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domingo, 10 de agosto de 2014

Um amor que se vê

Era uma vez uma princesa gigante...tão gigante que só tinha espaço para si, muito lá em cima! Nas nuvens...era gigante e...feia. Adorava andar vestida de preto, pela sua eterna tristeza, e chorava durante longas horas, todos os dias.
            Um dia, a princesa vénus, uma estrela linda, brilhante, luminosa, cruzou-se com a princesa noite e apanhou um grande susto. Deu um grito tão estridente...parecia quase vidros a partir. A princesa noite grita também porque não era costume encontrarem-se.
- Que susto! – Dizem as duas a olhar uma para a outra
- Devo ser ainda mais feia do que aquilo que imagino...! – Comenta a princesa noite
- Eu não disse isso! – Corrige a estrela vénus
- Não disseste porque és delicada e simpática...mas o grito que deste falou por ti!
- Desculpa...não contava contigo! Não costumo ver-te por aqui...!
- É! Eu não ando muito por aqui!
- Porquê?
- Porque...costumo ficar em casa.
- Eu costumo vir sempre dar uma olhadela pela terra.
- Áh! Sim. Eu também ando de noite, para não verem como sou feia.
- Porque estás sempre a dizer que és feia?
- Não vês?
- O quê? Que andas de roupa preta?
- Sim! Eu não tenho nada de bonito. Já tu és tão linda!
- Olha que há muita gente na terra a gostar de ti.
- Há?
- Há.
- A sério?
- Sim.
- Como é que sabes?
- É o que vejo.
- Óh. És mesmo querida!
- É verdade, não estou a dizer isto só para ser simpática.
- Ainda bem.
- Tu andas sempre vestida de preto?
- Ando.
- Porquê?
- Porque sou triste e feia.
- Mas o que é que tem a cor da tua roupa, com a tua tristeza?
- O preto é uma cor triste... sabes, no fundo eu não gosto de usar tanto a roupa preta, mas não consigo usar outra.
- Mas porque não consegues usar outra cor? Não tens ou não queres?
- Porque sou triste! O preto é uma cor triste.
- Depende. Se for tudo preto, sim, dá a impressão de tristeza, mas há tantas cores...alegres...devias usar mais essas cores, em vez de preto, ou misturada com preto, que fica bonito, e assim sentias-te mais feliz.
- Achas que funciona?
- Funciona! Garanto-te.
- Tu também fazes isso?
- Faço.
- Áh! É por isso que és tão bonita e feliz.
- Sim. Eu quero muito ajudar-te...! Posso?
- Sim! Achas que consegues?
- Acho que sim.
- Qual é a tua ideia?
- Vou dar-te um pouco da minha luz, e das minhas cores!
- Mas...como?
- É muito fácil...
- Mas depois ficas sem luz e sem cores!
- Não fico nada. Tenho cores e luz para todos...e quanto mais dou, mais ganho!
- Ai é?
- É!
- Áh! Que lindo...e como fazes isso?
            A estrela bate duas palmas, e milhares de outras estrelas começam a tocar uma série de instrumentos musicais, e vénus começa a mexer-se em todas as direcções ao som das músicas, dança e à medida que se mexe começa a soltar raios brilhantes de luz, cheios de estrelas que se colam ao vestido da princesa noite.
            A princesa noite ganha uma nova energia e uma nova alegria, dançando também com a estrela com um grande sorriso. Fica encantada com a sua nova roupa.
- Mas que linda que estás!
- Óh! Estou mesmo! E estou muito feliz! Muito obrigada.
- E como vês, eu continuo na mesma.
- Sim. E estás mesmo mais brilhante e feliz.
            Entretanto passa o rei sol, tão rápido, que rasga o vestido da princesa noite, de cima a baixo. As duas gritam e abraçam-se.
- Quem é este? – Pergunta a noite
- É o Rei Sol...deve estar outra vez atrasado para ir para o trabalho!
- Mas que bruto! Olha o que ele fez ao meu vestido...! Tu com este trabalho todo e carinho a dar-me estrelas e luz, e este furacão passa, dá cabo de tudo!
- Conheces o Rei Sol?
- Não.
- Chamaste-lhe furacão, pensei que o conhecias!
- Não! Furacão não é um termo nada carinhoso. Os furacões são ventos terrivelmente fortes, que arrasam tudo o que vêem pela frente!
- Áh! Que horror...esses são os teus amigos?
- Não! Nada amigos...tenho muito medo deles!
- Eu não os conheço, mas pelo que tu dizes, também já não quero conhecê-los!
- É. Quando os vires é mesmo melhor fugires!
- Que terror.
- São mesmo.
- Vamos arranjar o teu vestido.
            As duas ficam a arranjar o vestido da princesa noite. A estrela vénus prega mais brilhantes e luzes aos milhares. Quando o sol passa pela noite, está muito envergonhado. A noite vira-lhe as costas zangada. O sol pede desculpa:
- Princesa...perdoa-me! De manhã estava atrasado, que acho que te rasguei o vestido. – A noite não responde – Óhhhh...o que posso fazer para te ajudar...e...perdoares-me?
- Nada! É manteres-te à distância e não voltares a destruir o meu vestido!
- Está bem! – Diz o sol triste. – Mas não te quero ver triste!
            A noite não responde. O sol dá uma volta pelas estrelas e resolve mostrar o seu romantismo. Oferece à noite um saquinho de estrelas, doces planetas, flores da lua, cometas, e lindos anéis de sóis.
            A noite fica tão feliz que perdoa o sol, e tornam-se grandes amigos. Tão amigos que para agradecer...a noite deixava que o sol descansasse no conforto do seu colo, abraçam-se, passeavam, dançavam...e a amizade tornou-se cada vez maior, mais forte, até que não conseguiam viver mais um sem o outro.
            Nasceu entre eles um gigantesco amor, que mesmo trabalhando por turnos encontravam-se muitas vezes por dia, trocavam juntos. Foi assim que se começaram a ver na terra pelos humanos! O seu amor era tão gigante que quiseram servir de exemplo para todos. Mas muitos deles não aprenderam a lição. Uns porque tinham inveja, outros porque nem sequer têm tempo para olhar para o que é tão bonito. Mesmo assim, o mais importante é o amor entre os dois, e a felicidade. O que os outros pensam não lhes interessa.
            Era bom que todos os amores fossem assim, e que se pudessem ver na terra, sem julgamentos ou críticas, em vez de se ver todos os dias a guerra entre iguais.

