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sexta-feira, 8 de abril de 2022

Pessoa, pessoas

 


Pessoa, pessoas


Fazemos parte de um grande mundo, todos, tudo o que vemos, tudo o que sentimos, ouvimos, cheiramos. Todos: pessoas, animais, plantas, rios, serras, campos, montanhas, florestas, glaciares, mar, terra, ar, água.

O que nos diferencia é a forma como nos mostramos aos outros, como os outros nos veem, e as nossas respostas aos acontecimentos de vida.

As diferenças que nos chamam mais a atenção, referem-se ao corpo. Sim, os animais também tem o seu corpo, diferente do nosso, tal como as árvores que às vezes também parecem corpos humanos na sua perfeição.

Uma pessoa é constituída por um corpo e por um espírito. O corpo é vivido em dois polos: o exterior e o interior. Exteriormente, o corpo pode ser semelhante à nossa perceção, é igual para todos, todos veem o rosto uns dos outros, o físico.

Não obstante as diferenças particulares, físicas de cada um, todos temos os mesmos órgãos internos «cabeça, tronco e membros». Interiormente, esta refere-se à experiência do sentir, traduz a maneira como nós nos vemos a nós mesmos, como cada um sente o seu corpo, o que se passa dentro de cada um através dos sentidos.

Estas duas experiências estão interligadas, porque o corpo está no mundo como objeto exterior, mas é habitado por cada pessoa. Quando dizemos «o meu corpo é meu», dizemos que nosso corpo pertence-nos («pertence-me este corpo»).

Quando dizemos «eu sou o meu corpo» referimo-nos à experiência interior, quando experimentamos, quando nos sentimos bem no nosso corpo, entramos em nós, encontramos em nós essa experiência (sensações), «sentir», e o reconhecimento das sensações.

O termos um corpo, significa que este nos pertence, cada um tem o seu corpo, é algo que lhe pertence, com o qual pode fazer o que quiser.

O corpo humano é fonte de expressão e comunicação, é a origem de todo o significado do ser humano, bem como é fonte de humanização do mundo através do qual podemos utilizar as ferramentas e objetivos.

O corpo humano, é pessoa humana enquanto manifesta o nosso interior, exprime os nossos sentimentos. O corpo é uma presença no mundo, pois requer aproximação do mundo e está no centro deste.

O corpo funciona como linguagem: podemos estar em silêncio e comunicar através do olhar, das expressões faciais: riso, choro, alegria, admiração, maravilha, e outras.

Com o corpo podemos mostrar a linguagem ainda que sem palavras usando a dança artisticamente trabalhada, intencional, isto é, a harmonia, podemos usar a linguagem da ternura, da carícia, através da mímica, do teatro, da música, entre outras formas.

O corpo é a possibilidade máxima e o limite. Somos a condição do corpo, existimos ou como homem ou como mulher, ou como mistos em alguns casos.

O corpo é a própria pessoa. E a pessoa é também afetividade: tem a capacidade de ser modificado por algo exterior que se faz presente à pessoa.

A afetividade pode ser sentida a dois níveis: ao nível mais superficial que é dado pelas emoções, comoções intensas mas passageiras, irrefletidas, bruscas, vinculadas fortemente à corporeidade.

Nestas incluem-se: o medo, a cólera, a angústia, o estar contente ou o entusiasmo. Afetividade tem também um nível mais profundo no qual encontramos os sentimentos, estados afetivos de moderada intensidade mas de longa duração. Neste segundo nível está a intimidade.

A situação de maturidade afetiva e de equilíbrio psíquico, a afetividade é razoavelmente controlável pela vontade, e quando assim não acontece, é sinal de imaturidade da personalidade, ou psicopatologia.

A afetividade abre-nos à relação com os outros. Para a pessoa se realizar não pode reprimir a afetividade porque esta também se forma e fortalece na relação com os outros.

Cada um de nós só se pode realizar afetivamente se se abrir aos outros, se se der aos outros; quando nos damos aos outros, sentimo-nos bem e também estamos recetivos aos outros.

Todo o ser humano desde que nasce, grande parte do seu desenvolvimento e crescimento interior depende da afetividade que recebe da mãe, do pai, dos irmãos se já tiver, dos avós, dos tios, dos primos e depois dos amigos, e que utiliza para se relacionar com os outros que o rodeiam.

Se estivermos rodeados de afetividade, desde que nascemos, será assim que nos vamos relacionar com, e mostrar aos outros. Todos precisamos de nos dar aos outros, e os outros precisam do nosso afeto, mais ou menos.

Se não nos damos aos outros, sentimo-nos inúteis, não crescemos como pessoa. Dependendo das experiências anteriores, por exemplo, uma pessoa que viveu muitas experiências afetivas negativas, nas relações seguintes, pode vir a ter comportamentos agressivos, frios, distantes, pode isolar-se, fechar-se em si mesmo, tratar mal os outros.

Isto vai trazer infelicidade tanto para eles como para os outros, mas se em contrapartida as experiências afetivas foram satisfatórias, felizes, e boas, estas pessoas vão estar mais abertas com os outros, vão ser mais sensíveis e atentos, mais delicados e afetuosos, e sentir-se-ão mais felizes, completos interiormente.

O corpo (humano, animal ou vegetal), existe para nos proteger, e para nos permitir adaptar ao meio, por isso somos tão diferentes, com algumas semelhanças.

Que semelhanças? No direito à dignidade, ao respeito, ao amor, à satisfação das necessidades mais básicas, físicas, e de carinho, o sentirmos que pertencemos a uma família, comunidade, grupo de amigos que gostam de nós e aceitam-nos como somos.

Todos temos qualidades e defeitos, isso torna-nos diferentes, mas iguais. Diferentes pelas nossas famílias, a genética, os valores que nos transmitem em cada casa, a educação, os nossos antepassados.

Porque vivemos em sociedade, e precisamos uns dos outros, a cultura, a sociedade, as regras padronizadas que partilhamos para conviver, e relacionarmo-nos uns com os outros, desempenha o seu papel na nossa formação enquanto pessoas e naquilo em que nos vamos tornando ao longo da vida.

Tornam-nos diferentes, as experiências agradáveis e as desagradáveis, as más e as boas, as pessoas que conhecemos, com as suas próprias características que nos agradam, aproximam ou afastam de alguns seres, aproximando-nos de outros.

Identificamo-nos, ou não, com elas, na sua forma particular de ser, ou porque partilhamos gostos comuns, ideias. Há pessoas que nos tocam mais e outras que não nos conquistam.

Sendo muitas vezes a aparência física um dos critérios que nos leva a selecionar com quem nos queremos relacionar ou não; existe a nossa personalidade.

Esse é outro fator que nos torna únicos, individuais, diferentes dos outros, mesmo dentro da própria casa, entre irmãos, diferentes dos pais, a nossa essência.

Já nascemos com personalidade? Com a que temos hoje? Não. Até chegarmos ao que somos agora, já passamos por muito, já conhecemos muitas pessoas diferentes, iludimo-nos e desiludimo-nos, várias vezes em cada fase do desenvolvimento.

Sabemos que acontecimentos que vivemos antes de nascer, já vão influenciar de certa forma algumas características da nossa pessoa: as hormonas da nossa mãe, do que ela vai sentindo, pensando, vivendo, passam para nós, e vão ficando gravadas na nossa memória.

