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segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O guarda-chuva




            Era uma vez uma família de gotinhas de chuva que viviam nas nuvens. Muito lá em cima. Um dia, foram passear, e de repente, encontraram um espaço aberto, sem nuvens, cheio de vento.
- Óh não! – Grita a gota de chuva mãe
- Mãe…- Gritam todas as gotinhas assustadas

- O que está a acontecer? – Pergunta uma gotinha

- Está muito vento! – Diz outra gotinha

- Apanhamos um buraco. – Diz a mãe

- E agora? – Perguntam todas assustadas

- Agora vamos cair lá abaixo! – Responde outra gota mais crescida

- Não! – Gritam todas

- Voltamos para trás? – Pergunta outra gota gorda

- Sim… segurem-se – Grita a mãe

- Onde? – Perguntam as gotas

- Como conseguirem! Agarrem-se a mim… – Responde a mãe 

            Tentaram de todas as maneiras segurar-se, agarram-se umas às outras, prendem-se pelos cabelos, dão as mãos, querem recuar para a nuvem antes do buraco, mas não conseguem porque o vento era mais forte do que elas.

- Não consigo, mãe! – Gritam as gotinhas mais pequenas, assustadas

            Como não podiam lutar contra o vento, e começaram a perder as forças, não tiveram outra solução, a não ser, deixarem-se cair. Começam todas a gritar, a descer devagar, depois o vento fê-las rodar e desceram muito depressa, todas juntas, em roda e depois em fila. Gritaram o caminho todo. Estavam muitas crianças a brincar em terra, no parque, e viram que o céu estava muito escuro.
- Venham para dentro…vai chover! – Grita uma adulta que estava com eles
            Mas os meninos repararam que vinham gotas de chuva a cair e ficaram a ver. As gotas descem muito rápido e gritam:

- Ááááááhhhh…vamos cair!

- Onde? – Perguntam as pequeninas

- Não chão…em qualquer sítio! – Responde a gota mais velha

- Não se preocupem, vamos cair no fofo! – Garante a mãe gota

            E a mãe tinha razão. Felizmente os meninos não entraram, e seguem as gotas de um lado para o outro, para ver se elas não caem no chão. Assim as gotas caíram em cima dos seus guarda-chuvas.
Outras gotas são projectadas para a relva, mas não se magoam porque caem em cima de um monte de folhas que caíram das árvores. Quando reparam que estão a salvo, respiram de alívio.

- Ufa! – Suspiram todas

- Caímos bem! – Garante a gota mãe

            De repente cai um enorme raio de trovoada, os meninos desatam a correr para a sala aos gritos, e um deles, tem tanto medo que larga o guarda-chuva. As gotas juntam-se todas, abraçadas e metem-se debaixo do guarda-chuva.

- Estamos abrigadas…estamos todas bem? – Pergunta a mãe?

- Estamos! – Respondem as filhas

- Mamã, e agora como vamos voltar lá para cima? – Pergunta uma gotinha

- Um dia destes voltamos. Não sei quando, nem como, mas voltaremos.

- Agora estamos cá em baixo… - Diz outra gotinha

- Felizmente caímos no mole! – Diz outra gotinha

- Pois, se caíssemos no chão podíamos magoar-nos.

- Pois era. – Dizem todas

- É uma tempestade. – Diz a mãe

- Ai, que susto! – Suspira uma gotinha pequenina 

- Pois foi. – Diz outra gotinha pequenina

- Mas já vai passar. – Garante a mãe

            Entretanto, elas estão abrigadas e a tempestade passa. Os meninos voltam a sair e os que deixaram os guarda-chuvas vêem as gotinhas lá debaixo. De repente, uma nuvem média desce à terra, e vai buscar as gotinhas.

- Olhem…uma nuvem no chão… - Diz um menino

- Olá! Vim buscar as gotinhas…alguém as viu? – Pergunta a nuvem

- Estão aqui debaixo do guarda-chuva! – Responde o menino

- Áh! Tiveram muita sorte. – Diz a nuvem

- Como é que elas caíram aqui? – Pergunta uma menina

- Apanharam um buraco cheio de vento e não conseguiram segurar-se, mas não se magoaram, porque caíram em cima dos vossos guarda-chuvas e das folhas secas, não foi?

