Número total de visualizações de páginas

sábado, 19 de novembro de 2022

As conversas com o livro gigante

 



       Era uma vez uma menina, que tinha no sótão da sua casa um livro enorme, com uma capa brilhante, e muitas centenas de páginas. 

    Quando aprendeu a ler, a menina quis saber o que guardava o livro. Foi ao sótão, encontrou o livro pousado no chão, cheio de pó, a soluçar.

- Óh, o que é que eu estou a ouvir...? Parece alguém a soluçar. 

    Procurou pelo sótão todo, na janela não viu nenhum animal, nem pessoa, mas continuava a ouvir chorar. 

- Quem está aí a soluçar e a chorar? - pergunta a menina, na esperança de ouvir alguma coisa. 

- Sou eu! - responde o livro 

- Não estou a ver ninguém! 

- O livro...estás a olhar para mim, pequena! 

- Áh! Um livro a chorar e a soluçar...? O que se passa? - perguntou a menina 

- Estou a chorar de tristeza e de alegria! - diz o livro 

- Mas como assim? Só se chora quando se está triste, ou quando acontece alguma coisa muito boa. 

- Estou triste porque estou para aqui neste sítio, sem ser limpo, sem ser folheado, sem ser lido. Vejo outros livros a ser lidos, e eu continuo para aqui! Encostado, abandonado! 

- Mas já estás cá há muito tempo? 

- Acho que sim, não sei...! 

- Como não sabes? 

- Eu não sou como vocês, sou um livro. 

- E os livros choram? 

- Também, tanto fazem rir como chorar. 

- E porque é que estás feliz? 

- Tu viste-me! E vais ler-me? 

- Ahhhh...tu és gigantesco! Ainda não sei ler bem. 

- Óh, por favor, lê-me. Estás a aprender, daqui a pouco já sabes. 

- E sobre o que é que falas? 

- Sobre...muita coisa, pelo que me lembro! Alguém conversou muito comigo, a certa altura, mas não sei como ainda estou aqui, mas ninguém fala comigo. 

- Estás cheio de pó. Vou limpar-te!  

    Soprou e limpou o pó, abriu a primeira página, começou a ler, meia dúzia de linhas, porque ainda mal sabia ler, e ficou cheia de sono. O livro não cabia em si de felicidade. 

    Inclinou-se, quase dormia sentada, deitou-se sobre as páginas enormes do livro, como se fosse uma cama, e adormeceu. 

    O livro acariciou-a, e cobriu-a com duas grandes folhas dobradas, sussurrou uma pequenina história de embalar, que a fez sonhar com o que estava a ouvir, mesmo a dormir. 

    Quando adormeceu, sonhou com o que o livro lhe contou, com a palavra era uma vez...a seguir a essa palavra, enquanto dormia, a sua mente criou uma história diferente. 

    Acordou aos gritos, a chamar pela mãe, a mãe muito assustada vai ter com ela e perguntou o que aconteceu. Viu-a deitada em cima do livro. 

- O que estás aí a fazer? 

- Mãe, estava a ler a primeira página deste livro gigante, mas fiquei com sono, deitei-me por cima desta página. Ele falou comigo, até o ouvir a soluçar, e a dizer que estava triste e feliz, estava a chorar. 

- Imaginaste que ele fez isso, não foi? 

- Não, aconteceu mesmo! 

    A mãe ri, e finge que acredita: 

- Está bem, está bem. Coitadinho, deve ter razão…! 

- Tu também falas com os teus livros, mãe? 

- Falo. E escrevo coisas sobre isso nas margens dos lados. Os meus pensamentos.

- Tu também choras, e ris com os livros que lês? - pergunta a menina 

- Claro, toda a gente! - diz a mãe 

- Ele disse que estava triste porque estava aqui há muito tempo e ninguém o lia, via outros a ser lidos, e ele nada! Disse-me que os livros tanto fazem rir como chorar, que falou durante muito tempo com alguém que o deixou aqui abandonado. Já viste como ele é enorme? Quase parece uma cama. Quando adormeci, sonhei com estas palavras: «era uma vez», e depois apareceu uma história diferente, que eu gostei, queria escrevê-la. Ou podes escrever tu, mamã, por favor!!! 

- Tiveste um sonho, imaginado na tua cabeça depois de ler as primeiras linhas. 

- Sim, eu leio devagar, li poucas linhas, mas como adormeci, acho que sonhei, só que não era o que dizia no livro. 

- Então ainda te lembras do que sonhaste? 

- Sim. 

- Está bem, enquanto estás a aprender a ler e a escrever, tu ditas-me e eu escrevo. Não é muito grande, pois não? 

- Não. 

- Espera, vou fazer melhor...vou gravá-la no telemóvel, e assim depois podes pô-la para o pai, e para os Avós. 

- Está bem. 

- Vá, põe-te direita, e começa a contar, quando eu disser. 

- Está bem. 

    A mãe pega no telemóvel, põe a gravar, e faz-lhe sinal. A menina começa a contar o seu sonho, começado por era uma vez, com risos e pormenores que se lembrava muito bem. Depois contou as linhas que leu. 

    A mãe não se lembrava de ter lido aquele livro tão grande, nem de quem era, mesmo assim, adorou o sonho da menina, inspirado no que leu. 

    A menina entusiasmada, pede à mãe para pôr o pai e os avós a ouvir a sua história e sonho. Todos aplaudem e riem. 

    Quando a menina já sabia ler melhor, já conseguia ler mais páginas do gigantesco livro de cada vez, mesmo assim, cansava, sonhava, e a mãe gravava outro sonho que a filha tinha, umas vezes inspirados no que tinha lido, outras vezes, novas histórias, que ela dizia ser as suas respostas e os diálogos com o que estava escrito no livro. 