Mesmo antes de nascermos, já vamos começando a conhecer o mundo através do tato, dos sons que ouvimos, e mesmo sem sabermos, essas informações vão contribuir para nos adaptarmos ao mundo lá for a com mais segurança.

O «eu», aquele ser verdadeiro que tantas vezes somos «obrigados» ou educados para «não mostrar», «disfarçar», «ocultar», dos outros (algumas formas de agir e pensamentos), vive connosco escondido pelo corpo externo.

Todos, sem exceção temos particularidades que não revelamos quando estamos com outras pessoas. Não temos o mesmo à-vontade com toda a gente, nunca mostramos aos outros, porque podemos «magoar» o outro, ou porque «o outro pode afastar-se de nós por causa disso».

Nunca somos totalmente autênticos, nem totalmente verdadeiros na relação com os outros. Vamos aprendendo a selecionar o que podemos mostrar de nós, a quem, de acordo com as respostas que recebemos dos outros; e estes segundos fazem o mesmo em relação a nós.

Com as experiências aprendemos a transformar-nos, por vezes naquilo que sabemos que os outros esperam de nós, e projetamos no outro que conhecemos, as nossas características, geralmente as que mais apreciamos em nós.

Mas o outro é tão único como nós, na sua maneira de ser, pensar e agir, e o mais comum é que seja totalmente diferente de nós. Por este motivo, é muito fácil criarmos ilusões, «construirmos» na nossa mente, pessoas que gostaríamos que elas fossem para nos agradar.

Elas não são como as imaginamos, quando nos mostram o seu verdadeiro «eu», coberto pelo corpo, por uma cara bonita, ou por palavras simpática.

Elas mostram o socialmente desejável, e o socialmente esperado, por isso, se o outro não age como esperávamos, pensávamos, queríamos ou imaginávamos: desiludimo-nos, ficamos destruídos, tristes.

Mas essas experiências, fazem parte do nosso desenvolvimento, todos passámos por elas, e ajudam-nos a crescer. Normalmente, depois de cada desilusão, ou quando alguém que apreciamos se afasta porque não gosta de nós (achamos nós, o que nem sempre corresponde à realidade), procuramos mudar aquilo que somos, só para agradar aos outros.

Mas alguém dos outros, pode apreciar essa nossa características, que esse não gostou. Os outros são importantes para nós, claro que sim, sem dúvida nenhuma.

Precisamos de alguém externo à família, para partilhar as nossas dúvidas, angústias, medos, ideias, emoções, coisas positivas e aspetos menos bons.

Precisamos do outro para nos sentirmos pertencentes a uma família, a um grupo de amigos com quem podemos contar, principalmente nos nossos piores momentos, em quem confiamos.

No entanto, os gostos são muito subjetivos: eu gosto de alguém com determinadas características, como pessoa, alguém que se relacione comigo de certa maneira, que me trate de acordo com a minha maneira de ser.

Queremos alguém que nos complemente, não que nos faça mudar aspetos em nós, traços da nossa personalidade que já nos caracterizam há tantos anos, e se cada um de nós aceitar esses traços, poderá ser mais fácil de lidar com a rejeição do outro.

Não somos verdadeiros com nós mesmos, quando mudámos de forma forçada, só para agradar aos outros, o que também acabamos por não ser verdadeiros com os outros ao fazer isso, pois às vezes soa a falso ao fim de pouco tempo, mesmo sem termos consciência disso, e o outro percebe.

Não temos que mudar só para outro gostar, porque o outro também vai ter traços que não nos agradam tanto, e não tem de os mudar.

O truque é aceitar também isso, e tentar encontrar a maneira mais saudável de relação para os dois, se sentimos que podemos fazer bem um ao outro, ou aprender alguma coisa.

Não temos de ser iguais, nem somos. No meio de tanta gente que conhecemos, com quem nos relacionamos, não podemos, nem agradamos a todos. Muito menos, todos os outros têm de gostar de nós, só porque alguns gostam, ou porque nós os apreciamos.

Precisamos dos outros para nos auto conhecermos, para sabermos o que queremos para nós, quem queremos ter do nosso lado, com que tipo de pessoas nos relacionamos melhor, quem nos preenche, e quem nos faz mal.

Mas quantas vezes, à primeira vista criamos uma ideia distorcida das pessoas e num contacto mais próximo, ou conversas, percebemos que elas afinal não são nem de perto, o que tínhamos pensado que eram. Com os outros em relação a nós também acontece isso, em relação a nós.

O meio molda-nos, principalmente no sentido de darmos a cada experiência, em conjunto com a nossa personalidade, e outras situações que vão contra os nossos valores ou se estão de acordo connosco.

Somos pessoas (unidades individuais), inseridas numa sociedade (diversidade) em todos os aspetos. Além de seres únicos e sociais, somos pessoas espirituais (mais ou menos), pois o espírito também faz parte do corpo, do ser a pessoa que somos.

Enquanto seres humanos sentimos maior ou menor necessidade de procurar sentido para quem somos, um propósito, ter objetivos de vida, uma missão para com os outros (a nível pessoal e profissional).

Precisamos (uns mais, outros menos) de acreditar em alguma «Entidade» superior a nós, que nos dê força nos piores momentos, de dor, sofrimento, tristeza, angústia, desilusão, desorientação.

Sabemos, ou achamos que não temos o direito de «incomodar» os outros com as nossas coisas, quando consideramos que não podemos contar com os outros para nos ajudar ou partilhar as coisas que nos incomodam, sem medo do julgamento dos outros, ou da crítica.

Porque precisamos, e queremos dar um sentido à nossa vida, à nossa pessoa, e à nossa existência. Estes aspetos são igualmente subjetivos e variam de pessoa para pessoa.

Nunca temos respostas suficientes, nem para tudo, não sabemos o que existe de facto, mas se nos ajuda, é porque existe, mesmo que não vejamos alguém igual a nós, mas sentimos que interiormente mudou alguma coisa.

Muitas vezes sentimo-nos frustrados quando não encontramos as respostas que procuramos, apesar disso, tanto estas respostas que não encontramos, como nós (enquanto pessoas), fazem parte do grande mistério chamado Mundo, e Pessoa.

Demoramos nove meses a ser construídos, a nossa base, a formar a primeira parte do nosso corpo, quando somos gerados, e enquanto estamos vivos, a nossa auto descoberta, descoberta dos outros, do mundo, é um trabalho diário, contínuo, que não tem fim.

Cada experiência, cada pessoa que se relaciona connosco, modifica-nos, faz-nos evoluir, crescer interiormente, torna-nos melhores ou piores pessoas, faz questionarmo-nos, interpretar os acontecimentos de forma diferente, que por sua vez mudam de acordo com a sua repetição na nossa vida.

Aprendemos muito, sozinhos e com os outros, e ensinamos muito, sem que tenhamos de ser como esperam ou querem que sejamos. Nem nós acertamos sempre nas expectativas que criamos em relação aos outros.

Temos direitos e deveres, tanto nós como os outros: o direito de ser diferentes, o direito a não se relacionarem connosco, nem de gostar de nós, só porque gostamos delas.

