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segunda-feira, 9 de maio de 2022

A borboleta beijoqueira

 
  

  Era uma vez uma criança pequenina que estava num carrinho, num grande campo à sombra, a ver os seus Avós a trabalhar, com quem ficava enquanto os pais iam trabalhar. 
      Os Avós conversavam com ela, enquanto plantavam coisas deliciosas para comer, e ela ria à gargalhada, enchendo os Avós de ternura, e riso. 
      Numa manhã de sol e calor, uma borboleta enorme, tão grande que quase parecia um pássaro, pousou no narizinho da pequena. Era tão grande que lhe tapou a carinha e ainda foi além das suas bochechas. 
      A pequenina arregalou os olhos, ficou a borboleta que lhe deu um beijinho na bochecha, ri à gargalhada, a borboleta ri com ela. Tinha umas cores mais que bonitas, como ninguém tinha visto. 
      Os Avós assustaram-se, porque pensavam que a borboleta era um pássaro, a Avó grita, o Avô encolhe-se: 
- Olha o maldito pássaro, daquele tamanho em cima da menina. - diz a Avó assustada 
- Não o tinha visto! - diz o Avô 
- Nem eu! 
       A avó preparava-se para chutar a borboleta porque pensava mesmo que era um pássaro, mas quando se aproximam da criança, a Avó recua: 
- Ai, afinal não é um pássaro! Que coisa tão grande! O que é isto? De onde é que isto saiu? - diz a Avó assustada 
- Pois não, é uma borboleta inofensiva! Realmente, é enorme. E olha as cores dela, que coisa maravilhosa, parece uma pintura. Como é linda...- diz o Avô 
- Áh! Nunca vi nada assim, parece um pássaro. 
- Pois parece, mas é uma borboleta! Eu queria oferecer-te uma borboleta gigante, quando começamos a namorar. Nunca encontrei nenhuma, só aquela que te desenhei. - lembra o Avô a rir 
- Áh! A sério...? Que querido! Foi o que tu me disseste...se pudesses oferecias-me uma borboleta gigante. - recorda a Avó a sorrir 
       A borboleta ouve, suspira, sorri, pousa no nariz do Avó e dá-lhe um sonoro e repenicado beijo na bochecha, abrindo as suas asas mesmo em frente aos olhos do Avô. A pequenina fica espantada e ri à gargalhada abanando todo o corpo, os Avós riem com ela. O Avô fica muito surpreso, e encantado: 
- Áh! Deu-me um beijo... - dá uma gargalhada
- Isso era o que tu querias! - diz a Avó a rir 
- Deu mesmo! 
- Pois, pois, na tua imaginação. É bom manter esse espírito brincalhão. Eu não sou ciumenta. - ri a Avó 
       Os dois riem, e a borboleta pousa no nariz da Avó, abre as asas gigantes, dá-lhe um sonoro e repenicado beijo na bochecha. 
- Áh! Deu mesmo. A mim também. - diz a Avó a rir 
- Vês? Eu disse. E olha como a nossa neta está feliz! - repara o Avô.
       A borboleta ri, abana as suas asas gigantes e maravilhosas, como se estivesse a dançar. Pousa nos narizes, e nas bochechas, mais beijinhos à Avó, mais beijinhos ao Avô, mais beijinhos à pequenina.         Os três parecem hipnotizados ao ver aquela magia, acompanham todos os movimentos da borboleta, aplaudem, fotografam, levam mais beijinhos, a pequenina também, e riem. 
- Nunca vi uma borboleta assim, tão bonita, tão gigante. - diz a Avó
       Os dois voltam ao trabalho, sempre de olho na bebé e na borboleta, que voa por cima das plantações, das flores, beija cada pétala de flor, beija árvores, beija outra vez os Avós, e a bebé.              Caminha por cima da água de riachos, os Avós deliciam-se com a marca das patinhas tão pequeninas e redondinhas da sua passagem leve, abre as asas, salpica-as, ri,  dá beijinhos aos peixinhos, dá beijinhos às pedras, dá beijinhos às folhas, e deita-se em cima de uma folha que vai na corrente, sem pressa, parecia de veludo. 
        Mais à frente, volta e mais beijinhos aos avós, mais beijinhos à bebé, e quando fica muito calor recolhem para casa. 
       A borboleta instala-se num vaso grande, da varanda, debaixo de uma flor enorme, que ela gostou. A família gostou tanto dos beijinhos que ela dava a tudo e a todos, que disse para ela lá ficar. 
      A borboleta ia para os seus passeios, e voltava sempre para o mesmo sítio, carimbando os avós, a pequenina e os pais da criança com beijinhos e mais beijinhos. 
      O Avô até construiu uma casotinha para a borboleta, na beirada de uma janela, logo que o tempo arrefeceu, bem confortável, bem agradável, onde ficava protegida do frio, do calor, do vento, da chuva.
       A bebé deliciava-se com a borboleta, tal como toda a gente que lá ia, recebendo beijinhos e mais beijinhos da simpática borboleta. Era mais um elemento da família, e deram-lhe o nome de borboleta beijoqueira, com todo o carinho. 

