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domingo, 11 de agosto de 2013

O PIRILAMPO E A SUA LUZ

      
     Era uma vez uma enorme montanha onde havia um castelo. Nesse castelo viviam reis, rainhas, príncipes e princesas, bobos, empregados e guardas. 
   O castelo tinha enormes e lindos jardins, cheios de lindas flores, de todas as cores, tamanhos e espécies que atraíam muitos animais como lindas borboletas, passarinhos e pirilampos.
      Havia muita gente da cidade, e da aldeia, que fazia longas caminhadas para a montanha, não só para apreciar a encantadora paisagem, mas também para conhecer e cumprimentar os habitantes do castelo, e alguns tentavam conquistar as princesinhas, mas sempre sem sucesso.
As princesinhas eram ainda muito novas, aceitavam os presentes, agradeciam, mas não gostavam de nenhum pretendente…ainda nem sequer pensavam em casar. Para elas não podia ser qualquer um! Eram princesas, e muito exigentes.
Uma noite quente de Verão, com um vento quente e uma lua cheia enorme, mágica, que iluminava toda a montanha…quase como se fosse o sol…sobrevoava por lá, um novo visitante que vinha de outro jardim. Um lindo pirilampo. 
Ele nunca tinha ido ao jardim do castelo, mas tinha imensa curiosidade em saber como era, quem vivia lá, e queria também conhecer as princesas.
O pirilampo voa devagar, plana no ar, e olha para todo o lado.
- Ei…tantas luzes ali no fundo da montanha! Ali…em alguma luz deve ser o jardim onde vivo…pelo menos…aquelas luzes são-me familiares. Isto é tão alto! Aqui em baixo…estão mais pirilampos…tanto espaço! Isto é tudo deles? Ei…que sorte! Aqui o ar é muito diferente do ar que há no jardim onde vivo! (Inspira e expira) Muito mais agradável…os cheiros… (inspira e expira) são muito mais agradáveis…muito melhores. Áááááááááhhhhhhhh….que agradável!
   Percorre janela por janela, devagar, encantado, espreita, mas não consegue ver nada.
- Porque é que não vejo nada? Áááááhhh…se calhar…estão de olhos fechados…ou têm as janelas fechadas! Não…talvez…ainda não estejam nos quartos.
       Continua a sua visita pelo enorme castelo, espreita tudo o que pode, cumprimenta os outros pirilampos, e de repente vê-se luz nos quartos das princesas. O pirilampo sorri e diz:
- As princesas devem ir deitar-se!
          E espreita pelas janelas acesas.
- Áááááhhh…tantas princesas! Que lindas.
       Mas a pouco e pouco as janelas fecham-se rapidamente, e o pirilampo não vê todas…só consegue ver de fugida as primeiras.
- Óhhhh…porque não deixam as janelas abertas? Está calor…podiam dormir com as janelas abertas…Áááááhhh…que pena! Bem…amanhã venho mais cedo, para ver as princesas mais de perto.
         Há uma janela que tem a luz acesa, mas não se fecha.
- Óóóóhhh…! Uma janela aberta, e luz acesa…! Boa…!
    E dirige-se para a janela, com a sua luz apagada para não ser visto. Espreita pela janela e vê uma linda princesa…uma menina de oito anos, de cabelos escuros e compridos, com cara de boneca, chamada Maria Luísa, veste o pijama, e a sua aia, apaga a luz e abre a janela.
- Boa Noite, pequenina…se tiveres frio, fecha a janela! – Diz a Aia.
- Está bem! Dorme descansada! Boa Noite – responde a Princesa.
        A Aia sai do quarto, e a menina vai à janela.
- Áááááhhh…está uma Lua tão bonita! Enorme!
   O pirilampo olha para a princesa de luz apagada, mas fica tão encantado que a sua luz acende-se e pisca, pois o seu coração bate muito depressa:
- Óh…que linda! Ai…acho que não me estou a sentir muito bem…ai, ai…apaga-te luz, apaga-te luz…se não a menina vê-te! Ai…nunca vi uma menina tão bonita! Óh…estou gelado…e a tremer…Aiiii…o meu coração vai sair do peito…ai, que medo…óh não…maldito cupido…estúpido…palerma…! Ai, acho que ele acertou-me…ei…que fraca pontaria, cupido desgraçado…e agora…? Se estou apaixonado por ela…não posso…ela é uma princesa, e eu sou um pirilampo…ela nunca vai querer nada comigo! Óhhhh…estou frito! Cupido…tira-me já a seta…! Ou então…transforma-me num príncipe.
E fica envergonhado, tenta esconder-se. O Cupido faz uma grande careta e ri-se às gargalhadas.
- Oh, desculpa…acertei-te? Óhhhh… foi sem querer! (gargalhadas) Não tiro! Nem vou transformar-te em príncipe nenhum.
- Porque me acertaste?
- Já disse que foi sem querer…de propósito…é para te apaixonares…!
- Não me podia apaixonar por ela.
- (ri às gargalhadas) Eh, eh, eh…eu é que sei. (outra careta) A minha pontaria é excelente! – Diz o cupido.
- Nota-se…seu malvado.
- É para aprenderes! – Responde o cupido.
- Aprender o quê? –Pergunta o pirilampo.
- Estás mal habituado…sempre a ser correspondido. – Explica o cupido.
- E as pessoas devem ser felizes ao ser correspondidas, não?
- Quando eu lanço as setas não lanço para casais…para serem sempre correspondidos no mesmo sentimento…as pessoas são livres para escolher por quem se apaixonam e de quem gostam, mas não quer dizer que o outro também se apaixone! Eu não posso mandar nos sentimentos…apenas lanço as setas para despertar, e fazer o coração bater mais forte, entre outras coisas…depois de atirar as setas, com essa função, não tenho mais nada a ver com isso! – Explica o cupido.
- Mas és mauzinho! – Diz o pirilampo.
- Não…não sou nada…sou um anjinho.
- Mas o coração fica triste, se não é correspondido.
- Ficam uns dias…depois passa…e isso torna-os mais fortes. Em breve verás como tenho razão – Responde o Cupido. 
O Cupido ri-se e levanta voo.
- Vê se acertas essa pontaria…ninguém merece sofrer por amor. Já há muito sofrimento. – Grita o pirilampo.
- Eu sei…é por isso que eu atiro setas com amor. – Grita o cupido.
