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quarta-feira, 12 de outubro de 2016

De gritos para canções




















Era uma vez uma menina quase adolescente, que estava sempre a gritar, não conseguia falar baixo, e quando falava baixo, os seus gritos transformavam-se em lágrimas, por isso, quando tal acontecia, ela tinha de fugir e gritar num sítio onde não incomodasse ninguém.
Mas um dia, nesse lugar onde ela foi para gritar, apareceu um ser muito misterioso, um rapaz adolescente, calado, alto, elegante, todo vestido de roupa preta. Ela assustou-se e engoliu o grito para não incomodar o rapaz.
- Ai…acho que vou rebent (com uma voz fininha e baixinho, até que grita outra vez) aaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...Desculpe! – Diz a menina a tossir
O rapaz dá uma sonora a dobrada gargalhada:
- Mas o que é que te mordeu?
- Nada!
- Estavas a gritar, pensei que algum bicho te tinha dado uma dentada.
- Não.
- Então porque estavas a gritar?
- É que…não consigo evitar…sinto umas coisas a subir pela minha garganta, e tenho que gritar, se não, fico muito mal disposta.
- Vens para aqui gritar?
- Sim.
- Porquê?
- Para não incomodar as pessoas com os meus gritos.
- E porque é que gritas?
- Não sei.
- É mais forte do que eu.
- Já fazes isso há muito tempo?
- Sim, desde bebé.
- E já foste ao médico?
- Já.
- E então?
- Ele não viu nada.
- Então já é de ti.
- Sim.
- Mas porque o fazes?
- Não sei. Sei que fico muito aliviada.
- Ora…grita lá.
- Óh, é melhor não…
- Vá lá.
- Não…vou incomodar…
- Não incomodas nada. Eu quero ouvir.
- O quê?
- Sim, eu quero ouvir-te gritar.
- Tens a certeza do que me estás a pedir?
- Tenho.
- Acho que não vai ser boa ideia.
- Anda…grita.
- Bem, se é isso que queres…
            A rapariga começa a gritar, e a fazer movimentos com o corpo, gestos que acompanham os gritos. O rapaz fecha os olhos, ouve-a, e diz:
- Chega.
            Ela cala-se muito surpresa. Ele sorri:
- Uau. Que linda voz.
- Ãh? Estás a gozar não?
- Não. Estou a falar muito a sério. Arrepiaste-me.
- Isso deve ter sido de nervoso…pelo menos é o que toda a gente me diz…que os meus gritos provocam arrepios de nervoso.
- Isso é insensibilidade.
- Eu acho que eles têm razão.
- Não. Tu dás tudo, os teus gritos ganham vida, têm emoções, todo o teu corpo falou enquanto gritaste…
- Mas…
- Alguma vez cantaste?
- Sim, mas rapidamente me mandaram calar.
- O que é que te acontece quando não gritas?
- Parece que rebento, e choro.
- Gostavas de cantar?
- Acho que…até gostava.
- Então vamos experimentar.
- O quê?
- Sim.
- Mas, o que é que tu fazes?
- Depois conto-te, agora quero ouvir-te.
            Ela começa a gritar, ele ouve atentamente, e responde com um tom de voz mais grave, mas igualmente bonito. Parece que os dois entram num lindo diálogo de ópera, com movimentos e gestos a acompanhar as vozes. A rapariga fica encantada com a voz dele.
A certa altura, ele manda-a gritar baixinho, e os gritos dela transformam-se em lágrimas, que ele transforma em notas musicais a sair dos olhos, apanha-as e mete-as numa bolsinha especial.
- O que é isso que guardaste?
- São as tuas lágrimas.
- Para que queres as minhas lágrimas?
- Para transformá-las em letras de músicas. Vou ouvir as tuas lágrimas, e compor canções para cantarmos juntos.
- Ááááááááááhhhhhhhh… nunca outra ouvi.
- Vais ver que vai ficar maravilhoso. Por favor…de cada vez que chorares, guarda as tuas lágrimas e traz-mas. Pode ser?
- Se fazes assim tanta questão…
- Sim! E cantaremos mais vezes juntos…aparece aqui, quando precisares de gritar.
- Combinado.
- Obrigado. Até à próxima.
         O rapaz desaparece, e ela fica pensativa. Cada um vai para sua casa, e o rapaz explora as lágrimas da rapariga, como notas musicais, compõe dezenas de letras para canções, experimenta, sorri, comove-se, e brinca com as notas musicais.
       Uns dias mais tarde os dois votam a encontrar-se, e a rapariga dá-lhe um frasco com mais lágrimas. Ele põe-na a ouvir as canções que compôs com as lágrimas dela. Ela fica muito surpresa, e ao mesmo tempo encantada.
- Uau! Estão maravilhosas…são lindas as canções! – Diz ela a sorrir
- Também achei. Vamos experimentar?
- Está bem.
E os dois cantam as canções dele, com muita delicadeza, suavidade, leveza e sorriem. Cresce entre eles muita cumplicidade, amizade, carinho e a paixão pela música. Ele leva as outras lágrimas dela, e compõe mais músicas.
Uns tempos depois, os dois vão pelas ruas mostrar as suas canções, e todos aplaudem, até dão moedas. Com o dinheiro que juntaram, conseguiram gravar o primeiro CD, e a partir daí não pararam mais. Tiveram muito sucesso, foram muito aplaudidos e solicitados para atuar.
Afinal, os gritos da rapariga eram um talento escondido, que se transformaram em canções, e foi descoberto por uma alma sensível.