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                               (28/Julho/2014)




A Pastorinha


    
Era uma vez uma pequena criança de cinco anos, que se chamava Catarina e vivia com os pais, avós e outros irmãos, numa pequenina vila histórica muito antiga, perdida e esquecida na montanha.
       Os habitantes nunca tinham saído de lá porque tinham tudo muito perto, até centro de saúde, um mini hospital e supermercado. Eram felizes e tinham boa saúde.
       As crianças só não iam à escola porque nenhum professor concorria para lá, por ser longe e isolada. Por isso nem os pais, nem avós e as crianças, sabiam ler nem escrever. Brincavam e ajudavam os pais e avós nos campos e em casa.
   Catarina tomava conta das ovelhas. Levava-as bem cedo, antes dos primeiros raios de sol aparecerem, na companhia dos grandes cães pastores da serra, enchouriçada de roupa porque de manhã e à noite estava um frio cortante, mas à medida que o dia ia avançando e ficava calor, ela tirava roupa
   Além da roupa, Catarina levava o almoço e pequenas delícias para comer sempre que tivesse fome! Sopa, broa, pão e chá feitos em casa com todo o carinho pela mãe, e os outros petiscos era a Avó que os fazia.
    A menina falava com todas as ovelhas, e dava nome a cada uma delas. Elas já a conheciam e já estavam habituadas a ouvi-la, porque Catarina tinha longas conversas com elas. Ela cantava, ria, saltava, corria, às vezes adormecia, apreciava a paisagem e sonhava acordada.
     Num amanhecer aparentemente igual aos outros, de um dia de sol, aconteceu uma coisa muito especial.
- Sabem uma coisa, meninas…eu quando durmo sonho com umas folhas cheias de desenhos, riscos, mas não percebo nada do que está lá. O que será isso?
         As ovelhas bramem, e ela boceja.
- Também não sabem? Eu nunca vi aquilo. A quem é que eu poderei perguntar? Os meus pais e os meus avós não sabem! Bem, enquanto não encontro a resposta…se não se importam, vou dormir um bocadinho. Se houver alguma coisa acordem-me. Já viram…? Já está um bocadinho claro, mas ainda há estrelas no céu. Que lindas. Parece que hoje vai estar sol, só espero que não esteja muito calor. Até já.
     As ovelhas bramem, e vão ao pasto dela. Catarina deita-se encostada ao cão, debaixo de uma enorme árvore, cheia de troncos e folhas. 
   As suas raízes eram tão grandes que estavam à superfície, e serviam de banco, mesa e cama para a pastorinha. Era aqui que ela se protegia do frio, da chuva e do calor. 
    Esta árvore era mesmo muito especial para ela, quase parecia uma pessoa a tomar conta dela. Catarina sabia que estava segura e podia ficar descansada. Como era ainda muito cedo, a menina dorme mais um bocado
   De repente, as ovelhas e os cães ficam muito nervosos e agitados: os cães ladram e uivam, as ovelhas bramem e juntam-se, andam de um lado para o outro. 
  Estão a sentir uma presença, e a ver duas pequeninas luzes brilhantes e lindas, a andar devagar. Catarina acorda sobressaltada!
- O que foi? Porque é que estão tão agitadas e nervosas?
    E aproximam-se dela duas luzes: lindas, leves e brilhantes. Uma é a fada das letras, e a outra é a fada dos livros.
- Bom dia! – Dizem as fadas em coro
- Bom dia! Uau. Que lindas! Quem são vocês? – Responde e pergunta Catarina a sorrir.