Porque cada um de nós também tem o direito de não gostar de todas as pessoas com quem nos cruzamos. Mas temos o direito de fazer escolhas (nós e os outros), e de sermos respeitados por elas, mesmo que sejam diferentes das nossas.

A nós, e aos outros, assiste-nos o dever de respeitar, ser respeitados, direito à dignidade, valorização no todo que somos, além do corpo.

Porque somos pessoas únicas, temos liberdade de pensar de forma diferente, uns dos outros, e temos o direito de escolher partilhar ou não esses pensamentos uns com os outros, ou só com alguns.

Somos corpo e «máscara», através da qual, entreabrimo-nos aos outros, ao mundo. Ao mesmo tempo, essa «máscara» (o rosto, e o que ocultamos dos outros, partes da nossa personalidade, características individuais, ou disfarçamos emoções), impedem que sejamos «invisíveis» aos outros.

Utilizamos constantemente estratégias que não deixam os outros ter acesso e ver o que cada um de nós é, na sua totalidade, e o outro faz o mesmo.

Porquê? Pelo medo da solidão, da rejeição dos outros, porque achamos que o outro não vai gostar de nós por este, ou aquele «defeito», e porque «representamos vários papéis» no convívio com os outros.

O que nos torna humanos é o amor, uma necessidade comum a todos nós, sermos amados, acolhidos, precisamos de afeto (dar e receber), de sermos queridos e desejados pelos outros, para que a nossa existência ganhe sentido.

Se aprendemos a ser amados, desde que nascemos, e se nos sentimos amados, queridos, desejados, acolhidos, vamos sentir-nos mais seguros em nós mesmos, vamos gostar de nós, amarmo-nos e aceitarmo-nos como somos.

Vamos aceitar melhor ou lidar melhor com os nossos defeitos e com os dos outros, sem entrar em conflito, porque não podemos mudar o outro, não temos esse direito, nem é possível.

Ao sentirmo-nos amados, vamos dar essas respostas aos outros, seremos mais educados, sensíveis, amorosos, afetivos, dedicados aos outros.

Seremos mais capazes de dar um bocadinho de nós aos outros. Porque nem nós, nem os outros podemos ser tratados como objetos, coisas que podemos explorar ou ser explorados, muito menos fazermos do outro o que queremos (incluindo magoá-lo ou feri-lo de todas as maneiras).

Não podemos exigir do outro o que quer que seja, para satisfazermos as nossas vontades individuais, nem podemos exercer o nosso poder sobre o outro.

A pessoa não tem preço, não podemos exigir que ele ou ela seja igual a nós, e só temos de respeitar, mesmo que nos doa. Ser pessoa é saber aceitar estar com nós mesmos, e com os outros, quando estes querem, ou por outro lado, dar espaço quando este não quer.

Ser pessoa é respeitar o outro, na sua individualidade, as suas ideias, crenças e emoções, a sua raça, a sua idade. É respeitar a sua dignidade por ser humano.

Ser pessoa é em parte «cuidar» do outro, sem no entanto impor as suas próprias ideias ao outro. Ser pessoa é respeitar a liberdade do outro, e ter consciência de que o outro é diferente de mim.

Ser pessoa é perceber o outro, conhecer a sua maneira de ser através do seu rosto. Ser pessoa é ter consciência de que a vida não é só feita de momentos bons, mas também maus, no entanto, esses maus momentos têm um papel importante para o nosso crescimento interior e desenvolvimento pessoal, são uma fonte de aprendizagem.

Ser pessoa é ter liberdade de escolher, de tomar decisões individuais, mas sem prejudicar o outro. É ter liberdade de escolher como queremos ser e que caminhos queremos seguir, mas sem nunca ignorar o outro.

Ser pessoa é sentir que somos necessários para a sociedade, não importa qual seja a nossa função na mesma. É preciso que cada um de nós se manifeste e se deixe manifestar através do rosto. Se nos apropriamos do rosto do outro, o outro esconde-se, não se manifesta.

Ao ser através do rosto que o outro se manifesta, no olhar pode-se despertar a necessidade de dar uma resposta à interpelação do outro. É ao darmo-nos ao outro, ao relacionarmo-nos com o outro que revelamos a nossa própria individualidade.

Com o outro aprendemos a interpretar o silêncio do olhar, pois, com o olhar o outro comunica-nos muitas das suas emoções, sentimentos e até necessidades mais profundas, como a necessidade de amor, de ser amado por alguém, de ser querido, a necessidade de afeto, e outros.

O outro incita-nos a dar-lhe aquilo de que já nos apropriamos, põe em questão a nossa posse das coisas. O outro obriga-nos a uma reflexão sobre o mundo e as coisas que o compõem.

O encontro com o outro, a partir da nossa separação que é o nosso egoísmo de ser-no-mundo, apela a um discurso de não violência que constitui a condição necessária para a subjetividade, e constituição do mundo.

Na epifania do rosto, descobrimo-nos como seres egoístas, descobrimos o mundo na sua significação e toda a humanidade se abre diante de nós.

A relação com o outro, ou discurso é o questionamento da nossa liberdade, o apelo vindo do outro para nos chamar à responsabilidade, enunciando um mundo objetivo e comum.

O eu pode recusar-se ao outro, mas não ao questionamento que lhe é posto pelo outro. Cada ser humano nasce com um chamado «tu – inato», que se traduz na capacidade inata de nos relacionarmos com os outros, contudo, ainda há quem diga que qualquer pessoa pode muito bem viver sozinha.

Ninguém consegue sobreviver e viver sozinho, só voltado para si mesmo, porque é através da nossa capacidade e necessidade de estabelecer relações com os outros, que encontramos os «Tus».

Uma pessoa sozinha não encontra o outro, principalmente porque porque nos momentos de solidão não há diálogo, e o diálogo, a comunicação com os outros é um ponto fulcral na criação de uma relação.

Temos capacidade de acolher o tu; de receber a relação, e é neste encontro que existe: a reciprocidade; a presença; a totalidade e a responsabilidade.

Se estamos inseridos numa sociedade, temos de viver com a comunidade, com muitas outras pessoas que se cruzam todos os dias no nosso caminho.

Precisamos de dialogar com elas, aprender sempre coisas novas através das experiências vividas pelos outros e dos seus conhecimentos.

No contato com os outros, compreendemos melhor o funcionamento do mundo que nos rodeia, e são os outros que nos ajudam a garantir as necessidades mais básicas, e a sobrevivência. Precisamos das funções que cada um desempenha, e eles de nós. Por exemplo, nos nossos piores momentos é bom sentir que alguém como nós está do nosso lado, há aquela presença que porventura também já terá passado por experiências semelhantes às nossas.

Todos precisamos de sentir que não estamos sozinhos, que alguém nos escuta e compreende; e não nos deixa cometer atos tresloucados, que seguram a nossa mão, nos momentos de desespero em que parece estar tudo perdido.

É importante sabermos que os nossos verdadeiros amigos (aquele grupinho de pessoas com as quais podemos contar, conversar, «pensar em voz alta», dividir as nossas tristezas e multiplicar as nossas alegrias.