FIM
Lálá

(12/Outubro/2016)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O potinho surpresa


Era uma vez uma aldeia, com casas de pedra, que ficava numa montanha. Era Outono, estava um dia quente, e os habitantes tinham por hábito lavar os potes onde cozinhavam o ano todo, mas havia uma lenda que dizia que teriam mais saúde e a terra produziria mais no Inverno, se os potes fossem lavados e secos ao sol, principalmente no Outono. Foi isso que eles fizeram: acordaram muito cedo, lavaram os potes, puseram-nos a secar ao sol, e à hora do almoço estavam prontos para ser usados.
À noite, um potinho ainda ficou fora da porta, com os gatos vadios. De repente ouve-se a tampa a mexer. Os gatos assustam-se, e começam a miar, a cheirar o pote. A tampa levanta-se e cai ao chão. Os gatos recuam assustados, e do potinho sai uma linda fada, de cabelos azuis muito compridos, roupa azulada e bem quente, e a sua pele parecia feita de gelo. Espreguiçou-se, bocejou, saiu do pote, os gatos recuaram assustados e ela diz:
- Olá boa noite! Vocês não deviam estar aqui fora. Está muito frio! (os gatos abrem a boca para tentar responder, mas a fada continua a falar). É melhor procurarem um lugar quente. Aliás costuma estar assim tanto frio aqui? (Os gatos tentam responder, mas a fada não se cala) Ali no pote estava muito mais quentinho, claro, não admira, esteve ao sol. Porque é que está tanto frio aqui? (Os gatos tentam falar, mas ela continua). Vocês estão muito calados, estão envergonhados? (Os gatos suspiram)
A Fada do Outono ri-se:
- Já desligaste o rádio, amiga? – Pergunta a fada do Outono
- Rádio? Que rádio? Estás aqui? Pensei que já tinhas ido embora…chegou a minha vez! – Diz a fada do Inverno
- Estás com pressa? Vais ter até à Primavera para trabalhar…é muito tempo! – Responde a fada do Outono
- Tu rompes a palavra tempo. (As duas riem)
- E tu falaste tanto até agora, que os gatinhos já tentaram falar, mas tu ainda não te calaste! – Responde a fada do Outono, os gatos riem.  
- A minha voz é música, tenho a certeza! Desculpem amigos, mas é que estou tão feliz por estar aqui, que quis dizer logo tudo…! Este lugar é lindo, e venho de muito longe, já passei por muitos lugares, mas este é especial… está sempre assim tanto frio aqui?
- Não! – Respondem os gatos
- Vocês dormem sempre cá fora? – Pergunta a fada do inverno
- Sim!
- Está tanto frio porque tu chegaste! – Diz a fada do Outono
- Áh! Pois é! Sou eu que trago o Inverno! A época do ano mais bonita. E não é por ser eu a trazê-lo. – Diz a fada do Inverno vaidosa, feliz e orgulhosa
- Áááááááááhhhhh…. – Exclamam os gatos
- Porque é que dormem cá fora? – Pergunta a fada do Inverno
- Porque somos vadios. – Respondem todos os gatos
- Não exigimos nada. – Diz um gato
- As pessoas é que nos dão o que querem e o que podem. – Acrescenta outro gato
- E já é muito bom. – Diz uma gata  
- Dão-nos comida, bebida, abrigo e mimos, mas a casa é por nossa conta. – Diz outra gata  
