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sexta-feira, 9 de maio de 2014

AS SAPATILHAS

       



      Era uma vez um menino pequenino que se lembrou de ir passear sozinho para o campo, onde os seus pais e avós trabalhavam. De repente, quando vai a correr, aparece-lhe um lobinho bebé. Menino e lobo gritam frente e frente, um para o outro, de susto.
-Ááááááááááhhhhhhhhhhhhhh….Aúúúúúúúúúúúúúúúúú…
O menino desata a correr de medo para um lado, e o lobinho para outro. Pelo caminho, as sapatilhas saem-lhe dos pés, e o lobinho que correu atrás de si, para lhe pedir desculpa, tropeçou nas sapatinhas, caiu e rebolou pelo campo fora, só parando contra uma árvore. Os passarinhos começam a rir às gargalhadas.
- Bem-feito, lobo atrevido! – Comenta um passarinho a rir
- Ei…eu sou um lobo pequenino! Qual é a piada?
- Estavas a perseguir o menino, tropeçaste nas sapatilhas dele…
- Malditas sapatilhas ou lá o que é…para que é isto serve? Eu não ia fazer-lhe mal.
- Ouvi-o a gritar…! – Diz outro passarinho
- Eu também gritei. Assustamo-nos um com o outro. Mas eu ia atrás dele para lhe pedir desculpa. – Explica o lobo
- Tu és malvado…não acredito em ti. – Diz outro passarinho
- Olha que salto já aí para cima, para veres quem sou realmente! – Ameaça o lobo
- Não precisas…! Eu vejo-te!
- Estás a dizer que sou mau…não sou.
- Ai não? Mas estás a ameaçar-me…
- Não! Ai…ninguém me compreende…toda a gente tem medo de mim! – E começa a chorar
- Não acredito nessas tuas lágrimas! – Comenta outro passarinho
- Mas devias acreditar…ele está mesmo triste! – Comenta uma lobinha que passa naquele momento
- O quê? – Perguntam os passarinhos em coro
- Outro? – Diz outro passarinho
- Outro quê? Vocês não entendem nada! – Diz a lobinha
- Vocês são maus e perigosos! – Dizem os passarinhos em coro
- E vocês são preconceituosos e racistas. Só porque uns totós se lembraram de inventar que somos maus, vocês já acreditam! Francamente. Ele está a falar verdade. – Diz a lobinha
- Claro! Estás a defender os da tua família. – Diz outro passarinho
- Não. Se fosse mau, eu seria a primeira a dizer, mesmo que fosse da minha família.
- A sério?
- Claro que sim.
- Vou-me embora! – Diz o lobinho triste
- Vou contigo! – Diz a lobinha
- Eu tropecei nesta porcaria… - Diz o lobinho
O lobinho fica todo esfolado, e não corre mais atrás do menino. Dá um pontapé nas sapatilhas, muito nervoso, e atira-as para a cabeça de um bode que estava muito tranquilo a pastar.
As sapatilhas ficam encaixadas nos cornos do bode. Todos os outros animais riem às gargalhadas.
- O que é que está na minha cabeça? – Pergunta o bode
- Umas coisas encaixadas nos cornos. – Responde a sua esposa cabra
- Mas o que é?
- São umas coisas…não sei o quê!
         O bode dá com os cornos no chão e as sapatilhas caem.
- Que coisa estranha…tem um cheiro diferente! – Diz o bode
- É aquilo que os humanos calçam nos pés. – Diz a cabra
- Como é que uma coisa de pés de humanos vem parar aos meus cornos? Que porcaria…cheira mal. – Resmunga o bode
         O Bode dá umas marradas nas sapatilhas e com um coice, manda-as para longe. Todos riem. As sapatilhas vão ter ao campo de baixo onde andam cães e cavalos, a correr. Caem no campo, passa um cavalo a correr e quase esmaga as sapatilhas. Não as vê.