- Envenenadas, queres tu dizer…! – Responde o pirilampo a gritar.
Maria Luísa olha para a janela.
- Que lua tão grande…está mesmo bonita! Quem me dera ter aqui um pedacinho…Uma bolinha com aquela luz…! Espera…além da luz da Lua…há outra coisa a brilhar…O que é que está a brilhar aqui? – Pergunta Maria Luísa ao ver a luz do pirilampo.
- Óh, não…ela viu-me! – Murmura o pirilampo.
            O pirilampo tenta esconder-se, mas a sua luz denuncia-o…e a sua paixão.
- Um pirilampo? – Diz a princesa a sorrir.
- Olá princesa…sim, sou um pirilampo!
- Áááááhhh…que lindo! – Elogia a princesa a sorrir encantada.
- Que linda que és princesinha!
- Obrigada! (sorri) a tua luz está a piscar…? (ri) que engraçado.
- (envergonhado) Áááááhhh…às vezes fica a piscar.
- Gosto muito da tua luz.
- A sério? Obrigado.
- Vives aqui no meu jardim?
- Não…eu venho de outro jardim…ali…onde há muitas luzes! Mas vim passear e sempre tive muita curiosidade em saber como era o castelo que via de lá.
- Áhhh! E gostaste do que viste?
- Sim, é bonito! E o ambiente é muito agradável.
          Os dois têm uma longa conversa, sorriem e riem. Quando a princesa fica com sono diz:
- Amigo…desculpa…eu ficava aqui o resto da noite, a falar e a brincar contigo, mas estou a ficar com sono! O João Pestana anda aqui a rondar.
- É um guarda?
- (ri) Não! É o duende do sono, que me faz dormir.
- Óhhhh…não podes mandá-lo embora ou que se junte a nós?
- Não! Eu não gosto de dormir, mas temos de descansar.
- Sim, eu compreendo! Não faz mal. Vai dormir, princesa…bons sonhos!
- Voltas amanhã? – Pergunta a Princesa.
- Queres que eu volte? – Pergunta o pirilampo.
- Sim! – Responde a princesa a sorrir.
- Está bem, eu volto! – Responde o pirilampo a sorrir.
       A princesa estende a mão para o pirilampo, o pirilampo fica gelado sem luz, porque não sabe o que fazer.
- Ficaste sem luz?
- Aaaaaahhhh…ela volta já!
- Não me beijas a mão? – Pergunta a Princesa Maria Luísa muito surpresa.
- Ááááááhhhh…desculpa…não sabia o que devia fazer…ai, que vergonha.
   A princesa ri e o pirilampo ganha luz novamente. Ele pega na mãozinha da princesa, pousa nas costas da mão e beija-a repenicadamente. A princesa fica encantada com a sua luz e com as cócegas.
- Boa noite, linda princesa! – Diz o pirilampo.
- Boa noite! Obrigada pela companhia. Espera…acompanha-me até ali à cama…por favor!
- Eu posso? – Pergunta o pirilampo surpreso.
- Sim! Sou eu que te estou a pedir!
- Está bem!
      E a luz do pirilampo volta a brilhar mais intensamente. A princesa deita-se e o pirilampo olha para ela, encantado. 
- Que lindo que é o teu quarto, princesinha! Combina contigo! – Elogia o pirilampo.
- Obrigada! Também gosto muito! – Responde a princesa.
- Vou deixar-te dormir, linda princesa!
- Boa noite!
- Boa noite!
        A menina boceja e adormece. O pirilampo fica a olhá-la deliciado e sorri. A sua luz pisca e torna-se mais forte. Está apaixonado! Ouve passos, e esconde-se debaixo da cama da princesa.
     A aia entra e fecha a janela e persiana da princesa. O pirilampo fica com medo de ser apanhado, mas a Aia não o vê e sai em silêncio. O pirilampo sorri e olha mais uma vez para a princesinha, beija-a a medo e levemente, na bochecha, ela mexe-se de olhos fechados, e sai pela fechadura do quarto.
Ele está leve, sorridente e cheio de luz que pisca ao ritmo do seu coração que bate depressa porque está apaixonado. Vai dormir para o jardim, e dentro de umas tulipas que estão meias abertas.
- Boa noite…podes dar-me dormida? – Pergunta à Tulipa.
- Olá pequeno…sim, claro! Entra! – Responde a Tulipa, simpática.
       Ele instala-se confortavelmente, e a princesa não lhe sai da cabeça…deixa-o com um sorriso de orelha a orelha. A Tulipa percebe logo.
- Ai, ai…o pequeno de luz está apaixonado!
       Ele fica envergonhado e quase sem luz.
- Então…não vale a pena ficares envergonhado! Desculpa…eu não tinha nada que me meter…mas é que vê-se a léguas…a tua luz está muito diferente! Mais brilhante, mais forte e a piscar…- Explica a Tulipa a rir...O pirilampo sorri, e volta a dar luz.
- Sim, é verdade!
- Que bom! E quem é a felizarda?
- Não sei se é bom…é uma princesa!
- Óh, que lindo…chamas-lhe princesinha…?
- Não…ela é mesmo uma princesa…aqui do castelo! Está naquele quarto!
        A sua luz volta a piscar, e torna-se outra vez mais forte.
- Uma princesa? De carne e osso? – Pergunta a Tulipa.
- Sim! – Responde o pirilampo.
- Óh…desculpa desiludir-te, mas…não escolheste bem!
- Mas não fui eu que escolhi! Foi o meu coração…- responde o pirilampo.
- O teu coração só respondeu ao que agradou aos teus olhos!
- Sim! Mas porque é que dizes que não escolhi bem?
- Porque nunca vais ser correspondido…! Ela é uma princesa, e tu…um pirilampo…nunca uma princesa vai apaixonar-se por um pirilampo! Até pode gostar de ti…mas não da mesma maneira que tu gostas dela!
- Estás a dizer que eu nunca vou conseguir conquistá-la?
- Não é isso…! O que estou a dizer é que podes ser amigo dela, mas nunca poderás ser namorado dela! Os humanos como as princesas, só podem namorar com humanos, e tu…com outras da tua raça!
- Eu bem desse àquele malvado que tem fraca pontaria…ele disse que não fez de propósito…e que não faz por mal…! – Diz o pirilampo.
- Quem?
- O Cupido.
- Encontraste o Cupido?
- Sim…ele atirou-me uma seta envenenada…!
- Envenenada?
- Sim…eu disse-lhe que ele tinha fraca pontaria, e ainda por cima foi envenenada porque fez-me apaixonar por uma humana.
- Mas não fez por mal…
