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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

AS JOANINHAS E AS UVAS GIGANTES





Era uma vez uma linda e pequenina joaninha que saiu com a sua família para passear, e reparou numa árvore que tinha umas enormes bolas roxas, pretas, vermelhas e verdes. Ela não fazia a mais pequena ideia do que ela aquilo, nunca tinha visto! Mas achou tão bonitas...e perguntou aos seus pais se eles sabiam o que eram aquelas bolas.

         Os seus pais também não sabiam, mas uma ave de grandes penas compridas e pretas ouviu a pergunta e respondeu:

- São uvas, criatura vermelha às bolinhas pretas! - Responde a ave com riso endiabrado e irritante

- Ei, Óh monte de penas, vê lá como falas com a criança...ela só fez uma pergunta e nem eu nem a mãe sabemos o que são.

- Deixem lá...somos vermelhas e pretas, mas ela é toda preta! - Diz a joaninha

- Pois claro! - Concordam os pais

- Tens toda a razão. - Concorda a mãe

- Mas que ignorantes! Ih, ih, ih, ih...Nem pensem que vão lá pousar ou comer...aquilo é tudo para mim. - Diz a ave arrogante

- Não faltava mais nada! És a dona da casa? - Pergunta a mãe

- Sou! - Responde a ave

- Não querias mais nada! - Ri o pai 

- Esta casa sempre deve ser melhor que a tua... - Diz a joaninha 

- Põe-te a andar! - Ordena o pai

- Porquê? Os donos são vocês? - Desafia a ave

- Não! Mas também não vamos comer, muito menos sem autorização. - Diz a mãe

- Os donos podem ficar muito zangados, e com toda a razão! - Responde a joaninha

- Medricas! - Goza a ave

- Vai para longe, maldita! - Ordena o pai

- Áh, mas que antipáticos... - Ri a ave

- É como tu mereces ser tratada... - Diz a joaninha

- Vai lá para a tua toca. - Resmunga o pai

- Não vou. Só quando tiver feito o meu trabalho. E vocês não vão dizer nada. - Goza a ave

- Estás a falar com demasiada certeza... Vai para bem longe. - Ordena outra vez o pai

              A ave desce sem dar mais respostas, e começa a cortar cachos de uva. Eles nem querem acreditar no que estão a ver e ficam verdadeiramente irritados. A joaninha pousa no nariz de um dos cães da casa, que olhou para ela, ela assustou-se:

- Ai, não olhes assim para mim.

             O cão começa a tentar soprá-la, e ela levanta do seu nariz, encolhida. O cão abre a boca e tenta apanhá-la.

- Espera...por favor...ladra! (o cão ladra) Não é para mim...mas anda uma ave muito estranha a tentar comer aquelas bolas grandes penduradas.

            O cão fica muito nervoso, percebe que alguma coisa errada está a acontecer, e ladra sem parar, os outros ladram com ele, e os donos da casa vão a correr ver o que se passa...apanham a ave em cheio a debicar atrevidamente, e a lançar veneno na raiz de uma árvore para que as uvas murchassem.

Os donos pegam em paus e vassouras, dão sapatadas na ave e chutam-na.

- Maldita! Xôôô. Vai-te embora...- gritam os donos

            Ela grita e depois de apanhar umas boas vassouradas, voa. Todos aplaudem. Os pais da joaninha não cabem em si de orgulho pelo trabalho que ela fez. Os donos acariciam os cães, e nem reparam na joaninha. A joaninha fica triste...mas os cães olham para ela, ladram e cheiram-na, para os donos a verem.

Os donos veem-na, e fazem-lhe uma grande festa, de encanto.

- Óh! Que linda...tão fofinha...tão gira...Óhhh...

             Os cães ladram em coro para agradecer à joaninha, mas os donos não entendem. A joaninha sorri feliz e vaidosa. Um dos donos pega numa uva e dá à joaninha. A joaninha não sabe o que fazer com aquela bola gigante, como ela lhe chamava...era realmente gigante à sua beira.

Pensou que era para brincar, pousou em cima da uva, e sentiu a sua casca, macia, um pouco escorregadia, até que escorrega mesmo e a uva rola, fica deitada. Todos se riem, e a joaninha também.

- Será que as joaninhas comem uvas? - Pergunta um menino

- Acho que não! - Respondem todos

- Isto é de comer? Mas é tão grande... Como é que se come? - Pergunta a joaninha e fica à espera de resposta.