- Estamos habituados a tudo! – Diz outro gato  
- E onde dormem com este frio que eu trago? – Pergunta a fada Inverno
- O mais velhinho da casa deixa ali uma portinha aberta, num palheiro, um lugar aconchegante, mas tem tudo, é quente, põem-nos lá comida, bebida, e roupa…quer dizer…cobertores! – Conta outra gata
- É muito bom. – Respondem todos os gatos
- Adoramos estar lá! – Diz outra gata
- Somos livres, entramos e saímos quando queremos, a porta não tem fechadura nem chave. – Explica outro gato
- Somos muito bem tratados! – Dizem todos os gatos
- Boa! – Dizem as fadas
- E já estão cá há muito tempo? – Pergunta a fada Inverno
- Não sabemos. – Respondem todos os gatos
- E tu, já tens casa? – Pergunta outro gato
- Ainda não! Talvez fique neste pote. – Diz a fada
- O que fazes nesse pote? – Pergunta outro gato
- É aqui que preparo todas as maravilhas e surpresas do Inverno para a natureza e para as pessoas.
- Que surpresas e maravilhas são essas? – Pergunta outro gato
- Com licença…logo verão o que trago! Fada Outono, boa viagem! – Diz a fada Inverno
- Muito obrigada! Queres ajuda? – Pergunta a fada Outono
- Não, obrigada. – Responde a fada Inverno
- Até à próxima…! – Diz a fada Outono
- Até à próxima. Diverte-te! – Diz a fada Inverno
- Tu também! – Diz a fada Outono
A fada entra no pote, fecha a tampa e acende a sua grande pilha que ilumina todo o pote. Acende uma fogueira, os gatos ouvem barulhos estranhos, assustam-se, aproximam-se, recuam e não vêem nada.
Ela cozinha num pote especial muitas nuvens, mistura-lhes cores escuras, acrescenta grandes trovões, ventos fortes, e chuvadas, com granizo, neve e algum sol fraquinho. Mistura tudo e vai descansar.
No dia seguinte e nos outros vai tirando do pote e brincando com os ingredientes: num dia tira só nuvens, de manhã, e de tarde tira chuva forte, misturada com ventos fortes, à noite decora tudo com neve, e nos seus passeios gela tudo por onde passa.
Outro dia tira do potinho algum sol, e neve, que deixa todos os habitantes numa grande festa, adoram ver os flocos de neve a cair, e brincar com eles. Ela adora ouvir as gargalhadas, e ver os trambolhões.
Noutro dia, tira um sol fraquinho, decora o céu com nuvens escuras, e chuva. Outro dia tira trovões assustadores misturados com nuvens escuras, gelo, neve, chuva e vento…e vai variando conforme a sua vontade, e inspiração!
Os gatos adoravam as surpresas dela, andavam sempre fora e dentro, brincavam com a neve, ficavam no palheiro a ouvir e a ver chover, e apesar do medo dos trovões, gostavam de ver da porta os desenhos que eles faziam no céu.
De vez em quando, a fada ia visitá-los e era sempre muito bem recebida, brincava com eles, e conversavam longas horas, acompanhados de chás e biscoitos que a própria fada fazia, e os gatos adoravam.
A surpresa do potinho era os ingredientes do Inverno, que também tem as suas belezas trazidas pela fada.
Qual é o vosso ingrediente, ou quais são os vossos ingredientes preferidos do Inverno?

