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domingo, 9 de março de 2014

A LAGARTA




    Era uma vez uma lagarta magra, e cheia de fome e sede. A pobre lagarta voltava de uma grande caminhada e estava muito cansada, fraca, já quase não se segurava de pé. 
    Era Inverno, e na Terra onde ela tinha estado, o lugar que inicialmente tinha ver de e comida e bebida à farta, agora só se via neve! 
    Por causa de tanta neve, a lagarta ficou sem alimento e desceu a montanha pelo riacho, aos trambolhões à procura de algum sítio onde houvesse o que comer.
- Pobre lagarta…! Vais chegar lá abaixo? – Pergunta um passarinho
- Vou…tenho de conseguir! – Responde a lagarta quase sem força
- Acho que nem a meio chegarás…pobre bicha. – Diz um peixinho do riacho
- Obrigada pelo apoio. Verás! – Diz a lagarta
- Boa sorte! – Dizem os passarinhos  
- O que é que lhe terá dado na cabeça para fazer esta caminhada toda? É louca! – Comenta outro peixinho
- A fome! A necessidade…a luta pela sobrevivência! – Diz a lagarta
- Desculpa…acho que essa tua luta não vai valer de nada… - Diz um peixe grande do riacho
- Obrigada… - Diz a lagarta
- Não lhe dês ouvidos, lagarta…segue a tua força! – Incentiva outro peixe grande
- Será que ela quer um empurrãozinho? – Pergunta o peixinho pequenino
- Não. Obrigada. – Responde a lagarta
- Deixa-te ir ao sabor da água… - Diz outro peixinho
- Força! – Diz o peixinho pequenino
- Tu consegues! – Acrescenta o outro peixinho pequenino
- Sim, consigo! – Garante a lagarta
- Boa viagem! – Gritam todos
     A lagarta lá segue o seu caminho, a suspirar e quase sem forças. Não encontrou nada. Ela bem olhava para todo o lado, mas só via branco…e gelo! Até o riacho tinha bolas de gelo e partes congeladas.
- Que pena o gelo não se poder comer. Espera…não serve para comer, mas serve para me transportar.
     E salta para cima de uma bola de gelo, até chegar ao término do riacho. A lagarta nem queria acreditar no que os seus olhos inchados e quase a sair de órbita, estavam a ver.
- Áh…será que…estou mesmo a ver isto? Ou será que…estou a…delirar e a sonhar acordada…com tanta fome?
     Os sapos e as rãs que viviam na margem do riacho olham para ela.
- Que nojo! – Diz um sapinho pequeno
- Ele está a falar de mim? – Pergunta a lagarta para si mesma
- O quê? – Perguntam os pais
- Aquilo que está ali na água!
- Sim…é mesmo de mim…olhem-me o pirralho! Se não estivesse tão cansada, ele ia ver o que era o nojo! – Comenta a lagarta
- Óh! É uma lagarta…onde está o nojo? – Explica a mãe rã
- Nele mesmo, é claro. Nunca deve ter olhado para ele! Coitadito… - Murmura a lagarta
- Filho, respeita a diferença…não é nojo…é um animal…um ser vivo, inofensivo! Ele pode dizer o mesmo de nós. – Explica o pai sapo
- Com certeza! – Diz a lagarta para si mesma. Pega que já almoçaste…pirralho metido a grande… (suspira) Ai, até eu já almoçava mas era comida a sério. – Murmura a lagarta
- Não quero saber o que ele pensa de mim…eu sou muito mais bonito.