- Come joaninha... - Diz outra menina da família

- Por aqui... - Diz outra menina da família

             A joaninha sente um cheirinho bom, e percebe que aquilo parece água, no sítio onde cortaram a uva, prova e grita:

- Papá, mamã...isto é delicioso. Venham provar.

            A mãe e o pai voam até à uva, provam-na e confirmam.

- Olha...mais duas joaninhas! Que giras! Parece que também quiseram provar. - Repara a dona da casa

- Realmente...Hummm...que sabor! - Confirma a mãe

- É mesmo bom, e fresco. - Reforça o pai

           E deliciam-se com a uva. Sem se aperceberem, comem-na toda num abrir e fechar de olhos. No fim, já mais que satisfeitos, tentam voar, mas estão tão pesados que não se mexem nem um centímetro.

- Ui, o que está a acontecer connosco? - Pergunta o pai

- Não sei. Mas sinto-me muito estranha! - Diz a mãe

- Eu também... - Diz a joaninha

- Acho que... – Diz a mãe

          Quando percebem que comeram a uva toda...

- Aquela bola gigante? – Pergunta a joaninha

- O que tem? – Pergunta o pai

- Onde está? – Pergunta a mãe

- Eu pensei que ela era para brincar, mas depois disseram-me para a... – Conta a joaninha

- Comer...! – Dizem os três

- E tu convidaste-nos a provar... – Lembra a mãe

- Sim. Não gostaram? – Pergunta a joaninha

- Muito! – Respondem os pais

- Mas onde está essa bola gigante? – Pergunta outra vez a joaninha

- Acho que... – Diz a mãe

- Já entendi tudo. – Diz o pai

- O quê? – Pergunta a joaninha

- Está dividida pela nossa barriga! – Responde a mãe  

- Ãh? – Pergunta a joaninha

- Sim! Comemo-la! – Confirma o pai

- Não! – Diz a joaninha a duvidar

- Não pode ser. – Diz a mãe

- Um dos meninos deve ter levado. – Diz a joaninha

- Não levou não! – Diz o pai

- Aaaaaaiiiiiii... – Suspiram os três

- Tens a certeza? – Confirma a mãe

- Agora tenho! – Diz o pai

- Aiiiiiiiiiiiiii... – Suspiram todos

- E agora? – Pergunta a joaninha

- O que vamos fazer? – Pergunta a mãe

- Acho que vou rebentar. – Comenta a joaninha

- Eu também! – Dizem os três

- Mãe...estás com uma barriga...e tu também pai... – Repara a joaninha preocupada

- Mas que delicada...- Comenta o pai a rir

- Desculpem...é verdade. – Diz a joaninha

- A tua está igual. – Responde o pai

- Está? – Pergunta a joaninha preocupada

- Está! – Respondem os pais a rir

- Ai! – Geme a joaninha

- E agora? – Pergunta a mãe

- Ficamos à espera que ela esvazie. – Responde o pai

- E isso vai acontecer? – Pergunta a joaninha assustada

- Claro que vai. – Garante o pai

- Quando? – Pergunta a joaninha

- Daqui a bocado. – Responde o pai

- Como é que conseguimos comer tanto? – Pergunta a mãe

- Não sei... – Dizem todos

           Soa uma gargalhada de um pequenino cogumelo debaixo da árvore.

- O que foi isto? – Perguntam mãe e joaninha

- Foi uma gargalhada. – Diz o pai

- Alguém está feliz. – Repara a mãe a rir

           Do cogumelo sai um pequeno dragãozinho amarelo que adora enciclopédias e investigar, a rir.

- Com que então são vocês...? – Diz o dragãozinho sorridente

- Já nos conhecemos? – Perguntam as joaninhas

- Não...quer dizer, eu já vos conheço, mas vocês não me conhecem. – Diz o dragãozinho

- Como? – Perguntam as joaninhas

- Eu sei quem vocês são! – Garante o dragãozinho

- Sabes? – Perguntam as joaninhas

- Sei. Vocês são joaninhas. – Responde o dragãozinho muito seguro

- Sim...- Dizem as joaninhas

- Isso toda a gente sabe. – Lembra o pai

- Mas eu sei mais... muito mais. – Diz o dragãozinho

- O quê? – Perguntam as joaninhas

- Vocês comeram uma uva e agora estão que não se mexem. – Responde o dragãozinho

- Isso é novidade, e é saber tudo de nós? – Pergunta a mãe

- Sim, comemos, e estamos muito pesados. – Acrescenta o dragãozinho

- Mas o que é que isso tem de importante? – Pergunta o pai

- Eu sei que estão à espera de fazer a digestão! – Responde o dragãozinho

- O quê? – Perguntam as joaninhas

- Áh! Vocês não sabem? Sempre que comemos, fazemos a digestão...os pedacinhos de tudo o que comemos espalham-se por todo o nosso corpo, através do...sangue... Que corre dentro de nós...depois de passar por uma máquina que os tritura...o estomago e o fígado que separa gorduras e outras coisas que não nos fazem falta, para depois irem para as...sanitas!

