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domingo, 5 de novembro de 2023

Uma nova esperança


Criança - Às vezes a nossa vontade é abraçar o mundo! 
Adulto - Qual mundo? 
Criança 1 - O nosso mundo. 
Criança 2 - Isso é impossível! 
Criança 1 - Mas eu gostava. 
Criança 3 - Como é que ias fazer isso? 
Criança 1 - Não sei. Talvez, se tivesse super poderes, e conseguisse voar.
Criança 2 - Para que querias abraçar o nosso mundo? 
Criança 1 - Toda a gente gosta de um abraço, o nosso mundo, também! Acho eu. 
Adulto 2 - Que bonito isso! Também acredito que sim, que o nosso mundo goste de abraços. 
Adulto 1 - Mas a única coisa que conseguimos abraçar é o nosso mundo interior, na nossa vontade, imaginação e pedido às estrelas, feito por crianças. 
Criança 3 - Mas para que querias abraçar o nosso mundo? 
Criança 4 - Só se te abraçares a um balão. 
Criança 2 - Eu acho que ele não ia gostar do teu abraço! 
Criança 1 - Porque não? 
Criança 2 - Porque não ia ver os teus braços. 
Criança 1 - Mas se eu tivesse super poderes, o nosso mundo ia ver os meus braços e de certeza que ia querer um abraço. 
Adulto 2 - Porque querias dar um abraço ao nosso mundo? 
Criança 1 - Porque ele está muito triste e doente! 
Adulto 2 - Isso é verdade. 
Adulto 3 - Na sua inocência, elas acreditam que podem mudar o mundo… (ri) 
Adulto 1 (a rir) - E pedem às estrelas…
Crianças - Eu peço às estrelas! 
Adultos - Pedem? 
Adulto 2 - O quê? 
Adulto 3 - Rebuçados, príncipes e prendas, ou irmãozinhos.
Crianças - Não! 
Criança 1 - Pedimos coisas mais sérias, como um longo e carinhoso abraço ao nosso mundo. 
Adulto 1 - Este mundo desalinhado…
Adulto 2 - Mundo louco! Desculpa, ele não ia querer saber dos teus abraços. 
Criança 1 - Porque não? 
Adulto 2 - Porque ia estar ocupado com outras coisas! 
Crianças - Que coisas? 
Adulto 4 - Coisas que...não têm nada a ver com abraços. 
Criança 3 - Mas eu queria coisas boas! Acho que dessa maneira, o desejar coisas boas para o mundo, já é dar-lhe um abraço, não achas? 
Criança 1 - Sim. 
Adulto 2 - Muito bem visto! Também é mesmo uma forma de lhe dar um abraço, sim senhora.
Adulto 3 - Felizmente ainda há pequenas coisas e momentos especiais
Adulto 3 - Que nos fazem de repente 
Adulto 4 - Desligar da realidade 
Adulto 1 - É!
Todos - E entrar numa dimensão de Paz. 
Crianças - Sim! 
Criança 1 - E um abraço é uma pequena coisa boa! 
Crianças - Pois é. 
Criança 3 - Mas o nosso mundo não tem braços como os nossos. 
Criança 4 - Eu se pudesse também dava um abraço ao nosso mundo! Mesmo que ele não tivesse braços. 
Criança 2 - Como é que fazias isso? 
Adulto 4 - Pedias às estrelas? 
Criança 2 - Não. Desenhava eu, a dar um abraço ao nosso mundo, com braços, e feliz. 
Adulto 2 - Olha, muito boa ideia. 
Criança 1 - Ele ia gostar, porque tu desenhas bem. Faz isso. 
Criança 2 - É, vou fazer isso, obrigado. 
Adulto 4 - Com isso, 
Adulto 3 - Ganhamos força, 
Adulto 1 - E uma nova luz 
Adulto 5 - É! Para enfrentar as trevas que vão surgindo! 
Criança 1 - Qual é o vosso desejo para esta noite? 
Criança 2 - Dormir, e sonhar! 
Criança 3 - Para mim é não ter pesadelos. 
Criança 4 - O meu é que os monstros e aquelas figuras más não apareçam no meu quarto. 
Criança 2 - A mim, não me aparecem essas figuras, não tenho medo do escuro. 
Criança 1 - O escuro também faz parte do nosso mundo, as estrelas que só se veem no escuro, e a lua! 
Adulto 2 - É verdade. E é muito bonito. 
Criança 1 - O meu desejo esta noite é sonhar, ou imaginar que abraço o mundo. 
Adulto 3 - Muito bem, espero que consigas ter esse sonho tão especial, e bom, já que não podes abraçar o nosso mundo! 
Criança 1 - Não posso abraçar o nosso mundo, mas posso abraçar pessoas que fazem parte do meu mundo, e era o que todos deviam fazer. 
Criança 3 - Assim também já davam um abraço ao nosso mundo! 
Adultos - Muito bem. 
Crianças (para os adultos) - E os vossos desejos esta noite? 
Adulto 1 - Olha agora...nunca me fizeram esta pergunta. 
(Todos riem); mas eu digo: que esta noite, cada um de nós tenha força! 
Crianças - Para quê? 
Adulto 1 - Para que a cada momento, cada dificuldade vencida 
Adulto 2 - Eu acrescento ao teu...para que a cada momento, cada dificuldade vencida ganhemos uma nova esperança!
Criança 1 - Esta noite, peço às estrelas que ajudem as pessoas 
Crianças (em coro) - A nunca desistir! 
Adultos - Boa! Por mais difícil que seja a situação, a dificuldade, a dor, o sofrimento. 
Adulto 3 - O meu desejo para esta noite é que...o amor seja a única arma entre os povos! 
Criança 1 - Assim já abraças o nosso mundo. 
Adultos - É verdade. 
Adulto 2 - Eu desejo também que a união, construa um mundo melhor! 
Adultos e crianças (em coro) - União...mundo melhor! 
Adulto 3 - Posso dizer outro desejo? 
Todos - Sim. 
Adulto 3 - Desejo que o mundo dê as mãos, 
Adulto 1 - Boa, em vez de armas ou dinheiro, 
Adulto 4 - E que todos tenhamos saúde, 
Adulto 5 - Que a medicina evolua, e que tudo tenha cura! 
Adultos e crianças (em coro) - Que tudo melhore. 
Criança 2 - Esta noite, outro desejo meu, é que acabem com as injustiças! 
Criança 4 - Que acabe a guerra e a fome. 
Crianças e adultos (em coro) - Boa! 
Criança 3 - Que haja uma estrela a brilhar 
Criança 1 - Em cada sorriso, 
Criança 2 - Em cada olhar! 
Adulto 2 - Boa, em vez da tristeza! 
Crianças - Sim. 
Criança 5 - Também desejo que a cada manhã, o mundo melhore! 
Crianças e Adultos (em coro) - Que o mundo melhore! 
Criança 3 - E que as pessoas melhorem, 
Adulto 2 - E que todos vivamos 
Crianças e adultos - Em paz, neste nosso lindo planeta azul. 
Criança 1 - Vou fechar os olhos e imaginar, ou sonhar que dou ao abraço ao nosso mundo! 
Crianças e Adultos - Eu também. 
Criança 1 - Está bem. Amanhã digam-me se conseguiram. 
Crianças e Adultos - Está bem. 
Criança 2 - Esperem...antes, que tal se dermos um abraço uns aos outros? 
Crianças e Adultos - Boa. 