- Éh lá…a parvalheira começa cedo, nestes animais…! Pobre mãe! – Murmura a lagarta  
- Mas que grande convencido! – Diz outro sapinho pequeno
- Também acho! – Concorda a lagarta
- É verdade! – Diz o sapinho
- Nunca vi nenhuma coisa destas por aqui, mamã… - Diz uma rã pequenina
- O quê? Estás a precisar de óculos…diz outra rã pequenina
- Não estou nada.
- Elas vêem-se bem!  
- Andas sempre com a cabeça na luz, não vês nada, mas elas existem aqui mesmo ao nosso lado. – Diz a rã
- São de comer? – Pergunta a rã pequenina
- Que disparate! – Comenta a lagarta para si mesma
- Não! – Respondem os pais sapos
- Até o mais burro dos burros sabe que não somos de comer. – Comenta a lagarta
- São para deixar em paz. – Diz outro sapo
- Sim…claro que são para deixar em paz! Ai…quero comer. – Diz a lagarta
- Ela não me parece muito bem-disposta. – Comenta uma rã
- Pois não! – Respondem todos
- Ei…- Diz um sapo
     A pobre lagarta quase cai na água. Os sapos e as rãs ficam muito preocupados e ajudam-na a sair da água.
- Coitadinha! – Dizem em coro
- Parece estar doente! – Comenta uma rã
- Amiga…estás bem? – Pergunta outra rã
- Ai…! – Suspira a lagarta
- Não te preocupes! Estás a salvo. – Diz o sapo
- Vão-me comer? Quero… - Diz a lagarta
- O quê? – Perguntam em coro
- Não! não te vamos comer…fica descansada. – Assegura outro sapo
- Acho que ela é que quer comer! – Diz uma rã pequenina
- Sim! – Responde a lagarta – Muito fraca…fome…comida! – Responde a lagarta
- Áh! Queres comer? – Perguntam em coro
- Sim, por favor! – Pede a lagarta
    Os sapos e as rãs juntam logo muita comida para a lagarta, que come deliciada, cresce e ganha força. Ainda tem fome. Come mais, e ganha barriga.
- Hum…que delícia! – Exclama a lagarta – Boa! Afinal os meus olhos estavam mesmo a ver, o que eu achei que tinham visto.
- O quê? – Perguntam todos
- Eu vim pelo riacho abaixo. Só via gelo…mas…quando parei, achei que vi belas folhas verdes, mas depois pensei que tudo era imaginação minha…mas não! era tudo verdade! Óh! Muito obrigada. – Explica a lagarta.
- E porque é que estavas assim com tanta fome? – Pergunta um sapo pequenino
- Já venho a andar há muito tempo.
- De onde vens? – Pergunta outra rã
- Venho da montanha muito alta, onde estava tudo congelado. Não havia nada para comer! – Diz a lagarta
- Aqui não te falta comida! – Diz uma outra rã
- Parece que não! – Diz a lagarta
- Deves estar muito cansada, não? – Pergunta outro sapo
- Sim! Muito cansada. Posso ficar por aqui? – Pergunta a lagarta
- Claro que sim! À vontade! – Respondem em coro
- Se quiseres comer mais…serve-te à vontade! – Informa outro sapo
- Mais tarde! – Responde a lagarta
   A lagarta boceja e deita-se ao sol, em cima de uma grande folha. Dorme um belo sono, e acorda outra vez cheia de fome. Vai à horta, e come uma série de molhos de folhas…até que ficam com uma barriga tão grande…mas tão grande…gorda…que quase não se consegue mexer. Os sapos e as rãs ficam muito assustados com o seu tamanho.
- Isto não é uma lagarta…! – Comenta uma rã assustada