- Foi.

- Boa! Muito obrigada. – Responde a nuvem

            As gotinhas saem debaixo do guarda-chuva, sorriem para a nuvem.

- Olá! Estão todas bem? – Pergunta a nuvem

- Sim, estamos, felizmente, e tu? – Pergunta a gota mãe

- Também. Soube o que vos aconteceu, e vim-vos buscar. Querem ir? – Pergunta a nuvem

- Sim, claro! – Respondem todas as gotas

- Muito obrigada pelos vossos guarda-chuvas, meninos. – Diz a gota mãe

- De nada! – Respondem os meninos a sorrir

- E tenham cuidado agora quando forem passear. – Aconselha uma menina

- Sim, teremos…- Garante a gota mãe.

            As gotas sobem para a nuvem, muito contentes, e voltam para a sua casa. Os meninos põem os guarda-chuvas a secar no estendal, pendurados pelas bengalas para não ganhar ferrugem, e depois ao contrário para apanharem sol.
         Ainda bem que os meninos tinham os guarda-chuvas abertos, assim, as gotinhas caíram e não se magoaram.  

FIM
Lálá

(22/Setembro/2014) 

sábado, 20 de setembro de 2014

A COROA DO SAPO

        Era uma vez um sapo que vivia num lago com a água toda suja, cheia de ervas daninhas e com um cheiro insuportável.                Todas as pessoas tapavam o nariz e fugiam o mais possível e o mais rápido que podiam. 
Comentavam:
- Que cheiro horrível!
- Ui, que nojo!
- Que porcaria de rio…parece mais um charco!
- Esta água está insuportável.
- Deve ser só bicharocos.
- Que porcaria.
         Outros sapos comentaram:
- A vossa casa deve ser igual!
- Esta gente reclama demais. Fala sempre!
- Nunca estão satisfeitos.
- Estes humanos são mesmo muito exigentes…
      O sapo tinha uma coroa com três pedras amarelas florescentes que brilhavam no escuro. 
    Às vezes, ele mergulhava e só se via as três bolinhas da coroa a brilhar no escuro. Quando mergulhava deixava a coroa de fora para não se molhar. 
      Todas as crianças perguntavam que luzes eram aquelas na água!
- O que é que está ali?
- Que luzes são aquelas na água?
- Parecem pirilampos…ou bichos!
- Deve ser venenoso.
   Uma noite de muita chuva que ultrapassou as margens, levou a água toda suja, as ervas daninhas e o sapo.
    Era tanta água, e ia tão depressa que ele não conseguiu segurar-se. Rodou na água, bateu várias vezes com as patas nas pedras, gritou, tentou segurar-se mas a força da água era maior do que ele.
- Onde é que eu vou parar? Ai…socorro! – Grita o sapo muito assustado
Alguém lhe grita:
- Atira isso que tens na cabeça!
- Não! A minha coroa não!
- Coroa? – Pergunta um casal de sapos
- A tua vida é mais importante que uma coroa, não? – Pergunta uma rã
- Sim, eu tenho uma coroa.
   Agarra-se a uma folha de árvore, mas afunda e a folha desfaz-se. O sapo consegue agarrar-se finalmente a um tronco grosso que tinha acabado de se partir e caiu na água.
- Áh! Estou salvo! E a minha coroa também. – Suspira o sapo.
  Passam uns sapinhos muito pequeninos aos gritos, a rodopiar, o sapo pega neles e põe-nos em cima do tronco. E consegue também salvar os pais dos bebés.
     Entretanto a chuva passou, e os sapos que foram salvos pelo sapo da coroa, quiseram recompensá-lo e levaram-no para um belo lago cheio de água limpa, transparente, e com as bicas de água sempre a correr, nenúfares, e peixinhos, numa casa que mais parecia um palácio. 
    O sapo fica tão feliz, que mergulha na água para se lavar, e depois instala-se confortavelmente num nenúfar e deixa-se levar pela corrente da água. 
      Os outros sapos e sapinhos e rãs seguem-lhe o exemplo.
- Áh! Depois de tanto trambolhão, finalmente descanso. E aqui cheira bem, a água é limpa…!  
- Áh! Que bom!
- Acho que me vou mudar para aqui.
- Eu também não saio mais daqui.
     Enquanto o sapo saboreia aquela paz, uma das filhas vai à janela do seu quarto e vê as três luzes da coroa do sapo.
- Que luzes são aquelas no lago? Não estavam ali! Serão fadas?
     Ela chama a mãe e mostra-lhe. Toda a família sai de casa e vai ao lago.