Aquelas pessoas raras e queridas que nunca nos viram as costas; que nos apoiam, que nos ensinam e ajudam a seguir em frente, com as suas palavras, a sua escuta, o seu abraço, a sua mão, aqueles que gostam de nós como somos, com quem não precisamos de usar «máscaras» da nossa pessoa, aceitam-nos como somos.

Mas só descobrimos quem são esses seres de luz, que aparecem nos momentos de escuridão da alma, temos de estabelecer uma relação com eles, com bases sólidas, deixarmo-nos revelar para eles, e permitir que eles se revelem para nós.

Dialogar com eles, e saber, conhecer o que está por detrás da «máscara» que surge na nossa frente. O diálogo é «passaporte» para o conhecimento do outro, o outro também precisa de nós.

Há sempre uma reciprocidade, uma troca constante de conhecimentos, ideias, sentimentos, emoções, vivências, e experiências, o que é muito salutar e importante para o crescimento interior das pessoas.

Nas relações deve haver sempre: intimidade, respeito, compreensão, ajuda, capacidade de saber ouvir, sinceridade, diálogo, abertura, bondade, apoio.

Deve haver de parte a parte: a vontade, a paciência e a preocupação de se irem desvendando um ao outro, aos poucos, sem pressões.


Lara Rocha

2004

sexta-feira, 18 de março de 2022

As flores que davam luz e brilhavam

Foto de Lara Rocha 


    
    Era uma vez um jardim de uma casa, igual aos outros, bem tratado, regado, cuidado, cheio de flores, e silencioso, só recebia às vezes a visita dos passarinhos que procuravam comida na terra, das abelhas que cheiravam as flores, e faziam um zumbido arrepiante. 

       As flores ficavam muito quietinhas e cheias de medo, mas as abelhas sentiam que elas tinham medo, davam-lhe beijinhos nas pétalas, e elas ficavam mais descansadas. 

- Hummm...cheiram tão bem! - comenta uma abelha. 

        Além dos animaizinhos, o jardim apanhava a luz do sol e a luz da lua. Ficava com uma magia especial. Mas os moradores da casa ainda não tinham percebido a verdadeira beleza das flores. Numa noite, estavam à janela a ver as estrelas, e a ouvir o som da brisa do vento a abanar as folhas, as espigas de milho, as cigarras e os grilos a cantar escondidos. 

        O jardim tinha pequenas luzes de presença, mas nessa noite estavam mais brilhantes, parecia que davam luz. Foram ver mais de perto, e eram as luzes refletidas nas gotinhas de água da rega nas pétalas! Que lindas, pareciam pétalas de flores de vidro ou de cristal, ficaram ali a apreciar, e ainda por cima balançavam com o vento, fazendo mexer as gotinhas de um lado para o outro. 

- Será que elas ficam sempre assim...? 

        Experimentaram apagar as luzes, e...surpresa...os cristais desapareceram! Quer dizer, como a luz deixou de refletir nas gotinhas da rega, pareciam ter desaparecido.

- Áh! Que giro! Desapareceram. 

        Viram para as pétalas a luz de uma lanterna, e as gotinhas voltam a aparecer nas pétalas, a brilhar, a mexer com o vento. Apagam a lanterna e elas desaparecem outra vez. Ligam as luzes de presença, voltam a aparecer.

- Uau! 

- Que giro! Nunca tinha reparado. 

        Umas noites depois, os donos da casa apagaram as luzes, porque estava uma lua gigante, clara, redonda, parecia dia. Foram ao jardim apreciar. As flores pareciam todas iguais, brancas azuladas como a lua, e lá estavam as gotinhas discretas da rega, só se viam em algumas. 

        Mas de repente surgem nuvens à volta da lua, e as flores ganharam essa cor...escuras como a noite sem estrelas. Os donos da casa não viam as gotinhas. 

- Óh não, está a formar-se uma tempestade... vamos para casa. - ordena o pai 

- E as flores? - pergunta a filha mais nova 

- Nós escapamos! - dizem as flores umas para as outras 

- Elas estão habituadas... deixa-as estar. Vamos para dentro! - acrescenta a mãe 

        Os humanos entram, e começam a cair as primeiras pingas de chuva, depois trovoada. Os trovões parece que atravessam as paredes. As flores saem da terra e abrigam-se debaixo de um telhado, onde tem um arbusto gigantesco, frondoso, é o abrigo secreto delas sempre que acontecem essas tempestades. Para as proteger, o arbusto fecha-se, juntando os seus ramos e formando quase uma casa, onde as flores não apanham chuva, nem vento. 

- Ai, que lá vão as flores... - gritam em casa 

        As flores estão encostadas umas às outras, a conversar alegremente e a brincar, a rir, tomam chá para aquecer, protegidas, confortáveis. Estremecem várias vezes, por causa dos estrondos da trovoada. Depois da tempestade passar, o arbusto abre, e as flores saem com os primeiros raios de sol, entre nuvens. Elas voltam para os seus lugares, agradecem ao arbusto a proteção, e parece que estiveram sempre no mesmo sítio, quando os donos da casa, as vão ver. 

- Áh! Estão no mesmo sítio. Escaparam... 

- Nem sei como. 

- Se calhar a chuva virou para outros sítios. Mas ainda bem que sobreviveram. 

        Afinal, as flores não davam luz, refletiam a luz que recebiam nas gotinhas de água da rega, com a luz de presença, com a lanterna, com a lua, e com o sol. Qual será a luz mais bonita? Todas. Porque cada uma é diferente da outra, e as próprias flores têm a sua beleza natural, de espécies diferentes. Mesmo de noite, quando pareciam que davam luz e brilhavam as gotas de água, eram lindíssimas, enchiam os olhos de quem as apreciava. 

E para vocês, como serão as flores mais bonitas? Com a luz da lua, com o sol, com as luzinhas de presença refletidas nas gotas? 

Nos jardins que conhecem existem flores que dão luzes? 

                                                                Fim 

                                                            Lara Rocha 

                                                            18/3/2022 

quarta-feira, 2 de março de 2022

Os ovos disfarçados

 





