                                             FIM 
                                         Lara Rocha 
                                         9/Maio/2022 

terça-feira, 12 de abril de 2022

Vamos brincar?



 Vamos brincar? 

Vamos

 brincar

 com o 

tempo?

Dar-lhe a 

mão 

E dançar 

com ele?
 
Vamos 

brincar?

Fingir que 

somos 

póneis 

E correr 

pelos 

campos que 

quisermos?

Vamos brincar?

Vamos brincar com os cabelos das bonecas,

Vesti-las, dar-lhes abraços e colo?

Vamos brincar?

Vamos brincar com o tempo?

Fingir que o tempo é uma marioneta 

E fazer o que queremos com ele?

Vamos brincar?

Fingir que somos nuvens 

E que podemos ser livres? 

Vamos brincar? 

Vamos! 

Vamos brincar,

Ao sem tempo, 

Vamos fingir que há tempo para brincar.

Vamos brincar?

Vamos! 

Vamos brincar ao sem idade,

Vamos esquecer a nossa idade

E simplesmente...

Vamos brincar! 

Para sempre. 


Lara Rocha 

A música que fazia crescer plantas

 


     
Era uma vez um jovem que estava desempregado, era músico, e saia de casa todos os dias, com um instrumento musical diferente para conhecer outros lugares, em busca de inspiração. 

    Numa tarde entrou numa estufa que estava com a porta aberta. Não havia ninguém, mas também se aparecesse alguém, ele explicaria que não ia fazer mal às plantas, e o que estava lá a fazer. 

    A estufa não parecia abandonada, mas as plantas quase não se viam. Talvez tivessem sido lançadas à terra há pouco tempo. 

    Sentou-se numa cadeira de ferro, bonita, cheia de rendilhados, e ficou em silêncio a observar, à espera de algum som. Nada. Nem um gemido do vento, nem um olá de um raio de sol. Estava tudo silencioso. 

     Hoje tinha saído com uma flauta e um violino. Começa a tocar a flauta, uns sons soltos, esperou por algum som de volta, mas nem um. 

     Tocou mais umas notas soltas, e...surpresa...recebeu de volta um passarinho pequenino, com penas muito coloridas, e um piar tão doce que ele quase não o via. 

- Olá! - diz o jovem 

- Olá. - diz o passarinho

- Esta estufa é tua? - pergunta o jovem

- Não...venho só aqui de vez em quando, porquê? És o novo dono? - responde e pergunta o passarinho 

- Não. Tem dono? 

- Tem. 

- Eu só vim à procura de inspiração, estou sem trabalho, aproveito para passear, e trago alguns instrumentos. 

- Ins...quê? O que é isso? Estás doente? - pergunta o passarinho

- Não… felizmente não! - ri o jovem - desempregado. Quer dizer que como não tenho trabalho, saio de casa e venho à procura de coisas que me façam criar ideias para músicas. 

- E o que fazes com esses…? 

- Instrumentos? 

- Sim, isso. 

- Fazem parte do meu trabalho. 

- Áh! E o que é que eles fazem? 

- Música. Não conheces? 

- Não. 

          O passarinho voa para a mesa, e olha para o jovem. Este sorri. 

- Que bonito que tu és! 

- Obrigado. 

- Queres ver como toca? 

- Sim…

          O jovem toca uma música inteira, que o passarinho, sem saber, conhecia, e acompanhou com o seu canto. No fim da música, o rapaz aplaude o passarinho, e o passarinho aplaude o rapaz. 

- Que momento tão bonito! Obrigado, passarinho. Adorei. - diz o rapaz a sorrir 

- Obrigado, eu. Também gostei muito. Eu já conhecia essa música, mas não sabia que a tocavas. 

