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quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Chuvada!



        








        


foto de Lara Rocha 


        Era uma vez, na chegada do Outono, uma linda borboleta, chamada Mára, que se esqueceu desta chegada! O dia estava cinzento, sentia-se cheiro a fumo das chaminés, e das castanhas assadas, e a lareiras.
O vento estava muito zangado com alguma coisa…! Se calhar tinha dormido mal, ou estava mal disposto, porque era um bocadinho frio mas forte, pois por onde passava arrancava sem dó nem piedade as folhas das árvores. Sacudia-as e batia-lhes, e era só folhas pelo ar, a rodar e a cair no chão. Elas gritavam e tentavam agarrar-se, mas não conseguiam!
Umas caiam sobre a terra, outras na erva, não se magoavam muito, mesmo assim, não gostavam das grandes cambalhotas que davam pelo caminho até aterrar, e das cabeçadas nas janelas, nos telhados, nas portas, nos vidros, na parede e em cima de carros.
Outras folhas, não tinham a mesma sorte: umas caiam em cima de troncos e raminhos que estavam no chão, outras caiam nos bancos duros de pedra e de madeira do jardim, e outras caiam directamente no chão duro das ruas, dos pátios.
Mára ainda não se tinha apercebido da ventania, porque quando começou…a borboleta ainda passeava pelo mundo dos sonhos, e nem ouviu, ou se ouviu não ligou.
Devia ter tanto sono, que não quis perder tempo a ver o que era, mas de certeza que fazia barulho, a não ser que a sua casa fosse à prova de som, o que não acontecia.
Quando abriu os olhos, pensou que ainda podia dormir mais…embora tivesse acordado muito cedo, como quase sempre fazia, espreguiçou-se, bocejou, e viu muito escuro.