(Trocam abraços carinhosos, beijinhos e sorrisos) 

Todos - Boa noite! 


                                            FIM 
                                        Lara Rocha 
                                      (Janeiro/ 2010) 

O número de elementos que leem o texto, pode ser alterado, com mais ou menos pessoas, só por adultos, ou só por crianças, ou os dois. 
Pode ser dramatizado, ou apenas lido de forma expressiva. 
A partir daqui podem surgir outras reflexões que poderão ser partilhadas aqui (nos comentários), por exemplo feitas em grupo nas turmas onde for lido. 

quarta-feira, 1 de novembro de 2023

O menino que imaginava

   Era uma vez um menino que vivia numa casa de campo, grande, de pedra, com um jardim onde existia uma fonte que o fascinava, além das flores. 

foto de Lara Rocha 


 Havia qualquer coisa de mágico, que ele não sabia explicar, mas adorava aquela fonte. A água a correr, límpida, aquele cantar doce e o som das variações da água a cair, faziam-no relaxar e sorrir. 

    Ele cantarolava sem letra acompanhando os ritmos com mais ou menos força da água, ria, outras vezes inventava letras, aplaudia feliz. 

    Ele dizia que aquela água tinha cristais, quando o sol dava na fonte. Às vezes olhava para a fonte e via pequenos arco-íris a flutuar, a andar pela água, a pairar em frente aos seus olhos. 

foto de Lara Rocha 

  Quando isso acontecia, soltava grandes exclamações de encanto: 

- Áhhhhhh....que lindo! Como é que isto veio aqui parar? 

   Imaginava-se muito leve, tão leve como aquela água e os arco-íris. Imaginava que era o próprio arco-íris e tinha consigo um caderno, uma lapiseira onde escrevia tudo o que mais gostava. Até o que imaginava ver enquanto arco-íris, ou o que cantaria a água. 

   Outras vezes achava que aqueles arco-íris eram seres mágicos da floresta, como nas histórias que os adultos lhe contavam, e ele próprio completava com a sua imaginação, gostos, os cenários, as personagens, sendo ele próprio uma delas. 

    Não gostava quando as abelhas se aproximavam da fonte. Pedia-lhes para elas não o picarem e ficava imóvel. Elas só queriam beber, e brincar com as flores, alimentar-se. 

- Fica descansado! Só queremos beber e descansar nas flores, alimentarmo-nos. Podemos? - pediu uma abelha 

- Está bem! Se não me picarem...estejam à vontade. - diz o rapaz 

- Se não mexeres connosco, nem nos bateres podemos conviver como bons amigos! - diz outra abelha

- Combinado! - diz o rapaz, e acrescenta: 

- Gosto muito desta fonte! 

- Nós também! - dizem as abelhas em coro 

    Quando as ouvia zumbir, parecia-lhe que estavam a cantar, ou às vezes a ralhar umas com as outras. O menino ria à gargalhada, e elas riam com ele, imitava os sons das abelhas e parecia estar a cantar ou a conversar com elas, com as flores. 

    Ele apreciava cada detalhe das flores, desenhava algumas, conversava com elas. Adorava ver borboletas que pousavam na água para beber, e era cada qual a mais bonita. 

  Perguntava-lhes como era ser borboleta, e elas respondiam-lhe, ele escrevia. Imaginava-se como borboleta, os passeios que daria se fosse como elas. 

    Parecia que também cantavam, ou tocavam piano com as suas finas patinhas, e asas que batiam na água. 

    Elas saltitavam e dançavam, e ele fazia o mesmo em terra, depois de acompanhar todos os movimentos delas. 

    Outra coisa que para ele era mágico: ouvir o som do vento entre as folhas das árvores, as agulhas dos pinheiros, as flores, as searas de milho nos campos, a erva do chão. 

    Ao ouvir o som da chuva, ele pensava se não se magoariam. Adorava vê-la cair, todo o tipo de chuva: a mais fina, a chuva com granizo, a chuva pesada que inundava tudo, a chuva com a trovoada, a chuva com vento, a chuva silenciosa. 

    Imaginava a chuva, e a trovoada como pessoas, um casal a discutir ou a conversar, como pessoas, ou instrumentos musicais. 

  Imaginava conversas entre os cães, gatos, pássaros, galinhas, pintainhos, porcos, galos, cavalos, vacas, ovelhas e tudo o que via. 

    Acariciava e apreciava cada tronco, galho, e musgo de cada árvore, sorria, falava com elas, agradecia, abraçava as que conseguia, encostava-se a elas, para apreciar tudo o que tinha à sua volta, todas as maravilhas e tesouros. 

  Adorava tudo o que o rodeava, tratava todos os animais e pessoas com carinho, ajudava-as, deitava-se na terra, que adorava fazê-lo. 

  Adorava o sol, as nuvens, as pedras, as frutas, o frio e o calor, mexer na terra, senti-la, cheirá-la, tocar-lhe. 

  A sua família e amigos chegaram a pensar que ele teria algum problema de saúde mental mas não tinham a certeza, porque ele era um menino como os outros. 

