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quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

No campo da Lua




 foto de Lara Rocha 

         Era uma vez uma menina que foi passear até à Lua. Na Lua, encontrou-se com as estrelas que a levaram até um sítio nunca antes descoberto. Nesse sítio que era enorme…parecia vários campos de futebol juntos, o chão era feito de pedaços de rocha de vulcões adormecidos há muitos milhões de anos, por isso, eram de cor escura.
Espalhadas por todo o lado, estavam umas grutas, e rochas de vulcão com crateras onde repousavam unicórnios pequeninos, póneis, cavalos e outros animais que não existem na terra. Alguns animais eram muito estranhos, mas todos mereciam ser vistos e acarinhados. Eram meigos.
A menina brinca com uma espécie de animal, que parecia um cão, mas tinha rabo de porco, e pelo branco, olhos de lobo, orelhas de coelho e focinho de gato, com uns cornos. Apesar de ser…não muito bonito, era simpático e muito educado, brincalhão e saltitão, traquina.
Logo aparece outro muito ciumento, que tinha corpo de vaca, patas de pato, pelo de ovelha e orelhas de cão, que a levou a conhecer as suas crias…parecidas com dálmatas.
Pelo caminho cruza-se com unicórnios grandes e cavalos altos, de pelo brilhante, patas elegantes…lindos! Montou numa linda unicórnio, azul, e cavalgaram para um jardim cheio de flores lindas, umas grandes, outras pequenas, umas estavam com as pétalas abertas, outras tinham as pétalas fechadas.
Porque estavam elas fechadas? A unicórnio respondeu à menina que umas estavam fechadas porque estavam a dormir, outras estavam fechadas porque eram envergonhadas, outras, porque guardavam segredos e tristezas, desabafos das pessoas da terra, e outras para proteger borboletas.
Ainda encontrou flores que voavam em cima de pipocas. Quer dizer…para a menina eram pipocas, mas na verdade, eram os carros das flores, feitos de estrelas que se desfizeram há muito tempo. Outras flores, voavam pelo espaço sem pressa, sem rumo, só para…descansar, meditar, e relaxar, porque eram flores reformadas., algumas já velhinhas, e outras quase sem cor.
Além das flores, e dos animais estranhos que viviam lá, também havia umas lindas casas, feitas de estilhaços de planetas que explodiam, pedaços de estrelas e pedras da lua. Nessas casas viviam umas fadas, centenas delas, e duendes, elfos, bruxas e até feiticeiros que tinham ficado desempregados na terra.
Depois, a menina dá um mergulho com as fadas num lago com água cor-de-rosa, quente. Todas saltitaram e brincaram na água, com golfinhos que faziam habilidades.
Foi-se secar à praia de areia branca, com sol, e uma temperatura muito agradável. Refrescou-se à sombra de uns anéis de metades de planetas, que de vez em quando soltavam pequenos salpicos de água morna para a menina, que bem que sabia. Um belo sereio serve-lhe uma água com limão. Huummm…que fresco…que bom que estava.
De repente…o céu fica escuro, e forma-se uma violenta tempestade. A menina regressa à Terra e grita.
- O que foi, filha? – Pergunta a mãe da menina.
- O que foi isto?
- Está a começar uma tempestade lá fora…!
- Mas…eu não estou na Lua?
- Na Lua? Não…estás na terra, na tua casa!
- Óhhh…eu não saí daqui?
- Não…onde querias ir?
- Eu ainda agora estava lá em cima...a apanhar sol, mas de repente…o céu ficou muito escuro, e formou-se uma tempestade.
- Lá em cima, onde?
- Na praia da Lua.
- Onde é isso?
- É no Universo…lá em cima, onde moram as estrelas, e a Lua.
- Áh! (sorri) Já percebi. Estavas a sonhar!
- Estava a sonhar?
- Sim. Tu adormeceste.
- Óh…mas…eu até andei numa unicórnio azul… (a menina descreve tudo à mãe) Óh. Foi só um sonho?
- Sim, claro, filha…foi só um sonho! Mas foi um sonho muito bonito! A tempestade é que te fez acordar.
- Pois foi! Óóóhhh…parecia tão real. Eu gostava muito que tivesse sido real.
