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quinta-feira, 26 de março de 2020

o ator e as palavras - poema





O ATOR E AS PALAVRAS

O ator tem o poder de transformar,
Um conjunto de palavras num espetáculo.
Brinca com elas,
Apanha-as no ar…
Recebe-as do vento,
Da chuva que cai lá fora,
Do riso e sorriso inocente das crianças,
Dos olhares brilhantes de felicidade,
Das lágrimas e do olhar vazio de tristeza,
Da solidão,
Do silêncio,
Das estações do ano,
Das estrelas,
Dos sonhos.
O ator colhe nas ondas do mar,
A energia e a força que precisa
Para transmitir o que sente.
Mergulha no seu interior
Para dar veracidade às cenas,
Colhe as melhores palavras,
Onde quer que seja…
Para provocar nos outros que o veem,
Alguma emoção.
Desperta
O que muitas vezes está
Adormecido
Em cada um de nós!
As palavras são como um interruptor.
Saltitam em cada batida do coração…
Sobem, ou perdem-se pelo caminho…
Como bolas de sabão que se desfazem
Ao chegar ao chão.
Surgem ao ritmo do respirar…
Umas vezes lento,
Calmo…sereno…suave…
Agradável…amável…
Outras vezes acelerado,
Ansioso, inquieto, agitado, nervoso…
Agressivo, violento…intenso…
O ator usa e procura
Palavras…
Muitas, ou poucas…
Umas simples, outras mais complicadas,
Mas com elas tudo ganha um novo sentido.
O ator
Dá vida às palavras,
Escritas a preto,
Frias,
Distantes,
Umas doces, outras amargas…
Umas que fazem rir…
Outras que fazem chorar…
As que despertam nos outros
Qualquer emoção…
As que fazem sonhar…
Outras que espelham a alma.
Umas palavras são como facadas,
Quando as ouvimos…
Gelam-nos,
Arrepiam-nos,
Assustam-nos,
Atravessam-nos,
Fazem-nos tremer,
Apertam-nos o coração.
Outras…
São canções de embalar,
Delicadas como flores…
Ou como gotas de chuva…
Suaves…meigas…derretem-nos!
Despertam todos os sentidos.
Com as palavras,
O ator
Faz nascer nos outros,
Mais palavras
Quando pensam no que ouviram.
As palavras voam de uns papéis
E repousam noutros…
Como borboletas…
Livres, soltas, desordenadas,
E juntam-se a outras palavras
Para formarem muitas outras…
Essas palavras…como borboletas…
Percorrem longos caminhos,
Voam
De cérebro em cérebro,
De papel em papel,
De livro em livro,
De boca em boca,
De alma em alma,
De ouvido em ouvido,
De mão em mão,
De sorriso em sorriso,
De lágrima em lágrima…
Deslizam
Do cérebro e da alma,
Pelo braço fora, até à mão…
Que as liberta.
Elas não param.
Essas palavras
Retribuem a quem as apanha,
E a quem as faz viver…
Dando vida
Ao ator,
Ao escritor,
Ao leitor…
A toda a gente…
Pois, através delas,
Das palavras,
Pensamos,
Sentimos,
Transmitimos,
Compartilhamos,
Rimos,
Choramos,
Vibramos,
Vivemos…
As palavras são mágicas…
São um dos instrumentos de trabalho
Do ator.
Têm muito poder!
 
Lara Rocha 

monólogo Crise de identidade

      