- Ááááhhh… (boceja) Acho que ainda é muito cedo, vou dormir mais um bocadinho…ainda está a amanhecer, de certeza, pela cor que estou a ver ali nas frinchas!
            Vira para um lado e para o outro, na sua cama fofa, mas ouve muita agitação.
- Estes vizinhos acordaram muito cedo hoje…! Onde irão com tanta pressa…? Hoje não é dia de trabalho! Ou será que estou confusa? Não…não é mesmo! Bem…estou cheia de sono, vou dormir mais um bocadinho.  
            A borboleta Mára queria dormir, mas a sua amiga Jú, já estava acordada e cheia de energia, com muita vontade de passear, e não queria ir sozinha! Bate na janela de casa da amiga Mára, e grita:
- Bom Dia, amiga…!
            Ela salta da cama, abre as persianas da sua casa. Mára e Jú conversam da janela. Mára está um pouco confusa.
- Olá, bom dia…! Caíste da cama? – Pergunta Mára.
- Eu não…felizmente não…também se caísse, a queda era pequena! Já aconteceu de acordar no chão, mas porque rebolei…nem me magoei…mas porquê? Tu caíste?
- (sorri) Não! Também não caí abaixo da cama… só estou a dizer isto, porque ainda é muito cedo! – Diz a borboleta Mára.
- Cedo? Não! Já é tarde…já amanheceu há muito, tu é que dormiste demais. – Responde Jú a rir.
- Ai…! Não pode ser!
- Mas é!
- Está tão escuro! O sol já nasceu?
- Claro que já nasceu…! Está escuro, porque o céu está cheio de nuvens. É que hoje começa o Outono.
- Ááááhhh…! É?
- É!
- Nem me lembrei disso…! Vi tão escuro, pelas frinchas das persianas que pensei que ainda estava a amanhecer.
- Não. Já são horas de estar fora da cama…!
- Já tomaste o pequeno-almoço?
- Já, claro! Nunca sairia de casa sem tomar o pequeno-almoço. Se não tomasse, nem conseguia voar.
- Pois! Nem eu. Entra!
- Está bem. Vamos dar uma volta?
- Sim, pode ser…só espero é que não chova!
            Jú entra, e Mára toma o pequeno-almoço enquanto conversam e riem alegremente uma com a outra. Veste-se, e as duas amigas saem. Estão com muita dificuldade em voar.
- Acho que não foi grande ideia termos vindo passear, hoje! – Diz Mára.
- Pois…! Acho que tens razão…eu é que pensei que não ia estar tão mau! Muitas vezes está um céu cheio de nuvens e conseguimos voar…! Hoje…estou muito presa! – Diz Jú.
- Eu também! Isto hoje não está fácil…! – Diz Mára a arfar.
- Pois não! O céu está cheio de nuvens e humidade.
- Acho que é melhor voltarmos para trás, não? – Sugere Mára.
- Não…vamos continuar…não vai chover, tenho a certeza! – Assegura Jú.
            E nesse mesmo instante, começam a cair as primeiras pingas de chuva, e o vento a soprar mais forte.
- Ui…vou-me embora! – Diz Mára.
- Sim, acho que também vou! – Diz Jú.
            E as duas borboletas tentam a muito custo voar mais depressa, para um sítio abrigado, mas não encontram, e o vento brinca com elas…sem elas quererem.
Elas gritam, mas o vento empurra-as, vira-as no ar, sopra tão forte que vira as suas asas ao contrário. Coitadinhas. Ficam muito cansadas, e o vento atira-as para o chão. Arrastam-se rasteiras ao chão, e o vento empurra-as para trás, quando elas tentam ir para a frente. Quase não conseguem respirar, mas fazem de tudo para escapar à chuva que agora é mais forte.
- Vento…pára! Por favor! – Gritam as duas.
            O vento ri-se, e sopra ainda mais forte.
- Porque é que estás a fazer isto connosco? – Pergunta Jú.
- Deixa-nos chegar a casa…vá lá! – Implora Mára.
- Só estou a fazer o que me mandam…lembrem-se que hoje começa o Outono…devem estar a contar com vários dias de chuva e vento, e não arriscar, como fizeram hoje! O céu escuro e cheio de nuvens indica que vai chover. – Explica o vento.
