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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Entre as trevas e a Luz

          foto de Lara Rocha 


          Era uma jovem bonita, alegre, sonhadora, que vivia num mundo de fantasia. Ela não gostava do mundo onde vivia, por isso refugiava-se na sua imaginação. Um mundo muito diferente do nosso e do dela, construído por ela, onde só havia o que ela gostava. 

        Ela era a rainha, todos lhe faziam as vontades, ninguém a chateava, ninguém a incomodava, toda a gente a elogiava e valorizava, e respeitava. Era tudo ao contrário do mundo real onde ela vivia. 

        As pessoas do seu mundo real achavam-na estranha, fugiam dela, pois sempre que se aproximavam dela, preocupados, ela transformava-se numa rapariga completamente diferente: fria, arrogante, cruel, indiferente. Era como se a rapariga se dividisse em duas. 

Um dia teve uma depressão profunda, grave, e ficou quase na pele e no osso. Numa noite, ouviu uma voz, de uma sombra negra, à sua beira, que a acusava:

- Olá...estás assim?

- Quem és tu? - pergunta a rapariga

- Tu sabes muito bem quem eu sou.

- Não sei, não. Nem te vejo!

- Sou eu.

- Quem?

- Aquele a quem não respondeste mais, de há uns tempos para cá. Alguém que gostava muito de ti.

- Sei lá quem é, ninguém gosta de mim.

- Como dói receber o teu silêncio.

- Qual silêncio?

- Como dói receber a tua indiferença!

- Qual indiferença?

- Aquele silêncio e aquela indiferença que me dás de há uns tempos para cá.

- Não sei do que estás a falar.

- Convém-te não saberes, mas eu sei que sabes! Como dói não ter respostas para o teu silêncio.

- Cala-te.

- Cala-te tu. Silêncio! Quero ouvir as palavras do teu silêncio.

- Quem és tu para me mandar calar? Já agora, não tens nada que ouvir o meu silêncio, o silêncio não fala.

- Fala sim! E de que maneira. Como fala.

- Tu deves estar louca…ou louco. És homem ou mulher?

- Sou…

- Quem?

- Ora, tu sabes muito bem quem.

- Não sei

- Quero ver cada palavras do teu silêncio.

- Como é que vais ver isso? Está escuro, e as palavras não se veem.

- As tuas com certeza veem-se.

- Quais?

- Aquelas que não disseste.

- Não sei de nada.

- A que sabe o teu silêncio?

- Sei lá, nunca provei tal coisa.

- Mas já o sentiste…!

- Não.

- Quero saborear e provocar, provar, sentir alguma coisa do teu silêncio no meu corpo.

- Estás-te a passar? Acho que estás a delirar.

- Eu? A delirar…? (gargalhadas)

- Não te podes rir mais baixo?

- Porquê?

- Pode aparecer aí alguém!

- E…?

- Vão pensar que estou a falar sozinha.

- Quero agarrar no teu silêncio!

- Mau… já vais aí?

- Aí, onde?

- Já lhe ouvi chamar muita coisa, mas silêncio…

- Que pornográfica.

(gargalhadas dos dois)

- Mente poluída…

- Isso era o que tu querias. Mas não me estava a referir a isso. Quero saber se é um silêncio quente, ou um silêncio gelado!

(gargalhadas)

- A conversa está a subir… é quente, com certeza, está aqui debaixo da roupa.

- Ai, valho-nos…! Eu estava a falar do silêncio que me mandas… porque é que és assim?

- Mudaste com uma rapidez… eu até estava a gostar da conversa!

- Mas eu estou a falar de coisas muito sérias. Será que o teu silêncio diz alguma coisa, ou muita coisa?

- Ah, voltou a aquecer…não sei, acho que o meu silêncio, se é assim que lhe chamas, não fala, eu é que posso dizer, com a minha boca, ou com o resto do corpo.

- Mostra-me o teu silêncio. Eu quero saber o que é que ele diz…

- Já?

- Sim.

Ela começa a tirar a roupa entusiasmada.

- Não quero ver tanto… (gargalhadas) eu quero saber o que é que ele diz...quero ouvir palavra por palavra, letra por letra…

- Sei lá se falo nesses momentos…

- Gostava de sentir o teu silêncio!

- Anda… começa tu.

- Ai, senhor… não é disso que estou a falar.

- Não estou a perceber nada. Queres ou não queres?

- És mesmo ignorante! O meu gostar de ti não é esse que tu pensas, é sincero, inocente, com o coração…

- Óh, estás envergonhado, é? (gargalhada) Vá lá, fica à vontade. Eu nem estou a ver-te, só vejo a tua sombra. Mostra-te lá, se queres ver o meu...silêncio!

- O meu gostar de ti não é um gostar de amor, ou de desejo!

- Não acredito. Só queres uma relação de ocasião é…? Ok…

- É um gostar de carinho, um gostar sensível, que nada tem de assustador.

- Podemos explorar outras formas, mais quentes. Eu estou aberta a novas possibilidades.

- Que insensível.

- Porquê?

- O teu silêncio tem rostos, nomes, palavras, sentimentos.

- Desde quando…? Nunca o vi, nem ouvi…

- Choca-me…

- Eu sou alguma galinha, ou pata para te chocar…? E tu és algum ovo…?

- Não percebi!

- Congela-me!

- Nunca fiz isso.

- O teu silêncio faz isso, em mim.

- O que é que ele tem para te fazer isso? Cheira mal…?