    Quem sou eu? Não sei. Sei lá! Sou... um poeta sem nome! Poeta, ou poetiza, mistura dos dois, características de um e de outro. Não sei. Não conheço, nem reconheço aquela imagem aqui à minha frente! Estou confusa. Dizem tanta coisa de mim, mais más, do que boas. 
    Toda a gente fala de mim, sobre mim e acham que sabem exatamente quem eu sou! Sabem mais do que eu, ou acham que sabem? Se eu não sei, como é que eles sabem? E agora, quem tem razão? Eles, ou eu? 
    Devem ser eles. Se dizem que sabem bem quem sou...Talvez nem eles próprios saibam quem são, e estão agora armados em sabicholas, a pensar que me podem ajudar muito, e que só eles é que sabem quem sou. Não interessa! 
    Também, tanto faz, não interessa o que sou. Sou muitas coisas, muitas pessoas, muitas vozes, muitas almas, muitos sonhos, muitas desilusões.
Muito amor, muita dedicação, muito carinho...Sou principalmente uma porta 
aberta para deixar voar as palavras. 
    Aquelas palavras...As minhas, as tuas, as de muita gente que tem de as calar! Sou a voz das vozes, aquelas vozes que são caladas, aquelas vozes consideradas pecadoras, aquelas vozes que têm de ser sufocadas. 
    Sou os gritos calados, das dores não expressadas. Sou as transformações, sou as dores, sou os desgostos, sou as realizações. Sou as almas tristes, solitárias, dolorosas, incompreendidas. Sou às vezes a maldade, sou a revolta, mágoa, rancor...Sou eu! Sou tu, sou o Mundo. 
    Sou o amor, sou o riso, sou as lágrimas, sou a infância, sou a brincadeira, a dança, a alegria, a tristeza, a festa. Sou quem já não sou, sou quem já fui e que não sou agora, mas sou eu! 
    Sou corpo, sou alma, sou água, sou leveza, peso, sonho, realidade. Sou pureza, mistério, escuridão, luz, brilho. Sou caminho, e caminhos...Sou trilho, encruzilhada.     Sou lobo, sou mocho ou coruja, sou joaninha, borboleta, coelho, formiga, ave, Águia. Sou anjo, sou demónio, sou cavalo com asas, gato, e cão, tigre, raposa... Sou humana! Sou eu! Como tu! Sou, somos... Diferentes! 
    Sou raça, sou selvagem, sonhadora, guerreira, sábia. Sou silêncio e ruído, sou montanha, sou rio, riacho, praia, selva, floresta, cidade. Sou gaivota, pérola, fantasia, amizade, vaidade. Sou tudo o que tu és. 
    Sou eu! Sou humana! Sou, somos... Sou medo, sou sensível, sou meiga. Sou simpatia e antipatia, sou verdadeira, sou mel e fel. Sou doce e amarga, boa e má, Luz e escuridão, Serenidade e revolta. 
    Sou palco, palmas, risos, ilusões. Sou quem sou! Sou eu, sou humana. Sou! Sou paz. Somos! Sou as palavras soltas de um poeta sem nome! 
                                                                 
                                                         Lara Rocha

                                                       
 

sei que me queres tocar - monólogo sobre homossexualidade II


desenhado por Lara Rocha 

Sei que me queres tocar, mas não me tocas. Sei que me tocas com o olhar, mas porque não me tocas com essas tuas mãos perfeitas, que anseio por sentir nas minhas? Tens medo? O que te impede de realizares o teu desejo, que eu sei ser o mesmo que o meu.
          Não podes. A sociedade falsa não deixa, vai julgar, vai humilhar, e agredir. Sei que me queres dar a mão, porque não me dás? Porque somos do mesmo género, e vão logo pensar que temos um caso.
          Deixa-os pensar…pelos menos nós assumimos, ao contrário deles que traem por trás. E tu deixas-te levar pelo que os outros cheios de falsos moralismos, dizem. Porque cedes aos comentários desumanos, cheios de máscaras, e a rótulos xenófobos? Porque te escondes? Porque me escondes de todos? Porque estamos a sofrer, e a tocar-nos apenas com o olhar?
          Não importa o olhar dos outros, são invejosos, falsos. Os outros são uma barreira ao nosso amor. Um amor sincero.
          Amor. Palavra que a maior parte não sabe o que significa, mas nós sabemos, somos do mesmo género, mas feitos da mesma coisa que eles. Somos eles, e elas, porque temos de nos esconder do que dizem ser pecado? Então, todos nascemos do pecado, porque somos filhos e filhas, frutos do amor entre os nossos pais.
          O amor não tem género, nem propriamente motivo. Amor é liberdade, porque nos obrigam a esconder só porque os outros acham que não é normal? Só queremos e merecemos ser respeitados pela nossa escolha. Só porque amamos alguém do mesmo género, o que muda em nós como seres humanos? Nada!
           Amar alguém do mesmo género não deixa de ser amor, porque o amor não tem rótulo, nem tem de acontecer sempre entre pessoas de géneros opostos.
           Amor, esquece o que os falsos pensam e toca-me com as tuas mãos no meu corpo, que é igual ao teu! Amor, amo-te, ama-me sem medo, esquecendo o mundo lá fora. Somos humanos, precisamos de amor, do toque, do afeto, abraços, beijos...nada disso tem género! É simplesmente amor na sua autenticidade, em todo o seu significado, e amplitude. Amor é o que queremos, amor, sem género!