- Nem sempre! Há dias que apenas estão cheios de nuvens, mas não chove! – Defende Mára.
            O vento leva-as a casa. Pelo caminho, as duas apanham uma grande chuvada, fria, com gotas pesadas. As suas asinhas ficam ensopadas…e as duas desatam a espirrar, a tossir e a tremer. Ao chegar a casa, ansiosas por entrar, torcem as asas, e molham os cogumelos que estão em baixo do tronco ao lado.
- Ei, está a chover tanto que até chega aqui! – Comenta um cogumelo.
- Não…esta água vem das asas delas…olha para aquilo…! – Diz o outro cogumelo.
- Desculpem! – Dizem as duas borboletas.
- Abriguem-se! Está a carregar… - Grita um passarinho, também já com as penas todas coladas.
- Queres abrigar-te na minha casa? – Pergunta Mára.
- Não…tenho os meus filhos à espera… - Responde o passarinho.
- Trá-los também! – Sugere Mára.
- Não…obrigado, nós temos o nosso tronco! – Diz o passarinho sorridente.
- E a nós quem nos abriga? – Pergunta um cogumelo.
- Nós! – Grita um casal de folhas gigantes que acabam de ser atiradas da árvore.
            As duas folhas abraçam-se e protegem os cogumelos.
- Muito obrigado! – Respondem os cogumelos em coro.
- Mas e a vocês quem vos abriga? – Pergunta a borboleta Jú, preocupada.
- Nós somos impermeáveis. – Responde uma folha.
- Entrem meninas, não apanhem mais frio…não se preocupem mais connosco. – Diz a outra folha.
            As duas grandes folhas abrigam também as flores, e chove cada vez mais, com cada vez mais vento. As borboletas entram, completamente encharcadas, e secam-se, a espirrar, a tossir e a tremer.
- Mas que grande chuvada! – Suspira Mára, a tremer.
- Que horror! Nunca apanhei uma assim! – Diz Jú, a espirrar e a tremer.
- Pensei que ia ficar sem asas. – Lamenta Mára.
- Eu também! – Diz Jú, a tremer e a tossir.
- Ai! Acho que vou ficar doente. – Diz Jú.
- Eu também! – Diz Mára.
- Vou para a minha casa! – Diz Jú.
- Espera que a chuva pare, se não ainda ficas pior. – Diz Mára preocupada.
- Quem vai cuidar de nós? – Pergunta Mára.
- Cuidamos nós uma da outra! – Sugere Jú.
- Mas estamos as duas doentes! – Suspira Mára.
- Sim, por isso mesmo…temos de estar mais unidas que nunca…lembras-te do juramento que fizemos uma à outra quando nos conhecemos? – Lembra Jú.
- Sim, claro que me lembro! Tens razão…nunca rompemos esse juramento…e não vai ser hoje! – Sorri.
- Pois não! Vamos mas é tomar já um chá…
- Boa!
            Mára faz um chá, e as duas quase fazem a sinfonia das constipações…espirros, tosse, tremores…tomam um belo chá quente, e de repente batem à porta. É um gatinho, que está doente, e quase não consegue falar, com o pêlo todo colado. Mára abre a porta.
- Óóóhhh…! Coitadinho…! – Dizem as duas.
- Entra, bichaninho.
- Boa! E agora…ele também está doente…?
- Não…pode ser que esteja só com frio.
            Secam-no, mas o bicho está mesmo doente. Dão-lhe também um chá, e como estão os três doentes, assim que passa a chuva, cada um vai para a sua casa, com a promessa de se falarem ao telefone, se precisarem. Que grande chuvada! Mas essa tempestade foi boa porque regou a terra que estava muito seca, e juntou os animais, que se tornaram grandes amigos. Todos ficaram doentes, mas conseguiram ajudar-se uns aos outros, à medida que iam melhorando.
            Com a chuva não se brinca, e no Outono/Inverno é preciso protegermo-nos, estarmos preparados para mudanças rápidas de tempo…pois de repente, pode começar a chover.
            E vocês já apanharam uma grande chuvada? Como ficou o vosso corpo? Seriam capazes de abrigar um amigo vosso, que estivesse à chuva? Já o fizeram? Ficaram felizes de o fazer? E o vosso amigo como se sentiu?
FIM.
Lálá

