre os animais e todos começam de repente a fazer habilidades de verdadeiros artistas de circo.
Uns são trapezistas, outros são palhaços, outros balançam-se no telhado, outros equilibram-se em arames, em rodas e em paus ou andas, outros dão grandes saltos, outros dão cambalhotas, outros são domadores corajosos de leões, outros de cavalos, e outros de elefantes.
            Aparecem também bodinhos que fazem danças espectaculares, estátuas e formas com os corpos. Outros fazem truques de magia, tirando coisas das cartolas, outros fazem enormes bolas de sabão, e outros são ginastas.
            A fada aprecia deliciada, ri e aplaude. Estala os dedos e os bodes, as cabras, os bodinhos e as cabrinhas, desaparecem da corte e aparecem num enorme campo com mais bodes, mais cabras, mais cabrinhas e cabritinhos que estão sentados a aguardar ansiosamente pela visita do circo. Quando vêem a tenda, todos saltam alegremente, aplaudem, bramem, e preparam máquinas fotográficas.
            Um dos bodinhos apresenta o circo, e todos aplaudem. Dão um lindo espectáculo, muito animado, cada um com a sua tarefa, todos assistem com grande alegria e encantados, riem muito, brincam, saltam, dançam e deixam todos os que assistem, muito felizes.
            No fim do circo, a fada estala os dedos, e todos os animais reaparecem na corte. Um dos meninos mais novos dos casais da quinta, acorda sobressaltado, e vai à corte onde estavam todos os animais. Todos estão sossegados, alguns a dormir, outros a abanar os casquinhos, outros a petiscar, outros a morder a lã e a coçar-se, outros a sacudir as orelhas e rebolar…mas reina a paz.
- Áh! Estão aqui…! Que susto! Vejam lá que sonhei que vocês tinham ido fazer um espectáculo de circo, para um campo. Vocês eram os artistas do circo! (ri ás gargalhadas, e todos os animais bramem como se estivessem também a rir) Afinal…foi só um sonho! Claro! Ainda bem. Até devia ser engraçado um circo feito com animais como vocês…era a mesma coisa que os vossos chifres começarem a dar luz… (ri às gargalhadas)
            E os chifres dos animais começam mesmo a dar luz…e a piscar…o menino fica estático, gelado, pisco os olhos várias vezes seguidas…e assustado:
- O que é isto…? Eu estou a ver bem? Ou estou a sonhar…? Os animais com os chifres a dar luz…? O que é que se passa aqui? Ãhhhh…? Os animais com os chifres a dar a luz…? Isso não é possível…só acontece nos sonhos…mas…mas…eu estou acordado…! Estou acordado…e a ver os chifres dos animais a dar luz…Óh não…! – Diz o rapaz, a tentar mentalizar-se.

E desata a correr, aos gritos pela casa fora.


                                                           FIM
                                                           Lálá
                                               (6/Março/2014)


            

CONCENTRAÇÃO DE PENAS



    














   Era uma vez um lugar longínquo…muito diferente daquele onde vivemos, sem poluição, sem guerras, sem casas e com uma pequena tribo de índios. 
    Nesse lugar, durante vários dias do ano, os Índios fazem uma festa para cumprir a tradição antiga dos seus antepassados.
    Esta tradição dizia que todos os índios deviam festejar com as penas, que chegavam aos milhares, trazidas ao sabor do vento. 
    Penas de pássaros, penas de pato, galinha, galos, gansos, cisnes, gaivotas, penas de pavão, de águias, de falcões, de corvos, e de muitos outros animais que se juntavam.
    A festa das penas era aguardada com grande felicidade, e preparada com muito cuidado. Não podia faltar nada. Quando as penas começassem a chegar, os índios ficavam apenas a olhar para elas, pois a tradição mandava que as penas não fossem agarradas. Todas deviam voar livremente, leves, soltas. 
    Umas penas eram brancas e deixavam passar os raios de sol, entre os espacinhos…era lindo! Muitas penas voavam e pousavam numa grande bola de vidro, preparada para a hora da magia, outras tantas caíam sobre os índios e as suas casas, eram recolhidas e guardadas com muito carinho, pois eram sinal de boa saúde, e de serenidade, boas produções, e fartura, boas relações e felicidade nos casamentos, nascimentos.
   As índias faziam lindos vestidos para esta festa, arcos de flores naturais, e de motivos marinhos, e neste dia, usavam as melhores joias, faziam-se as melhores comidas, os penteados mais bonitos, usava-se a melhor louça…era como se fossem começar um novo ano, ou uma nova vida. Os homens também aprimoravam os fatos que já tinham, até as crianças vestiam roupas novas e recebiam brinquedos novos.
    Olhavam constantemente para o céu e apreciavam cada pena que viam. Eram momentos de grande paz, que os fazia sorrir e quase voar com as penas…pelo menos voavam com elas no olhar e no pensamento.
    Com a mudança de Lua, a azáfama aumentava, e à medida que as horas passavam. O grande dia estava mesmo a chegar, e todos ajudavam uns aos outros. Tantas penas, de tantas cores e tantos tamanhos, de tantos animais…todas leves e lindas.
    No dia da festa, verificam a bola de vidro, põem as mesas, enfeitam tudo, e há muita música no ar, e alegria. As penas estão paradas, mas todos os índios dançam e cantam, trocam elogios e carinhos, comem e bebem á farta, e de repente faz-se um silêncio arrepiante! Começa a soar uns doces acordes de uma harpa.
  Tudo fica em silêncio com uma enorme lua cheia a brilhar e iluminar todo o espaço, desligam a música, desligam o som, e quase desligam os cérebros. Os corações batem mais forte, de emoção, e todos os corpos vibram de ansiedade. Dão as mãos e formam um grande cordão humano à volta da bola.
    A grande bola de vidro, fica toda iluminada. Todos olham encantados e sorridentes para a luz deliciosa e linda da bola. Cada um pede os seus desejos para si mesmo, sem partilhar com os outros.
    Fazem em coro a contagem decrescente…10…9…8…7…6…5…4…3…2…1…0… A bola explode e acontece uma grande chuva de penas. Todas as penas que foram lá parar, acariciam e tocam os índios, eles abrem as mãos, e as penas caem, os índios oferecem penas às suas apaixonadas, e a outras pessoas que amam, como a família. 
    Dançam uns com os outros, ao som da orquestra das fadas. Outros índios usam penas para se declararem às meninas por quem estão apaixonados, e pedi-las em namoro. As penas que esperavam pousadas no lago e na praia, acordam e dão um espetáculo de dança, todos se deixam levar pela música e acompanham-nas lentamente, flutuam, rodopiando no ar, e a festa dura até ao amanhecer.
   Todos se sentem muito livres e leves, com muita paz por todo o lado. Mas para que esta sensação dure todo o ano, na noite seguinte, mandava a tradição que tomassem banho no grande lago, com as penas.
    É mais uma noite linda e divertidíssima de lua cheia no lago, onde parecia que voltavam a ser crianças, a brincar na água, com muita dança e amizade, e alegria. Sentiam-se mesmo bem! 
  No fim da festa, cada um levava uma pena de cada espécie para alcançar todos os seus desejos. E era mesmo assim! Até á nova chegada de milhares de penas, sem dia certo! Quando chegavam, tudo voltava ao mesmo. 
   Mas atenção: a liberdade deles tinha regras bem definidas que não podiam escapar. Eram mesmo para ser cumpridas. Não podiam fazer tudo o que desejavam. A única liberdade total existe apenas na mente de cada um de nós, nos sonhos e na imaginação, onde na verdade não existem barreiras, nem perigos reais para nós e para os outros, ao contrário da nossa sociedade, onde tudo são barreiras à nossa liberdade.


                  FIM
             Lara Rocha 
                    (27/Fevereiro/2014)