- Não! Ai, que coisa… eu estou a falar de sentimentos.

- Não sei do que estás a falar.

- O teu silêncio, esvazia-me, a ti satisfaz-te?

- Porquê? És homossexual? Está-se bem, não tenho nada contra!

- Irraaaa…que indiferença!

- Tu estás indiferente…?

- Não, tu! Eu vim falar contigo, saber porque é que deixaste de falar comigo?

- Não sei quem és, nem vejo a tua cara, não sei do que estás a falar.

- Sou aquele que gostava de ti.

- E agora não gostas?

- Não.

- Então não sei o que estás aqui a fazer.

- Vim à procura de respostas para a tua indiferença.

- E insistes nisso… não te posso ajudar.

Aparecem mais duas sombras que falam com ela:

- Oh, trouxeste mais duas amigas? Hummm...amor a três? Nunca experimentei, mas está bem! Se queres…

- Como tu mudaste! - comenta a sombra negra

- Olha como ele está a sofrer. - mostra outra sombra

- É por causa de não lhe responderes às mensagens. - acusa a outra

- Mas eu não sei quem é! Vocês sabem? Vieram com ele? - diz a rapariga

- Sim, viemos com ele, sabes quem somos, sim! - comenta a sombra

- Não sei.

- Transformaste-te no pior que podia haver. - acusa a sombra negra

- Ele adorava-te! - relembra a sombra

- Que grande desilusão! - diz a sombra negra

- Quem te magoou assim tanto?

- Tu!

- Porquê?

- Não percebes mesmo nada! A sombra negra desaparece, e quando olha para o lado e vê uma rapariga que está a olhar para ela com ar ameaçador.

- O que é que estás aqui a fazer? Também vieste para a farra é? Queres ver o meu silêncio?

- Credo! Chamas-lhe isso? Bem, sempre é melhor do que outros nomes mais badalhocos… (gargalhadas) Eu tenho um igual… se és dessas não tenho nada contra, mas não tenho que te satisfazer.

- Ainda agora estava aqui uma sombra a dizer que queria ver o meu silêncio, e ouvir, trouxe mais duas, agora desapareceram, e vens tu?

- Não sei de nada, não tenho nada a ver com esses dois.

- Então o que vens cá fazer?

- Não sei. Talvez o mesmo que tu!

- Como não sabes?

- E tu também não sabes, mas estamos aqui.

- Onde?

- Aqui!

- Onde?

- Não sabes onde, eu muito menos. Eu vim para aqui porque tu também vieste. Mas se não sabes onde é, eu também não sei.

- Estás a gozar comigo?

- Não!

- Estás louca?

- Estamos.

- Não pode ser…lá porque tu estás, não quer dizer que eu esteja.

- Pode, é… e quer dizer…! Qualquer um pode ficar louco…desta vez, ficamos nós.

- Mas que raio de conversa é esta?

- É uma conversa normal.

- Não acho nada normal.

- Estamos loucas!

- Tu deves estar.

- E tu também.

- Estás no meu quarto?

- Estou!

- Entraste por onde?

- Por onde? Pela porta é claro.

- Que porta?

- Ora…um quarto tem porta.

- Áh! Pois…está bem. Mas o que é que tu queres de mim?

- Quero mostrar-te um sítio.

- Onde?

- Verás.

- Mas eu não posso sair daqui, pois não?

- Podes.

Ela estala os dedos e as duas raparigas vão para um labirinto cheio de caminhos, árvores e sombras.

- Que raio de sítio é este?

- É o teu interior!

- O quê?

- Sim…a tua cabeça, o teu coração…é aqui que está tudo.

- Mas eu não quero estar aqui.

- Mas tens de estar! E é agora.

- Porquê?

- Porque é aqui que vais encontrar muitas respostas.

- Respostas?

- Sim! Qual é o espanto? Não queres saber porque estás ali naquele quarto, que não é o teu quarto?

- Quero!

- Anda.

- Mas o que é que tens a ver com isto?

- Sou uma parte de ti!

- Estás louca?

- Estamos loucas. Precisamos de dar este passeio por este sítio para ficarmos bem.

- Tu és muito estranha.

- Somos.

- Não estou a perceber nada.

- Anda comigo.

Dão a mão e vão por uma série de caminhos sem saída. A rapariga grita aflita:

- Isto não tem saída! Não quero estar aqui…estou a sufocar. Eu quero sair daqui.

- Tem saídas, temos de procurar.

- Eu não gosto deste sítio.

- Procura a saída.

A saída está bem perto, mas ela não a vê, e a outra rapariga desaparece.

- Onde estás, outra?

- Continua a procurá-la. – Diz a voz da rapariga que está escondida.

- Ajuda-me.

- Procura sozinha. Também não ajudaste ninguém que te pediu.

- Não…por favor, volta!

- Áh, áh…tu sempre disseste que eras capaz de fazer tudo sozinha! Que não precisavas de nós nem de ninguém. Safa-te agora! Tu vais encontrar.

- Mas eu preciso.

- Não quero saber. Procura. Tens de sair daí sozinha…

A rapariga procura muito aflita, anda de um lado para o outro, entra em cada caminho diferente do labirinto, grita, chora, corre. A outra ela ri-se escondida.

- Por favor ajuda-me. Estou muito nervosa. – Grita a rapariga

- Continua à procura…vais encontrar. Eu não posso ajudar-te.