- Ele diz que não…que só atira setinhas para fazer o coração bater mais forte, mas não sabe por quem essa pessoa se vai apaixonar.
- Pois…aí tem razão! Não é ele que manda no coração…! Podemos ser correspondidos ou não…e a outra pessoa ou ser…não é obrigado a gostar de nós da mesma maneira!
- E agora, o que é que eu faço?
- Agora, querido…é melhor habituares-te à ideia e…ou aceitas a amizade dela, ou mais te vale desaparecer para não sofreres mais e esquecê-la.
- Ai, que trágica!
- Só te estou a abrir os olhos, para não te iludires, nem teres esperanças que ele te vai corresponder.
            O pirilampo suspira.
- Que pouca sorte a minha! É triste ser um pirilampo.
- Óh, não digas isso! És como és! A amizade não tem forma, nem raça, nem sexo…os animais podem ser amigos uns dos outros, e de humanos…e os humanos podem ser amigos de animais e de pessoas, se gostarem deles. Podem ser bons amigos, tu e ela! E às vezes tem muito mais valor, as pessoas tornarem-se amigas, e os animais incluídos, porque assim tornam-se muito mais felizes, desde que não se magoem, nem se desiludam. Às vezes é muito melhor ser amigo verdadeiro do que namorado.
- Óh…porque é que eu tinha de me apaixonar por ela! Ela é tão bonita…tão simpática…tão doce! Será que ela vai querer um amigo pirilampo?
- Claro que sim! Porque não haveria de querer? Tenho a certeza que ela não faz esse tipo de distinções…é uma criança. Tenta conquistá-la como amigo! Mas…agora descansa. Amanhã terás ideias mais claras, e outras melhores.
- É…está bem! Boa noite!
- Boa Noite!
            Nessa noite, o pirilampo sonha que é um príncipe e que conquista a linda princesinha. De manhã quando acorda, gostou tanto do sonho, que parecia tão real, que acorda sorridente, voa da flor:
- Bom dia! Obrigada pela estadia.
- Bom dia! (sorri) Dormiste bem?
- Sim, muito bem…é muito confortável, dormir nas tuas pétalas!
- (sorri) Volta sempre!
         O pirilampo vai lavar-se no laguinho e olha para a sua imagem reflectida na água. Fica muito triste e desiludido, porque estava à espera de se ver como um lindo príncipe, como tinha sonhado, e afinal era um pirilampo.
- Óh…não acredito…! Ainda sou só…um pirilampo…! Tudo não passou de um sonho.
       O pirilampo senta-se na fonte, triste, e deixa cair algumas lágrimas. De repente, aparece o Cupido, a tocar trombeta, a rodopiar, feliz, e a dançar com as borboletas à sua volta.
- Olá…! - Diz o Cupido sorridente.
- Tu outra vez?
- Ei…que tempestade…! (o Cupido e as borboletas riem)
- Não está muito bem disposto… - Diz uma borboleta.
- Eu já o conheço! – Diz outra borboleta.
- Coitadinho! – Dizem as borboletas em coro.
- Está triste! – Diz o Cupido.
- Pois estou…e a culpa é toda tua.
- Minha…? Como? Eu sou o anjinho do amor…não trago infelicidade…
- Ai não…? É só o que trazes! Atiras setas envenenadas…
- Óh, porque dizes isso? O amor não é veneno.
- É veneno sim! 
- Só porque não és correspondido?
- Ora essa…no amor nunca sabemos se vamos ser correspondidos por quem nos apaixonamos ou não…mas é bom sentir amor por alguém…sentir o coração a bater mais forte…ficamos mais iluminados. – Acrescenta outra borboleta.
- Para isso faço um voo mais rápido e fico com o coração a bater depressa, não precisava de me apaixonar…ainda por cima…por uma humana…muito diferente de mim. – Responde o pirilampo.
- Que insensível…! – Diz outra borboleta.
- Porque te estás a lamentar tanto de ser um pirilampo? – Pergunta o Cupido.
- Se eu fosse um príncipe tudo era diferente…! – Murmura o pirilampo.
- Não era garantia nenhuma. Mesmo que fosses um príncipe, não queria dizer que ela gostasse de ti. – Responde outra borboleta.
- Ai…dói tanto. – Suspira o pirilampo.
- Claro que dói…todos nós já sentimos essas dores. – Responde outra borboleta.
- Tu também? – Pergunta o pirilampo.
- Claro! Eu e todos os pirilampos, todas as borboletas, todos os pássaros, todas as pessoas e todos os animais. – Explica outra borboleta.
- Como é que sabes? – Pergunta o pirilampo.
- É o que oiço dizer. – Responde a borboleta.
- Com certeza! – Responde o Cupido.
- Esta dor nunca vai passar. – Grita o pirilampo.
- Claro que vai passar. Todas passam…e ainda vais ter muitas mais dores como essas, ou maiores. Não acredito que nunca te tenhas desiludido ou magoado antes! – Diz a borboleta.
- Que simpática! Claro que já…mas não tanto como esta. – Suspira o pirilampo.
- Já te esqueceste das outras, e ainda bem…mas de certeza que as outras também foram assim. Por acaso sou simpática. – Responde a borboleta.
- Agora não estás a ser nada simpática. Só estás a aumentar a minha dor. – Diz o pirilampo.
- Há dores muito maiores do que essa que estás a sentir. – Lembra outra borboleta.
- Pode haver, mas neste momento só sei da minha, que a sinto. – Responde o pirilampo.
- Claro! Cada um sente as suas à sua maneira. Todos acham que as dores não passam, mas é claro que passam…com o tempo esquecem. – Diz outra borboleta.
- O que é que eu faço…para deixar de doer? – Pergunta o pirilampo muito triste.
- Aceita a ideia que nunca terás a princesa como…uma mulher da tua vida! Lembra-te que ela não sente o mesmo por ti…que o coração dela não bate ao mesmo ritmo que o teu…por isso…nada de muito sério haverá entre vocês! Mas, nada impede que tu e ela sejam amigos! E que brinquem juntos…é muito bom ter amigos…diferentes de nós…desde que nos tratem bem, e nós deles. – Explica o Cupido.
- Como é que eu vou conseguir ser amigo dela, se estou apaixonado? – Pergunta o pirilampo.
- A amizade não implica que se esteja apaixonado…e quem sabe…essa tua paixão por ela, não é paixão! – Explica o Cupido. 