    Depois de aprender a escrever, a menina lia poucas frases, e escrevia o que lhe vinha à cabeça, mostrava aos pais e aos avós, que se sentiram orgulhosos pela sua imaginação e evolução a ler e a escrever. 

    Muitas vezes, ouviam a menina a falar sozinha, espreitavam para ver se ela estava acompanhada, ou a falar com eles. 

- Não, estou a falar com as palavras do livro! Ele está a falar comigo! - respondia 

    Todos percebiam que era da sua imaginação. Quanto mais a menina desenvolvia na leitura e na escrita, mais lia, mais conversava com o livro, com as personagens, e mais histórias nasciam na sua cabeça, que escrevia. 

    Demorou bastante tempo a ler o livro todo, mas escreveu muitas histórias, aprendeu muito, e era o seu passatempo preferido. 

    Mostrava orgulhosa, as suas histórias e um dia mais tarde, os seus pais fizeram um livro com todas elas, todos os seus sonhos, respostas, diálogos, perguntas e outras que surgiram enquanto lia e escrevia. 

    A menina ficou muito feliz, riu muito enquanto releu as histórias, e as suas professoras de português gostaram tanto do que ela escrevia que foram a uma editora, e publicaram um livro, muito vendido em todas as livrarias. 

    Foi um sucesso! Ela transmitia sempre a seguinte mensagem: é muito importante e é bom ler, escrever. Estamos sempre a aprender, com os livros, e quanto mais lemos, melhor escrevemos, mais sonhos temos, mais felizes somos. 

    Isto incentivou muitos meninos e meninas a ler, a escrever, com gosto. Alguns escreviam também as respostas que imaginavam enquanto liam.

    A menina, mesmo mais crescida, ainda falava com o livro, agradecia-lhe por tudo o que ele lhe contava, e tudo o que tinha aprendido com ele. 

    Os dois tinham longas conversas, e eram grandes amigos! 

                                FIM 

                             Lara Rocha

                             19/11/2022 



    










Ler é bom, é como se estivéssemos a conversar com alguém, com muita gente, aprende-se muito a ler. 

E vocês, também leem? 

Também falam com os livros, ou escrevem? 

Experimentem! 

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A lenda da mulher dos corais


        
















pintado por Lara Rocha, no Livro de pintar para adultos 

    Era uma vez uma praia, de sonho, daquelas maravilhosas, que só parecem existir na nossa imaginação. Mas esta existia mesmo, e tinha uma lenda. 

     Além das suas areias limpas e águas transparentes, onde se viam milhares de corais, peixes, pedras, algas, rochas, a lenda com centenas de anos contava que havia uma criatura marinha, diziam parecer mulher, outrora com uma beleza hipnotizante. 

     Mas não era de carne e osso como nós, o seu corpo era feito de belos corais, estrelas do mar e algas nos cabelos muito compridos, um búzio gigante como boca, conchas enormes na cara, e algumas coladas nos corais do seu corpo, pérolas nos olhos. 

     Muitas vezes vestia belos vestidos de peixes que se encostavam a ela, outras vezes, quando se mexia debaixo de água e nadava, enchia o fundo do mar com bolinhas de ar, e tudo à sua volta ficava mágico. 

     Dizia que aparecia à noite, aos pescadores, mas era perigosa, mesmo sem querer: às vezes brincava com os barcos de pesca, empurrando-os, outras vezes virava-os, e levava os pescadores a ver o fundo do mar, trazendo-os novamente à superfície. 

      As esposas dos pescadores, ficavam muito ciumentas quando ouviam falar dela, e um dia quiseram afastá-la dos maridos, para eles não correrem riscos, nem se apaixonarem por ela. 

      Uniram-se, e construíram um homem parecido com um pescador, mas era um boneco. Tão bonito, que parecia real, mas o seu enchimento era tóxico, perigoso para os corais. 

      Lançaram-no ao mar, e a mulher dos corais foi logo ter com ele, agarrou-o, dançou com ele, conversaram os dois, alegremente, ela seduziu-o, ele era igualmente encantador. 

      E sem se aperceber o corpo do ser marinho estava a desfazer-se, os corais separaram-se, e caíram no fundo do mar. O boneco marinheiro disse que queria casar com ela nessa noite, pois era o amor da sua vida, mentiroso! 

      Mas ela acreditou, ele disse que ia buscar uma prenda para ela, e já voltava. A mulher entusiasmada, nem reparou no seu corpo a desfazer, e esperou, esperou, esperou...o homem nunca mais aparecia, e no dia seguinte, ela ficou despedaçada, totalmente destruída de tanta desilusão e tristeza. 

      Todos os seus pedaços ficaram no fundo do mar, separados, uns mais próximos outros mais distantes, o búzio que era a sua boca ficou pousado na areia, as estrelas do mar e as algas espalharam-se por vários sítios dos corais do seu corpo, tal como as conchas e as pérolas dos olhos. 

      Um dos marinheiros soube do que as mulheres fizeram, ficou muito zangado, e não achou piada nenhuma. Foi o fim do seu namoro, e mergulhou até ao fundo do mar, com muitos outros que também quase se separavam das suas esposas. 

      Ralharam com elas, e proibiram-nas de serem ciumentas, possessivas, ainda mais de fazerem maldades contra um ser que nem sabiam se era humano.

      Eles relembraram que elas também tinham amigos homens, e eles não ficavam ciumentos, nem as proibiam de os ter, tal como eles tinham amigas, e nem por isso deviam ficar ciumentas. 

      Eram casados ou namorados, confiavam um no outro, ou então ia cada um para o seu lado! Elas ficaram magoadas com eles, mas compreenderam e acharam que na verdade eles tinham razão, porque realmente nunca tinham regressado com sinais de ataque dessa criatura. 