- Sapos…? – Exclamam todos
         As mulheres e as crianças gritam:
- Ááááhhh…que nojo!
- Tira essa porcaria daí. – Implora a mãe da menina
    O pai pega numa enxada e molha-a na água.
- Óh, sorte maldita! – Grita um sapo nervoso
- Estávamos tão bem. – Grita uma rã assustada
- Porque é que vem mexer connosco…? – Pergunta outro sapo nervoso
- Óh não!
  Os sapos escondem-se debaixo dos nenúfares e atrás da estátua, debaixo da estátua…onde podem.
- Pára, pai. – Grita a menina
- O que foi?
- O sapo tinha alguma coisa diferente…
- O quê?
- Sim…tinha alguma coisa que brilhava.
- Não pode ser!
- Olha.
   A coroa do sapo aparece, e ele olha assustado para a família.
- Pois tem…! – Diz o pai
- Tem uma coroa! – Diz a menina surpresa
- Por favor…não nos faça mal. Acabamos de passar por uma tempestade, e viemos aqui parar sem dar por isso. Temos sapinhos pequeninos que foram arrastados pela corrente, e estão muito assustados. Por favor, deixe-nos descansar só um bocadinho. Assim que estivermos bem, vamos embora. Sabemos que não gostam de nós. Minha senhora linda…com todo o respeito…por favor…sei que tem nojo de nós, mas por favor…deixe-nos ficar só um bocadinho. Temos um aspecto feio, e nojento, mas não lhes fazemos mal, nem somos venenosos. Também não estragamos nada e até podemos protegê-los dos mosquitos.  
     O sapo pede com um tão inocente, tão humilde, que o senhor da casa fica com pena dele. A dona da casa sorri, e diz:
- Mas este sapo é um fenómeno…sim, é tudo verdade o que disseste. Está bem, fica.
- Óh…pobres! Está bem, deixai-vos estar. – Diz o senhor  
- Áh! Que bonito…ele tem uma coroa. – Repara o irmão mais novo
- E brilha no escuro! – Diz o outro irmão
- Áh! Então eram as luzes que eu via na água. – Diz a menina
- Sim, é isso. A minha coroa brilha no escuro! – Confirma o sapo
- Nunca outra vi! – Diz o senhor
- Nem eu! – Diz a senhora
- Mas que giro. – Diz outra senhora
   Os vizinhos apercebem-se de alguma confusão de volta do lago e vão ver o que é. Todos ficam muito surpresos e encantados com a coroa do sapo. 
       Espalham a novidade, e toda a aldeia vai visitar milhares de vezes o lago onde está o sapo da coroa que brilha no escuro. 
    Tiram-lhe centenas de fotos, ele faz alguns espectáculos, recebe muitos aplausos e é simpático com todos.
     O sapo torna-se o centro das atenções e gosta. Mas uns dias depois, começa a ficar cansado de tanta agitação, tantos olhos em cima dele, tantas fotos, tantas vozes…fartou-se da sua vida de vedeta e fugiu. Os outros seguiram-no.
Saltou vários minutos pelos campos, muito depressa sempre a olhar para trás, para ver se estava a ser seguido. 
Não é que ele não gostasse de viver naquela água tão limpa e cheirosa, mas estava já com saudades da sua casa, do seu cantinho, que ainda que não fosse um palácio, era lá que ele tinha o seu cantinho, estava sossegado, e tinha companhia. Quando queria estar sozinho, refugiava-se na sua coroa e os amigos deixavam-no em paz.
Já tinha muitos amigos, e sentia-se feliz naquele sítio. Tinha mais liberdade. Quando chegou lá, teve uma grande surpresa. 
A água já estava limpa, transparente, via-se o fundo, e as pedras, já não havia ervas daninhas, nem mau cheiro, e os seus amigos esperavam-no, já há vários dias, por isso receberam-no numa grande festa.               Ninguém tinha ocupado o seu lugar debaixo da ponte, onde se protegia do frio. 
Uma veterinária muito novinha construiu uma casinha muito confortável e quente, para o sapo, que ela sabia que estava lá. 
Trocam abraços e beijos, festejam, e o sapo volta a ser quem era, feliz e com a sua coroa que brilhava no escuro. 
Ele adorou a sua nova casa, no sítio onde nasceu e sempre viveu.
- Áh! Que bom que é voltar à nossa casinha! A quem nos ama. Obrigado, amigos, e até já.
   Entra na sua nova casa, instala-se confortavelmente, aconchega-se e dorme feliz.
FIM
Lara Rocha 
(18/Setembro/2014)