- Gente…acho que acabamos de alimentar um monstro! – Comenta um sapo
- É no que dá sermos bons. Não sabemos quem nos bate à porta! – Diz um sapo
- Confiamos nas aparências… - Acrescenta uma rã
- É por isso que eu sou má e antipática, com quem não conheço! É por medo. – Revela outra rã
- Que medo! – Dizem os pequenos.
- Os donos da casa não vão gostar nada disto! – Comenta outro sapo
- Como é que ela conseguiu comer tanto? – Pergunta um outro sapinho pequenino
- Será que ela tinha mesmo assim tanta fome? – Pergunta uma rã pequenina
- Já não devia comer há meses! – Diz outro sapinho pequenino
- Deve ter a bicha solitária… - Comenta uma rã
- Acho que ela vai estourar! – Diz outra rã
      Os donos da casa nem querem acreditar na destruição.
- Mas o que é isto? – Pergunta a senhora chocada
- Não posso acreditar! – Diz o senhor
- Anda aqui toupeira…! Raios…! – Diz a senhora
- Malditas! – Gritam os dois
     A lagarta encolhe-se toda, e tenta enrolar-se sobre si mesma para não ser apanhada, mas não consegue, com tanto que comeu, e de tão gorda e grande que está. A pobre lagarta treme muito, cheia de medo
- Óh, não…porque é que eu comi tanto…porque é que eu sai da montanha…óhhh…que sorte a minha! Agora não me consigo mexer…estou uma bola…ai…que vou ser esmagada! Ai…ai…ai…! Alguém me ajuda! Óh não…! – Lamenta a lagarta
      A senhora olha para o chão.
- Não é toupeira…é uma…cooooooooooooobbbbrrrrrrrrrraaaaaaaaaaaaaaa…ááááááááááááááhhhh….que nojooooooooooo!
- Para de gritar…estás louca…! Uma cobra o quê? É uma lagarta. Foi ela que comeu isto tudo, olha como ela está.
- Uma lagarta? Cruzes…que coisa mais monstruosa…como é que isto apareceu aqui? Claro…só pode ter sido ela que comeu isto…mas como é possível?! Nunca vi. Desgraçada…atrevida…
- Mata-a!
- Não é preciso.
- Eu não quero essa porcaria aqui.
- Ela vai já desaparecer.
    Ele pega na lagarta e atira-a para um lameiro. A lagarta grita e cai numa poça onde estão muitas outras lagartas.
- Visitas? – Pergunta uma lagarta
- Olá! – Gritam todas sorridentes
- Bem-vinda! – Diz a rainha
- Não fechamos a porta a ninguém! – Acrescenta outra lagarta
- (sorri) Olá! Que simpáticas.
- Gostamos de receber bem quem nos visita. – Diz a rainha lagarta
- Eu…acho que vou ficar aqui para sempre…! Posso? – Pergunta a lagarta
- Claro que sim…! Aqui não te faltará nada! – Diz a rainha
- Gosto deste sítio, e ainda agora cheguei. – Comenta a lagarta
- Mas de onde vens? – Pergunta outra lagarta
- Vim da montanha gelada! – A lagarta conta a sua história, todas ouvem, ficam comovidas e cada uma conta a sua história.
- Aqui serás muito feliz, podes ter a certeza! – Diz outra lagarta
- Não falta nada…nem comida. E somos uma verdadeira família.
     E desde esse dia, a grande lagarta continuou a crescer e a engordar com as outras. As outras tinham toda a razão…a lagarta passou a fazer parte de uma verdadeira família, com comida à farta, sem precisar de ir para as hortas destruir as couves. Juntas fizeram muitas festas, brincadeiras e banquetes.