      Elas próprias ficavam na dúvida se existia ou não, nunca a tinham visto, mesmo assim quiseram jogar pelo seguro, e avisar os maridos que estavam a tomar conta deles, que se preocupavam com eles, que queriam protegê-los.          

     Eles não gostaram, e proibiram-nas de os controlar, disseram que não precisavam que tomassem conta deles, que já eram grandinhos, e esse ser até já os tinha ajudado. 

      As mulheres arrependeram-se, ficaram a pensar no que tinham feito, e no que podiam fazer para que os maridos não ficassem tão zangados.

      Eles disseram que não podiam fazer nada, tinham ficado magoados com essa atitude delas, mas só o tempo iria ajudar a esquecer o que elas tinham feito. 

      Como não a tinham esquecido, viram que todos os seus pedaços formaram um gigantesco espaço de corais marinhos, cheios de surpresas, as conchas maravilhosas, os búzios. 

      Os homens adoraram aquele espaço, mas deram as mãos e pediram um desejo: voltar a ver aquela mulher marinha. Então, foram ouvidos, e quando abriram os olhos, a mulher dos corais, estava novamente construída como antes a conheceram. 

      Eles pediram desculpa pelo que as mulheres fizeram, e prometeram ao ser marinho que não iam falar mais dela às suas esposas, e namoradas. 

      Ela agradeceu-lhes e prometeu que não lhes ia aparecer, porque o seu coração estava partido, a não ser quando eles precisassem de ajuda, ela estaria lá. 

      Enquanto ela não aparecia, debaixo de água era um belo conjunto de corais, cheio de coisas maravilhosas para descobrir, ver, tocar, e muita gente mergulhava para a ver. 

      Quando sentia segurança, aparecia à superfície, em festas de jovens na praia, mas achavam que era efeito do excesso de álcool, nunca pensaram que ela fosse verdadeira, divertia-se com eles. 

      Tirava alguns da água quando se atiravam, e no fim, já que ficavam todos a dormir na areia, era quem limpava todo o lixo que deixavam. Essa era a parte que ela não gostava, mas alguém tinha de o fazer. 

      Com a raiva, espalhava ouriços do mar pela praia à volta deles, e pedras grandes. Quando acordavam, os jovens não se lembravam de nada, e assustavam-se quando viam os ouriços e pedras. 

      Ainda hoje fazem longas caminhadas, e visitas para ver se encontram essa mulher tão bonita, mas apenas veem os fantásticos corais, embora antes de chegar a eles, se perceba que tem formato de corpo de uma mulher. 

      Uma lenda, talvez para ensinar as mulheres, namoradas ou esposas a confiar nos maridos, namorados, e mesmo em amigos, a não serem possessivas, e possessivos, a serem verdadeiros e verdadeiras quando não gostam de ser demasiado controlados e controladas, dizerem-no, e que não vale a pena ser ciumentas, ou ciumentos. 

       Isso não é amor! Nem a vingança, porque o amor quando tem de acontecer, acontece naturalmente, começa pela amizade, tem confiança, não é posse, nem controlo excessivo!

                                                FIM 

                                           Lara Rocha 

                                           18/11/2022

E para vocês? O que é que esta lenda ensina? (Podem deixar nos comentários, se quiserem) 

                                                            

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

As cores da Natureza diferente - exercício de relaxamento por imaginação (cores)

 















      Era uma vez um grupo grande de pessoas, crianças, adolescentes, adultos e até pessoas com mais idade, que foram passear por um lugar que nunca imaginavam ser possível existir. Quer dizer, talvez só existisse na imaginação das crianças. 

        Aparentemente, as enormes folhas verdes, das árvores, muito compridas, encostavam umas nas outras, quase pareciam cortinas, abanavam com o vento que estava,  entrançavam-se, outras até raspavam no chão. 

        O chão era um lindo tapete coberto de folhas castanhas, roxas, vermelhas, bordôs, verdes, azuis, amarelas, brancas, violetas, rosas, laranjas. Parecia estar parado, mas de repente começam a chover não se sabe de onde, milhares de milhares de folhas, pétalas de flores, com todas as cores possíveis e imaginárias, que caem sobre os visitantes e no chão. 

        Os visitantes são convidados a descalçar-se e andar sobre as folhas, o que os deixa deliciados com o barulho, pegam nas folhas, com as duas mãos, atiram-nas uns aos outros, cheiram-nas, algumas desfazem-se nas mãos, atiram-nas sobre si mesmos, de todas as cores, deitam-se sobre elas. 

        Com tanta alegria, começam a sair das folhas e das pétalas de flor, raios de luz: em tons de azul, amarelo, verde, violeta, roxo, rosa, branco. Mais à frente, encontram uma árvore com limões verdes, outra com limões azuis, outra com limões verdes uns mais claros, outros mais escuros. 

        As laranjas tinham cascas de todas as cores, mas sabiam a laranja, quando comidas, tal como os limões. Olharam em volta, e um lago tinha água azul muito clarinha, estava limpíssima, via-se o fundo, com cristais brilhantes, transparentes, onde se podia ver o arco-íris, quando o sol refletia. Muitas pessoas entraram logo na água. Que maravilha, estava quentinha. 

       Ao lado, tinha outro lago com água verde, no início pensavam que era suja, musguenta, mas disseram-lhes que podiam entrar com segurança, porque fazia bem à saúde, e quando entraram na piscina, a água variou entre vários verdes. Não sabiam explicar, mas sentiam-se bem nesse lago de águas verdes. 

       Por cima, o céu era muito claro, e um sol fantástico. Mais à frente, viram uma pequena praia, com areia muito branca, limpa, misturada com areia branca e cristais, pedras de todas as cores e feitios, e o mar, calmo, transparente, rochoso, com golfinhos a saltar à vista de todos, a nadar e a ir ter com as pessoas. 