- Como assim? – Pergunta o pirilampo.
- Podes achar que estás apaixonado por ela, porque o teu coração bate depressa…mas…podes estar apenas encantado por ela…e quando a conheceres…quando fores amigo dela…essa paixão, ou encanto…vai transformar-se em amor fraterno…em…carinho…em…coisas muito melhores! Pode parecer-te que estás apaixonado porque ela agradou-te aos olhos, é bonita…mas ela pode não ser como tu imaginas!
- Tenho a certeza que é linda e que é boa pessoa!
- Sim, também não duvido. Mas a amizade não se conquista!
- Conquista sim…não podes chegar à beira dela e dizer-lhe directamente que queres ser amigo dela…elas não gostam disso! Tens de te ir mostrando aos bocadinhos…ser delicado…não a pressiones…mostra-lhe que pode confiar em ti conversa com ela…faz-lhe companhia, e se ela não quiser estar contigo, deixa-a! Ela volta mais tarde, e não quer dizer que não goste de ti!
- Mas sendo amigo dela…não lhe posso oferecer nada! – Diz o pirilampo.
- Porque não? (ri) Só se não quiseres! – Diz o cupido.
- Porque é minha amiga! – Responde o pirilampo.
- E os amigos não podem oferecer coisas uns aos outros?
- Nos anos, e no Natal!
- Não tem que ser só nessas datas…pode-se oferecer sempre que quisermos. Todos gostamos de pequeninos miminhos dos amigos, sejam eles quais forem…e de pequeninas lembranças. Aliás…fora de épocas festivas ainda sabe melhor!
- (sorri) Ai é? Diz-me mais…!
        O pirilampo, o Cupido e as borboletas, têm uma longa conversa. O cupido, e as borboletas, ensina coisas muito importantes ao pirilampo, e este fica mais animado. 
       Ao fim dessa manhã, ele vai para o quarto da princesa e esta já lá não está. Mas de repente entra no quarto e vai à janela.
- Pirilampo…amiguinho…pirilampo… - chama a princesa.
            O pirilampo fica feliz e aparece à menina.
- Olá Bom Dia, princesa!
- Olá! Estás aqui? (sorri)
- Sim!
- Já tomaste o pequeno-almoço?
- Já, e tu?
- Eu também! Não vejo a tua luz!
- Porque é de dia! Mas eu estou aqui…
- Áááááhhh…! Está bem…a tua luz é muito bonita. Todos adoramos pirilampos.
- A sério? (sorri) Obrigado…!
   Os dois ficam à janela a conversar alegremente, e riem até a princesa ser chamada para almoçar.
        De tarde e à noite, voltam a encontrar-se e passeiam pelos jardins, a princesa brinca com os outros pirilampos e assiste a um bailado de pirilampos, maravilhada, aplaude. 
       O seu amigo pirilampo oferece-lhe uma flor, e em troca, a princesa convida-o para dormir no seu quarto, porque gosta muito dele. A princesa prepara-lhe uma cama muito confortável na sua mesinha de cabeceira.
- Ficas aqui, porque eu não gosto nada de escuro…assim…tenho a tua companhia, e a tua luz de presença! – Diz a princesa.
     O pirilampo está mesmo feliz e a sua luz mais forte, mais brilhante e mais pura.
- Óóóóhhh…muito obrigado, querida princesa. Também és muito linda, e gosto muito de ti! – Diz o pirilampo sorridente e feliz!
- (sorri) És o meu melhor amigo.
- (sorri) Tu és a minha única amiga de carne e osso, mas és maravilhosa.
- (sorri) Obrigada. A tua cama é confortável?
- Sim! Não pode estar melhor!
- (sorri) Boa! Se tiveres frio, diz-me que eu ponho-te mais roupa…aqui às vezes é muito frio.
- Está bem! E se alguém vier ao teu quarto…não vão gostar de me ver aqui. Dão-me logo umas chineladas…
- Nada disso! Não te preocupes…eles nem vão reparar que estás aqui!
- Achas?
- Sim!
- Só se eu apagar a minha luz para eles não me verem.
- Óh, não…não apagues a tua luz…é tão bonita.
- Não precisas!
- Está bem…! Eu fico aqui quietinho.
- Eu quero que fiques comigo!
- (sorri) Está bem…estou e estarei sempre aqui contigo!
- Eu sei! Obrigada!
   E desde esta noite, os dois tornam-se verdadeiros e grandes amigos, conversam muito, riem muito, brincam e passeiam, vão a festas, trocam carinhos e pequeninos presentes, e partilham o mesmo quarto. 
      O Cupido e as borboletas tinham toda a razão: a paixão do pirilampo era mesmo…encantamento…gostou da princesinha pelos olhos…e quando se tornou amigo dela…os seus sentimentos tornaram-se mais suaves, de carinho, ternura, respeito…ele gostava da sua presença, da maneira de ser da menina, e era muito feliz com ela, por ser amigo dela, por se divertir tanto com ela, e ter longas conversas. A menina correspondia-o na amizade…no amor fraterno, como se fossem irmãos.
     Acontece muitas vezes com os seres humanos quando conhecem alguém…gostam pelos olhos, mas não sabem conquistar a amizade aos bocadinhos, e quando conhecem, os sentimentos transformam-se…umas vezes…tudo não passa de fogo de vista…daquele primeiro encanto!
    Uma chama que se apaga rapidamente…outras vezes…é o primeiro encanto…começa por uma chaminha pequenina, e vai aumentando…outras vezes é uma chaminha que alastra e apaga tão rapidamente como o primeiro encanto.
      Outras vezes, há o primeiro encanto, seguido da chaminha que aumenta à medida que se conhece, e passa para paixão…que quando se apaga, dói! Outras vezes, há o primeiro encanto, a chaminha…a lavareda que cresce na amizade, e permanece bem acesa…para sempre…ou…até haver desilusão.
Por fim…há o primeiro encanto, a chaminha, a lavareda e a fogueira do amor um pelo outro, dos sentimentos puros e sinceros, do gostar da presença um do outro, do respeito, da companhia, da compreensão, amizade, lealdade, fidelidade, e da felicidade.
A amizade conquista-se aos bocadinhos, sem pressões, sem abandonos, e, ou sufocos…com liberdade, assim como a confiança e o amor. Há muitos tipos de amor, e cada um tem a sua beleza, a sua importância, as suas características.