- Monólogo sobre a homossexualidade para adolescentes e adultos - 
para pensar… 
Lara Rocha 

sábado, 7 de março de 2020

O cubo de gelo e a glaciar

         

Era uma vez um planeta gelado, onde às vezes havia sol, mas o gelo era tanto que não se sentia calor. Lá viviam grandes famílias, de gelo, em casas de gelo. Todos eram frios uns com os outros, mas diziam que era assim que demonstravam o seu amor uns pelos outros, com silêncio e frieza. 
       Um dia receberam a visita de um cubo de gelo gigante que vinha da terra, e foi passear para um sítio diferente, sem rumo. Era um ser que estava dominado pela igual frieza da terra, onde não havia tempo para nada, todos corriam, era casa, trabalho, trabalho casa, tantos afazeres, computadores, barulhos, guerras, imagens violentas, discussões, gritos, indiferença, solidão. 
         Já mal de abraçavam, tocavam ou sorriam. Tudo tomava comprimidos, andavam como se fossem robôs. Tudo era impaciência, revolta, raiva. As crianças já não tinham liberdade para brincar, sufocavam-nas com atividades, escola, com a obrigação de estudarem, serem os melhores, mas eram muito frios uns com os outros, competiam, não conversavam, só trocavam mensagens, por telemóveis e computadores. 
         O cubo de gelo estava em estado de exaustão, e quis parar. Encontrou essa cidade, silenciosa, cheia de gelo. Só se ouvia o som de alguma água. Os habitantes estavam todos recolhidos àquela hora. 
- Não está aqui ninguém? Mas que lugar tão estranho. As casas são de gelo...se calhar não vive aqui ninguém. Pelo menos está tudo silencioso. 

         De repente aparece a Glaciar. Uma linda mulher, de uma beleza incrivelmente gelada, que tratou o cubo de gelo, de forma fria, como trata todos os seus semelhantes:

- Quem és tu? 

         O cubo de gelo estremece: 

- Desculpa, já estavas aí há muito? 

         Cai uma bolinha de gelo da Glaciar. 

- Ui, caiu-te uma bolinha... 

- E depois? O que tens a ver com isso? - pergunta a Glaciar brusca 

- Desculpa, tens razão...parece que estou aqui a mais. Vou-me embora. Eu vim da terra, mas parece que nem saí dela. - murmura - Que gelo, esta mulher...

- Não. Espera... ! Disseste que vieste da Terra? 

- Sim. 

- O que vieste cá fazer? 

- Vim, descansar a minha alma. Lá em baixo está tudo muito gelado! 

- Então porque vieste para outro sítio, gelado? - pergunta a Glaciar 

- Porque pensei que ia ter a um lugar diferente. Mas também não tinha nenhum lugar definido. Só queria sair de lá. Mas, não te preocupes, vou-te deixar sossegada. Desculpa, não sabia que aqui viviam pessoas...? Parecem pessoas. 

          Cai outra bolinha de gelo da Glaciar. 

- Senta-te. - ordena a Glaciar. 

- Óh, não, não quero incomodar. 

- Mas sou eu que te estou a mandar sentar. - Reforça a Glaciar 

- Ok. Com licença... 

         Os dois sentam-se, e cai outra bolinha do Glaciar. 

- Queres beber ou comer alguma coisa? - pergunta a Glaciar 

- Não, obrigada. 

- Então, tu vens da terra...! - diz a Glaciar 

- Sim, sabes onde é? 

- Sei. Chega aqui muito gelo de lá. 

- A sério? Gelo? Como é que vocês sabem que é de lá? 

- Lá existe muito gelo, certo?

- Sim. E não é pouco. Dizem que não há tempo para nada, todos correm, casa, trabalho, trabalho casa, tantos afazeres, computadores, barulhos, guerras, imagens violentas, discussões, gritos, indiferença, solidão. Já mal nos abraçamos, tocamos ou sorrimos. Tudo é para ontem ou anteontem, toma-se comprimidos, andamos como se fossemos robôs. Tudo é impaciência, raiva. As crianças já não têm liberdade para brincar,  nem para respirar, ver a paisagem ou expressarem-se! Sufocam-nas com atividades, escola, com a obrigação de estudarem, serem os melhores, mas estão muito frios uns com os outros, competem, não conversam, só trocam mensagens, por telemóveis e computadores. Eu cansei de tanto gelo e tanta indiferença.

- Entendo o que dizes. É muito mau. Por isso é que és um cubo de gelo. 

- Sim. 