   Os pais e os avós, os tios, as tias, os primos, as primas também brincavam com ele, e davam-lhe atenção, mas todos os dias ele tinha esses momentos só para si. 

    Agradecia por tudo o que tinha, por tudo o que via, por tudo o que a terra lhe oferecia. Ensinou os adultos e as crianças a fazer o mesmo. 

    Uns seguiram o exemplo dele, e adoraram, outros não, ou só faziam alguma coisa, de vez em quando. Ele não se importava, porque ao fazer isso, era feliz, e ajudou muita gente a ser feliz. 

    Sentia-se preenchido, era saudável e sonhador!

E vocês? 

Reparam e agradecem, apreciam tudo o que têm à vossa volta? 

O que veem à vossa volta? 

Descrevam num papel, ou podem partilhar aqui, um lugar à vossa volta, um caminho, e escrever tudo o que veem, ou tudo o que viram, tudo o que imaginaram, e gostariam que esse sítio tivesse. 

E destes lugares da história? 

Qual ou quais cenários gostaram mais? 

O que, ou como imaginavam? 

                                FIM 

                            Lara Rocha 

                            30/10/2023 

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Santa Inocência, na Adolescência



NARRADOR/A - O amor: o Amor é o sentimento mais forte e mais bonito de todos. Ele ultrapassa todos os limites da vida. Na adolescência, a fantasia e o romantismo, a vontade de descobrir o corpo, o outro, as emoções que fervilham, a necessidade de nos sentirmos amados, desejados, correspondidos, confundem-se com Amor! 

       Incluindo o Amor Platónico, a Atração que acontece quando nos cruzamos com uma cara agradável aos olhos, e com a vontade de melhorarmos a nossa auto-estima. 

       Achamos que só porque é bonito ou bonita de cara, ou tem um corpo bem feito, e cruzamo-nos um com o outro, é aquele ou aquela que é para nós, é aquele ou aquela que vai ser o nosso amor «eterno». 

       Ele ou ela olhou para mim...eu olhei para ele...sorrimos e nasceu ali o amor...trocamos movimentos cativantes, mais ou menos atrevidos, e...uau...ele gostou de mim, tenho a certeza, ou ela quer alguma coisa comigo! 

       Sonhamos acordados, o ou a outro, outra, não nos sai da cabeça, queremos aquela pessoa, nem que seja só para curtir, ou viver uma noite de diversão, só para descobrir o corpo, sentir emoções intensas, sentir que estávamos certas, ou certos, que era mesmo para nós! 

       E aqueles que vemos na televisão, ou nas revistas, queremos ter um caso com eles, só para ser famosos e ricos. Construímos castelos, imaginamos, e depois tudo se pode desmoronar, rapidamente esquecemos que o amor não nasce com uma trocas de olhares, ou de sorrisos, nem de uma noite quente, uma troca de beijinhos e abracinhos num par de horas. 

       Demora, dá trabalho conhecer alguém, construir uma amizade, ganhar confiança, para namoros de qualidade. A pressa em conhecer o outro, ou a diversão leva-nos a desilusões, a vazios interiores, a enganos e por vezes a ISTS, indesejáveis, que sabemos que existem, sabemos como se transmitem, sabemos como evitá-las, as gravidezes na adolescência, muitos problemas. 

       Mesmo assim, na hora do caldeirão a ferver, esquecemos tudo, queremos é aproveitar, curtir, se não der certo, a seguir vem outro. A adolescência é uma fase difícil, em que existe muita fantasia, mas fantasiar é bom, ajuda-nos a conhecer melhor quem somos, o que queremos, quem queremos ao nosso lado. 

       Estas respostas só as recebemos com a maturidade, mais para a frente, depois de várias experiências fracassadas que fazem sofrer, mas ajudam a crescer, a ser mais seletivos. 

     Inclusive a dizer «não», a manter o nosso «não», não queremos aquilo, não queremos assim, não queremos isso...mesmo que o outro vá embora. Se vai embora, não tem de ser nosso, e é porque não era mesmo para nós. 

       Só percebemos isto, depois das dores passarem, depois de pensarmos sobre o que aconteceu, mas é importante termos uma boa auto-estima para não nos sentirmos a cair num precipício ou num abismo. 

       Não podemos aceitar tudo, quando nos envolvemos com alguém, continuamos a ser duas pessoas separadas, individuais, diferentes, que têm a sua vida, os seus amigos com quem podem continuar a sair, a conviver, sem terem de estar sempre juntos, não podemos aceitar que o outro nos obrigue a fazer o que não queremos, nem satisfazer todas as vontades dele, se não são as nossas!

       Porque o namoro na adolescência e em qualquer idade, não é posse, não admite violência de qualquer espécie, inclui confiança, e muito diálogo. Qualquer desejo não satisfeito, qualquer desilusão, qualquer «não», na Adolescência é um filme de terror, mas ajuda-nos a amadurecer, a separar a ilusão da realidade. E é melhor sofrer por terminar o que não é para nós, do que estar com alguém só para nos sentirmos completos, e respeita-se as vontades mesmo que sejam diferentes. 

       Deixo-vos com um exemplo de uma Adolescente sem auto-estima, apaixonada e não correspondida, que fantasiou um encontro com o seu amor platónico, embora ela soubesse que dificilmente o iria conhecer alguma vez! 

       Mas enquanto imaginava e fantasiava com ele, um amor correspondido (que nunca foi, nem poderia ser), adormecia a dor de uma desilusão, um rapaz para quem ela era totalmente indiferente...uma paixão de parte dela, por alguém real que não sentia nada por ela. Mal se conheciam, apenas de vista, mas ele despertava nela emoções que ela pensou ser paixão e demorou a esquecer. 

       Deixaram de se encontrar, a rapariga sofreu mais algumas desilusões, o que lhe dava alguma alegria, ânimo, era a fantasia com o seu amor platónico, que a fazia sentir-se preenchida, desejada, amada. 

       Aqui fica o testemunho dela...reflitam sobre tudo o que vos disse! 

RAPARIGA - Uma vez, conheci um rapaz muito bonito. Quando olhei para ele; o seu sorriso lembrava um paraíso, lindo e romântico; o seu olhar era mais profundo que o mar. 