                                                           FIM
                                                           Lara Rocha 
                                                           (5/Março/2014)  





quinta-feira, 6 de março de 2014

A menina e a pena

Era uma vez uma menina que foi passear pela praia com a sua avó. Enquanto a avó ficou a apanhar sol, sempre de vigia, a menina foi para a beira da água. Mergulhou feliz nas possecas, e viu uma linda pena, cheia de cores, a pairar sobre o mar e a balançar suavemente.
- Áh! Que linda pena. De onde vens?
- De muito longe, acho eu…pelo menos já ando por cima da água há muito tempo!
- A quem pertences?
- Pertencia a uma ave rara, que foi para um país frio, muito longe daqui.
- E não te levou?
- Não!
- Porquê?
- Não sei…se calhar fazia-lhe peso!
- Mas ela não tinha mais penas?
- Tinha! Tinhas milhares de penas…e muitas caíram pelo caminho.
- Coitadas! Devem ter-se magoado.
- Não. Nós somos leves, quando caímos é devagar, em cima de sítios confortáveis…e mesmo quando caímos em cima de sítios duros, não sentimos.
- Áh! E não ficaste com pena dela?
- Não. Ela nem vai dar pela minha falta.
- Não?
- Não!
- Porque não?
- Porque nós somos como os vossos cabelos…mas das aves.
- Sim, o nosso cabelo às vezes também cai.
- Pois! As penas das aves também.
- Áh! Estou a perceber.
            As duas têm uma longa conversa, riem, e a pena faz desenhos na areia. A mina aplaude e também faz. Na água, a pena mergulha e aparece à menina transformada num peixe, cheia de cores e que nadava rapidamente. A menina nadou atrás dela, e a pena nadou mais devagar para a menina poder acompanhá-la.
            Depois…a pena transformou-se numa linda sereia e brincou com a menina, feliz, agarrada à sua cauda, dão grandes mergulhos e saltos na água, dançam, chapinham, e nadam. Depois, a pena transforma-se num molho de algas de várias cores, escorregadias na mão da menina, que tenta agarrá-las, e a pena deixa-se estar em alga para receber os carinhos da menina.
            Depois…a pena transforma-se num banco de areia para a menina se sentar debaixo da água e flutuar. Era um banco de areia mesmo muito fofa. Depois…o banco de areia desfaz-se em milhares de bolinhas de água que aparecem na superfície e desfilam sem rebentar. A menina vê-as, deliciada, segue-as com os olhos e a nadar.
- Onde estás, pena?
            E a pena aparece transformada numa linda estrela-do-mar, colorida, e brilhante. As duas trocam carinhos, quando a menina nela, e a pena faz-lhe cócegas na mão. A menina ri-se.
Depois, transforma-se num camarão e faz a menina rir, pela forma como ela anda. Andam as duas de gatas pela areia, e por fim…a pena volta a ser pena, porque ouve a voz da Avó da menina a chamá-la.
            A avó chama-a, e ela leva a linda pena.
- Olha Avó…que linda esta pena! Veio de muito longe!
- Áh! É mesmo linda. Onde estava?
- Lá em baixo, à beira do mar.
- Como é que sabes que ela veio de muito longe?
- Ela disse-me. Disse que a ave a quem pertencia era rara…e voou para um país frio, muito longe daqui. Mas ela caiu, como acontece como o nosso cabelo, as penas das aves também caem, sabias?
- Áh! Sim, é normal! – Sorri – Deve ser mesmo rara…nunca tinha visto esta mistura de cores tão bonita.
- Olha, Avó…como é fofinha! Toca, Avó!
            A Avó toca na pena suave e delicadamente.
- Sim! É mesmo muito delicada…fofa…leve!
- Gostavas de ser como ela?
- Gostava, e tu?
- Eu também! Sabias que ela dança?
- Dança?
- Sim, danço…por favor…batam palmas!
            A Avó e a menina batem palmas a ritmos diferentes, e a pena acompanha-as a dançar. Depois a pena desenha na areia, coisas que lhe pedem. A Avó tira fotos maravilhada.
- Filha, agora temos de ir embora. Está muito calor.
- Óóóhhh…pois é! Posso levar a pena para a nossa casa, Avó?
- Podes! Se a pena quiser ir.
- Sim! – Responde a pena a sorrir.
- Boa! – Saltita feliz
            Esta pena era mesmo especial. Tanto era pena, como a seguir se transformava numa linda rapariga, com vestido de penas. Dava meia volta e ficava uma princesa com um chapéu de penas. Quando estava feliz, transformava-se numa pena bailarina, com corpo de golfinho e dava mergulhos fantásticos com a menina nas possecas e no mar.
            Quando a menina tinha frio, a pena triplicava-se e fazia um belo casaco de penas que aquecia, e numa manta muito fofa de penas para cobrir na cama e no sofá. Outras vezes, era apenas uma pena que enfeitava o móvel da menina.
            Ela tinha todos estes poderes para agradar e cativar as crianças, porque sentia-se muito sozinha e queria fazer novos amigos, mas ninguém reparava nela…pois havia muitas penas por todo o lado, ainda que diferentes daquela. Para muitos…as penas metiam nojo, para outros tantos…faziam alergias, e para outros…eram fonte de inspiração para desenhos e pinturas. Para outros, era só mais uma pena. A menina foi a única que reparou nela, por isso, a pena fez tudo para mostrar os seus encantos, como forma de agradecer e reconhecer a amizade.
            A menina e a pena tornaram-se as melhores amigas, passearam juntas, a pena em forma de menina, brincaram e riram, construíram coisas na areia, dançavam…e muito mais!

E vocês? Se fossem à praia, reparavam numa pena como esta?

