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sexta-feira, 14 de março de 2025

O menino com estrelas nos olhos

 

 boneco e fotografia de Lara Rocha 

    Era uma vez um menino não muito rico, que vivia com a sua família numa pequena casa, parecia frágil e desfazer-se a qualquer momento, num descampado de uma grande cidade, onde existiam mais casas, de pessoas a viver com dificuldades. 

    Na verdade, não tinham tantas coisas materiais como as crianças de agora, nem tecnologia, fugiam da Guerra, e da pobreza dos seus países. 

    Os pais trabalhavam, mas não faltava comida, higiene, livros, brinquedos, brincadeiras com os vizinhos, amigos e familiares ao ar livre, e nas casas uns dos outros. 

    Tinham muito amor, carinho, atenção, dedicação, diálogo, entre os pais e as crianças, interação e alegria, muitas gargalhadas, mesmo que às vezes não estivessem muitas horas com os filhos. 

    Quando estavam, estavam, inteiros, só para os filhos, com  carinho, amor, atenção, brincavam com eles, eles ajudavam os pais como podiam e sabiam nas tarefas, e os pais valorizavam, elogiavam, mesmo que não estivesse perfeito. 

    Eles próprios produziam muita da sua comida numa pequena horta, e partilhavam o que uns tinham e outros não, ou quando precisavam. 

    Não faltava roupa, bem tratada, limpa, passada a ferro, nem camas onde dormir, tinham cozinha, sala, casa de banho, sótão. 

    Eram crianças educadas, os pais estavam sempre preocupados em saber como iam na escola, falavam com os professores, pediam para ajudar os meninos, e era isso que faziam. 

    Crianças muito bondosas, como os pais. Cada um rezava várias vezes para agradecer tudo o que tinham, só pediam que continuassem juntos, com saúde, com comida, felizes, com comida, água, casa, cama, roupa, e o amor e carinho dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos vizinhos e outros familiares. 

    Eram crianças e adultos com estrelas nos olhos, que faziam confusão aos coleguinhas da cidade, com mais bens materiais do que eles. 

    Não percebiam como é que não tendo o que eles tinham, nada, ou quase nada como achavam que era, conseguiam sorrir, rir, estar interessados nas aulas, ser bons alunos. 

    Um dia, um menino perguntou a esse coleguinha: 

- Desculpa, posso fazer-te uma pergunta? 

- Sim, claro! Faz…!

- Onde vives? 

- Já sabes onde vivo, é naquele descampado aqui da cidade, com mais pessoas, umas da minha cor, da minha raça, outras de outros lugares, e damo-nos todos bem! Mas não é só essa a pergunta, pois não? 

- Ahhh...bem...não quero ser demasiado aborrecido, mas...como é que vocês vivem? Não têm o mesmo que nós, pois não? 

- Temos muitas coisas que vocês têm! Uma casa, uma cama, pais, irmãos, primos, tios, água, comida, roupa, não nos falta atenção, amor, carinho, dedicação, conversa com os nossos pais e com os outros, brincadeiras. Não passamos frio, nem necessidades. 

- Mas vocês não têm telemóveis, nem mochilas de marca, nem roupa como a nossa, nem sapatos como os nossos, nem computadores. 

- Mas temos isso tudo, para que é preciso marca? Ou telemóveis e computadores? 

- Nós não vivemos sem isso! 

- Pois, já reparei, mas os professores deixam-nos fazer os trabalhos à mão, eu gosto. 

- Vocês não brincam? 

- Brincamos, e muito! 

- Com quê? 

- A muita coisa, ao que nos apetece, e ao que nos faz felizes. Temos brinquedos, brincamos ao ar livre, uns com os outros, e nas casas uns dos outros, temos livros, lemos muito. E tu, brincas? 

- Sim, quer dizer...com brinquedos não, brincamos com os telemóveis, jogos eletrónicos, já somos crescidos para brincar como tu. 

- Que asneira! Vocês não são felizes, pois não? 

- Somos...

- Sois? Não parece nada. Duvido que ao brincarem com essas coisas, sejam felizes, como nós. 

    O menino fica pensativo. 

- É a marca das roupas, lá essas coisas eletrónicas que vos fazem felizes?

- Sim...- diz o menino triste 

- Porque ficaste triste? 

- Porque...acho que na verdade não temos tudo o que tu tens para ser feliz. 

- O que vos falta? 

- Falta-nos...o estarmos mais tempo com os nossos pais, que trabalham muito, e ao fim do dia, estão cansados, querem descansar, deixam-nos com os telemóveis, jogos e trabalhos de casa, mas não têm tempo para brincar connosco, até porque já somos crescidos para isso, como eles dizem. 

- Os meus pais, e os nossos pais também trabalham, nem sempre estão muitas horas connosco, mas quando estão, fazem-nos felizes, dão-nos amor, carinho, atenção, falam connosco. 

- Pois, os nossos pais não têm tempo para isso, levam trabalho de casa e tudo. 

- Para quê? 

- Para nos darem tudo o que precisamos! 

- E isso deixa-vos feliz? 

- Acho que...agora que estou a falar contigo...acho que não! 

- Claro que não podem ser felizes! De que adianta ter tudo, material, do bom e do melhor, se os pais se sacrificam tanto para vos dar o que precisam, mas não dão o que precisam realmente, e o que vos faz verdadeiramente felizes? 

- Pois é! Tens razão. 

- Um dia destes, vais à minha casa, ver como somos felizes, sem essas vossas coisas. Está bem? 