       Foi amor à primeira vista...e como eu gostaria que fosse real, para toda a vida. Nunca o tinha visto, mas parecia que já nos tínhamos encontrado. Imaginava eu, noutras existências, e que nos reencontramos mais uma vez para viver um amor verdadeiro! 

       Pura fantasia! Eu sabia, mas todas as noites, quando olhava para uma fotografia dele, e principalmente nas noites em que a Lua também mostrava a sua paixão pelo Sol, Lua Cheia, eu via aquele sorriso, que lembrava o paraíso. 

       Nessa noite, o meu sonho foi lindo e risonho! Com ele! No dia seguinte, ainda com o sonho na cabeça como se tivesse sido real, quando fui à cidade, não o encontrei. 

        Olhava para todas as caras masculinas, na esperança de o ver em alguma, imaginava eu, que ele também viria à minha procura, ter comigo, viver esse amor. Santa Inocência! 

        Fiquei muito triste porque logo percebi que era só um sonho meu! Quando ele teve um acidente, eu ainda o amei mais! E ao olhar para as estrelas eu só pedia que ele ficasse bem, e que os meus sonhos fossem realidade! 

        Agora, quando estou triste, olho para a fotografia e sorrio! Porque ele ensinou-me o paraíso com o seu sorriso e o seu olhar tão profundos como o mar! Ele tornou a minha adolescência mais alegre, mais romântica, ajudou-me a desenvolver a imaginação e a imaginar-me como namorada de alguém. 

        Ajudou-me a esquecer as outras desilusões, e a dar o meu máximo, o meu melhor, a concretizar muitas das coisas que imaginei com ele, na prática, quando tive o meu primeiro amor correspondido, em idade adulta. 

       Fantasiar é bom, ajuda a crescer, e a ensaiar o que queremos, o que não queremos, antes de ir para a prática, um namoro real. Entretanto passa a fase da ilusão, dos amores platónicos, que adormecem com as adolescentes e os adolescentes que fomos. 

       Fantasiar é bom, desde que não impeça de vivermos os nossos amores verdadeiros, se tivermos de os viver, com gente como nós, desde que não se torne uma obsessão, não foi o caso, mas acontece. 

       Há que pensar no resto... 

                                                    FIM 

                                                Lara Rocha

                                             24/Outubro/2023   


   

Monólogo: Gratidão ao meu amor passado

 


Gratidão ao meu amor passado.


NARRADORA - Uma rapariga quer fazer as pazes com o passado, um amor que ela pensou ser para sempre, mas acabou de uma semana para a outro, depois de um pedido de casamento.

Como ela estava iludida! E todas nós ficamos iludidas, mas nem sempre é como imaginamos. Confiamos plenamente, e de repente, tudo se desmorona. Como é possível? Estavam sempre a dizer...aos anos que vai…vira a página, já devias ter arranjado outro. Ele arranjou logo outra, trocou-te, tu devias fazer o mesmo, isso ajuda a esquecer mais rápido.

Já devem ter ouvido isso, de certeza! Mas concordaram? É assim tão fácil? Claro que não, para ele pode ter sido, mas para mim, e para nós, mulheres, nem sempre é assim tão fácil.

Uma série de anos depois, resolveu escrever uma carta positiva, de agradecimento pelos bons momentos, os que devem prevalecer para ajudar a diminuir a raiva, o ódio, a vontade de vingança.


- Gratidão, gratidão, gratidão pela boa escolha do local onde me pediste em namoro, e pela simplicidade com que o fizeste! Gratidão, gratidão, gratidão, pela nossa música, que acompanhou e marcou o início do namoro, naquele sítio de sonho.

Gratidão, gratidão, gratidão, a ti, que te chamei «meu amor» enquanto durou, e tu a mim que me tratavas carinhosamente por «mor». Gratidão, gratidão, gratidão a ti, meu amor passado, pela oportunidade de te mostrar o que eu era sem máscaras, pela possibilidade de me conhecer como namorada, e perceber como sabia amar.

Gratidão, gratidão, gratidão, pela oportunidade recíproca que demos um ao outro, de viver o amor, a amizade, e tudo de bom que vivemos. Gratidão, gratidão, gratidão, por todas as palavras bonitas que ouvi de ti, gratidão, gratidão, gratidão, por todas as gargalhadas que dei contigo.

Gratidão, gratidão, gratidão, a ti, meu amor passado, por me teres correspondido, o único amor correspondido, depois de tanta desilusão, e quando eu já não acreditava que fosse conhecer alguém que se interessasse por mim.

Apesar de todos os meus amigos e familiares me dizerem que um dia ia aparecer, que ele estava guardadinho para mim, que ia aparecer quando menos esperasse, que não havia idades…eu achava que era só para alguns.

Gratidão, gratidão, gratidão, a todos os que me disseram isso! Eu não acreditava, mas a verdade é que de um dia para o outro, apareceste. Gratidão, gratidão, gratidão, meu amor antigo, correspondido, por teres visto tudo o que eu tinha de bom e desconhecia.

Gratidão, gratidão, gratidão, meu amor antigo por me ajudares a crescer e a tornar-me numa pessoa diferente. Gratidão, gratidão, gratidão meu amor antigo e correspondido por todos os momentos de carinho, por todos os abraços, por todos os encontros, por todos os passeios que demos, por todas as coisas bonitas que me mostraste, que vivi, que disseste e que senti contigo ao meu lado.

Gratidão, gratidão, gratidão, por todos os momentos de intimidade, telefonemas, conversas, mensagens, webcam. Gratidão, gratidão, gratidão por me teres feito acreditar no amor!

Gratidão, gratidão, gratidão, pelos presentes que me ofereceste, gratidão, gratidão, gratidão por conhecer a tua família pessoalmente, e pelos dois sobrinhos: um já me chamava «tia», e eu gostava deles como se fossem meus sobrinhos, por aquele momento delicioso em que estive com o teu sobrinho mais velho a dormir no meu colo. Eu quase explodia de felicidade quando ouvi chamar «tia». O outro sobrinho estive pouco tempo com ele, mesmo assim, foi muito bom!

Gratidão, gratidão, gratidão por todas as lágrimas quando ias para fora, e pela alegria dos momentos em que nos falávamos ao telefone todos os dias, pela Internet. Gratidão, gratidão, gratidão pelos postais que me enviaste, pelos toques, pelo anel, por me teres pedido em casamento, um sonho que não se cumpriu, mas pelo menos fui feliz quando o ouvi.

