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terça-feira, 11 de outubro de 2022

A lição do caracol



     Era uma vez um grupo de crianças que foi para o ar livre passear, apanhar sol, brincar, e viram uma casca de caracol.

- Está aqui um caracol. - grita uma educadora 

    Todos os meninos começam a gritar numa grande alegria. O caracol dentro da sua casa resmunga: 

- Estavas melhor a dormir um sono, em vez de chamar essa gente toda. Devem ser milhares deles, com esta gritaria. Até a minha casa abana. O que teremos nós, caracóis, demais para fazerem tanto escândalo? 

- Vamos cantar a ver se ele aparece! - sugere a educadora 

- Não acredito na ideia tão idiota que tiveste agora...podias estar a brincar com essa gente toda! - murmura o caracol dentro da sua casa

  Cantam todos em coro, numa grande gritaria: 

- Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol.

    Gritam tanto que a casa do caracol vira de lado. 

- Mas o que é que aconteceu aqui? - pergunta o caracol ao sentir virar-se. 

    Todas as crianças riem. 

- Olha, virou…! - diz a educadora 

    Todas as crianças riem. 

- Qual é a piada ter a casa virada? E se fosse a tua, ou se fosses tu ou a tua casa viradas ao contrário? Tinha muita piada, não tinha? És pior do que eles todos juntos. - resmunga o caracol 

- Aparece caracol! - pede a educadora 

- Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol! - cantam todos outra vez a gritar 

- Era só o que faltava. Depois destes gritos todos, se eu saio, até me comem. Não me apetece sair. 

- Vá lá, caracol, caracoleta, caracolinho, sai lá da tua conchinha… - pede docemente uma menina

- Olha-me esta, acha que me convence com esta vozinha, sim, sim, vais ter sorte! - resmunga o caracol 

- Sim, aparece caracol, caracoleta, caracolinho. - diz outro menino 

- Insultam-me, gritam, até viram a minha concha, e ainda querem que eu saio. Saio nada. Portem-se como gente, comigo, e vou pensar, depois, se vou sair ou não. - resmunga o caracol

- Parece que o caracol está a dormir... - diz a educadora 

- Vamos cantar mais baixinho, a música do caracol a ver se desta vez ele sai. - sugere outra educadora

    A outra educadora endireita-lhe a casa, e cantam mais baixinho, em coro: 

- Caracol, caracol, põe os corninhos ao sol! 

- Mas para que estes querem ver os meus corninhos…? Que chatos! Pelo menos agora não gritaram, mesmo assim, não vou sair agora com este calor.

- Olhem, vamos voltar mais tarde, para ver se ele está acordado da próxima vez. 

    Eles vão brincar outra vez, e o caracol respira de alívio, mais descansado, põe a cabecita de fora. 

- Tanta gente! - repara o caracol 

    E quando um menino repara, está o caracol com os corninhos ao sol, que grita aos outros: 

- Olhem, olhem, o caracol está ali com os corninhos ao sol. 

- Óh, não...apanharam-me distraído. E agora? Estavas tão bem a brincar. 

    Vão todos a correr aos gritos, a cantar a canção do caracol, este tenta esconder-se, mas as crianças foram mais rápidas, e o caracol tenta fugir.

    As crianças ficam a apreciar. 

- Ei, vai mesmo devagar. - observa uma criança 

- Ao contrário de vocês que andam sempre a correr por tudo e por nada! - responde o caracol 

- Porque é que tu andas sempre tão devagar? - pergunta uma menina 

-  Se andasses com a casa às costas, queria ver se conseguias andar depressa, ou se fosses caracol, que remédio tinhas, andar devagar. E vocês porque é que andam sempre a correr? - responde e pergunta o caracol 

- Não sei! - respondem todos 

- Somos diferentes! - responde uma educadora 

- Eu falo e vocês gritam, porquê? - pergunta o caracol?  

- Excelente pergunta, caracol! Nós perguntamos isso muitas vezes aos meninos, dizemos que eles não precisam de estar aos gritos uns com os outros. - comenta uma educadora 

- Pois não. Eu odeio gritos! É por isso que nem saio quando se põem aos gritos comigo. Não sei quem teve essa ideia infeliz de inventar a chamada de caracóis dessa maneira! É ofensivo! 

- Estão a ouvir meninos e meninas? O caracol tem toda a razão, também não gosta de gritos. 