- Está bem. Obrigada, desculpa se fiz alguma pergunta que não devia. 

- Não faz mal. 

    Os dois combinam uma visita ao descampado onde vive o menino com estrelas nos olhos. Ficou muito surpreso, por ser tão bem recebido, e por perceber que todos eram tão felizes com tão pouco, como ele achava. 

    Brincaram, riram, o menino apresentou o amigo a toda a gente, todos o receberam com carinho e sorrisos, ele visitou várias casas, que realmente não tinham muito luxo, como as deles, mas tinham o essencial e eram confortáveis, acolhedoras. 

    Os pais dos meninos foram todos muito simpáticos, acolheram-no como se ele fosse da família, divertiram-se à grande, ele brincou com brinquedos como já não fazia há muito tempo, e adorou, sentiu-se feliz, riu muito, com todos. 

    Percebeu que o menino tinha razão, que tinham tudo! E eram felizes, muito mais do que ele e os outros meninos que viviam em casas com eletrónicas, que tinham computadores, jogos eletrónicos, roupas e sapatos de marca. 

    Mas realmente, a relação entre todos não se comparava com a deles. Sentiu-se feliz, como nunca antes se tinha sentido. 

    Não lhe faltou carinho, bem brinquedos e muita gargalhada, amizade, e até lanches recheados. Decidiu que ia dizer aos seus pais, que sentia falta do amor, do carinho, da presença, da atenção deles, mesmo que não fosse muito tempo, e que queria voltar a brincar com brinquedos. 

    Aprendeu muito com este amiguinho, e antes de ir para casa, agradeceu, dizendo-lhe: 

- Muito obrigado, amigo. Por me ensinares o que é a verdadeira felicidade, que esta está na simplicidade, no amor, na amizade, no carinho, na presença, no ter o suficiente. 

- De nada! Anda mais vezes, serás sempre muito bem recebido e muito bem vindo. Aqui foste feliz, não foste? - diz o menino a sorrir 

- Sim, fui! Muito feliz. Obrigado por me ensinares e mostrares o que é a felicidade. Agora é que percebi porque é que tens estrelas nos olhos, tu, e os teus! Todos os que aqui estão. 

- Sim! De que achas que é? 

- É de felicidade! E ela está em coisas que eu nunca imaginei. 

- Pois é! - sorri o menino - volta sempre! Hoje também tens estrelas nos teus olhos. 

- São de felicidade! - sorriem os dois, e trocam um abraço - Muito obrigado por tudo! Voltarei, sim.

- Até amanhã! 

- Até amanhã! 

    E o menino vai para casa, feliz, conta aos pais, que se sensibilizaram, quiseram falar com os pais do amiguinho, para saber como conseguiam, aprenderam, e fizeram como eles, tornando o menino tão feliz como o amiguinho. 

    Levaram-no para casa, brincaram juntos, e com os outros amigos, riram muito, os pais arranjaram tempo para estar com o filho.  

    Só para ele, como faziam os pais do outro menino, deixaram de se preocupar tanto com o trabalho, e aprenderam com aquela comunidade o que era a felicidade, onde estava, a ficar com estrelas nos olhos como eles. 

    Tornaram-se quase uma família, e sempre que havia coisas que os filhos já não queriam, ou não vestiam nem calçavam, davam ao menino da comunidade e aos outros familiares, amigos, pais, primos, vizinhos.

    Aprenderam a partilhar, e recebiam outras coisas em troca. Quando isso acontecia, ficavam com estrelas nos olhos porque seria? 

Podem deixar os vossos comentários, se quiserem. 

                                                                                      Fim  

                     Lara Rocha 

                                                                             13/Março/2025 



     


sábado, 15 de fevereiro de 2025

À procura da neve











desenhado e pintado por Lara Rocha - A montanha Alpina 

    Era uma vez uma montanha Alpina com muita neve o ano todo, e lagos gelados, com partes congeladas, outras onde havia água e alimento. 

    Lá viviam muitos ursos e lobos. Além da neve numa parte da montanha, na outra metade era verde, com cabras que pastavam penduradas em rochas, e gado nos campos. 

    Ficava muito perto da povoação, com habitantes que não se atreviam a subir à casa dos ursos, como lhes chamavam. A neve chegava para todos e água de riachos com fartura, peixes que deliciavam os ursos de várias espécies, e o sol também marcava a sua presença mas não derretia a neve. 

    Quando isso acontecia, os habitantes da povoação deliciavam-se com a paisagem porque tudo brilhava, nos campos e à volta das casas, com as gotinhas de água nas flores e na relva, mas o mais especial era mesmo ver as montanhas pintadas de branco. 

    Os ursos e animais do gelo, que partilhavam o mesmo espaço sentiam-se felizes, e em paz, conviviam bem uns com os outros. 

    Riam, brincavam, mergulhavam, caçavam, repartiam os alimentos, e deleitavam-se com tanta neve, onde se deitavam, e dormiam em tocas, ou grutas com neve por cima. 

    De repente, aconteceu uma coisa muito estranha e quase terrível, com que ninguém contava: os incêndios nos montes, nas cidades mais próximas. 

    Os lobos e os cães das casas começaram a uivar como se não houvesse amanhã, um uivo de pânico terror, angústia, na noite em que começaram os incêndios. 

    Era um uivo arrepiante, as pessoas ficaram preocupadas, mas parecia tudo calmo. Os lobos e os cães pareciam pressentir ou anunciar alguma coisa. 