- Que cobra, má, nojenta! – Grita

- Era mesmo isso que tu eras. Continua. – Diz a outra

    Ela procura desvairada por caminhos sem saída, escuros. Encontra outros caminhos escuros: um com fantasmas brancos, outro com monstros, outro com figuras aterradoras e horríveis, outro onde só ouve vozes e gargalhadas. 

        Noutro caminho, as vozes gritam com ela, acusam-na, insultam-na. Noutro, umas sombras não dizem nada, só apontam dedos e empurram-na. Noutro, as sombras gozam-na, puxam-lhe os cabelos, riem-se dela, gritam-lhe. A outra ela ri-se. No quarto, ela abre os olhos sobressaltada, muito agitada, e grita ofegante:

- Não! Eu quero sair. Eu não quero voltar àquele sítio.

- Mas vais voltar. – Diz a outra

- Onde estiveste?

- Perto.

- Porque é que não me ajudaste? Já conhecias aqueles caminhos?

- Já. E tu também.

- Eu não…se conhecesse antes, já sabia como sair dali. Porque é que não me levaste por outros caminhos?

- Tu é que escolheste esses!

- Como é que fui eu que escolhi? Eu não gostei, nem gosto daqueles caminhos. Estão cheios de coisas horríveis.

- Tu é que quiseste ir por eles! Tinhas muitos outros. Tu é que foste por eles, pela tua maneira de ser, porque te afastaste e afastaste a tua realidade. As pessoas que estavam à tua volta e que gostavam de ti, que sempre se preocuparam, tentaram sempre desviar-te desses caminhos, e levar-te por outros, mas tu não quiseste segui-los. Preferiste ficar no reinado onde tu eras a única rainha, onde todos estavam aos teus pés, e à mercê das tuas vontades.

- O quê?

- Sim. Eras arrogante, fria, distante, má, indiferente, nada à tua volta existia, nem ninguém. Só tu.

- Não pode ser.

- Pode! E foi mesmo isso. É por isso que agora estás aqui.

- Mas eu não quero isso!

- Tens de voltar ao labirinto.

- Não! Lá só tem figuras horríveis.

- Mas tens de as enfrentar…

- Não!

- Sim! Para saíres, tens de voltar.

      E a outra rapariga volta a levá-la para o labirinto. Ela volta a passar pelos menos caminhos, e por outros igualmente escuros. Um tem sombras que lhe estendem as mãos, e choram ajoelhadas. Um choro perturbador. Outras, gritam, outras ajoelham-se e contorcem-se. Entra noutro caminho que tem gelo quebradiço no chão, e parte à medida que ela passa rapidamente. Entra noutro onde vê uma série de portas. 

    Abre uma porta e só tem esqueletos, outra tem fumo, outra tem serras a trabalhar, outra tem pregos no chão, outra tem água, outra fogo, outra buracos no chão e na parede, outra com raios, outra com vento ciclónico, e outra com relâmpagos e redemoinhos. Ela não entra em nenhuma. Foge de todas.

      Vai dar a outro caminho escuro, e cheio de lama, onde acha que várias mãos a empurram e ela cai. Sai desse caminho com dificuldade, e muito assustada. Entra noutro caminho onde vê sombras que lhe apontam objetos cortantes, gritam e riem. 

        Ela foge desse e entra noutro, onde ouve o som de chicotes a bater no chão. Ela desata a correr, e entra numa porta cheia de vento que a suga. Dá um grito e um salto na cama. Abre os olhos muito aterrorizada.

- Gostaste do que viste?

- Não. Eu não volto lá! Não quero voltar lá! É um mundo horrível. Assustador. Cansativo. Estou esgotada!

- Era o mundo onde estávamos.

- O meu mundo não era assim.

- Era! Tanto era assim que agora estamos aqui. Tu é que só te vias a ti! Eras o centro de tudo. Nada do que estava à tua volta, interessava. Fizeste sofrer muita gente que tentou tirar-te desse mundo. Mas não quiseste sair dele.

- Eu não conheço aquela gente, nem aqueles caminhos. Nem quero conhecer, nem andar por lá outra vez.

- Para isso é que estamos aqui.

- Por favor…não me deixes voltar para lá!

- Agora achas feio.

- Claro. Não pode ser pior.

- Mas na altura achavas bonito.

- Na altura não era nada daquilo. Ninguém me fez mal, agora querem fazer-me mal. Parece 

que estão todas as personagens a vingar-se de mim.

- Claro. É mesmo isso!

- Posso pedir-lhes desculpa?

- Podes. Não sei se elas vão aceitar, mas podes tentar.

- Como é que eu faço isso?

- Volta ao labirinto.

- Óh não!

- Queres pedir desculpa, ou não?

- Quero mas naquele sítio…

- Eles só estão nesse sítio.

- Eles vão acabar comigo na mesma hora. Todos têm um ar assustador… mau…raivoso.

- Tenta, não sejas como eles.

        Ela volta ao labirinto, e chama todas as personagens que viveram no seu mundo. Elas aproximam-se silenciosamente e olham-na. Encontram-se num caminho escuro, mas com alguma luz.

- Por favor…não olhem assim para mim. Não me façam mal! Sei que estão muito magoadas e magoados comigo, ofendidos, e querem vingar-se…eu sei…compreendo-vos. Só agora é que estou a ter a noção disso! Por isso…até me sinto envergonhada. Não sei como pude chegar a este ponto.

            As sombras falam com ela num tom irónico:

Rainha…!

Como é bom ver-te aqui.