FIM
          Lálá

                                                                       (2/Agosto/2013)

AS ESTÁTUAS DE ALGODÃO

    



     Há umas fadas que vivem nas nuvens e adoram brincar com elas, construir lindas e perfeitas obras de arte e divertir-se. Como as nuvens são muito leves, as fadas moldam-nas muito facilmente.
            Um dia, de muitas nuvens, uma menina assistiu da varanda de sua casa, à construção de estátuas feitas de nuvens, aprecia e imagina o que estão ou vão fazer, e quem são.
- Um cão sentado numa alcofa! Que giro! Deve ser primo dos meus cães. Ali...está um coelho quase a comer uma cenoura! Até já tem a boca aberta...e a cenoura está quase a entrar na sua boca.
            A menina vê uma série de nuvens pequeninas seguidas, em fila, e uma grande.
- Vai ali um rebanho de ovelhas pequeninas atrás da mãe! (grita) Vão para casa? Boa viagem! Devem viver numa enorme quinta, com lavradores. Mas estas não têm o pastor! Onde está o pastor? (procura) Áááááhhh...não está! Se calhar elas já sabem o caminho de cor ou...não...não se estão a mexer...devem estar à espera do lavrador, ou talvez estejam a aquecer-se...sim, está muito frio! Mas elas com aquela lã toda não devem ter frio! (grita) Cuidado com os lobos! Áh! O cão vai ali ao lado...é enorme. Acho que é um Serra da Estrela! Deve ser o cão que as vai levar para casa...ou...está só a tomar conta delas? Que pena não me responderem!
            Noutro sítio vê umas nuvens mais pequeninas, redondinhas e achatadas e parece que estão encaixadas umas nas outras.
- Parecem umas naves espaciais, umas bolhas de astronautas, e planetas...! Tantos! Mas os planetas não se vêem assim...nem de dia. As naves espaciais também não se vêem. Ou estas são diferentes? Se calhar estão a vigiar o espaço.
Noutro lado, aparece um molho de nuvens todas juntas, que parecem uma só, com outra estreita e comprida que passa pelo meio.
- Ui, esta parece um furacão, ou...uma espada espetada numa almofada. Deve ser para ordenar algum príncipe, e o rei vai dar com a espada nos seus ombros, e na sua cabeça. (ri, e grita) Ei...não se esqueçam de me convidar!
            Mais á frente dessas nuvens, a menina vê outra com formato de animal:
- Está ali o cavalo do príncipe...não...não é um cavalo, é mais um pónei porque é pequenino e achatado. Tem as patas da frente, como se fosse a andar, e a crina...ali em cima...a cauda...sim é isso mesmo! Deve ser o pónei do príncipe. E ali está...um animador da festa...aquela nuvem parece mesmo um cantor com óculos de sol! E aquela...uma bailarina! Que gira! E ali...está uma bateria...um microfone...um rádio...uma...pandeireta, um banco, uma televisão, uma câmara de filmar...uma máquina fotográfica...ei...tantas! Está ali uma que parece...um balão...e outra que parece um E.T. Ali...uns óculos de sol...e...uma flor. Um pássaro...um avião, a Lua...?!Não...a Lua não aparece de dia...então...deve ser...um baloiço, ou uma fatia de bolo...não, aquela parece uma banana. Esta, parece uma cadeira de baloiço (ri) Aquela parece uma senhora bem velhinha, uma Avó! Ali está uma panela, uma casa, que deve ser a dos pastores das ovelhas e do cão, uma casota que deve ser a do cão...umas montanhas pequeninas e umas montanhas grandes...
            A menina continua a apreciar as formas das nuvens de algodão, imagina 1001 formas diferentes, divertida. De repente, aparece uma nuvem enorme, assustadora, muito espessa e muito escura. Dessa nuvem sai um trovão enorme, muito forte, com um raio que dá uma luz muito forte e faz um desenho no céu...parecem raízes. A menina estremece assustada, fica estarrecida e grita:
- Óh não...chegou uma bruxa que vai devorar estas estátuas todas de algodão! Atenção, fadas que vivem nas nuvens...guardem as estátuas rápido, e fujam!
            A Avó da menina, que estava a preparar um lanche apetitoso, grita da cozinha, também assustada:
- Filha, anda para dentro lanchar!
- Avó, está ali uma bruxa má que vai destruir todas as estátuas e eu estou a ver se as fadas das nuvens conseguem guardá-las a tempo! – Diz a menina.
            A Avó vai ter com ela:
- Que bruxa? Onde?
- Aquela bruxa ali...olha...até solta raios...já desapareceram muitas estátuas de nuvens que as fadas tinham feito!
- Áááááhhh...pois está a trovejar...e vai cair um valente pé de água! Claro que conseguem guardar tudo a tempo! Elas são muito poderosas e devem receber muitas vezes a visita dessa bruxa nesta altura do ano, por isso...quando a vêem ao longe, fogem logo com as peças. – Explica a Avó.
- Porque é que ela é tão má Avó?
- Deve ter inveja das Fadas, e do trabalho delas, como não sabe fazer coisas tão bonitas, destrói.
- Pois, deve ser!
- Infelizmente há pessoas assim, não há Avó?
- Sim, querida, infelizmente há!
- Porquê?
- Porque...porque...olha, porque só têm maldade dentro delas!
- Não são felizes, pois não, Avó?
- Duvido que sejam! Elas fazem maldades para ver se conseguem ser felizes, com a desgraça dos outros, mas olha...duvido que consigam! Não conseguem ser felizes, nem conseguem ver os outros felizes, por isso tentam destruir o que os outros têm de bom e elas não têm!
- Estes adultos são mesmo horríveis.
- Há gente boa! Felizmente!
- Sim, eu e tu! Somos felizes e não precisamos de fazer maldades aos outros, não é Avó?
- Claro que sim, filha. 
            A menina levanta-se e as duas entram. Já fechadas, começam a cair as primeiras pingas grossas de chuva. Na cozinha, a menina começa a comer e continua o assunto com a Avó.
- Avó, tu também já viste as obras que as fadas das nuvens fazem com o algodão?
- Sim, vejo sempre! São umas verdadeiras artistas. – Diz a Avó a sorrir.
- Óh Avó, e tu conheces as fadas das nuvens?
- Conheço.
- E já as viste alguma vez?
- Não, elas são muito pequeninas e estão muito longe...mas se calhar na tua idade vi-as muitas vezes! – Diz a Avó a sorrir. – Mas sei que elas existem! – Garante a Avó.
- Sim, pois existem! Para fazerem umas obras tão bonitas como as que vi, só podem ser feitas por seres tão bonitos e tão especiais como elas. – Diz a menina.
- É verdade! – Concorda a Avó.
- Óh Avó...sabes o que é que eu gostava?
- O quê?
- Eu queria construir estátuas de algodão! E tão bonitas como as delas! Mas eu não posso ir para as nuvens e fazer como elas. – Suspira a menina.
- Pois não! Não podes ir para as nuvens como elas, mas como está a chover, podemos construir estátuas de algodão, tão bonitas como as delas, e podemos criar outras! – Sugere a Avó.
- Boa Avó! – Responde a menina sorridente e eufórica. – Mas...como?
- Temos aí muito algodão...cola...e inventamos as nossas estátuas de algodão! – Explica a Avó.
- Boa! Sim, Avó...és o máximo! Vamos construir todas as lindas estátuas que nos vieram à cabeça...
            Durante o lanche, a menina conta à Avó todas as estátuas que viu nas nuvens. A Avó ouve e sorri. No fim do lanche, a Avó pega em pacotes de algodão, cola, tintas, tesouras, e as duas divertem-se a construir estátuas de algodão, criam várias figuras, de diferentes tamanhos e formas, pintam o algodão, e inventam histórias relacionadas com as estátuas. Enquanto elas estão nesta diversão, lá fora chove torrencialmente, e troveja fortemente. Põem as peças a secar e vão jantar. As fadas das nuvens espreitam pela janela e aplaudem, sobrevoam pelas estátuas para ficarem ainda mais bonitas e secas mais rapidamente. No dia seguinte a menina brinca feliz com as estátuas de algodão, com a Avó e com as Fadas das Nuvens que também dão vida às estátuas, pondo-as a mexer, e a falar. As duas inventam diálogos muito divertidas.