       Era uma vez numa grande quinta, um galinheiro cheio de ovos, que festejavam o Carnaval, mascaravam-se, como gostavam e faziam uma grande festa. Mas este ano, os donos da Quinta não estavam para festejos. 
        Queriam era vender o máximo de ovos para compensar o que não conseguiram antes, num ano em que quase não venderam, por causa de um vírus que assustou toda a população. Desta vez os ovos é que também não queriam ser vendidos, já estavam habituados a ter liberdade. 
        Vestiram-se mascarados e fugiram do galinheiro, sem olhar para trás. Correram o mais que puderam, silenciosamente para não serem apanhados. Pintaram as cascas de branco, amarelo, com muitos desenhos diferentes, cores, puseram chapéus e óculos coloridos, fitas enroladas nas cascas, calças parecidas com as dos palhaços, outros desenharam mais olhos, para poder esconder-se se fosse preciso. 
        Estavam sempre a olhar uns para os outros, enquanto corriam para verificar se nenhum tinha ficado para trás, e já mais longe daquele galinheiro, pararam. Olharam para um lado, e para o outro...ufa! Estavam em segurança. 
        E...surpresa! Foram parar a um lago de cisnes onde estava a acontecer outras festa de carnaval, com os cisnes também mascarados, lindos, cada qual o mais espetacular, dançavam uns com os outros num bailado mágico, as penas de alguns pareciam de pavões, e deslizavam sobre a água ao som da música. 
        Que coisa mais linda! Haviam muitos mais animais e pessoas a assistir,  que pareciam hipnotizados, de tão bonito o que estavam a ver, aplaudiam várias vezes, sorriam, fotografavam. Outros patos desfilavam com os seus trajes carnavalescos, variados. 
        Ainda com a respiração e o coração acelerado, os ovos olharam uns para os outros, e deram umas boas gargalhadas, ao ver os fatos de cada um, e aliviados por estarem juntos, livres de perigo. 
- Áh, que lindo! - sorri um ovo 
- Uau! Como dançam bem. 
- E aqueles...tão engraçados. 
        O cisne que vigiava as entradas, convidou os ovos a entrar: 
- Olá! Vem participar na festa? 
- Sim. Podemos? - perguntou um ovo 
- Com certeza, entrem à vontade, e divirtam-se. 
- Obrigada. - dizem todos 
       Os patinhos acharam as máscaras e os trajes dos ovos tão engraçados que deram umas belas gargalhadas, e convidaram-nos para brincar com eles. Os ovos riram com eles, brincaram juntos, assistiram a vários desfiles, aplaudiram, e os próprios ovos desfilaram debaixo de muitos risos e palmas, Não podiam estar mais felizes! 
       Os donos estavam completamente histéricos, aos gritos por os ovos terem desaparecido, eles que já se imaginavam cheios de dinheiro. 
- Deve ser uma partida de Carnaval de algum vizinho...daquele invejoso! 
- Eu achava que as partidas eram só no dia das Bruxas, mas afinal agora qualquer dia serve! 
- Ai, se eu os apanho, não sei o que lhes faço! 
- Para quê, roubarem-nos os ovos? 
- Para vender, para que mais seria...? 
- Mas nós já íamos vender. 
- Pois já, mas se calhar quem os roubou tinha ia levá-los para algum restaurante ou assim. 
- E tinham que ser os nossos, com tantos aqui à volta. 
- Se calhar também foram aos outros, ou os nossos porque sabem que são de muito boa qualidade. 
- E os cães nem deram sinal. Quem esteve aqui deve-lhes ter dado alguma coisa para se calarem. 
        As vacas, os bois, as vitelas, os cães e os gatos riram porque sabiam de tudo mas não disseram aos donos. 
- Qual é a piada? - pergunta o dono irritado
- Sabem de alguma coisa? - perguntou a dona 
- Não! - respondem todos a rir sem parar 
- Acho que esteve aqui alguém, levou os ovos e pôs aqui um produto para os animais se estarem a rir desta maneira... - diz o dono 
- Mas se eles estão a dizer que não viram nada...nem sabem de nada... 
- Podem estar ainda sob o efeito do produto. 
        Os animais riam sem parar, e abanavam a cabeça a dizer que sim, para disfarçar, e dizer que o dono tinha razão. 
- Quem foi? 
- Não sei! - respondem todos ainda a rir 
- Eles estão avariados... deve ter sido mesmo isso. 
- E agora, como vamos explicar que os ovos desapareceram? 
- Pois não sei... dizemos a verdade, 
- Lá foi o nosso sustento. 
- Porquê,... 
        E os dois começam a chorar, mas os animais riem sem parar. 
- Amanhã, vamos à procura deles. 
       Os donos muito tristes vão deitar-se, mas os ovos felizmente estão longe. 
- Oxalá não sejam encontrados! - diz uma vitela, baixinho 
- Também acho. - concorda uma vaca 
- Se os vir por aí aviso-os para se esconderem, porque é para os humanos aprenderem que os ovos também têm sentimentos, e não queriam ser vendidos. 
- Amigo, achas que os humanos sabem alguma coisa sobre sentimentos de ovos? Claro que não! Mal sabem dos deles... - comenta um gato 
- Concordo. - diz outro cão 
        Na manhã seguinte, os cães saem muito cedo, e encontram os ovos, a sair da festa de Carnaval que durou toda a noite, com música, desfiles, danças, muita cor, alegria, gargalhadas, palmas. Os ovos estão com um sorriso de orelha a orelha, felizes. 
        Os cães contam tudo o que aconteceu, e aconselham-nos a esconder-se. 
- Obrigada, amigos.- dizem os ovos 
- Nós vamos dormir a seguir, então temos de procurar sítios seguros, 
- Claro que sim! 
        Os cães ajudam os ovos a encontrar esconderijos seguros, e ficou prometido encontrarem-se mais vezes, porque para já iam manter-se por ali. Os ovos dormem sossegados, os cães voltam para casa, como se nada tivesse acontecido, e os donos saem à procura dos ovos. Perguntaram aos vizinhos, nenhum sabia de nada, nem tinham visto nada. Não encontram um único ovo, nem sombra deles, estão bem escondidos, em sítios onde os senhores nunca imaginaram que poderiam estar, mesmo com a ajuda dos cães. 
- Lá vamos nós ter de gastar mais dinheiro a comprar galinhas e galos, mas só daqui a bastante tempo é que voltamos a ter ovos. - lamenta a mulher 
- Que nevos! Quem será que nos fez isto? - resmunga o homem 
- Não sei. 
        Os donos da quinta compram mais animais, os ovos continuam em liberdade, felizes, sorridentes, a brincar com os cisnes, os patos, e outros animais. Também fizeram amizade com flores, por isso, às vezes escondem-se entre elas, quando ouvem vozes de humanos, e recolhem sempre que querem aos abrigos que os seus amigos cães lhes descobriram.
        Os cães foram muitas vezes visitar os ovos, e divertir-se com eles, entretanto, os donos da quinta tiveram de comprar mais animais, e conseguiram ovos, que não sabiam da tradição de festejar o Carnaval por isso não tiveram a mesma sorte. 

                                                                           FIM 
                                                                       Lara Rocha 
                                                                       3/3/2022

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

a vela e a lua

fotos de Lara Rocha 


Era uma vez uma vela que estava à janela da sua casa, apagada, à noite, e lembrou-se de olhar para o céu cheio de estrelas cintilantes. Era um momento que ela repetia muitas noites, para descansar, e relaxar, já conhecia muitos barulhos noturnos, entre cigarras, grilos, corujas a cantar, água a correr, vento, folhas a abanar, chuva, trovoada, neve, e às vezes descobria novos barulhos.                                             Quando estava mau tempo, ela ficava a apreciar a tempestade da janela do seu quarto, às vezes juntava-se com outras velas que tinham medo, outras vezes faziam reuniões e festas, pediam para as Guerras acabarem, e haver paz. 

Mas nessa noite, ouviu uma voz pequenina: 

- Boa noite! 

- Quem está aí? 

            Que grande susto que ela apanhou, recuou, estremeceu, voltou à janela com uma chama enorme no seu pavio, era o seu coração acelerado. Procurou da janela, olhou para todo o lado e ouviu risinhos. 

- Quem está í? - pergunta a vela muito assustada 

- Sou eu... estou aqui em cima! - diz a lua 

- Onde? (olha para cima) Não vejo nada, nem ninguém. 

- Aqui... sou a Lua.