Não faltava nada, naquele cantinho do Universo…havia piscinas, campos de animais e de cultivo, jardins, igrejas, escolas, consultórios e hospitais, restaurantes, supermercados, lojas, centros comerciais…tudo! Mas que grande agitação…parecia quase uma grande cidade do planeta terra, cheias de trânsito, em hora de ponta, a todo o minuto. Ou…um batalhão de formigas que procuravam alimento desesperadas. A única diferença é que aqui não havia buzinas de carros, nem maus cheiros, nem fumos, nem gritaria. Não havia Guerra, porque todos os seus habitantes sorriam uns aos outros, quando se cruzavam, abraçavam-se e beijavam-se, davam apertos de mãos e diziam bom dia! E tudo não passou de um sonho!       

                                                                                        FIM
                            Lálá
                    (18/Dezembro/2013)

Uma prenda de Natal da Fadinha


NARRADORA - Era uma vez uma pequenina fadinha, que uns dias antes do Natal quis oferecer alguma coisa de muito especial aos meninos que estavam doentes. A fadinha ficava triste, ao pensar que alguns meninos não tinham Natal com as famílias, nem podiam ir para casa. De repente, quando passeava pela floresta, e voava à volta do lago mágico, deixou de ter pena dos meninos e pôs mãos à obra.
FADINHA – Não! Pára! Não podes ter pena delas…penas…têm alguma animal, e a pena…bloqueia-te. A tristeza diminui os teus poderes!
NARRADORA – Aparece a linda sereia de prata, brilhante, e de longos cabelos pretos, com olhos verdes.
SEREIA – Tens toda a razão. Não sei porque estás triste.
FADINHA (sorri) – Ai, que susto.
SEREIA (ri) – Desculpa.
FADINHA (sorri) – Já estavas aqui há muito tempo?
SEREIA (sorri) – Algum.
FADINHA – Ouviste as minha lamurias?
SEREIA (ri) – Sim, é o que eu faço todos os dias…ouvir lamúrias.
FADINHA – E não ficas triste?
SEREIA – Não! Apenas…ouço. Mas…o que fazes por aqui a esta hora, além de…qualquer coisa a ver com penas…?
FADINHA – Vim passear, e pensar um bocadinho sobre umas coisas.
SEREIA – Posso saber que coisas?
FADINHA – Estava a pensar nos meninos que estão no hospital, doentes, que não podem ir a casa.
SEREIA – Sim, deve ser mesmo muito triste. Mas porque te lembraste dessas coisas tão tristes…? É Natal…
FADINHA – Por isso mesmo.
SEREIA – Não. O Natal não é tristeza…quer dizer…pelo menos não devia ser.
FADINHA – Pois não.
SEREIA – Mas, o que te adianta ficares triste a pensares neles?
FADINHA – Eu estava a pensar oferecer alguma coisa muito especial, mas não sei bem como fazer.
SEREIA – Deixa-me adivinhar…uma coisa muito especial, para meninos que estão no hospital…Huummm…a cura deles!
FADINHA (sorri) – Sim, é isso mesmo. Mas não sei médica.
SEREIA – Não precisas de ser médica para lhes dar a cura.
FADINHA – Não?
SEREIA – Não.
FADINHA – Não estou a ver como…!
SEREIA – Não vês? Estarás a precisar de óculos, ou de uma lanterna…?
FADINHA (ri) – Não…acho que vejo bem, só não estou a ver como vou fazer essa cura.
SEREIA – É muito fácil.
FADINHA – O que tenho de fazer?
SEREIA – Primeiro…pede uma bola de água.
FADINHA – Uma bola de água?
SEREIA – Sim.
FADINHA – A quem?
SEREIA – Ao lago! E põe as tuas mãos na água.
FADINHA – Quero uma bola de água.
NARRADORA – A fadinha põe as mãos na água do lago, e pede uma bola de água. Forma-se um grande buraco no lago e de repente um enorme chafariz que projecta a bola.
FADINHA – Áh! Que linda bola! É enorme! Uau! E agora? O que faço com ela?
SEREIA – Agora…vamos enchê-la com várias coisas.
FADINHA – E onde vou buscar essas coisas?
SEREIA – Elas estão aqui! Em ti!
FADINHA – Áh! Em mim?
SEREIA – Sim, em ti. Tu tens poderes…!
FADINHA – Áh. Pois tenho! Já me esquecia…mas não tenho poderes para tudo.
SEREIA (ri) – Esqueceste-te que tinhas poderes? Como?