Gratidão, gratidão, gratidão pelos momentos em que fui dormir à tua casa e senti aquele conforto de acordares ao meu lado, e aquele carinho com que me acordavas. Ficávamos os dois assim...lado a lado, de mão dada ou apenas encostados e abraçados, com troca de beijos. Como era bom!

Doeu, quando acabaste, claro! Quando fizeste a tua escolha pela outra, com quem estás agora, e na realidade já estavas, mas eu não sabia. Gratidão, gratidão, gratidão, por todo o romantismo adormeceu em mim, ou já não existe, mas existiu.

Gratidão, gratidão, gratidão, por não seres possessivo, nem ciumento. Gratidão, gratidão, gratidão por me teres apresentado os teus amigos, por me teres aceitado como eu era.

Doeu, claro que sim, quando levaste contigo todos os sonhos que eu tinha começado a construir connosco. Senti que chegamos a ser um «eu», «um tu» e «um nós», sempre que nos fundíamos, tantas vezes, pelo olhar, um no outro, sem palavras, pelos abraços, pelos beijos, pelos sorrisos.

Quando me pediste em casamento, e eu aceitei, porque estávamos bem, ao fim de 4 anos, sonhava com um «eu», um «tu» e um «nós», cada vez melhor, maior e mais forte. Mas quando acabaste no fim de semana seguinte...depois de me teres pedido em casamento, foi muito mau, não gostei, deixei de saber quem era e nunca mais fui a mesma.

Ainda demorei a aceitar que só para ti é que as coisas não estavam bem entre nós. Claro, não podiam estar bem, com a varejeira que andava à tua volta a provocar-te. Não tinhas mais argumentos contra mim, não sabias como te desculpares, e ainda negaste até assumir que não era só ela que estava interessada em ti.

Não sei do que te encantaste com ela! Talvez ela te tenha dado o que eu não te dei! Não dei porque não era mesmo o que eu queria dar-te, pelo menos nesse momento. E parecia que pressentia que não era contigo que eu ia ficar, ou seria medo!

Preferi não me entregar assim tanto, nem tudo! Na verdade é porque não merecias. Foi o melhor que eu fiz! Dei-me muito a ti, tu também deste muito de ti a mim, tivemos momentos muito bons, embalados pela nossa música, que ouvimos várias vezes juntos, e sentíamos uma ligação muito especial, aquela música tinha a ver connosco. Ainda hoje adoro essa música, sorrio, e acho que vai continuar a ser lembrada como a «nossa música», para sempre! Pela beleza, magia, pelas coisas boas que ela transmite.

Fala de amor, quase como foi o nosso, só não foi mais porque não quiseste. Não gostei nem aceitei algumas propostas que me fizeste, sei que também não gostaste, mas aceitaste. Gratidão, gratidão, gratidão por isso! Respeitaste as minhas escolhas e decisões, mesmo com dor.

Tive apoio psicológico ligeiro, quando acabaste, mas foi essencial para eu falar de ti sem chorar, apesar da dor, que pensava perdurar até hoje, mas não. Demorou muito a passar, sim, é verdade, o ódio, mas com o apoio psicológico aprendi a viver sem ti, a recordar os bons momentos.

Demorei muito tempo até voltar a ser outra pessoa, que ainda estou no caminho da descoberta e da construção. O teatro, pouco depois de teres acabado, também ajudou em muita coisa.

Se houver um segundo amor, vai ser uma redescoberta para mim, serei uma nova «eu», porque deixaste-me fossilizada, desconhecida de mim mesma, e não, não arranjei ninguém desde que acabamos! Ao contrário de ti, que uns dias ou semanas antes já tinhas outra, com certeza.

Até te conhecer, aliás, conheci-te, sem pensar que iria dar alguma coisa entre nós, também não acreditava, depois de tanta desilusão, não pensava como seria, não sabia como era enquanto namorada. E tu disseste que eu era uma grande mulher.

Era um misto de incerteza, curiosidade, querer e ter medo. Mas conseguiste ver-me, quiseste dar-me uma oportunidade. Gratidão, gratidão, gratidão por essa oportunidade!

Já vai há tanto tempo...tantos anos…! Não voltei a apaixonar-me. Raramente penso se vai acontecer outra vez ou não. Não sei se conseguirei voltar a amar, a ter alguém que me ame, o amor se existiu acabou, se não existiu, o que quer que seja, acabou!

Parece que foi ontem...e já lá vai há tantos anos…! Foi muito bom enquanto durou. A dor passou e ficaram as lembranças dos bons momentos! Não tenho a certeza se a raiva passou ou adormeceu, com o passar do tempo, eu realmente era boa demais para ti!

É porque não tínhamos de ser um «nós», para sempre...só enquanto durou. O primeiro amor nunca se esquece, nem as desilusões, passe o tempo que passar, elas apenas adormecem e deixam-nos continuar.

Fizeram parte de nós, fazem parte do nosso passado, daquilo que fomos nessa altura, e aprendemos, melhoramos, pioramos, tanto com as desilusões, como com o fim das relações, depois da dor!

Enquanto não aparece outro amor, se é que vai aparecer, fico entre a vontade, o medo, a descrença, a insegurança, o acreditar que vai acontecer de novo, que há alguém destinado para mim, à minha espera, alguém especial, algures...no infinito.

Enquanto não acontece, quero ficar apenas com as tuas boas recordações de vez em quando, só para me fazer sorrir! E hoje, agradecer-te por toda a eternidade, todos os bons momentos, tudo o que fui contigo, tudo o que fomos um para o outro, tudo o que vivemos juntos.

Já não serei a mesma, e tu também não, ninguém volta a ser o, ou a mesma pessoa depois deste acontecimento. Mas poderei ser melhor se houver alguém diferente, que limpe todo o lixo emocional que deixaste em mim.

Talvez um dos propósitos das relações seja esse...transformar-nos, fazer-nos crescer, como se fossem rascunhos, até à perfeição final, a do amor puro, companheiro, leal, sensível, respeitador, brincalhão, divertido, amigo, carinhoso, compreensivo, que nos traga à superfície o melhor de nós, que goste de conversar, que nos descubra diariamente, nos pequenos gestos, nos grandes.