       As palmeiras eram azuis e violetas, outras cor-de-rosa, outras amarelas, e outras misturadas com azuis, amarelas e verdes. Haviam montanhas azuis, amarelas, roxas, violetas, brancas, verdes, rosas, vermelhas, laranjas. 

       As casas eram todas de cores alegres, e os jardins continham todas as cores. 

Imaginem um lugar destes, podem fazer as alterações que quiserem, utilizando cores relaxantes e cores alegres.  

                                                                          FIM 

                                                                       Lara Rocha 

                                                                        17/11/2022

terça-feira, 15 de novembro de 2022

CH, X


     A Xana era uma menina que tinha uma gata chamada Xi. A Xi adorava enrolar-se no xaile da Xana sempre que se deitava no sofá, e na manta quando ficava deitada no sofá a ver televisão, a Xi dormia, mas assustava-se com alguns sons que ouvia na televisão. 

    A Xana tirava a Xi do seu colo quando queria ir à casa de banho, ou sempre que era hora das refeições, a Xi assustava-se, e ia atrás da Xana para a cozinha. 

    O irmão mais novo da Xana, o Chico, adorava tocar xilofone, um instrumento que deixava a Xi irritada, mas um dia, o Chico tocou no xilofone uns sons que a Xi adorou, até miou e dançou. A Xana e o Chico riram à gargalhada, e aplaudiram. 

     A casa da Xana e do Chico ficava muito perto de um pinhal, onde vivia um chimpanzé chamado Ximpé, muito simpático, conversador, e cozinhava que era uma beleza. 

    Um dia, a Xana, a Xi e o Chico viram sair muito fumo da chaminé da casa do Chimpanzé Ximpé. Ficaram preocupados, foram tocar à sua porta. 

    O Chimpanzé Ximpé, estava tão feliz a cantar e a cozinhar que não se apercebeu de que tocaram à campainha. A Xana e o Chico chamaram por ele aos gritos: 

- Ximpéééééé.... Ximpéééééé... 

     O Chimpanzé Ximpé só reparou que estavam a chamar por ele quando o Chico e a Xana bateram no vidro da janela da cozinha. O Ximpé assustou-se, abriu a janela e perguntou: 

- Olá Xana, olá Chico, o que aconteceu? Parecem assustados! 

- Olá! - dizem o Chico e a Xana. 

- Estamos a ver muito fumo a sair da tua chaminé! Nunca a vimos assim...está alguma coisa em chamas? 

     O Ximpé dá uma valente gargalhada, e responde: 

- Fiquem descansados! Sou eu que estou a cozinhar, num forno a lenha, é por isso que está a sair muito fumo da minha chaminé, e não é assim tanto fumo, é normal. Tive de pôr mais lenha para cozinhar mais rápido. Querem provar, os meus bolinhos, que se chamam caineves, com um chazinho? Uns acabaram de sair.   

- Chamam-se como? - perguntaram a Xana e o Chico muito surpresos 

- Nunca ouviram esse nome de bolos? - pergunta o Chimpanzé Ximpé

- Não! - respondem a Xana e o Chico

- Então, entrem, e vão provar, é só fazer o chazinho, que cai como uma luva, com este frio na barriguinha. Entrem! A chave está na porta, é só rodar. 

- A Xi também pode entrar? - pergunta a Xana 

- Quem é a Xi? - pergunta o Ximpé 

- É a nossa gata! - respondem a Xana e o Chico

- Óh, claro que sim, à vontade. 

    A Xana, o Chico e a Xi, entram na casa do Chimpanzé Ximpé. 

- Huuuummmm...que cheirinho! - suspiram os três 

- Devem ser mesmo muito bons, esses bolos. - diz a Xana 

- São! Sentem-se à vontade, vou pôr a mesa. - diz o Ximpé 

- Queres ajuda? - pergunta a Xana 

- Não, obrigado.

    Enquanto o chimpanzé põe a mesa, o Chico recomenda: 

- Ximpé, não devias deixar a chave na porta! Alguém pode entrar.

- Não há perigo! Eu não deixo sempre a chave na porta, mas às vezes como sou um distraído, deixo. Os meus vizinhos são um espanto, já sabem que sou distraído e quando veem a chave na porta, não deixam ninguém aproximar-se, ou guardam-ma, até eu a procurar. 

    Todos riem. 

- Quem são os teus vizinhos? - pergunta a Xana 

- Não vimos ninguém! - diz o Chico

- Áh, pensei que só eu é que eu era distraído. - diz o Ximpé a rir-se - eles andam por ai, se não estão em casa. A chita que se chama Chuvisco anda sempre a circular, mas conversamos muito, ela já é como família, por isso, está atenta e vem cá muitas vezes. O Mocho Chupeta mora mesmo por cima de mim, com a Coruja Xila, são um casal muito simpático, mas agora é de dia, estão a dormir, certamente. Encontro-os mais de noite. O Morcego Chorão vive no segundo andar, também só o vejo a partir da noite, a águia Chalé anda sempre por aí a voar, os coelhos Chinó e Chipé com os seus filhotes, uma série deles, são doze, não me lembro do nome de todos, mas são uns queridos! E a tartaruga Chinelo que nos dá música a qualquer hora. Um dia destes apresento-vos. Agora provem estes docinhos... 

    Sentam-se à mesa que tem uma toalha de xadrez colorida, bebem o chá e comem os bolinhos, que são mesmo muito bons, enquanto continuam a conversar. 

   O céu estava muito carregado, e quando acabaram o lanche começou a chover. A Xana, o Chico e a Xi não tinham levado guarda chuva. 