FIM
Lálá
(29/Julho/2013)


Actividade:
            E vocês meninos e graúdos?
Alguma vez olharam para as nuvens? Também viam e vêem formas, figuras, personagens, animais...ou estátuas de algodão? Quais?
Experimentem olhar para as nuvens...descrevam o que vêem nelas (que imagens vêem)
Gostavam de tocar nas nuvens, e construir estátuas com elas? Quais fariam?
Experimentem fazer estátuas em algodão, e imaginem que estão a tocar nas nuvens. Descrevam a experiência...o que fizeram com elas, como as sentiram? Que material usaram para construir as estátuas em algodão?
Podem oferecer à natureza, flores ou palavras bonitas sobre ela, ou a palavra «obrigada» e imagens da natureza…e principalmente, o melhor agradecimento que lhe podem dar…é protege-la, trata-la bem, com carinho e respeito, sem a destruir e sem a poluir.



FIM
Lálá

(31/Julho/2013) 

A MUDANÇA

Era uma vez uma jovem que se chamava Tânia. Vivia numa cidade enorme, muito poluída, onde estava muitas vezes céu nublado, cinzento, frio e chuva.
            Tânia não gostava muito de viver com tanta chuva, mas tinha de ser, pois os pais tinham-se mudado para essa cidade, para ficar mais perto do local de trabalho. Ela adorava sol, e tinha muitas saudades de o ver, de sentir o seu calor, assim como adorava flores.
            Quando se mudou, levou muitas sementes de flores diferentes que se davam bem no frio, mas as que gostavam de sol, como os girassóis, estavam ainda muito pequenos e murchos, porque poucas vezes havia sol.
- Óhhhh…tenho tantas saudades de sol…e vocês também, não é meus queridos?! Sim, eu sei! Podíamos mudar de sítio…para um, onde houvesse muito sol…! Assim vocês cresceriam muito mais! – Dizia Tânia, muitas vezes, às suas flores.
            Poucos dias depois, Tânia fica muito feliz com uma notícia que os pais lhe deram:
- Filha, vamos fazer as malas…temos de mudar outra vez de sítio…! – Informa a Mãe.
- Óh! Outra vez? – Suspira Tânia chateada.
- O nosso trabalho assim o exige…é para nosso bem! – Diz o pai.
- Que chatice…andar sempre de um lado para o outro…e vamos sempre para chuva! Estou farta deste céu escuro…deste frio todos os dias, de tanta chuva…As minhas flores nem crescem! Olhem para os girassóis…minúsculos e murchos. – Resmunga Tânia.
- Eu sei, filha! Tens razão, e nós também não gostamos de tanta chuva, tanto frio, tanto céu cinzento…mas temos de aguentar…precisamos de dinheiro, para voltar para a nossa aldeia onde há sol que baste! – Diz a mãe.
- Tenho tantas saudades da aldeia! Lá, até da chuva e do frio, gosto! – Diz a Tânia.
- Eu também filha! – Diz a mãe.
- Pára de reclamar, rapariga! Nada se faz sem sacrifício…nada é recebido de volta sem trabalho, sem dedicação. – Resmunga o pai.
- Melhores dias virão! – Diz a mãe.
- E para onde vamos agora? Para outro sítio sem sol? – Pergunta a Tânia.
- Não…este parece que tem bastante sol…pelo menos…onde está localizado, e é campo! – Responde a mãe sorridente.
- A sério? Boa…finalmente! Espero bem que sim…posso levar as minhas flores, não posso? – Pergunta Tânia a medo.
- Sim, claro que sim! – Fiz a mãe a sorrir.
            A Tânia festeja com saltos e risos. A mãe ri-se, mas o pai avisa zangado:
- A preocupação dela é o raio das flores…para que queres as flores?  Vai lá fazer as malas, que rapidamente temos de sair daqui. – Resmunga o pai.
- Para ficar feliz, e para olhar para elas…para me lembrar da nossa origem…um sítio que faz parte de mim…e que adoro! – Explica Tânia.
- Deixa-te de lamechices…e saudosismos…- Resmunga o pai.
- Eu sinto o mesmo… - Acrescenta a mãe.
- Despachem-se, mas é! Não sei se vão ter espaço para tanta flor. – Murmura o pai.
- Claro que vamos ter! – Respondem as duas em coro.
- Fica descansado que não vão em cima de ti. – Resmunga a mãe.
            Fazem as malas, e vão metendo na caravana. As flores são as últimas a entrar. Depois de uma viagem mais ou menos longa, para a nova casa, Tânia fica com um sorriso de orelha a orelha, ao ver que estavam num sítio com um lindo céu azul, sem nenhuma nuvem, uma temperatura muito agradável, e um sol brilhante, com campos enormes à frente, e à volta da casa grande. Também havia animais da quinta: cavalos, póneis, ovelhas, vacas, porcos, galinhas, patos e cães.
            Tânia salta de alegria. Dois casais muito simpáticos das casas ao lado oferecem-se logo e ajudam a descarregar as coisas, numa conversa muito animada. Há mais crianças que também se dão logo à confiança e conversam com a Tânia.
            Acomodam as coisas, e logo que fica livre, Tânia vai pôr os vasinhos das flores ao sol, mas por conselho dos outros meninos, ela tira-os dos vasos e planta-os no campo, num canteiro que estava livre. Os meninos ajudam e plantam carinhosa e delicadamente, enquanto as crianças vão brincar, alimentar os animais, e andar a cavalo, os girassóis ganham vida, ficam com umas cores mais fortes, e mais bonitas, e rodam alegremente em todas as direcções.
- Áááááhhh…! – Suspiram todos os girassóis.
- Que maravilha! – Suspira um girassol.
- Mas que sítio é este? – Pergunta outro girassol.
- É muito diferente de onde estávamos. – Responde outro girassol.
- Sim! Aqui há…sol com fartura…! - Repara outro girassol.
- E olhem só o espaço que temos para as nossas raízes! – Repara outro girassol.
- Saímos dos vasos apertados! – Suspira de alívio outro girassol.
- Aqui sim…é um sítio para nós. – Repara outro girassol.
- Já estava farto daquela janela. – Repara outro girassol.
- Eu também. – Respondem em coro.
- E daquele espaço fechado…apertado…! – Repara outro girassol.
- Eu também! – Respondem em coro.
- E daquela água toda nas janelas.
- Aquela escuridão sempre diante de nós.
- Que horror.- Suspiram todos.
- Acho que me sinto muito mais novo! – Comenta outro girassol.
- Eu também! – Respondem em coro.
- Óh, que sol fantástico! Até me apetece correr por aqui fora! – Desabafa outro girassol.
- A mim também. – Respondem em coro.
- Eu sinto-me tão feliz…só me apetece rir e saltar… - diz outro girassol.
- Eu também! – Respondem em coro.
- Aqui vamos ganhar saúde, crescer, e dar grandes! – Acrescenta outro girassol.
- Sim! – Gritam em coro.
            E eles tinham razão. Saboreiam o sol, agradecem ao sol, dançam ao sabor da aragem, suavemente, felizes, mexem-se cheios de energia e alegria, cantam juntos, e ganham uma nova vida.
            Nos dias seguintes, a Tânia e os meninos, cuidam deles e ficam encantados com as suas cores…regam-nos, acariciam-nos, e cuidam do resto dos animais e do campo.
Com o sol, os girassóis crescem, dá gosto ver aquele pedacinho de campo, com cores tão bonitas…e neles pousam as borboletas…cada qual a mais bonita, todas diferentes, mas lindas, e as abelhas para lhes tirar o pólen. As suas folhas tornam-se muito verdes, e servem de abrigo, e de sítio de diversão, para alguns caracóis. Os girassóis permitem isso tudo, e criam novas amizades.
Tânia está muito mais feliz, porque tem céu azul e sol a maior parte do tempo, brinca todo o dia ao ar livre, corre e salta pelos campos alegremente com os outros meninos atrás dos animais, brincam com a terra, andam descalços, ajudam os pais, e cuidam das flores e dos animais. O pai carrancudo está mais simpático e os vizinhos são óptimas pessoas, convivem, fazem festas, ajudam-se…e a comida é muito mais saudável.
A vida do campo e as brincadeiras ao ar livre…os pés e as mãos na terra…o contacto com os animais e com as flores…é muito saudável, o sol traz grande alegria, vida, e faz crescer as plantas.
Por tudo isto, Tânia e os meninos agradeciam às estrelas e ao sol todas estas coisas boas, que tinham todos os dias. As próprias flores e legumes agradeciam à mãe natureza, ao sol e aos meninos. Tudo na natureza faz falta para os seres vivos, é por isso que devemos respeitar e tratar bem a natureza e agradecer-lhe tudo de bom, e tudo de bonito que ela nos dá!