quarta-feira, 17 de setembro de 2014

AS MÃOS ENRUGADAS


        Era uma vez uma senhora de muita idade, que vivia sozinha na sua casa pequenina, uma vivenda com quintal à frente e jardim atrás, onde ela gostava de passar o dia, com o sol. Ficava num bairro de uma enorme cidade.
A sua melhor amiga era a solidão, uma mulher jovem, parecida com ela, que ela conheceu há muitos anos, e viviam na mesma casa. Essa jovem não envelhecia.
As duas conversavam durante longas horas, passeavam juntas e riam e choravam. Um dia, a jovem solidão desapareceu sem dizer nada.
A pobre senhora procurou-a desesperada, por toda a casa, fora de casa, e entre as plantas:
- Solidão…solidão…onde estás? Foste-te embora, e deixaste-me aqui sozinha? E agora, o que vai ser de mim…? Não tenho mais com quem conversar!
        Sai a porta a chorar, e apanha um grande susto! Está a linda jovem solidão, cheia de luz, com uns lindos cestos de animais bebés: cãezinhos, gatinhos, coelhinhos, pintainhos, e carneirinhos.
- Voltaste, querida solidão? – Pergunta a senhora velhinha com um sorriso aberto
- Claro. Pensaste que eu ia embora? – Perguntou a solidão a sorrir
- Sim!
- Óh, não…tu sabes que nunca te abandonaria!
- Felizmente…Isso já os meus filhos, netos e marido fizeram…Ia ser muito mau se também tu, minha amiga de tantos dias e tantas horas, fosses embora.
- Óh, não digas essas coisas tão tristes! Sabes que eu não gosto de ouvir isso.
- Óh filha, mas é a realidade.
- Não. A realidade é que estás viva, estás bem de saúde, bem de cabeça, e não estás sozinha. Vais ver que um dia os teus filhos e netos vão voltar.
- Um dia? Quando? Quando a casa estiver vazia?
- Nada disso! Um dia destes. Vais ver. Vá lá…eu fui buscar-te umas prendinhas, não é para te ver chorar…é para te ver sorrir e feliz. (Sorriem) Esquece essas coisas feias e tristes, prometes?
- Está bem…prometo. Aliás, agora que tu voltaste, estou feliz.
        A senhora abre um grande sorriso.
- Olha que maravilha…
        A jovem entrega os cestinhos com os animais, e tem lá uns bilhetinhos. Ela lê:
- Avó: cuida destes bichinhos que te mandamos com muito carinho. Amamos-te. Beijos dos teus netos. O outro papel dizia: Mãe de luz…estaremos juntos muito em breve. Enquanto isso, toma conta destes presentes que nos deram, mas infelizmente não podemos ficar com eles. Até já.
        As mãozinhas enrugadas tremem e juntam os papéis ao coração. Dos seus lindos olhos muito azuis, caem umas lágrimas que parecem cristais transparentes. E da sua boca brilha um enorme e aberto sorriso de felicidade.
- Então? – Pergunta a solidão
- Os meus netos e os meus filhos enviaram-me estes presentes, para eu cuidar…eles não podem ficar lá com os bichaninhos, e diz que voltam muito em breve…
A solidão fica muito feliz, e entrega as cestinhas à velhinha, e dá-lhe um sonoro beijo.
- Ai, que riqueza… - Diz a velhinha feliz
- Eu disse-te que eles iam voltar.
        A velhinha acaricia cada bichinho, deliciada com a maciez do pêlo, e encantada com o seu tamanho.
- Tão pequeninos! Que lindos. Toca-lhes… – Diz a velhinha. (A solidão acaricia-os também) Que bom!
        As duas acariciam os bichinhos e arranjam nuns cantinhos, umas caminhas muito confortáveis para eles. Soltam-nos e dão-lhes de comer e de beber.
- Tu nunca me vais deixar, pois não, solidão?
- Não! Claro que não. Eu gosto muito de ti.
- (sorri) Eu também gosto de ti.
        O tempo passa, os bichinhos crescem, e tornam-se os melhores amigos da senhora, muito meigos, brincalhões, recebem muitos mimos das duas, e são uma companhia maravilhosa.
A senhora vai passear os cãezinhos e os gatinhos, e os outros ficam na sua gaiola. A jovem solidão acompanha-a sempre, e todas as crianças e adultos por quem passa, vão ter com ela, cumprimentam-na, falam alegremente com ela, fazem-na rir, dão-lhe carinhos e brincam com os animais, felizes.