   O Chimpanzé ofereceu-se para os abrigar até casa, pediu um guarda chuva emprestado aos coelhos Chinó e Chipé, que lhes emprestaram logo os guarda chuvas, um para cada. Até a Xi teve direito a um. 

   Quando entraram em casa, a Xana e o Chico tinham os pés molhados, deixaram os sapatos à porta e calçaram logo os chinelos. A Xi limpou as patinhas, e a Xana calçou-lhe umas botinhas de agasalho que a sua mãe fez para a Xi. 

    A Xana e o Chico agradeceram muito a tarde bem passada, o lanche, os docinhos, e o chimpanzé Ximpé levou os guarda chuvas emprestados, de volta para os seus amigos, juntamente com uma flor que a mãe da Xana e do Chico quis oferecer, aos simpáticos coelhos. 

   Todos convivem alegremente uns com os outros, fazem companhia, riem, brincam, cantam, como prometido o chimpanzé Ximpé apresentou os seus vizinhos aos meninos Xana e Chico.

    Desde esse dia, sempre que o Chimpanzé Ximpé fazia bolinhos ou outros pratos, todos iam para sua casa, provar os petiscos. 


                                               FIM 

                                          Lara Rocha 

                                          15/11/2022


Atividade: 

- Indica na história todas as palavras começadas por CH, e todas as palavras começadas por X, utilizando duas cores diferentes. 

- Copia e escreve todas as palavras da história começadas por CH, e todas as palavras começadas por X. 

- Escreve outras palavras que conheces, começadas por CH, e outras palavras começadas por X. 

Podes colocar nos comentários, se quiseres. 


              



           

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Macaquinhos noturnos

 - A fase dos exames do 12º Ano -, ajuda a compreender melhor e a identificar sinais de stress nos adolescentes            

     Chamo-me Dália, tenho 17 anos, estou no 12º ano. Ainda dizem que a vida de estudante é a melhor de toda. Não sei, tenho dúvidas que seja a melhor. Tem coisas boas, e tem outras que nunca deviam existir. 

     Claro, essas outras, vocês sabem muito bem do que falo, com certeza, sim, vocês da minha idade, e os nossos pais que estudaram também passaram pelo mesmo. Parece que esta fase dita o nosso fim, é uma sentença de uma coisa má! 

     E às vezes é. Quer dizer, às vezes não, acho que a maior parte das vezes. Vejam lá se não tenho razão. Acabaram as aulas, duas semanas antes do primeiro exame. Estamos no Verão, apetece o quê? Estudar…? Com este calor? 

    Sejamos francos e realistas...Além do sono, tudo menos isso, obviamente. Apetece é estar com a malta, na piscina, na praia, na montanha, em qualquer sítio menos enfiados em casa a estudar. 

    Mas está em jogo o nosso futuro, e é daquelas decisões tipo os nossos pais, e avós, tios, quando eram pedidos em casamento, ou quando casavam. Se estavam preparados, se queriam, o que é que isso implica, os que pensaram nisso, porque outros, disseram logo que sim, e se fosse hoje dizem que não se casavam. 

    Às vezes nem sabemos para que cena vamos, gostamos de várias coisas, mas uns dizem para ir para o curso tal porque tem saída, mas gostamos mais de outro, que dizem que não tem saída...se não tem saída, vamos para o que dizem ter saída, mesmo que esteja no fundo da tabela das nossas preferências. 

    O que interessa é entrar, depois lá dentro, podemos mudar para uma série de cursos, caso não gostemos, desde que os nossos pais paguem. Que confusão nas nossas mentes! 

    Mesmo que não nos apeteça, temos de estudar, a matéria desde o início do ano, folhear os livros, consultar os materiais anexos, apontamentos e outro suporte extra partilhado entre os colegas, comprado nas livrarias para treino de exames.

    Já estamos a estudar há alguns dias, eu pelo menos, e quem conheço, com poucas horas de sono, quase hibernação diurna e noturna. Não sei se vos acontece isso, mas comigo...De repente, a minha concentração é interrompida por pensamentos como: «não, isto não sai...mas...se falamos nisto, pode sair...ou...não...acho que não! Mas...e se sai? Eu não sei responder! É melhor ver.»

    Levantamo-nos algumas vezes, e parece que já perdemos meia dúzia de horas, esquecemos tudo. Volta a reler, volta a escrever, volta a fazer esquemas...ahhhh...ufa...parece que as coisas estão a voltar à cabeça. 

    Comer? Perda de tempo. Dormir, nem se fala, tantas horas de olhos fechados, os macaquinhos tagarelas à minha volta, as folhas, os livros, as matérias, os esquemas, as lapiseiras, os livros, tudo a passar à frente da nossa vista, mesmo quando estamos deitados. 

    Estamos quase no limite das nossas forças, físicas e mentais, de tanto estudar, naquele dia, de estudar vários dias seguidos, e muito poucas horas de sono, ou nenhumas, quando os macaquinhos insistem em manter os nossos abertos. 

    É cada ataque de choro e nervos! Estamos deitados, e o raio dos macacos a saltar, a tagarelar, a dizer que não sabemos isto, que não sabemos aquilo, alimentamo-nos mal, parece que temos um nó ou qualquer coisa na garganta que não deixa a comida passar.

    Petiscamos, e comemos depressa, não podemos perder tempo a comer, há coisas mais importantes, como decorar a matéria que ainda não sabemos. Eu estou um tubarão, mas a minha mãe diz que estou um esqueleto, e manda-me comer, manda-me parar, manda-me dormir, manda-me sair de casa. 

    Suspeito que as vossas sejam iguais. Entendo a preocupação delas, mas como é que vamos fazer isso tudo, se temos toneladas de matéria para estudar em tão pouco tempo?! 