Fim
Lálá

(1/Outubro/2016)

A festa de Outono das fadas













foto de Lara Rocha 



Era uma vez um jardim muito verde, florido e cheio de árvores com grandes troncos e copas frondosas, onde dormiam mochos e corujas de dia, e onde pousavam de noite para vigiar tudo como deve ser!
Num dia quente de Verão, o jardim estava silencioso. Nele descansavam confortavelmente deitadas na sombra, e cobertas pelas pétalas das flores em botão fechado, que tinham escolhido para casas, fadas com lindos vestidos, leves, frescos, e coloridos depois de uma noite muito animada.
Sem darem por isso, enquanto dormiam, o vento entrou sorrateiro, de mão dada com uma linda princesa que ninguém conhecia, a sua namorada. E porque os dois estavam tão felizes, contagiaram tudo o que estava à sua volta.
Por onde passaram, por cada árvore, espalharam um pó dourado, brilhante, luminoso, a condizer com os seus corações e com a luz do amor que os unia. Esse pó coloriu milhares de folhas, de amarelo, castanho, verde, vermelho, laranja, roxo, bordo, e folhas com salpicos de várias cores misturadas.
Todo o jardim se transformou, com beijos que os dois trocaram, olhares, sorrisos ternos, sinceros, e abraços que se transformaram em folhas que esvoaçaram e dançaram, leves, e borboletas que as acompanharam pousando nelas, e dançando com elas.
As fadas acordaram nesse momento e ainda puderam ver este par romântico e feliz, que adoravam. Os dois sopraram outra vez quando viram as fadas, e mudaram as suas roupas, para cores parecidas com as deles, mais quentes, mais compridas mas, na mesma encantadoras.
 Elas aplaudiram, agradeceram e nessa noite festejaram, brincaram e fizeram jogos com as folhas que cobriram o jardim por todo o lado, dançaram, escorregaram, correram, riram, cantaram, e deixaram-se cair por cima do manto de folhas.
O vento e a namorada também participaram e tornaram a festa muito mais bonita, com a decoração, dourada, brilhante, luminosa, colorida, levantaram as folhas do chão, tão bonito que estava o espaço.
Vieram fadas de todo o lado, de outros jardins, trouxeram música, muitos instrumentos musicais, peixes amigos que faziam bolas especialmente grandes de sabão, espigas fritas, uvas, castanhas, amoras, nozes, ouriços estaladiços, e outros que enfeitavam, potinhos de mel, geleias, doces, pólens, biscoitos de pétalas de flores, flores de todas as espécies, chá, sopa de Outono e sumos naturais, para saborear e festejar o Outono.
Fim
Lálá

(1/Outubro/2016)