A velhinha nunca mais foi a mesma, desde que recebeu os bichinhos. As suas mãozinhas enrugadas ainda tinham força para pegar nas coisas que precisava, nos animais, e para abraçar e acariciar quem se cruzava com ela, e reparava em si e nos seus animais.
Os animais passaram a ser um atractivo para todos, e assim, a velhinha passou a andar sempre com um sorriso aberto, e uns lindos olhos brilhantes.
Era uma senhora adorada por todos, e respeitada. Sempre que podia ajudava também quem precisava. Chega o Inverno. Numa tarde em que chovia torrencialmente, com neve.
A senhora não sabia quando é que os netos e os filhos iam regressar, mas também só pensava nisso, e ficava mais triste, quando era noite. Rezava sempre por eles, para que chegassem em segurança, e para que estivessem bem.
Sentada à lareira, olhava para as suas mãos enrugadas e relembrava momentos da sua vida…para se distrair e não ficar triste, a solidão distraia-a com conversas e brincadeiras. Também fazia malha, roupas e mantas para os filhos e para os netos, e para outras pessoas que pediam.
Estava ela muito ocupada, quando de repente tocam à campainha.
- A esta hora? Quem será? Ai…eu até tenho medo de abrir.
- Vai…não tenhas medo.
        A senhora levanta-se e assustada pergunta:
- Quem é?
        Do lado de fora respondem em coro muitas vozes:
- Somos nós.
        Ela reconhece as vozes, abre a porta, e que enorme surpresa e felicidade: os filhos e os netos chegaram.
- Olá! – Dizem todos a sorrir muito felizes.
- Avó… - Gritam os netos com um grande sorriso
- Mãe…! – Gritam os filhos da senhora com um grande sorriso.
- Meus amores…! – Grita a senhora muito feliz.
        Trocam muitos abraços e beijos, carinhos e risos. Entram em casa, e vêem os bichinhos, do mais doce que podia haver…tão meigos que se enroscaram logo em todos, e lamberam, abanaram os rabos, como se já fizessem parte da família há muito tempo.
A senhora não cabe em si de felicidade, e enquanto vêem os outros animais e descarregam os carros, ela prepara um chá bem quente, com um sabor delicioso, e oferece uns biscoitos de vários sabores que tinha feito nesse dia.
Todos saboreiam deliciados, conversam alegremente uns com os outros, riem, contam as aventuras todas.
- Mãe: viemos para ficar cá!
- Vamos montar uma casa que compramos aqui mesmo ao lado da tua.
        A senhora abre um grande sorriso de felicidade:
- Óh meus amores…meus filhos e meus netos…vocês são o meu melhor presente! Não sabem como estou feliz…
- Nós também estamos muito felizes. – Respondem os filhos
- Podiam ter dito quando vinham…
- Quisemos fazer-te uma surpresa! – Diz o neto
- Tão lindos. – Diz a Avó
- E os bichinhos como se portaram?
- Óh, maravilhosamente bem…são uma doçura.
        A senhora conta todas as aventuras, e coisas boas que os animais lhe trouxeram. Todos ouvem encantados, e riem. Também contam muita coisa que lhes aconteceu. Ficam a conversar até altas horas da madrugada, com muitas gargalhadas.
        Nesse dia todos foram dormir felizes, e a senhora nunca mais se sentiu sozinha nem triste, porque tinha a sua amiga solidão, mas também tinha os filhos e os netos mesmo ao lado, na casa deles, que estavam sempre lá. Os animais também tiveram direito a uma casotinha muito confortável, e a todo o espaço à frente das casas, no quintal.
        Mesmo com as suas mãozinhas enrugadas, era uma senhora muito activa, simpática, meiga, que adorava companhia, cozinhava, fazia lindos trabalhos à mão, contava histórias aos netos, passeava com eles e com os filhos, levavam os animais a passear, mas principalmente adorava encher todas as pessoas que a rodeavam de carinhos, mimos, beijos, abraços e pequenas lembranças.
        As suas mãozinhas podiam estar enrugadas, mas a sua paixão pela vida era ainda uma criança, tal como a sua felicidade e o seu coração que era tão bom.
FIM
Lálá
(16/Setembro/2014)