E vocês agradecem? Se não o fazem…podem e devem começar a fazê-lo, porque as coisas tratadas com carinho, cuidado e dedicação são muito mais especiais, muito mais bonitas.
Há mil e uma coisas que devemos agradecer todos os dias, ou de vez em quando, porque há coisas que realmente são verdadeiros….presentes da natureza…assim agradecemos a quem nos dá prendas, também podemos, e devemos agradecer à Natureza os presentes que ela nos dá, e trata-la bem, com respeito!
Apreciar tudo o que ela tem de bonito, bom e mesmo algumas que não são tão bonitas ou agradáveis para nós, pessoas, mas são muito importantes para a Natureza e para nós que vivemos dela.
A natureza merece ser bem tratada. Agradeçam também ao sol e às nuvens, à chuva, ao vento, ao frio, ao calor, à trovoada, à geada, à neve, aos rios, ao mar…!
Podem até oferecer-lhe algumas coisas, como desenhos de pedacinhos dela, flores ou palavras bonitas sobre ela, ou a palavra «obrigada» e imagens da natureza…e principalmente, o melhor agradecimento que lhe podem dar…é protege-la, trata-la bem, com carinho e respeito, sem a destruir e sem a poluir.

FIM
Lálá

(31/Julho/2013) 

A CONCHA DE LUZ

foto de Lara Rocha 

            Era uma vez uma praia paradisíaca, selvagem, onde ainda nenhum ser humano tinha entrado, pois o seu acesso não era fácil, e era um caminho muito perigoso. Nesta praia de areias brancas e águas limpas, transparentes, apenas viviam os animais marinhos, e animais voadores como gaivotas, borboletas, águias, e pássaros. Aqui havia sol, sombra, paz e silêncio.
        Uma tarde de muito calor, uma mulher de rara beleza, misteriosa, e com poderes especiais, conseguiu pousar naquela praia, na qual já tinha reparado há muito tempo, mas ainda não tinha visitado. Esta mulher vivia numa gruta de uma montanha muito alta, com a sua família porque teve de fugir da aldeia onde vivia, por causa dos seus poderes.
Todos os habitantes tinham muito medo dela, e da sua família, mas na verdade eles não faziam mal a ninguém. Apenas tinham uma sensibilidade extra, para fenómenos naturais que assolavam muitas vezes a aldeia.
Eles sentiam as mudanças climáticas, daí que pensassem que eles eram feiticeiros e até diziam que a culpa era deles, por isso, foram expulsos. Tinham fugido, mas viviam felizes na montanha…lá tinham tudo o que precisavam, até televisão, viviam em paz, produziam alimentos, tinham muita água, animais e raramente precisavam de descer à cidade.
A linda mulher ainda jovem, sentia que precisava de ir a essa praia…alguma coisa mais havia, para além da sua curiosidade de conhecer a praia. Estava maravilhada com o espaço…e foi-se refrescar nas águas. As sereias que por lá vagueavam e brincavam com os golfinhos, ficaram deliciados com a sua beleza. Mas viam de longe…
- Um peixe? – Pergunta uma estrela-do-mar.
- Não…claro que não é um peixe…é…um intruso. – Diz o golfinho branco.
- Intruso? – Gritam todos.
            Os animais ficam numa grande agitação, mergulham e saltam.
- Estes rapazes não podem ver uma mulher…! – Comenta uma sereia de cabelo ruivo.
- Pois! Ficam logo fora deles. – Comenta outra sereia de cauda prateada e azul.
- Até fazem cenas para chamar a atenção delas! – Acrescenta outra sereia de cabelo preto.
- Mas espera aí…é uma…mulher! – Reflete a sereia violeta.
- Sim! – Confirmam todas!
- Não pode ser…! – Murmura a sereia violeta.
- Mas é! – Respondem em coro.
- Como é que ela entrou aqui? – Pergunta a sereia de cauda vermelha.
- Pois…se é uma mulher…! – Pensa alto, a sereia verde.
- Realmente! – Respondem em coro.
- Nunca nenhum humano entrou aqui. – Diz a sereia de cauda cor-de-rosa.
- Pois não! – Respondem em coro.
- Mas ela tem cara de mulher! – Lembra a sereia de cauda amarela.
- Pois tem! – Respondem em coro.
- E é muito bonita! – Comenta a sereia de cabelo preto.
- Sim! Muito bonita! – Confirmam todas.
- Será que é uma sereia como nós? – Pergunta a sereia azul-marinho.
- Não parece! – Respondem em coro.
- Ela não é uma mulher qualquer…como as outras. – Repara a sereia gota.
- Não? – Perguntam em coro, surpresas.
- Não! – Respondem a sereia gota.
- O que é que tem de diferente das outras? – Pergunta a sereia de cauda cor-de-rosa.
- Ela é especial de certeza! Se não fosse…não teria entrado aqui! – Explica a sereia de cauda cor-de-rosa.
- Mas o que é que tem de especial? – Pergunta a sereia de cauda prateada e azul.
- Não sei explicar, mas sinto algo de muito diferente! – Explica a sereia de cauda cor-de-rosa.
- Mas de bom ou mau? – Perguntam todas.
- Bom! Muito bom! – Responde a sereia de cauda cor-de-rosa.
            Debaixo de água, lá, onde moram as sereias, vive Mara, uma sereia igualmente misteriosa e mágica, que está atenta a tudo.
- Huuummm…uma mulher especial? – Pergunta-se enquanto vê a praia – Sim, se entrou aqui é mesmo especial! Vou ter de te fazer um teste…! É linda! Muito linda! Nunca a tinha visto por aqui. O que será que vens cá fazer? Áááááhhh…espera aí…eu conheço-te! Mas…de onde?