    Essa incerteza do que pode ou vai sair, do que não vai sair, mas se saem coisas que não estudamos, claro que não vai sair tudo, se não os testes demoravam vários dias, no meio de tanta coisa, sabemos lá o que vai sair. 

    Os profs dizem para não estudarmos só nas semanas antes dos exames, mas durante o ano, nem sequer nos lembramos que vamos ter exames, existem outros compromissos, e não há stresse a não ser antes dos testes ao longo do ano. 

    Esses chegavam para avaliação, e já esses provocam dor, sofrimento, angústia, principalmente quando achamos que passamos, e respondemos tudo certo, de repente...nota negativa, ou muito abaixo do que esperávamos. 

      Temos excesso de confiança durante esses testes, e cada barrete que enfiamos... nossa! Só depois desses acidentes de percurso é que tomamos consciência de3 que é melhor estudarmos mais, e com mais antecedência. 

      Claro que sim! Esquecemos rápido. No teste seguinte, lá estamos nós a estudar e a ler a correr, uns dias ou umas horas antes, páginas e páginas. Achamos que decoramos, pois sim, é que somos computadores ou scanners. 

    Branca total. Que terror, que sufoco, e agora...esquecemos tudo! Lá vem mais outra negativa. Não estudamos mais. Ou tentamos não dar tanto valor à nota negativa, e esforçamo-nos, às vezes corre bem, outras vezes corre mal. 

      Lá vamos levando o ano, aos tropeções, com vitórias e derrotas, mas deixamos andar, existe muito mais vida para além da escola. Mas quando chega esta fase...a minha mãe tem razão...Estou mais magra, não sei como, enfio-me em casa, dia e noite, tenho sentido náuseas, perdi o apetite, estou com dores de estômago, e de cabeça. 

        Mas não lhes ligo, porque não posso perder tempo a comer e a dormir, sequer, quanto mais a dar atenção às dores...elas fazem parte! Estou a estudar, ansiosa por parar um pouco, mas lembro-me: «não posso parar, ainda falta tanta matéria, como é que eu deixei atrasar tanto...parece que nunca vi isto à minha frente, mas se está aqui no caderno e nos livros é porque dei. 

      E agora? Que seca! Não, estou com sono, acho que vou deitar-me um bocadinho só para descansar a cabeça, como dizem os meus pais. Estou nada...é psicológico, é da minha imaginação. Calem-se, macaquinhos idiotas! Deixem-me estudar. Deixem-me concentrar. 

    Eu não estou com sono, nem posso estar, porque senão vou perder tempo! Tenho de sacar altas notas, porque quero ir para a Universidade, e não posso desiludir os meus pais!»

    Afirmo para mim mesma: «tenho de ser a melhor! É esse o objetivo dos meus pais e eu tenho que lhes fazer a vontade». «Estou tão cansada. Mas qual cansaço...(grita) estuda mas é!»

  Tomo vários cafés ao longo do dia, quando me sinto mais cansada, e uns estimulantes, aguento a noite toda e os macaquinhos calam-se. São espetaculares esses remédios! Uau! O que eu adiantei de estudo, sem ter de perder tempo a dormir. 

    Se não fossem esses estimulantes, e estudar a noite toda com cafés, nada de Universidade! Que desilusão, para os meus pais, e que vergonha para mim ver os meus colegas a entrar para a Universidade com altas notas, e eu ali a empatar. Nem pensar! Vou passar a tudo.»

    Sair com os amigos? Qual quê…? A vontade é muita, mas se sair com eles, não vou ter tempo de estudar, vou perder tempo, não vou conseguir ver tudo. Eles também estão como eu, de certeza que não pensam em sair, nem podem. 

    Deito-me, ao mesmo tempo que os meus pais, outras vezes fico a estudar até mais tarde, contra a minha vontade, porque vou perder tempo. Fecho os olhos, a pensar que vou descansar um bocadinho, só porque tem de ser. 

   Os olhos estão fechados, mas o raio dos macacos não me deixam em paz, a cabeça não para, continua a mostrar-me e a aterrorizar-me que não sei nada! Aqueles macacos...não os vejo, mas oiço-os. 

    Eles fazem-me começar a relembrar: «isto sei...isto já sei...isto…? Isto...não sei...Ui...aquilo acho que sei...aquilo não. Fico sufocada (suspende o ar) Não sei…? Tenho que saber!»

    Levanto-me, centenas de vezes, e vou ver novamente os livros, os materiais, os cadernos, das partes que não sei ou que acho que não sei. «Áh! Já sei...é isso!» Volto a deitar-me, confiante que sei. 

    A meio da noite, acordo num pânico total, quase a sufocar, sem conseguir respirar, a pulsação parece um bando de cavalos à solta. Sinto tonturas, mas não sei o que é. «Óh, não, estou doente! Não posso! Vai dar-me uma coisa...é desta que eu vou...e nem sequer vou fazer os exames…!

    Podia ter saído com os meus amigos...se eu sabia que me ia dar uma coisa má. Ai...ai...ai...socorro!! A minha cabeça vai explodir. Óh sorte maldita! Levanto-me a correr, e vou à casa de banho, de gatas com as tonturas, despejar todo o jantar, e se calhar o almoço, e os jantares dos dias anteriores; transpiro por todos os poros, e mais alguns, que eu nem imaginava ter.

  Os meus pais, preocupados, fazem-me um chá, tentam acalmar-me, eles suspeitam que é nervoso, medo e ansiedade antes dos exames, porque também passaram por lá.

    Entretanto, a respiração voltou, os cavalos foram para a cela, e fico em estado de exaustão, para ajudar. Com dores por todo o lado, começo a pensar: «será que esta dor no peito é sinal de algum ataque? Será que esta falta de ar é alguma coisa grave?»

