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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Envelhecemos! - monólogo sobre envelhecimento ativo

 


Somos um corpo desde que nascemos, perfeito, com os seus defeitos,

maravilhosamente construído no encontro, no amor ou na ocasião.

Todo o nosso corpo é música, em que idade? Enquanto bebés?

Qual idade? Desde que somos concebidos. Não, não somos corpos 

perfeitos, só em bebés. Somos instrumentos musicais! A nosso boca é um 

trombone, quando dizemos coisas desagradáveis, magoamos alguém

com palavras que nos saem sem querer, quando gritamos, discutimos,

quando nos irritamos. Umas vezes somos trompetes, saxofones,

conforme a intensidade do que dizemos. Outras vezes…somos flautas,

clarinetes, violinos, violoncelos, ferrinhos, sininhos, quando dizemos 

coisas mais agradáveis, quando somos doces, meigos, simpáticos,

quando elogiamos, dizemos sentimentos bonitos, encantamos com 

palavras. O nosso coração, umas vezes é um tambor, outras vezes uma 

orquestra de tambores ao despique quando bate mais forte, de paixão, de 

alegria, nervos, emoção, medo, desejo, ou impaciência. Qual idade? Em 

qualquer idade, desde que nascemos. Outras vezes, o coração é um piano,

com vários tons, quando está sereno. Todos os nossos sentidos, têm a sua 

música própria. Em qualquer idade! Todos os nossos sentimentos, são 

música, e são instrumentos musicais, que tocam, em todo o corpo, e nos 

outros. Somos sonhos, esperanças, forças e fraquezas.  Fraquezas, que 

desagradável...mas envelhecemos! Envelhecemos...Sim, todos! Mais cedo 

ou mais tarde. Desde o dia em que nascemos. Mas nem por isso deixamos 

de ser, e de envelhecer. Que bom! É sinal que somos e vivemos, desde que 

nascemos: amizades, namoricos, festas, doenças, medos, risos, lágrimas, 

dores, alegrias, tristezas, aventuras, brincadeiras, coisas sérias.

Mas como somos principalmente pessoas, vamos mudando em tudo!

As rugas assustam, porquê? Envergonham, porquê? Estas devem ser 

aceites, acolhidas, motivo de felicidade, orgulho, experiência e sabedoria,

batalhas enfrentadas, vitórias, derrotas, conquistas, ilusões, desilusões,

amores correspondidos, e não correspondidos. Porque se escondem as 

rugas? Para quê? O espírito não tem idade, nem rugas, nem fim...Por isso, 

envelhecemos só por fora. Envelhecemos...Quando reparamos demasiado 

nas rugas, em vez de repararmos no que há de bonito à nossa volta, no que 

podemos e queremos dar, fazer, aprender. Ainda há tanto para fazer... 

Ainda há tanto para ensinar e aprender...Tanto amor e carinho para 

espalhar...Deixem as rugas em paz...Até o sorriso com rugas, é especial 

para quem o vê, e ainda mais para quem o expressa...Dá luz, se vier do 

coração, da serenidade, da felicidade pela maravilha que é estar vivo,

com mais ou menos limitações! Envelhecer é aproveitar o que temos,

quem somos e quem temos. Envelhecemos quando deixamos de nos rir,

deixamos de nos divertir, deixamos de brincar com, e como as crianças...

Envelhecemos quando deixamos de tentar, envelhecemos quando 

deixamos de conviver. Envelhecemos quando deixamos de apreciar a 

natureza e em vez disso, pensamos na solidão...Envelhecemos, quando 

sentimos demasiado os números, envelhecemos quando nos entregamos à 

tristeza, e ao pensamento de que não servimos para nada, ou que é o fim.

Grande mentira...Se tivermos vontade e alegria de viver...Se o espírito for 

eternamente jovem, não são as rugas, ou os passos mais lentos, nem as 

dores...Que nos impedirão de sermos livres, e eternamente crianças!

Envelhecer é um prémio. Aproveitem-no, mesmo com rugas. Deixem as 

rugas em paz, e sejam mas é felizes. Porque a felicidade não tem rugas

e faz bem à saúde, mais do que mil comprimidos.


Lara Rocha

desenhos – Lara Rocha  

monólogo sobre envelhecimento ativo; positividade; valorização do corpo mesmo com rugas,



monólogo para adolescentes e adultos «Saudades de um outro…»



(Suspira ao olhar para o telemóvel e para uma foto).

