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quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

A PESCARIA DO PINGUIM



Era uma vez um lindo pinguim que saiu do seu iglô para ir pescar. Andou pelo gelo, escorregou em poças de água congeladas, e deslizou às gargalhadas, até entrar na praia.
            O dia estava cheio de sol, mas frio. O pinguim caminha areia…
- Será que hoje há peixe? Sim…deve haver…estão ali pessoas…! Qual será o melhor sítio para pescar? Talvez…ali onde estão aqueles todos…haverá peixe para todos, não? já sei…vou perguntar.
            O pinguim caminha pela areia molhada e pergunta a um jovem surfista, que estava à espera das ondas.
- Olá, bom dia! O que estás a fazer na praia? – Pergunta o pinguim
- Um pinguim, por aqui? Que estranho…o clima está mesmo a mudar…os pinguins até já andam na praia, em vez de andar no gelo.
- Qual é a surpresa?
- Não é costume ver aqui na praia pinguins…!
- Tu não és um pinguim?
- Não! Sou um homem…um surfista.
- Um surfista?
- Sim! É um desporto que se pratica, com esta placa em cima das ondas…é parecido com o que vocês pinguins fazem!
- Áh! Nunca vi. Vens muitas vezes à praia?
- Sim, venho todos os dias… e tu?
- Eu venho quando está tudo congelado daquele lado, e não encontro comida…vim pescar.
- Pescar? (gargalhadas) Um pinguim a pescar…? Áh, áh, áh…só nos desenhos animados. Onde está a tua cana de pesca? E os iscos? E o barco e o balde…?
- Eu não preciso de nada disso! Pesco para comer…ou como é que achas que como? Com lanças…? És muito ignorante, desculpa lá…!
- E tu andas na escola também, queres ver?
- Ando! Por acaso não sabes qual o melhor sítio para pescar?
- Huummm…ali à frente costuma haver muita gente, que atira as canas de pesca para a água, e muitas gaivotas, por isso, deve haver bom peixe. Passa por lá…!
- Está bem. Obrigado.
- Boa sorte…e depois diz-me se há peixe ou não. se precisares de ajuda, chama-me.
- Está combinado. Obrigado.
            O malvado surfista ri-se quando o pinguim vira costas. Ele manou o pobre pinguim, para uma zona onde havia muito lixo. O pinguim muito contente atira-se à água, a pensar que ia apanhar peixe. Mal mete as patas numa zona de areia, pisa uma série de latas e plásticos, garrafas, vidros…que o magoam. Ele grita, olha para o chão, tira de lá as coisas que pisou e resmunga:
- Que porcaria!
            Um sapato todo roto acerta-lhe nas coxas com força, trazido pelas ondas. Ele grita, zangado.
- Mas o que é isto?
            Mergulha mais um pouco e um farrapo enrola-se à sua volta, pisa uma carcaça de televisão, leva com um pedaço de madeira estragada na cabeça…encontra lixo, mais lixo e só lixo. E onde estava o peixe afinal? Ele sai  muito zangado da água, um pouco ferido, e a libertar-se do lixo que se enrolou à sua volta. O malvado surfista a gozar de fininho, e a rir.
- Desgraçado…enganaste-me! (grita o pinguim) Espero que da próxima vez que tenhas muita fome, não encontres nada para comer, ou que engulas pedras e lixo! Isto não se faz…! (p.c) Mas onde está o peixe? Será que foi todo comido pelo lixo? Ai…estou com tanta fome! Não quero lixo…quero peixe! Quem é que pôs esta imundice aqui no mar…? que porcaria!
            Umas gaivotas vêem do alto mar e trazem muito peixe para elas.
- Óh, gaivotas…por favor…dêem-me um peixinho ou dois…estou cheio de fome! É para mim e para a minha família…os meus filhos pequenos… - Implora o pinguim.
- Cuidado, meninas…caçador à solta! – Grita uma gaivota às outras
- O quê? O mundo está louco! – Acrescenta outra gaivota
- Esta coisa não costuma andar no gelo? O que faz aqui na nossa praia…? – Pergunta outra gaivota.
- Por favor…ajudem-me! Eu fui enganado…aquele atrevido mandou-me para aqui, porque disse que havia bom peixe, mas quando entrei era só lixo!
- Tiveste o que mereces…! – Diz outra gaivota arrogante
- Óh, vá lá…pelo menos digam-me onde posso encontrar peixe! Estou cheio de fome…e os meus filhos ainda são muito pequenos…precisam de se alimentar! – Implora o pinguim.
- Que pena que eu tenho de ti…caçador…bem-feita! Tens fome…vai à pesca, como nós fazemos… - Resmunga uma gaivota arrogante.
- Queres peixe…? Vai buscá-lo lá ao fundo, às ondas gigantes…! Não temos pena nenhuma de ti, nem dos teus! – Grita outra gaivota arrogante.
            Aproximam-se uns generosos pescadores com canas de pesca, baldes e iscos. Atiram a cana de pesca para mais longe, e vêem o pinguim muito triste. Dão-lhe algum peixe, ele come e abre um grande sorriso.
- Óh, muito obrigado, generosos pescadores. Preciso de mais peixe para os meus filhos pequenos…posso recompensar-vos…?
- O próximo peixe que pescarmos…vai para ti e para a tua família! – Diz um pescador.
- É que está tudo congelado na minha zona…
- Aqui há peixe de sobra para toda a gente! – Diz outro pescador.
- Um surfista enganou-me…indicou-me um sítio onde só havia lixo. – Lamenta o pinguim.
- Mas isso não se faz…! Todos os animais e pessoas têm o direito de comer. – Diz outro pescador.
- Quem atirou tanto lixo para o mar? – Pergunta o pinguim
- O homem. – Respondem os pescadores em coro
- E não foi apanhado?
- Não é só um, infelizmente…são centenas. – Diz outro pescador
- Mas porque fazem isso? Não têm sítios próprios para o lixo?
- Têm, mas não têm nada nas cabeças. É gente selvagem! – Responde outro pescador.
- Deviam ser obrigados a limpar. – Sugere o pinguim
- Com certeza…mas infelizmente escapam! – Concorda outro pescador…
- Pega lá… - Grita outro pescador.
            Os pescadores enchem um grande balde de peixe para o pinguim, e para eles. O pinguim ficou muito feliz, e leva um apetitoso balde de peixe fresco, brilhante, para ele e para a sua família comerem.
            Depois deste dia, o pinguim já sabia onde pescar, quando tudo estava congelado.
                                                          