domingo, 14 de setembro de 2014

O CHÁ DAS SEREIAS

          
Foto de Lara Rocha 

         Era uma vez uma praia sossegada, de águas transparentes e quentes, onde viviam muitos animais marinhos, e sereias. Um dia, as sereias adolescentes quiseram fazer uma festa de anos surpresa para a sereia Mára.
            Juntaram-se todas, compraram prendas, e petiscos para o lanche, incluindo o bolo. Encontram-se, trocam abraços e beijos umas com as outras, e vão ter a casa da sereia Mára.
            Mára não estava à espera, mas fica muito feliz pela visita das amigas, que lhe cantam logo os parabéns e oferecem os presentes com muito carinho.
            Fizeram tanto barulho, que todos os animais ficaram muito nervosos. O Rei submarino expulsa-as, e nem se lembra que Mára faz anos.
            Elas sabiam que não podiam agitar as águas daquela maneira, mas com a felicidade, nem se lembraram. Mesmo assim, não ficaram tristes, porque conheciam um esconderijo secreto, na superfície e levaram tudo para lá.
            O esconderijo ficava numa grande gruta, entre rochedos, com água e areia. Era muito agradável. Elas iam para lá, muitas vezes, e divertiam-se muito com as suas festas. Esta era especial.
Montam as mesas, numa grande animação, com bebidas e comidas, e o bolo. Cantam e dançam alegremente enquanto preparam tudo e conversam animadas umas com as outras. Mára abre os presentes, e agradece um por um, encantada e muito feliz.
Estava uma noite de luar maravilhosa, que se reflectia na água transparente e na areia, e quase parecia dia. Estava tudo muito calmo. De repente, algumas estrelas brilhantes caem numa espécie de balão em forma de Lua Cheia, descem devagar e pousam na areia, toda iluminada.
Mára não sabe se aquilo é para ela. Aproximam-se…e…surpresa…é uma prenda dos seus pais e de todos os adultos do mar, a desejar feliz aniversário. E todos os adultos aparecem à superfície.
Todas as suas amigas ficam emocionadas, e sorridentes. Um grande coro de vozes adultas e adolescentes, canta os parabéns à sereia Mára, que mostra um sorriso de orelha a orelha, e muitas palmas.
- Muitos parabéns, filha! – Dizem os pais em coro
            Ela abraça-os e beija-os feliz.
- Muito obrigada, mamã e papá. Adorei o presente…mas principalmente, a vossa presença! – Diz Mára feliz
- Era o que tu querias, não era? – Pergunta a mãe
- Sim! Bem, quer dizer…não vos ia exigir nada…porque os maiores e mais valiosos presentes já me dão todos os dias, mas sim, era um desejo meu, já há muito tempo.
- Eu lembro-me! – Diz a mãe a sorrir
- Tu pedias às estrelas! – Diz o pai
- Sim, pois era… - ri Mára
- Elas ouviram o teu desejo e realizaram-no! – Diz a mãe
- É! Uma lua com luz, e estrelinhas brilhantes. – Diz Mára encantada
- Uau! Que lindo! – Dizem as sereias
- Pois é! – Diz Mára a sorrir
- Muitos parabéns, pequena! – Gritam os outros adultos em coro
- Muito obrigada, Tios e Tias. Bem me parecia que não se iam esquecer! – Diz Mára
- Claro que não! – Respondem todos.
- Ainda há poucos dias, era um bebé lindo…agora…estás uma mulher. – Comenta uma tia
- E como estás linda! – Diz outra tia
- Óh minha querida, és o meu orgulho! – Diz outra tia emocionada e sorridente