RAPARIGA - Releio as tuas mensagens…as poucas que me mandaste desde que entraste na minha vida! E porque tenho saudades…! Não entraste há muito tempo, na minha vida, mas eu já te tinha acolhido no meu coração…mas também rapidamente saíste dela. Da minha vida, porque continuas no meu coração, adormecido…! Como uma estrelinha sem brilho, perdida numa imensa galáxia…Sem brilho, porque está doente…! Sim, para mim estavas a ser uma estrelinha! Não, não fui eu que te mandei embora…tu é que quiseste sair. De livre vontade, ou talvez não…talvez…a tua doença é que te tenha retirado! Sim, essa retirou-te muitas mais coisas, principalmente a boa disposição, a calma, a paciência, a alegria, a simpatia, a meiguice, a delicadeza… a vontade de falar…! Releio as tuas mensagens, e vejo a tua foto, a única que tenho, desde o último encontro, aliás…último e único…depois de tantas promessas que me fizeste, de que nos iríamos encontrar muitas mais vezes… foi inesperado e doce, o nosso primeiro e único encontro. Sim, foi lindo! Parecíamos dois adolescentes envergonhados…! Mas foi como um lindo sonho, que durou aquela hora, mas pouco depois…um monstro…o monstro dos pesadelos…levou esse sonho! Para onde? Não sei, isso só tu poderás responder. Se calhar…nem tu sabes bem por onde andas! Andas perdido nos teus pensamentos, nas palavras que não dizes…mesmo a quem te quer bem! Eu estava tão feliz quando a nossa amizade começou… (rir) Amizade…?! Será mesmo? Será que sentias isso…como eu senti…? As nossas conversas, sempre tão agradáveis, sobre diferentes temas…Como tu dizias…adoravas falar comigo…! E admiravas-me! Isso estava a fazer-me tão bem ao ego… à auto-estima! As palavras simpáticas que só tu me dizias…a força que me transmitias com as tuas mensagens…e a alegria que trazias aos meus dias, sempre que falávamos, ou nas mensagens queridas que me mandaste param o telemóvel. Será que estava mesmo a começar uma amizade…Ou terei sido eu, que na minha inocência, e romantismo, ou infantilidade, talvez…que imaginei que aquela troca de mensagens ou de palavras, seria o nascimento de uma linda amizade?! Ou seria a minha vontade de ter um amigo…? Homem…! O erro pode ter sido meu…talvez tenha uma visão muito cor-de-rosa das coisas, das relações…talvez ache que sejam todos como eu! Sinto a tua falta… Sinto saudades do homem, amigo… que estava a começar a conhecer. Até que… aos poucos… tudo se transformou…! Em silêncio, em frieza, em distância… em esquecimento… talvez! Aos poucos, afastaste-te, deixaste de falar comigo, deixaste de ser aquele homem simpático, brincalhão, animado, dedicado, que transmitia força… e luz…! A tua doença… talvez… é que te tenha transformado num novo ser…! Sinto saudades! A tua frieza, nas duas últimas vezes que falamos, já quase foi preciso eu arrancar-te da garganta palavras…quer dizer…monossílabos… preocupou-me… deixou-me triste, gelada…Apesar de isso me ter congelado o coração, não dei muita importância, pois todos nós temos dias maus…!Tinha esperança que…amanhã seria outro dia, e tu estarias melhor…que amanhã… tu voltarias a ser aquele amigo…! Mas no dia seguinte…e no seguinte…e no outro…e no outro a seguir…até hoje… de tua parte só recebi o silêncio…Um silêncio que de dia para dia atravessa a minha pele, o meu coração. A maneira como falaste comigo da última vez…Talvez não fosses tu a falar… talvez fosse a tua doença a falar por ti! Porquê…? Porquê…? O silêncio! Vá lá…deixa que te ajude…! Eu…e os teus…que te amam! Só tens de abrir o teu coração para mim, em vez do teu silêncio. Quanto mais os dias passam… e as noites… sem uma única palavra tua, sem uma única mensagem tua… mais o silêncio se torna insuportável para mim, mais o coração dói, e mais triste eu fico! Mesmo com o teu silêncio, com o teu gelo, a tua distância… eu ficarei à espera…à tua espera…Amigo! De dia para dia, as saudades aumentam, assim como a tristeza…e o sentimento de impotência! Não sei lidar contigo…! Quero ajudar-te, mas não consigo…Porque tu não te abres comigo! Com o teu silêncio não poderei ajudar-te! Dizes que não queres falar, nem comigo, nem com ninguém…está bem! Não és obrigado. Eu entendo… a tua doença é que deve dizer isso…quer dizer…ela é que te domina… ela é que fala por ti… Quero voltar a ser feliz e a sorrir, por ter um amigo como tu…Quero que a sementinha da nossa amizade que estava a nascer… renasça e cresça mais forte! O silêncio é que não por favor! Esse não vai fazer com que a sementinha cresça…! Quero que a tua frieza, se transforme em calor…em luz…em brilho…por favor…deixa-me ajudar-te! Quero que a estrelinha que está no meu coração, volte a brilhar dentro de mim! Tenho saudades! Amanhã é outro dia…esta noite vou sonhar contigo, com a volta da tua amizade…! E com o fim da tua doença! Amigo…espero por ti! Estou sempre aqui…neste momento com saudades! E que a nossa amizade renasça. Beijos repenicados, e grandes…como nós dizíamos um ao outro, depois de falarmos. Não te esqueças…estou aqui! Amigo!!!


Lara Rocha

(4/Dezembro/ 2012)



  



domingo, 25 de outubro de 2020

Os grilos da minha cabeça (monólogo)

      

                                 Foto de Lara Rocha 


      Já alguma vez passaram pela experiência até divertida, relaxante, agradável de estar ao ar livre, numa noite quente, cheia de estrelas por cima, instalados num lugar silencioso, envolto em mistério, composto por escuro, e pelo som de grilos, cigarras, os mochos, as corujas e outros, a cantar? Espetacular não? 

        É. Este cenário fez parte da minha infância, adolescência e idade adulta. Eu até gostava, principalmente quando saía do barulho e da agitação da cidade, dos computadores e carros. Era quase um ritual místico, espiritual para mim e para a minha família. Quase como se estivéssemos a ouvir anjos a cantar em coro, sem os vermos. Acho que isso despertava a nossa imaginação, sabíamos que eram insetos, mas como não os conseguíamos ver, talvez os imaginássemos de forma diferente.

        Adorávamos ouvir os grilos e as cigarras, às vezes as rãs e sapos a coaxar nos ribeirinhos com água por onde passávamos quando passeávamos à noite, e o próprio som da água a cair no escuro, era lindo! Outras vezes, os sons da água, dos insetos misturados com o vento que mexia as folhas, ainda tornava o ambiente mais fantástico, quase a tocar o suspense. Não sabíamos o que ia aparecer...quer dizer, nunca apareceu nada! 