             A vela já tinha visto a Lua muitas vezes, mas não tão bonita como estava nessa noite! 

- Áh! Olá! Desculpa, pensei que era um visitante aqui nas redondezas da minha casa. - explica a vela 

- Não faz mal (ri a lua). Não queria assustar-te. Mas vi-te aí tão quieta, tão silenciosa, e escura! Estás triste? 

- Não. Estava a descansar. Eu gosto destes momentos de silêncio e sossego, gosto muito de ver as estrelas, e a ti,  Lua. Pensei que não falavas! 

- Óh, desculpa interromper o teu descanso, não sabia. 

- Não faz mal. 

- Hoje estás especialmente bonita. Desculpa a minha indiscrição, mas vais a algum sítio especial, alguma festa? - pergunta a vela 

- Não. (ri a lua) É que sou a Lua Cheia, a maior de todas, a mais luminosa, é a minha vez de iluminar a noite. 

- Sei. Mas que linda. 

- Eu ia propor-te um passeio e um jogo, queres? 

- Um passeio, e um jogo...? Hummm... está bem. Porque não? E onde vamos? Tu vens cá abaixo? 

- Olha para o chão à tua volta. Já estou aí. - diz a lua  

- Áhhhh... Estou a ver uma claridade diferente. 

- Pois, sou eu. 

- E estás aí em cima? 

- Sim. 

- Então como vamos jogar, e passear? 

- Já vais ver. Eu acompanho-te, Ora, sai de casa, então. 

            A vela sai, intrigada, com o seu pavio aceso, de forma mais pequena, e olha para a lua. 

- E agora? 

- Agora, começa a andar por onde quiseres. Olha à tua volta, e vê as diferenças, vê o que muda...vês... eu também estou a andar contigo! 

- Áh, que giro! Como é que estás aí em cima, e aqui em baixo ao meu lado? 

- Magia...?! (ri) Não. É mesmo isso que acontece. 

            A vela enfraquece a sua chama para ver melhor a diferença da luz da luz refletida no campo. Corre, e vê que a luz da lua a acompanha, mexe-se e a lua parece que se mexe para a acompanhar. 

- Estou encantada a ver isto, mas...qual é o jogo, afinal? 

- É este. Para onde quer que vás, eu vou também, tu mexes-te, e eu mexo-me ao teu lado, à tua frente.

- A minha sombra é muito mais pequenina que a tua. - repara a vela 

- Claro que é! Mas é bonita. A minha luz e a sombra que veem aí em baixo é muito maior, porque estou muito cá em cima, para iluminar a noite, nesta via láctea que nunca mais acaba, tenho de ser muito maior. As estrelas que tu vês daí, parecem pequenas mas na verdade, também são enormes. 

- A sério? 

- Sim. 

- Realmente parecem mesmo pequeninas. 

- Pois, e eu gigante, como o sol.

- Sim. Mas aí em baixo só me veem quando estou neste formato. 

- Óhhh....a minha luz desaparece à beira da tua! 

- E depois? - pergunta a lua - os candeeiros também dão a luz que precisam de dar, e não deixam de ser candeeiros, a luz deles é importante, e não é como a minha. Querias ter uma luz maior? 

- Queria! 

- Para quê? 

- Para levar paz ao mundo! 

- Isso é bonito! Mas...E achas que uma vela só, como tu, vai chegar para levar paz ao mundo? 

- Pois. Sou demasiado pequena! A minha luz é demasiado fraca... 

- A Guerra é muito maior do que milhares de velas, ou milhares de luas. Mas não é a intensidade ou o tamanho da luz das velas, que vão mudar o mundo. A vossa intenção é ótima, mas até entre vocês, velas, existem tamanhos que dão luzes maiores outras mais pequenas, não é? 

- Sim, é verdade. 

- Cada vela é importante, mas uma só não chega para o tamanho da maldade humana, comos os que fazem a Guerra. 

- Pois, acho que tens razão! Tu vês a Guerra aí de cima? 

- Sim, infelizmente vemos! 

- Eu e muitas velas juntamo-nos muitas vezes, encostamo-nos umas às outras, umas vezes acendemo-nos umas às outras, pensamos em Paz, pensamos em saúde para todos os humanos e animais, desejamos em conjunto que a Guerra acabe. As nossas luzes ficam muito mais fortes, mais puras nessas noites e nesses lugares por onde passamos. 

- Áh, que bonito! Acho que já vos vi a fazer isso! 

- É, mas não funciona. 

- Funciona, claro que funciona, para vocês, que sentem paz, e fazem quem olha para a vossa luz, sentir paz! Isso é muito bom! Vocês servem para muita coisa aí em baixo. 

- Sim, é verdade...Como é que sabes? 

- Nós sentimos cá em cima! 

- A sério? 

- Sim! 

- A tua luz, também é relaxante. 

- Então porque é que a Guerra não acaba, com as nossas luzes? 

- Pois...gostava de saber responder a essa pergunta, mas não sei. Nem sei porque fazem a Guerra, se a paz é muito melhor! Eu gosto das vossas luzes! 

- Obrigada! - sorri a vela

            A vela e a lua continuam a conversar e a brincar às sombras, a comparar o tamanho da luz de uma e o tamanho da luz da outra, em diferentes sítios, correm, brincam, saltam, riem, dançam, a Lua vê o seu reflexo nos ribeiros, e a vela também. 

- Olha que grande que pareço aqui. - diz a vela 

- Sim, é verdade, e olha eu....áh, áh, áh, pareço uma bola ainda maior, cheia de ondas, ou às riscas. 

- É da água em movimento. E olha a minha chama, que esquisita! 

          As duas dão uma gargalhada, mexem-se, colocam-se em diferentes posições, a vela conta coisas sobre o lugar onde mora, mostra à Lua pormenores que ela nunca tinha visto. 

- Que giro que é o lugar onde vives. Olha, eu ficava aqui contigo o resto da noite, mas vejo que estás cansada, vou deixar-te descansar. 

- Sim, é verdade, estou com sono, e cansada, mas estava tão bom, eu estava a gostar tanto de falar contigo. 

- Não te preocupes, voltarei noutro dia! 

- Adorei as nossas brincadeiras. 

- Eu também! Uma boa noite, amiga. 

- Obrigada, Boa Noite para ti também e para vocês todos aí. Adoro ver-vos. 

- Continuem a juntar-se, vocês, velas, porque não podem acabar com a Guerra, mas enquanto estão juntas, sente-se paz à vossa volta, isso é o mais importante, e transmitem coisas boas para a Terra, para vocês! Não desistam. 

- Combinado! Obrigada por este bocadinho. - diz a vela 

- De nada! Obrigada eu. Até breve! 

         A vela recolhe para a sua casa, e a Lua continua lá em cima, linda, enorme, luminosa, sorridente. Ganhou uma nova amiga, e fez a vela sentir-se apreciada, querida, mesmo pequenina, é importante. Algum tempo depois, a vela junta as amigas e apresenta-as à Lua, repetem as brincadeiras, e divertem-se. A lua tornou-se a sua melhor amiga. 

         Cada vela, cada vida humana ou animal importa, mesmo que seja simples, cada um tem a sua própria luz, maior ou menor, umas vezes mais forte, outras vezes mais fraca, mas precisam da luz uma das outras. 