    Quase não conseguiram dormir com os uivos e o ladrar, e de manhã, perceberam o porquê dessa sinfonia! Uma poluição atmosférica que causava aflição, porque deixava o céu escuro, o sol vermelho, e onde ardia igualmente vermelho. 

    Que visão infernal. Os habitantes da povoação sabiam o que era, estavam inquietos, preocupados, com medo, porque o vento podia levar as chamas para a sua zona. 

    Sentiam dificuldade em respirar, tossiam, e tiveram de recolher o gado para não ficarem expostos ao fumo. A temperatura do ar subiu horrivelmente, um calor a que ninguém estava habituado. 

    Apanharam o máximo de alimento e água, não sabiam quanto tempo ia durar. Nessa manhã, os ursos viram que alguma mudança estava a acontecer, sentiram a agitação, um calor que se podia, e nunca tinham enfrentado, viram o fumo preto e o céu vermelho. 

    Ficaram nervosos e com medo, mesmo assim, tentaram disfarçar e fazer o seu dia normal. Pensaram que o que quer que fosse não chegava lá. 

    Os incêndios eram cada vez mais, de maiores dimensões, a poluição piorava, o ar era irrespirável, a neve começou a derreter, e estavam com dificuldade em aguentar aquela temperatura, aquele ar. 

    O gado não saía, as pessoas também quase não porque não aguentavam. Estavam todos muito preocupados. Como a neve estava a derreter, os ursos, cheios de pena e muito furiosos, tiveram de deixar aquele local, e deslocar-se sem rumo, tristes, a chorar, para onde houvesse mais neve, e mais fresco. 

    Andaram vários quilómetros, e encontraram! Que alívio! Fizeram uma festa, tinham neve com fartura, o ar gelado limpou-lhes a poluição, e sorriam, inspiraram e expiraram, rebolaram na neve, mergulharam, caçaram e guardaram alimento nas tocas provisórias. 

    Pelo menos esse era o desejo deles: que em breve pudessem voltar àquele sítio onde viviam. Estavam muito sossegados, poucos dias depois, os incêndios e a poluição continuavam, as temperaturas muito altas também, e chegou ao lugar onde eles estavam. 

    Aterrorizados, perceberam que a neve também tinha desaparecido, e os glaciares estavam a estalar, largando pedaços de gelo, a partir e a derreter aos bocados. 

    Choraram, e furiosos voltam ao sítio onde viviam antes, na esperança de encontrar neve. Quando chegaram, nem queriam acreditar...os incêndios tinham chegado lá, queimaram pastagens, os verdes estavam agora negros e tinham virado cinzas, pó. 

    O gado estava recolhido, a terra ainda fumegava, e a população chorava. Não havia sombra de neve, só calor e cinza. 

    Os ursos ficaram completamente fora de si, gritaram furiosos, mergulharam na água que também tinha diminuído. Felizmente ainda dava para se refrescarem e caçarem para comer. 

    Mas eles queriam neve. Na água, acalmaram e partilharam a preocupação, baixinho, desviados dos ursinhos pequenos para não os assustar. 

- O que está a acontecer? - pergunta um urso

- Não sei! Mas alguma coisa grave, foi. Isto nunca esteve assim. - responde outro 

- Pois não. - concordam todos 

- A população também está assustada e nervosa...Aquele céu metia medo, e este calor, não é normal! - comenta outro urso 

- Não, mesmo! - concordam todos 

- A neve que encontramos mais à frente e o fresco também desapareceram num instante…

- Pois! Até lá estava calor. 

- E agora, aqui...assim! 

- Por este andar não sei onde teremos neve. 

- Teremos de procurar! 

- Ela há-de voltar...espero eu. 

- Também eu! - concordam todos 

- Até esta água está quente…- repara outro 

- Pois está. 

- Que horror. 

- Nestas alturas, gostava de me transformar em humano para lhes perguntar o que está a acontecer. 

- Eu também! - dizem todos

    Passados uns dias, chove torrencialmente, e ajudou a apagar os incêndios, limpou  a poluição, e as terras, o ar ficou bem mais fresco, mas não houve neve. 

    Os ursos voltaram ao sítio para onde fugiram...estava tudo na mesma. 

- Que tristeza! - lamentam e murmuram todos 

    Regressam a casa: 

- Está bem melhor! - diz um urso 

- Realmente! Oxalá traga neve! 

- Vamos fazer uma corrente, dar as mãos e pedir neve? - sugere um urso 

- Boa! - concordam todos 

    Ninguém sabia se ia funcionar, mas tentaram. Os seus antepassados diziam para fazerem isso, e pedirem o que precisassem, ou em momentos de aflição. 

    Chamaram pelos pequenitos, e todos deram as patas. Os adultos explicaram às crias o que iam fazer. Elas compreenderam, e todos pediram em silêncio, num grande círculo, à volta do lago, que a neve regressasse. 

    A chuva torrencial, o vento e o frio continuavam muito intensos depois de pedirem juntos, recolhem às suas tocas. O seu pedido foi ouvido e realizado. Nessa noite nevou, uma boa camada. 

    De manhã acordaram e ficaram muito surpresos, 

- A neve voltou! - grita o urso que sugeriu fazerem a corrente, sorridente

    Batem palmas, riem, soltam exclamações de felicidade, abraçam-se, atiram-se para a neve, ás gargalhadas, rebolam, mergulham na água gelada, congelada de um lado, caçaram, comeram, brincaram uns com os outros, saltitaram. 