(19/ Setembro/ 2013) 

A TROCA



            Era uma vez uma linda fadinha, pequenina, de olhos verdes, e cabelo preto muito comprido. Viva no reino das fadas, mas saía todas as noites para a cidade, e recolhia os dentinhos que caiam aos meninos.
            Uns meninos ficam felizes e orgulhosos, outros, como a Mafalda, ficam muito tristes e assustados, quando cai o seu primeiro dentinho. 
- (a chorar) Óh mamã…o meu dentinho caiu! Ai…e agora? – Pergunta Mafalda.
- Óh filha, não faz mal, não tardará muito e aparece outro. Cai outro, e nasce outro.
- (a chorar) Mas…e agora como é que eu vou comer?
- Ora essa…vais comer como antes! Não é por te cair um dentinho que vais deixar de poder comer…tens muitos mais dentes! – Responde a mãe a rir-se.
- Óh…eu não queria que o meu dentinho tivesse caído! – Suspira Mafalda.
- Ele volta a nascer! – Diz a mãe a rir.
- Mas ficou aqui um buraco! – Diz Mafalda.
- (ri) Claro que ficou um buraco, mas vai voltar a fechar, quando o outro nascer…! Não percebo qual é a tua preocupação em ter caído o dente…! – Diz a mãe.
- Óh mamã, a ti também te caíram dentes?
- (ri) Pois caíram…com certeza! Não sou diferente dos outros…sou mais velha, mas já fui da tua idade, e também me aconteceu o mesmo! – Responde a Mãe.
- E a ti, Avó, também te caíram?
- Claro que sim…a tua mãe acabou de dizer que caem a toda a gente. Eu sou gente! – A Avó explica-lhe – Tu deves é ficar contente por te ter caído o dente…agora…mete-o debaixo da almofada, e amanhã terás uma surpresa muito boa!
- Ai é? A minha mãe nunca me falou da fada dos dentes. – Pergunta Mafalda muito surpresa.
- Sim! A fada dos dentinhos gosta de recolher os que caem.
- Porque é que ela gosta tanto de dentinhos? Faz colecção? – Pergunta Mafalda.
- (ri) Não. É porque todos os dentinhos que ela recolhe são transformados em brinquedos, roupas, sapatos, cobertores, camas, livros e muitas outras coisas, para dar aos meninos mais pobres, que mais precisam! – Explica a Avó.
- Ai é? - Pergunta Mafalda sorridente.
- É. Mas ela só recolhe os mais bonitos!
- Assim como os meus?
- Sim. Os teus, ela vai levá-los todos, se os lavares sempre bem, no fim das refeições, e se os tratares com carinho.
- Para onde vão?
- Para a fábrica do Pai Natal para ele os transformar com a ajuda dos seus duendes traquinas, mas muito dedicados e trabalhadores.
- Mas como é que sabes disso, Avó?
- Porque ela contou-me, um dia!
- Tu já viste a Fada dos dentinhos?
- Sim, algumas vezes.
- Onde?
- No meu quarto!
- Áhhh…que sorte! Como é que ela é?
- É muito bonita…tem uns longos cabelos pretos, e olhos verdes.
- Áhhh! Deve ser mesmo bonita…eu quero vê-la!
- Não sei se ela te vai aparecer! Ela geralmente só recolhe os dentes quando os meninos estão a dormir, porque ela tem sempre muito trabalho e chega tarde.
- Áh! Espero ter a sorte de a ver! Então os teus dentinhos também eram bonitos?
- Sim. Muito bonitos. E ela deixa-te uma prendinha, que fica no lugar do teu dentinho.
- Ai é? (sorri) A ti também te deixou uma prendinha?
- Sim!
- O que é que ela te deixou?
- Deixou uma boneca de pano!
- E tu tinhas-lhe pedido alguma coisa?
- Não, mas ela deixou-a lá para mim, para agradecer o meu gesto bondoso!
- Áh! Que bonito! – Sorri a Mafalda.