- Eu sou uma Glaciar. Aqui também somos todos gelados. Vivemos em casas de gelo, somos feitos de gelo, e somos frios uns com os outros. Aqui tudo é gelado, mas pelo menos é mais silencioso, e não tem solidão nem indiferença. Também não temos essas coisas de comprimidos, nem competição, temos tempo para tudo, convivemos bastante, à nossa maneira gelada. 

- Pois. Vocês são gelados, mas na terra, não éramos assim, quando eu era mais pequeno, havia mais calor, mais conversa, mais brincadeira, mais abraços e carinhos, sorrisos. Não houve sempre esta loucura que há agora. 

- Porquê? 

- Não sei. 

- Tu gostas de viver nesse caos todo? 

- Não, fico muitas vezes triste, desanimado, desiludido. Foi por isso, cansei, quis vir à procura de um pouco de sossego. 

- Aqui, sossego não te falta! Como é que são essas coisas...que tu falaste... de... abraços ou sorrisos...? - pergunta Glaciar 

- São uma coisa maravilhosa. Não sei explicar por palavras, mas derrete o gelo, cura, aquece, protege, envolve, aproxima, conforta, preenche, faz bem. Abraços, é... quando cada um de nós passa a ter quatro braços, dois corações e sorrisos. - explica o cubo de gelo

- Que seres assustadores. Como assim? Então, não é bom! Transformam-se? E voltam ao normal?

- É bom, é. Eu tenho dois braços, e tu também, eu tenho um coração, e tu também, que não era de gelo, mas agora é. Quando abraçamos alguém, ganhamos quatro braços, porque são os nossos, e os dois da outra pessoa. Quando abraçamos alguém, o nosso corpo também se junta, o nosso coração bate, e o coração da outra pessoa também! Por isso dizemos que ganhamos dois corações. E sorrisos, porque gostamos de trocar abraços.

- Áh! Acho que estou a perceber! 

- Vocês não fazem isso? 

- Fazemos, mas não sentimos nada disso, para nós, só temos um coração em cada corpo.

- Mas o nosso gelo é tanto... deve ser por isso! 

- Agora na minha terra também estamos assim, como vocês, aqui. 

- A sério? 

- Sim! Infelizmente. 

        E caem uma série de bolinhas e cristais da Glaciar. 

- Desculpa a minha pergunta: mas, porque é que te estão a cair essas bolinhas? 

- É que estou triste! - diz Glaciar

- Vocês aqui também ficam tristes? 

- Claro. É uma maneira de nos mantermos gelados. 

- Mas, então para ti não faz mal estar triste...? 

- Para vocês, faz? 

- Sim, muito mal. Há muita gente doente por causa da tristeza. Porque é que estás triste?

- Fiquei triste com o que me disseste! 

- Porquê? 

- Não sei! Acho que derreteste um bocadinho do meu gelo. 

- Óh, desculpa. 

- Não faz mal. 

        E caem mais bolinhas e cristais da Glaciar. 

- Queres conhecer os meus abraços, é? 

- Achas que não me faz mal? 

- Espero que não. 

- Como é que eu faço? 

         O Cubo de gelo pega delicadamente nos braços da glaciar, e abraça-a. A glaciar soluça, e começam a cair muitas pedrinhas de gelo. 

- Está tudo bem? - pergunta o cubo de gelo 

- Sim. Não me largues já... por favor! Óh... como é bom! Adoro...como é possível na tua terra não darem abraços...? Não admira que andem tão tristes. 

- Sim, tens razão, eu também sinto falta de abraços.Também adoro, mas na minha terra, não há tempo para abraços. 

- Mas isso é tão mau! 

- Pois é. Mas não posso fazer nada. 

           A Glaciar abre um enorme sorriso, e olha para o cubo de gelo. Os olhos dos dois estão brilhantes e com as cores do arco-íris, refletido em todo o seu rosto. 

- Mas que linda que estás! - diz o cubo de gelo a sorrir 

- Obrigada, tu também! - diz a Glaciar 

            Ouve-se uma voz a chamar pela Glaciar. 

- Óh, não! Desculpa, já tenho de ir embora. Mas prometo que voltaremos a encontrar-nos, para me dares mais abraços, pode ser? - diz Glaciar 

- Claro que sim! Mas, como é que eu vou saber que és tu? 

- Não contes nada lá em baixo, mas em breve, toda a tua terra vai ficar gelada, com muito frio, neve, vento... vou ser eu! Depois encontramo-nos num sítio quentinho, pode ser? 