    Consigo voltar a dormir algum tempo, e acalmar. Volto à carga no dia seguinte, sinto muito medo de ter brancas, de chumbar, de não saber...voltam os pensamentos e os sintomas físicos: a assustadora falta de ar, as dores de cabeça explosivas; as tonturas; a taquicardia; os suores; as dores de estômago; as náuseas, os vómitos, a diarreia; o cansaço, os tremores, as dores musculares e no peito.

É o pânico total: Eu, com tanta coisa para estudar, a não saber nada, parece que me esqueci de tudo de um minuto para o outro, tenho a sensação de desmaio, parece que vou ter um ataque de loucura. 

    Será que estou com algum problema de saúde. Vou ao centro de saúde, disse os sintomas, fui auscultada, disse que estou quase na época dos exames, medem-me as tensões, e diagnosticam-me com stress, ansiedade, pânico. 

    Medicam-me, com calmantes, ansiolíticos, e dizem que as crises podem voltar, mas para não se assustar, porque pouco tempo depois passam. Não são perigosas para nós! 

    Mandaram alimentar-me bem, descansar...como nos vamos alimentar bem se parece que temos um bolo na garganta? Ou qualquer coisa a apertá-la? Os médicos garantem que não tem nada, está tudo bem, é tudo ansiedade, stress típico dos exames. E vai passar. Confiamos neles, mesmo assim, até custa a acreditar.

    Mas...e não é que eles tinham razão? Ufa! Logo que tomo os medicamentos, volto ao normal. Deixei de ter aqueles sintomas, fico mais calma, descanso mais, organizo-me melhor, já não tenho os pensamentos acelerados e por isso posso raciocinar, memorizar melhor.

    Estou pronta para ter notas altas, como é o meu objetivo. Mas uma coisa aprendi, com  os próprios médicos, e com os profs...eles têm razão, o estudo é para ser feito gradualmente, desde o início do ano, e ir revendo, fazendo esquemas, ao longo do ano, várias vezes para refrescar a memória e associar à seguinte, se não, nada faz sentido! 

    Tudo se encadeia, mas quando estamos sob stresse, tudo fica confuso, baralhado, nublado, não sentimos segurança, temos medo de falhar, de desiludir os nossos pais, e amigos, mas isso deve passar para segundo plano, porque na verdade, acho que os nossos pais querem é que estejamos bem, e que tenhamos saúde. 

     Claro que ficam contentes com os nossos resultados, mas se temos notas baixas, eles estão aí para nos ajudar, e podemos pedir ajuda a explicadores, aos professores, aos colegas, não é vergonha nenhuma. 

  E até um psicólogo ou psicóloga pode ajudar, com antecedência, porque a psicologia não funciona tão rápido como os medicamentos, só que os seus efeitos são mais duradouros e fazem melhor à nossa saúde. 

    E vocês como estudam? (na véspera, não estudam, uns dias antes...)

    Como se sentem antes dos exames e testes? 

    Ficam assustados com o que sentem? 

    Vão ao médico? 

    O que fazem para acalmar?

Podem deixar nos comentários, ou partilhar na turma, e encontrar juntamente com os professores, alternativas mais saudáveis. 

                                                    Fim 

                                                Lara Rocha

                                                10/Novembro/2022





sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Delírios de solidão, esquizofrenia, ou demência?

         A bebé, a criança, a adolescente, a Adulta e a Avó 

        Uma Sra. na casa dos 70 anos, não sabia dizer ao certo quantos tinha, nem o dia e ano em que tinha nascido, ou onde. Já soube, mas agora tinha coisas muito mais importantes para tratar, do que saber essas coisas que já se tinha esquecido. 

        Ou se alguém lhe perguntava, ela desconfiava que era para lhe fazer alguma, para sondar a vida dela e depois roubá-la, ou fazer-lhe mal. Dizia que todo o cuidado era pouco, porque só havia gente mal intencionada e invejosa à sua volta. 

       Era vista sempre sozinha, a vaguear, como se estivesse a conversar com alguém. Os filhos estavam longe mas iam marcando presença por telefone, e quando podiam, de longe a longe marcavam presença. Estava separada do marido há muitos anos que a maltratava. 

        Tinha os braços numa posição que às vezes parecia segurar um bebé no colo, outras vezes a empurrar o carrinho imaginário, numa conversa terna e alegre com quem ninguém via. 

     Sentava-se num banco da rua, de jardim, ou numa cadeira da sua casa, uma vez com o bebé «invisível», outras vezes materializava o bebé com um boneco muito antigo, provavelmente da sua geração, com quem tinha longas conversas. 

        Chorava muito, ria com sonoras gargalhadas, muitas vezes não se percebia o que contava, apenas murmurava e acariciava, abraçava o boneco, beijava-o, sorria-lhe, cantava para ela. 

        Por vezes parecia que estava a alimentar o bebé com o biberão e a embalá-lo para adormecer. Noutros dias, ralhava com outras pessoas, inclusive parecia estar a ralhar com uma criança. 

        Em casa, e na rua, gritava com ela, parecia dar uma sapatada, e ordens para que a criança parasse quieta, ou se calasse. Fazia movimentos, falava com ela, contava-lhe coisas que fazia com aquela idade, como eram os pais, os avós, os tios, os primos. 

        Contava a essa criança «imaginária» que tinha animais muito variados na casa, como era a casa, os rituais, as festas na escola, a exigência e os castigos dos professores, o que tinha aprendido, a vida dura. 

        Às vezes, além de pegar no «bebé imaginário», também parecia pegar nessa criança ao colo, abraçá-la, beijá-la, sorria, mostrava-lhe coisas, cantava, embalava-a nos seus braços como se estivesse a adormecer. 