O cão vai a correr e encaixa as sapatilhas em duas patas. Por causa disso dá uma valente cambalhota. Os cavalos riem. O cão nervoso sacode as patas e manda as sapatilhas para o chiqueiro, acertando em cheio no lombo de um porco. O porco grunhe nervoso, e estremece.
- Que susto! O que é que me acertou? Pedras? – Pergunta o porco
- Podemos jogar à bola com isso… - Diz outro porco
- Boa! – Gritam todos os porcos
         Fazem equipas, e jogam à bola com as sapatilhas, muito divertidos, com muitos trambolhões, cambalhotas e gargalhadas entre si. Quando o menino recupera do susto e volta para trás, repara que não tem as sapatilhas.
- Parece que o lobo já se foi embora…que susto! Agora…vou voltar para casa, espero que aquele malvado não apareça outra vez. Estou descalço? Onde estão as minhas sapatilhas? Devem estar por aí…
         O menino volta pelo mesmo caminho, a olhar para todo o lado, para ver se o lobinho não aparecia, e se encontrava as sapatilhas. Ele vê uma grande confusão e poeirada no chiqueiro.
- Os porcos andam à luta?
         O menino aproxima-se.
- Ei…o que se passa, porcos?
         Os porcos param de jogar e olham para ele.
- Estamos a jogar à bola…queres entrar? – Convida um porco
- Está bem!
         Ele entra no chiqueiro e nem quer acreditar…
- Não acredito! Vocês estão a jogar à bola, com as minhas sapatilhas? Olhem para elas…que nojo…
         Os porcos ficam envergonhados.
- Desculpa, miúdo…não sabíamos que eram as tuas sapatilhas.
- Mas são…como é que elas vieram aqui parar?
- Boa pergunta…acertaram-me no lombo e não sei como aconteceu.
- O quê?
         O porco conta a história do que aconteceu. O menino fica muito zangado. Pega numa bola que está no chiqueiro e joga com eles divertido. O Avô vai à procura dele, e chama-o.
- Estou aqui, Avô!
- O que estás a fazer no chiqueiro, filho? Olha para ti, todo sujo…
- Estive a jogar à bola com os porcos. Foi muito divertido, Avô…tens de jogar também com eles.
- Mas que disparate! – O Avô ri às gargalhadas.
- Quer jogar? – Pergunta um porco
- Vamos lá! – Responde o Avô.
         Avô e neto jogam à bola com os porcos, divertidos, com muitas gargalhadas.
- Mas que bem que os porcos jogam…sim senhora! – Diz o Avô a rir – Mas agora chega. Vamos embora.
- Obrigado, porcos…até logo.
         Os porcos grunhem, felizes. O menino pega nas sapatilhas e vai com o Avô de mão dada.
- Olha para essas sapatilhas! Que imundas…
- Avô…elas já andaram por muitos sítios hoje, até chegar ao chiqueiro…para fugir de um lobo bebé.
- O quê? Tiveste medo de um lobo bebé?
- Tive…e as sapatilhas fugiram-me dos pés, enquanto corri.
- O lobinho não te ia fazer mal.
- Não?
- Claro que não.
- Ele uivou.
- Pois…coitado do pobre…ficou com tanto medo como tu!
- Achas que ele teve medo de mim?
- Tenho a certeza.
- Mas eu tive mais medo dele.
- Talvez não.
- Ele deve ter voltado para casa…
- Pois. Fugiu como tu.
- Sim.
         Os dois conversam alegremente até casa. Ao chegar a casa, a mãe assusta-se, mas depois ri-se com o aspeto do Avô e do neto. Os dois contam o que aconteceu, e tomam um belo banho. A mãe lava as sapatilhas e põe-nas a secar.
       Mas que grande confusão que umas sapatilhas provocaram! E vocês? Arrumam as vossas sapatilhas ou deixam-nas no meio do caminho?
Se as deixam desarrumadas, é melhor arrumá-las para não caírem, nem vocês, nem os vossos pais. Podem magoar-se muito! Como elas são para andar nos pés…devem ficar no sítio dos sapatos…não é? Ou debaixo da cama…