         O dragãozinho fala com grande entusiasmo, até dança e faz movimentos exagerados com o corpo enquanto fala, sorri, e continua a falar sem parar sobre tudo o que sabe sobre joaninhas, e sobre uvas, sobre os cães, sobre os humanos, sobre a ave da bruxa...dá exemplos, tira os óculos para ler, fala nos óculos, ajusta-os à cara, dá exemplos...

As joaninhas não percebem mais de metade do que ele diz, às vezes riem-se, e dizem que sim, só para ele não ficar tristes, mas elas estão tão cheias da uva, que nem o ouvem com atenção. Ele não se cala...parece um rádio ligado.

- Sugiro que...saltem de cacho em cacho de uvas para se sentirem melhores, mais vazias... - Diz o dragãozinho

- O quê? - Perguntam as joaninhas

- Sim. – Diz o dragãozinho

- Mas vamos estragar os cachos...- Repara a mãe

- Não vão nada...são tão leves! – Assegura o dragãozinho

                As joaninhas decidem experimentar.

- Podem confiar em mim, é seguro e muito divertido! – Garante o dragãozinho

E as joaninhas começam a saltar, acompanhadas da longa explicação do dragãozinho sobre movimento, ginástica, digestão, músculos...elas saltam de bago em bago, devagar, porque estão muito pesadas, balançam-se nos caninhos quando descansam ao passar de um para o outro, riem, respiram, e começam a perceber que é muito divertido!

Ganham mais energia e começam a saltar mais rápido, uns saltinhos um bocadinho maiores, depois maiores, e depois conseguem voar. O dragãozinho ri, aplaude e fica feliz, mas logo fica calado e triste, a olhar para baixo.

- O que foi dragãozinho? – Pergunta a joaninha

- Estás triste? – Pergunta a mãe

            O dragãozinho suspira, e começa a falar mais devagar, sobre tristeza, sobre o coração, sobre lágrimas, sobre solidão...sobre amizade, soluça...e umas lágrimas caem dos seus grandes olhos verdes. As joaninhas ficam tristes, e também choramingam. A joaninha dá um abraço ao dragãozinho, e um beijinho repenicado na bochecha.

- Não fiques triste, dragãozinho...nós voltamos!   

            O dragãozinho abre um grande sorriso, as suas lágrimas transformam-se em cristais brilhantes que lhe caem no colo, e ele oferece uma a cada joaninha. As joaninhas sorriem, agradecem, dão-lhe abraços, beijinhos e festinhas, e prometem voltar. O dragãozinho volta para casa muito feliz.

            Vão descansar, e no dia seguinte lá estão elas outra vez. O dragãozinho leva as joaninhas à sua casinha que fica no tronco da árvore por cima, onde estão os seus pais e os seus irmãos.

Ele apresenta toda a família, e as joaninhas são recebidas como se fossem família, servem-lhes chá, sumo, bolachinhas, e o dragãozinho volta ao pequenino cogumelo onde é o seu escritório, para mostrar todo orgulhoso, as centenas de livros e enciclopédias que adora ler...e fala sobre eles, mas desta vez também deixa as joaninhas falarem.

             As uvas pareciam gigantes, mas o dragãozinho explicou-lhes que as joaninhas é que eram pequeninas, por isso as uvas para elas pareciam gigantes, mas para as pessoas não são grandes, porque também têm bocas maiores, e dentes...deu mais uma aula.

            As joaninhas aprenderam muito com ele, e tornaram-se grandes amigos, porque na verdade, o dragãozinho também se sentia muitas vezes sozinho, embora tivesse a companhia dos livros, mas ele gostava mesmo era de conversar, ensinar e ter animais ou pessoas perto dele.

            A ave, depois das vassouradas ainda tentou voltar lá, mas os cães estavam muito atentos, e quando sentiam a sua presença aproximar-se, começavam logo a ladrar, e lá iam os donos com as vassouras em punho. Ela ficava furiosa, mas não se atreveu mais a descer àquele campo. 