- Bem, não sou só eu que toca. Muita gente, que gosta desta música, toca-a. 

- Áh! E como se chama esse instrumento? 

- Flauta. 

- E este? 

- Violino! 

- Qual é o som dele? 

      O rapaz exemplifica. O passarinho arrepia-se. 

- Uau! É forte. Mas parece bonito. Fiquei com as penas todas arrepiadas. 

      O rapaz ri. 

- É porque gostaste. 

      O rapaz toca uma música completa com o violino, e o passarinho dança, canta com ele. O passarinho quer experimentar a flauta. 

      O músico explica-lhe, como se faz, e diz-lhe para tapar os buraquinhos com as patinhas conforme ele aponte. Os dois divertem-se tanto, riem tanto, que nem se aperceberam das cabecinhas de plantas que se tornaram visíveis. 

      Quando olham para o chão: 

- Ei, o que é que aconteceu aqui? 

- Não sei. 

- Isto não estava aqui. 

- Pois não. 

      Entra uma senhora com mais idade, e dá um grito: 

- Áhhhh… mas o que é isto? Quem és tu? Como é que entraste aqui…? Para roubar ou destruir a estufa, não? 

- Óh, não, querida Senhora. É a dona da estufa? 

- Sim. 

- Mil perdões, não queria assustá-la. 

      O jovem dá-lhe o lugar da cadeira, e conta-lhe a sua história. A senhora sorri aliviada, e diz: 

- Olha que engraçado, as cabecinhas estão a aparecer… será que foi com a tua música? Que lindo passarinho. É teu? 

- Não, entrou aqui há bocadinho, já nos rimos muitos, conversamos, tocamos… será que acordei as sementes? 

      Os dois conversam mais um pouco, e ficou prometido voltar no dia seguinte. O rapaz é muito delicado, e no dia seguinte, a senhora gostou tanto dele, que o esperava na estufa. 

      Abriu um grande sorriso quando o viu. 

- Olá. Já está aqui? - diz o rapaz 

- Sim, eu sabia que estavas para chegar. O teu amigo avisou-me. 

- Olá. - diz o passarinho 

- Olá, também já estás aqui? Boa! 

- O que vais tocar hoje? - pergunta a senhora 

- O que quiser...tem assim alguma música que goste mesmo? 

          A senhora identifica uma música de que sempre gostou, e o músico toca, acompanhado por instrumentos, com o passarinho. A senhora canta, com um sorriso luminoso e brilho nos olhos. 

        O músico fica deliciado. As cabecinhas crescem mais uns quantos centímetros. A senhora aplaude no final. 

- Obrigado por este momento. Que lindo que é o seu sorriso, e o brilho dos seus olhos! - diz o jovem feliz por ver a Sra. a brilhar com a sua música 

- Obrigada eu. A tua música deixa-me muito feliz, e tu tens uma luz muito bonita, és um ser especial. 

- Acha? Hummm… não sei. 

- Claro que sim! Não é qualquer um que me põe com um sorriso e um brilho nos olhos de felicidade. 

- A sério? 

- Sim. 

- Que maravilha! Então venho cá mais vezes, só para ver a sua felicidade, de ouvir a minha música. 

- Óh, filho, mas claro que sim, tenho todo o gosto que venhas. Vem sim, por favor. 

- Sem favor! 

- Olha como estão a crescer as minhas plantas, e flores. A tua música é especial, até as plantas gostam. Que lindo! 

     O jovem sorri, os dois decidem ir passear pelo resto do quintal e da casa, ele de braço dado com a senhora, e ela a contar histórias sobre os espaços, as árvores, a casa, a família. 

      Ela convida-o para lanchar, e conhecer a família. É muito bem recebido, e toca algumas músicas, que todos conhecem, acompanham alegremente, a cantar e a dançar. 

      Nos dias seguintes, o jovem lá estava, numa conversa animada com a senhora, com instrumentos diferentes, a tocar e a divertir toda a família. Todas as plantas cresceram de forma gigante e rápida. 

- Que bonitas! - diz o rapaz 

- Olha como cresceram. Foi a tua música! - diz a senhora surpresa 

- Eu acho que foi mais o seu sorriso, e o que tem de bom como pessoa. - diz o jovem 

      A senhora ri. 