                                                           FIM
                                                           Lálá

(7/Janeiro/2014) 

O ARMÁRIO

foto e armário de Lara Rocha 
       
     Era uma vez uma jovem rapariga, muito desorganizada e desarrumada. O seu quarto metia medo…parecia uma pocilga como a sua mãe classificava.
Já te disse mais de cem vezes para arrumares este quarto imundo, e tudo continua na mesma! Para que servem os armários? Olha para isto…tudo fora dos sítios! Que vergonha! - ralha a mãe 
Mas, mãe…porque é que não paras de resmungar comigo?
Se tu tivesses a porcaria do quarto arrumado, eu já não precisava de estar sempre a resmungar, não era?
Isto é como eu sei arrumar. Um dia destes arrumo outra vez!
É como tu sabes arrumar? Francamente! Achas que isto é arrumado?
Assim sei onde estão as coisas…quando me arrumam  já não sei de nada!
Onde já se viu? O quarto dos teus pais e dos teus irmãos está sempre arrumado, e sabemos sempre onde estão as coisas!
Porque és tu que fazes tudo!
Não senhora…os teus irmãos arrumam sempre o principal nos quartos deles. Eu pouca coisa faço lá.
Os meus irmãos são os meus irmãos, e eu…sou eu!
Deixa-te de conversas e arruma-me esta porcaria toda!
Um dia destes eu arrumo.
Não é um dia destes. É hoje. Agora…já!
Eu não sei arrumar.
O quê? Vê lá se tens de ir a Coimbra tirar um curso de arrumação de quartos! Eu que não volte aqui e o quarto esteja assim.
Mas como é que eu arrumo?
Que pergunta! Arruma as coisas como deve ser…onde quiseres…não te falta espaço. Arruma em locais que saibas quando precisares ou procurares.
Eu não sei arrumar.
Claro que sabes…quem sabe desarrumar, também sabe arrumar.
Por onde começo?
Por onde quiseres.
Ajuda-me mamã…!
Não faltava mais nada! - ri a mãe 
Anda lá…
Não. Arranja-te.
Óh, mamã…
Não há mamã, nem meio mamã… arruma!
       A mãe sai do quarto, e a Filipa olha em volta.
Ai, porque é que eu sou desarrumada? Ou…arrumo, e pouco depois já está tudo uma bagunça…! Mas que seca! Ai…por onde é que eu vou começar?
Começa por mim! - diz a cama 
 ?
Sim, por aqui…pela tua cama. - convida a cama 
Também exiges? 
Exijo para teu bem… - lembra a cama 
Não. É só para me chatear…foi a minha mãe que te encomendou sermão, não foi?
Não. Claro que não. É que…se eu não estiver feita…tu é que pagas, com os ácaros e outras coisas que fazem do colchão a sua casa.
E tu deixas que eles pousem em ti?
Não os vejo sequer, mas sinto a presença deles!
Que chata.
Sim, a presença deles incomoda.
Eu estava a dizer que tu é que és chata.
Muito obrigada….pode ser que esta noite durmas no chão, se não me respeitas! Mal agradecida!
Era mesmo o que ela merecia que fizesses, cama! - apoia a almofada 
Tu também? - resmunga Filipa 
Sacode-me, por favor, e põe-me aqui em cima. - diz a almofada 
Mete-me os lençóis e cobertores aqui deste lado…e daquele…! Isso mesmo! (p.c) Estica-me…não…ali na ponta, sobra lençol. É assim!
Agora põe isto por cima de mim, por favor. Esticado! - diz a almofada l
A colcha…isso mesmo! Não te esqueças dos bonecos. E o pijama naquele dorminhoco. Isso mesmo. - indica a cama 
        Filipa faz tudo o que elas dizem. No fim de arrumar a cama, passa para a secretaria.
Tanto papel! - repara Filipa 
É a vida de estudante. - diz o candeeiro 
Onde vou pôr isto tudo? Não tenho espaço.