- Claro. Com todo o gosto. 

- Encontramo-nos lá em baixo. Adorei transformar-me, ficar com quatro braços, e dois corações a bater. Adorei os teus abraços! Boa viagem. Até já...- ri a Glaciar 

          O cubo de gelo, volta feliz para a sua terra. Como prometido, rapidamente, a Glaciar vai visitar a terra do cubo de gelo. Por onde passa fica tudo cheio de neve, gelo, vento e nuvens carregadas, granizo e chuva. O cubo de gelo soube logo que era ela. 
Ela viu-o e foi ter consigo. O gelo dos dois derreteu, enquanto deram um longo abraço. A Glaciar transformou-se numa linda mulher, e ele num homem encantador. 
          Os dois conversaram horas e horas, riram, tornaram-se inseparáveis. 

Uma voz soa a gritar: 

- Huuuuuuuuuuugooooo...anda comer! 

Hugo acorda sobressaltado e percebe que foi só um sonho criado a partir da sua realidade, o viver numa sociedade indiferente, gelada, que vive cada um só para si, onde não há tempo para nada, onde há caos, e onde faltam realmente abraços. Pelo menos no seu sonho, Hugo sentiu a liberdade de concretizar um desejo e satisfazer uma necessidade de sentir afeto, abraços, comunicar, brincar, ter tempo para o outro, e para apreciar a natureza. Vivemos num mundo em que somos cada vez mais glaciares e cubos de gelo uns com os outros. 

                                                             FIM 
                                                         Lara Rocha
                                                        7/Março/2020    
               


   

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

A jovem e o seu vizinho luminoso

            
Desenhado por Lara Rocha 


        Era uma vez uma jovem que para descansar os olhos da luz da cidade, ao entardecer, antes de entrar em casa, olhava para uma árvore cheia de buracos. 
       Ela sentia que aquela árvore tinha alguma coisa de especial, não sabia explicar. Já não era a primeira vez que ela tinha a sensação de ter visto a sair de um dos buracos um arco, com uma luzinha.
       Nunca deu importância, nem quis investigar, porque achou que era de cansaço, e que a sua mente procurava alguma coisa para relaxar, mesmo que não existisse. Ela sorria e voltava a entrar com outra energia.
       Um dia chegou do trabalho, olhou para a árvore, e viu outra vez o arco com a luzinha. Desta vez, quis ver de perto, para tirar dúvidas se era real, ou se estava a imaginar. Aproximou-se, e para sua grande surpresa...
- Áhhhhhhh!!! É real! Eu via mesmo este arco e uma luzinha. Que lindo! Mas como é que isto veio aqui parar...? De onde veio?
        Antes que a jovem continuasse a fazer mais perguntas, a luzinha começa a tocar, no arco, sem cordas.
- Mas, está a tocar sozinho, o arco?
        Era a luzinha que tocava maravilhosamente bem.
- Que música tão suave! Mas... como é que este arco dá música...?
        A luzinha aumenta de tamanho, e pisca, o arco continua a tocar. A luzinha mexe-se de um lado para o outro, roda no arco, desliza, como se estivesse a tocar cordas que não existiam. 
       A jovem estava tão deliciada a ver e a ouvir aquilo que quase não se mexia. Quando a luzinha para de tocar, ganha a forma de um lindo e pequeno pirilampo, que tocava num arco sem cordas, porque era ele que cantava e tocava, pois não tinha dinheiro para comprar um arco com cordas, como ele adorava poder ter.          
       Partilhou a sua história com a jovem, que gostou tanto dele, e ficou com pena dele, ofereceu fio de pesca e ajudou-o a pôr cordas no arco, bem presas e próximas umas das outras, como se fosse uma harpa.
      O pirilampo ficou tão feliz e tão agradecido à jovem, que quis logo experimentar. Ele nem queria acreditar que estava a tocar em fios verdadeiros.
      Tocou delicadamente em cada corda, primeiro, depois, soltou toda a sua alegria enquanto tocava músicas alegres, saltitando de fio em fio, dando cambalhotas, rodopios, saltinhos e até algumas lágrimas, que também o ajudaram a compor músicas.
        A jovem aplaudia e ria ao ver a felicidade do pequeno, com uma coisa tão simples, mas para ele era tudo. 
        O pirilampo nunca mais abandonou aquela árvore, e todos os dias, várias vezes ao dia, tocava para a jovem, como forma de agradecimento, conversava com ela, ajudava-a a adormecer, e fazia-lhe companhia.
        Em troca, ela dava-lhe abrigo, calor, alimentação e amizade, a ponto de acolher o pirilampo na sua sala de estar, ou no seu quarto, quando estava mais triste. 
        Às vezes a jovem cantava com ele, e outras vezes, os dois abraçavam-se, choravam juntos. Eram uma verdadeira família.