- Eu sou a fada das letras!
- E eu sou a fada dos livros.
- Se calhar nunca te falaram de nós, porque andamos mais pelos livros, e sabemos que tu não conheces os livros. – Acrescenta a fada dos livros
- Pois é. O que é isso? – Pergunta Catarina
  As fadas explicam. Catarina fica maravilhada, principalmente, quando as fadas mostram um livro e as palavras.
- Áh! Eu sonho muito com isto! – Diz Catarina
- Com livros? – Pergunta a fada dos livros
- Sim…eu não sabia o que era, mas agora, quando me mostraram este, percebo que sonho com…livros.
- Que bom! – Dizem as fadas a sorrir
- E gostas de sonhar com livros? – Pergunta a fada dos livros
- Gosto…acho que gosto. Mas não o que diz lá.
- Tu gostavas de saber ler e escrever? – Pergunta a Fada dos livros
- Sim! Gostava muito…mas os professores não chegam aqui. Temos uma escola, mas nunca vamos para lá porque não há professores.
- Pois! – Dizem as fadas.
- Mas a partir de hoje, haverá escola, livros e letras para todos os meninos que quiserem. – Diz a fada dos livros
- E nós seremos as professoras! Eu ensinarei as letras, e ela vai-vos dar os textos e livros. – Explica a fada das letras
- Eu quero muito aprender letras e ver livros. Quando começa? – Pergunta Catarina
- Pode começar hoje mesmo! – Diz a fada das letras
- Boa! Posso ir chamar os meninos? – Pergunta Catarina
- Claro que sim. Encontramo-nos na escola. – Diz a fada dos livros.
- Muito obrigada! – Diz Catarina
   E Catarina vai de porta em porta, onde há crianças, e leva-as para a escola. Num instante, ela aparece na escola com mais 12 crianças da idade dela, com quem brinca muito. Estão todas muito curiosas e entusiasmadas.
     As fadas apresentam-se, e as crianças também. Estão todos encantados com as professoras. E a fada das letras começa a ensinar a primeira letra. Põe a letra no quadro, em material e mostra desenhos da letra, com imagens de palavras começadas por essa letra. 
       Os meninos conhecem todos os objectos que ela mostra, mas não sabiam que começavam por essa letra, e que se escrevia assim.
     Depois, aprendem outra letra, e mais outra…todos os dias aprendem letras diferentes, e rapidamente sabem desenhá-las e identificar.
   Nas semanas seguintes, depois das principais letras estarem sabidas, a fada dos livros dá às crianças pequeninas e simples frases, e a fada das letras ensina a juntar as palavras e as letras.        
  Aprendem a ler, primeiro as frases, depois pequeninos textos, até grandes textos, e ouvem todos os dias lindas histórias contadas pelas fadas.  Estão todos tão felizes, e os pais orgulhosos.
     A pequenina vila fica cheia de livros que as fadas oferecem, e ganha uma nova vida, uma nova alegria, com as crianças na escola. São alunos muito interessados e aplicados, que adoram aprender.
      Mesmo assim, não deixam de ajudar os pais e os avós, só que agora são cabecinhas mais abertas, que querem aprender mais e mais, e conseguem levar os pais e os avós também para a escola, aprender a ler e a escrever.
     Nas noites de Verão, as crianças juntavam-se com os adultos, para lerem histórias e ouvirem outras histórias verdadeiras, que depois escreviam.
    É muito bom ler, escrever e aprender.
E vocês? Também gostam de ler e de escrever?