    E agradeceram, não sabiam a quem, mas sabiam que existia alguém Superior, que os ajudava sempre que precisavam ou quando pedissem. 

    A neve continuou a cair durante o dia, e a amontoar, o gelo do lago aumentou, do outro lado, a água continuava a correr para se alimentarem. 

    Passou uma alcateia de lobos e um urso perguntou: 

- Óh...lobos, desculpem...podem-nos dizer o que aconteceu há dias? A neve derreteu… 

    Um lobo respondeu: 

- Claro. Houve muitos incêndios, muita poluição, muito calor, muito fumo, temperaturas nunca antes sentidas, de abafar, foi isso que fez derreter a neve, aqui - explica um lobo 

- Aquele sol vermelho e céu cinzento que de certeza também viram. - Acrescenta outro lobo 

- Sim! - respondem os ursos 

- Nós tivemos de ir para outro sítio, a uns quilómetros daqui, à procura da neve, encontramos, mas essa coisa terrível também chegou lá, derreteu a neve, o gelo estava a estalar por todo o lado, e a partir, um calor que não se podia. Voltamos para aqui. A visão não foi a melhor, mas felizmente choveu e agora nevou! 

- Pois é! - dizem os lobos 

- Os humanos disseram que foram as alterações cli...cli....climáticas, ou climatéri...qualquer coisa assim. Pelos vistos, já aconteceu mais vezes. Dizem que está a dar cabo deles e de nós, da Natureza e vai continuar a acontecer. - acrescenta outro lobo 

- Ficaram praticamente sem comida para os bichos, agora! - comenta outro lobo 

- Armazenaram enquanto tinham, até o fogo chegar aqui...mas não nascerá comida tão cedo! 

- Que horror! - dizem os ursos 

- Foi mesmo. Nós sentimos muito medo, quando começaram lá em baixo, muito antes de chegar aqui. 

- Foi quando uivaram muito, não foi? 

- Sim! Nós e os cães das casas, estávamos a avisar, e com muito medo, pressentimos que podiam estar em perigo! 

- Estão muito tristes e preocupados! - diz um lobo 

- Claro! Imaginamos que sim. Nós também tivemos medo que não houvesse mais neve! 

- E nós tivemos medos de tudo! Do fogo, do calor, de poder faltar comida...foi horrível - partilha outro lobo. 

    Os lobos e os ursos conversam mais um bocado, agora mais descansados. Os ursos agradecem a explicação e os lobos seguem caminho. Vão dar uma volta. No regresso um urso diz-lhes: 

- Se precisarem de alguma coisa, estamos aqui! 

- Obrigado! Nós também. - responde o lobo. 

- Foi muito bom termos conversado e partilhado os nossos medos. - acrescenta outro lobo 

- Claro que sim, nós também os sentimos. - diz um urso 

- Pois. - diz outro lobo 

    Como eram amigos, às vezes juntavam-se para passear, conversar, e conviver. Quando precisavam, estavam uns para os outros. 

    Sentiram pena dos animais e das pessoas da povoação, que pensaram eles, devem ter sentido ainda mais medo do que eles, e queriam ajudar. 

    Reuniram-se com os lobos, estes acharam uma ótima ideia, e partilharam o sentimento de pena. Também queriam ajudar. Pensaram em conjunto, como e se podiam ajudar as pessoas da povoação, e tiveram uma ideia. 

    Cada urso e cada lobo carregou fardos de palha, erva seca, erva suculenta, flores silvestres, e outras coisas coisas do chão, por onde passaram, que sabiam que os outros animais comiam. 

    Várias vezes no mesmo dia, deixando á porta de cada pessoa da povoação para os animais. Os ursos levavam pedaços de gelo que estavam a boiar, em sacos que usavam para os manter congelados, puseram nas pias dos animais, derreteram rapidamente e transformaram - se em água. 

    As pessoas da povoação fechavam-se em casa, com medos dos ursos e dos lobos. Mas nem queriam acreditar no que estavam a ver. 

    Em vez de os correr, os ursos e os lobos receberam mimos, alimento extra, e agradecimento: 

- São a nossa salvação e dos nossos animais também. Gratidão gigante, a vocês bichos maravilhosos! - diz uma senhora 

- Nunca vi animais assim, a ajudar-nos e a trazer-nos alimento, bebida. - comenta outra muito surpresa 

- Que coisa fantástica! - suspira um senhor 

- São sempre muito bem vindos. - diz uma senhora comovida 

    Os lobos e os ursos retribuem os mimos com encostos, lambidelas, abraços com as patas á volta dos humanos, e estes riem, deliciados. 

- A terra está a gritar e a avisar que está doente, mas há gente que não a ouve, a ambição e o dinheiro, ou a maldade, não as deixa ouvir a dor da Terra. - lamenta um senhor 

- Ficamos praticamente sem nada para comer, só ração, e não lhes faz tão bem, e esta água...que pura! - diz outra senhora.

- Vivemos um terror! - acrescenta um senhor 

- E vocês tiveram de fugir, não? - pergunta outro senhor 

    Os animais respondem á maneira deles, as pessoas percebem. Durante vários dias, e sempre que os ursos e os lobos percebiam que os outros estavam a ficar sem comida, ou água, faziam caminhadas, com comida e gelo. 

    A população parecia que via seres mágicos, ou encantados, e fartava-se de os mimar, agradecer, retribuir. A neve continuava a cair, lobos, ursos, humanos e animais das casas, tornaram-se numa grande família. Todos ajudavam e as pessoas retribuíam.  