        Mas toda essa magia que ainda paira as minhas memórias, deixou de ser assim tão especial, a partir do momento em que...os grilos e as cigarras cantoras, decidiram apropriar-se indevidamente do terreno onde escolheram, quer dizer, onde achavam que tinham direito de se instalar. 

        Que grandessíssima lata! Um terreno que só era povoado por cera e por outros sons, e tenho que as aturar? Mas era só o que faltava. Já não estou nesses terrenos por onde andei, a ouvi-los, mas é como se a minha cabeça tivesse ficado lá, ou como se estivesse viciada nesses sons! 

        Oiço grilos! Oiço-os por todo o lado, a toda a hora, de dia e de noite! Perseguem-me, não me deixam sossegada, só deixo de os ouvir quando durmo. Não vejo um único, só os oiço. Um coro irritante de grilos a cantar nos meus ouvidos ou na minha cabeça. 

        Como pode ser? Acho que acabei de descobrir de onde vem. Mando mails com propostas de trabalho, concorro por conta própria, proponho parcerias com colegas, e não tenho uma única resposta. Dia, após dia, semana após semana, um mês atrás do outro. Silêncio...é a única resposta que recebo do outro lado. Só cortado pelos malditos grilos que até parecem cantar com o dobro do entusiasmo. 

        Portas fechadas, janelas fechadas, portões fechados para mim! Não há trabalho. Lá vem os malditos grilos fazer festa. Como se não ter trabalho fosse motivo de festa. Eles é que nunca ficaram sem trabalho, é por isso que cantam dia e noite na minha cabeça. Claro, ao contrário de mim estão felizes! 

        Ora pois, compreendo, até eu, se tivesse respostas, em vez de silêncios que para mim são a mesma coisa que «nãos», estaria feliz, e cantaria com gosto. Os grilos até têm sorte, andam felizes o dia todo, levam uma vida relaxada, não têm desilusões, nem desgostos, não recebem «nãos», nem silêncios. Só me infernizam as noites e os dias, sempre que há mais silêncio. 

        Estúpidos grilos. Calem-se! Invejo-vos! Sim, até gostava de ser grilo só por um dia e para poder azucrinar as cabeças dos que me dizem «não», dos que se esquecem de me responder, dos que me fecham portas atrás de portas. 

        Gostava que os que me dizem «nãos», com  palavras ou com indiferença que ainda me custa mais a aceitar, e silêncio, experimentassem, como é viver com grilos irritantes dia e noite, sem sequer os ver. E quanto mais os mando calar, mais eles cantam, é mesmo gozar de fininho! 

        Quando disse que ouvia grilos, todos se riram na minha cara. Disseram-me que eu estava louca, a delirar, que estava a ouvir a mais, ou o que é que eu tinha andado a fumar. Pois, se o fumar os calasse até experimentava, mas eles podem gostar de fumar, ter esse vício, ou até gostar da experiência, e querer repeti-la. Depois então é que não me largavam! 

        Como eu era feliz, sem estes malditos grilos. Até gostava de apreciar o silêncio e ouvir o som dos grilos, das cigarras quando ia de férias no Verão para o campo e para a praia! Mas tudo ficava em silêncio e eu dormia embalada por esse coro. Quando ia dormir, toda a bicharada ficava fora da porta.

        Mas a minha apreciação e relação com grilos e cigarras, mudou desde que se lembraram de fazer morada nos meus ouvidos e na minha cabeça. Não sei como se atreveram, devem ter ficado tão convencidos por eu os apreciar, que não me largaram mais, acharam que deviam retribuir-me a atenção que lhes dei, infernizando-me as noites! 

        Já os ameacei que os punha fora porque não pagam renda e ocuparam o espaço indevidamente. Não adiantou nada, parece que ainda foi pior! Fui ao médico, para ver se eles estavam mesmo lá, coisa que eu acreditava ser muito improvável, para não dizer impossível, porque sei que isso só acontece nos desenhos animados. Mas nos desenhos animados, tal como entram no corpo dos bonecos, também saem, só que os meus, pareciam ter entrado e não saiam. 

        Obviamente, o médico viu os ouvidos e não estava lá grilo algum. Nem um, quanto mais um coro. Mas eu ouvia-os. Isso tinha a certeza. Mandou-me para o médico psiquiatra, que me sugeriu não dar importância aos grilos, ou cantar com eles; para pensar noutras coisas, e receitou um calmante. 

        Ia pensar noutras coisas? Que coisas? Sem trabalho...só se fosse pensar em coisas más, mas pelo que ele disse, as coisas más ainda os alimentam mais. Era impossível, e ainda é, não me centrar neles, com o barulho que fazem, e eu sem poder controlá-los. Ele falava, porque não era quem os aturava. 

        Mesmo assim, abençoado calmante, pensei eu, toda satisfeita, quando tomei e durante umas boas horas não ouvia esses malditos grilos. Só que...passava o efeito e lá vinham eles outra vez! Que inferno! Pelo menos enquanto não os ouvia, tinha sossego. 

        Fui ao otorrino. Caiu-me tudo! Quase explodi com o que ouvi. Os grilos da minha cabeça, e dos  meus ouvidos, eram para viver comigo! Não acreditei, o Dr. só podia estar a gozar! Eu já não os podia aturar e ia ter que viver com eles? Como assim? E quê? Tinha que lhes oferecer um cafezinho, almoço, jantar e quarto, sem pagarem, sem contribuírem com nada?! Não queriam mais nada. É que nem boa companhia são! 

        Pois, mas, ou aprendo a viver com eles, e tento negociar com eles, para me incomodarem menos, ou aturar mil campos com grilos e cigarras a toda a hora a cantar! Sempre será melhor habituar-me a eles, ou pelo menos fazer as pazes e não stressar, para ver se não dou tanto por eles! 