FIM
Lálá
(6/Agosto/2014)



A lula, o polvo e a super criança






(Pintado por Lara Rocha, do Livro de Pintar para Adultos) 
 
 Era uma vez uma lula e um polvo ainda pequenos que foram levados pelas ondas, do alto mar, para a costa, para fugir dos terríveis pescadores. 

 Nadaram e mergulharam, até que aterraram na costa muito cansados.

- Mas...já chegamos? – Pergunta a lula ainda cansada
- Já! E achas que andamos pouco?
- Não! Estou com as minhas guelras geladas...e...entupidas.
- Aqueles monstros perseguem-nos.
- Pois é!
- Mas acho que aqui estamos seguros!
- Sim.
- Hummm…aqui há coisas boas. Cheira bem!
- Huuummm…realmente!
        Os dois comeram algas variadas, de tamanhos, cores e texturas deliciosas. Estavam com tanta fome que de tantas algas que comeram cresceram de repente. 
     Gostaram tanto daquele sítio que aí ficaram mais uns dias. Nesses dias cresceram assustadoramente e engordaram, quase sem darem por isso.
     Um pescador viu o tamanho deles, e abriu a boca muito surpreso.
- O que é isto?
     A lula e o polvo não se mexem de tanto que comeram.
- Áh! Vou levá-los...vou ganhar milhões com estes bichos tão grandes...de onde terão vindo? Não são da nossa costa.
      Ele pega nos dois e leva-os para casa. A mulher e a filha pequena assustam-se com o tamanho deles.
- Nunca vi nada assim! – Diz a mulher
- Eu também não! Vamos pô-los em exposição para ganharmos milhões. – Sugere o homem feliz
- Eu não quero isso! – Grita a filha assustada
- Vão ficar lá fora…! – Diz o homem
- Onde encontraste estes monstros?
- Aqui na nossa praia! – Diz o homem
- De onde vieram?
- Não sei...já me perguntei do mesmo! O que interessa é que eles estão aqui, e vão-nos tornar ricos...muito ricos.
- Espero bem que sim.
    O pescador põe os enormes moluscos no terraço e faz reclame para todos irem ver. Nesse dia recebe mesmo muitas visitas e muito dinheiro, porque era novidade e ninguém tinha visto uma coisa daquelas.
     Mas nos dias seguintes já ninguém foi ver. Alguns até pensaram que o pescador estava a exagerar só para ganhar dinheiro. A lula e o polvo conversam:
- Estou farta de estar aqui!
- Eu também!
- E estou farta de ser vista.
- Eu também.
- Já viste que pouca sorte a nossa?
- Pois foi!
- Primeiro...íamos ser pescados por aqueles monstros, e levados para o prato, depois...íamos parar à costa, a pensar que era um sítio seguro...vem este e pesca-nos. E agora, estamos aqui, sem quase nos conseguirmos mexer!
- Queria fugir daqui!
- Eu também, mas não temos saída, pois não? 
- Não!
     A mulher e a filha do pescador, com os ciúmes e zangadas por aqueles animais não lhes darem mais dinheiro, pegam em facas, garfos e tesouras e estão decididas a acabar com eles. 
    Sobem as escadas com ar de ameaçadoras. Mas a super criança estava atenta como sempre, e muito rapidamente, lançou um raio de luz sobre os dois para ficarem muito pequenos. Eles ficam realmente minúsculos, a super criança pega neles e vai pela praia.
- Óh não! – Gritam os dois assustados
- Para onde vamos agora? – Pergunta a lula
- Não se preocupem! Vão para um sítio seguro! – Garante a super criança
- Uma panela? – Pergunta o polvo
- Um tacho? – Pergunta a lula
- Um aquário? – Pergunta o polvo
- Não! Nenhum desses sítios. – Diz a criança
- Ai, que medo! – Suspira a lula
      A super criança pousa-os numa grutinha, uma rocha da praia.
- Onde estamos agora? – Pergunta o polvo
- Estão no sítio seguro! Na mesma praia de onde saíram mas protegidos.
    Estavam lá centenas de moluscos como eles os dois e aproximam-se logo deles.
- Olá! – Gritam todos
- Olá! – Respondem os dois a sorrir
- Bem-vindos! – Diz outro polvo
- Obrigada! – Respondem os dois
- Mas como vieram aqui parar tantos? – Pergunta a lula
- Fomos trazidos pela super criança. A mesma que vos trouxe! Ela é o nosso anjo da guarda.
     Todos aplaudem a super criança. A super criança ri e diz:
- Vou voltar ao trabalho! Fiquem à vontade.
- Muito obrigada! – Respondem todos
     Enquanto a lula e o polvo respiram de alívio por estarem a salvo, e na companhia de tantos iguais a eles, a mulher e a filha do pescador, que iam todas lampeiras, ficam geladas.
- Onde estão aqueles molengos? – Pergunta a filha
- Deviam estar aqui! – Responde a mãe
- O pai disse que estavam aqui, mas não estão!
- E agora?
- Para onde terão ido?
- Será que fugiram ou alguma ave os levou?
- Não sei.
- E agora?
- Agora...nada feito!
   As duas ficam muito zangadas, porque queriam mesmo acabar com aqueles bichos, mas perderam-nos. A super criança apareceu mesmo a tempo!
   As duas descem as escadas aos gritos, e na praia há festa no resguardo das lulas e dos polvos, que voltam a ter a sua liberdade e proteção.
        Tiveram mesmo sorte!