                                                                        FIM 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                      23/2/2022 

            

sábado, 12 de fevereiro de 2022

a professora humana (monólogo para professores, sobre sinais de alarme e suicídio nos alunos)

     



       Uma professora da disciplina de Português, enquanto passeava pela sala e falava sobre a matéria, espreitou ao de leve os cadernos, mas um deles, chamou-lhe mais a atenção. 

    Era de uma aluna que costumava ser muito ativa, alegre, brincalhona, faladora, participativa, e de há uns dias para cá, a professora percebeu que havia algum problema com essa menina.

    O seu caderno estava riscado, a cor preta, a jovem que usava muita cor tanto no caderno como na roupa, agora vestia roupa preta. Apresentava um ar pálido, triste, descuidado, com olheiras, sonolenta, chegou a deitar a cabeça em cima da mesa. Parecia alheada de tudo, um estar lá, só por estar.

    Deixou de fazer os trabalhos de casa, e a escrever frases estranhas, desenhos de cariz mórbidos. A professora sentiu que a aluna não estava bem, e escreveu-lhe um bilhetinho, entregando-o discretamente, pousando a mão na secretária da aluna e deixando o papel dizendo que se ela precisasse de falar, no fim da aula estaria disponível.

    Nesse dia, a aluna viu o bilhetinho mas foi embora. A professora encontrou-a no recreio isolada de todos, num choro compulsivo que quase lhe tirava o ar, deitada no chão, enrolada sobre si mesma.

    Todos olhavam para ela, mas não faziam nada. 

- Porque é que aquela colega está isolada, afastada do grupo todo? - pergunta a professora 

- Porque ela não vale nada. - diz uma aluna arrogante 

- Ninguém gosta dela, assim. - diz outra 

- Porquê? - pergunta a professora 

- É uma pobre alma penada! - diz outro aluno 

(Todos riem) 

- E porque é que a põem de lado? - pergunta a professora 

- Porque ela parece um pau de virar tripas, fala por todos os poros, tem a mania que é boa. - diz outro colega 

- Deves ter muita moral para julgar. - diz a professora 

- Para mim, ela é que se põe de lado, ela é que se afasta, se calhar ela é que não gosta de nós, também não vamos obrigá-la a ficar connosco, se não nos curte. Nós também não a curtimos. - explica um aluno considerado o líder que leva todos atrás. 

- Stôra, olhe para aquilo! 

- Um bando de patetas aqui a olhar para a colega que está a sofrer, e ninguém faz nada... vocês, realmente. Por acaso já perguntaram o que é que ela tem e se precisam de alguma coisa? Ficava-vos bem! - pergunta a professora 

- Stôra já viu os cadernos dela? - diz um companheiro de carteira 

- O que é que tem? - disfarça a professora 

- Agora faz cada desenho mais nojento. Macabros. 

- E já lhe perguntaste o que significam? Ela pode estar triste, deprimida, doente, ou ter perdido alguém. Pode ter problemas em casa... - diz a professora 

- Ninguém se quer aproximar daquele trambolho. - comenta outro colega 

- Quem é que quer aquilo? 

- Mas que falta de respeito...deves ter a mania que és um príncipe, não? Coitadinho... - diz a professora. 

(Todos riem à gargalhada) 

- Stôra, ela anda passada! - diz um aluno 

- O que é que te faz dizer isso? - pergunta a professora 

- O que ela era, e o que está agora. - diz uma aluna 

- A stôra já viu como ela anda...? Toda de preto, mete medo! - diz outra aluna 

- Cada um anda como gosto. Os vossos trajes também não me agradam, mas não sou vossa mãe, não me meto nisso. Se fossem meus filhos eu não permitia. 

- Só chora. Parece uma fonte. - comenta outro a rir 

- E vocês não podem ouvi-la sequer, mas que grandes amigos que sois. Se fosse um de vós, queria ver se gostavam. Olhem como ela está. 

- Anda metida em coisas que não deve...depois ressaca. 

- Isso são maneiras de falar? Não sabem nada sobre a vida da colega, para que estão a julgar? Podem estar totalmente errados. 

- E vocês não andam metidos em nada...claro que não. São uns santinhos e santinhas. Até fazem às escondidas como eu já vi. 

(Todos riem) 

- E a stôra não experimentou nada? 

- Era só o que faltava! A vossa adolescência não tem nada a ver com a minha. Se víssemos alguma colega naquele estado, íamos logo ver o que se passava, não ficávamos a olhar para ele, como vocês. - conta a professora 

- É que ela gosta dele, e ele não gosta dela. 

- Eu perguntei-te alguma coisa? Mete-te na tua vida. Vocês não sabem nada! 

- Ela já anda estranha há algum tempo. - diz uma aluna 

- E vocês nem se atrevem a ir ter com ela, dizer que estão preocupados, ou perguntar se está tudo bem. Se ela fosse um de vós, queria ver se gostavam de ser postos de lado, e deixados ao abandono quando mais precisassem. 

- Ela deve andar a fumar umas coisas, ou metida na droga, porque afasta-se! - comenta uma 

- Como é que sabes o que se passa com ela? Se é isso ou se é outra coisa qualquer se não falas com ela. Vocês são uma tristeza. 

    Há um rapaz no grupo que também mudou o comportamento, está triste, a olhar para a rapariga, e a professora percebe que se passa alguma coisa com ele também. 

- Tu...fica-te bem mostrares sentimentos, mas porque não vais lá ter com ela, também! - convida a professora

- Ela gosta dele, mas ele não gosta dela, não deve ser por isso que ela está assim. - diz outro colega 

- Não têm nada se meter na vida amorosa dos colegas e amigos, nem de ninguém. Não são obrigados a corresponder, mas há uma coisa que se chama educação! Sensibilidade, humanidade. Vocês não têm nada disso, que miseráveis. Independentemente de gostarem ou não, a vossa colega precisa de vocês, e vocês podem estar a fazer dela um juízo totalmente errado. É muito feio estar a falar no ar. Alguma vez falaram com ela, ou convidaram-na para se juntar? Isso é bom para vocês, especialmente se forem diferentes, e são todos diferentes. Eu tenho a certeza que se fosse um de vós, ela iria ter convosco. - ralha a professora 

- Não ia nada, stôra! Aquilo é um cubo de gelo! - diz uma aluna invejosa 

- Tanta arrogância numa criatura tão pequena, é lamentável. Querem que eu marque uma reunião com os vossos pais, para eles verem quem têm? Até os ensino a educar-vos para serem seres humanos. - comenta a professora

- Não, stôra...por favor... - dizem todos 

- Pois é, descubro-vos os podres...aprendam a ser gente ou eu faço mesmo isso. Não quero ver mais aquela colega sozinha, nem naquele estado. Ouviram? - diz a professora 

- Sim, stôra. - dizem todos 

- É. Sim stôra, mas tenho a certeza que não vão fazer nada. Só por causa disto, um dia destes, vão ter um teste surpresa, por isso, em vez de estarem a fazer juízos de valor sem sentido, e mostrarem tanta insensibilidade, vão mas é estudar. 

    Começam todos a resmungar, a dizer que não. 