Mesmo assim, hoje, agradeço-te...amor antigo...primeiro amor...cada segundo, cada minuto, cada dia, cada hora, cada semana, cada mês e cada ano. Gratidão, gratidão, gratidão, amor antigo, amor passado…

Mas de hoje em diante, quero libertar o meu coração, de ti, de todas as desilusões e amores não correspondidos, que doeram e destruíram-me, mas felizmente que nunca tivemos nada. Não era para eles, até te conhecer, que me transformaram e ajudaram a descobrir o meu melhor para te dar.

Hoje, agradeço-te por tudo, mas quero libertar o meu coração, deixar-te lá num cantinho, pequenino e derreter o gelo que lá deixaste. Liberto-te! Meu primeiro amor, que já não és, mas já foste, e porque somos também passado, tu fazes parte dele, é lá que estarás, com quem eu fui contigo, juntamente com os bons momentos que de vez em quando gosto de recordar.

Hoje, eu liberto-te para sempre, meu amor, meu primeiro amor! Foi quanto perdeste. Gratidão, gratidão, gratidão por tudo, e...até sempre. Eu liberto-te! Vai! Não precisas de ocupar mais o meu coração magoado e congelado, como o deixaste.

Eu quero libertar-te, quero derreter o meu gelo, deitar fora o lixo emocional da dor que me deixaste. Vai amor...lá para a caixinha do passado, onde talvez me encontres, aquela que fui, quando me conheceste!

A que sou agora, não conheces, nem conhecerás. Encho o meu coração de gratidão por tudo de bom que vivi contigo, e por teres sido o meu primeiro amor. Abro uma frincha para outro alguém, se houver e se conseguir, descongelar, enchê-lo de luz, de amor, e curar as feridas que deixaste!

Havendo ou não outro amor para mim...vai! Para o passado! Não te quero mais no meu presente! Não preciso mais de ti, no meu presente! Vai para o passado e fica lá. Já são muitos anos de prisão para o meu coração. Vai! Eu solto-te dele! Vai lá para o passado, e não voltes, com grande, grande gratidão, para sempre e até sempre! No passado.


                                                              FIM

                                                           Lara Rocha

                                                           23/10/2023

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Os sonhos também dormem. Será que sonham?


  Era uma vez uma floresta sombria, onde poucas vezes entrava o sol. Os seus habitantes eram sonhos, dorminhocos, tristonhos, vindos de seres humanos. 

   Sonhos de todo o tipo: uns de fantasias, outros de obstáculos, uns porque encontravam gente maldosa, invejosa, egoísta, outros encontravam portas fechadas. 

   Uns vinham das dúvidas, das incertezas, dos medos e de fracassos anteriores, outros de projetos cheios de ideias que não eram possíveis de pôr em prática. Eram aos milhares, espalhados pela floresta. 

   Ninguém se atrevia a entrar nela, nem sabiam da sua existência. Até que um dia, uma senhora com uma certa idade, sonhou com essa floresta misteriosa, e viu nela centenas de sonhos, a dormir. 

   Os dela, desde a sua infância, que não realizou, os da adolescência e da idade adulta, que sabia nunca serem possíveis de realizar, fizeram-lhe cair umas lágrimas dos olhos. 

   Os que não encontraram portas abertas, os que outras pessoas não deixaram realizar, ela ficou triste, mas seguiu em frente, e os de agora, do tempo presente, que ela não deixou de ter, mas achava que não conseguia realizar pela sua idade. 

     Mesmo assim, realizava-os nos sonhos, e mantinha a esperança de vir a realizar alguns, aqueles que lhe pareciam mais reais, mais próximos, que tinham mais a ver com o que era e o que vivia. 

     Viu ainda os sonhos que tinha todas as noites, e os pesadelos a tentar acordar os sonhos. No sonho ela grita aos pesadelos: 

- Parem quietos, vão-se embora! Ainda não chega atormentarem-me a noite toda, e ainda vos encontro aqui, a chatear os sonhos?! Não gosto de vocês. 

     Os pesadelos desatam às gargalhadas: 

- Olhe para a nossa cara de preocupados por não gostar de nós! - ri um pesadelo 

- Então tu, não se pode aturar..! Que perseguição. - diz a senhora 

- Não tenho nada a ver com isso. A senhora é que pensa em mim, eu só apareço porque a Sra. quer. - explica o pesadelo. 

- Mas que grande convencido! Achas que alguém gosta de sonhar contigo? Acordamos a gritar…! 

- Ora essa! Só apareço nos vossos pesadelos quando vocês pensam em mim, ou quando têm medo de mim. 

- Claro, toda a gente tem medo de ti, falam em ti na televisão vezes sem conta, como não vamos ter medo de ti? 

      O pesadelo dá uma sonora gargalhada. 

- Credo, essa tua gargalhada mete medo, ao medo! 

      Outra gargalhada do pesadelo.

- Quem é esse? - pergunta o pesadelo 

- Acho que nunca o vi por aqui! - responde outro pesadelo 

- Nem eu! Nem sei se existe. Deve ser outra criação dos humanos! - acrescenta outro pesadelo 

- É! Esse existe em nós, pode ser bom ou mau. - responde a Sra. 

- Mas é pesadelo como nós? - pergunta outro pesadelo 

- Pode ser...quer dizer, pode ser tão grande que se torna um pesadelo feio como vocês! - diz a Sra. 

      Os pesadelos dão umas belas gargalhadas 

- Huuummm…amigos, vamos estar atentos, pode ser que esse tal seja...uma...ela…! Disfarçada. Jeitosa…! 

        Gargalhada geral. 

- Que engraçadinhos! Se sentissem medo, como nós, com certeza não estavam aí a brincar. 

        Gargalhada geral. 

- Ei, riam-se mais baixo, se não ainda acordam os sonhos. Vá, vão dormir, e deixem os outros sonhos mais bonitos e agradáveis descansar, dormir, sonhar ou acordar. - ordena a senhora 

- E por acaso eles sonham? 

- Acredito que sim, se estão a dormir…! 

- Já conhecia este lugar? 

- Não! 

- Então como veio cá parar? 

- Conheci agora, enquanto estou a dormir, e a sonhar. Já vi por aí os meus sonhos antigos, os que não realizei pro vários motivos, os de outras pessoas, e alguns que ainda tenho. Mas também vos encontrei, suas criaturas indesejáveis, pesadelos. 