                                     FIM
                                     Lara Rocha 
                                  (29/Julho/2014) 

A CASA DOS BALÕES





            





desenho e pintura de Lara Rocha 


            Era uma vez uma grande vivenda no cimo de uma montanha muito alta, que estava abandonada e muito destruída. Não tinha móveis, e os vidros tinham partido todos. Mesmo assim, como ainda tinha paredes, esta vivenda servia de abrigo a muitos balões que fugiam das mãos das crianças nas cidades mais próximas.
            As crianças ficavam a chorar, porque o balão ia pelos ares, mas, a casa ganhava todos os dias, novos habitantes! Já lá estavam muitos balões, uns pequeninos, outros grandes, uns às cores, outros de uma cor só, e outros com bonecos e formas. Todos eram amigos, os que já lá estavam sabiam receber bem os novos que chegavam. Faziam muitas festas dentro da casa, e brincavam e dançavam juntos.
            Na montanha, já se sabe que o tempo é muito instável…umas vezes um frio que parece que atravessa a pele, outras vezes um gelo de neve, outras vezes sol e calor…nevoeiro…e de tudo um pouco.
            Quando estava frio, os balões juntavam-se muito, debaixo dos telhados, protegidos por grandes folhas de eras e aqueciam-se como podiam. Talvez o calor da sua amizade e do carinho aquecessem tanto ou mais como os aquecedores ou lareiras.
            Um dia formou-se uma terrível tempestade, como nunca antes vista, com ventos ciclónicos, que levavam tudo pelo ar, chuva torrencial, trovões assustadores. Os balões estavam muito assustados, juntaram-se o mais que puderam, e entrelaçaram os fios uns nos outros, para se segurarem.
            Às vezes parecia que o vento era mais forte que eles, mas todos lutavam e faziam muita força para não voarem. Quando um parecia voar, todos se agarravam ainda mais. Com esta tempestade, algumas das paredes da casa ficaram destruídas, mas felizmente, a parte onde estavam os balões aguentou e eles também.
            Depois da tempestade passar, todos festejaram felizes por terem resistido e por estarem todos juntos. E o que sobrou da casa, continuou a ser a casa dos balões onde todos os que voavam das mãos das crianças se abrigavam.
            Os balões começaram a ser tantos, que se conseguiam ver da cidade, quando eles saiam da casa, e davam os seus passeios. Mas entre eles, nunca deixou de haver amizade e união!
FIM