Se vissem uma pena na praia…

Como seria? Grande ou pequena?

A quem pertenceria?

Gostavam de ter uma amiga pena?

E se ela se transformasse? Em que seria?   


FIM
Lálá

(5/Março/2014)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

O CHAPÉU DA DONA GALINHA

Era uma vez uma galinha vaidosa, que vivia numa casotinha, numa grande quinta com outrasgalinhas.
         Dona Galinha não saia de casa sem estar toda arranjada: penas bem armadas e penteadas, brilhantes, bico bem limpinho, patas e unhas pintadas, e belas roupas.
         Uma tarde, depois de arrumar a sua casa, Dona Galinha, arranjou-se e saiu pela porta da cozinha, mas esqueceu-se do seu chapéu.
         Voltou para trás, abriu a porta da cozinha e pegou no chapéu todo enfeitado. A sua vizinha do lado, a galinha Dona Gracinha diz-lhe:
- Boa tarde, Dona Galinha…boa vizinha.
- Boa tarde, Dona Gracinha…boa vizinha.
         Dona Galinha e Dona Gracinha saem as duas pela porta da sua cozinha.
- Onde vais, Gracinha?
- Vou à lojinha! – Responde a Gracinha – E tu…vizinha?
- Também vou à lojinha.
- O que vais comprar na lojinha, amiga Galinha?
- Vou comprar uns paninhos para a mesinha da minha cozinha. E tu, vizinha? O que vais comprar na lojinha?
- Vou comprar umas panelinhas para a minha cozinha!
- O que vais cozinhar nas panelinhas que vais comprar na lojinha?
- Tudo o que for preciso! E tu, Galinha, o que vais fazer com os paninhos?
- Vou pôr os paninhos nas minhas mesinhas da cozinha, e nas mesinhas do quarto das minhas pequeninas.
- Vamos então nós as duas à loja da Dona Aninhas! – Diz a Dona Gracinha.
         As duas galinhas vão à loja da Dona Aninhas, comprar paninhos para as mesinhas e panelinhas para cozinhar. Pelo caminho, uma rajada de vento forte, tira o chapéu da cabeça da Dona Galinha.
Dona Galinha grita:
- O meu chapéu!
- Foi o vento que to tirou – Diz a Gracinha.
         Elas tentam apanhar o chapéu, mas o chapéu é mais rápido que elas. O chapéu rola, rola pelos campos, levanta e fica preso num tronco de uma árvore. Vem uma andorinha, e leva o chapéu no seu biquinho. Onde irá a andorinha com o chapéu da Dona Galinha no biquinho?
         O chapéu da Dona Galinha vai no biquinho da Andorinha que pousa num laguinho de patinhos para beber. Os patinhos empurram o chapéu com os biquinhos e fogem com ele. Viram-no ao contrário e metem-se lá dentro, como se fosse um barquinho. A Andorinha perdeu o chapéu.
         Os patinhos estavam a brincar no chapéu, e um gatinho que brincava lá perto, gostou tanto do chapéu da Dona Galinha que tentou agarrá-lo.
         Mas o gatinho caiu à água do laguinho e não sabia nadar. Os patinhos saíram do chapéu muito assustados e foram ajudar o gatinho que caiu ao laguinho.
         Os dois patinhos tiraram o gatinho da água, e quando estavam distraídos, outra rajada de vento, leva o chapéu da Dona Galinha para outro lugar.
         Os patinhos e o gatinho também perderam o chapéu como a Andorinha e como a Dona Galinha.