- Calou! Se não é já na próxima aula, se vejo que a colega está outra vez isolada. E se calhar vai ser mesmo. Vão chumbar todo, tenho a certeza. - ri a professora 

    Todos vão para a aula seguinte, e a professora vai ter com a aluna, fez-lhe uma carícia, deu-lhe a mão:

- Queres conversar, não queres? Eu sei que queres, e que precisas, podes contar comigo! vamos até ali à sala. 

    A aluna abraça-se à professora, as duas vão para uma sala. A professora disponibilizou-se novamente:

- Agora que estamos aqui, podes estar à vontade! Tenho-me apercebido que estás diferente, mais calada, mais triste, mais obscura, vestes cores muito escuras, tens escrito frases e feito desenhos muito...pesados! Nas aulas estás ausente, e noto a tua expressão triste, com olheiras. Eras tão aplicada, e de há uns tempos para cá, baixaste muito as notas, não participas, não fazes os trabalhos de casa, quase dormes em cima da mesa, estás com ar de doente. O que se passa? Podes confiar em mim, não conto a ninguém. 

- A professora reparou nessa mudança? 

- Reparei! Em muitas mudanças, e que me preocupam! Eu preocupo-me contigo! E com o facto de os teus colegas não irem ter contigo, e saber o que se passa. Mas disso já tratei. 

- É. A professora tem razão. Por favor, não conte a ninguém! Mas, eu não ando bem. Quero desaparecer, não presto, sou um monstro, odeio-me! Não quero mais viver, estou cansada, desiludida, não estou cá a fazer nada, ninguém repara em mim, estou sozinha. Nem o rapaz que eu gosto, quer saber de mim. Apaixonei-me, odeio-me por isso, porque ele não gosta de mim, disse-me na cara, nem soube por mim, foi outra venenosa que lhe foi dizer, também deve gostar dele. 

- Tu achas que alguém manda no coração, e que somos nós que decidimos ou escolhemos por quem nos apaixonamos? Claro que não! Essas paixões acontecem naturalmente, fazem parte do ser humano, de nós todos. Não tens de te odiar por isso, ele não está interessado em ti, hoje, mas nunca se sabe quando não virá a estar daqui a uns tempos. Não deves é esconder-te, deves mostrar que ele é que está a perder, em não querer conhecer-te. 

- Como, professora? Se ele foge de mim, não gosta de mim. 

- Pode haver outro interessado, não sabes. E também qual é a pressa, rapariga? Ainda és tão nova, pode nem ser paixão o que sentes por ele, vais conhecer muitos mais rapazes, que podem corresponder-te. Óh filha, compreendo bem o que sentes, mas este não vai ser com certeza o teu amor para sempre. Vais crescer muito, claro que dói, mas olha que ele não merece que fiques assim. 

- A professora viu a indiferença dele? E de toda a gente? 

- Vi, sim. Achas que se ele quisesse alguma coisa contigo, te ignorava como os outros? Não mendigues amor. Não é esse, não tem que ser aquele que gostamos, esse que gostamos pode não ter nada para nos dar, é apenas uma ilusão da nossa cabeça, a nossa vontade de sermos correspondidas, é normal, mas não tem de ser assim. 

- Mas dói tanto. Eu não aguento essa dor, prefiro desaparecer, também não lhe vai fazer diferença. 

- Para ele pode não fazer diferença, que tu desapareças, mas para mim, para os teus pais, para outros amigos que tenhas, e família, vai fazer muita diferença, e até para outros rapazes que venham a aparecer. 

- Esta dor nunca vai desaparecer! 

- Claro que vai desaparecer. E terás muitas mais, muito piores, por outros motivos. 

  A professora partilha algumas experiências da sua adolescência e de outras adolescentes, da sua geração, e de agora. Dá-lhe conselhos, e consegue arrancar alguns sorrisos. As duas têm uma longa conversa, e a aluna sai com outro ar, disse que aprendeu muito com  a professora, que aquela conversa mudou o resto do dia, e os seguintes. 

     No final da aula, o rapaz de quem ela gostava, vai ter com ela.

- Vieste ver se já me matei por tua causa? Perdeste tempo...vai lá para os teus amiguinhos e para aquela cobra venenosa. Não precisas de te preocupar comigo. 

- Ei, calma. Podemos conversar? 

- É contigo...não és obrigado a falar com quem não gostas! Problema teu. 

- Desculpa. 

- O quê? 

- Eu não sabia que andavas assim por minha causa. Também não quero que ver-te nesse estado por minha causa. Quero conhecer-te, posso? Podemos ser amigos? 

- Mas que grandessíssima lata...! Magoaste-me, e ainda achas que vou aceitar tua amiga. Partiste-me o coração. 

- Vá lá...eu não sabia. 

- Não sabias...coitadinho, claro que não! 

- Fiquei preocupado contigo. Mas realmente não mereço que fiques nesse estado por minha causa. Podemos conhecer-nos ou não? Vá lá....por favor...eu quero saber como és. Nem que fiquemos só amigos, e depois vemos no que dá! Mas eu quero conhecer-te. Posso? Não quero saber o que os outros dizem de ti...quero ter a minha opinião sobre ti - diz o rapaz, meigo 

- A sério? Para vocês é tudo tão fácil...magoam uma rapariga, não correspondem e ainda se atrevem a dizer que querem ser amigos delas. Não mandamos no coração, nem nas paixões. Desculpa eu, eu é que não tinha nada que me interessar por ti, devia ter percebido logo que não querias nada comigo. 

- Vá lá...eu sei que estás magoada, e percebo-te, mas posso tentar? 

- É contigo. 

- Posso? 

- Quem sou eu para responder por ti, tu é que sabes... 

- Eu quero conhecer-te, quero ser teu amigo, quero saber como és. 

- A sério? 

- Sim, vá lá, dá-me essa oportunidade. Os outros têm uma ideia sobre ti, que eu acho que não corresponde, por isso quero conhecer-te, se quiseres, claro. 

- E se me provocas mais dor?

- Não provoco nada...ou então, dás-me uma chapada. 

- Combinado! Negócio fechado. 

- Vamos dar uma volta por aí, e conversar? 

- E os outros se nos veem? 

- Quero lá saber dos outros... vamos? 

- Vamos. 

        O rapaz tinha razão. Quando começou a falar com  ela, percebeu que nada do que os outros diziam dela, correspondia à realidade. Ele gostou muito dele, tornaram-se grandes amigos, ela voltou a ser como era, e com o tempo, foram-se apaixonando, estudavam juntos. 

     Ela voltou a usar cores, a dedicar-se às aulas, e os dois acabaram por namorar, surpreendendo tudo e todos, até contaram a novidade à professora humana, e pediram para ser a madrinha de namoro deles. Ela aceitou, qualquer problema que tinha, iam falar com ela. 

        A professora sentiu-se realizada, e muito feliz, principalmente porque evitou a destruição de uma vida ainda jovem, ensinou- lhe muita coisa, e tudo acabou bem. A ajuda da professora humana foi essencial, e qualquer professor deve estar atento a alterações de comportamento ou emocionais dos alunos, conhecê-los bem, ser próxima deles, e atuar na hora certa. 

                                                     FIM 

                                                    Lara Rocha 

                                                     12/Fevereiro/ 2022