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A borboleta esquecida

desenhado e pintado por Lara Rocha 

Era uma vez uma linda borboleta que tinha asas como as outras, mas esquecia-me muitas vezes que as tinha. Um dia foi passear, pousada na terra, com as patinhas assentes no chão, e encontrou uma menina muito brincalhona que lhe pediu para calçar umas botinhas que a sua avó tinha acabado de fazer para os seus bonecos.
A borboleta não sabia o que era aquilo, mas achou tão bonitos e tão confortáveis que autorizou a menina a calçá-la, e deixou-se andar com eles. Sentia-se um bocadinho esquisita, mas não sabia o que era.
Perguntou à menina que estava a rir às gargalhadas de ver a borboleta calçada com aquelas botinhas, o que tinha nas patinhas. A menina respondeu que eram uns sapatinhos, e que ficavam muito bem nos seus pezinhos.
A borboleta disse que não tinha pés, tinha patas, agradeceu e deu os parabéns à avó, mas pediu para as tirar. A menina continuou a rir e não tirou. A borboleta ficou muito zangada, e foi o caminho todo por terra, a resmungar.
Encontrou mais à frente um gatinho bebé que a cheirou, parecia que a ia aspirar. Ela assustou-se e o gatinho quis brincar com ela, ela correu, ele foi atrás dela, ela escondia-se, e ele ia à procura, até que se cansou, e deixou a borboleta sozinha.
A borboleta viu uma flor, muito bonita, e quis descansar, mas como a flor era muito alta de pé, a borboleta não se lembrou como subia, e disse:
- Óh flor…posso descansar aqui no teu pé? É que estás muito alta, e não posso subir.
- Podes. Mas porque não podes subir? – Pergunta a flor muito surpresa
- Porque estás aí em cima. – Responde a borboleta
- Ora essa…tu tens asas? Porque não sobes mais? Ou tens medo das alturas? – Pergunta a flor  
- Tenho o quê? – Pergunta a borboleta
- Asas. E bem bonitas. Não estou a perceber porque estás a perguntar isso! – Explica a flor  
- O que são asas? – Pergunta a borboleta  
- Estás a perguntar isso a sério? – Pergunta a flor
- Sim! Não sei o que são asas. – Diz a borboleta pensativa e surpresa
- Como assim? – Pergunta a flor
- Olha o que uma criatura me calçou, quando eu ia pela estrada! Eu disse-lhe que tinha patas, e pedi-lhe para me tirar isto, mas ela só se ria, e não tirou. Depois, encontrei um gatinho bebé, que me cheirava de uma maneira que parecia que me ia aspirar, e também fui pelo chão, chateou-se e foi-se embora, deixou-me sozinha. E agora, queria descansar porque sinto-me um bocadinho estranha. – Conta a borboleta
- Pois… (ri-se) Tens as patas presas, dentro de botinhas de agasalho. Mas tens asas! Porque não as usas? Estão magoadas? – Pergunta a flor
- Asas…? Não! – Diz a borboleta
A flor suspira.
- Vai ali ao lago e espreita para veres o que são asas. – Sugere a flor já sem saber o que responder ou perguntar…ou dizer
A borboleta vai pelo chão, até ao lago, a flor aprecia-se muito surpresa e murmura:
- Ela não está boa…
A borboleta espreita e vê-se.
- Ááááááhhhh…eu tenho duas coisas de fora… - exclama a borboleta
- São asas! Para tu voares, não é para andares pelo chão. – Relembra a flor
- Ááááááhhhh…e como é que eu faço isso? – Pergunta a borboleta
- Óh valham-me todas as florestas…- murmura a flor preocupada  
Aparece outra borboleta, e as duas borboletas conversam:
- Ai, mas que belos sapatinhos…! Consegues voar com isso? – Pergunta a sua amiga borboleta
- Outra? – Pergunta a borboleta
- Outra quê? – Pergunta a outra borboleta
- Outra borboleta a falar em voar. – Responde a borboleta
- Claro, e o que fazemos nós, borboletas? Voamos…pousamos de flor em flor…e por muitos sítios. – Explica a outra borboleta
- Ainda bem que apareceste, borboleta! Eu estava a ficar assustada… - Diz a flor a sorrir aliviada
- Ááááááhhhh…tenho asas…? - Pergunta a borboleta
- Claro, eu também. Querias ter o quê? – Responde a outra borboleta
- Mas, eu andei pelo chão! – Lembra a borboleta
- Porque quiseste…e com esses sapatinhos nas patas é possível que não consigas voar. Experimenta. – Sugere a outra borboleta
 - E como é que eu faço isso? – Pergunta a borboleta
- Ai, não acredito! – Dizem a flor e a outra borboleta
- Vê como eu faço. – Recomenda a outra borboleta
A borboleta explica como se faz, e a outra dá saltinhos para tentar sair do chão. A outra borboleta tira-lhe os sapatos e grita:
- Não são saltinhos, são voos…assim…abre as asas…um…dois…três… (empurra a amiga) Dá às asas… dá às asas…assim…mais…mais…dá às asas.
A borboleta grita muito assustada mas consegue voar.