        Ainda por cima, sempre que eu stressasse, eles cantariam mais alto, e foi mesmo isso que aconteceu! Os malditos cantam em coro, sempre que me irrito, cantam mais baixo com medicamentos e quando estou mais calma, ou mais ocupada, mais feliz, mas não saem dos meus ouvidos. 

        Nunca me imaginei a viver com grilos e cigarras, mas o médico disse que não tem cura! É um estrago de tanto stress. Claro, faz todo o sentido, stress de tantos «Nãos»; diretos e indiretos, silêncios, portas fechadas, umas atrás das outras! 

        Pelo menos os meus grilos não são filhos da esquizofrenia ou outros problemas, como inicialmente me disseram que podia ser, porque causam alucinações, até eu cheguei a pensar que fossem alucinações de saudades desses tempos, mas não. 

        Os que sofrem de esquizofrenia e outros problemas mentais que causam alucinações, também têm que viver com essas vozes desconhecidas que lhes dão ordens, ou que as insultam. Que pesadelo, já estes não são fáceis de aturar...o psiquiatra também pensou que fosse o meu caso, mas percebeu que não. Felizmente, acho que então é que enlouqueceria. 

        Não gosto destes grilos, odeio-os, tanto como odeio os silêncios, as «não respostas», que na verdade são respostas. Não tenho outro remédio senão aceitar e viver com eles, desde que não me infernizem. São como os vizinhos indesejados. 

        Não me livro deles, mas tive de aprender a domá-los, a mandá-los tocar e cantar no raio que os partam, mais baixo, e às vezes dou-lhes veneno que os cala temporariamente, pelos vistos gostam. Se fosse agora, voltava a querer ouvir o som dos insetos, nos campos, não nos meus ouvidos, nem na minha cabeça. 

        Agora a única coisa que posso fazer é idealmente não stressar, no mundo ideal, no mundo real é difícil, mas pelo menos stressar o menos possível. Os meus grilos e cigarras passaram a ser um alarme despertador, que toca para parar e acalmar, mudar de atividade, descansar. 

        Claro que me perturbam, mas passei a vê-los de forma mais familiar, para tentar que não me massacrem tanto! Já que não posso livrar-me deles, tento que se tornem mais toleráveis. O melhor é reconhecer quando estou stressada, e agir para diminuir. Cada um tem as suas criaturas no corpo para viver com elas, ou lutar contra elas, mas na impossibilidade de lutar, o melhor é mesmo aceitar. 

                                                                                FIM 

                                                                            Lara Rocha 

                                                                          25/Outubro/2020

sábado, 24 de outubro de 2020

A águia e o medo

       
desenhado por Lara Rocha 


       Era uma vez um ser muito pequenino, muito simples, feito de paus e folhas. Um dia, os seus pais fizeram uma grande festa em casa, com muita gente de família, que durou até de manhã, mas os pequenitos, ele e os primos, quiseram experimentar dormir no terraço da casa, que era um lugar sossegado. 
        Esse pequenino e os primos, acomodaram-se como puderam, instalaram-se confortavelmente em cascas de bolotas, espalhadas por todo o terraço, pelo vento, que levantava e arrastava as folhas, as bolotas e tudo o que apanhasse. 
        Cabiam na perfeição, era um lugar aconchegante! Cobriram-se com uns trapinhos do pequenino ser, e ficaram em silêncio, naquela noite, protegidos do vento, mesmo assim, ouviram sons desconhecidos de todos, só o pequenino é que já conhecia. 
        Ouviram vento a mexer com as folhos no solo, e o vento entre as árvores. 
- Ai, o que é isto, primo? - perguntou um pequenino assustado 
- Não precisam de ter medo, é o vento a embalar as folhas no chão para elas dormiram. - disse o pequenino da casa 
- E as folhas dormem? 
- Dormem! 
- Acho que deve ser algum monstro debaixo das folhas. - diz outro pequeno 
- Qual monstro, qual quê? Nunca vi nenhum monstro aqui! É o vento! 
        Passado um bocadinho, ouvem o barulho dos mochos e das corujas a piar. Ficam todos estáticos. 
- O que é isto, primo? 
- São os mochos e as corujas a piar. 
- Já costumas ouvi-los? 
- Já. 
- Fazem mal?
- Não! 
        Tentam adormecer, mas não há maneira. Ouvem outro barulho: 
- Primo, o que é isto? 
- São cigarras e grilos a cantar! 
- Já conheces? 
- Já. Durmam, estamos num lugar seguro! 
- É que estes barulhos são muito esquisitos. 
- Não são nada. Ouçam, como é bonito o cantar deles e delas.
- São perigosos? 
- Não. Nem se veem. 
        Distraem-se com os barulhos, e como não conhecem o lugar, tudo os assusta. Passam uma águia a voar baixinho. 
- Primooo... - gritam todos 
- O que foi? Durmam! - resmunga o pequeno 
- Quem é este aqui por cima? 
- É uma águia. - estremece - não se mexam. 
- É perigosa? 
- Esta pode ser. 
        A águia paira: 
- Olá, boa noite... aqui fora, hoje? - pergunta a águia, simpática 
        O pequenino ser, tenta disfarçar o medo, mas responde: 
- É! Hoje houve festa cá em casa, ainda está a haver, e nós, mais pequenos viemos dormir para aqui, mas os meus primos estão tão assustados que não me deixam dormir, nem dormem. 
- Áh! Estão com medo, e tu também! Não, não fiques envergonhado, nem precisas de disfarçar, eu sei que todos têm medo de mim, e dos meus, mas somos vítimas de discriminação, pelo nosso aspeto! Só que, nem sempre é verdade, o que dizem por aí de nós. - diz a águia  
- A...A sério...? 
- Sim! 
- Como não estão com sono, querem ouvir a minha história? - pergunta a Águia 
- Sim! Por favor... - respondem todos 
      A águia chama-os, para se aproximarem mais. Todos se chegam mais para a beira do primo, sentam-se nas caminhas e olham para a águia. Como ela é gigantesca, e no escuro ainda parece maior e mais assustadora. 
- Sei que vos pareço agora, ainda mais assustadora em tamanho, e porque o escuro desperta a nossa imaginação! Porque é que dizem que somos tão perigosas... - a águia conta pacientemente a história da evolução da sua espécie, fala sobre a forma como vivem, e o que se diz delas. Às vezes dá mais intensidade às palavras que diz, e os pequeninos estremecem, quase com os olhos a saltar de órbita, desde que a Águia contou a sua história. Quando eles estremecem, ela ri-se e diz: 
- Desculpem, não vos quero assustar... é só o meu entusiasmo! Continuando... 
        Os pequenos riem, ouvem atentamente, e como ainda estão muito despertos, a Águia convida-os para dar uma pequenina volta, nas suas asas, só naquele espaço, para conhecerem os barulhos e dormirem descansados. 
        Eles aceitam, adoram sentir a maciez e o calor das penas da águia, ela voa devagar, e baixinho, mostra cada milímetro daquele espaço, quem vive nesse lugar, põe-nos a ouvir os sons e explica o que são, quem os faz, e garante que não são perigosos. 
        Põe-nos a ouvir barulhos mais distantes, e fala sobre eles. Os pequeninos começam a ficar mais calmos, e com sono. A águia devolve-os ao terraço, deita-os nas caminhas, cobre-os, e levanta voo. Eles dormem até de manhã, quando os pais vão buscá-los. 
        A partir dessa noite, os pequeninos seres não tiveram mais medo de barulhos, porque quando voltaram para as suas casas, pediram aos pais, e aos avós que lhes apresentassem o espaço onde estão, ficaram muito atentos aos barulhos que os cercavam, dentro e fora de casa, com luz acesa, luz apagada, de dia e de noite, com escuro e claridade, aprenderam a distingui-los, e a saber que estavam num lugar seguro. 
        Sempre que iam para casas de familiares ou amiguinhos, lembravam-se que podiam ouvir barulhos diferentes, mas estavam com pessoas que conheciam, e que não faziam mal, por isso, dormiam descansados. 