- Obrigada, filho, és um amor. Mas eu acho que foi a tua música, porque elas também são sensíveis à  música, e à voz, ao carinho humano. 

- Com certeza, não tenho dúvidas disso! 

     Todas as histórias que o jovem ouviu da senhora, inspiraram-no para criar músicas, e todos os dias ele tocava para ele, dizendo que foi inspirada na história de uma árvore, ou na história sobre o que aconteceu à volta de outra, na história do convívio à luz da lua, na eira. 

      A senhora e a família adoravam todas as músicas novas que ele trazia. Sempre que o rapaz vai lá tocar, e cantam, as plantas e as flores crescem mais um bocado, ficam tão grandes que o rapaz não pôde entrar mais na estufa.

      Mesmo assim, continuou a visitar a senhora todos os dias, a tocar para ela, todos se deliciavam com o tamanho das flores, até no exterior. 

      Flores, e não só, porque tudo o que foi plantado, legumes, cresceu para surpresa de todos. Tornaram-se uma verdadeira segunda família para o músico, que até arranjou emprego, graças à senhora que divulgou o trabalho do jovem, e este começou a dar aulas de música, a ensinar todos os que queriam aprender a tocar muitos instrumentos diferentes.

      Mas só alguns conseguiam fazer as plantas e legumes crescer como ele. Muitas pessoas acreditavam que fossem aqueles que tinham um bom coração, mais puros,  ou os que faziam os outros felizes, como o jovem fazia a senhora.       

                                                            FIM 

                                                         Lara Rocha 

                                                        (12/Abril/2022)

mudança

Chegaste á  minha vida embrulhado em sorrisos, 

e em palavras simpáticas, em trocas de mensagens,

E de repente mudaste...

Passei a ser o quê, para ti?

Parece que me eliminaste da tua vida...

Ainda tinha tanto para te dar!

Tanto para te mostrar!

Tínhamos tanto para viver,

Conversar,

Escrever,

Partilhar,

Criar,

Aprender,

Construir...

O que aconteceu?

Porque passaste a ser gelado comigo?

É a indiferença que me ofereces?

Depois de te oferecer carinho?

É a indiferença que queres receber de mim?

É com o teu silêncio que retribuis?

A tua indiferença dói em mim...

O teu silêncio dói em mim...

Todas as mensagens que te mando e não respondes,

Doem em mim.

Nem quando digo que preciso do teu abraço, das tuas palavras...

Dói em mim o teu gelo

E dói a minha decisão de responder com indiferença

Quando a minha vontade é de te dizer essa dor toda que me sufoca

O que faço para me livrar da dor que a tua indiferença causa em 
mim?

Como faço para reagir aos teus silêncios que doem em mim?

Como vou lidar com uma indiferença sem respostas,

Que não compreendo, e que me dói?

Dói em mim ter de te ignorar

Para ver se sentes a minha falta.

Sentirás?

Não sei se é o melhor que faço,

Porque dói muito em mim.

Não sei se me vou livrar da dor,

Porque dói muito em mim.

Neste momento...

Obrigas-me a ser também indiferente contigo...

Talvez isso te deixe livre

E se as nossas almas tiverem algo para viver juntas

Viverão...

Não fugirás mais...

Não teremos medo.

Talvez agora tenhamos.

Talvez só nessa altura saberei a resposta,

À pergunta se esta é a melhor decisão...

Dói muito em mim,

Mas talvez seja isso que queiras.


                                            Lara Rocha 
                                            (2010) 


             
                                               
     

foste para mim











 
Foste para mim...

O meu sol, nas horas felizes
O meu eclipse nas horas tristes.
Foste o meu calor, na tua presença
O meu frio na tua ausência.
Foste a minha Luz, e a minha força,
O meu sorriso, e as minhas lágrimas
A minha tristeza, e a minha felicidade
Foste a minha saúde, e a minha doença
quando levaste todo o meu ser contigo,
e apenas deixaste um corpo vazio...
uma carapaça que protege
uma silhueta...
sem identidade,
sem rosto,
sem alma,
sem luz,
sem sorriso,
sem lágrimas,
sem nada...
apenas uma silhueta,
mascarada de mulher...
escura...
vazia...
desde o dia em que acabaste.
E depois de seres o meu tudo...
És agora o meu nada!
Nada de sentimentos,
Apenas lembranças
de um grande amor!
Foi há tanto tempo,
e parece que foi hoje... 