     Ajudar, agradecer, retribuir.  

                                                        Fim 

                                                   Lara Rocha 

                                              15/Fevereiro/2025 


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

A rolinha que tinha medo das alturas

      

Foto tirada por Lara Rocha 


   Era uma vez uma rolinha pequenina que andava em terra, não subia às árvores como as outras. Ficava mais no seu ninho. Olhava para as outras que voavam livremente, de forma tão rápida e tão à vontade que ela ficava muito surpresa. 

   Pensava para consigo mesma: 

- Como é que elas conseguem subir tanto, tão à vontade, tão leves, e descem. Será que só eu é que não consigo? Porquê?! 

   As outras rolas ignoravam-na, deixavam estar no chão, gozavam com ela, riam dela, e não percebiam porque é que ela não voava. Os pais da rolinha não admitiam que as outras a gozassem ou rissem dela, e ralhavam-lhes. 

  Elas fugiam rapidamente, os pais da rolinha diziam aos pais das outras que as filhas não tinham nada que gozar com a deles, porque também já foram daquele tamanho, e não voavam, nem por isso foram gozadas.

   Os pais das outras compreendiam, concordaram, diziam que tinham razão, pediam desculpa, e proibiam as filhas de gozar a pequena. Mesmo assim, elas não resistiam e riam-se, já se tinham esquecido. 

   Só de olhar para os ramos altos onde as outras pousavam, a rolinha encolhia-se toda, estremecia da cabeça até às patas e parecia que ficava com frio. Sacudia-se. 

   A rolinha não dizia nada, não respondia às outras, mas ficava triste. Um dia, a mãe disse: 

- Anda cá para cima, filha! Já consegues voar como nós, de certeza! 

- Áhhh…não! Tenho medo. 

- Tens medo? De quê, se nós fomos feitos para voar e andar em terra? Aqui não tem nada de assustador, e voar é muito bom! Tu é que nunca experimentaste, mas está na altura. 

- Anda ver que bonita que é a vista daqui! - diz o pai

- Como é que eu vou para aí ? - pergunta a rolinha a tremer

- Ora...a mãe acabou de dizer! A voar, é claro. Como nós fazemos. Já não és nenhuma bebé. 

- Tenho medo! - diz a rolinha envergonhada 

- Anda! Deixa-te de coisas. Voa...abre as asas e voa. - diz a mãe 

- Óhhh...venham-me buscar. Eu não sei fazer isso. - suplica a rolinha 

   Uma rolinha mais crescida que nunca a tinha gozado, pousa à beira dela no solo, e diz-lhe: 

- Eu sei que tens medo de voar para ali, e mais alto, eu também tive medo, a primeira vez, como tu, não percebia como é que as outras conseguiam voar tão rápido, tão alto, tão à vontade! Eu, daqui de baixo, a olhar lá para cima, onde estão os meus pais naqueles ramos, e os teus ali, até me encolhia toda, tremia da cabeça até às patas. Depois, ganhei coragem, porque queria ver luzes e sítios diferentes, passear pela cidade, ver outras coisas, pousar em varandas e janelas, telhados altos, ver o que há na cidade, de cima, e é maravilhoso! 

  A rolinha sorri timidamente, meia desconfiada: 

- A sério que sentiste medo? 

- A sério! Os nossos pais também sentiram, mas nem sempre nos dizem, para nos encorajar. Nós temos asas, podemos andar no solo, ou voar. Anda comigo! Quando experimentares, não vais querer outra coisa! Quero ajudar-te. Posso? 

- Como é que me vais ajudar? Eu tenho medo! 

- Não precisas de ter medo, nem há razão para isso! Abre as asas, e segue-me. Estás em segurança, tenho a certeza, prometo! Qualquer coisa, eu estou contigo. 

  A rolinha abre as asas cheia de medo. 

- Podes parar de tremer se faz favor? A tremer não consegues voar. 

- Como é que eu faço isso? 

- É só lembrares-te que tens asas, e podes ir onde quiseres, com elas! As tuas asas fazem parte de ti, são seguras, podes confiar nelas, estão cobertas com as penas, e tens a cauda que te ajuda. Podes pousar quando te apetecer, ou quando vires comida no chão. Elas são feitas para te ajudar. Anda! 

- De certeza? 

- Sim! As outras, e os nossos pais também as têm! E sempre souberam disso! Mas no inicio, é claro que sentiram medo, só que não ficaram com medo, percebiam que podiam confiar nas asas e que são seguras. Anda! Eu estou aqui. Um...dois...três…

 A rolinha amiga, põe as asas na amiga, como se estivesse a pegar nela ao colo. 

- Primeiro, vamos abraçadas, mas daqui a bocadinho quero que vás sem mim, está bem? 

- Ahhh...não sei se consigo! 

- É claro que consegues. Tenho a certeza! Eu confio e acredito em ti. Vamos...confia em mim também! 

- Ahhhh...está bem!

- Boa! Primeiro saltita ao mesmo tempo que eu...um...dois...três…

   A rolinha amiga segura-a, e levanta voo com ela, um voo pequenino, do solo, para o primeiro raminho da árvore, quase pegado ao tronco, baixinho. A rolinha voa, mas a gritar. Pousam no ramo. 

- Não precisas de gritar! Estás em segurança, e eu estou aqui! Agora vais tu sozinha, e eu fico aqui. Vai. Um...dois...três… 

 A rolinha abre as asas e grita outra vez, mas conseguiu dar esse saltinho do tronco para o chão. 