- Boa! Isso mesmo. – Elogia a outra borboleta
- Áh! Estou muito melhor. – Diz a borboleta a sorrir
E as duas vão voar, enquanto conversam alegremente. De repente apanham uma rajada de vento que as faz rodar várias vezes no ar, para tentar lutar e manter-se sem cair, e a borboleta que se esqueceu outra vez que tinha asas, deixou-se cair. A outra abraça-se e grita-lhe:
- Dá às asas…
E as duas voltam a levantar voo, e um bocadinho mais à frente, cansadas, repousam numa flor. As duas conversam sobre as asas.
- Para que servem as nossas asas? – Pergunta a borboleta pensativa
- Para te levarem onde queres e precisas de ir. – Responde a outra borboleta
- Porque é que eu me esqueço sempre que tenho asas, e que consigo voar? – Pergunta a borboleta
- Gostas de ser borboleta? – Pergunta a outra borboleta
- Gosto! – Exclama a borboleta
- Então porque te esqueces das asas? Uma das coisas que temos de mais importante? Se calhar só usas as asas do sonho, e da imaginação! Porque estás sempre distraída. – Responde a outra borboleta
- Os sonhos e a imaginação têm asas, sim… e levam-nos muito, muito longe, também nos levam para onde queremos, ou precisamos de ir. – Explica a borboleta
- Como são as asas dos teus sonhos? – Pergunta a outra borboleta
- Não sei…nunca reparei nelas. – Diz a borboleta
- Como nunca repaste nelas? – Pergunta a outra borboleta
- Eu vou nelas, mas vejo outras coisas. – Responde a borboleta
- Já viste como elas são importantes? Como as nossas asas! - Pergunta a outra borboleta
- Sim, mas não as conheço. – Responde a borboleta
- Como não? – Pergunta a outra borboleta
- Acho que nunca as vi. – Responde a borboleta
- De certeza que já as viste, mas não lhes ligas, porque elas fazem tudo o que tu queres, nunca pensaste no que elas fazem por ti, e nunca quiseste conhecê-las. Elas levam-te e pronto. – Responde a outra borboleta
- Sim, acho que é isso. Tu conheces as tuas? – Diz a borboleta e pergunta
- Claro que conheço. Vejo-as todos os dias, são lindas, e agradeço todos os dias as asas que tenho. – Responde a outra borboleta
- E os teus sonhos, e a tua imaginação têm asas? – Pergunta a borboleta
- Têm! – Responde a outra borboleta
- Como são essas asas? – Pergunta a borboleta curiosa
- São iguais às minhas. – Responde a outra borboleta
- Como é que sabes? – Pergunta a borboleta
- Eu vejo-as sempre. – Responde a outra borboleta
- E eu posso ver as asas dos meus sonhos? - Pergunta a borboleta
- Claro que sim. – Responde a outra borboleta
- Como? – Pergunta a borboleta
- Da próxima vez que fores nelas, verás como são. – Responde a outra borboleta
- Achas que são iguais às nossas? – Pergunta a borboleta
- Não. As minhas e as tuas não são iguais…temos padrões diferentes…mas talvez as asas dos teus sonhos, sejam iguais às tuas, como são as minhas. – Responde a outra borboleta
- Vou fechar os olhos, para ver se as consigo ver. – Diz a borboleta
- Está bem. – Concorda a outra borboleta
A borboleta fecha os olhos, sorri.
- Óh, só estou a ver a sombra delas. – Diz a borboleta
- Tens de olhar com atenção. – Recomenda a outra borboleta
- Como? – Pergunta a borboleta
- Olha para elas sem pressa. Deixa que elas se mostrem. – Sugere a outra borboleta  
E passado um bocadinho ela consegue ver as suas próprias asas de olhos fechados, quando a sua amiga borboleta a abraça.
- Áh! São iguais às minhas. – Repara a borboleta muito surpresa
- Boa! Conseguiste vê-las. Eu disse-te. E gostas delas? – Responde e pergunta a outra borboleta
- Adoro. – Responde a borboleta, sorridente
- Porquê? – Pergunta a outra borboleta
- Porque elas são importantes e levam-me onde eu quero. E porque adoro ver tudo o que elas me mostram. – Responde a borboleta
- Certo. Eu também, mas não te podes esquecer que tens asas de verdade, e são elas que existem, que te levam, que não te deixam cair, a não ser que estejam feridas. Essas é que importam mesmo. – Diz a outra borboleta
- E as do sonho e da imaginação? – Pergunta a borboleta
- Essas são lindas e importantes, mas não tanto como as tuas verdadeiras asas. – Responde a outra borboleta
Depois dessa conversa, a borboleta ainda se esqueceu algumas vezes que tinha asas, porque só se lembrava de usar as asas da imaginação e do sonho.
Era mesmo muito sonhadora, de olhos abertos, e gostava muito de sonhar, era por isso que estava sempre distraída, até se esquecia que tinha umas asas verdadeiras, mas a sua amiga estava sempre por perto, para lhe lembrar que tinha asas, e o que fazer com elas.