Não tens espaço agora, porque parece um depósito de lixo…mas logo que metas tudo o que é trabalhos, nas capas, e nas disciplinas a que pertencem, já vais ter espaço de sobra! Experimenta. - sugere a capa 
        Filipa vê o papel que interessa, coloca nas capas das disciplinas por datas, e por trabalhos, fotocópias, cadernos, folhas em branco e outros.
E estes papéis escritos?
Se não precisas deles, dá-mos…que já estou cheio de fome. - sugere o caixotedo lixo 
Tu comes papéis?
Claro! achas que como o quê?
Lixo, é claro!
Pois claro! E os papéis que não precisas, são o quê? Relíquias?
Não.
Então…vem para mim. Aliás, já deviam ter vindo há muito tempo!
Ainda vai a tempo. Que impaciente. - diz o porta lápis 
Para mim, vem os blocos. - sugere a gaveta 
E para mim, vem as borrachas. - diz a gaveta pequena
     Todos os espaços e mobílias do quarto ajudam a Filipa a arrumar as coisas, nos sítios certos. 
       No armário grande, há umas gavetinhas mais pequenina de sobra, depois de guardar as roupas lavadas as meias, os sapatos, os lençóis, os gorros, as cuecas, outras roupas penduradas, e outras acomodadas nas prateleiras.
Sobram estas gavetinhas, o que vou pôr nelas? Áh, já sei…o diário e estas fotos todas… (vê as fotos) São de quando eu era bebé…e mais actuais…! (p.c) Ai, quem me dera ser outra vez bebé! Os bebés têm uma sorte… não têm que arrumar quartos, nem aturar as mães a ralhar…!
(Ouve-se um espirrinho pequenino, que vem da gavetinha. A jovem assusta-se e vê uma fada a sacudir-se, a tossir e a espirrar)
Ai…brrrrrrrrr…arrepiei-me toda, de espirrar! Esta gaveta está cheia de pó.
Uma fada…? - sorri a Filipa 
Sim, sou uma fada. Finalmente abriste esta gaveta! Eu quase não conseguia entrar aqui
Como é que sabes?
Ora, ora…eu conheço muito bem este espaço.
Nunca te vi por aqui…
Viste sim…tu é que já não te lembras, é normal…mas eu sempre estive aqui! Bem pertinho de ti. - diz a fada 
Onde? E quando…?
Aqui no teu quarto! Primeiro…na cabeceira da tua cama, ou berço como lhe chamam. Depois…na tua almofada…depois…na tua cama…e depois…na tua prateleira…na tua secretária…cada vez mais longe! Até que…quando cresceste…fechaste-me aqui no armário, na gaveta, e esqueceste-me! É normal, eu sei. Mas fiquei muito triste! A minha sorte é que eu voo, e ando sempre por todo o lado…mesmo assim, vinha cá muitas vezes.
E eu não te via?
Não.
Chamavas-me!
Não adiantava…tinhas outros interesses.
Mas agora, tenho outros interesses, e estou a ver-te!
Porque abriste a gaveta e o armário onde tens a tua infância! E é lá que estou desde sempre. Por isso, sempre que abres essas gavetas, com as tuas coisas de bebé, eu apareço e vês-me!
Áh! Que linda que és. - sorri Filipa 
Tu sempre foste uma bebé encantadora, simpática, risonha…éramos inseparáveis. Eu e tu! Vivemos momentos muito felizes, outros mais tristes, brincamos muitas vezes juntas! Éramos muito felizes. 
Sim, lembro-me de ser muito feliz, e acho que tenho uma memória de ti…- recorda Filipa 
É natural! Todos têm! Infelizmente passa a voar. Agora estás uma mulher linda! 
Obrigada.
Estiveste a arrumar o quarto?
Não se nota?
Nota! Está óptimo. - sorri a fada 
Eu não sei arrumar, nem sou organizada.
Eles ajudaram-te. -sorri a fada 
Sim.
A tua mãe vai ficar muito orgulhosa de ti. E as mães bem merecem estes mimos das filhas.
Sim! (sorri) Às vezes enche-me a cabeça, mas eu adoro-a, e tento ajudá-la noutras coisas…eu sei que ela tem razão, mas não entende que não sei arrumar.