                                            FIM
                                            Lálá  
                                                                                                                            26/Fev/2020

terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Anjo na ponte - peça de teatro para adolescentes e adultos sobre tentativa de suicidio, amizade (psicólogos, estudantes de psicologia e população em geral)


Monólogo para adolescentes e adultos; homossexualidade; amizade; Tentativa de suicídio; ideação suicida; respeito; acolhimento,

Era uma vez uma rapariga que estava em depressão, e não encontrava outra solução a não ser suicidar-se. Encontra-se numa ponte do Porto a olhar para o rio, numa grande angústia a chorar. Um jovem rapaz passa por ela, olha para ela, e pressente qualquer coisa de estranho.

ELE - Estás bem?

Ela estremece:

ELA - Empurra-me! Atira-me daqui abaixo. Por favor. 

ELE - O quê? Já vi que não estás bem.

ELA - Empurra-me! Apareceste na altura certa para eu realizar a minha vontade.

ELE - Qual é a tua vontade?

ELA - Eu vou atirar-me daqui abaixo.

ELE - Era só o que faltava!

ELA - Até tu apareceste para isso.

ELE - Achas? Nem nos conhecemos. Mas não vou deixar que faças essa loucura.

ELA - Não estou cá a fazer nada...O vazio em mim é maior que este rio. A tristeza é do tamanho desta cidade.

ELE - Vazio, tristeza... que conversa é essa?

ELA - Esquece...! Só se o sentisses, saberias. Anda lá... empurra-me, ou atira-me daqui abaixo.

ELE - Olha para mim. Vamos conversar. Por favor.

ELA - Só quero que me atires lá para baixo. 

Ele dá-lhe a mão e vira-a para ele. Os dois ficam ali uns segundos a olhar-se fixamente.

ELA - Que pena só teres aparecido agora, no meu fim....até podíamos ter sido amigos. Seremos se calhar na minha próxima reencarnação.

ELE - Que conversa. Eu não vim aqui por acaso, nem para te atirar lá para baixo...onde já se viu? Uma rapariga tão bonita, com todo o respeito e sinceridade, ter essas ideias estúpidas...nem penses que vou deixar que faças uma loucura dessas... vamos conversar!

ELA - Já é tarde, não há nada para conversar. Atira-me.

Num impulso, ele encosta-a a ele, abraça-a, e ela rende-se, entrega-se aos seus braços, desata a chorar, abraçada a ele. Ele acaricia-a.

ELE - Estás mesmo numa grande angústia, num grande sofrimento. Mas eu estou aqui. Fala comigo!

ELA - Não te vou chatear com as minhas coisas... acho que nunca nos vimos antes... mas... o teu abraço é bom. Nem quero saber se vais interpretar mal, mas é bom. Senti-me bem nos teus braços. Acho que é panca da minha cabeça.

Ela abraça-se outra vez a ele. 

ELE (sorri, sereno) - É para os meus braços que te vais atirar sempre que quiseres, daqui para a frente, e eu vou empurrar-te para eles, sempre que perceber que precisas.

ELA (ainda a chorar) - Porque é que estás a fazer isto, se não nos conhecemos?

ELE - Ora essa... não nos conhecemos antes, mas a partir de agora podemo-nos conhecer. Estou a fazer isto porque o que tu ias fazer, não se faz. Porque quero conversar contigo. Porque não gosto de ver meninas a sofrer tanto, porque...não sei mais.

ELA - Nada disto faz sentido.

ELE - O que tu ias fazer, não, não faz sentido. Para! Por favor! É aqui, é nesta vida, no hoje que tens a tua missão, seja ela qual for, e não é esta de certeza. É hoje, é nesta vida que tens de lutar e fortalecer-te, não te entregues à tristeza. Há muita coisa à tua volta. Há muita gente que precisa de ti, só precisas de te abrir e deixar de mergulhar nessa tua escuridão.

ELA - Eu não faço falta a ninguém.

ELE - Outra vez...?

ELA - Nem tu estás para me aturar.

ELE - E quê? Fazes futurologia, é? Para dizer o que estou para fazer? Eu já sou grandinho, sei bem o que quero, e o que faço, e porque o faço.