- Boa! Estás a ver como conseguiste? (a rolinha amiga, ri e aplaude) Isso mesmo! Agora, anda para aqui, a voar e sem gritar. Voa, só. O gritar não é preciso. 

 A rolinha faz o que a amiga diz, e consegue sem gritar. Aplaude, e convida-a a libertar-se mais. As duas fazem voos juntas. Primeiro, pequeninos, com saltinhos e voos para o chão, os pais aplaudem, riem orgulhosos. 

 Depois, vão subindo para raminhos mais altos, juntas e em separado, a rolinha percebe que a amiga tinha razão, e ganha confiança nela própria, com a amiga sempre a apoiar, a acompanhar o voo, e a incentivar.

 A rolinha está tão feliz, que vai subindo ramo a ramo, a apreciar a paisagem de cada ponto, onde para, até aos ramos onde estão os pais. 

 A rolinha percebeu que realmente voar era muito bom e conseguia fazer o que todas fazem; além de poder confiar nas suas asas. Adorou tudo o que viu, e passado algum tempo já seguia os adultos, as outras, e a amiga para onde iam, sem medo. 

 Os pais agradeceram à amiga, e sentiram orgulho nas duas que se tornaram inseparáveis, davam passeios animados e leves pela cidade, viam coisas bonitas, aplaudiam, cantavam, pousavam no chão e nas árvores, nas janelas, nos telhados altos, iam com os pais. 

  E foi assi  que a rolinha aprendeu a voar, sem medo, com o apoio  e a compreensão da amiga que também sentiu medo no início, mas aprendeu a confiar nas asas, começou com voos pequeninos, e foi subindo aos bocadinhos para ramos mais altos. 

  O medo, para nós também é assim, vamos perdendo um de cada vez, tentando, treinando, com incentivo, ainda melhor, aplausos, confiança de outros em nós, e nós mesmos, com vontade de descobrir, amizade e respeito. 

 A primeira vez, todos sentimos medo, do desconhecido, existem medos que é bom sentirmos, outros, existem, sem querermos, ou sem percebermos como, porque os sentimos. 

  Podemos aprender a lidar com eles, ou a não alimentá-los, se não fazem sentido, e quando percebemos que são exagerados. Mas todos merecem respeito, não devem ser gozados por outros porque cada um de nós, tem os seus medos, e todos os sentimos. 

                                              FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      9/Fevereiro/2025 

        

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

Tudo fechado

    Era uma vez uma aldeia numa montanha muito alta, congelada, cheia de neve, onde se sentia um vento cortante, e os dias pareciam ainda mais pequenos do que são, no Inverno. 

     As pessoas que lá viviam eram tão frias umas com as outras que pareciam não saber sorrir, não viam nada de bonito, mas as estrelas quiseram fazer uma surpresa para ver se essas pessoas saiam daquele gelo. 

  Num dia de sol, quando todos estavam no seu trabalho e em casa, começaram a atirar garrafas de água com arco-íris a girar, rodopiar, fazer redemoinhos. 

    Deixaram uma garrafa à porta de cada um, e espalhadas pelo chão. Outras garrafas tinham plantas com gotinhas de água que brilhavam como diamantes ao sol. 

    Em algumas garrafas havia flores pequeninas, muito mimosas, de muitas cores. Numas garrafas estavam pequeninas luzes, de muitas cores a piscar, noutras lindas borboletas gigantes, de tamanhos variados e cores. 

   Noutras garrafas estavam guardadas palavras bonitas, noutras estrelas, noutras, raios de luz de todas as cores, e noutra, brilhantes. Todas teriam de ser abertas, e tudo o que estava em cada uma delas, queria sair. 

    Quando regressou o primeiro habitante viu as garrafas espalhadas,  muito surpreso, começou a ver o que tinha em cada uma delas. Ficou maravilhado, nunca tinha visto tanta coisa nova e bonita. 

- Quem pôs isto aqui? Que coisas tão bonitas…! - diz com um sorriso aberto 

    Ainda ficou mais surpreso, quando viu na sua porta uma garrafa, com um bilhete: «Abre a garrafa, ou as garrafas, que tocarem mais o teu coração, e que te tenham feito sorrir». 

- Mas… 

    Volta a olhar para todas as garrafas, e a que tinha as florinhas pequeninas mimosinhas, foi a que tocou o coração dele, e fez abrir um sorriso luminoso. 

  Abriu a garrafa e as florinhas saltam felizes da garrafa para o chão, dançam e dão risadinhas. 

- Obrigada! - dizem todos 

   O Sr. ri à gargalhada, deliciado ao ver flores tão pequeninas a dançar, a cantar de forma tão diferente da dele, mas tão encantadora. Chega outro e pergunta o que o amigo estava a ver e a rir à gargalhada. 

   Ele responde que encontrou todas aquelas garrafas no chão, cheias de coisas tão bonitas, que o fizeram sorrir, e tinha um bilhete à sua porta, a dizer para abrir aquela, ou aquelas garrafa (s), que tocasse (m) o seu coração, e o tivessem feito sorrir. 

    O amigo riu, e ficou a apreciar juntamente com ele, as florinhas a dançar, a ouvir as risadinhas que depois se separaram e foram parara em vários sítios, espalhadas pela neve. 

    Esse amigo, também tinha o mesmo bilhete à porta da sua casa, tal como todos os outros que foram chegando. Cada um abriu uma garrafa diferente, os outros dois ainda estavam com um sorriso aberto, e maravilhados. 