Lara Rocha 
(2010) 

sábado, 9 de abril de 2022

Hino à água nos sonhos

Desenhado a pastel seco por Lara Rocha 

Não vivemos sem água, vivemos em água antes de nascermos, e precisamos dela para viver. A água é muito generosa connosco, e nós estamos sempre a fazer-lhe mal: dá-nos peixe, sal, algas, inspira-nos, purifica-nos, lava-nos, limpa-nos o corpo e a alma. 

        Como a água faz parte do nosso dia a dia, sonhamos com ela, muitas vezes. Alguns sonhos parecem místicos, quando vamos a água a sair de uma nascente, de uma fonte, como vemos nos jardins públicos ou em casas particulares, monumentos, a água que brota de estátuas fantasticamente trabalhadas, quase pessoas reais, umas mais pequenas outras maiores. 

        Pode acontecer nos sonhos com água, ficarmos com a sensação de estarmos a viver numa outra época, ou cidade, que estamos a fazer parte de um filme histórico. A água é símbolo de vida, que nasce do conhecimento, das experiências, e desenvolvimento pessoal, espiritual. 

        A água nas suas diferentes formas (chuva, humidade, mar, rio, lago, gruta e outras, é vida, remete para a nossa origem, mostra como estão os nossos sentimentos, ela é o espelho que reflete o nosso inconsciente, nos sonhos. 

        Água é renovação, tanto nos sonhos, como na vida real, toda a terra precisa de chuva para as sementes produzirem, para todos, homens e animais sobreviverem, hidratarem-se, refrescarem-se, ou aquecerem-se. Nos sonhos, quando a água ferve, mostra-nos que estamos a «ferver de raiva», a sofrer de grande stress ou de emoções muito intensas «escaldantes».

        Em contraste, quando o sonho nos mostra águas serenas, se tomamos banho agradáveis, ou até nos vemos a nadar, é porque nos sentimos em paz com nós mesmos, com os outros, com a vida, estamos satisfeitos e serenos, felizes, por isso, sentimo-nos seguros a explorar o nosso mundo interior, Sabemos que vamos encontrar lá aspetos bons, bonitos. 

        Se no sonho estamos numa praia, a tomar um banho fantástico, a costa ou a praia, simbolizam o nosso consciente e o inconsciente. Existem sonhos com água que nos perturbam, são intensos e parecem quase verdadeiros, aflitivos, quando vivemos ou passamos por situações que nos provocaram emoções esmagadoras, se no sonho enfrentamos uma inundação da casa por exemplo, ou do espaço onde estamos. 

        Mas se o cenário do sonho for uma erupção vulcânica, é uma forma do nosso inconsciente nos dizer que estamos a conter a raiva, por isso nos sonhos essa raiva liberta-se através do vulcão. 

        Quando existe água sobre a terra a seguir à explosão vulcânica, é um bom sinal e quer dizer que as emoções que borbulhavam (como a raiva), estão a arrefecer e a serenar. Quando ficamos encharcados nos sonhos, por uma chuvada ou tempestade, no sonho, relembra-nos o que sentimos quando outros descarregam em nós os seus sentimentos ou como dizemos «chovem em cima de nós, as emoções dos outros», mesmo que não estejam diretamente relacionadas connosco, afetam-nos. 

        E se sonhamos que estamos a brincar ou a ser atingidos por pistolinhas de água, é porque estamos a mostrar ou a reviver emoções infantis, a projetá-las noutros. O mesmo acontece quando sonhamos com aquários: se os peixes nadam agradavelmente e livres, a água está limpa, significa que estamos felizes, calmos, mas se a água está suja ou os peixes revelam inquietação, então temos em nós muitos impulsos reprimidos. 

        Numa comparação figurada, a pessoa é um barco a flutuar sobre uma massa de água gigantesca, um ego à superfície de uma mente imensamente profunda. Os sonhos de mares calmos e navegação serena podem descrever um bom relacionamento entre os dois lados (consciente e inconsciente). 

     Em contrapartida, os mares agitados ou os navios que naufragam indicam problemas, mais concretamente, se o oceano sobe de nível e inunda a costa, é um sinal de alerta para a sobrecarga do inconsciente, no que se refere a conteúdos como memórias e emoções que se abatem sobre a vida diária. 