            A rapariga misteriosa volta a sair da praia, e regressa para a sua casa da montanha. Nessa noite, ela não consegue dormir, e sai silenciosa de casa, para a praia. Ao chegar à praia, só se ouve o barulho do mar.
- Talvez agora consiga ganhar sono! Não sei o que se passa comigo hoje. Parece que estou agitada…mas não há razão nenhuma para tal! – Murmura a rapariga.
            Debaixo de água, a sereia Mara sente a presença da rapariga, e vai silenciosa até à superfície da água, e daqui vê a mulher linda, cheia de luz, e sorri:
- Uau! Que luz maravilhosa! Sim…és mesmo especial…és tu…sim…és mesmo tu…eu sabia que te conhecia de algum lado! És aquela que apareces muitas vezes nos meus sonhos! Boa! Agora vou ser livre, feliz…!
            A sereia dá um mergulho, olha-se no espelho, e no espelho aparece um bebé lindo, a sorrir. Ela estende os braços, pega no bebé carinhosamente, envolve-o, nos seus braços, e este fica cheio de luz. Marisa coloca-o numa linda concha enorme, e leva-o para a superfície. Pousa a concha na água, e as ondinhas levam-no para a areia, fechada, juntando-se com outras conchas.
- Vai…! Estaremos sempre juntos! – Diz a Marisa ao bebé.
            E a rapariga olha para a praia toda, e vê uma luzinha na areia. Caminha em direcção à luz e ajoelha-se.
- O que é isto? – Pergunta a rapariga muito surpresa. – Uma concha enorme, cheia de luz!
            Olha em volta, e tenta tocar na concha, um pouco a medo.
- Nunca vi uma concha assim! Que linda! – Diz a rapariga a sorrir.
            Marisa aprecia da água, a sorrir.
- Abre! – Diz Marisa.
            A rapariga ouve-a, e abre a concha. Nem quer acreditar no que vê, quando a abre. A luz aumenta e aparece o bebé sorridente, lindo…
- Áááááhhh…! O que é isto? – Pergunta a rapariga.
- Um bebé numa concha. – Responde Marisa.
- Sim, é um bebé cheio de luz…mas…numa concha…porquê? 
- É para ti…- Responde Marisa.
- Mas, eu não pedi nenhum bebé! – Diz a rapariga.
- Esse bebé fui eu que criei.
- E porque o deixaste aqui? Devia estar contigo!
- Não! Eu não posso ficar com ele!
- Aparece por favor…preciso de te ver.
            A sereia Marisa aparece. 
- Áááááhhh…és uma sereia? – Pergunta a rapariga muito surpresa.
- Olá mulher linda de luz! – Diz Marisa.
- Olá! Chamo-me Lúcia…
- Eu sou Marisa.
- És uma sereia?
- Sim! E tu uma mulher linda de luz.
- Obrigada (sorri) Como é que sabes que tenho luz?
- Eu vi.
- Tu também és muito bonita. Mas…o que significa isto?
- Esse bebé é para ti.
- Mas…se ele é teu, porque tenho de ficar eu com ele?
- Ele não é meu filho, mas esse bebé faz parte dos meus sonhos, e tu apareces muitas vezes nos meus sonhos, por isso ele é para ficar contigo!
- O quê?
- Eu e tu somos almas gémeas! Já ouviste falar?
- Sim! Também tenho algumas nos meus sonhos e à minha volta! Mas como é que sabes que somos almas gémeas? Eu nunca sonhei contigo!
- Tenho a certeza que és tu…sinto a tua luz e a tua energia, é a mesma que sinto agora! Fazes-me companhia, proteges-me…esse bebé é a minha libertação para o mundo fora do mar!
- Sim, eu também não conheço todas as minhas almas gémeas, mas nos meus sonhos aparecem muitas, e sinto-as no real.
- Pois! É o que acontece comigo. Tu tens de ficar com esse bebé!
- Mas, ele é teu filho…e os filhos não se dão assim.
- Não! Ele é parte de mim, mas não é meu filho…sou uma sereia. Este é um bebé de luz, tem de ser libertado! A luz dele não pode ficar debaixo da água. Um bebé de luz só pode andar livre, com alguém muito especial.
- Mas este bebé é real!
- Não! Parece de carne e osso, mas tu viste a luz dele.
- Sim, era ele que estava na concha. E eu vi a concha cheia de luz.
- Ele é muito especial. Nem todos o verão, mas levas a concha e só te peço para andares sempre com ele. Ele é a forma de nos comunicarmos e de estarmos juntas. Eu quero conhecer o sítio onde vives. Ele dará sempre luz…sempre que abrires a concha.
- Mas eu posso vir aqui também, não posso?
- Claro que sim! Até porque ainda ninguém tinha conseguido entrar aqui, mas tu entraste, por isso és mesmo especial.
- Obrigada…está bem, eu fico com a concha e com ele.
- Muito obrigada!
            As duas têm uma longa conversa e riem muito. Passeiam pela praia até de manhã. As sereias cantam felizes, e dançam alegremente, junto dos golfinhos. As duas vêem, e aplaudem maravilhadas! Na manhã seguinte, a Lúcia leva a concha que Marisa lhe ofereceu, para casa com o bebé.
A partir deste dia, ela e a sereia tornam-se amigas inseparáveis e através do bebé da concha passam horas a falar uma com a outra, mostram coisas bonitas do sítio onde vivem, e partilham alegrias e tristezas.
As sereias e os golfinhos vêem muitas vezes três luzes a passear pela praia, lindas e puras, que transmitem paz e boas energias. A praia das conchas tornou-se assim ainda mais especial.
Pessoas de luz atraem-se, é por isso que umas vezes gostamos de certas pessoas logo da primeira vez que falamos com elas ou que as vemos, e outras nem tanto, ou mesmo nada…nem conseguimos estar próximas.

FIM
Lálá
(30/Julho/2013)