FIM
Lara Rocha 
(9/Maio/2014) 

terça-feira, 6 de maio de 2014

A costureira de ondas



Era uma vez uma senhora já com muita idade, mas parecia muito jovem, e realmente, o seu interior era ainda de uma criança. Ela vivia sozinha, mas recebia sempre a visita de muitas amigas, todos os dias que iam lanchar a casa dela, conversar, rir e fazer arranjos ou roupas.
Era uma senhora muito bem-disposta, risonha, brincalhona e muito feliz. A sua casa ficava perdida num pinhal, e perto de uma praia, onde raramente iam pessoas, por ser de acesso difícil.
Mesmo assim, ela ia lá muitas vezes, com as amigas e sozinha. Gostava muito de se sentar no seu terraço, onde via o mar, e na areia. Enquanto ela olhava para o mar sonhava, imaginava, e depois, bordava todos os seus sonhos nas ondas.
Bordava em tecidos azuis, ondas muito grandes e redondas, com linhas de vários tons de azul, e verde, tal como ela via o mar em cada dia. Além das ondas, ela bordava o que tinha imaginado enquanto olhava para o mar, e às vezes eram coisas mágicas, objectos marinhos como conchas, algas, búzios, peixinhos, pedras, estrelas-do-mar, gaivotas, barcos, pescadores, sereias, golfinhos e muito mais.
Uma imagem mais bonita que a outra…cada linha do tecido, cada cor que ela utilizava, tinha um significado! Contava um pedacinho da sua imaginação, e do que ela tinha sentido, ou pensado nesse momento!
Geralmente, os seus sonhos eram felizes, porque todos os bordados eram muito coloridos, outras vezes, quando se sentia mais triste, bordava ondas gigantes, com círculos enormes, cores mais escuras e linhas brancas mais grossas, pareciam verdadeiras tempestades.
Um dia, numa noite de tempestade, o mal ficou louco de fúria, e o vento, juntamente com a chuva e a trovoada, engoliram a areia e chegaram ao pinhal. A chuva parecia pedra a cair e a bater nos vidros, com tanta força que quase os partia. O vento soprava tão forte, fazia muito barulho…até arrepiava a espinha, e quase deitava as árvores do pinhal abaixo…elas pareciam bailarinas para um lado e para o outro, folhas contra folhas, como se dessem cabeçadas, e partiram-se muitos caninhos. Caiam dezenas de pinhas, que eram atiradas pelo vento, contra a porta e contra o telhado da casa. a trovoada era tão forte, que viam-se flashes de trovões a iluminar tudo, e depois uns estrondos tão grandes, que a casa até abanava…que medo! Parecia um filme do fim do mundo.   
A costureira estava muito assustada, estremecia, encolhia-se, aconchegava - se mais nos cobertores, e os terríveis trovões rebentavam mesmo por cima da casa. Não havia maneira de fugir.
Como se tudo isto não bastasse, as ondas gigantes, subiram a praia e entraram por baixo da porta da sala. Molhou tudo. Até alguns trabalhos que a senhora tinha feito ultimamente sobre o mar.
Uma onda viu os trabalhos e ordenou:
- Meninas…vamos embora! Esta casa não é para estragar…olhem nós aqui!
            As outras ondas apreciam:
- Áhhh! Que bonitas…!
- Uau! Nós somos assim?
- Ááááhhh…
- Olha que bem que estamos!
- Lindas!
- Esta é casa daquela senhora que vai sempre à praia olhar para nós…
- Ááááhhh…!
            E as ondas levam os trabalhos da senhora. Saem a porta, e ficam a ler os bordados no pinhal. As ondas percebem a linguagem dos sonhos, por isso, tudo o que a senhora bordou, elas lêem, e comentam umas com as outras.
- Áh! – Suspiram todas as ondas encantadas.
- Mas que maravilha esta senhora!
- Olha que linda…
- Áhhh…ela aqui estava mesmo triste…
- Coitadinha!
- Olha como ela nos pôs aqui…parecemos uns monstros.
- Deve ter sido num dia parecido com o de hoje.
- Sim, estávamos mesmo zangadas.
- Pois era!
- Ááááhhh…que romântica!
- Ai, até fico comovida.
- Óh mulher, segura lá essas lágrimas. Já há aqui água que chegue.
(Todas riem)
- Pois…já me esquecia que sou água salgada…
(Riem)
- Que sonhos tão bonitos, que tem esta senhora.
- Olha, até está aqui a nossa sereia…
-Áh! Pois é.