        Se o oceano recua, então é um comunicado de que a nossa consciência se está a expandir, e a vir à superfície, o que antes estava submerso, oculto, o mesmo significa quando sonhamos com um embarcadouro. 

        A chuva visita-nos frequentemente ao longo do ano, e ainda bem durante tempos mais ou menos prolongados: dias, semanas, de vez em quando, meses. Apesar de sabermos que é preciosa e essencial à vida na terra, a sua presença afeta-nos de forma mais ou menos acentuada, direta ou indiretamente, o nosso estado de espírito, que responde em conformidade com a escuridão, do céu, a «falta de sol», faz-nos sentir mais tristonhos, ou depressivos, dependendo da sensibilidade de cada um (não é mito, é mesmo realidade). 

        Por ficarmos mais tristes, e com ar mais pesado, sérios, às vezes até sentimos mais vontade de chorar, e nos sonhos, essa tristeza pode materializar-se em forma de gotas, que na prática são a figuração das nossas lágrimas, quando o cenário dos sonhos é pintado com chuva (tanto podem ser as lágrimas que choramos de verdade ao longo do dia, e expomos, como aquelas que engolimos, não conseguimos mostrar, mas saem nos sonhos. 

      Assim, o tamanho das gotas e a intensidade da chuva, são reflexo do mesmo na nossa tristeza. Se no sonho estamos à espera da chuva, no real significa que esperamos que a tristeza passe. 

        Sabemos por experiência que quando a chuva é em excesso, demasiado forte e em grande quantidade, acontecem cheias, inundações, o que se torna muito perigoso. Temos urgência em escapar ou protegermo-nos de qualquer forma. 

        Ao sonharmos com uma inundação, constitui um alerta para uma situação da nossa vida que está a piorar cada vez mais, e que nos faz sentir imensamente submersos, a precisar de ajuda urgente. Ver chuva num sonho relembra-nos que alguma situação nos provocou muitas lágrimas. Sonharmos com inundações, é um aviso inconsciente para o facto de determinada situação que estamos a enfrentar, nas nossas obrigações. 

        Outra variante de água nos sonhos, é sob a forma de gelo e neve. Embora seja uma paisagem lindíssima, na vida real, a sua mensagem nos sonhos, é um reflexo das nossas emoções face a alguém ou a alguma coisa na nossa vida que congelou, e não está a progredir. 

        Neve, granizo, geada e gelo, mostram que recentemente arrefecemos emocionalmente em relação a alguém, ou alguma área da nossa vida está congelada, suspensa, parada. A geada, nos sonhos (outra forma de água), pode ser indício de algum problema de saúde (como quando sentimos frio se temos febre). 

        O gelo avisa-nos do risco que corremos ao endurecer excessivamente as nossas emoções, com a consequente rigidez de personalidade. O frio, sugere o desejo de isolamento,  solidão, e elevação ascética, mas desumanizada:  falta de sentimentos afetivos. 

        O orvalho representa a pureza, a ingenuidade, e a virgindade por ser uma água que se deposita suavemente sobre a natureza ao amanhecer. Transmite-nos a sensação de que há uma grande frente gelada a atravessar a nossa vida. Este sonho convida-nos a refletir se somos nós próprios que emitimos ou demonstramos vibrações geladas ou se é alguém que nos envia esse gelo. 

        Se sonhar com o oceano pergunte-se se estará a ser estabelecida uma compaixão com que sente, ou com algo que está a acontecer na sua vida. Repare se a água é profunda ou não, calma ou encapelada, limpa ou turva, pois estes pormenores podem descrever sentimentos, ou, por exemplo, as matizes de um relacionamento.

       Procure igualmente expressões idiomáticas como «vir à tona respirar» ou «de vento em poupa».    

      Sonhos com ondas - se as sentimos a embalar-nos, é um aviso de que nos estamos a deixar levar pelas circunstâncias e a afastarmo-nos facilmente do nosso objetivo. Se as ondas são grandes, representam as paixões, de amor, ódio, ciúmes, vingança, e outros que podem fazer naufragar a nossa vida privada, profissional ou social. Andar sobre as ondas, simboliza a sublimação.

        Por fim, às vezes os sonhos podem ser literais, por isso, alguns sonhos com água são um alerta do corpo para a necessidade de hidratação e ingestão de líquidos, banho ou limpeza de algo como emoções negativas ou inchaço do ego.


                                                                    Lara Rocha