E vocês? Conhecem as vossas asas? Como são? Onde vos levam?

Fim
Lálá
(28/Setembro/2016)


domingo, 11 de setembro de 2016

Não acordem a princesa

       

Era uma vez uma princesa, mas não era de carne e osso, como nós. Era uma princesa muito especial, que nem todos a viam, só algumas pessoas, aquelas mais antigas que viviam nas montanhas e que amavam a natureza. Conheciam-na desde crianças e tratavam muito bem dela.

Ela era feita de folhas das árvores, como aquelas folhas que caem no Outono, linda, leve, com muitas cores. Fazia grandes caminhadas pela cidade e pelas montanhas, o ano quase todo, por muitos países, até que a partir de 21 de Setembro ela repousava para descansar. O seu sítio preferido para o fazer era em cima de relva, macia, fofa, grande, ou aparada, isso tanto lhe fazia.

Uma vez deitou-se no jardim da cidade onde viviam muitas crianças, e pessoas mais velhas, ocupou um espaço muito grande que ficou coberto de folhas.

As crianças iam a passear com os seus avós e preparavam-se para saltar em cima das folhas, mas os avós gritaram-lhes que parassem imediatamente.

- Parem! – Gritam os avós em coro

- Essas folhas não são para pisar. – Recomenda uma avó

- São só para ser apreciadas. – Diz outra avó

- Porquê? – Perguntam as crianças

- Se elas estão no chão podem ser pisadas. – Insiste uma das crianças  

- Não! – Gritam os avós em coro

- Porquê? – Voltam a perguntar as crianças  

- Porque vão pisar a princesa. – Diz uma avó.

- O quê? – Perguntam as crianças em coro

- Que princesa? – Pergunta uma menina

- Eu não estou a ver aqui ninguém! – Diz outra menina

- Nem eu! – Dizem todos

- A princesa está deitada. – Repara outra avó

- Xiu! – Dizem todos os avós

- Não façam barulho. – Diz outra avó.

- Acho que a minha avó está a perder o juizinho… - Diz um menino muito chocado

- Também acho! – Concordam todos

- A minha também… - Comenta outra criança

- A minha mãe tem razão. A minha avó está a ficar tolinha com a idade. – Diz outro menino

- O quê? – Perguntam os avós

- Eu não estou a ver nenhuma princesa… só vejo folhas. – Repara uma criança

- Mas está aí! A princesa é feita de folhas… - Diz outra Avó

- Como ela está linda! – Diz um Avô a sorrir

- Ela sempre foi linda. – Corrige a sua esposa

- Áh…eu acho que vocês não estão bem, Avós! – Diz outra menina

- Mas que atrevida! – Ralha a sua avó zangada

- Estejam calados…- Recomenda outra avó

- E quietos! – Diz outro avô.

A princesa mexe-se, e algumas folhas do seu vestido levantam, mexem e voltam a pousar. Todos sorriem.