ELA - Mas eu disse-te que me atirasses lá para baixo.

ELE - E eu já disse que nunca faria isso.

ELA - Porque não?

ELE - Porque não! E também já disse porque não. Para de dizer asneiras, e vamos conversar. Prometes?

ELA - Já que fazes tanta questão... não sei para quê, se me vou atirar daqui abaixo.

Ele encosta-a outra vez a ele, ela abraça-o.

ELE - Faz-me um favor...

ELA - Vais-te atirar comigo...?

Ele ri-se:

ELE - Mau... já não estou a gostar dessa conversa... estás proibida de repetir esses disparates, combinado?

ELA - E o favor, qual é?

ELE - É esse! Vamo-nos sentar ali, e conversar, ok?

ELA - Não vais gostar... eu sou um cubo de gelo.

ELE - Não faz mal, eu gosto de gelo...não tenho medo do gelo. No fim digo-te se gostei ou não.

Os dois sentam-se num banco de pedra, a ver o rio. Primeiro em silêncio.

ELE - Saboreia esta água...ouve...

Os dois ficam em silêncio.

ELE - Agora...começa a falar-me de ti. Tudo o que te incomoda.

ELA - Vais-te afastar de mim.

ELE - Ai, que paciência...(troca os olhos)! Fala. Depois vês, se me vou afastar de ti.

ELA - Mas só me apetece chorar...

ELE - Boa! Não interessa. Podes fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

ELA - Começo por onde?

ELE - Por onde quiseres. O que eu quero é que fales...

Ele vira-se para ela, e ela começa a falar. Ele ouve-a atentamente, ela chora e fala. Depois cala-se.

ELA - Desculpa. Já falei demais.

ELE - Isso és tu que estás a dizer, não sou eu. Eu não me queixei.

Olham-se fixamente.

ELA - Porque é que estás a olhar assim para mim?

ELE (sorri) - Já acabaste?

ELA - Sim. Desculpa.

ELE - O quê?

ELA - A seca!

ELE (ri-se) - Se eu tivesse sede, tinha ido beber. (Os dois riem)

ELA - Falei tanto...

ELE - E não era o que eu queria...?

ELA - Sim.

ELE - Então, qual é a cena?

ELA - E tu, vais falar-me de ti?

ELE (sorri) - Queres ouvir-me?

ELA - Sim. Já que nos encontramos... e já que eu falei tanto de mim...

ELE (ri) - É justo! Sim, claro que sim, vou falar-te de mim.

Ele também partilha com ela muitas coisas. Descobrem muitos pontos em comum, riem juntos. No fim, ela está mais animada.

ELE (sorri) - Gosto do teu sorriso.

ELA (sorri) - Obrigada. O teu também é simpático e sereno.

ELE (sorri) - Obrigado. Como te sentes agora?

Silêncio. Ele olha para ela.

ELA - Acho que... melhor!

ELE - Até levava a mal se dissesses o contrário. Eu gostei deste bocadinho.

ELA - Obrigada pela tua paciência.

ELE - Vamos dar por ai uma volta?

ELA - Queres a minha companhia?

ELE (irónico) - Não... é por isso que te estou a convidar.

Ele abana a cabeça e ri-se.

ELA - Está bem.

Os dois levantam-se, e começam a caminhar lado a lado devagar.

ELA - Já estás cansado não?

ELE - Eu? Cansado? De quê?  Já sei qual é a tua resposta...não, não estou cansado.

Ela sorri. Continuam a conversar e a rir. Param de vez em quando, olham-se, e sorriem. Ele mostra-lhe coisas bonitas, ela sorri. Ela diz onde mora, e moram relativamente perto um do outro. Antes de se separarem, param à entrada de casa dela. Trocam contactos, e prometeram encontrar-se mais vezes.

ELE - Estás melhor?

ELA - Sim. Acho que sim... não sei como te agradecer!

ELE - Deixa lá isso. O que eu quero é que não voltes a ter aquelas ideias estúpidas, e que me prometas que qualquer coisa, vais ligar-me, ou falar...! Prometes?

ELA - Não quero estar sempre a melgar-te.

ELE - Nem vou responder...

ELA (ri-se) - Que simpático...

ELE (ri) - Achas que merece resposta isso?

ELA (ri) - Não sei.

ELE (ri) - Não. Não merece... mas isso é isso, e tu és tu Qualquer coisa, estou aqui.

Olham-se fixamente a sorrir.