FADINHA (ri) – É que…eu sou criança e gosto de ser como sou, como as outras crianças…gosto de…brincar como elas, de dar e receber carinho, de saltar, correr, dançar, cantar, gritar, cair, sujar a roupa, rebolar na terra, rasgar a roupa…tudo o que elas fazem.
SEREIA – Sim, está bem, mas todas têm poderes.
FADINHA – Sim, eu sei, mas não gostamos de os usar de qualquer maneira. Só quando é preciso.
SEREIA – Aqui são precisos, por isso podes ajudar. Tu, e as tuas amigas. Há muita gente que gostava de ter poderes, principalmente os bons.
FADINHA – Sim, eu sei. Eu também gosto de os ter, principalmente porque posso ajudar muita gente!
SEREIA – Claro, e vais ajudar as crianças. Vamos lá…começar. Pede o que eu pedir…com as mãos na bola, e pede para ti, só para o teu pensamento.
FADINHA – Está bem.
SEREIA – Fecha os olhos, e concentra-te. (p.c) Preparada?
FADINHA – Sim.
SEREIA – Mantém-te com os olhos fechados.
FADINHA – Entendi.
SEREIA – Água! Minerais! Diamantes! Cristais! Sais! Gotinhas de arco-íris! Sorrisos de bebés! Estrelas! Lavas de vulcão! Pedras quentes! A força do Universo! Lágrimas! Salpicos de amor! Pingas de carinho! Fios de Lua Cheia! (Silêncio) Agora…tudo se vai misturar. Podes abrir os olhos.
NARRADORA – A bola enche-se de tudo o que a Sereia disse, e a Fadinha repetiu em pensamento. A enorme bola, torna-se ainda maior, e tudo no seu interior se mistura, e mexe. A bola rebola de um lado para o outro, como se fosse uma máquina de lavar e pára. A fadinha aprecia, maravilhada, e solta grandes exclamações ao ver tanta luz dentro da bola.
FADINHA (sorri) – Áh! Que lindo! E agora, o que se faz com ela?
SEREIA – Agora…pegas na bola e distribuis nos quartos dos meninos que estão doentes nos hospitais, e às mães. Aí dentro estão bolinhas mais pequeninas, e cada menino vai receber uma.
FADINHA – E eu tenho de tirar as bolinhas daqui?
SEREIA – Não! Só tens de chegar aos quartos, dar um beijo na bola grande, e a bolinha mais pequena sai naturalmente, e abre-se sobre as crianças.
FADINHA – Mas o que têm as bolinhas mais pequenas?
SEREIA – Têm tudo o que essa bola grande tem…tudo o que aí metemos. São bolinhas carregadas de amor, saúde e cura.
FADINHA (sorri) – Áh! Está bem.
SEREIA – Chama as tuas amigas para ser mais rápido.
FADINHA – Isso. Boa ideia.
SEREIA – Vão! Não percam tempo…
FADINHA – Até já…muito obrigada.
SEREIA (sorri) – De nada…até já.
NARRADORA – A fadinha pega na bola gigante, feliz, e chamas as amigas. Todas ajudam a carregar a bola, que é leve, mas vão juntas para a distribuição ser mais rápida. A cada beijo delas, saem as bolinhas, naturalmente, como tinha dito a sereia, e cada fadinha distribui pelos quartos dos meninos, durante toda a noite. Cada bolinha sabe a sua função. No dia seguinte, de manhã, os médicos fazem exames aos meninos, que estranhamente estão felizes, sorridentes, com pele rosada, e uma energia nunca vista. As mães estão surpresas, mas felizes, ainda que não saibam o que se passa. No dia seguinte, os médicos das crianças reúnem-se com as mães, e estão boquiabertos, muito felizes. As mães estão muito nervosas, e com medo.
MÉDICO CHEFE – Queridas mães…temos noticias para vocês, dos vossos filhos!
MÃE 1 – Ai, diga doutor…sejam quais forem.
MÃE 2 – Estou a ficar muito nervosa.
MÃE 3 – Acho que é hoje que me atiro abaixo da janela com o meu filho.
MÉDICO 1 – Por favor, não diga isso, nem num momento de grande desespero.
MÃE 3 – O doutor não entende o nosso desespero e angústia, por termos um filho tão pequeno, com uma doença daquelas, pois não?
MÉDICO 1 – Sim, entendo. Mas não é caso para tanto…há sempre uma saída.