- Meninas…olhem esta história…Ááááhhh…
            Elas lêem, encantadas, suspiram, sorriem, riem e choram, conforme o que a senhora bordou. A tempestade acalma. A senhora vai à sala, e vê tudo encharcado.
- Áh! Não posso acreditar…está tudo molhado. O mar entrou aqui…! Os meus últimos bordados…? Ai…lá foram eles, com o mar…
            Ela ouve uma voz:
- Estão aqui connosco.
- Estamos aqui.
            Ela abre a porta e vê que há ondas no pinhal. As ondas dizem em coro:
- Boa noite, bela senhora.
            Quem está aí?
- As ondas…!
- O quê?
            As ondas explicam à senhora, e conversam um pouco, depois do susto:
- Sim…nós chegamos até aqui, trazidas pelas trovoadas e pelo vento.
- Que noite! Parecia o fim do mundo.
- Não se preocupe com os seus trabalhos. Estão inteiros…
- Onde?
- Aqui, connosco.
- Mas quem deu autorização?
- Desculpe o abuso…mas vimo-nos aqui nos tecidos, e gostamos tanto, que lemos os seus sonhos, e os seus sentimentos.
- Áh! Sim…? – Diz a senhora a sorrir
- São lindos!
- Estamos embaladas pelos seus sonhos…e sentimentos.
- A sério?
- Sim.
- Vocês entendem a linguagem dos sonhos?
- Sim!
- Conseguimos entender cada desenho seu.
- São bordados.
- Lindos!
- Como faz isto?
- Com linha, e agulha.
- Que delícia.
- É romântica…e às vezes também fica triste.
- Claro.
- Mas nota-se que é uma senhora feliz.
- Sim, isso é verdade. Muito feliz.
- É. Usa muita cor, e escreve palavras muito boas, bonitas, sonoras…
- Para algumas pessoas, não passam de desenhos, mas para mim, têm muitos significados.
- Pois claro! E nós entendemos.
- Que coisas mais lindas…
- E sentimos que gosta de nós.
- Também…muito. Vou ver-vos todos os dias, e depois, passo para os tecidos, o que me disseram nesse dia…o que eu senti…o que eu vi, ou que imaginei.
 - Muito obrigada.
- Por favor, vá visitar-nos mais vezes, e leve os seus desenhos…
- Está bem! Fica prometido.
- Nunca deixe de desenhar o que sente, e nunca deixe de sonhar.
- Pois não. Isso é o que me mantém viva, jovem, apesar da idade, e quebra a solidão.
- Quando se sentir sozinha pode vir ter connosco.
- Está bem. Irei. Posso pedir-vos uma coisa?
- Claro.
- Façam-me um carinho, por favor…
- Mas…
- Vai ficar molhada.
- Cheiram tão bem. Vá lá…toquem-me.
- Mas, olhe que estamos frias…
- Não faz mal. Eu quero sentir-vos.
- Mas nós não queremos que fique doente.
- Não…
            E as ondas aproximam-se devagar, carinhosa e delicadamente da senhora, dos seus pés, e acariciam-na. Ela molha os pés, e as mãos. Dá uma gargalhada, como se fosse uma criança. As ondas riem com ela. E brinca com as ondas, chapinha, senta-se, acaricia-as e molha-se, ri, e as ondas riem com ela, dançam juntas, e trocam carinhos.
O sol está quase a nascer. A senhora está, como se tivesse dormido a noite toda. Levanta-se do pinhal, feliz e sorridente, as ondas voltam para a praia, também felizes.
Ela entra em casa, toma um bom banho quente, e um bom pequeno-almoço, veste uma roupa quente, acende a lareira, e pega num pano azul. Enquanto se aquece, põe-se a bordar o que aconteceu e o que sentiu.
Primeiro…bordou a tempestade, o medo, os barulhos, o vento, a chuva, as pinhas a bater no telhado e nos vidros, os trovões…cores escuras…depois…bordou a parte mais feliz! O seu encontro com as ondas, as conversas, as brincadeiras, as carícias, e o que sentiu.
A senhora já tinha construído milhares de bordados com momentos e sentimentos felizes, mas este último, tinha sido o bordado mais completo e mais especial.
No final do quadro, bordou uma senhora, com uma criança dentro dela. Isto queria dizer que naquela noite, ela sentiu-se criança outra vez, e foi por isso que ficou tão feliz!
Como tinha prometido, levou o bordado à praia e mostrou às ondas. As ondas aplaudiram, vaidosas e emocionadas. Cada onda beijou o pano carinhosamente.
Essa felicidade, tal como a criança que ela bordou dentro do corpo da senhora, passaram a fazer parte dos seus dias.   