E vocês, pequeninos leitores, conhecem os barulhos que há fora e dentro do vosso quarto? Quais são? Podem pedir aos vossos papás para os desenhar, ou escrever aqui no blog. 

                                                                Fim 
                                                           Lara Rocha 
                                                          24/Outubro/2020
                                            

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Afago na alma

        
                                       Foto de Lara Rocha 


        Era uma vez uma rapariga ainda jovem, solitária, que tinha ido viver para outra cidade, para trabalhar. No início não conhecia ninguém, passeava pelas ruas, às vezes parava, triste por estar mais longe dos seus pais e família, mas feliz porque trabalhava. 
        Ao fim da tarde, num desses passeios depois de um dia cheio de trabalho, a jovem foi para o parque da cidade, cheio de gente a correr, a praticar desporto, a ler, a desenhar, e a descansar. Ela caminhou lentamente e parou várias vezes para apreciar as árvores, tocar-lhes nos troncos carinhosamente, abraçá-las. 
        Sentiu todas as irregularidades dos troncos, viu cada cor das folhas, sorriu, apanhou uma folha de cada cor, e guardou-as para as pôr a secar. Apreciou os casais com filhos pequeninos e outros maiores, a simplicidade e a felicidade nos seus rostos, a leveza das folhas a dançar levemente com a brisa, sentiu o calor do sol, deliciou-se com o silêncio que parecia falar com ela, e ela entendia. 
        Ficou maravilhada com os espelhos de água, os vários reflexos e cores, ouviu os cães a ladrar, viu a alegria com que os animais corriam, saltavam, abanavam o rabo e ladravam, viu casais românticos, e pessoas mais velhas sentadas nos bancos. 
        Mesmo na cidade, aquele parque tinha muitas coisas bonitas para ver, tinha acabado de descobrir que a fazia sentir-se mais próxima da sua terra, na companhia da Natureza, e prometeu a si própria que voltaria sempre que pudesse. 
        Quando se preparava para sair do parque quase ao pôr do sol, lembrou-se que na sua terra, os pássaros voavam às dezenas e centenas e faziam um bailado. Era um espetáculo visto diariamente, que adorava e não perdia. Mas pensou que na cidade, por causa da poluição e ruido os pássaros não fariam isso. 
       Parou uns momentos a olhar para o céu, e que surpresa! Viu dezenas de pássaros que pareciam ainda um bocadinho distantes, a voar de um lado para o outro, formando ondas, setas e meios círculos, com uma leveza e harmonia tão bonita e especial, como ela já conhecia. 
        Ficaram todos a olhar para ela, que estava parada, com um sorriso de orelha a orelha, e os olhos colados ao céu, a acompanhar os movimentos de dança dos pássaros. Não sabiam o que é que ela estava a ver. 
Um jovem perguntou-lhe: 

- Estás bem? 

        Ela não respondeu, e parecia que estava noutro planeta. Aproximou-se um senhor e perguntou: 

- Menina... está tudo bem? 

        O jovem explica: 

- Eu já perguntei se estava tudo bem, mas ela não respondeu. Parece que está a dormir de olhos abertos. 

        O bando de pássaros aproxima-se, em movimentos ondulantes, a jovem suspira e diz: 

- Olhem que lindo, que coisa mais maravilhosa... o bailado dos pássaros! 

- O quê? - perguntam os dois 

        Ela responde, sem tirar os olhos dos pássaros: 

- O bailado dos pássaros! 

        O senhor insiste: 

- Menina, está mesmo bem? 