FIM


Lálá


(25/8/2016)


 

domingo, 14 de agosto de 2016

GOTOLÂNDIA


quadro pintado por Lara Rocha 

           Era uma vez um reino na atmosfera na primeira camada de céu, perto da terra, cheia de nuvens fofas de todos os tamanhos, onde viviam milhares de gotas. Essas gotas gostavam muito de passear pela terra, e cuidar da natureza, nos sítios onde o homem não cuidava.

         Para elas irem à terra, e andarem por lá, tinham de passar por uma piscina que as transformava em gotas gigantes de gelatina para não derreterem, e abriam, largando toda a água que fosse precisa para regar, ou matar a sede a alguns animais e plantas.

         Ultimamente, as gotas andavam muito preocupadas e zangadas com a falta de cuidado que estavam a ver no ser humano, em relação à Natureza e decidiram deixar de ir à terra por algum tempo até que lá em baixo se lembrassem da água e da sua importância para todos.

         Enquanto esperavam esse momento, aproveitaram para descansar e conviver…então, fizeram uma grande festa. Todas as gotas foram convidadas as que se transformavam em gelo e neve, as de chuva, as de nevoeiro e orvalho, as de saraiva e de granizo, e outras.

         Juntaram-se aos milhares, na gotolândia, vindas nas suas nuvens: umas a reboque, outras a conduzir…de todo o lado…famílias de gotas e de nuvens, de todos os tamanhos. O trânsito nos dias anteriores ficou caótico.

         Estacionaram as nuvens, e foram para o grande parque da atmosfera. Nesse parque houve muita música, tocada por bandas de trovões, que fizeram concursos de despiques e «combates», jogos de perguntas e respostas, assistiram a concertos de bandas que tocavam sons da natureza, com instrumental mágico, e ouviram despiques de bandas sonoras.

         Puderam experimentar pistas de gelo, com muita gargalhada e alguns trambolhões, assistiram a espetáculos de bailados em lagos gelados dados por gotas dançarinas, e puderam participar.

         Além disso, tinham um mega parque de bolas de sabão com uma porta feita de arco-íris, escorregas feitas de nuvens, e passaram por caminhos com neve experimentaram espaços pequenos onde passavam por nevoeiro, sentiram num pequeno túnel o que era o orvalho e arrepiaram-se com o frio.

         Caminharam por passeios onde havia gelo e um pedacinho onde podiam sentir a neve, vê-la no chão, a uma altura que quase tapava as portas das casas, viram exposições de fotografias da terra onde apareciam nas muitas formas.

         Passaram por túneis com vento de várias intensidades: brisa suave, vento fraco, vento forte, ventania, tão forte que fazia um barulho assustador, e elas até tinham dificuldade em segurar-se, rodopiavam, eram empurradas para trás, e para a frente, e andaram em baloiços de nuvens empurrados por vento.

         Ficaram maravilhadas. Tocaram em cristais de gelo, sentiram flocos de neve e brincaram muito. Comeram, beberam, divertiram-se muito, conheceram e reencontraram muitos amigos…partilharam conhecimentos e experiencias em tertúlias, sobre tudo o que fizeram e fazem na terra, e reúnem-se em longos debates sobre o mal que os humanos estavam e estão a fazer a água, e à própria terra, natureza.

         Nesse momento ficaram tristes e muito zangadas, ao ver imagens que pareciam um filme de terror, mares e rios poluídos, cheios de lixo, muitas árvores destruídas, florestas desertas, secas, animais com fome e magros, sítios com pouca ou nenhuma água, mas elas sabiam por experiência própria que eram bem reais.

Ficaram com muita vontade de dar uma boa lição ao homem, mas não sabiam como. Achavam que já estavam a dar, mas parecia que não estava a fazer efeito…não tinham aprendido nada. A saúde já estava a pagar, mas eles ainda não tinham percebido.

Apesar disso, a festa continuou, durante vários dias. Ao fim de umas semanas, soam alarmes vindos da terra, a pedir chuva e água. As gotas fizeram uma grande festa. Formaram várias tempestades, com trombas de água, inundações, trovoadas, ventos fortes e até neve.

Foi imprevisível e na terra, os habitantes ficam com muito medo…cada um pede perdão à natureza e agradecem a chuva mas uns tempos depois…volta ao mesmo…Na gotolândia ninguém ficava parado! Tanto trabalhavam, como faziam festas e debates.