Desapareceste…

Estamos cheias de saudades tuas…rainha.

Muitas.

Vieste visitar-nos?

Ou vieste pedir-nos um favor…

Dar uma ordem…?

Castigar?

O que nos vais fazer mais?

Ou vieste pedir-nos que acabasses contigo?

- Pensamos que já tinham acabado contigo!

- Sofremos muito por tua causa.

- Chegamos ao nosso limite.

- Passaste todos os limites.

- Não mereces nada de bom.

- Claro que queremos vingar-nos.

- O que tu fizeste connosco não tem classificação.

- Foi muito mau.

- Nós é que não percebemos como fomos capazes de permitir tanto.

            A rapariga envergonhada responde:

- Têm toda a razão.

- O quê? - perguntam todas

- O que estás a dizer é mesmo verdade?

- É!

- Mas que grande mudança! - comenta uma sombra

- Não sei se devemos acreditar nisto. - comenta outra personagem

- Acreditem! - pede a rapariga

- No inicio foi bom, mas cansamos!

- Quer dizer…foi divertido…foi uma tentativa de enganar o medo.

- Tu eras a nossa rainha…primeiro amiga…depois…cruel!

- Fizeste tudo para que o medo se apoderasse de nós…e para que pudesses fazer tudo o que quisesses connosco.

- Depois de tudo, como te atreves a chamar-nos?

- Eu chamei-vos para vos pedir perdão. - diz a rapariga

- O quê? – perguntam todas, e desatam a rir

- Essa é boa…

- Muito boa.

- É. Eu não quero mais este mundo. Quero libertar-vos, e quero viver no mundo real. - assume a rapariga

- Tu é que o transformaste neste mundo horrível.

- Eu sei. Não sabia disso, mas agora sei. - diz a rapariga

- Nós também não gostamos de aqui estar! Só estamos onde nos deixaste.

- Por isso é que estou aqui! Para me perdoarem e para irmos todos para o mundo real que espero ser muito mais bonito que este. - reconhece a rapariga

- Huuuummmm… - dizem todas, e faz-se silêncio

A claridade aumenta.

- Por favor perdoem-me todas as maldades que vos fiz. Este foi o refúgio que encontrei do mundo real, de coisas que eu não gostava. Encontrei-vos aqui. Não tinha noção de onde estava metida. Juro-vos que não queria ter construído este mundo horrível.

- Este mundo horrível, foste tu que construíste, com tudo de mau que tinhas e que não podias mostrar na tua sociedade.

- Vivias na escuridão da tristeza e da desilusão, da dor, do ódio, da raiva, da maldade…

- Tudo dentro de ti era feio! - dizem as sombras

- Como querias construir um mundo bonito…

- um refúgio agradável com tanta carga pesada, escura?

- Pois…não tinha percebido isso. Mas é verdade! Mas acho que ainda posso mudar de mundo, não? - diz a rapariga

- Sim. - respondem todas

- Só depende de ti.

- Vocês gostam de estar aqui? - pergunta a rapariga

- Claro que não! - dizem todas

- Tira-nos daqui. - pede uma sombra

- Odiamos este sítio. - diz outra sombra

- Estamos cansados do escuro!

- Estamos esgotados. - dizem todas

- Estamos fartos deste ambiente.

- Por mau que seja o teu mundo real, de onde fugiste, temos a certeza que é bem melhor que este!

- Acho que começo a perceber que sim. Vocês perdoam-me? - pede a rapariga

Faz-se silêncio. Aumenta a claridade.

- Tu libertas-nos? - perguntam todas

- Tiras-nos daqui?

- Sim. Liberto-vos, e tiro-vos daqui com todo o gosto. - diz a rapariga

- Nós perdoamos-te. - respondem todas

         A rapariga abre um grande sorriso, e o mundo que era escuro, cheio de sombras, e figuras horrendas, encolhe. Um vento fortíssimo arrasta todas as personagens e ela incluída, de mãos dadas para se segurarem, elas rodam, algumas caem, outras ajudam a levantar, outras batem contra algumas árvores, mas não se magoam, seguram-se umas às outras.

            Há muitas cores, muitas luzes misturadas. O novo espaço é um jardim cheio de sol, luz, cores vivas, flores, relva, pássaros, lagos, fontes, cascatas. As sombras deixam de ser pretas, e todas as personagens são visíveis, sorridentes, com ares serenos, meigos, todos se abraçam, e beijam e abraçam a rapariga. A outra ela aparece com um enorme sorriso.

- Vês? Conseguiste! Muito bem…parabéns!

A rapariga abraça a outra ela, as duas sorriem:

- Muito obrigada por me terem perdoado!

- Muito obrigada por nos teres libertado! - dizem todas

- Que lindo sítio!

(Ouve-se barulhos da cidade ao longe)

- Não vou sair daqui.

- Tens de sair para voltares para a cidade onde vives e onde todos te esperam. Mas poderás voltar a este sítio sempre que quiseres.

- Estaremos sempre aqui…mas queremos é ver-te aqui poucas vezes.

        Todos riem.

- Muito obrigada pela vossa companhia, durante este tempo.

- Eles são muito mais bonitos com luz!

- Pois são!

- Está na hora de acordares.

- Mas eu estou a dormir?

- Estás! Vais acordar dentro em breve, como nova…agora que mudaste para a luz.

- E eles?

- Eles vão estar sempre aqui. Podes vir visitá-los algumas vezes, mas a este lado do labirinto. 

lado da luz.