Não é preciso saber arrumar, só tens de colocar as coisas nos sítios próprios, como fizeste agora. Enquanto tiveres espaços, vais metendo para lá, o que está solto. Aqui nestas gavetinhas que sobram, por exemplo, podes meter o teu diário, as fotografias…até lhe podes chamar a gaveta dos desejos, e podes pôr aqui todos os teus desejos. Fechas à chave, guardas a chave contigo. Na gavetinha de baixo…podes guardar todos os teus sonhos…os que queres ou querias realizar…os que não passam de sonhos…e que em principio sabes que não se vão realizar…ou que dificilmente se realizarão…os sonhos e desejos pelos quais vais lutar…para ver se consegues realizá-los…todos os que quiseres. Todos temos sonhos e desejos secretos, que gostávamos de poder realizar, mas sabemos que não será possível, porque…somos humanos, e temos limites! Não somos máquinas…as próprias máquinas não fazem tudo! Mas mesmo não sendo possíveis de realizá-los, podemos e devemos escrevê-los e guardá-los, para olhar para eles, sempre que nos sentirmos mais pequeninos, como grãos de areia, neste imenso universo, e planeta! Todos os sonhos e desejos que temos, são pedacinhos do coração que tiramos da escuridão…e são esses pedacinhos que dão sentido à nossa vida, que fazem o nosso coração bater mais forte, porque para ele tanto faz…se os sonhos que de lá saem são realizáveis ou não…ele quer é sentir vida dentro dele…e muitos sonhos e desejos, mesmos não realizados, ficam dentro de nós, fazem-nos viver, sorrir, rir, emocionarmo-nos, vibrarmos…todos fazem parte de nós e são feitos por tudo o que temos!
Áh! Que lindo! - diz Filipa deliciada 
Aqui estão seguros. As fadas protegem-nos.
Não sabia que os sonhos e os desejos são assim tão importantes para nós!
São.
         A Filipa coloca o diário e todos os papéis que tinha numas caixas com desejos e sonhos…uns que ela realizou, outros que não realizou…desejos que sabe que mais não são do que isso, e outros que guardam também a esperança de os realizar qualquer dia! O quarto está como novo.          A mãe entra e olha em volta, com um sorriso de orelha a orelha.
Áh! Mas que lindo! Estás a ver como sabes arrumar? Muito bem! Agora já parece um quarto de uma princesa. - observa a mãe 
      A mãe passa a revista rápido em tudo. As duas conversam mais um pouco.
Anda lanchar agora! Fiz um bolo de chocolate.
Sim, vou só à casa de banho.
Está bem. Aparece lá dentro.
Está bem.
(A Mãe sai, a menina vai ao armário e lá está a fada a sorrir)
Não vás embora, por favor! - pede a Filipa 
Não! Estarei sempre aqui, como sempre estive! Basta abrires o armário…ou as gavetas dos desejos, dos sonhos e da tua infância! Até breve.
É muito bom saber que estás sempre aqui no meu quarto. Gosto muito da tua companhia e da tua presença.
Estou e estarei…e seremos para sempre amigas…como sempre fomos.
Podes ter a certeza que sim! Que bom, voltar a ver-te! Até já.
Até já. (Filipa sai) O tempo passa mesmo a correr. E vocês? Também têm um armário, com gavetas da infância e dos desejos e sonhos…onde vivem fadas e monstros…? Revisitam esse armário? Experimentem…faz bem à saúde, ao coração e traz luz à nossa vida. Se não têm esse armário, ainda estão muito a tempo de o ter. Criem-no! Basta ir às vossas recordações! Nunca fechem a gaveta da vossa infância, independentemente da vossa idade.