         O chapéu rodou, rodou e saltou pelos campos até chegar à cabeça de uma menina, que estava a andar de baloiço. A menina ficou muito surpresa. Tirou o chapéu da sua cabeça, olhou para ele e para todo o lado.
- Este chapéu não é meu! – Diz a menina.
- Pois não. Sou da Dona Galinha! – Responde o chapéu.
- Quem é a Dona Galinha?
- É a galinha que foi com a sua vizinha, Dona Gracinha, à loja da Dona Aninhas. A Dona Galinha, foi comprar paninhos para as mesinhas, e a Dona Gracinha., sua vizinha foi comprar panelinhas.
- Então, como não és meu…vou levar-te à loja da Dona Aninhas. A Dona Galinha deve estar à tua procura.
- Sim, está de certeza! O vento tirou-me da sua cabeça, uma Andorinha levou-me no seu biquinho…pousou num laguinho para beber, e uns patinhos que estavam lá, fizeram de mim um barquinho. De repente, um gatinho caiu ao laguinho, e os patinhos foram ajudá-lo. Veio outra rajada de vento, levou-me aos trambolhões pelos campos e vim ter à tua cabeça. – Explica o chapéu.
- E agora, vou levar-te à lojinha da Dona Aninhas, para ires com a tua Dona Galinha. Não vou ficar com um chapéu que não é meu! – Diz a menina.
- Muito bem, menina boazinha! – Diz o chapéu a sorrir.
         A menina leva o chapéu à loja da Dona Aninhas, onde está a sua Dona Galinha muito chorosa, à procura de outro chapéu, e não gosta de nenhum. Dona Gracinha, a sua vizinha, vê a menina entrar na lojinha da Dona Aninhas e grita:
- Olha Galinha…o teu chapéu!
         Dona Galinha pára de chorar e vai ter com a menina.
- Foste tu que levaste o meu chapéu?
- Não, Dona Galinha! O seu chapéu veio ter à minha cabeça, e como não é meu, vim trazê-lo à lojinha da Dona Aninhas, caso viesse aqui procurá-lo! – Explica a menina.
- Óh! Que linda menina, tão bondosa, tão graciosa! Muito obrigada! Para te agradecer…escolhe um chapéu para ti, que eu ofereço-te. – Diz a Dona Galinha.
- Óh! Não gaste dinheiro comigo! Só fiz o que os meus pais e os meus avós, me ensinaram desde que nasci…não ficar com o que não é nosso! Sempre que encontrarmos alguma coisa que não é nossa, devemos entregá-la ao dono, ou se não soubermos quem é, deixar em algum sítio perto, porque a pessoa que o perdeu, pode precisar muito dele! – Explica a menina.
- Óh! Mas que pais e que avós tão maravilhosos. Eles têm toda a razão! E tu, aprendeste muito bem, essa bela e muito importante lição! – Diz a Dona Galinha.
- Tens um bom coração! – Diz a Dona Gracinha.
- Sim, é por isso que também te ofereço um chapéu que quiseres, de coração! – Diz a Dona Galinha.
         A menina escolhe um chapéu. Dona Galinha oferece-o, e agradece mais uma vez. A menina volta para casa, feliz, e a Dona Galinha ainda mais feliz por uma menina com bom coração, ter encontrado e devolvido o seu chapéu.
         Dona Galinha comprou os paninhos para as suas mesinhas, e Dona Gracinha, comprou as panelinhas, na loja da Dona Aninhas. Depois das compras…Dona Galinha, com o seu chapéu e os seus paninhos, e a Dona Gracinha com as suas panelinhas, voltam para a sua casinha, e entram pela porta da cozinha.