MÉDICO-CHEFE (sorri) – Calma…tenham calma! Não vai ser preciso chorarem mais, nem pensar no pior, nem passar os dias aqui no hospital.
MÃES (suspiram) – Ai, valham-nos todos os deuses!
MÃE 2 – O que quer dizer com isso, doutor?
MÃE 1 – A situação é assim tão grave?
MÃE 3 - Muito mais do que o que nós pensávamos?
MÉDICO-CHEFE – Não! Muito pelo contrário. As notícias que tenho para vocês não podem ser melhores! (As mães dão as mãos umas às outras) – Os vossos filhos, estão curados! Por incrível que pareça…estão curados! Os valores estão excelentes. Não há qualquer sinal de doença. Os vossos filhos podem ir para casa, e viver as suas infâncias como todas as outras crianças…cheias de saúde, alegria, energia…podem correr, saltar, brincar, rir, cair…tudo!
NARRADORA – As mães suspiram de alívio, felizes, e emocionadas, abraçam-se e beijam-se umas às outras.
MÃES (gritam, sorridentes) – Vencemos!
MÃE 1 (feliz) – Os nossos filhos, venceram, e fizeram-nos vencer.
MÃES (felizes) – Sim.
MÃE 2 (sorridente) – São uns lutadores.
MÃE 3 (feliz) – E o nosso amor por eles, também teve a sua parte na cura.
MÃES – Claro.
(Abraçam os médicos, e beijam-nos).
MÃES – Muito obrigada, doutores.
MÃE 1 (feliz, grita) – Milagre!
MÃE 2 – As nossas preces foram ouvidas.
MÉDICO – CHEFE (sorri) – Nós também estamos muito felizes, e surpresos…não sabemos como é que esta recuperação sem tratamentos aconteceu…e tão rápido.
NARRADORA – Pouco depois, saem com os filhos, orgulhosas e felizes, e o mesmo acontece em todos os outros hospitais por onde passaram as fadinhas. O seu presente foi mesmo muito especial. A fadinha saltita feliz, e ri de alegria. Vai logo a correr contar às amigas e agradecer-lhes a ajuda, e todas felizes, vão agradecer à sereia do lago.
TODAS – Muito obrigada, sereia! E Universo, por atenderem ao nosso pedido.
SEREIA (sorridente) – De nada…tu mereces! Foi um prazer ajudar-te, e contribuir para a recuperação dos meninos.
FADINHA (sorri) – Tu tinhas razão…os ingredientes estavam mesmo aqui. Dentro de nós.
SEREIA (sorri) – Claro que sim.
NARRADORA – E todas festejam alegremente. Para as mães e para os meninos, foi com certeza uma bela prenda de Natal, antecipada, porque ainda faltavam uns dias. Às vezes recebemos presentes inesperados, mesmo quando não é Natal. A saúde é um dos maiores presentes que recebemos, e esse não vem embrulhado em papel, nem é dado por alguém…às vezes, só lhe damos valor, quando infelizmente ela escapa, e ficamos doentes. Devemos cuidar dela, como se fosse um presente de todos os dias, muito especial e muito delicado. Que esta bola de luz chegue a cada menino doente, e que possa curá-los a todos, levando-os para casa e para que sejam felizes, com a sua família…outro dos grandes presentes que podemos receber todos os dias! Que todos tenhamos uma boa saúde, e estes dois maiores tesouros do mundo, que se encontram muito perto de nós! Feliz Natal.

Fim
Lálá
(18/Dezembro/2013)




sábado, 14 de dezembro de 2013

O desejo do gato (o gato, a gata e o Pai Natal


    Era uma vez um gato que passeava sem pressa por cima de um telhado, numa noite gelada de Inverno e cheio de neve. 
     Era noite de Natal, e todos estavam em casa, junto das suas famílias. 
    Mas o pobre gato estava muito triste, e suspirava:
GATO - Ai! Que tristeza…toda a gente metida no quente, à lareira, junto dos seus…e a comer…e eu aqui…cheio de fome, sozinho, triste, abandonado. Ai…! Quem me dera estar ali, ou ali, ou ali…!
      Aparece uma gatinha também muito triste pelo telhado. Os dois gatos olham-se longamente.
GATO - Olá!
GATA - Olá!
GATO - O que fazes por aqui?
GATA - Não sei…se calhar…o mesmo que tu!
GATO - O mesmo que eu? E tu por acaso conheces-me de algum lado para dizeres que vais fazer o mesmo que eu?