        Outras vezes fazia movimentos como se estivesse a bater-lhe e a castigá-la, ameaçava-o. De vez em quando, em casa, quando estava com o bebé «imaginário»; ao colo (ou o boneco), tanto ralhava com a criança para parar quieta, como a chamava com carinho para ir para a beira dela, e falava-lhe com carinho. 

        Parecia não ir sempre com a mesma pessoa, outras vezes dava a entender que ia com uma adolescente «invisível» ao seu lado. A essa Adolescente ela falava do que diziam ser pecado, do que era proibido, da gravidez Adolescente, dos amores muito diferentes de agora como a própria dizia. 

        Era um assunto que parecia tê-la perturbado, ou traumatizado, pois falava das tareias que algumas adolescentes levavam, e das famílias antigas, dos namoros. 

        Entre as conversas, lá saiam algumas lágrimas, gritos de raiva, «palavrões», e ria sozinha. As conversas eram longas com essa adolescente, umas vezes mais leves, outras mais duras. 

        Mas também era vista com o que parecia ser uma Adulta ao seu lado. Em casa, ouviam-na a falar também, mas não viam ninguém a não ser ela. 

        Quando lhe perguntavam se estava tudo bem, ela dizia que sim, que aquelas criaturas às vezes davam-lhe cabo da cabeça. Queriam saber quais criaturas, e ela respondia, os que viviam na casa dela, um bebé, uma criança, uma adolescente, uma adulta e uma velha. 

        Ela nem as conhecia, mas já tinham aparecido lá em casa, nem sabe como, talvez enviadas por algum dos filhos, acolheu-os, mas os mais pequenos não são sempre fáceis. 

        Dizia aos vizinhos que perguntavam, que a Adolescente tinha a mania que era adulta, então, saia com os amigos e chegava tarde, o que a deixava muito preocupada e acordada até ela chegar. 

        Ralhava com a suposta adolescente, por estar de vestido tão curto, ou com um top que via quase as entranhas, e o que estava debaixo da pele, ralhava com ela por usar aqueles sapatos tão altos, por estar toda pintada. 

        Ralhava porque achava que devia ficar em casa, ou não andar com aquela gente horrorosa que aparecia à porta, e que lhe ligava vezes sem conta. 

        Ralhava porque estava atrasada, porque era uma desavergonhada, porque ela tinha era que estudar, e não andar aí a desfilar. Gritava-lhe para desligar aquela porcaria de rádio ou telefone, e ir comer, se não, levava uma chapada ou uma chinelada. 

        Ameaçava-a que punha um polícia à porta para não a deixar sair. Uns dias parecia que estava muito bem, que não falava com quem ninguém via, nem levava nenhum bebé ao colo, nem criança, adolescente ou adulto. 

        Os vizinhos ouviam-na a gritar, a chorar, a ralhar, a insultar, a atirar coisas. Corria a casa toda, aos gritos, batia portas, abria e fechava.

        Os vizinhos perguntavam se estava tudo bem, se precisava de ajuda, e ela parecia não estar em si, ou uma outra pessoa, totalmente contrastante com a que viam à janela no dia seguinte, muito calma, a olhar para o vazio no espaço. 

        Ela respondia-lhes de noite que tinha de fechar as portas e as janelas dos quartos várias vezes, para as sombras não entrarem, umas sombras perigosas, maléficas, pois ela tinha a missão de proteger os hóspedes. 

        Ela dizia que as sombras horrorosas, com formas estranhas, faziam barulhos irritantes, outras tinham meio corpo, outras quase nem se percebia como eram. Umas sombras tinham olhos e dentes gigantes, guinchavam, as unhas eram nojentas, enormes e bicudas. 

        Mas as sombras tinham medo dela, e do bater das portas, das janelas, do que ela atirava, portanto, quando ela entrava nos quartos, porque pressentia o barulho delas, e o bebé e a criança começavam a chorar, desapareciam.

        Não descansava enquanto não verificasse várias vezes se as sombras tinham ido mesmo embora, e se estavam em segurança. Os vizinhos achavam tudo muito estranho, porque só a viam a ela, e só a ouviam, não viam nem ouviam mais ninguém. 

        Na manhã seguinte, tanto a viam com os supostos «hóspedes», muito bem disposta, como estava à janela, cumprimentava os vizinhos, sorridente, conversava sobre tudo e mais alguma coisa, como se nada se tivesse passado. 

        Avisaram os filhos que a levaram ao médico, mas ela negou que estaria com algum problema de saúde mental. Tinha a convicção que aquelas pessoas existiam, não sabiam como se chamava, talvez lhe tivessem dito, mas esqueceu-se com a preocupação de cuidar deles. 

        Afirmava com toda a segurança que aquelas sombras também invadiam os quartos, eram mesmo monstruosas, tenebrosas, maléficas, queriam mesmo dar cabo dos hóspedes, mas tinham medo dela, dos barulhos das portas e das coisas que ela atirava. 

        Dizia que o bebé, a criança, a adolescente, a adulta e a mais velha deviam ser todos da mesma família, porque eram parecidos. Também não andavam sempre colados nela, mas até a tratavam com carinho. 

        Mostravam-lhe um espelho e ela umas vezes dizia que era a própria, outras vezes que era a mais velha que andava com os outros elementos. 

        Os médicos também não viram ninguém, mas fizeram-lhe vários exames. 

Delírios (de solidão)? 

Esquizofrenia? 

Demência? 

Outros... 

Não há uma resposta única, depende da interpretação, e podem imaginar mais pormenores para que haja um diagnóstico definitivo, através das características. 

Podem trocar impressões nas aulas, entre vocês, ou responder individualmente, aqui nos comentários. 


                                        FIM 

                                    Lara Rocha 

                                 28/Outubro/2022