            E a Mafalda vai colocar o seu dentinho debaixo da almofada. Nessa noite, Mafalda adormece e sonha com a Fada. A Fada entra silenciosamente pela janela do quarto. O gatinho levanta-se muito assustado. A Fada diz-lhe para ele não miar e diz baixinho:
- Olá gatinho…xiu! Não faças barulho se não acordas a menina. Não lhe vou fazer mal, nem a ti! Sou a Fada dos dentes! Só vim buscar o dentinho…!
O gatinho respira de alívio, sorri e fica a ver a Fada, encantado! Ela pega no dentinho, devagar, e sorridente, e deixa lá uma prendinha muito especial. Ela sopra estrelas para a menina e para o gato.
- Obrigada! Boa noite! – Diz a Fada ao gato.
            E vai recolher mais dentinhos pelas outras casas, metendo-os num saquinho. De manhã bem cedo, a Fada entrega os dentinhos ao Pai Natal para ele transformar em brinquedos e noutras utilidades para os meninos pobres.
            Quando a Mafalda acorda, olha para o lado e vê que não está lá o dentinho.
- Ááááhhh…A Fada dos dentes esteve mesmo aqui no meu quarto! Óh…que chatice! Estava a dormir…não a vi! E a prenda! Ááááááhhhh… que lindo! Está embrulhada.
            Mafalda desembrulha a prenda e está lá um lindo e enorme búzio do mar, com um maravilhoso brilhante, quando ela abraça o búzio, soa uma voz doce…uma sereia que lhe diz:
- Encosta o búzio ao teu ouvido!
            Mafalda tenta ver de onde vem a voz, mas a sereia está bem escondida.
- Encosta e ouve…! – Diz a sereia.
- Ouço o quê? – Pergunta Mafalda.
- Faz silêncio e ouve o búzio!
- Ele fala?
- Fala! Ouve…
            Mafalda encosta o búzio ao ouvido e ouve o som do mar.
- Ááááhhh….parece que o mar está aqui dentro! Que lindo!
            Ela sacode o búzio, a sereia grita, e cai de lá o brilhante.
- Ai, não me sacudas. Põe-me na água, se faz favor! – Diz a sereia.
            A menina coloca o búzio num aquário pequeno onde antes vivia um peixinho, e a sereia começa a cantar; docemente e feliz. A Mafalda fica encantada a ouvi-la!
- Que linda voz! – Diz Mafalda.
- Obrigada! Cantarei muitas mais vezes para ti! – Diz a sereia.
- Como vieste aqui parar?
- Vim com a Fada dos dentes. Sou uma prenda para ti, porque o Pai Natal gosta sempre de retribuir a bondade dos meninos…e por isso…deixa sempre uma prendinha! – Explica a sereia.
- É mesmo verdade que a Fada dos dentes leva os nossos dentes para o Pai Natal, que os transforma em prendas para os meninos pobres?
- Sim! Totalmente verdade! Muitos meninos ficam muito tristes quando lhes cai um dentinho, mas deviam ficar felizes, porque com eles, muitas crianças e até adultos, que não têm nada, vão poder ter o que mais precisam!
- Eu estou muito feliz, sereia! Ontem fiquei triste, mas a minha Avó disse que a fada ia deixar lá uma prendinha. Mas o Pai Natal dá sempre o mesmo presente a todos os meninos?
- Não! Dá sempre presentes diferentes.
            E as duas têm uma longa conversa. Todos os dentinhos que lhe caíram, a Mafalda ficava muito feliz porque já sabia que ia receber a linda fada no seu quarto, uma prendinha, e principalmente porque ia ajudar muitos outros meninos da sua idade, ou maiores, a ter o que precisam, pelas mãos artísticas e cheias de bondade, do Pai Natal e companhia.
            Afinal…ela não tinha que ficar triste por lhe caírem os dentinhos, pois logo a seguir nasciam uns novos.