- Obrigada, Tia. Eu também gosto muito de ti. – Diz Mára
- O dia em que nasceste foi o dia mais feliz da minha vida… - Suspira a madrinha de Mára
- Obrigada, Madrinha…és sempre a mesma delícia! – Diz Mára
- Ai, 16 anos…quem me dera! – Suspira outra tia
- Óh tia pode continuar a ter 16 anos, como eu! – Diz Mára a rir
- Ai, filha… (ri) o corpo já não responde da mesma maneira como respondia quando eu tinha a tua idade! – Diz a tia
- O que interessa é a sua criança de dentro! – Diz Mára
- Pois, pois…! Isso dizes tu, agora! – Diz a tia a rir
- Há bocado não vos expulsei por mal…e fiquei muito envergonhado quando me disseram que fazes anos. Era por isso que estavam tão agitadas e fizeram aquele barulho todo… - Explica o Rei marinho
- Pois! – Respondem as sereias todas
- Mas não se preocupe…o tio teve razão…esquecemo-nos da regra que não podemos agitar os mares… - Diz outra sereia
- É. Mas hoje é um dia especial! Desculpa, filha Mára – Diz o Rei
            As surpresas não ficaram por aqui…de repente, no mar, aparecem vários golfinhos acrobatas, e dançarinos com bolas de luz nas caudas e nos focinhos. Ao cruzarem-se faz um efeito encantador…lindo!
As estrelas-do-mar e as conchas tocam músicas, e os golfinhos dançam, fazem habilidades e brincam. Todos aplaudem sorridentes. Depois, assistem a um desfile de cavalos-marinhos, que dançaram e brincaram ao som das músicas, e de algas brilhantes dançarinas. Fantástico.
E por fim, uma sessão de fogo-de-artifício no mar com todas as imagens que a sereia Mára gosta, acompanhado de música, com a frase final de muitos parabéns e as maiores felicidades! Amamos-te!
Todos aplaudem muito, e sorriem. No fim da festa trocam abraços, beijos e prendas com a Mára, cantam os parabéns e cortam o bolo, que está delicioso!
 No fim da festa, Mára e as sereias fazem um chá digestivo para elas e para todos os convidados, numa enorme concha, e é servido em copos em forma de búzios. É um chá que todos os seres marinhos adoram.
O chá é tomado na areia, com vista para o mar e debaixo da fantástica lua cheia que brilhava no céu, juntamente com as estrelas. Já todos estão com muito sono, e a sereia Mára abraça-se ao seu candeeiro de luz, em forma de lua cheia com estrelas brilhantes penduradas e espalhadas por todo o candeeiro.
É um candeeiro mágico, porque só acende quando lhe tocam, e a sua luz aumenta ou diminui conforme a intensidade com que tocam. Mára pega no candeeiro com as duas mãos e passa por cada convidado. Pede para cada um tocar, porque quer sentir o amor que cada um tem por ela, e quer ver a luz que ele dá.
Todos tocam com muito carinho para ver a sua luz. Que momento tão calmo, tão bonito! Mára levanta o candeeiro para a lua e diz:
- Muito obrigada, Universo, por mais um aniversário, por toda a minha saúde, pelos pais, familiares e amigos maravilhosos que tenho, por todas as surpresas do dia de hoje, e por mais um ano de vida!
            Todos aplaudem. Mára encosta o candeeiro a si, abraça-o e beija-o. Regressam ao fundo do mar, cansados, mas felizes, e todos dormem descansados. Mára dorme abraçada ao seu candeeiro, que dá luz toda a noite, e por isso, ela dorme a sorrir.  