- Sim, estou ótima, deixem-se de perguntas e apreciem este momento. Olhem para aquele bando de pássaros, tão leves, tão elegantes, tão coordenados no voo, parece que estão a dançar, a ondular. Que delícia! 

        O jovem e o senhor olham para os pássaros, e quase sem dar por isso, em seguido estavam todos parados no parque a olhar para os pássaros, igualmente encantados. 

- Nunca vimos isto aqui! - comenta um jovem de um casal 

- Áh! Que bonito. - diz uma jovem 

- Uau! 

        Ela ouve grandes exclamações, e quando os pássaros desaparecem num telhado onde teriam os seus abrigos, a jovem aplaude, e todos seguem o seu exemplo. 

- Menina, obrigada por nos mostrar uma coisa tão bonita! - comenta uma senhora com alguma idade 

- Nunca tinham visto? - pergunta a jovem muito surpresa 

- Não! - respondem todos 

- Na minha cidade, vi muitas vezes, e aqui também deve acontecer mas nunca repararam! - diz a jovem 

- Se acontece, nunca reparamos! 

- Passam todos os dias a correr, só a olhar para a frente, e a grande velocidade, perdem o que há de mais bonito. É como na minha cidade, só alguns são capazes de ver esta magia! Olhem as cores do céu, que coisa mais encantadora! Nos próximos dias estejam mais atentos. - recorda a jovem 

- Que lindo! - suspira um senhor com alguma idade 

- Vou para casa, com este afago na minha alma! É o bailado dos pássaros. - diz a jovem com um grande sorriso 

- Eu também! - respondem todos 

- Até amanhã! - diz a jovem 

- Até amanhã, menina. - dizem todos 

        Cada um vai para a sua casa, com os olhos cheios de beleza, com a imagem daquele bailado, mais serenos, e sorridentes. No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, a jovem voltou ao parque, e percebeu que todos se juntaram a ela, para ver outra vez o bailado dos pássaros que se repetiu sempre bonito e especial, com palmas e sorrisos quando os pássaros recolheram. 
        O momento do bailado dos pássaros, naquele parque passou a ser um hábito, repetido por todos, apreciado em silêncio, do início até ao fim, e aplaudido. Parecia quase uma contemplação sagrada que todos respeitavam, paravam e seguiam os movimentos encantadores dos pássaros a dançar. 

                                                                FIM 
                                                            Lara Rocha 
                                                         15/Outubro/2020

terça-feira, 13 de outubro de 2020

As prendinhas das pinhas

 

                                                                                foto de Lara Rocha 


           Era uma vez uma grande família, que depois de uma festa foram dar uma volta até à montanha que ficava poucos metros abaixo da casa. Pelo caminho, e como rapidamente se aproximava o Natal, apanharam pinhas. Uma tradição de Natal para esta família, era trocar pinhas, decoradas a gosto por cada um, e embrulhadas, para a noite em que todos se reuniam.  

           Depois de apanhadas, cada um levou todas as que precisava, e começa a preparação. Maravilhosamente pintadas, com brilhantes e outros pequeninos objetos colados, outras salpicadas de púrpura de várias cores, outras coladas com tecidos, outras com flores artificiais, uma grande variedade. 

           O que ninguém estava à espera era das surpresas que algumas guardavam nas aberturas. Não. Não eram pinhões. Uma senhora que estava deliciada a decorar a sua pinha para oferecer, apercebeu-se de alguma coisa branca, pequenina, redonda, numa das aberturas. Pegou numa palhinha e tirou, para grande surpresa dela, era mole, e percebeu que era um pequenino ovo. 

- Um ovo numa pinha...? Será que não vai sair daqui alguma coisa…? Não, não deve ter vingado, é capaz de ter caído de um ninho, ou levado por algum outro animal e foi parar aqui. Mas que direitinho e bonito, está. Vou pô-lo uns dias ali ao sol no jardim, e ver se acontece alguma coisa, se não crescer, nem aparecer nenhum bichinho, deito fora! 

          Assim fez. Levou o ovinho para o jardim, pô-lo debaixo de uma árvore, pousado em cima de relva fofa, onde dava sol e sombra, e continuou a sua arte. Só passado alguns dias é que olhou para o ovo, e para seu grande espanto, estava grande. Ela ficou mais atenta, e até cobria o ovo à noite, pousado numa alcofa, e tapado com um pequenino cobertor dos bonecos das suas netas. 

          Poucos dias depois, o ovo estalou, e tinha mesmo lá um passarinho fraquinho, sem penas. Ela levou a um veterinário que conhecia, e mostrou-lhe. O veterinário deu-lhe todas as instruções, e ela cuidou do passarinho, mesmo sem saber o que seria. O passarinho cresceu, ela alimentou-o, encheu-o de carinho, conversava com ele, as netas brincavam com ele, cantavam-lhe, e como ficou lindo!

         Grande, com umas penas coloridas e brilhantes, que se tornou o seu animal de estimação, andava pelo jardim, aprendeu a voar sozinho, fazia os seus passeios, e voltava sempre para o jardim. A senhora observava os seus voos, encantada, sempre que ele aterrava, ela aplaudia, e ele dava uns passinhos que pareciam de dança. Era uma delícia, e apresentou-o a toda a família, tratavam-no como se fosse uma pessoa. 

        Outra senhora, que estava muito entretida a pintar as pinhas, ouviu alguma coisa estranha, não sabia o que era, nunca antes tinha ouvido. Parou, e observou atentamente toda a sala. Tudo igual, continuava a parecer que estava a ouvir qualquer coisa, umas pequeninas vozes, em coro, que pareciam cantar, conversar ou rir. 