- E o lado horrendo?

- Esse quase desaparecerá. Não voltes a entrar nele.

- Não voltarei. Até breve amigos! Ou…personagens!

- Olha como eles estão felizes!

- E ganha juízo!

        As duas raparigas dão a mão com um grande sorriso, e ela acorda na ala psiquiátrica, consciente. Olha em volta, e familiares e amigos estão à sua volta. Primeiro preocupados, depois quando ela abre os olhos, sorriem aliviados.

- Olá! - dizem todos

- Bem-vinda!

- O soninho foi longo, não?

- E bom?

- Eles amam-te!

        A rapariga sorri.

- Onde estou?

- Não te preocupes com isso!

- Vais sair daqui.

- Vais ficar boa!

- Não sei o que aconteceu!

- Não faz mal.

- Sabes quem somos?

- Sei!

       Eles põem a conversa em dia, contam-lhe novidades, todos riem muito e com a medicação ela melhora de dia para dia. Teve força suficiente, com a ajuda da família, dos amigos e da sua outra ela para não voltar ao mundo da depressão, das sombras, e figuras assustadoras, e agora, figuras bonitas, sorridentes, de paz e alegres que brincam com ela.     

        Ela reaprendeu a viver em sociedade, e transformou-se numa pessoa do bem, passou a procurar ajuda quando precisou, e aprendeu a aproveitar tudo de bom…reencantou-se pela cidade, por tudo o que a rodeia. 

        A depressão tem cura, é preciso estar atento aos sinais e qualquer um de nós pode tê-la. Qualquer um de nós pode viver no mundo da escuridão, das trevas, onde tudo é horrível, assustador, e viver no mundo da luz, da cor, da felicidade.

        Mesmo quando o mundo da luz tem trevas e as sombras invadem esse mundo, podemos sempre contar com quem nos ama, com a família, com os amigos e com os anjos em forma de psicólogos ou médicos. 

        Mesmo com trevas e sombra, vale a pena viver…e no mundo da luz! No nosso mundo.

Fim

Lara Rocha

(11/Julho/2015)








quarta-feira, 11 de novembro de 2020

Envelhecemos! - monólogo sobre envelhecimento ativo

 


Somos um corpo desde que nascemos, perfeito, com os seus defeitos,

maravilhosamente construído no encontro, no amor ou na ocasião.

Todo o nosso corpo é música, em que idade? Enquanto bebés?

Qual idade? Desde que somos concebidos. Não, não somos corpos 

perfeitos, só em bebés. Somos instrumentos musicais! A nosso boca é um 

trombone, quando dizemos coisas desagradáveis, magoamos alguém

com palavras que nos saem sem querer, quando gritamos, discutimos,

quando nos irritamos. Umas vezes somos trompetes, saxofones,

conforme a intensidade do que dizemos. Outras vezes…somos flautas,

clarinetes, violinos, violoncelos, ferrinhos, sininhos, quando dizemos 

coisas mais agradáveis, quando somos doces, meigos, simpáticos,

quando elogiamos, dizemos sentimentos bonitos, encantamos com 

palavras. O nosso coração, umas vezes é um tambor, outras vezes uma 

orquestra de tambores ao despique quando bate mais forte, de paixão, de 

alegria, nervos, emoção, medo, desejo, ou impaciência. Qual idade? Em 

qualquer idade, desde que nascemos. Outras vezes, o coração é um piano,

com vários tons, quando está sereno. Todos os nossos sentidos, têm a sua 

música própria. Em qualquer idade! Todos os nossos sentimentos, são 

música, e são instrumentos musicais, que tocam, em todo o corpo, e nos 

outros. Somos sonhos, esperanças, forças e fraquezas.  Fraquezas, que 

desagradável...mas envelhecemos! Envelhecemos...Sim, todos! Mais cedo 

ou mais tarde. Desde o dia em que nascemos. Mas nem por isso deixamos 

de ser, e de envelhecer. Que bom! É sinal que somos e vivemos, desde que 

nascemos: amizades, namoricos, festas, doenças, medos, risos, lágrimas, 

dores, alegrias, tristezas, aventuras, brincadeiras, coisas sérias.

Mas como somos principalmente pessoas, vamos mudando em tudo!

As rugas assustam, porquê? Envergonham, porquê? Estas devem ser 

aceites, acolhidas, motivo de felicidade, orgulho, experiência e sabedoria,

batalhas enfrentadas, vitórias, derrotas, conquistas, ilusões, desilusões,

amores correspondidos, e não correspondidos. Porque se escondem as 

rugas? Para quê? O espírito não tem idade, nem rugas, nem fim...Por isso, 

envelhecemos só por fora. Envelhecemos...Quando reparamos demasiado 

nas rugas, em vez de repararmos no que há de bonito à nossa volta, no que 

podemos e queremos dar, fazer, aprender. Ainda há tanto para fazer... 

Ainda há tanto para ensinar e aprender...Tanto amor e carinho para 

espalhar...Deixem as rugas em paz...Até o sorriso com rugas, é especial 

para quem o vê, e ainda mais para quem o expressa...Dá luz, se vier do 

coração, da serenidade, da felicidade pela maravilha que é estar vivo,

com mais ou menos limitações! Envelhecer é aproveitar o que temos,

quem somos e quem temos. Envelhecemos quando deixamos de nos rir,

deixamos de nos divertir, deixamos de brincar com, e como as crianças...