- Óh! Não diga isso, se não ficamos tristes…- diz um pesadelo com ar de carinhoso 

        Gargalhada geral: 

- Coitadinhos, tenho muita pena de vocês...ui! 

- Dá para ver. Diz na nossa cara que somos criaturas indesejáveis e que fazemos acordar aos gritos. Só estamos a cumprir o nosso dever, a nossa profissão! 

- Pois, pois...que bela profissão, seus feiosos. - diz a senhora a rir 

- Ai, que Sra. tão simpática! - riem todos 

- E sou, exceto quando vocês me chateiam, e me fazem despertar assustada! - diz a Sra. 

- Irraa... que ela é de ideias fixas! - comenta um pesadelo

        Gargalhada geral.  

- Venha connosco, dar uma volta por aqui, enquanto conversamos mais um bocadinho, a ver se fica a conhecer-nos melhor! - convida um pesadelo 

- Está bem! - concordo a Sra. 

        Um dos pesadelos dá-lhe o braço. 

- Está a ver como também somos bonzinhos? 

        Todos riem

- É, claro. Estou a ver que sim, mas não abuses, eu também sou boazinha até certo ponto. 

- Depois também se transforma em pesadelo? 

- É. 

        Gargalhadas, e lá vão pela floresta, a conversar alegremente, a apreciar os sonhos, apresentam-na a dezenas de pesadelos, que a cumprimentam alegremente. 

        Ela já os conhece porque são os seus próprios pesadelos. Além dos dela, viu outros tantos milhares que pensou serem de outras pessoas porque não conhecia. 

   Uns eram semelhantes aos seus, outros, os mesmos, uns completamente irreais, outros a dormir fechados em troncos de árvores. 

     Outros sonhos, de outras pessoas, que ela não conhecia, nem eram seus, pelo menos no momento presente, a dirigir-se para as saídas, os que iam ser realizados. 

       De repente, a Sra. acorda, e fica a pensar onde será essa floresta, e perguntou a si própria se os sonhos dormem. Esperou uma resposta, fechou os olhos, imaginou-se a voltar àquela floresta. 

      Olhou para todo o lado, viu um sonho simpático a espreguiçar-se, ainda de olhos fechados, a torcer-se para um lado, e para o outro, sorri, olha para a Sra. um pouco assustado e a Sra. sorri-lhe: 

- Olá, és um sonho, certo? 

- Sim, sou um sonho de alguém que espera uma porta aberta. Enquanto não aparece, fico por aqui! E a Sra. quem é? 

- Sou um ser humano, que sonho e tenho pesadelos. Estive aqui há pouco, vi os meus sonhos não realizados, por diferentes motivos, vi os meus pesadelos, passeei com eles, ainda me ri com eles, conheci outros pesadelos e outros sonhos, mas não sei onde é esta floresta. Voltei aqui porque fiquei a pensar se...os sonhos que aqui dormem, dormem mesmo, e sonham? 

- Dormir, dormimos, sim. Sonhar, e ter pesadelos, não sei se sonhamos e se temos pesadelos. Talvez! Há quem diga que sim. Tenho a certeza que dormimos e que acordamos, passeamos por aí. Esta floresta chama-se para os humanos, o Inconsciente, a floresta onde os sonhos também dormem, para onde vem todos os sonhos e pesadelos, como se fossem filmes nas cabeças. Existem por aqui apenas fragmentos de sonhos, imagens soltas, umas mais reais do que outras, sombras de pesadelos que não sei de que são feitos, não falo com eles, mas já ouvi dizer muito mal deles. 

- Áhhhh….Floresta  Inconsciente...claro! Aquela parte em nós, desconhecida, que até nos esquecemos que existe! Mas é daí que saem os sonhos, pesadelos, desejos, fantasias, ilusões, frustrações, medos, terrores, aventuras engraçadas, outras não têm piada nenhuma. Claro. É isso! Obrigada, sonho. Vemo-nos um dia destes, quem sabe! - diz a Sra. a sorrir 

- De nada, até um dia destes, sim, podemos encontrar-nos! 

- Dorme bem! 

- Obrigada, igualmente. 

        A Sra. abre os olhos, sorri e murmura; 

- Os sonhos também dormem, e quem sabe....sonham! Dormem enquanto não são realizados, ou quando são substituídos pelos pesadelos. Os sonhos também dormem, e talvez sonhem, mas podem não saber o que é isso! Pelo menos, fazem-nos sonhar e conhecer o nosso mundo interior através de imagens. Maravilhoso...é por isso que a floresta é escura, onde vivem pesadelos e sonhos. Acho que os sonhos dormem e sonham. 

                                                            

                                                                   FIM 

                                                               Lara Rocha 

                                                                6/10/2023 

E vocês, o que acham? 

Acham que os sonhos dormem, e sonham? Ou só dormem na imensa floresta Inconsciente? 

De que serão feitos os sonhos e os pesadelos? 

Se fossem a esta floresta, que sonhos encontravam a dormir? E que pesadelos (temas)? 

Se quiserem podem deixar nos comentários


                                                       

domingo, 24 de setembro de 2023

A missão da menina diferente


         Era uma vez uma menina muito especial, bonita, que vivia numa cidade chamada As Quatro Estações. Nessa aldeia, existiam centenas de meninos e meninas, crianças, adultos, e pessoas com mais idade, que tinham uma missão muito especial: ir pelas grandes cidades anunciar a chegada de cada estação do ano. 

         Quem olhava para eles e elas, pareciam pessoas iguais, mas na verdade, eles e elas não precisavam de transportes para chegar às cidades que lhes estavam destinadas, iam e voltavam para a sua terra no mesmo dia, e sem que as pessoas das cidades dessem por isso, transformavam toda a paisagem de acordo com cada estação do ano. 

         Levavam tudo o que faz parte de cada uma delas: enchiam as cidades de flores na Primavera, sol e chuva, cores, pássaros e outras aves, vento. Levavam o Verão com Sol escaldante, o Outono com toda a sua beleza, e instabilidade do tempo, os dias mais pequenos, mais ventosos, mais chuvosos, mais cinzentos, ou mais solarengos, e o Inverno, com neve, onde ela existe, frio, chuva, nuvens carregadas, trovoada, gelo, mas também roupa quente, lareiras, e o Natal. 