FIM
Lálá
(6/Janeiro/2014)


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

pequena história a rimar

OS GATOS, OS RATOS, OS SAPOS E OS PATOS 

Um gato que dormia, junto da lareira, enrolou-se num novelo de lã. Queria soltar-se e não conseguia, porque estava preso, nos nós da lã.

O gato levantou-se, rolou e tropeçou no sapato onde dormia um rato.

O rato gritou, fugiu do sapato, para o ninho de outro gato.

O outro gato prendeu o rato, e atirou-o contra a casota de outro gato que bateu no rato.

O rato fugiu, e escondeu-se na toca de outro rato, que era um velho sapato.

O sapato rompeu, o rato assustou-se, e o outro rato cozeu a sola do sapato, com a lã do novelo que tinha o gato, e com as agulhas que estavam no chão, depois do gato ter tentado livrar-se do novelo de lã.

O gato quis apanhar o rato, mas o rato correu, e levou o velho sapato para o jardim onde havia sapos e patos.

Os sapos coaxavam, os patos cacarejavam, e os ratos apanhavam nozes e bolotas.

Os ratos cozeram a sola do velho sapato, um sapo foi passear, tropeçou no velho sapato que os ratos cozeram, escorregou e caiu no lago dos patos.

Os ratos riram, os gatos troçaram, os patos ralharam com o sapo.

Um sapo foi buscar o outro sapo que caiu no lago dos patos.

Os patos grasnaram, e os ratos fugiram para dentro dos sapatos.

O gato enrolou o novelo da lã, os ratos ficaram dentro dos sapatos, os sapos foram para as suas poças, e os patos ficaram no lago.

Os gatos brincaram com os ratos, que provocaram os gatos, e desafiaram os sapos.

Os sapos coaxaram em coro, enquanto os ratos fugiam dos gatos, que corriam atrás dos ratos, tropeçaram nos sapatos onde viviam os ratos, e caíram ao lago dos patos.

Os patos não gostaram nada da invasão dos gatos, e correram os gatos às bicadas, com os ratos a rir e a fugir para os seus sapatos.

Os sapos riram, os patos grasnaram, os gatos saltaram e os ratos fugiram.

Os ratos desafiaram os gatos a entrar nos sapatos da sua dona.

Os gatos entraram nos sapatos, enroscaram-se nas meias da dona, esburacaram-nas com as unhas, e dormiram uma bela soneca, com os sapos a cantar, e os patos a grasnar com frio no lago.

A dona chegou, sacudiu os gatos que estavam nos sapatos, e gritou…viu que as meias estavam todas rasgadas…pegou na vassoura, e bateu nos sapatos.

Os gatos saíram dos sapatos, enrolados nas meias, a dona pôs a vassoura a trabalhar, e acertou nos gatos, que disseram que foram os ratos que os mandaram dormir nos sapatos.

Os ratos escondem-se nos seus sapatos velhos, e riem baixinho.

A dona toca com a vassoura nos velhos sapatos, onde estão a dormir os ratos.

Os ratos saem dos sapatos, e levam umas belas vassouradas.

Os sapos, os gatos e os patos riem e aplaudem.

No fim: os gatos dançam com os ratos, ao som das canções dos sapos e dos patos.

Depois das danças…os gatos e os ratos vão para os seus sapatos, os sapos abrigam-se do frio e da chuva, nas grutas dos patos.