Lálá (4/Agosto/2014)

A BOLA DE SABÃO MÁGICA

          

           Era uma vez uma linda borboleta que vivia numa montanha alta, fria, coberta de neve. Nos dias de frio, a borboleta e outros animais e habitantes da montanha, ficavam recolhidos em casa, junto da lareira. Raramente saiam.
            Um dia gelado, a borboleta viu pela janela da sua casa uma linda bola de sabão a flutuar e a espreitar pelas janelas. A borboleta abre uma frincha da janela e perguntou à bola de sabão o que estava a fazer ali naquele frio.
            A bola de sabão respondeu à borboleta que tinha vindo de muito longe, lá de baixo da cidade, onde estava frio mas não havia neve como na montanha.
             A borboleta ficou com pena da bola de sabão e convidou-a a entrar na sua casa. Quando a bola de sabão entrou, transformou-se numa borboleta tão bonita como a outra, mas com muitas cores e bolinhas nas asas.
- Áh! Tu também és uma borboleta? – Pergunta a borboleta
- Sim…sou muita coisa, além de uma bola de sabão! – Explica a bola de sabão
- Bem-vinda à minha casa!
- Muito obrigada por me teres aberto a porta!
- Não te ia deixar a este frio! Era por isso que estavas a espreitar pelas janelas?
- Sim! Estava a ver se encontrava um sítio para me abrigar.
- Encontraste! Vou fazer-te um chá para aqueceres!
- Obrigada. Aceito!
            As duas tomam o chá e conversam alegremente, riem, passeiam juntas, cantam e dançam, brincam e divertem-se muito. Umas vezes a bola de sabão transforma-se noutras coisas e faz pequenas magias à sua amiga, que aplaude maravilhada e também aprendem muito uma com a outra.
            Desde este dia tornam-se inseparáveis.
                                                           FIM
                                                           Lálá

                                               (30/Julho/2014) 