GATA – Eu conheço muito bem os gatos.
GATO – E eu também conheço muito bem as gatas.
GATA – Não…! Vocês são muito mais previsíveis.
GATO – Sabes uma coisa…?
GATA – O quê?
GATO – Digam, o que disseram…acho que nunca saberemos uns sobre os outros.
GATA – Porque é que dizes isso?
GATO – Porque…o principal…o que interessa mesmo conhecer, não se vê!
GATA – Estás a falar dos sentimentos, acertei?
GATO – Sim, é isso mesmo!
GATA – É do que vocês mais têm medo, não é?
GATO – Medo? Quem?
GATA – Vocês, gatos.
GATO – Nós…? Com medo…? Nunca!
GATA – Ai não? Que grandes mentirosos.
GATO – E quem disse que estou a mentir?
GATA – Claro que estás!
GATO – Não estou nada.
GATA – Claro, claro…! Comigo escusas de ter máscaras.
GATO – Eu não estou mascarado! Onde estás a ver as máscaras?
GATA – No teu focinho, e nos teus olhos.
GATO – O que tem o meu focinho?
GATA – É focinho de gato mentiroso…quer dizer…mascarado!
GATO – Não percebo o que dizes!
GATA – Porque não assumes os teus sentimentos?
GATO – Que sentimentos?
GATA – Os teus, é claro.
GATO – Ora, não sei onde queres chegar.
GATA – Porque é que eu já sabia! Fogem sempre ao assunto dos sentimentos.
GATO – Eu não fujo de nada. Nem dos sentimentos.
GATA – Claro que não…sou eu quem fujo!
GATO – Talvez.
GATA – Porque não os reconheces…?
GATO – A quem?
GATA – Aos teus sentimentos.
GATO – Não tenho isso.
GATA – Ai não? Então, és o quê? Uma pedra…? Um ramo de árvore? Uma gota…? Até esses têm os seus sentimentos.
GATO – Mas porque é que queres saber isso?
GATA – Para quebrar o gelo que está aqui à nossa volta.
GATO – Quebrar o gelo? Como vais fazer isso? Só se fizeres xixi em cima dele, ou se saltares para ele partir.
GATA – Ai, mas que ignorância!
GATO – És uma gata muito culta…
GATA – Sim, e sou mesmo!
GATO – Pois, mas eu não.
GATA – Já percebi…mas não quer dizer que fiques inculto o resto da tua vida!
GATO – In…quê?
GATA – Sem saberes nada…!
GATO – Áh! Eu sou muito burro.
GATA – Desculpa? Eu estou a falar com um gato, não é com um burro…! Não tenho nada contra os burros…aqueles animais da quinta, orelhudos, e peludos, que carregam coisas até aos olhos…coitados.
GATO – Eu não sei nada!
GATA – Porque não queres…! Podes sempre procurar e saber…perguntar a quem sabe, ler…
GATO – Tu sabes ler?
GATA – Claro que sei.
GATO – Mas eu não!
GATA – Eu posso ensinar-te.
GATO (sorri) – Adorava, mas acho que não consigo.
GATA – Mas que disparate…nunca experimentaste…como podes dizer que não és capaz?
GATO – Foi o que sempre me disseram.
GATA – E tu acreditaste?
GATO – Sim…porque eram pessoas muito importantes para mim.
GATA – Mas não quer dizer que as pessoas mais importantes para nós, estejam sempre certas, ou saibam sempre tudo!
GATO – Achas que elas iam mentir-me?
GATA – Com certeza…e porque não?
GATO – Mas porque me mentiriam?
GATA – Eles podem ter dito isso, só porque estavam chateados, ou tinham inveja de alguma coisa tua, e resolveram mascarar-se com esse disparate!
GATO – Mas…
GATA – Tens de experimentar. Primeiro passo…queres?
GATO – Sim, quero!
GATA – Muito bem. Segundo passo… (o gato interrompe)
GATO – Mas o que estás aqui a fazer, sozinha a esta hora?
GATA – Não mudes de assunto!
GATO – Acho que agora quem está mascarada és tu!
GATA – Não!
GATO – Então porque não dizes o que estás aqui a fazer a esta hora, sozinha?
GATA – Mas isso é assim tão importante para ti?
GATO – Sim! Talvez…eu possa ajudar-te?
GATA – Não…acho que não…está bem! Ando a vaguear.