FIM
Lálá
(6/Janeiro/2014)

domingo, 5 de janeiro de 2014

A borboleta de asa partida

                                                                   foto de Lara Rocha 

        Era uma vez uma menina que foi passear o seu fiel amigo…o felpudo Tó, num dia cheio de sol, e em campos repletos de flores nos arredores da sua casa. A menina inspirava o ar, e fazia lindos colares de margaridas, brancas, e coroas de girassóis, enquanto o cãozinho corria por onde queria, cheirava as flores, esgravatava e ladrava a abanar o rabo feliz.
        De repente, o cão ouviu uma voz pequenina e fraquinha:
- Socorro! Ajudem-me, por favor!
        Vai a correr, e a cheirar, e quando ouve outra vez a voz, a pedir ajuda, vê a borboleta no chão, e gemer.
- Podes comer-me…come se quiseres…tenho uma asa partida! Dói muito, e não consigo voar. – Diz a borboleta
        O cãozinho fica triste, e começa a ganir.
- Então? Não me vais comer? – Pergunta a borboleta muito surpresa, a encolher-se cheia de dores.
        O cãozinho esfrega o focinho na borboleta e lambe-a.
- Óh! Tão querido! – Diz a borboleta a sorrir.
        O cão desata a ladrar para chamar a menina.
- O que foi, Tó? Encontraste alguma coisa? – Pergunta a menina – Deve ter sido um bicho para comeres! Depois não te queixes que estás maldisposto…não tens juízo a comer.
        O cão não para de ladrar.
- Cala-te um bocadinho, Tó! – Pede a menina – Pronto, está bem! Mostra lá o pitéu.
        A menina levanta-se e vai à beira do cão. Olha para o chão.
- Tó! Que coisa mais feia! Vais comer uma borboleta, seu guloso? Ainda por cima tão bonita…na, na, na…escolhe outra coisa…deixa a borboleta em paz! – Ralha a menina.
- Não! Ele não teve culpa. Está só a pedir ajuda por mim! – Diz a borboleta.
- Áh! Ele não te fez mal?
- Não!
- O que é que tens?
- Uma asa partida…quase de certeza! Dói muito, não consigo voar, nem mexê-la, e acho que está toda torta. – Explica a borboleta.
- Óh! Coitadinha! Como é que isso aconteceu?
- Não sei bem…acho que foi uma pedrada de uns rapazes que estavam aqui a brincar.
- Mas…é claro…só podia ser! São os do costume…ai, se eu os apanho!
- Será que me podes ajudar?
- Claro que sim…vou mostrar-te ao meu Avô!
- O teu Avô cola asas de borboletas?
- Cola ossos, por isso também deve colar asas!
- Cola ossos?
- Sim…ele é…ortopés…orto…joelhos…orto…costas…orto braços…orto…mãos e orto mais qualquer coisa das pessoas.
- Orto…pés…? O que é isso?
- São aqueles doutores que concertam os pés, as pernas, os braços, e outros ossos das pessoas.
- Áh! Ortopedista, queres tu dizer…?
- É. Deve ser isso mesmo…vou levar-te lá! de certeza que ele vai conseguir fazer alguma coisa, por ti!
- Está bem!
        A menina pega na borboleta com cuidado e leva-a para casa. Ela chora de dores na asa.
- Deve doer mesmo muito, borboleta! – Observa a menina
- Sim, muito mesmo.
- Não te preocupes…isso vai já passar! Bem-vinda à minha casa! (grita) Avô!
        O Avô estremece.
- Que susto, filha! Diz…
- Desculpa! Não sabia que estavas ocupado.
- Não faz mal…diz lá!
- Olha…encontramos uma borboleta no campo, que diz que tem uma asa partida…dói-lhe muito, e não consegue voar…diz que levou uma pedrada duns atrevidos…
- Áh! Coitadinha…Vamos lá ver isso então! Que linda borboleta!
- Foi o Tó que a encontrou.
        O Avô analisa com cuidado e carinho, ela treme toda, e chora de dores. O cão está sensível e gane encolhido, juntamente com ela, sempre que ela geme.
- Também estás com dores, Tó? – Pergunta o Avô a sorrir.
        O cão ladra.
- (a rir) Sim, estás solidário com a tua amiga, eu sei! Já percebi! – Diz o Avô.
        O cão deita a língua de fora, e lambe a borboleta a abanar o rabo.