ELA (sorri) - Sou um gelo, não sou?

ELE (ri) - Ai... eu não senti frio. (Os dois riem) És um ser especial. Só te peço: tem calma, e não faças merda... desculpa o termo. Não te esqueças que só o hoje interessa, amanhã já é outro dia, e será melhor...só depende de ti. No que depender de mim, já sabes que farei com que os teus dias sejam melhores, mas tu é que tens a maior responsabilidade, e toda a liberdade de aceitar ou não...! Aquela ponte foi para nos unir, e não para nos separar.  Só quero que te atires para os meus braços, sempre que quiseres.

ELA (ri) - Gostei muito do teu abraço! Obrigada.

Ele abraça-a, ela deixa-se ficar no abraço dele, a sorrir. Ele dá-lhe um sonoro beijo na cara, faz-lhe uma festinha.

ELE - Até já.

ELA - Até já.

Sorriem. Ele dá-lhe a mão.

ELE - Estou contigo!

ELA (sorri) - Obrigada, anjo!

ELE (ri-se) - Não sou anjo, sou homem, de carne e osso, como tu. Estou na terra como tu.

Riem.

ELA - Tu percebeste...

ELE (ri) - Sim... fica descansado.

Ele dá-lhe um beijo na mão, e vai para casa dele. Nesse mesmo dia, voltam a falar-se, e nasceu uma linda, forte e sincera amizade entre eles.

VOZ-OFF - Na terra existem anjos, disfarçados, que aparecem às vezes de forma inesperada e transformam toda a vida de pessoas que sofrem. Qualquer um de nós pode ser um anjo para outro, com a sua presença, atenção, carinho, dedicação e amizade. Numa sociedade solitária, são muitos os casos de tentativas de suicídio, pelo vazio intolerável, pela falta de realização pessoal e de tempo para construir relações de amizade. Construir uma amizade, demora o seu tempo, mas esta pode nascer, às vezes a partir das pessoas que nos parecem mais distantes ou mais indiferentes. A indiferença é outra causa de tantas tentativas de suicídio. Pedidos de ajuda que são ignorados. É importante estar atento, quando surgem, e não deixar essa pessoa sozinha. E qualquer um de nós pode ser um anjo que liga uma pessoa a outra, e à vida.

                                                                  FIM
                                                              Lara Rocha
                                                             (11/Fev/2020)






quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Devaneio romântico (para adolescentes e adultos)


         Olho para aquela estrela, da minha janela. Aquela estrela, que brilha mais, mesmo à frente dos meus olhos! Ela está lá todas as noites, de certeza mas eu não vou vê-la todas as noites. Mesmo assim ela está lá com certeza, muito senhora do seu nariz. E continua a ser ela, sem querer saber se olham para ela ou não! Porque ela sabe que é mesmo muito bonita, e que há sempre alguém que a vê. 
         Esse alguém sou eu, às vezes. Gosto de a ver. Para ela eu serei apenas mais uma, como outras almas solitárias, que nas noites de insónias olham para ela. Repousam na estrela os seus olhos tristes ou cansados, sonolentos, sonhadores ou perdidos. Que olham por olhar. Será que também olhas para ela? A mesma estrela brilhante que vejo? 
         Não te vejo nela! Também não me vejo nela, mas gosto de pensar se haverá alguém a vê-la à mesma hora que eu, e se imagina o mesmo que eu!? Será que também olhas para ela ao mesmo tempo que eu, e pensas que talvez alguém também esteja a olhar para ela? 
         Mesmo sem saber a resposta, gosto de imaginar que a vês, e que talvez outros olhos repousem nela. Os meus e os teus...o nosso corpo não se encontra, mas quem sabe, a nossa essência troque abraços feitos de astros e estrelas cintilantes, com a promessa de que um dia os nossos olhos se encontrarão, longe da estrela que vemos, e os nossos braços se entrelaçarão, como se envolvessem todo o universo, e nos tornaremos um só! 
         Uma só estrela! E na nossa estrela viveremos o nosso amor eterno. A estrela que talvez vejamos ao mesmo tempo, será  a nossa madrinha. Como saberemos que somos nós? Os dois que olhamos para a estrela? Quando os nossos olhos se cruzarem, e virmos a estrela a cintilar, eles reconhecer-se-ão. Aí teremos a certeza que a nossa essência se tocou, e que os nossos olhos viam a mesma estrela a brilhar. 


                                                                                Ilustração e monólogo de Lara Rocha
                                                                                 6/Fevereiro/2020