FIM
Lálá
(6/Maio/2014)







sexta-feira, 2 de maio de 2014

OS OVOS

      

desenhado por Lara Rocha 

       Era uma vez um coelho que vivia numa floresta. Todos os anos, na altura da Páscoa este e muitos outros coelhos não tinham descanso.
    Trabalhavam dia e noite, horas e horas, trocavam uns com os outros para descansar à vez, e mesmo assim não paravam muito tempo.
      Tudo tinha que estar lindo, perfeito e pronto nos poucos dias que tinham. Era uma grande agitação, mas também uma grande alegria.
    Eram ovos e coelhos por todo o lado. Uns punham os ovos a cozer, outros punham-nos a secar, outros pintavam-nos cheios de cores, outros embrulhavam-nos em lindos papéis e outros punham-nos nas cestas para distribuir.
   Chegou a véspera do grande dia, e os coelhos responsáveis pela distribuição estavam eufóricos, felizes e vaidosos. Mas infelizmente, houve um coelhinho que ficou doente, e foi substituído por outro. 
        O coelho FLOCO de pelo branquinho e brilhante era muito despachado e gostava muito de ajudar. Foi ele que substituiu o coelhinho que ficou doente. Distribuiu os primeiros, ainda de madrugada, mas de repente, sentiu-se fraco e cansado. Olhou para as horas e disse:
- Ainda é cedo…ai…estou tão cansado! Acho que vou descansar só uns minutinhos. Desculpem meninos.
        E deita-se, adormecendo logo a seguir. Entretanto, com os primeiros raios de sol, passa pela floresta um menino misterioso, com os passos muito levezinhos, e vê os ovos na cesta. Ficou com água na boca, pega na cesta e desata a correr com ela.
        Deixa as pegadinhas no chão. O coelho acorda sobressaltado.
- Óh…já é de manhã. Tenho de me despachar…como é que eu dormi tanto? Ai… (prepara-se para pegar na cesta) Onde está a cesta? Eu deixei-a aqui. Levaram-ma? Óh, não…não pode ser…! E agora…? Ai…que vão dar cabo de mim. Mas quem é que os levou?
        O coelhinho começa a correr, a olhar para todo o lado, e olha para o chão.
- Há aqui pegadas…
        O coelhinho segue as pegadas e vai ter a uma gruta onde estão meninos de rua.
- As pegadas acabam aqui. Então…o ladrão está aqui.
        Entra na gruta e grita:
- Ei, óh, ladrão…devolve os meus ovos…esses são para os meninos. Tu não pediste, de certeza.
        Os meninos encolhem-se todos e choram a tremer. Estão com aspecto descuidado e sujo, mas na verdade não fazem mal. Só procuram comida e carinho. O coelho grita:
- Vamos…devolvam os ovos…
        O menino mais velho devolve a cesta inteira.
- Não falta nenhum? – Pergunta o coelho e conta-os – Está tudo. Seu atrevido. Vou-te dar uma coça!
        E os meninos desatam a chorar.
- Escusas de te esconder…e de fazer de conta que choras muito. Isso não me preocupa. Tu roubaste ovos…isso é muito feio! Depois, tive muito trabalho a fazê-los! Eu e os meus familiares! Passamos dias, noites, e horas a preparar os ovos, e ficamos muito cansados. Foi por isso que eu adormeci, e vocês, seus bandidos, aproveitaram logo! - Explica o coelho
- Desculpe…não foi por mal! – Diz o menino mais velho a tremer e a chorar
- Onde estão os vossos pais?
- Não sabemos. – Respondem em coro
- O quê? – Pergunta o coelho