Aos poucos vão tentando ensinar o homem, mas este não aprende. Quer dizer…depende de cada um de nós, e de todos.

FIM

Lálá

(8/Agosto/2016)

O bairro das cortinas

                                                                       foto de Lara Rocha 


Era uma vez um pequeno bairro coberto de grandes árvores que se encostavam e formavam um telhado natural, que cobria as mimosas casinhas feitas de cascas de nozes, e ouriços de castanhas, portas e janelas, onde viviam pequenas fadas e elfos.

Dentro das casinhas tinham todo o conforto e tudo o que precisavam, cozinha devidamente equipada para cozinhar, uma salinha de estar, uma casa de banho e uma caminha, luz, água e móveis.

Não passavam frio, e estavam protegidos do calor com as árvores, mas faltava-lhes qualquer coisa…uma tarde de muito calor, um grupo de joaninhas tecedeiras que estavam tão cansadas, pousaram na relva fofa à sombra.

As fadas que estavam a descansar aperceberam-se de alguma coisa a cair. Saíram das suas casas e foram ver. Ficaram muito preocupadas porque as joaninhas estavam a respirar muito rápido…pareciam muito cansadas.

Cada fada volta à sua casa e enche uma bacia, e copos com água. A bacia para as joaninhas se refrescarem e os copos para elas beberem.

- Ai, que calor… - Suspira uma joaninha

- Está mesmo… - confirmam as outras e as fadas

- Refresquem-se! – Recomenda uma fada

- Têm essa bacia para mergulhar… - aconselha outra fada

- E estes copos para beber. – Acrescenta outra fada

- Ááááhhhhh…! – Suspiram as joaninhas consoladas quando bebem.

- Que fresquinha…! – Comentam as joaninhas ao mergulhar.

- Que água maravilhosa… - Diz outra joaninha

- Querem mais? – Pergunta uma fada

- Acho que…- diz uma joaninha

- Bem, não queremos dispor ou abusar de vocês, mas…acho que sim. – Diz outra joaninha um pouco envergonhada

- Não nos custa nada… - Diz outra fada

E algumas vão buscar mais água.

- Querem comer alguma coisa? – Pergunta outra fada

- Não! Muito obrigada. – Respondem todas 

- Vocês são daqui? – Pergunta uma fada

- Não! – Respondem as joaninhas

- Somos aqui de perto. – Acrescenta outra joaninha 

- O que estavam a fazer aqui, com este calor? – Pergunta outra fada

- Com este calor, deviam estar recolhidas a descansar… - Aconselha outra fada

- Sim, nós sabemos… - Diz outra joaninha

- É que estamos tristes. – Diz outra joaninha 

- Tristes, porquê? – Perguntam as fadas

- Porque estamos sem trabalho! – Respondem todas

- Mas o que é que isso tem a ver com o andar neste calor? – Pergunta outra fada

- Andamos à procura de trabalho…

- Como estamos muito preocupadas, não conseguimos dormir.

- Mesmo assim descansavam e vinham mais tarde.

- Mas porque é que vocês estão sem trabalho?

- Não sei! – Respondem todas

- O que fazem? – Pergunta outra fada

- Somos tecedeiras, costureiras… - Respondem as joaninhas

- Óhhh! – Dizem as fadas

- Bem…fiquem aqui a descansar um bocadinho. – Sugere outra fada

- Acho que…- pensa uma joaninha

- Vamos ficar. – Dizem todas

- Desculpem a invasão. – Diz uma joaninha envergonhada

- Não é invasão nenhuma…- Garante uma fada

- Fiquem à vontade. – Dizem as fadas

- Nós vamos ajudar-vos. – Diz outra fada

- Querem mais água? – Pergunta outra fada

- Não. Obrigada.- Respondem as joaninhas

- Aqui está fresquinho. – Comenta uma joaninha a suspirar satisfeita

- Sim, está ótimo. – Dizem todas

- Voltamos já… descansem. – Dizem as fadas

- Muito obrigada. Até já. – Dizem as joaninhas

- Nós vamos também descansar um bocadinho. – Diz outra fada

- Já voltamos. – Dizem as fadas

- Se precisarem de alguma coisa, toquem… - lembra outra fada

- Ok. Obrigada. – Dizem as joaninhas   

As fadas voltam a casa, e as joaninhas ficam a descansar. As fadas querem mesmo ajudar as joaninhas, e reúnem-se na cratera de uma árvore, um lugar onde se encontram sempre que têm decisões importantes a tomar, e quando as conversas são sérias…lá partilham as suas preocupações, medos e tentam encontrar soluções umas com as outras.