    Uma senhora abriu a garrafa das plantas com as gotinhas de chuva que brilhavam como diamantes. Mal saíram da garrafa começaram a cantar em forma de agradecimento, umas vozes fininhas, que parecia o som do vento, a passar pelos pinheiros. A Sra. riu à gargalhada. 

- Obrigada. - disseram elas no fim, e espalharam-se pelo espaço 

    Outra senhora, viu o bilhete e o que mais tocou o seu coração, foi a garrafa de água com arco-íris a girar, rodopiar, e fazer redemoinho. 

- Ááááhhh…que coisa tão bonita! - diz a senhora com um sorriso de orelha a orelha. 

    Quando abre essa garrafa, os arco-íris espalham-se pelo ar, em forma de grandes e leves bolas de sabão, onde se veem todas as suas lindas cores. Todos suspiram de espanto e de encanto, seguindo as bolas de sabão com os olhos e com sorrisos abertos. 

   Os habitantes ficam deliciados com o que veem. Outro casal abriu a garrafa das borboletas gigantes de todas as cores. Todos pareciam hipnotizados com tantas, e tão bonitas, tão grandes a esvoaçar levemente à sua frente. 

    Algumas borboletas pousaram nos cabelos, outras nas bochechas, outras nas mãos, como se estivessem a fazer carinho. Abriram sorrisos como nunca antes visto, e soltaram gargalhadas, palmas, exclamações de encanto. 

    As borboletas ficam por ali, escolhem lugares diferentes para se instalar. Outro casal com  filhos, abriu a garrafa das estrelas, que sopraram e espalharam-se por todo o lado, deixando tudo brilhante e luminoso, todos aplaudem. 

    O outro casal com filhos, abre a garrafa dos raios de luz, de todas as cores, que se tornam enormes, e iluminam todo o espaço, como holofotes que giravam, mudavam de direções, escondiam-se nas nuvens e voltavam a aparecer, todos riram com vontade. 

  Os habitantes nem querem acreditar, nunca tinham visto tanta coisa bonita. A garrafa das palavras bonitas, quase era esquecida, foi ignorada, mas um pequeno cãozinho deu sinal: ladrou sem parar à beira da garrafa, depois de a cheirar. 

  Ficaram todos preocupados, com aquele nervosismo do cão. Quando se aproximaram, perceberam que estava lá uma garrafa e dizia: «palavras bonitas», abram por favor e leiam-nas uns aos outros. 

    Como não estavam habituados a dizer e a usar palavras bonitas, sentiram medo, e ficaram quase congelados sem mexer na garrafa, a olhar uns para os outros. 

  Juntam-se vários cães, dos habitantes, cheiram a garrafa, ladram em coro, sem parar, lambem a garrafa, põem as patas em cima, e tentam abrir. 

- Os cães gostaram dela! 

- Se calhar podemos abrir, e ver o que há. 

- É. Deve ser isso que os cães estão a dizer. 

    Os cães ladram como que a confirmar que é seguro abrir. 

- Quem abre primeiro? - pergunta uma senhora

- Posso abrir eu! - diz outra 

    Ficam todos na expectativa, a ver o que sairia da garrafa. O que estaria escrito? Além de palavras bonitas, dizia: Leiam com o coração, sinceridade, e um sorriso na cara. 

- Que coisa estranha! Vamos tentar. 

    Cada um tira um papel com uma palavra bonita, lê em voz alta, com um sorriso, uns deixam escapar umas lagriminhas de alegria, ternura e gratidão, outros distribuem abraços que se tornam longos, outros elogiam, outros dão as mãos, outros procuram pequeninos mimos e oferecem.

    Outros fazem mimos aos animais. No final combinam uma festa à noite, ao ar livre, onde viram as estrelas, como nunca antes tinham visto, as luzinhas pequeninas por todo o lado, os raios de luz que pareciam auroras boreais a dançar, os arco-íris em forma de milhares de bolas de sabão, que se juntaram à festa, esvoaçando por todo o lado. 

    Gostaram tanto das palavras bonitas, que leram, e transformaram num jogo coletivo, onde baralhavam as palavras na garrafa e cada um tirava uma diferente, e as estrelas enviavam todos os dias, palavras bonitas diferentes, e os próprios procuraram. 

    Aprenderam a sorrir com o coração, a elogiar com sinceridade e a abraçar com muito carinho, a conversar muito mais uns com os outros e a ajudar. Aprenderam a apreciar em conjunto e sozinhos as maravilhas da Natureza, que os fazia conversar uns com os outros sobre isso, iam investigar quando não conheciam o que viam, e adoravam ver as lindas borboletas. 

  À noite, juntavam-se para tomar chá, apreciar as estrelas, a lua, e conviver. Tornaram-se uma grande família, onde havia muita amizade, brincadeiras, festas, respeito, felicidade e apesar do gelo da noite, do frio do vento, havia sol, no céu, calor humano, nos abraços, nos elogios, nos sorrisos abertos, nas mãos dadas, nos carinhos que davam aos animais, e uns aos outros, no amor à Natureza, na beleza que aprenderam a ver em tudo o que até aí parecia não existir. 

   As estrelas não podiam estar mais orgulhosas! 

E vocês? Que palavras bonitas acham que estavam na garrafa que dizia «palavras bonitas»? 

Qual ou quais a (as) garrafa (s) que podem vocês escolheriam? 

Porquê? 

Podem deixar as vossas respostas nos comentários, se quiserem. 