- Ela mexeu-se! – Diz uma avó

- Quem? – Perguntam as crianças

- A tal princesa que os avós estão a ver. – Comenta outra menina

- Não a acordem…deixem-na descansar. – Recomenda outra avó

- Acho que vou avisar a minha mãe… - Comenta outra menina

- Eu também. – Diz outra menina

- A tua mãe também conhece a princesa. – Responde a Avó, ofendida

- Ela também a vê? – Pergunta a menina

- Vê. – Garante a avó

- E porque é que eu não a vejo? Será que ela é um… - comenta a menina

- Cala-te! Não é nada disso.

- Ela existe. Está a descansar…viram-na a mexer?

- Não façam barulho. – Resmungam todos os avós

- Eu só vi folhas a levantar e a pousar. – Recorda outro menino

- Pois…ela mexeu-se. – Diz a sua avó

A princesa mexe-se mais um pouco e algumas folhas rodopiam e levantam outra vez. As crianças não estão a perceber nada, e até estão assustadas. Vão para casa e contam aos pais. As mães confirmam, os pais quase quebram a magia, mas as mães cortam-lhes a palavra, e eles acabam por confirmar também.

No dia seguinte, as crianças voltam a sair com os avós, e à espera de ver se a tal princesa vai aparecer. Aparece mesmo, aliás continua lá, a descansar…as crianças preparam-se para pisá-las, escorregar em cima delas, fazem uma gritaria tão grande e correm, os avós não conseguem pará-los.

A princesa acorda muito assustada, levanta-se e foge, esconde-se atrás de uma árvore a quem se abraça. Formam-se uma grande ventania e as folhas levantam todas, voam, rodopiam, amontoa-se aos pés e à volta do tronco da árvore, no chão.

As crianças adoraram ver aquelas folhas todas pelo ar, a rodar e a esvoaçar de um lado para o outro, muito rápido…adoraram ver aquele espetáculo de cores. Os avós ficam muito irritados, e ordenaram que parassem. Puseram-nos de castigo, e levaram-nos de volta para casa. Nos dias seguintes não foram.

A princesa voltou a dormir, mais uns dias, até ao dia 22 de Setembro. Muitos avós sabiam que ela ia acordar nesse dia, e foram ter com ela. O seu despertar era sempre um momento de paz, e especialmente bonito para eles.

Nesse dia, o sol deu um beijinho à princesa, e ela acordou devagar, levantou-se a sorrir, os avós sorriram com ela, sacudiu-se e as folhas abanaram suavemente. Sentou-se, e levantou-se.

O sol ficou mais quente, mas pouco depois, quando ela se cruzou com a princesa Verona, que estava de saída para outros sítios, deixou cair algumas lágrimas em cima da princesa quando trocaram um abraço de amizade, e o céu ficou mais carregado. Os avós agradeceram à princesa Verona e desejaram-lhe boa viagem.

O vento tornou-se mais forte, e o seu vestido esvoaçou por onde passou. A princesa para anunciar a sua chegada espalhou folhas de árvores de muitas cores e tamanhos por todo o lado, cumprimentou toda a gente que passava, espalhou ouriços, castanhas, uvas, espigas de milho, bolotas e outros mimos, como amoras e flores silvestres.

Salpicou as árvores com as cores do seu vestido, borrifou folhas de cores diferentes, e o sol brilhou mais forte outra vez, para tornar as cores mais visíveis.  

- Olá princesa! – Dizem todos

- Olá! – Responde ela a sorrir

Nesse dia, as crianças perceberam de quem se tratava…viram a princesa que os Avós e os pais lhes falavam…e que já não estava deitada na relva…andava por lá, a espalhar a sua beleza.

Era a princesa Outonia…mais conhecida por Outono…a estação do ano em que estavam a entrar! Desse dia em diante, até ao Inverno, as paisagens mudaram, houve muitas festas, como magustos, desfiles de cores e folhas, colheitas, e muitas coisas boas.  


Esta princesa já chegou à vossa cidade? Já a viram deitada na relva? O que é que ela espalhou na vossa cidade?


FIM

Lálá

(10/Setembro/2016)