Daí saem sempre muito boas ideias e ajudas preciosas de amigas, porque levam muito a sério aquele pensamento de que duas cabeças juntas pensam muito melhor que uma.

Decidiram que como as joaninhas são costureiras e tecedeiras iam pedir-lhes para fazerem umas cortinas para as suas casas. E haveria trabalho para todas. Quando as joaninhas estavam mais recuperadas, e estava já o dia mais fresco, as fadas comunicaram-lhes a decisão e a vontade de as ajudar.

As joaninhas ficaram eufóricas, abraçaram-se com grandes sorrisos, e abraçaram as fadas. As joaninhas dividem-se pelas casas das fadas, tiram medidas, dão ideias, e cada fada quer uma cortina diferente. As fadas dão os materiais que querem por nas cortinas às joaninhas, e as joaninhas vão muito felizes para casa.

Uma fada quer umas cortinas feitas de cristais, outra quer cortinas rendadas, outra quer umas cortinas com bordados de muitas cores.

Outra quer uma cortina com o arco-íris, e outra cortina com flores variadas artificiais.

Outra quer uma cortina com conchas e outra cortina com búzios.

Outra quer uma cortina com escamas de peixes coloridas, e outra cortina com folhos.

Outra quer uma cortina com vários tecidos misturados e pregados, e outra cortina com folhas de árvores.

Outra quer que a sua cortina tenha gotinhas de água pintadas, e sóis pintados na outra cortina.

Outra quer uma cortina com estrelas prateadas num pano azul-escuro.

Outra quer duas cortinas de veludo, outra escolhe uma cortina de pano e outra de lã, outra quer uma cortina de croché e outra cortina de renda.

Outra quer uma cortina simples, uma de cor clara outra de cor mais escura.

E outra quer cortinas de missangas.

As joaninhas anotam tudo, e põem mãos à obra. As fadas sabem que as joaninhas vão ter muito trabalho, por isso não marcam data limite de entrega.

Mas as joaninhas com o entusiasmo e a felicidade de terem novamente trabalho, fazem as cortinas num instantinho, dedicam-se com muito amor e carinho, cantam enquanto trabalham, ajudam-se umas às outras, quando o cansaço toma conta, e também descansam.

Umas joaninhas acabam mais depressa do que outras, conforme os pormenores que lhes pedem. As fadas pagam-lhes, e ficam completamente maravilhadas.

Gostam tanto delas, que depois das cortinas, pedem-lhes para fazerem as lindas roupas para os seus espetáculos, e para as quatro estações do ano, lençóis, cobertores, toalhas de mesa, paninhos para cestinhas e muitas mais outras coisas…cada qual a mais bonita, para as fadas e para os elfos.

As joaninhas nunca mais tiveram sossego, e como ficaram felizes! O bairrinho ganhou uma nova vida, muitas cores, e alegria…e as joaninhas, além de dinheiro, ganharam uma nova família…as fadas e os elfos.

As joaninhas passaram a assistir aos espetáculos e a levar muitos outros amigos e amigas, que adoravam, e também começaram a trabalhar com elas. Eram espetáculos carregados de cores, magia e alegria, boa energia, muita dança e muitos aplausos.

O bairro passou a ser conhecido pelo bairro das cortinas que chamavam a atenção de todos os visitantes, e aumentavam as muitas cores que já lá havia. As casas eram verdadeiras obras de arte, completadas com as belas cortinas que as tornavam mais especiais.

E vocês? Se vivessem neste bairro, como seria a vossa casa? Em cascas de nozes, em ouriços ou em troncos…? Tinham cortinas? Como seriam essas cortinas?       


FIM

Lálá

(4/Agosto/2016)

 


O sol vermelho



Era uma vez um sol que estava na sua casa muito sossegado e quando sentiu cheiro a fumo foi à janela…não queria acreditar no que estava a ver…o fumo vinha da Terra, a sua vizinha de quem tanto gostava.

O sol sentiu um calor enorme apoderar-se dele, e ouviu a Terra a pedir socorro.


- Então vizinha…precisas de ajuda…Ááááhhhhh…estás a deitar fumo…


- Socorro…estou a arder. – Grita a Terra muito assustada


- Como?


- São aqueles malditos lá de baixo que me habitam.


- As tuas bactérias.


- Nossas.