GATO – E porque não estás em casa?
GATA – Porque hoje é noite de Natal, e fui posta fora de casa, porque há uma espécie de…humanos…que não me suporta, e os simpáticos dos meus donos, puseram-me fora da porta. E tu, moras aqui?
GATO – Óh, mas isso não se faz.
GATA – Para nós, gatos, tudo é muito mais fácil.
GATO – Se tens donos, eles não te deviam pôr fora da porta, pelo menos…és como se fosses um membro da família, não?
GATA – Eu achava que sim, mas agora não tenho a mesma certeza! Mas, e tu?
GATO – Eu sou vadio…durmo por aí, como por aí…
GATA – Estás a olhar para aquelas casas, cheias de gente, não estás?
GATO (suspira) – Confesso que sim.
GATA – Querias estar ali, com eles, não era?
GATO – Sim, era! No quente da lareira, sossegado, acompanhado, valorizado, alimentado, acarinhado…mas não…estou aqui fora, ao frio, com fome, sozinho!
GATA – É triste! Desculpa…disseste…sozinho?
GATO – Sim, disse sozinho! Óh…desculpa…agora tenho-te aqui.
GATA – Até me estava a sentir desprezada.
GATO – Óh, não…não era essa a minha intenção. Mas…tu não gostavas de estar em casa, assim como eles?
GATA – Claro que gostava! Mas sou pacata, e da paz…por isso, não me apetece lutar, nem protestar…em breve, terão a paga por isto, e sentirão a minha falta, espero eu…
GATA - E tu, o que fazes aqui?
GATO - Olha, vim…desabafar.
GATA - Com quem?
GATO - Com a lua, sei lá!
GATA - Com a lua?
GATO - Sim, com a lua…não sabes quem é?
GATA - Sei. Está mesmo à nossa frente. Entendo-te! Eu também desabafo muito com ela.
GATO – Mas será que ela nos ouve?
GATA – Ouve, sim!
GATO – Mas não responde!
GATA – Claro quer não…quer dizer…pelo menos por palavras, mas ela responde de outra maneira.
GATO – Responde? Qual?
GATA – Com a sua luz, o seu brilho, as suas várias formas…
GATO – Mas eu nunca ouvi nada!
GATA – Porque tens o coração magoado e essa dor, não te deixa ouvir, nem ver.
GATO – Ui…achas que eu tenho algum problema de saúde?
GATA – Não! Eu estou a falar nas feridas provocadas pela tristeza.
GATO – Áh! Está bem.
GATA – Estás triste, não estás?
GATO – Sim, estou! E tu?
GATA – Também.
GATO – O Natal para mim, nunca foi feliz, é sempre assim!
GATA – Eu já tive Natais felizes…mas este…
GATO – Os teus donos deviam ter vergonha.
GATA – Também acho. Sabes uma coisa?
GATO – O quê?
GATA – Qual era o teu maior sonho de Natal?
GATO – Era…Huummm…passá-lo com alguém…com muitos gatos e gatas, dentro de uma casa, com um enorme banquete, e uma lareira…! E o teu?
GATA (sorri) – O meu também! Quer dizer…tenho muitos mais sonhos, mas neste momento, era esse.
GATO – Acho que o nosso sonho vai ficar mesmo aqui. Não passará de um pequeno floco de neve!
(Os dois suspiram, aparece o Pai Natal)
PAI NATAL – Mas o que temos aqui?
(Os dois gatos olham assustados)
GATOS – Pai Natal?
PAI NATAL (sorri) – Sim, sou eu…boa noite!
GATOS (sorriem) – Boa Noite.
PAI NATAL – Mas que tristeza é essa?
GATO – É a tristeza de ser um gato vadio, de passar o Natal sozinho, fora de casa…
GATA – Expulsa…
PAI NATAL – Estão um com o outro. Quem te expulsou?
GATA – Os meus…donos. Eu achava que eram meus donos, mas puseram-me fora, só porque uns tais…não sei quem…da família deles, não gostam de gatos, são alérgicos ao meu pelo…é tudo inveja de certeza!
PAI NATAL – Que coisa mais feia! Isso não se faz, muito menos numa noite de Natal.
GATO – Inveja? De ti…? Por favor…
GATA – Sim, de não ter roupas, carteiras ou sapatos com o meu pêlo ou pêlos dos meus semelhantes.
GATO (ri) – Estou a ver…
GATA – Até tu a querias não?