                                                                               Fim 

                                                                        Lara Rocha 

                                                                         31/12/2024   


domingo, 15 de dezembro de 2024

Os espirros misteriosos

      Era uma vez um parque no deserto, só com areia ardente, de cor barrenta, o chão cor de laranja, em alguns pontos, a areia parecia Terra, e algumas rochas, dunas. Com tanto calor, onde quase não se respirava, não havia sinais de vida. 

      Mas um dia, algo misterioso aconteceu! A areia espirrou, ecoando por todo o terreno, todo o chão tremeu, e levantou, formando redemoinhos gigantes. As aldeias vizinhas, onde viviam pessoas, sentiram, ficaram muito assustadas a pensar que seria um tremor de terra. Saíram das suas casas, vieram para a rua, e conversaram umas com as outras; todas tinham sentido. 

    Com muito medo, esperaram para ver se acontecia outro. E aconteceu. Mas desta vez foi um som diferente. Um redemoinho, que se tinha levantado com o espirro da areia, ficou sem força, com aquele calor deitou-se, outro redemoinho foi ter com ele, ajudou-o a levantar-se, deu-lhe a mão, o outro voltou a ganhar força. 

    Os dois espirraram estrondosamente, parecia um trovão. Desapareceram rapidamente, e no seu lugar a terra começou a ganhar relva, numa grande extensão. 

    Outros redemoinhos de areia, espirraram em cima dessa relva, apareceram pezinhos de futuras flores e foram largadas sementes ainda por abrir. 

    Formaram-se ventos muito fortes, ciclónicos, que rodaram, rodaram, rodaram, o céu ficou escuro, parecia quase noite, cheio de nuvens. 

    Uns ventos espirraram, e com os espirros formaram-se árvores enormes no espaço onde havia relva e flores, mas também noutros espaços, que faziam sombra. 

    E para que as flores nascessem, outros ventos ciclónicos espirraram. Dos seus espirros surgiu uma chuva torrencial, que regou toda aquela terra deserta e seca. 

    Mas aquele espaço não podia ficar só assim. Então, da água que ficou acumulada na areia, pela chuva torrencial, a areia à volta espirrou outra vez, e formou-se um lago maravilhoso, grande, com margens de rochas, que espirraram e brotam água das suas fendas , para cair no lago, a formar pequeninas cascatinhas. 

    O lago ia ficar só com água? Não! A água queria companhia, então, deu vários espirros! De uns espirros saíram dezenas de peixes de todas as cores, tamanhos, espécies, formas. 

    Os peixes espirram, e aparecem lindos patos, cisnes, gansos, e pedras no fundo do lago. Outro tornado, quando espirra, traz consigo aves de todo o tipo: gaivotas, papagaios, araras, falcões, melros, pardais do deserto, toutinegras do deserto, verdilhões do deserto, corvos, flamingos. 

    Hipopótamos com um lago só para eles, crocodilos noutro lago só para eles. Outro tufão de areia, espirra e espalha animais que vivem na terra, como camelos, cavalos, coelhos, ouriços cacheiros, gatos, cães, ovelhas, burros, galos, galinhas, pintainhos, joaninhas, borboletas, vacas, bois, veados, lobos, raposas, linces, leopardos, panteras, chitas, macacos, elefantes, javalis, e muitos outros. 

    Além dos animais, cada um tinha a sua toca, e num cantinho do deserto, com outro espirro da areia, havia um lago gelado, com gelo à volta, que começava dentro de uma gruta, para pinguins, focas, ursos, leões marinhos. 

    Este lago gelado deu um valente espirro, e formou-se um lago só para golfinhos. Mas ainda sobrava espaço com areia, e na realidade havia pouca água, pouca vegetação. 

    Para resolver essa falta, ouvem-se mais espirros estrondosos, que fazem  tremer o chão, e levantar areia. Desses espirros e com essa areia pelo ar, nasce uma pequena ilha paradisíaca feita de areias brancas, pinheiros, árvores tropicais, palmeiras, e de diferentes espécies, com um pedaço de praia e um pedaço de mar calmo, quente, transparente. 

    Que coisa tão bonita! As pessoas que viviam nas ilhas e praias vizinhas nunca imaginaram o que tinha acontecido naquele espaço inabitável, onde quase não se respirava. 

    Ficaram muito intrigados, e alguém, decidiu passar próximo daquele sítio, pensou que ia transpirar, mas para sua surpresa, vinha das redondezas, um ar muito mais fresco, com cheiro a maresia, a mentol e eucalipto. 

    Ouvia o som do mar, e dos animais. Foi ver...quando chegou, o lugar não era o mesmo que conhecera desde sempre! O que teria acontecido? Como é que tinha acontecido aquela mudança, quem tinha feito aquilo? 

    Estava boquiaberto, chamou os outros, aos gritos, para perceber se estaria a ver bem, ou se estava a imaginar com o calor...Todos viram o mesmo que ele, todos ficaram muito surpresos, a perguntar-se o que tinha acontecido, quem tinha feito aquela maravilha! 

    Gostaram tanto do espaço e do que viram, que aquele sítio passou a ser um refúgio para relaxar, ver as flores, cada qual a mais bonita, cuidar delas, ver os animais, dar-lhes carinho e alimentá-los, meditar, ler, passear, ir para a praia, refrescar-se, e apreciar toda aquela beleza! 

    O mistério de toda aquela transformação continuou por desvendar, mas estavam muito felizes. 

                                                    Fim 

                                               Lara Rocha 

                                           15/Dezembro/2024