Envelhecemos quando deixamos de tentar, envelhecemos quando 

deixamos de conviver. Envelhecemos quando deixamos de apreciar a 

natureza e em vez disso, pensamos na solidão...Envelhecemos, quando 

sentimos demasiado os números, envelhecemos quando nos entregamos à 

tristeza, e ao pensamento de que não servimos para nada, ou que é o fim.

Grande mentira...Se tivermos vontade e alegria de viver...Se o espírito for 

eternamente jovem, não são as rugas, ou os passos mais lentos, nem as 

dores...Que nos impedirão de sermos livres, e eternamente crianças!

Envelhecer é um prémio. Aproveitem-no, mesmo com rugas. Deixem as 

rugas em paz, e sejam mas é felizes. Porque a felicidade não tem rugas

e faz bem à saúde, mais do que mil comprimidos.


Lara Rocha

desenhos – Lara Rocha  

monólogo sobre envelhecimento ativo; positividade; valorização do corpo mesmo com rugas,



monólogo para adolescentes e adultos «Saudades de um outro…»



(Suspira ao olhar para o telemóvel e para uma foto).

RAPARIGA - Releio as tuas mensagens…as poucas que me mandaste desde que entraste na minha vida! E porque tenho saudades…! Não entraste há muito tempo, na minha vida, mas eu já te tinha acolhido no meu coração…mas também rapidamente saíste dela. Da minha vida, porque continuas no meu coração, adormecido…! Como uma estrelinha sem brilho, perdida numa imensa galáxia…Sem brilho, porque está doente…! Sim, para mim estavas a ser uma estrelinha! Não, não fui eu que te mandei embora…tu é que quiseste sair. De livre vontade, ou talvez não…talvez…a tua doença é que te tenha retirado! Sim, essa retirou-te muitas mais coisas, principalmente a boa disposição, a calma, a paciência, a alegria, a simpatia, a meiguice, a delicadeza… a vontade de falar…! Releio as tuas mensagens, e vejo a tua foto, a única que tenho, desde o último encontro, aliás…último e único…depois de tantas promessas que me fizeste, de que nos iríamos encontrar muitas mais vezes… foi inesperado e doce, o nosso primeiro e único encontro. Sim, foi lindo! Parecíamos dois adolescentes envergonhados…! Mas foi como um lindo sonho, que durou aquela hora, mas pouco depois…um monstro…o monstro dos pesadelos…levou esse sonho! Para onde? Não sei, isso só tu poderás responder. Se calhar…nem tu sabes bem por onde andas! Andas perdido nos teus pensamentos, nas palavras que não dizes…mesmo a quem te quer bem! Eu estava tão feliz quando a nossa amizade começou… (rir) Amizade…?! Será mesmo? Será que sentias isso…como eu senti…? As nossas conversas, sempre tão agradáveis, sobre diferentes temas…Como tu dizias…adoravas falar comigo…! E admiravas-me! Isso estava a fazer-me tão bem ao ego… à auto-estima! As palavras simpáticas que só tu me dizias…a força que me transmitias com as tuas mensagens…e a alegria que trazias aos meus dias, sempre que falávamos, ou nas mensagens queridas que me mandaste param o telemóvel. Será que estava mesmo a começar uma amizade…Ou terei sido eu, que na minha inocência, e romantismo, ou infantilidade, talvez…que imaginei que aquela troca de mensagens ou de palavras, seria o nascimento de uma linda amizade?! Ou seria a minha vontade de ter um amigo…? Homem…! O erro pode ter sido meu…talvez tenha uma visão muito cor-de-rosa das coisas, das relações…talvez ache que sejam todos como eu! Sinto a tua falta… Sinto saudades do homem, amigo… que estava a começar a conhecer. Até que… aos poucos… tudo se transformou…! Em silêncio, em frieza, em distância… em esquecimento… talvez! Aos poucos, afastaste-te, deixaste de falar comigo, deixaste de ser aquele homem simpático, brincalhão, animado, dedicado, que transmitia força… e luz…! A tua doença… talvez… é que te tenha transformado num novo ser…! Sinto saudades! A tua frieza, nas duas últimas vezes que falamos, já quase foi preciso eu arrancar-te da garganta palavras…quer dizer…monossílabos… preocupou-me… deixou-me triste, gelada…Apesar de isso me ter congelado o coração, não dei muita importância, pois todos nós temos dias maus…!Tinha esperança que…amanhã seria outro dia, e tu estarias melhor…que amanhã… tu voltarias a ser aquele amigo…! Mas no dia seguinte…e no seguinte…e no outro…e no outro a seguir…até hoje… de tua parte só recebi o silêncio…Um silêncio que de dia para dia atravessa a minha pele, o meu coração. A maneira como falaste comigo da última vez…Talvez não fosses tu a falar… talvez fosse a tua doença a falar por ti! Porquê…? Porquê…? O silêncio! Vá lá…deixa que te ajude…! Eu…e os teus…que te amam! Só tens de abrir o teu coração para mim, em vez do teu silêncio. Quanto mais os dias passam… e as noites… sem uma única palavra tua, sem uma única mensagem tua… mais o silêncio se torna insuportável para mim, mais o coração dói, e mais triste eu fico! Mesmo com o teu silêncio, com o teu gelo, a tua distância… eu ficarei à espera…à tua espera…Amigo! De dia para dia, as saudades aumentam, assim como a tristeza…e o sentimento de impotência! Não sei lidar contigo…! Quero ajudar-te, mas não consigo…Porque tu não te abres comigo! Com o teu silêncio não poderei ajudar-te! Dizes que não queres falar, nem comigo, nem com ninguém…está bem! Não és obrigado. Eu entendo… a tua doença é que deve dizer isso…quer dizer…ela é que te domina… ela é que fala por ti… Quero voltar a ser feliz e a sorrir, por ter um amigo como tu…Quero que a sementinha da nossa amizade que estava a nascer… renasça e cresça mais forte! O silêncio é que não por favor! Esse não vai fazer com que a sementinha cresça…! Quero que a tua frieza, se transforme em calor…em luz…em brilho…por favor…deixa-me ajudar-te! Quero que a estrelinha que está no meu coração, volte a brilhar dentro de mim! Tenho saudades! Amanhã é outro dia…esta noite vou sonhar contigo, com a volta da tua amizade…! E com o fim da tua doença! Amigo…espero por ti! Estou sempre aqui…neste momento com saudades! E que a nossa amizade renasça. Beijos repenicados, e grandes…como nós dizíamos um ao outro, depois de falarmos. Não te esqueças…estou aqui! Amigo!!!