FIM
Lara Rocha
(19/Setembro/2013)


terça-feira, 3 de setembro de 2013

A CIDADE E A FESTA DA FOLHA


















foto de Lara Rocha 

                Era uma vez uma grande cidade, onde viviam milhares de pessoas. Todos os dias era uma grande agitação…um movimento louco de carros que passavam a alta velocidade, famílias que saiam a correr de casa com os filhos. Havia fumo e nuvens no ar, gritos dos vendedores na rua, que tentavam vender os seus produtos…roupas, bugigangas, guarda-chuvas, gorros, luvas, meias, chapéus e boinas…e frutas, legumes frescos nas bancadas dos pequenos supermercados que haviam nas ruas, buzinas de condutores desesperados nas intermináveis filas de carros que eram obrigados a parar por causa dos semáforos, aviões ruidosos e pessoas que quase chocavam umas com as outras, mal se olhavam e não sorriam…não olhavam para o que se passava à sua volta, só para o relógio, e falavam ao telemóvel a gritar nervosos. Nesta agitação toda…esquecem-se que chegou uma nova época…uma nova estação do ano…o Outono. Uma menina abre a janela, quando se prepara para ir para a escola e grita:
- Mãe…chegou…!
- Quem, filha…?
- A princesa Outono!
Áh…está bem! Deixa-a estar. (murmura a mãe) Deve ser alguma boneca de algum desenho animado…
Olha, Mãe, e veio com o vestido das folhas.
Quem?
A princesa Outono.
Sei lá quem é essa…! - resmunga a mãe 
Olha para a janela. Está aqui, mesmo diante dos nossos olhos.
Imagina o que quiseres, mas não me leves contigo para esse teu mundo de fantasia. - responde a mãe, zangada 
Óh mãe…porque é que estás a falar assim comigo?
Despacha-te…! Ainda tenho que te levar à Avó…lá podes continuar a imaginar o que quiseres. - grita a mãe 
Ai, Mãe…estás tão má.
Deixa-te de conversas, e veste-te rápido ou vai de pijama…! - grita a mãe, nervosa 
- Estás tão nervosa…!
E tu ainda me estás a irritar mais, com tanta conversa, a perder tempo a olhar para a janela, e a imaginar coisas…despacha-te…tens dois minutos. - grita a mãe quase a explodir
Eu vou a pé…! Vai…para o teu trabalho, se ele é mais importante que eu! Eu estou a mostrar-te coisas bonitas, para ires mais bem-disposta para o teu trabalho, mas tu não queres ver, só queres gritar comigo.
           A mãe não responde, mas fica pensativa, e vai arrumar o resto das coisas em silêncio. A menina veste-se e arranja-se sozinha, triste.
Tomas o pequeno-almoço na Avó, está bem?
Sim, está bem…vai lá para o teu trabalho…sempre trabalho, sempre trabalho, sempre trabalho…! Um dia destes acabo com o teu trabalho.
- Sem trabalho não te posso alimentar. - responde a mãe 
Mas não alimentas o meu coração triste. - suspira a menina 
O quê?
Sim, a Avó é que diz que o coração também precisa de ser alimentado…! Com amor, com carinho, atenção, sorrisos, abraços…e tu não me dás nada disso…! Só pensas em trabalho…
         A mãe fica sem resposta. Estaciona o carro em cima do passeio, em frente à casa da sogra, e larga a menina, chateada, sem lhe dar a mão, e sem dizer nada. Toca á campainha e aparece a Avó da menina, ainda nova.
Bom Dia…! - Cumprimenta a Avó sorridente 
Ela não tomou o pequeno-almoço…estou com muita pressa, e ela ainda se pôs a empatar-me com historinhas e invenções de princesas Outono, e vestidos não sei quê…! Ature-a…até logo. - responde a mãe, de forma seca e agressiva 
Bom Dia de trabalho… e vai com calma a conduzir. - recomenda a Avó 
Para si que não trabalha é fácil… - responde agressiva 
          A Avó não responde, e fica triste, a menina ainda mais.
Mãe… - chama a menina 
O que é que foi…? Que chata. - grita a mãe nervosa
Bom Dia…amo-te mãe…até logo. - diz a menina de forma ternurenta e sincera
        A mãe entra no carro e não lhe responde, nem olha mais para ela. A menina desata a chorar, muito desiludida e triste. A Avó também fica triste, abraça a neta, e acaricia-a.
- Óh Avó…a minha mãe não quer saber de mim…não me ama…não ouve o que eu digo…só pensa no trabalho, no trabalho…é só trabalho…! - diz a menina a chorar 
Claro que te ama, filha, mas está preocupada com outras coisas. - diz a Avó igualmente triste 
Eu pensei que era a coisa mais importante para ela…! - lamenta a menina a chorar 
Não és a coisa…és a pessoa mais importante para ela!
Não sou nada…
Olha…vamos tomar o pequeno-almoço. Aquilo passa-lhe. - Sugere a Avó 
        A menina entra muito triste, com a Avó. As duas preparam o pequeno-almoço, a menina sempre a chorar.
Sabes quem chega hoje? - pergunta a Avó 
A princesa Outono, com os seus vestidos de folhas…!