        Ela ficou tão assustada, porque pensou que estava a ficar avariada da cabeça. Ouvia as vozezinhas, e não via ninguém. Ligou para umas amigas, e chamou as vizinhas, contou-lhes o que estava a acontecer, juntaram-se todas e ficaram a ouvir. Primeiro muito silêncio, e todas ficaram a pensar que a senhora estaria mesmo com algum problema, ou seria a solidão, já que ela era solteira. 

            Mas logo a seguir, todas ouviram as vozezinhas, um lindo coro. 

- Ouviram? - pergunta a senhora muito assustada 

- Ouvimos! - respondem em coro, surpresas 

- Ouviram mesmo, ou estão a dizer isso, só para eu pensar que não estou tolinha? - insiste a senhora 

- Ouvimos mesmo. - confirmam todas 

- E de onde vem? Não estamos a ver aqui mais ninguém, não estamos a cantar. - pergunta a senhora 

- Pois…- ficam em silêncio e as vozes continuam 

            De repente, perceberam que as vozes vinham da pinha, e viram uns pequeninos arco-íris a sair, a voar pela sala toda, e a cantar. Confirmaram que eram as vozes que elas ouviam, todas ficaram imóveis, geladas com o susto, mas logo abriram um grande sorriso. 

- Que lindas! - dizem todas 

- O que é isto? - pergunta a senhora, dona da pinha 

- São fadas da Natureza. - responde uma amiga 

- Áh…afinal tu é que estás a ficar maluquinha da cabeça… olha agora, fadas… isso era na nossa infância! 

            Todas riem. 

- Óh mulher, temos que acreditar em alguma coisa, ou devemos. Não há idades para acreditar em magia, e em coisas bonitas. Ou tu sabes explicar, de forma racional o que são estes arco-íris que cantam e tudo…? 

- Pois, não sei! Mas, e agora o que é que eu faço? - pergunta a senhora 

- Deixa-as andar e aprecia, só...que maravilha. É mágico...uau! 

- Está bem, pelo menos não estou a ficar maluquinha. 

            Ficam todas a apreciar aquele momento mágico, sorridentes, como se tivessem voltado à infância. A senhora ganhou uma nova companhia. Outra senhora que pintava, quando virou a pinha ao contrário para colar um pedaço de tecido em baixo, percebeu que tinham saltado sementes que não sabia o que eram. 

- O que será isto…? Umas sementes? Vou pôr num vasinho, a ver o que acontece. 

            Plantou as sementes, regou-as e passados alguns dias, apareceram umas cabecinhas de lindas flores, de várias cores, que passou para o seu jardim, regou-as, falou para elas, cuidou muito bem delas, e cresceram. Ao lado das flores, começou a nascer um pinheiro.

            Na noite de Natal, toda a família se juntou na grande casa onde tinham nascido os mais velhos, Uma grande bonita festa, cheia de pessoas, que se abraçavam, riam, conversavam, brincavam, os mais pequenos estavam tão eufóricos que não paravam, falavam alto, riam, corriam, saltavam, partilhavam brinquedos. Os mais crescidos, ajudavam na cozinha, e também conversavam uns com os outros. 

            Chegou a hora da troca de prendas. Cada um recebeu pequenas lembranças materiais, e uma pinha, cada qual a mais bonita. As senhoras que ofereceram as pinhas contaram as surpresas. Uns acreditaram, outros não, porque a única surpresa que tinham visto realmente, foi o pássaro, e mesmo assim, duvidaram que tivesse saído da pinha, o que vale é que a senhora tirou fotografias, tal como as outras. 

            A magia do Natal, é bonita e contagia! E vocês? Se encontrassem uma pinha de surpresas, o que haveria nelas?

                                                                            FIM 

                                                                         Lara Rocha 

                                                                    13/Outubro/2020 

                     

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Gratidão pelas nozes e amor à Natureza

        

fotos de Lara Rocha 

        Era uma vez uma aldeia, onde havia uma montanha muito alta. Nessa aldeia viviam centenas de esquilos em árvores centenárias com grandes troncos ocos, onde fizeram portas e janelas. A partir do mês do Setembro, que era, segundo a lenda das origens da aldeia, festejavam as nozes, e faziam muitas atividades para agradecer ao planeta, por terem alimento o ano todo. 

        Havia festa dia e noite, que começava com um momento de reunião com todos, em círculo, onde cantavam, aplaudiam, e faziam vénias aos pés de um gigantesco pote de vidro cheio de nozes, tocavam no vidro, outros beijavam e cada um agradecia como gostava mais. 

        Os esquilos mais velhos da aldeia, com o pelo branco, benziam as nozes, faziam uma oração, todos rezavam com ele, cantavam e acendiam velas à volta do pote, mas não eram as velas que ardiam, eram elétricas, com um interrutor que cada um ligava ao passar num grande fio elétrico, agradecendo como queria. 

        Fotografavam, e a festa continuava. Aconteciam corridas de nozes, que eram largadas de um balão de ar gigante, e os esquilos ficavam eufóricos, corriam atrás delas, pela montanha abaixo que dava acesso às casas, as esposas e restantes famílias, acompanhavam-nos ao lado, com grandes sacos para encher quanto mais podiam. 

        Os esquilos corredores atiravam para os sacos, com uma pontaria arrepiante, em movimento e não acertavam em ninguém. No meio de muita gargalhada, cambalhotas, quedas, escorregadelas, mas sacos a estourar de nozes, bem precisas para o Inverno demasiado rigoroso que rapidamente se aproximava. 

        Chegados à aldeia, eram presenteados com um belo banquete, num mobiliário de cascas de nozes, em pratos e talheres de cascas de nozes, uma bela sopa cremosa de castanhas e nozes, sumo de uva em copos de casca de noz, puré de castanhas com nozes, pão com nozes, e todos conviviam, ao som de músicas compostas por esquilos artistas, estudantes de música e cantores. 