GATO – Dá para fazer cobertores?
GATA – Infelizmente sim.
GATO – Deve ser bem bom!
GATA – Como é que sabes?
GATO – Eu já tive namoradas…todas tinham pêlos espantosos…cheirosos…
GATA (sorri) – Sim, nisso tens toda a razão…somos todas estupendas…afinal até sabes apreciar!
GATO – Já te esqueceste que sou burro?
GATA – Deixa esse animal em paz!
PAI NATAL – O quê? Onde está o burro?
GATA – Está nas quintas por aí.
PAI NATAL – Então, estes gatico, deve estar com uma crise de identidade! Oh, oh, oh…
GATO – O que é isso?
PAI NATAL – É tu não saberes se és um gato ou se és um burro.
GATO – Áh! E o Pai Natal, o que acha?
PAI NATAL – Eu acho que és um gato! Quer dizer, tenho a certeza.
GATA – É claro que és um gato!
PAI NATAL – Porque estão tão zangados um com o outro?
GATO – Desculpe, Pai Natal, estamos muito tristes.
PAI NATAL – Não são amigos?
GATOS – Somos.
PAI NATAL – Já se conheciam antes?
GATOS – Não!
PAI NATAL – Mas não podem dizer que estão sozinhos, estão um com o outro, são dois gatos.
GATOS – Sim.
GATA – Mas a frieza dele, é tanta que parece que continuo sozinha.
GATO – O quê?
GATA – É isso mesmo.
GATO – Mas…estamos a falar…conhecemo-nos agora há pouco tempo, o que querias que eu fizesse contigo?
GATA – És muito mascarado!
GATO – Outra vez a máscara…?
GATA – Sim, tu tens máscaras…tens medo de mostrar os sentimentos, e de falar deles.
GATO – Pai Natal, importa-se de traduzir o que ela disse?
PAI NATAL – Huummm…oh, oh, oh…se bem entendi, ela está a reclamar a tua masculinidade!
GATO – A minha quê?
PAI NATAL – O teu carinho, a tua atenção…
GATO – Mas…eu não a estou a tratar mal.
PAI NATAL – Mas ela quer que te chegues mais perto dela.
GATO – Para quê?
PAI NATAL – Óh, valha-me todos os anjos…
GATA – Pai Natal…não lhe pode oferecer uma luz, como prenda? Para ver se ele fica mais inteligente, e mais próximo?
PAI NATAL (ri-se) – Oh, oh, oh…vou oferecer-vos uma prenda melhor.
NARRADORA – O bondoso Pai Natal, estala os dedos, e aparece no terraço do telhado duas lindas casas pequenas, mas com tudo o que existe numa casa, muitos confortáveis, com lareira, cama, sofá, cozinha e casa de banho. Mantas por todo o lado, almofadões e mobília, comida à farta, janelas e água, e luz. Os dois gatos ficam maravilhados.
GATA – Áh!
GATO – Áh!
GATA (sorridente) – Estou a sonhar…?
PAI NATAL (ri) – Não…é uma casa verdadeira. Este foi o vosso desejo, lembram-se?
GATOS (felizes) – Sim!
GATO (sorridente) – Ááááhhh…muito mais do que eu imaginava e desejava! Não vou ter de dormir mais por aí, nem aquecer-me nos carros ou debaixo dos candeeiros, nem…nas saídas de ar dos parques de estacionamento, ou nas soleiras das portas! (p.c) Áh! Não vou ter de andar mais por aí a comer o que me dão…nem…Uau! Tenho uma casa, quente com lareira e tudo…e…casa de banho…! Áhhh…Pai Natal…nem sei como te agradecer.
(Pai Natal sorri)
PAI NATAL (feliz) – Vocês merecem. Feliz Natal…!
GATOS (sorridentes) – Feliz Natal…!
NARRADORA - Os dois gatos abraçam-se e lambem-se carinhosamente, felizes, e entram na casa um do outro. Enquanto mostram as casas um ao outro, entusiasmados e felizes, o Pai Natal põe uma linda mesa com uma cobertura, cheia de luzinhas, velas e um belo banquete, com música ambiente, e duas simpáticas duendes para servir.
PAI NATAL (sorridente) – Bichanos…hora de jantar.
NARRADORA – Os dois ficam boquiabertos, de tão encantados.
GATO – Áh…estarei a sonhar?
GATA – Então eu também estou a sonhar!