- É. – Dizem em coro
- Os nossos pais abandonaram-nos na rua! – Diz uma menina
- Não sabemos quem são! – Diz outra menina
- Nunca nos foram buscar! – Diz outro menino
- Mas…como assim? – Pergunta o coelho
- Fomos abandonados. – Diz o menino mais velho
- Vivemos na rua, desde que nascemos. – Diz uma menina
- As roupas que temos, e alguma comida que vamos metendo para a barriga, são umas pessoas muito boas que nos dão… - Acrescenta outra menina
- Nós encontramos aqui esta gruta, e aqui estamos já há muito tempo. – Diz o mais velho
- Pelo menos aqui estamos protegidos, e temos quase tudo. – Diz outra menina
- Só nos faltam os pais. – Suspira um menino pequenino
- Sim, porque somos uma família. – Diz outra menina
- Sabe…é muito triste. Mas tem toda a razão, eu não devia ter roubado! Estava com tanta fome...hoje ainda não chegaram.
- Que pouca sorte! Eu posso ajudar-vos! – Suspira o coelho triste.
- Pode? Como? – Perguntam em coro
- Vão trabalhar para a minha fábrica, os meus pais dão-vos dinheiro, alimentação e tudo o que precisarem.
- Não.
- Não queremos ser um peso para ninguém!
- Não são peso. Eu quero ajudar-vos. Querem ajudar-me a distribuir os ovos?
- Sim! Vamos…-Gritam todos
- Mas antes, vão tomar um bom banho, e vestir roupas novas.
- Isso não temos.
- Mas tenho eu. Venham comigo.
        O coelho leva os meninos para casa dele, e eles tomam um belo e delicioso banho, muito felizes, por ter água quente, e sabão. Limpam-se, e vestem umas roupas do coelho. O coelho prepara-lhes um delicioso pequeno-almoço, e comem com apetite, com um grande sorriso.
- A tua casa é maravilhosa! – Elogia uma menina
- Sim, parece de bonecos. – Acrescenta outra menina
- Muito obrigado. – Diz o coelho sorridente
- Muito obrigado nós. – Diz o menino mais velho
- Vamos. – Diz o coelho
        O coelho explica a cada um o que tem de fazer com os ovos da cesta. Todos estão muito atentos, e fazem o que ele diz. Num instante, todos os ovos ficam entregues aos meninos a tempo, apesar dos atrasos que o coelho tinha passado.
        Uns para um lado, outros para outro, outros para outro e para outros sítios. Os meninos fazem essa tarefa com um lindo, e aberto sorriso.
    Depois da distribuição, o coelho apresenta os meninos aos seus pais, que os empregam imediatamente na fábrica, e prometem ajudá-los em tudo o que precisarem.
Os meninos começam logo a trabalhar muito bem, e com gosto, com grande dedicação. Os pais do coelho estão orgulhosos do seu pequeno, e são muito bons. Acolhem os meninos, e tratam-nos como se fossem verdadeiros filhos.
Desde esse dia, os meninos encontraram uma verdadeira família, embora fossem coelhos, tratavam-nos com muito amor e carinho.
Afinal…o quase roubo dos ovos, foi um caminho para os meninos encontrarem uma verdadeira família. E nunca mais voltaram a roubar nada, nem a ter fome, nem frio.
E vocês?
Se fossem coelhinhos e encontrassem meninos de rua numa gruta, faziam a mesma coisa?
Também teriam roubado os ovos? Isso não se faz! Roubar é mau, e pode trazer-vos muitos problemas. Além disso, para os vossos papás, ia ser uma enorme tristeza, que soubessem que vocês roubavam.