A Terra tosse. O sol quase explodia e ficou vermelho de raiva. Era mesmo vermelho que ele estava, e era dessa cor que se via da Terra, por trás da nuvem escura de fumo.

Estava prestes a explodir de raiva pela maldade que estavam a fazer com a Terra e a Natureza…e por isso sentiam-no escaldante. O sol começou a tossir com tanto fumo, e decidiu recolher-se. Só uns dias depois voltou à sua cor normal.

Noutro dia, umas crianças de um colégio com os avós, construíram um gigantesco sol, de espuma e pintaram-no com muito carinho. Puseram-no a secar no jardim, o sol corou, fizeram uma roda, dedicaram-lhe poemas, canções, aplausos e danças.

O sol ficou vermelho de felicidade, carinho, vaidade e gratidão, enviou beijinhos em forma de borboletas vermelhas que invadiram o jardim e pousaram nas bochechas de cada um.

Ficaram muito surpresos, brincaram com elas, elas dançaram para todos, foram aplaudidas e delicadamente acariciaram com as suas leves asas.

Quando voltam à sala, as crianças construíram outro sol e pintaram-no de vermelho e puseram-no à beira do outro. O sol sorriu corado.

Um grupo de pessoas crescidas recortou muitos sóis de várias cores e tamanhos, com mensagens muito bonitas, positivas, de coragem e força, e distribuíram pelas pessoas que estavam doentes.

O sol viu lá de cima, enviou um raio da sua luz, em forma de lágrima de cristal, rubi, pela tristeza de os ver doentes, mas eram lágrimas curativas, e para retribuir esse gesto tão bonito, abriu um grande sorriso, ficou vermelho e todos os que receberam as suas lágrimas recuperaram a sua saúde e alegria.

Mas houve uma situação em que ele ficou outra vez vermelho de raiva, quando viu uma imagem igual à sua transformada num espelho, e numa porta da casa de uma bruxa que vivia numa montanha. Quase explodia…


- Como é possível, este monstro usar a minha imagem neste sítio e para maldades? Não pode ser…no meio destas figuras! Horrendas.


Lança um raio vermelho e a sua imagem desaparece desse lugar. A bruxa fica fora de si, e tenta por outra vez a imagem do sol vermelho, mas o sol não deixa e grita-lhe. O sol consegue vencer.

O sol ficou vermelho para ajudar a cozinhar num grande pote que tinha muita comida saudável para pessoas que só comiam coisas que faziam mal.

O sol ficou vermelho para aquecer uma aldeia que estava congelada há muitos meses, e as pessoas estavam a precisar dele. Fizeram uma grande festa para lhe agradecer, e ele ficou vermelho de vaidade e felicidade. Agradeceu e brilhou forte nos dias seguintes.

Ao fim da tarde, quase à noitinha, o sol fica vermelho quando vê a lua a passar, tão bonita, com os seus vestidos tão elegantes e leves. Ela é uma das suas paixões, a outra é a Terra.

À noite, a Terra acende milhares de luzes, que o sol adora ver, por isso ele não aparece…fica no seu cantinho, a vê-las, e vai passeando pelo espaço para dar os bons dias a outros pontos do Mundo, onde às vezes fica vermelho de vaidade, outras vezes vermelho de raiva, outras vezes corado de ternura, e gratidão, e outras vezes de paixão e felicidade.

É melhor que o sol fique sempre vermelho por boas razões como nós não é? E vocês, já viram o sol de cor vermelha? Quando? Onde? Em que parte do dia? Porque acham que ele ficou vermelho?

Às vezes o sol é vermelho!


Fim

Lálá

(9/Agosto/2016)


        