Sim, é mesmo…! - sorri a Avó 
Eu já a vi hoje, mal abri a janela. E mostrei-a à minha mãe, mas ela nem olhou…nem reparou…mandou calar-me, e arranjar-me depressa…e disse que eu estava a imaginar…aquelas coisas todas, feias…! - desabafa a menina 
Mas tu viste a princesa, e isso é o que importa. - diz a Avó a sorrir 
Sim. Óh Avó…porque é que a minha mãe é tão má?
Ela não é má…está só um bocado…cansada e nervosa…mas aquilo passa-lhe!
Não gosto nada de ver a minha mãe assim.  diz a menina 
Olha…um dia ela vai lembrar-se de ti…
Eu só queria que ela também alimentasse o meu coração, como tu, o Avô e as tias fazem…!
Sim, essa alimentação é muito importante, mas a outra…esta do pequeno-almoço e outras, são ainda mais…! E para isso, ela tem de trabalhar.
E nunca tem tempo para mim. - lamenta a menina, triste 
Vais ver que daqui a uns tempos…ela vai ter tempo para ti. Mas podes ter a certeza que ela ama-te muito. - garante a Avó 
Não acredito.
Sabes que festa vem aí?
A festa da folha! - diz a menina com um grande sorriso 
Isso mesmo. Temos de ver se o teu vestido do ano passado ainda te serve…mas quase de certeza que não…! - diz a Avó a sorrir 
Ai, Avó…tem de servir, se não…como é que eu vou à festa? - preocupada 
Óh rapariga…se não te servir, faz-se outro…qual é o problema?! - diz a avó às gargalhadas 
Mas dá tempo? - pergunta a menina, preocupada 
Claro que dá! - diz a Avó a rir 
Gosto tanto desta festa! E as tias vão? - comenta a menina a sorrir 
Vão, de certeza que sim (sorri).
Boa…! As minhas tias preferidas…Adoro-as…! - diz a menina feliz 
Sim, elas também te adoram…mas uma mais que a outra. (ri) 
Eu sei! Ela também é a minha preferida…mas não digas às outras. Olha, e vais fazer os sumos, e os bolos?
Sim, é mesmo, já me estava a esquecer…ajudas-me? - pergunta a Avó 
Claro, Avó. 
            A Avó e a neta tomam um belo pequeno-almoço, enquanto conversam sobre vários assuntos, e riem. No fim vão experimentar os vestidos e fazem uns ajustes, divertidas. A cidade é muito agitada, mas tem uma festa muito bonita, todos os anos, e muito típica: a festa da folha. Nessa festa, a cidade não dorme. Dia e noite, no fim-de-semana, há muita música por todo o lado, danças, os carros são desviados do centro, e as ruas são apenas para as pessoas, que se vestem e desfilam com lindos vestidos, saias, capas…feitos de folhas misturadas: umas são amarelas, outras vermelhas, outras castanhas, outras verdes, e outras de cores misturadas.         Além destas lindas roupas, come-se e bebe-se frutos da época…bebe-se sumo de uvas brancas, uvas pretas, uvas bordo, uvas roxas, uvas azuis escuras, que são muito deliciosas, vinho branco, vinho tinto…outras pessoas gostam de as comer a partir dos cachos enormes. Come-se romã, melancia, sumo de amoras, e de outras frutas. 
          Há sopa de cabaço, de abóbora, caldo-verde, cabrito, vitela, frango, batatas fritas, arroz de feijão, arroz de legumes, saladas frescas de pepino, alface, azeitonas, salpicão, chouriços, pão caseiro, broa. 
       Para a sobremesa, há bolos de noz, de amêndoas, de castanhas, castanhas assadas, pipocas, espigas de milho fritas, e muitas outras delícias da Terra. Mas uma festa não tem só comida e bebida…também, tem muita dança, cantares…gargalhadas, abraços, beijos…reencontros, encontros românticos, namoricos…muita brincadeira, muitas folhas que decoram os locais, pelo chão, e nas paredes, ou troncos...junto de poemas alusivos ao Outono, algumas escorregadelas, concursos, e prémios. 
       Todos festejam até amanhecer, até porque na segunda-feira não há aulas. Embora a menina já estivesse mais calma, e mais contente com a Avó…decide escrever uma carta ao presidente do trabalho da mãe. 
            Uma carta onde diz ao presidente, a sua tristeza com ele, por ter a sua mãe tanto tempo no trabalho, e estar a dar cabo dela! Falou-lhe nos gritos e nos nervos da mãe, disse-lhe que ficava muito triste, porque o seu coração não era alimentado, e ela ficava doente muitas vezes por causa disso…Disse tudo o que sentia, e convidou-o para ir à festa da folha. 
           Pediu-lhe que reduzisse as horas de trabalho, a carga de trabalho, e que até pusesse umas horas por dia, para terminar mais cedo, e poder estar com ela. Aconselhou-o a fazer o mesmo, para que os filhos dele, não passassem o sofrimento que ela estava a passar…e falou na importância que ela achava que tinham os pais para as crianças. Pediu à Avó que lesse, e que corrigisse. A Avó fica comovida com as palavras da neta.