         Dependia do que houvesse nessas cidades, nesses países, porque as estações do ano são diferentes, em várias partes do mundo, mas cada uma com as coisas bonitas, e cada menino, cada menina sabia muito bem o que levar a cada um, vestidos e calçados de acordo com as características de cada lugar, nas diferentes estações. 

         Desta vez tocou à menina Folha Castanha, era assim que se chamava, juntamente com o vento, anunciar a sua estação. Com um vestido castanho escuro, casaco comprido, castanho de vários tons, longos cabelos ondulados em tons amarelos, castanhos, verdes, roxos, salpicos de várias cores, que voavam com o vento, botas castanhas, e lá vai ela toda vaidosa da sua missão. 

         Os pais e os avós, orgulhosos da menina, até deixaram escapar umas lagriminhas, com um grande sorriso. Estala os dedos e chega à primeira cidade, um trânsito infernal, carros e mais carros, buzinas, pessoas a correr, com caras sem sorrisos, irritadas, ao telefone, aos gritos umas com as outras, a mexer nos telefones, nem repararam na chegada dela. A Folha Castanha fica triste: 

- Apetecia-me cobrir esta cidade e esta gente toda de folhas que batessem na cara deles, ou que os colassem ao chão, para ver se paravam um minuto e reparavam na minha chegada! 

        O vento dá uma gargalhada: 

- Achas mesmo que iam reparar em ti? Santa inocência de criança! Não reparam em quem vai à frente do nariz deles, quanto mais... 

- Onde é que eles deixaram o sorriso? 

- Não sei, em casa...! Se lhes desses dinheiro ias ver. 

- Não tenho nada a ver com dinheiro. Essa não é a minha missão. 

- Filha, esquece lá essas coisas boas, e faz o teu papel. Não te chateies com isso, eles não vão mudar. 

        A menina fica triste, todos passam indiferentes por ela. Ela fica irritada. 

- Vento, sopra aí bem forte, para ver se acordam. 

- Olha que eles vão ficar ainda mais irritados!

- Problema deles, eu também estou irritada por terem passado indiferentes. 

- Achas que eles sabem quem tu és? Claro que não. 

- Sopra aí rajadas de vento, por favor. 

- Está bem! 

        O vento sopra forte, e a menina caminha pelas ruas. Quando passa por árvores, cai uma chuva de folhas em cima das pessoas que passam, e ela sorri. As pessoas encolhem-se com o vento gelado, e assustam-se com as folhas que caem, fazem redemoinho à volta delas, e sobem do chão para a cabeça, como se estivessem a enrolá-las. As pessoas gritam, assustadas, sacodem-se, abanam-se, para tentar livrar-se das folhas. 

- É para ver se param 1 minutos, e veem que eu cheguei! Outro minuto para pôr um sorriso na cara. - comenta a menina a rir 

        A menina ri à gargalhada, ninguém repara nela, ela manda nuvens carregadas, escuras, que tapam o sol, o vento fortíssimo, que quase as empurra para trás, a menina aplaude o vento: 

- Boa, vento! Isso mesmo. 

        É folhas a rodopiar por todo o lado, a cair em cima das pessoas, umas já secas, outras frescas, que vão ficar molhadas com a chuvada que a menina manda. Aí sim, todos procuram abrigos debaixo das portas dos prédios, fogem, tentam abrigar-se debaixo das árvores, em cafés, nas paragens de autocarro, onde podem. 

        Como todos pararam, ela desfila sem se molhar, a sorrir para todos, que ficam espantados. Uma senhora com alguma idade, da aldeia da menina Folha Castanha, comenta: 

- Chegou o Outono! 

- Começa hoje? - pergunta jovem

- Começa! E veio carregado de vento, chuva...promete! O Outono é mesmo assim, mas tem a sua beleza. Todos deveriam parar uns minutos por dia e apreciá-lo! Devia ser obrigatório. - diz a senhora  

- O Outono é triste! - comenta outra jovem 

- Não é nada! Isso são ideias da vossa cabeça que só vê computadores e correria à frente. - comenta a senhora

- Pois é! Tem razão, andamos sempre a correr, nem reparamos no que há de bonito à nossa volta! - concorda outra jovem 

- Mas hoje é apenas o primeiro dia, ainda têm muitos dias de Outono pela frente, que devem apreciar. E andar com guarda chuva, algum agasalho porque o tempo é instável. - diz a senhora 

- Pois é! 

        A menina ri-se e aplaude. Para compensar, por terem parado algum tempo para se abrigar, todos olham para ela, ela transforma folhas que estão a cair em borboletas, que beijam as caras das pessoas, e estas sorriam, parece que ficam hipnotizadas por aquela beleza que nunca tinham visto.

- Áh! Que lindo, pareciam folhas, afinal são borboletas... - suspira uma jovem a sorrir 

- E dão beijinhos quando batem na nossa cara! - diz outra a sorrir 

- Nunca tinha visto nada assim, mas é maravilhoso! Se acontecer outra vez este fenómeno, vou ver e fotografar. - comenta outra 

- Realmente, acho que nunca aconteceu! - comenta outra pensativa 

- Ou se calhar já aconteceu, mas vocês é que nunca viram. - diz a senhora 

        A menina ri à gargalhada, e sopra as nuvens para o sol aparecer outra vez. As pessoas olham com mais atenção para as árvores, deliciadas com o bailado das folhas que caem, e outras que se transformam em borboletas. 

        A menina vai para outra cidade, acontece o mesmo, ninguém repara nela, e ela faz o mesmo, até que se lembram que chegou o Outono. Percorre várias cidades, e deixa a sua presença bem marcada, mas nessas, alguém a reconhece, as pessoas com mais idade, com o seu andar vagaroso, os olhos a apreciar a Natureza, que lhe sorriem e dizem: 

- Bem vinda, Outono! 

        Ela sorri, e envia as folhas em forma de borboletas, que voam e dão beijinhos. Essas pessoas riem, e ficam maravilhadas. 

Esta era a missão da menina diferente! 


                                                                    FIM 

                                                                Lara Rocha 

                                                            24/Setembro/2023 

E vocês apreciam o Outono? 

Como sentem a sua chegada? 

O que veem de diferente? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem