Gratidão
ao meu amor
passado.
NARRADORA
- Uma rapariga quer fazer as pazes com o
passado, um amor que ela pensou ser para sempre, mas acabou de uma
semana para a outro, depois de um pedido de casamento.
Como
ela estava iludida! E todas nós ficamos iludidas, mas nem sempre é
como imaginamos. Confiamos plenamente, e de repente, tudo se
desmorona. Como é possível? Estavam sempre a dizer...aos anos que
vai…vira a página, já devias ter arranjado outro. Ele arranjou
logo outra, trocou-te, tu devias fazer o mesmo, isso ajuda a esquecer
mais rápido.
Já
devem ter ouvido isso, de certeza! Mas concordaram? É assim tão
fácil? Claro que não, para ele pode ter
sido, mas para mim, e para nós, mulheres, nem sempre é assim tão
fácil.
Uma
série de anos depois, resolveu escrever uma carta positiva, de
agradecimento pelos bons momentos, os que devem prevalecer para
ajudar a diminuir a raiva, o ódio, a vontade de vingança.
-
Gratidão, gratidão, gratidão pela boa escolha do local onde me
pediste em namoro, e pela simplicidade com que o fizeste! Gratidão,
gratidão, gratidão, pela nossa música, que acompanhou e marcou o
início do namoro, naquele sítio de sonho.
Gratidão,
gratidão, gratidão, a ti, que te chamei «meu amor» enquanto
durou, e tu a mim que me tratavas carinhosamente por «mor».
Gratidão, gratidão, gratidão a ti, meu amor passado, pela
oportunidade de te mostrar o que eu era sem máscaras, pela
possibilidade de me conhecer como namorada, e perceber como sabia
amar.
Gratidão,
gratidão, gratidão, pela oportunidade recíproca que demos um ao
outro, de viver o amor, a amizade, e tudo de bom que vivemos.
Gratidão, gratidão, gratidão, por todas as palavras bonitas que
ouvi de ti, gratidão, gratidão, gratidão, por todas as gargalhadas
que dei contigo.
Gratidão,
gratidão, gratidão, a ti, meu amor passado, por me teres
correspondido, o único amor correspondido, depois de tanta
desilusão, e quando eu já não acreditava que fosse conhecer alguém
que se interessasse por mim.
Apesar
de todos os meus amigos e familiares me dizerem que um dia ia
aparecer, que ele estava guardadinho para mim, que ia aparecer quando
menos esperasse, que não havia idades…eu achava que era só para
alguns.
Gratidão,
gratidão, gratidão, a todos os que me disseram isso! Eu não
acreditava, mas a verdade é que de um dia para o outro, apareceste.
Gratidão, gratidão, gratidão, meu amor antigo, correspondido, por
teres visto tudo o que eu tinha de bom e desconhecia.
Gratidão,
gratidão, gratidão, meu amor antigo por me ajudares a crescer e a
tornar-me numa pessoa diferente. Gratidão, gratidão, gratidão meu
amor antigo e correspondido por todos os momentos de carinho, por
todos os abraços, por todos os encontros, por todos os passeios que
demos, por todas as coisas bonitas que me mostraste, que vivi, que
disseste e que senti contigo ao meu lado.
Gratidão,
gratidão, gratidão, por todos os momentos de intimidade,
telefonemas, conversas, mensagens, webcam. Gratidão, gratidão,
gratidão por me teres feito acreditar no amor!
Gratidão,
gratidão, gratidão, pelos presentes que
me ofereceste, gratidão, gratidão, gratidão por conhecer a tua
família pessoalmente, e pelos dois sobrinhos: um já me chamava
«tia», e eu gostava deles como se fossem meus sobrinhos, por aquele
momento delicioso em que estive com o teu sobrinho mais velho a
dormir no meu colo. Eu quase explodia de felicidade quando ouvi
chamar «tia». O outro sobrinho estive pouco tempo com ele, mesmo
assim, foi muito bom!
Gratidão,
gratidão, gratidão por todas as lágrimas quando ias para fora, e
pela alegria dos momentos em que nos falávamos ao telefone todos os
dias, pela Internet. Gratidão, gratidão, gratidão pelos postais
que me enviaste, pelos toques, pelo anel, por me teres pedido em
casamento, um sonho que não se cumpriu, mas pelo menos fui feliz
quando o ouvi.
Gratidão,
gratidão, gratidão pelos momentos em que fui dormir à tua casa e
senti aquele conforto de acordares ao meu lado, e aquele carinho com
que me acordavas. Ficávamos os dois assim...lado a lado, de mão
dada ou apenas encostados e abraçados, com troca de beijos. Como era
bom!
Doeu,
quando acabaste, claro! Quando fizeste a tua escolha pela outra, com
quem estás agora, e na realidade já estavas, mas eu não sabia.
Gratidão, gratidão, gratidão, por todo o romantismo adormeceu em
mim, ou já não existe, mas existiu.
Gratidão,
gratidão, gratidão, por não seres possessivo, nem ciumento.
Gratidão, gratidão, gratidão por me teres apresentado os teus
amigos, por me teres aceitado como eu era.
Doeu,
claro que sim, quando levaste contigo todos os sonhos que eu tinha
começado a construir connosco. Senti que chegamos a ser um «eu»,
«um tu» e «um nós», sempre que nos fundíamos, tantas vezes,
pelo olhar, um no outro, sem palavras, pelos abraços, pelos beijos,
pelos sorrisos.
Quando
me pediste em casamento, e eu aceitei, porque estávamos bem, ao fim
de 4 anos, sonhava com um «eu», um «tu» e um «nós», cada vez
melhor, maior e mais forte. Mas quando acabaste no fim de semana
seguinte...depois de me teres pedido em
casamento, foi muito mau, não gostei, deixei de saber quem era e
nunca mais fui a mesma.
Ainda
demorei a aceitar que só para ti é que as coisas não estavam bem
entre nós. Claro, não podiam estar bem, com a varejeira que andava
à tua volta a provocar-te. Não tinhas mais argumentos contra mim,
não sabias como te desculpares, e ainda negaste até assumir que não
era só ela que estava interessada em ti.
Não
sei do que te encantaste com ela! Talvez ela te tenha dado o que eu
não te dei! Não dei porque não era mesmo o que eu queria dar-te,
pelo menos nesse momento. E parecia que pressentia que não era
contigo que eu ia ficar, ou seria medo!
Preferi
não me entregar assim tanto, nem tudo! Na verdade é porque não
merecias. Foi o melhor que eu fiz! Dei-me muito a ti, tu também
deste muito de ti a mim, tivemos momentos muito bons, embalados pela
nossa música, que ouvimos várias vezes juntos, e sentíamos uma
ligação muito especial, aquela música tinha a ver connosco. Ainda
hoje adoro essa música, sorrio, e acho que vai continuar a ser
lembrada como a «nossa música», para sempre! Pela beleza, magia,
pelas coisas boas que ela transmite.
Fala
de amor, quase como foi o nosso, só não foi mais porque não
quiseste. Não gostei nem aceitei algumas propostas que me fizeste,
sei que também não gostaste, mas aceitaste. Gratidão, gratidão,
gratidão por isso! Respeitaste as minhas escolhas e decisões, mesmo
com dor.
Tive
apoio psicológico ligeiro, quando acabaste, mas foi essencial para
eu falar de ti sem chorar, apesar da dor, que pensava perdurar até
hoje, mas não. Demorou muito a passar, sim, é verdade, o ódio, mas
com o apoio psicológico aprendi a viver sem ti, a recordar os bons
momentos.
Demorei
muito tempo até voltar a ser outra pessoa, que ainda estou no
caminho da descoberta e da construção. O teatro, pouco depois de
teres acabado, também ajudou em muita coisa.
Se
houver um segundo amor, vai ser uma redescoberta para mim, serei uma
nova «eu», porque deixaste-me fossilizada, desconhecida de mim
mesma, e não, não arranjei ninguém desde que acabamos! Ao
contrário de ti, que uns dias ou semanas antes já tinhas outra, com
certeza.
Até
te conhecer, aliás, conheci-te, sem pensar que iria dar alguma coisa
entre nós, também não acreditava, depois de tanta desilusão, não
pensava como seria, não sabia como era enquanto namorada. E tu
disseste que eu era uma grande mulher.
Era
um misto de incerteza, curiosidade, querer e ter medo. Mas
conseguiste ver-me, quiseste dar-me uma oportunidade. Gratidão,
gratidão, gratidão por essa oportunidade!
Já
vai há tanto tempo...tantos anos…! Não voltei a apaixonar-me.
Raramente penso se vai acontecer outra vez ou não. Não sei se
conseguirei voltar a amar, a ter alguém que me ame, o amor se
existiu acabou, se não existiu, o que quer que seja, acabou!
Parece
que foi ontem...e já lá vai há tantos anos…! Foi muito bom
enquanto durou. A dor passou e ficaram as lembranças dos bons
momentos! Não tenho a certeza se a raiva passou ou adormeceu, com o
passar do tempo, eu realmente era boa demais para ti!
É
porque não tínhamos de ser um «nós», para sempre...só enquanto
durou. O primeiro amor nunca se esquece, nem as desilusões, passe o
tempo que passar, elas apenas adormecem e deixam-nos continuar.
Fizeram
parte de nós, fazem parte do nosso passado, daquilo que fomos nessa
altura, e aprendemos, melhoramos, pioramos, tanto com as desilusões,
como com o fim das relações, depois da dor!
Enquanto
não aparece outro amor, se é que vai aparecer, fico entre a
vontade, o medo, a descrença, a insegurança, o acreditar que vai
acontecer de novo, que há alguém destinado para mim, à minha
espera, alguém especial, algures...no infinito.
Enquanto
não acontece, quero ficar apenas com as tuas boas recordações de
vez em quando, só para me fazer sorrir! E hoje, agradecer-te por
toda a eternidade, todos os bons momentos, tudo o que fui contigo,
tudo o que fomos um para o outro, tudo o que vivemos juntos.
Já
não serei a mesma, e tu também não, ninguém volta a ser o, ou a
mesma pessoa depois deste acontecimento. Mas poderei ser melhor se
houver alguém diferente, que limpe todo o lixo emocional que
deixaste em mim.
Talvez
um dos propósitos das relações seja esse...transformar-nos,
fazer-nos crescer, como se fossem rascunhos, até à perfeição
final, a do amor puro, companheiro, leal, sensível, respeitador,
brincalhão, divertido, amigo, carinhoso, compreensivo, que nos traga
à superfície o melhor de nós, que goste de conversar, que nos
descubra diariamente, nos pequenos gestos, nos grandes.
Mesmo
assim, hoje, agradeço-te...amor antigo...primeiro amor...cada
segundo, cada minuto, cada dia, cada hora, cada semana, cada mês e
cada ano. Gratidão, gratidão, gratidão, amor antigo, amor passado…
Mas
de hoje em diante, quero libertar o meu coração, de ti, de todas as
desilusões e amores não correspondidos, que doeram e destruíram-me,
mas felizmente que nunca tivemos nada. Não era para eles, até te
conhecer, que me transformaram e ajudaram a descobrir o meu melhor
para te dar.
Hoje,
agradeço-te por tudo, mas quero libertar o meu coração, deixar-te
lá num cantinho, pequenino e derreter o gelo que lá deixaste.
Liberto-te! Meu primeiro amor, que já não és, mas já foste, e
porque somos também passado, tu fazes parte dele, é lá que
estarás, com quem eu fui contigo, juntamente com os bons momentos
que de vez em quando gosto de recordar.
Hoje,
eu liberto-te para sempre, meu amor, meu primeiro amor! Foi quanto
perdeste. Gratidão, gratidão, gratidão por tudo, e...até sempre.
Eu liberto-te! Vai! Não precisas de ocupar mais o meu coração
magoado e congelado, como o deixaste.
Eu
quero libertar-te, quero derreter o meu gelo, deitar fora o lixo
emocional da dor que me deixaste. Vai amor...lá para a caixinha do
passado, onde talvez me encontres, aquela que fui, quando me
conheceste!
A
que sou agora, não conheces, nem conhecerás. Encho o meu coração
de gratidão por tudo de bom que vivi contigo, e por teres sido o meu
primeiro amor. Abro uma frincha para outro alguém, se houver e se
conseguir, descongelar, enchê-lo de luz, de amor, e curar as feridas
que deixaste!
Havendo
ou não outro amor para mim...vai! Para o passado! Não te quero mais
no meu presente! Não preciso mais de ti, no meu presente! Vai para o
passado e fica lá. Já são muitos anos de prisão para o meu
coração. Vai! Eu solto-te dele! Vai lá para o passado, e não
voltes, com grande, grande gratidão, para sempre e até sempre! No
passado.
FIM
Lara Rocha
23/10/2023