Muito bem, filha…muito bonita! 
É o que eu sinto mesmo, Avó.
E está muito bem.
Sabes onde é o trabalho da mãe?
Sim.
Então…vamos lá deixar essa carta…! Pode ser?
Está bem…! - ri à gargalhada 
            A menina vai com a Avó ao trabalho da mãe, e entrega à secretária do chefe.
Eu quero vê-la entregar a carta, nas mãos desse vampi (interrompe) … quer dizer…desse senhor. - diz a menina 
            A secretária pega na carta da menina, muito intrigada, e leva-a com ela pela mão.
Sr. Dr.…tenho uma carta para si. - anuncia a secretária 
É você…? É médico…? - pergunta a menina 
Não…não sou médico. Não podem entrar aqui crianças…! - responde o presidente, surpreso 
Eu disse, mas… - diz a secretária 
Parece que quer ser despedida. - comenta o Presidente 
            A menina larga a mão da secretária, pega na carta, e avança em direção ao Presidente, a olhá-lo fixamente nos olhos.
Não vai ser despedida coisa nenhuma…fui eu que quis entrar, e esta carta fui eu que escrevi! É para si…seu monstro vampiresco, ladrão de mães… - diz a menina firme, e zangada 
O quê…? Sua pirralha…fora daqui já…vai para o infantário. - grita o presidente, nervoso 
Eu ando na escola primária. Eu respeito os mais velhos, mas você não merece qualquer respeito…! Olhe muito bem nos meus olhos…e leia a carta! Era só o que faltava! - responde a menina, zangada 
Achas que eu não tenho mais o que fazer…? - pergunta o presidente 
Leia a carta…e olhe bem para os meus olhos… - grita a menina, como se fosse uma mulher adulta 
Mas o que é que tem os teus olhos…? São escuros… - diz o presidente 
O senhor tem filhos…? - pergunta a menina 
Sim, tenho…
Não parece…! Então quando ler, lembre-se deles…eles também lhe dizem isso.
Mas que raio… - resmunga o presidente, nervoso 
Na minha frente…! Já…! Agora! Ou quer que o prenda na cadeira e leia eu...? - pergunta a menina, imponente 
            O Presidente olha a menina de cima a baixo…e ela está muito zangada. Ele lê a carta, em silêncio, e começa a ficar entalado…com as lágrimas nos olhos, e no fim chora mesmo. A secretária fica preocupada.
Doutor…está bem…? Precisa de alguma coisa…? - pergunta a secretária, preocupada 
Ai…isto nunca me aconteceu antes…traga-me um copo de água por favor…! - pede o presidente, a chorar 
E então…? - pergunta a menina 
Eu…não sei o que dizer…estou…sem palavras! - responde o presidente, a chorar 
Não acha que tenho razão? Eu estou a falar por todos os filhos, de quem trabalha aqui…e para si ainda mais…! - pergunta a menina 
Óh…! Esta carta…destroçou-me…! - admite o presidente, a chorar 
E como é que acha que os filhos se sentem…?
Nunca tinha pensado que seria assim…tão… - responde o presidente a chorar 
Mau…sim, é mesmo muito mau! (Ele bebe água) O que vai fazer agora…?
Eu…tenho de pensar…vá…saiam…! - recomenda o presidente 
            As duas saem, e a menina vai ter com a Avó. A Avó fica muito surpresa.
Esta menina…pôs o presidente a chorar…nunca o vi assim…e ela fez com que ele lesse a sua carta. - comenta a secretária 
(Todas riem)
Vamos ver se adiantou alguma coisa…obrigada…até á próxima. - diz a menina a sorrir 
- Até à próxima. E apareça nas festas da folha. 
          As duas voltam para casa. O Presidente ficou tão comovido e tão perturbado, com a carta da menina, que introduziu uma série de alterações nos horários, e na forma de trabalhar, que todos os funcionários, incluindo a sua mãe, nunca souberam porquê, nem como. 
Mas adoraram as mudanças, porque passaram a ter muito mais tempo para os filhos, muito mais calmos. 
       Quando a mãe percebeu as mudanças no seu trabalho, ficou muito mais calma, pediu desculpa à sua mãe e à filha, por ter ralhado tanto com elas, e pôde finalmente apreciar a festa da folha, a princesa Outono, as cores, os vestidos, brincar com a filha, dançar, ler e contar histórias, desenhar, fazer refeições juntas, passear e trocar mimos, principalmente porque o chefe da empresa da mãe nunca mais foi o mesmo. 
        Tornou-se mais compreensivo, mais carinhoso, mais delicado, também ele aproveitou muito mais tempo com os filhos, que não cabiam em si de felicidade. tal como a menina. 
Até fechou a empresa nos dois dias da festa da folha, onde todos se encontraram, brincaram, riram, dançaram, comeram, beberam, e divertiram-se. 

E vocês, meninos…também fazem a festa da folha?
Como recebem o Outono?
O que comem e o que bebem no Outono?
O que vêem no Outono?
A vossa cidade também é como esta?

FIM
Lálá

(3/Setembro/2013)