FIM
Lara Rocha 
(2/Maio/2014)



A bola mistério


























Era uma vez um pequenino duende que passeava pela floresta, sem pressa. Colheu flores para a sua apaixonada, e conversou com quem se cruzava. Sentou-se à beira do rio, e fechou os olhos.
Respirou fundo, e abriu as mãos para agradecer ao Universo, o dia e a noite, a sua saúde, a beleza da natureza, a família, o trabalho, o dinheiro, os animais, os alimentos e tudo o que tinha.
Os macacos das árvores à sua volta apercebem-se de alguma coisa a voar a grande velocidade pelo céu. Seguem o objeto com os olhos, muito surpresos, e ao mesmo tempo assustados. Eles trocam impressões um com o outro:
- O que é aquilo? - Pergunta um macaco baixinho para não atrapalhar a meditação do duende.
- É uma coisa!
- Que é uma coisa, eu já vi…mas o que é?
- Não sei. Não consigo ver…está muito longe.
- Espera…está a dirigir-se para aqui…
- Esconde-te!
- Tu também.
Os macacos metem-se na toca, abraçados, a espreitar pela entrada.
- Ai…acho que é o nosso fim.
- Cala-te! Estás a assustar-me.
- O quê? – Pergunta outro macaco sonolento
- Amigo…o mundo vai explodir.
- O quê?
- Vem aí uma coisa…
- Isso foi só… (boceja) no tempo dos…daqueles…ossudos…! Fiquem descansados.
       Responde o macaco sonolento.
- É mesmo verdade? – Pergunta uma macaquinha nervosa
- Quem vos disse? – Pergunta outra macaquinha nervosa
- Olha…está cada vez mais perto! – Diz o macaco muito assustado a ver pela frincha
- O quê? – Perguntam em coro
- Tu não estás bom da cabeça pois não? – Pergunta uma macaquinha
- Deixa ver…! – Diz a outra macaquinha
- Não estamos a brincar. – Garante o macaco
- Ai…gosto muito de vocês todos! – Diz uma macaquinha muito nervosa…
- Eu também. – Respondem em coro
- Sendo assim…vamos dar todos as mãos…acabamos todos juntos, como sempre andamos. – Sugere outra macaquinha.
      Espreitam, dão as mãos, fecham os olhos, e de repente, cai uma enorme bola branca nas mãos do duende. Os macacos encolhem-se e gritam o quanto mais podem, chiam, saltam, correm de uma lado para o outro, rebolam, caem, tropeçam uns nos outros, é uma grande confusão. 
      O macaco sonolento, acorda e segue os amigo. O duende grita, e os seus dedos começam a latejar de dor. Os malandrecos macacos começam às gargalhadas.
- Mas o que é isto? – Grita o duende quase a explodir de raiva – Quem fez isto? Foram vocês, seus macacões?  
- Não! – Respondem os macacos.
- Desculpa…magoaste-te? – Pergunta outro macaco
- Que pergunta, mais imbecil…se te caísse uma bola em cima dos dedos, não te ia doer…? – Pergunta o duende
- Óh, claro que sim… - Responde o macaco
- Mas foram vocês? – Pergunta o duende
- Não! – Respondem em coro
- Esperem…o mundo não acabou! – Reflete uma macaca
- Pois não! – Dizem em coro
- Estamos vivos! – Gritam em coro - Éééééééhhhh….
- Mas quem é que disse que o mundo ia acabar? – Pergunta o duende
- Vimos uma coisa a voar no céu, em direção à terra…e quando se aproximou daqui, pensamos que ia derreter a terra. – Explica um macaco
- O quê? O que é que viram? – Pergunta o duende
- Essa bola que tens aí nas mãos! – Responde outro macaco
- Mas isto não é uma bola qualquer…! E tinha logo que cair em cima de mim! - Observa o duende.
- Acertaste! Essa não é uma bola qualquer… - Responde uma voz feminina com eco
      Todos estremecem e procuram a voz.
- Estou a ouvir coisas…? – Pergunta o duende
- Não. Estás a ouvir a minha voz. E a minha voz, não é uma coisa.
- Desculpa, não queria ofender…é que não vejo ninguém.
- Pois não. E não é para ver…é para ouvir, e sentir.
- Mas quem és tu? Ou quem é você?
- Podes tratar-me por tu. Um dia descobrirás quem sou.
- Que misteriosa…gosto de mulheres misteriosas…são atraentes.
      Ouve-se um chicote que bate no duende. O duende salta e grita.
- Ai.
- Respeito! Tens de aprender a sentir uma mulher…a gostar dela sem tê-la.
- Ora, nós queremos ver mulheres, como vocês, querem ver homens.
   Outra vez o chicote, que desta vez, dá várias voltas e várias fustigadas. O duende grita e salta.
- Ai…que má!
- Mas que limitados que vocês são! Carnais! Uma mulher é como uma flor delicada…bela para ser apreciada, e acariciada, com toques na sua alma, não é com apertos esfomeados.
- Desculpa se te ofendi. De onde veio esta bola que quase me esmagou os dedos?