        Música para todos os gostos que dançavam até de manhã. Descansavam o resto o dia, e no dia seguinte acontecia a corrida das nozes, em carros feitos de cascas de nozes. Era uma loucura e uma delícia de ver.

        O primeiro a chegar ganhava uma taça feita de noz. Os outros recebiam o prémio de consolação:  uma noz. Depois, festa outra vez. Outra atividade que fazia parte dessa festa, era o desfile de moda, mais para as esquilos fêmeas, que desfilavam lindos vestidos e acessórios de moda, para o Outono/ Inverno, maravilhosamente feitos pelas Avós, Mães e Tias. 

        As modelos eram de todas as idades, e passeavam-se pela passadeira ao longo do pequeno rio que passava naquela zona. Aplaudiam, e no fim, umas compravam às outros, encomendavam roupa a gosto, e com pequenas mudanças. 

        Os esquilos machos, conviviam e assistiam a jogos de futebol entre si, com bolas feitas de nozes, torneios de sabedoria, exposições de trabalhos manuais feitos a partir da noz, à noite, havia concursos de culinária entre esquilos macho e esquilos fêmeas, com votação, provas de degustação e prémios. 

        Depois da comezaina, vinha a caça às nozes, que eram escondidas por toda a aldeia, nos sítios menos prováveis, outras mais ou menos fáceis de encontrar, onde todos, até os mais pequenos participavam. Dançavam pelo caminho ao som da música alta, enquanto apuravam os narizes e as mãos para encontrar o máximo. 

        Cada um tinha um saquinho, cheiravam tudo e mais alguma coisa, espreitavam em todas as tocas, apanharam alguns sustos, com habitantes subterrâneos, que gritavam ao vê-los, e rapidamente fugiam, algumas gargalhadas e quedas, mas no fim, ganhava quem fosse o mais rápido e o que tivesse o saco mais cheio. 

        Era tudo registado, porque cada um tinha um número, pesavam cada saco, e havia peso limite. Quem tivesse acima desse valor, perdia alguns pontos. Diziam que era para chegar para todos. Ninguém levava a mal, e no fim todos festejavam, com trocas de carinhos, e até pequeninos presentes, feitos pelos mais pequenitos do colégio. 

        Depois havia o mercado solidário, onde montavam uma enorme tenda, em forma de noz, compravam quase de graça, ofereciam e vendiam o que tinham a mais, o que outros podiam precisar, e o que fazia falta. 

        E um acontecimento que ninguém estava à espera. De repente....abateu-se sobre a aldeia uma enorme e assustadora tempestade, com trovões, chuva e vento muito forte. Os alarmes dispararam todos, e cada um dirigiu-se para as suas casas, numa correria como nunca antes vista.

        Felizmente, conseguiram todos proteger-se, não se molhar, e estavam em segurança com as suas famílias, apesar do medo. No dia seguinte, além das nozes, foram agradecer o ter conseguido escapar, e por nada ter ficado estragado. 

        Os mais velhos decidiram criar um centro de convívio, seguro, para todos se encontrarem no Inverno, de forma segura e que não tivessem de passar pelo perigoso frio. Pensaram, planearam e pouco tempo depois, construíram no espaço coberto de árvores nas traseiras das casas, próximas umas das outras, uma cobertura com pedaços de cascas de nozes que não se aproveitavam para comer, equipado com todo o conforto de um salão. 

        Num curto espaço de tempo, e com a ajuda de todos, puderam reunir-se sempre que queriam para conviver, dançar, cantar, fazer jantaradas, almoçaradas, festas de aniversários, reuniões, desafios, brincadeiras. e até casamentos. Todos adoravam aquele espaço. 

        A estreia de utilização do salão, foi um jantar e uma festa de agradecimento à Natureza, por terem abrigo, família, alimento, e por estarem em segurança, protegidos. Puseram outra vez as nozes num gigantesco pote de vidro, cada um acendeu uma vela eletrónica à volta do pote, cantaram, dançaram, rezaram e agradeceram. 

        Mas desta vez, o que os esquilos mais velhos da aldeia não sabiam, nem estavam à espera, é que também tinham preparados uns mimos para eles. Cada um dos mais velhos recebeu de cada esquilo vários presentes, uns comprados no mercado solidário, outros feitos pelos próprios, uma ternura.

        Ofereceram coisas muito úteis, como meias, camisolas interiores, botinhas de agasalho, pijamas, cobertores, saquinhos, almofadas, bonequinhas, bombons de nozes e de castanhas e outras que quiseram. Além das ofertas materiais, receberam beijinhos e abraços de todos. 

        Os mais velhos ficaram mesmo muito felizes, com um sorriso de orelha a orelha, retribuíram com carinho, cantigas, danças e muita alegria. E assim, custou menos a passar a tristeza dos dias pequeninos de Inverno, na companhia uns dos outros, em família, com amigos, em festa, quase nem deram pela chuva que marcou muitas vezes presença, e suportaram melhor o gelo. 

        O Natal nesta aldeia, foi mesmo muito diferente e ainda mais especial do que nos anos anteriores, porque todas as famílias, depois de jantarem juntas, nas casas de familiares, como é tradição em todo o mundo, encontraram-se no salão, onde tiveram direito a troca de prendas, muita festa e muita alegria. 

        No final da noite de Natal, voltaram a pôr o gigantesco pote de vidro com nozes, e agradeceram, acenderam uma velinha eletrónica, rezaram, fizeram vénias. Encontravam sempre motivos para agradecer, juntar-se e conviver. 

E vocês. também agradecem todos os dias, ou às vezes? O que agradecem? 

                                                                    FIM 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                   12/Outubro/2020