         E assim...terminou o passeio do chapéu da Dona Galinha.

                                               FIM
                                               Lálá

                                      (23/Fevereiro/2014)  

sábado, 15 de fevereiro de 2014

MENINO…SEI PORQUE CHORAS


Um dia, uma menina escreve uma carta a um menino refugiado de guerra que viu nas notícias da televisão:

   Olá menino de olhos verdes! Vejo nos teus olhos dor, tristeza, lágrimas...parecem cristais a brilhar que os tornam ainda mais bonitos! Alguma coisa está mal…o verde dos teus olhos deviam espelhar esperança, felicidade e saúde porque és criança. Ainda não tens a maldade dos adultos, mas não…o que eles mostram é um verde com cortinas pretas. São olhos verdes e ao mesmo tempo pretos. Olhos consumidos pela guerra da tua cidade. O verde dos teus olhos chora. E sei porque choras, menino bonito! Choras porque em vez de teres uma casa como eu, com tecto e todo o conforto, tens uma tenda. Em vez de teres uma cama fofa e quente como eu, tens o chão duro, de terra. Choras porque viste a tua casa ser derretida por monstros verdes que lançaram fogo com bombas e outras coisas feias. A tua casa, o teu conforto, as tuas coisas…tudo se derreteu num abrir e fechar de olhos. Choras porque perdeste todos os sonhos que tinhas plantado na tua casa, no teu quarto, na paz e do calor dos teus pais. Agora, tu e os teus pais apenas têm o amor uns pelos outros, a companhia e as lágrimas pela destruição. Pelo menos o amor sobreviveu, no meio de tantos escombros. Não é justo, tudo isto! Tu és uma criança, tinhas todo o direito como outra criança como nós…a ter uma casa, com quatro paredes, com todo o conforto. Agora não resta nada! Choras porque perdeste as tuas roupas, e porque tiveste de fugir sem pensar, sem olhar para trás, para te salvares. Agora, vestes apenas um trapo branco, que os médicos te deram. Choras porque pouco ou nada tens de comer…porque além de ti, há muitos outros milhares na tua cidade que também viram tudo transformar-se em pó. Claro que isso não te serve de consolo, porque todos sofrem. Choras porque em vez de ouvires passarinhos, cantos e música, ondas, ventos, e chuva…ouves apenas estrondos ensurdecedores, que abanam tudo, bombas que rebentam tudo, estalidos de armadilhas no chão que pisas, helicópteros que sobrevoam a tua cidade, com as portas abertas prestes a largar fogo, gritos de dor e de raiva. Choras porque não podes dormir em paz…pois os teus ouvidos estão sempre atentos ao mais pequeno barulho, e as tuas pernas, sempre prontas para ter de correr a qualquer momento, e fugir. Não consegues dormir, porque tens medo! Choras porque em vez de os teus olhos verem o verde da floresta, o branco das casas, os sorrisos das pessoas…vêm o preto dos fumos, as cinzas da destruição que transportam vida e sonhos, planos pensados, momentos de paz e de felicidade, que terminam em poucos segundos, o cor-de-laranja, e o amarelo do fogo assassino, o sangue dos feridos, inocentes, e dos que se transformam em estrelas sem culpa nenhuma, e as lágrimas. Choras porque em vez de teres brinquedos, tens apenas armas, balas espalhadas por todo o lado, destroços, ossos. Choras porque não podes brincar livre na rua, jogar à bola e correr à vontade, esfolar os joelhos, saltar à corda, andar de bicicleta, jogar ao peão e aos berlindes ou às caricas, jogar à malha e com os carrinhos como nós…nem na rua nem na tua casa…quer dizer…tenda…! Porque tudo derreteu juntamente com os escombros daqueles malditos homens verdes. Choras porque mal tens onde fazer as tuas necessidades, e a tua higiene. Choras porque mal tens água potável para beber, sempre que quiseres. Choras porque tens fome e frio, choras porque não tens vontade de rir ou sorrir…talvez até já te tenhas esquecido de como isso se faz. Choras porque não tens amigos, nem livros…choras porque não podes abraçar uma árvore, porque até essas estão chamuscadas, secas, sem folhas…e muitas já serviram para lenha há muito tempo, sem que lenhadores as tivessem cortado! Foram destruídas, tal como a tua casa! Choras porque não podes respirar, nem sentir o ar puro, porque tudo está poluído. Aqui temos árvores e ar puro. Choras porque não podes ir à escola, e porque não tens amigos…coisas essenciais para todos os seres humanos, mas a ti, menino de olhos verdes, tiraram-te esse direito que aqui temos, felizmente. Muitos dos teus amigos fugiram, outros, não tiveram tempo. E os teus olhos verdes viram isso tudo…é