- Fui eu que te mandei.
- Para quê?
- Essa bola não é uma bola qualquer…ela tem muito poder.
- Poder? Para quê?
- Abre-a.
- Como?
- Descobre.
- Que mistério…
- E tens medo dos mistérios?
- Tenho.
- Não. Não tens é paciência…é como vocês fazem com as mulheres! Não têm paciência para conhecer a mulher na sua profundidade… porque elas dão trabalho. Essa bola vai ensinar-te muito. Se queres ver o que ela tem dentro, tens de a conhecer, explorar com carinho, tentar, falhar e voltar a tentar…
- Mas o que é que ela faz quando abre?
- Verás!
- Vais aparecer?
- Não.
- Porque não?
- Porque não sou para aparecer.
- Mas…
- Boa sorte! E não desistas.
    A voz cala-se, os macacos estão gelados de medo. O duende está muito surpreso.
- Ouviram aquilo? – Pergunta o duende aos macacos
- Sim!
- Quem será?
- Não sei.  
    Ele pega na bola e esta fica do tamanho de um berlinde. O duende acaricia-a, vira para um lado, vira para o outro, e segue o seu caminho muito pensativo. 
   Por onde passa, todas as flores que estavam em botão, abrem, enormes. Os casulos rompem e saem de lá, lindas borboletas. Dos ovos, começam a sair os passarinhos, que cantam docemente, e das tocas, os coelhinhos. As joaninhas dão pequeninos voos e pousam nas flores.
    Pelas portas das casas, por onde passa, e onde há casais zangados, estes fazem as pazes, e voltam a estar apaixonados. Passa pelo hospital, e da bolinha saem potentes raios de luz, que entram pelas janelas dos quartos. 
    No dia a seguir, todos os doentes ficam curados. O duende começa a perceber os poderes da bola. E todos os dias, quanto mais o duende explora, procura, acaricia a bola, com toda a delicadeza e carinho, acontecem novas e maravilhosas coisas, sempre que ele passa. A bola mistério faz verdadeiras magias.
O duende não se separa mais dessa bola, e depois de descobrir todos os poderes da bola, torna-se muito conhecido, ajuda milhares de pessoas que lhe pedem, e que ele acha que precisam. Ficou conhecido como o duende Anjo. Toda a gente gostava dele.
- Esta bola faz milagres! – Comenta o duende feliz
- E sabes porquê? – Pergunta a voz – Porque tiveste paciência, soubeste descobri-la, experimentá-la, e cada vez que a acariciavas passavas-lhe a tua luz, que é linda, pura, bondosa. Essa bola é um prémio pela pessoa que és. Se não fosses assim, a bola nunca funcionaria. Mas tu tens poder. Nunca deixes de ser assim.  
- Áhhh!
- Essa bola só reforça o poder que tens! Todos temos esses poderes, mas nem todos sabemos usá-los, às vezes até fazemos pior, ao querer ajudar…porque não conseguimos ser verdadeiros nos sentimentos. E a partir de agora, estás preparado para conhecer mulheres muito especiais, ajudá-las. Agora aprendeste a tratá-las como mulheres.
- Sim. É verdade! Agora entendo porque é que elas fugiam de mim, ao fim de algum tempo. Porque era muito apressado.
- Claro! Elas não gostam de pressas, nem de possessões. Gostam de ser tratadas com delicadeza, respeito, gostam de ser conquistadas dia após dia, com coisas simples, verdadeiras, sem pressa. E a mulher é uma verdadeira bola mágica…os seus poderes especiais vão-se revelando, às vezes de forma tímida, mas quando mostram, marca-vos para sempre!
- Entendi! Muito obrigado por esta aprendizagem…
- (sorri) A bola não te caiu por acaso. Caiu nas tuas mãos, para ti! Porque tinha coisas para te ensinar.
- É verdade. E aprendi mesmo muito.
- Na nossa vida, todos os dias, ou muitas vezes, caem-nos bolas misteriosas nas mãos…enfrentamos pequenos ou grandes acontecimentos, que sentimos de forma diferente, uns dos outros. Esses acontecimentos, que podem parecer obstáculos ou atrasos, ou muito difíceis, são bolas mágicas, misteriosas, para aprendermos alguma coisa com eles, para amadurecermos, e construirmos um mundo melhor. No entanto, nem todos conseguimos entender as lições à primeira…por vezes, só muitos dias depois é que a bola mágica se abre, e está lá a explicação. Todos podemos ser bolas mágicas uns para os outros…tudo depende da forma como nos descobrem, e de como nos tratam.  
- Sim. É verdade. Agora entendi tudo.
   E desde que esta bola misteriosa caiu nas mãos do duende, ele nunca mais foi o mesmo. Tornou-se numa pessoa melhor, mais dócil, menos egoísta.
- Mistério desvendado! – Diz o duende, sorridente.

FIM
Lara Rocha 
(2/Maio/2014)