FIM
Lálá

(13/Setembro/2014) 

terça-feira, 9 de setembro de 2014

OS TOTÓS DA JÚ

          

  Era uma vez uma menina que se chamava Joana, ou Jú. Era linda, e tinha pele morena, olhos castanhos-claros, uns cabelos enormes, castanhos-escuros, e lisos, que geralmente andavam presos: umas vezes com um rabo-de-cavalo, outras vezes com uma trança que a sua mãe fazia com todo o jeito e carinho, ou dois totós e duas tranças.
            Enquanto a sua mãe trabalhava durante o dia, e o seu pai estava no estrangeiro, a Jú ficava com a sua Avó, ainda a dormir porque a mãe deixava-a muito cedo, e dormiam as duas o resto do sono.
            Quando a Jú acordava, ela e a Avó tomavam o pequeno-almoço juntas, e depois tinham o dia todo para fazer muitas coisas. Iam às compras, costuravam, faziam roupas para elas e para as bonecas da Jú, cozinhavam, arrumavam a casa, cuidavam dos gatos, dos cães e dos pássaros, passeavam pelo jardim, pintavam, e faziam tudo o que fosse preciso.
            Nunca estavam paradas e divertiam-se muito. Numa tarde, foram para o jardim, e a Jú tinha dois enormes totós, um de cada lado. E por causa disso, teve uma grande surpresa!
Um monte de borboletas e joaninhas vermelhas de pintas pretas pousaram nos seus totós e andaram de baloiço. A Avó estava encantada, fotografou e filmou, e a Jú também se riu bastante.
Dirigiu-se para o lago, e sentou-se na berma. Olhou para a água que estava muito limpinha, e aí outras borboletas pousaram nos seus totós e andaram de baloiço.
Depois apareceram umas fadas da água, muito pequeninas que dançaram alegremente, em cima dos seus totós, escorregaram neles às gargalhadas, agarram-se nas pontas dos totós que estavam penduradas e fizeram acrobacias em fios de cabelo. E ainda fizeram dos seus totós uma prancha para saltar para o lago.
Como estava muito calor nesse dia, a Avó deixou a menina vestir o fato de banho e ir para dentro do lago, com os totós. Ela mergulhou feliz, e nadou debaixo da água.
As fadas e as borboletas pousaram nos seus totós e agarram-se, como se estivesses a andar de barco ao sabor dos movimentos que a menina fazia com os totós, e brincaram alegremente com ela. A Avó nunca tinha visto daquilo. Tantos bichinhos pousados nos totós da sua neta Jú. Eram borboletas, joaninhas e fadinhas.
A Jú fartou-se de saltar na água e de rir, sempre com as suas amiguinhas nos totós. Dançou com as fadas dentro de água, brincou com os totós, sacudiu-os e molhou tudo à sua volta. As fadas mergulharam e riram muito, e as borboletas fizeram desenhos na água agarradas aos totós da Jú.
Desde esse dia, não largaram mais os seus totós. Afinal, os totós da Jú não eram só para prender os seus enormes cabelos. Também serviam de divertimento para borboletas, joaninhas e fadinhas. E a Jú adorava brincar com os totós e com os bichinhos amigos que pousavam neles. Brincavam todos os dias!

FIM
Lálá
(9/Setembro/2014)