A ALDEIA ESCURA

foto de Lara Rocha 

            Era uma vez uma aldeia que ficava no fundo de uma montanha enorme entre pinheiros enormes e árvores com tantas folhas que formavam túneis. A vegetação era tão densa que quase não deixava entrar o sol, por isso também era um sítio muito frio e húmido.
            As casas eram todas brancas, as pessoas usavam muita roupa escura para se protegerem do frio. Como praticamente não viam o sol, os próprios habitantes eram tristes, brancos e frios uns com os outros.
            Um grupo de fadas voava sobre essa vegetação, e nem faziam ideia de que por lá debaixo havia uma aldeia.
- Olha tantas árvores ali em baixo! – Repara a fada rosa
- Vamos ver com mais pormenor… - Sugere a fada lírio
- É. Acho que vai chover muito! Talvez possa ser o nosso abrigo. – Diz a fada brincos de princesa
- Claro que sim. – Respondem em coro
            E descem para a vegetação. Quando percebem que há casas lá debaixo, atravessam as folhas.
- Uma aldeia! – Gritam em coro muito surpresas
- Que sítio tão escuro! – Diz a fada gotinha
- Ui. (treme) Que frio! – Diz a fada Margarida
- Atchim! – Espirra a fada Kika.
- Viva! – Dizem todas
- Obrigada!
- Atchim! – Espirra a fada mel
- Viva! – Dizem todas
- Obrigada.
- Até parece que há nevoeiro…ou é dos meus olhos? – Pergunta a fada Carol
- Sim! Há mesmo nevoeiro. – Garante a fada pena
- Foi por isso que espirramos! – Diz a fada mel
- Pois! – Concordam as outras
- As casas são todas brancas. – Observa a fada kika
- O sol não deve entrar aqui. – Diz a fada lírio
- Pois não! – Dizem todas
- Mal conseguimos entrar nós. – Repara a fada margarida
- Será que vivem aqui fadas? – Pergunta a fada lírio
- Não! – Respondem todas
            E vêem pessoas a passar, muito brancas, tristes e de cores escuras nas roupas.
- Ui! – Dizem todos
- Que peso! – Acrescenta a fada brincos de princesa
- Não admira…se não vêem ponta de sol! – Acrescenta a fada rosa
- Como é que nunca se lembraram de cortar estas folhas todas para deixarem o sol entrar? – Pergunta a fada gotinha
- Se calhar não sabem que o sol é muito necessário, para tudo e que faz muito bem. - Diz a fada mel
- Será que nunca ninguém lhes disse? – Pergunta a fada kika
- Parece que não! – Respondem todas
- Amigas, vamos deixar isto assim? – Pergunta a fada pena
- Não! – Gritam todas
            Voltam a sair da vegetação e chamam uns elfos, umas fadas e uns dragões pintores. Quando toda a aldeia dorme, numa noite de luar, os pirilampos lanterninhas iluminavam a vegetação, e uns elfos cortam a vegetação na parte de cima, para entrar luz, sol, calor e ar.
            Em baixo, as fadas e os dragões fazem verdadeiras obras de arte ao pintar as casas cheias de cor…umas com riscas, outras às pintas, outras com desenhos delicados…ficam um mimo.
            Depois, as fadas costureiras fabricam roupas de cores alegres, vestidos, saias, calças, calções e camisolas, de todas as estações, até lençóis e toalhas. Cada peça mais bonita que a outra, e deixam embrulhadas à porta de cada casa.
            Os elfos das flores, semeiam e regam bolbos de lindas flores, enormes, de todas as espécies e cores.
            Por fim, fadas, elfos e dragões dão as mãos e voam sorridentes por cima da aldeia. Das suas asas sai um pó brilhante do bom humor, para as pessoas rirem e sorrirem, para derreter o seu gelo.
- Bom trabalho! – Gritam todos, orgulhosos e felizes
- Agora sim. – Gritam as fadas em coro
- Nada vai ser como dantes!
- Está tudo tão bonito! Luminoso.
- Sim.
- Está fantástico!
            Trocam palmas, abraços e beijos, e esperam para ver a reacção dos habitantes. De manhã, os primeiros raios de sol entram na aldeia, agora sem vegetação a cobri-la. As flores plantadas já se vêem. Tudo tem luz e brilho. Tudo está mais agradável. Os habitantes ficam muito surpresos e maravilhados.
- O que aconteceu à nossa aldeia?
- Está tudo diferente!
- Áh! Agora o sol entra!
- Quem fez isto?
- E as nossas casas?
- Estão lindas.
- Mas que artista fez isto?
- Que maravilha!
- Áh! E as flores são lindas. Quem ou como apareceram aqui?
- Olha as roupas…ááááhhhh…!
- Lindas!
- Foram as fadas! – Diz uma menina pequena a sorrir e olha para elas! Elas sorriem-lhe.
- A imaginação das crianças é mesmo um fenómeno. – Comenta o pai a rir.
- Não é imaginação! Elas estão ali! – Garante a criança
- Sim…sim…claro! – Diz o pai a fingir que acredita.
-Muito obrigada: fadas e elfos e dragões. – Diz a criança
- Estou a vê-los! - Garante outra criança a olhar para cima
- Claro…claro. – Diz outro senhor irónico, a rir, a fingir que acredita
            As crianças sabem que os adultos não acreditam nas fadas, mas o importante é que elas acreditam e vêem-nas. Todos os habitantes agradecem, e festejam todo o dia…ao sol, comem ao ar livre, felizes, cantam, e dançam, convivem, passeiam pela aldeia muito encantados e felizes com as lindas novidades e surpresas.
            Estão todos com as caras muito mais sorridentes e as bochechas coradas. À noite, todos olham para cima e vêem duas coisas que nunca antes tinham visto: as estrelas e a lua. Todos soltam um grande suspiro de encanto.
- Áh! Que lindo.
- Nunca se tinha visto tal coisa!
            E deitam-se na relva a admirar.
- Está tudo tão bonito!
- Que bela mudança.
- Foi mesmo. – Dizem todos
            E assim, a aldeia que quase não tinha cor…só sombra…e gelo…ganhou uma nova vida, uma outra alegria e novas pessoas era agora uma aldeia aberta, agradável, e colorida, com sol, estrelas, lua e chuva e neve quando havia.
                                               FIM
                                               Lálá
                                   (1/Agosto/2014)