- Vá…deixa a tua amiga…ela vai ficar boa…chega-te para lá…deixa-me trabalhar, se não…não posso ajudá-la.
        O cão ladra, a menina sorri, orgulhosa.
- Este cão é o máximo, não é, Avô?
- Sim, é um bicho bom…sensível e muito meigo.
        O cão lambe a menina, e ela acaricia-o, abraça-o, ele deita-se no chão para receber mais mimos, e a menina esfrega-lhe a barriga, ele deita a língua de fora, feliz.  
 Tira-lhe uma pequena radiografia.
- Sim, pois é…tem mesmo a asinha partida!
        O cão levanta-se triste e nervoso.
- Para…Tó. Fica aqui. – Ordena a menina
- Calma, Tó…não é nada grave! – Diz o Avô.
        Tó senta-se, e fica muito atento.
- Será que consegues concertá-la, Avô?
- Sim, consigo, claro que sim! Vamos lá tratar disto.
        O Avô põe uma pomada na asa, uma camada de parafina, uma camada de gesso e uma ligadura.
- Pronto…já está! Vais ter de ficar assim um tempo!
- Não faz mal…! Eu queria…era não ter dores! – Diz a borboleta.
- Boa! Avô…és o máximo…adoro-te! (O Avô sorri deliciado) Vou arranjar uma gaiola para a deitar.
- Isso mesmo! – Diz o Avô.
- Não te importas pois não, borboleta? – Pergunta a menina
- Não! Claro que não. – Responde a borboleta.
- Não te esqueças de lhe dar de comer e de beber…
- Sim! E de a cuidar com carinho e atenção!
- Isso mesmo.
- Eu sei, Avô! Muito obrigada.
        Beija a abraça o Avô. O cão roça-se nele, e lambe-o, o Avô acaricia-o. A menina pega na borboleta e pousa-a na gaiola que era de um grilo. Dá-lhe de comer, de beber, fala com ela, faz-lhe festinhas, prepara-lhe uma cama confortável, e a borboleta fica lá com a menina até ficar boa. As duas tornam-se grandes amigas. Passado um tempo, o Avô tira o gesso à borboleta.
- Já estás óptima, querida! A tua asa já está nova. Já podes voltar a voar à vontade! – Diz o Avô.
- (feliz) Boa! Muito obrigada!
- (feliz) De nada! Qualquer coisa podes vir cá, está bem?
- (sorri) Está bem!
- Agora, deves devolver a tua amiga à sua liberdade! – Diz o Avô.
- Óh! (triste) Isso quer dizer que…vais embora?
- Sim! – Diz a borboleta.
        O cãozinho também fica triste.
- Óh filha, a borboleta quer andar livre, lá fora…é uma maldade prendê-la! – Diz o Avô.
- Óh! Mas eu estava a gostar tanto dela, que queria ficar com ela!
        O cãozinho gane, triste.
- Pois é, Tó…eu sei! Até tu, não é…? – Diz a menina.
- Eu venho ver-te mais vezes, prometo! E a ti, também, Tó…! – Diz a borboleta.
        O cãozinho abana o rabo feliz, ladra, e lambe a borboleta. A borboleta ri-se.
- Prometes?
- Prometo. Nunca te viraria as costas depois de tudo o que fizeste por mim! Vou agradecer-te para sempre! – Diz a borboleta.
- Tens mesmo de voltar para a tua casa?
- Sim…mas volto a ver-te muito em breve.
- Vá lá, filha…não sejas possessiva! Deixa a bichinha voar, e viver livre! Podes continuar a gostar dela, e ela de ti, e podem encontrar-se mais vezes!
- Claro que sim. – Garante a borboleta.
- Óóóhhh…! (chora)
- Óh! Não quero lágrimas…quero ver o sol do teu sorriso lindo, como aquele que está lá fora. Eu não fugir, nem para longe…podemos passear sempre juntas. – Pede a borboleta
- A sério? (pergunta a menina a sorrir)
- Claro que sim! Eu vivo ali fora…somos vizinhas!
- (sorri) Que bom! Bem…então se é assim…vai!
- Anda comigo!
- Está bem.
- Até à próxima, Sr. Dr.
- Até à próxima, linda borboleta! Volta sempre, mas para nos visitar…com que seja porque te magoaste.
- Também acho…! (ri)
        As duas saem. A borboleta feliz porque já consegue voar, e já não tem a asa partida, mas a menina…está feliz por a sua amiga já estar bem, mas com pena de ficar sem a borboleta. Tó vai atrás. As duas passeiam, numa conversa muito animada, brincam juntas, e constroem uma linda amizade.

FIM
Lálá
(31/Dezembro/2013)