Lara Rocha

(4/Dezembro/ 2012)



  



domingo, 25 de outubro de 2020

Os grilos da minha cabeça (monólogo)

      

                                 Foto de Lara Rocha 


      Já alguma vez passaram pela experiência até divertida, relaxante, agradável de estar ao ar livre, numa noite quente, cheia de estrelas por cima, instalados num lugar silencioso, envolto em mistério, composto por escuro, e pelo som de grilos, cigarras, os mochos, as corujas e outros, a cantar? Espetacular não? 

        É. Este cenário fez parte da minha infância, adolescência e idade adulta. Eu até gostava, principalmente quando saía do barulho e da agitação da cidade, dos computadores e carros. Era quase um ritual místico, espiritual para mim e para a minha família. Quase como se estivéssemos a ouvir anjos a cantar em coro, sem os vermos. Acho que isso despertava a nossa imaginação, sabíamos que eram insetos, mas como não os conseguíamos ver, talvez os imaginássemos de forma diferente.

        Adorávamos ouvir os grilos e as cigarras, às vezes as rãs e sapos a coaxar nos ribeirinhos com água por onde passávamos quando passeávamos à noite, e o próprio som da água a cair no escuro, era lindo! Outras vezes, os sons da água, dos insetos misturados com o vento que mexia as folhas, ainda tornava o ambiente mais fantástico, quase a tocar o suspense. Não sabíamos o que ia aparecer...quer dizer, nunca apareceu nada! 

        Mas toda essa magia que ainda paira as minhas memórias, deixou de ser assim tão especial, a partir do momento em que...os grilos e as cigarras cantoras, decidiram apropriar-se indevidamente do terreno onde escolheram, quer dizer, onde achavam que tinham direito de se instalar. 

        Que grandessíssima lata! Um terreno que só era povoado por cera e por outros sons, e tenho que as aturar? Mas era só o que faltava. Já não estou nesses terrenos por onde andei, a ouvi-los, mas é como se a minha cabeça tivesse ficado lá, ou como se estivesse viciada nesses sons! 

        Oiço grilos! Oiço-os por todo o lado, a toda a hora, de dia e de noite! Perseguem-me, não me deixam sossegada, só deixo de os ouvir quando durmo. Não vejo um único, só os oiço. Um coro irritante de grilos a cantar nos meus ouvidos ou na minha cabeça. 

        Como pode ser? Acho que acabei de descobrir de onde vem. Mando mails com propostas de trabalho, concorro por conta própria, proponho parcerias com colegas, e não tenho uma única resposta. Dia, após dia, semana após semana, um mês atrás do outro. Silêncio...é a única resposta que recebo do outro lado. Só cortado pelos malditos grilos que até parecem cantar com o dobro do entusiasmo. 

        Portas fechadas, janelas fechadas, portões fechados para mim! Não há trabalho. Lá vem os malditos grilos fazer festa. Como se não ter trabalho fosse motivo de festa. Eles é que nunca ficaram sem trabalho, é por isso que cantam dia e noite na minha cabeça. Claro, ao contrário de mim estão felizes! 

        Ora pois, compreendo, até eu, se tivesse respostas, em vez de silêncios que para mim são a mesma coisa que «nãos», estaria feliz, e cantaria com gosto. Os grilos até têm sorte, andam felizes o dia todo, levam uma vida relaxada, não têm desilusões, nem desgostos, não recebem «nãos», nem silêncios. Só me infernizam as noites e os dias, sempre que há mais silêncio. 

        Estúpidos grilos. Calem-se! Invejo-vos! Sim, até gostava de ser grilo só por um dia e para poder azucrinar as cabeças dos que me dizem «não», dos que se esquecem de me responder, dos que me fecham portas atrás de portas. 

        Gostava que os que me dizem «nãos», com  palavras ou com indiferença que ainda me custa mais a aceitar, e silêncio, experimentassem, como é viver com grilos irritantes dia e noite, sem sequer os ver. E quanto mais os mando calar, mais eles cantam, é mesmo gozar de fininho! 

        Quando disse que ouvia grilos, todos se riram na minha cara. Disseram-me que eu estava louca, a delirar, que estava a ouvir a mais, ou o que é que eu tinha andado a fumar. Pois, se o fumar os calasse até experimentava, mas eles podem gostar de fumar, ter esse vício, ou até gostar da experiência, e querer repeti-la. Depois então é que não me largavam! 