GATO – Estamos a ter os dois o mesmo sonho?
GATA – Sim!
DUENDE 1 (simpática) – Por favor, instalem-se meus queridos!
GATO – Óh, mas o meu aspecto mede medo!
DUENDE 2 (simpática) – Ora, o aspecto exterior não importa…o que importa é a luz que brilha nos teus olhos e no teu coração.
GATO (sorridente) – Óh, que lindo isso! É um elogio?
GATA E DUENDES – Sim.
GATO – Eu…não sei elogiar!
GATA – Mas sabes dar abraços com alma, sinceros, apertados…!
GATO – A sério?
GATA (sorri) – Sim…o teu…foi o melhor abraço que eu já recebi em toda a minha existência…! E já dei muitos abraços, mas este teu…foi especial. Talvez…por ser Natal, ou…por eu estar mais sozinha…!
(O gato sorri vaidoso)
GATO – Esta está a ser a noite mais feliz da minha existência…pela tua presença, e por este presente!
GATA – Isto é lindo! Áh…que maravilha! Nunca vi nada assim.
GATO (sorri) – Lindo mesmo! Parece que estamos num mundo à parte!
GATA (sorri) – Pois é.
GATO – Mas…isto é só hoje, ou é para sempre?
PAI NATAL (sorridente) – Claro que é para sempre…pelo menos, enquanto vocês quiserem. Estas casas estarão sempre aqui para vocês!
OS DOIS (sorridentes) – Muito obrigada, Pai Natal.
PAI NATAL (feliz e sorridente) – Até breve.
      O Pai Natal distribui as prendas pelo bairro, enquanto os dois gatinhos sentam-se à mesa, e deliciam-se com os pratos saborosos que as duendes servem, numa conversa muito animada.             Depois de tudo comerem, os dois gatos vão para o terraço ver a paisagem, e as luzes, de patas dadas, bem juntinhos a olhar para a Lua.
GATA (sorri) – Que linda Lua.
GATO (sorri) – Sim. É linda como tu…e como esta noite. (Os dois sorriem). Vais voltar para os teus donos?
GATA – Claro que não…vou apenas agradecer-lhes o que fizeram por mim. Queres vir?
GATO – Como vais fazer isso?
GATA – Vais ver…vou escrever um bilhetinho, na neve à porta deles.
          Os dois gatos vão a casa onde viveu a gata, e gata escreve com a patinha numa folha de um bloquinho que a menina tinha na sua casinha de brincar, com os bonecos no jardim, e onde a gata também costumava estar: «muito obrigada por tudo o que fizeram de mim, e por tudo o que me deram de bom. Sejam felizes, e tenham saúde. Gostei muito de vocês, e gostarei mesmo depois de me terem chutado. Estarão sempre no meu coração! Até um dia destes…se me quiserem procurem-me…» Pinta a patinha e carimba. As lágrimas caem-lhe pelos olhos.
GATA (a chorar) – Fui muito feliz aqui! Tenho muito boas recordações.
GATO (triste) – Queres ficar?
GATA (a chorar) – Não.
GATO (triste) – Se vais ter saudades deles, ou se vais ficar triste por causa deles, fica aqui. O meu desejo já realizei, e porque é um desejo…dura apenas uma noite. Se me quiseres, sabes onde estou!
GATA – Não! Eu vou contigo, para a minha casa! Serei muito feliz, contigo, como vizinho e como amigo!
GATO – E o que vais fazer com as saudades?
GATA – Quando as sentir…entrego-as embrulhadas numa nuvem à Lua!
GATO – Mas estás tão triste…não te quero ver assim à minha beira.
GATA – Não te preocupes, isto passa já.
GATO – Comigo nunca te sentirás só.
GATA (sorri) – Eu sei.
       Os dois sorriem, abraçam-se e voltam para as suas casas. No dia seguinte, todos a procuram, mas não a encontram. 
       Será que algum dia vão reencontrar-se? Acham que a gatinha perdoou os seus donos? 
       Acham que os dois gatos foram muito felizes? Sim…tornaram-se amigos inseparáveis, e viveram momentos muito felizes, divertidos, românticos, e quando a tristeza batia à porta de algum deles…puderam sempre contar um com o outro, e embrulhar a tristeza ou a saudade numa nuvem e entregar à Lua, que também esteve sempre presente.

FIM 
Lara Rocha 
(14/Dezembro/2013)