Os novos donos do campo


fotos de Lara Rocha 
Era uma vez um conjunto de campos muito bem tratados, com erva fresca, aparada e aos molhos para os animais: ovelhas, cabras, cabritos, bodes, cavalos, bois, vacas, póneis, vitelas e burros comerem.
Mas ao fim desses campos bonitos havia um que estava abandonado, cheio de ervas enormes, umas verdes outras amarelas, quase do tamanho dos troncos das árvores, alguns com crateras que pareciam portas. Ao longe via-se uma casa grande em ruinas.
Um dia uns seres de espécies desconhecidas, muito pequenos, que pareciam bonecos feitos de paus ou ramos fininhos, não tinham casa fixa, andavam sempre em grandes grupos, foram passear e pararam a olhar para aqueles campos tão bonitos…mas quando viram o campo abandonado ficaram tristes.
Os mochos e as corujas perceberam que algo se passava de estranho, ficam agitadas, mas continuam de olhos fechados. Uma coruja abre os olhos mas não vê os seres. Volta a fechar os olhos e a dormir. As outras ouvem alguém a falar, mas o sono não as deixou perceber.
Os seres conversam uns com os outros:
- O que está ali? – Pergunta um ser
- Tanta erva tão grande e seca!
- Parece um campo.
- Devia ser, mas da maneira que está não sei bem o que é!
- Realmente! Será um campo? Tem uma casa ali ao fundo!
- Será que vive ali alguém?
- Não sei se se consegue viver ali…
- Mas não cuida do que está à volta?
- Vamos ver mais de perto.
E todos vão ver.
- Óh! É mesmo um campo e uma casa abandonada…
- Óh! Que pena!
- Porque não cuidamos nós disto?
- Como?
- Nem conseguimos entrar com a erva deste tamanho!
- Acho boa ideia.
- Deve ter muito bicho ai na erva!
Um deles pena num pau e começa a afastar a erva para abrir caminho, a olhar atentamente.
- Sigam-me…é seguro!
Cada um pega num pau do chão e abre caminho.
- Vamos ficar por aqui?
- Boa!
- Mas temos de limpar isto tudo.
- Claro!
- Como?
- Não é a primeira vez pois não?
- Não!
- E onde vamos fazer casas?
- Arranjaremos…vamos. Mãos à obra.
Um deles chama os animais do campo do lado para darem uma ajuda. Todos os animais ajudam a rapar a erva. Óh, que surpresa…a terra estava coberta de cascas de troncos, bolotas em carapuças, ouriços-cacheiros, castanhas, folhas, e musgo nos troncos.
Os seres aproveitam tudo para construir uma linda aldeia para eles, com casinhas feitas de cascas das árvores no chão, dos lados e por cima de carapuças das bolotas, dentro das crateras das árvores.
Nessa noite, as corujas e os mochos veem algo novo.
- Ááááhhhhh! – Exclamam todos
- Estou a sonhar ou isto está muito diferente?
- Está realmente muito diferente.
- Mas o que aconteceu?
- Boa pergunta! Este não é o espaço que eu conheço.
- Será que me enganei no terreno?
- Não! – Respondem todos
- Isto não estava assim.
- Pois não! – Dizem todos
- O que aconteceu? Perdi alguma coisa…?
- Só acordaste agora…sim, estamos todos a perceber que alguma coisa mudou aqui.
- Muita coisa!
- Estou a ver casas…?
- Sim! São casas. – Reparam todos
- Que bonitas!
- São mesmo.
- Quem as construiu?
- Se calhar foram as vozes que eu ouvia!
- E a agitação que eu senti, mas não consegui ver nada! Já foi de dia.
- Está tudo muito limpo.
- Que maravilha! – Dizem todos
- Finalmente. – Suspira um mocho
- Grandes habilidosos.
- Mas construíram tudo num abrir e fechar de olhos.
- Sim, enquanto dormimos!
- Mas onde estão as pessoas que as construíram?
- Já devem estar a descansar.
Entretanto sai um casal de seres, e outro e mais outro…vários para ver as estrelas. Os mochos e as corujas dão as boas-vindas e acham-nos muito estranhos, de aparência, mas logo percebem que são boa gente, ao enchê-los de perguntas. Nas noites seguintes constroem uma bela amizade, e dispõem-se logo a ajudá-los.
Os seres estão orgulhosos:
- Que lindas estão as nossas casas.
- Pois estão.
- Assim estamos abrigados do calor e do frio…das muitas que sobraram fizeram móveis para as casas, como bancos, mesas, cadeiras, camas, e utensílios de cozinha.
Os mochos e as corujas confirmaram que a casa estava desabitada, entram e limpam o espaço todo, as várias fontes de água, tanques e tudo o que estava disponível.
Transformaram as ruinas num salão de bailes e festas que adoravam fazer, porque todos eram artistas cheios de talento. Passaram a tratar daquele espaço com carinho, plantaram coisas, construíram uma verdadeira família com os mochos, e as corujas que estavam sempre disponíveis, e sempre que a erva começava a crescer, eles convidavam os animais para a comerem.
Eram na verdade uns seres encantadores, trabalhadores, preocupados, e assim o campo que estava abandonado, ficou tão bonito como os outros.
Fim
Lálá
(1/Agosto/2016)