por isso que eles choram. Choras que não tens animais, pois todos foram desfeitos pelos horríveis homens verdes, e pelo que eles lançaram. Em vez de lançarem flores ou alimentos, ou água ou medicamentos…lançaram…destruição! Sei porque choras, menino de olhos verdes…choras porque te cortaram as asas…e impedem-te de voar…choras porque te roubaram a infância…choras porque te roubaram os sonhos, tiraram o direito a ser simplesmente uma criança feliz, saudável, e impediram-te de viver em paz. Sabes uma coisa? Muita gente na minha cidade, está sempre a reclamar de tudo…e tudo têm! Bom…tudo, para viver com o mínimo de condições, mas há gente que exige demasiado, quando na verdade têm tudo. Já viste? Elas reclamam porque a casa é pequena…mas…então…e tu? Porque não reclamas de viver numa tenda? Talvez…porque nessa tua cidade, apesar de tanta maldade e destruição já ficaste feliz por estares vivo, e teres do teu lado, quem mais te ama…quem tu amas. E se elas vivessem numa tenda como a tua? Aí, talvez dessem valor à casa que têm…pequena ou grande…pelo menos estão protegidos, têm todo o conforto…tu querias conforto, e não tens direito a ele. Se calhar, quando te cansas de chorar, ou quando tens fome…nem sentes a dureza do chão onde cais. Queres é…descansar. Não descansas, porque a qualquer momento poderás ter de fugir outra vez, e poderás receber uma bomba…! Aqui não há bombas! Felizmente. Há gente na minha cidade, que reclama porque não tem o carro que queria…mas pelo menos também não têm bombas ou minas no chão por onde pisam…podem sempre ir a pé ou noutros meios de transporte, em segurança. Tu, não! Os únicos carros que tens na tua cidade, são os dos monstros, e nunca estás seguro. Há gente na minha cidade que reclama de não ter dinheiro…mas…e se elas estivessem na tua cidade, será que estariam preocupadas com o dinheiro, e exigiam tanto? Talvez não! Há gente que só tem coisas más a dizer do meu país, mas não entendo porquê…claro que as coisas aqui também estão um pouco difíceis, há falta de empregos, há alguns crimes, assaltos…mas…sinceramente…à beira da tua cidade, podemos dizer que estamos num paraíso. Não temos guerra, as nossas casas estão de pé, podemos pisar o chão em segurança, temos conforto nas casas, temos água, temos gás, temos cama, temos televisão, luz, rádio, e o amor dos familiares…temos escolas e amigos…temos livros e brinquedos, alimentação e muito, muito mais! Acho que temos o essencial para sermos felizes, mesmo com as dificuldades que encontramos. Agora, tu…não tens nada, e provavelmente jamais terás. Gostava muito de te dizer o contrário, mas infelizmente, as imagens que mostram da tua cidade, não permitem…elas mostram terror, guerra, destruição. Gostava muito de te receber aqui, acolher-te na minha casa, dar-te tudo o que perdeste, ser tua amiga! É triste, e injusto não poder ajudar-te, amigo…menino de olhos verdes. Estamos muito longe, mas se pudesse trazia-te para bem perto de mim, acolhia-te nos meus braços…! É triste ver aquelas imagens. Apenas posso acolher-te no meu pensamento, e nas minhas orações. Sim, tenho-te no meu coração. Rezo todas as noites, pela paz na tua cidade. Se dependesse de mim e de muita gente, já terias paz há muito! Se pudesse…trazia-te para viveres numa cidade em paz, com tudo a que tens direito, e onde pudesses ser feliz…na minha cidade, pode-se ser criança feliz, pode-se sonhar, brincar, ter uma casa e conforto. Queria muito enviar-te esta carta, para que sentisses que alguém muito longe, pensa em ti, e nos teus! Sei porque choras, menino de olhos verdes…e eu choro contigo! O meu desejo é que um dia muito breve, possas viver em paz, na tua cidade, ou em qualquer outra. Foge…se puderes! Para Portugal. Aqui te esperamos. Quem sabe…um dia…não nos encontramos por aqui. Enquanto esse dia não chega, que tenhas muita força, e que tudo te corra bem. Sei que estás em Guerra e fico muito triste por isso, mas também é por esse motivo que agradeço todos os dias o que tenho, os que tenho e que me amam, a saúde, a alegria, o amor, o carinho, a paz, os brinquedos, a casa, e tudo à minha volta. Agradeço todos os dias, as mais pequenas coisas, porque sei que também tu, gostarias de as ter, e não tens, por injustiça ou por maldade…porque és uma criança, e todas as crianças querem as mesmas coisas. Até breve. Beijos…
                                               FIM  
                                               Lara Rocha 

                                              15/Fevereiro/2014