        Como eu era feliz, sem estes malditos grilos. Até gostava de apreciar o silêncio e ouvir o som dos grilos, das cigarras quando ia de férias no Verão para o campo e para a praia! Mas tudo ficava em silêncio e eu dormia embalada por esse coro. Quando ia dormir, toda a bicharada ficava fora da porta.

        Mas a minha apreciação e relação com grilos e cigarras, mudou desde que se lembraram de fazer morada nos meus ouvidos e na minha cabeça. Não sei como se atreveram, devem ter ficado tão convencidos por eu os apreciar, que não me largaram mais, acharam que deviam retribuir-me a atenção que lhes dei, infernizando-me as noites! 

        Já os ameacei que os punha fora porque não pagam renda e ocuparam o espaço indevidamente. Não adiantou nada, parece que ainda foi pior! Fui ao médico, para ver se eles estavam mesmo lá, coisa que eu acreditava ser muito improvável, para não dizer impossível, porque sei que isso só acontece nos desenhos animados. Mas nos desenhos animados, tal como entram no corpo dos bonecos, também saem, só que os meus, pareciam ter entrado e não saiam. 

        Obviamente, o médico viu os ouvidos e não estava lá grilo algum. Nem um, quanto mais um coro. Mas eu ouvia-os. Isso tinha a certeza. Mandou-me para o médico psiquiatra, que me sugeriu não dar importância aos grilos, ou cantar com eles; para pensar noutras coisas, e receitou um calmante. 

        Ia pensar noutras coisas? Que coisas? Sem trabalho...só se fosse pensar em coisas más, mas pelo que ele disse, as coisas más ainda os alimentam mais. Era impossível, e ainda é, não me centrar neles, com o barulho que fazem, e eu sem poder controlá-los. Ele falava, porque não era quem os aturava. 

        Mesmo assim, abençoado calmante, pensei eu, toda satisfeita, quando tomei e durante umas boas horas não ouvia esses malditos grilos. Só que...passava o efeito e lá vinham eles outra vez! Que inferno! Pelo menos enquanto não os ouvia, tinha sossego. 

        Fui ao otorrino. Caiu-me tudo! Quase explodi com o que ouvi. Os grilos da minha cabeça, e dos  meus ouvidos, eram para viver comigo! Não acreditei, o Dr. só podia estar a gozar! Eu já não os podia aturar e ia ter que viver com eles? Como assim? E quê? Tinha que lhes oferecer um cafezinho, almoço, jantar e quarto, sem pagarem, sem contribuírem com nada?! Não queriam mais nada. É que nem boa companhia são! 

        Pois, mas, ou aprendo a viver com eles, e tento negociar com eles, para me incomodarem menos, ou aturar mil campos com grilos e cigarras a toda a hora a cantar! Sempre será melhor habituar-me a eles, ou pelo menos fazer as pazes e não stressar, para ver se não dou tanto por eles! 

        Ainda por cima, sempre que eu stressasse, eles cantariam mais alto, e foi mesmo isso que aconteceu! Os malditos cantam em coro, sempre que me irrito, cantam mais baixo com medicamentos e quando estou mais calma, ou mais ocupada, mais feliz, mas não saem dos meus ouvidos. 

        Nunca me imaginei a viver com grilos e cigarras, mas o médico disse que não tem cura! É um estrago de tanto stress. Claro, faz todo o sentido, stress de tantos «Nãos»; diretos e indiretos, silêncios, portas fechadas, umas atrás das outras! 

        Pelo menos os meus grilos não são filhos da esquizofrenia ou outros problemas, como inicialmente me disseram que podia ser, porque causam alucinações, até eu cheguei a pensar que fossem alucinações de saudades desses tempos, mas não. 

        Os que sofrem de esquizofrenia e outros problemas mentais que causam alucinações, também têm que viver com essas vozes desconhecidas que lhes dão ordens, ou que as insultam. Que pesadelo, já estes não são fáceis de aturar...o psiquiatra também pensou que fosse o meu caso, mas percebeu que não. Felizmente, acho que então é que enlouqueceria. 

        Não gosto destes grilos, odeio-os, tanto como odeio os silêncios, as «não respostas», que na verdade são respostas. Não tenho outro remédio senão aceitar e viver com eles, desde que não me infernizem. São como os vizinhos indesejados. 

        Não me livro deles, mas tive de aprender a domá-los, a mandá-los tocar e cantar no raio que os partam, mais baixo, e às vezes dou-lhes veneno que os cala temporariamente, pelos vistos gostam. Se fosse agora, voltava a querer ouvir o som dos insetos, nos campos, não nos meus ouvidos, nem na minha cabeça. 

        Agora a única coisa que posso fazer é idealmente não stressar, no mundo ideal, no mundo real é difícil, mas pelo menos stressar o menos possível. Os meus grilos e cigarras passaram a ser um alarme despertador, que toca para parar e acalmar, mudar de atividade, descansar. 

        Claro que me perturbam, mas passei a vê-los de forma mais familiar, para tentar que não me massacrem tanto! Já que não posso livrar-me deles, tento que se tornem mais toleráveis. O melhor é reconhecer quando estou stressada, e agir para diminuir. Cada um tem as suas criaturas no corpo para viver com elas, ou lutar contra elas, mas na impossibilidade de lutar, o melhor é mesmo aceitar. 

                                                                                FIM 

                                                                            Lara Rocha 

                                                                          25/Outubro/2020