- comenta outra educadora 

- E disse uma coisa muito importante: não precisamos de gritar, para conversarmos, não é, caracol? - pergunta outra educadora 

- Pois claro! - confirma o caracol 

- Devíamos aprender com o caracol. A não falar aos gritos, e aprender a andar mais devagar. - sugere uma educadora

- Boa ideia. - diz o caracol e todas as educadoras

- Vão ver coisas muito bonitas, e ouvir sons ainda mais bonitos, se deixarem de correr e de gritar. Experimentem!- convida o caracol 

- Obrigado, caracol, com o que acabaste de nos ensinar! - diz uma educadora a sorrir 

- Áh! Que lindo sorriso. Ensinei? - elogia o caracol e pergunta surpreso 

- Sim, foi muito bom teres aparecido, e o que nos ensinaste. Vamos experimentar! Até logo...meninos, digam obrigado ao caracol, e noutro dia, vimos aqui contar como foi o que ele nos ensinou. 

    Mesmo sem perceberem o que é que o caracol tinha ensinado, agradeceram, e foram com as educadoras fazer o jogo do silêncio. 

    O caracol estava deliciado a apanhar sol fora da sua casca e a ouvir os pequenos em silêncio. 

  Depois, fizeram o jogo de andar muito devagar e em silêncio, e quando chegaram à sala, estavam todos calmos, cansados.

  Aprenderam a falar mais baixo, e as educadoras escrevem o que cada um viu e ouviu. Quando voltaram a encontrar-se com o caracol contaram-lhe tudo o que viram e ouviram, sem gritar. 

    O caracol ouviu-os com um doce sorriso, e partilhou com eles, tudo o que ouvia, tudo o que via por andar devagar. 

    Os meninos quiseram levá-lo para o jardim da sala, até construíram uma casinha abrigo para ele se refugiar do calor, do frio e da chuva. 

    O caracol aceitou, adorou aquele lugar com erva fresca e macia, ouvia as crianças, mas já não os gritos delas, entrava e saía da casa sempre que queria, alimentava-se, os meninos e as educadoras, iam todos os dias dar-lhe os bons dias, sem gritar, e ele respondia com um grande sorriso. 

   O caracol ensinou coisas muito importantes, e tornou-se um grande amigo, companheiro de brincadeiras das crianças, de conversas, mimos, e risos. 

  Todos os dias poderíamos ser como os caracóis, para andarmos devagar como eles, sentir o sol, a chuva, o vento. 

   Ver tudo o que temos de delicioso à nossa frente, à nossa volta, e ouvir sons que nem fazemos ideia existirem, quando só se ouvem gritos, buzinas, carros, sirenes, e outros barulhos irritantes. 

    Nem que fosse só por alguns momentos! 

Já fizeram os jogos do silêncio, e do andar devagar? Registem tudo o que veem e ouvem, andando devagar, e estando em silêncio. 

Áh: e não precisamos de estar todos aos gritos dentro do mesmo espaço. 

Então, o que ensinou o caracol? Podem deixar nos comentários :) 

                    Fim 

                                              Lara Rocha 

                                           11/Outubro/2022 

                                             

As ofertas da Natureza

         Era uma vez duas meninas que adoravam brincos, e faziam-nos com objetos típicos de cada estação do ano. Na Primavera e no Verão,  os brincos, e colares eram feitos de flores coloridas, que depois de secas colavam-nas nos chapéus, em carteiras, roupas, e sapatos. 

        No Verão, além dos lindos fios de flores do campo, elas usavam conchas, pedrinhas, para os brincos, búzios para brincos, colares, pregavam e colavam em chapéus, roupas, sapatos, carteiras. 

        No Outono, usavam uvas para fazer sabonetes com as tias, cremes bons para a pele, champôs, e compotas de castanhas, nozes, aproveitando as suas cascas (das nozes e das castanhas), as folhas de todas as cores, que caiam das árvores, pauzinhos, para objetos de decoração, onde colavam brilhantes e pedrinhas ou pintavam. 

        No Inverno aproveitavam o azevinho e as pinhas para decorar brincos, colares, roupas, chapéus, frascos, caixas de madeira. As tias, as mães e as Avós, davam uma ajuda preciosa, ao transformar em coisas tão bonitas, até pintadas em tecidos para sacos e toalhas de mesa. 

        Mas tinham sempre sócios que lhes roubavam coisas para comer, os passarinhos, picavam a fruta deliciosa, além de borboletas, abelhas, joaninhas, e outros insetos que voavam e pousavam em tudo o que era flores. 

        Tiveram de inventar um esconderijo e uma maneira de proteger o que faziam, pondo plásticos e tecidos com cheiros desagradáveis que só os insetos sentiam, e afugentavam-nos.

        Uma das meninas ficou com pena dos animais, quando os viu famintos, a fazer uma grande chilreada, e esvoaçar nervosos, as borboletas e as abelhas desesperadas a voar e a cair, mal dispostas e com fome, por não terem flores. 

        Disse à sua amiga com quem fazia todas as coisas tão bonitas e tiveram uma ideia: 

- Sabes, eu não gosto que eles nos comam as coisas com que fazemos os nossos trabalhos, mas também tenho pena delas, coitadinhas, ali cheias de fome! 

- Eu também! 

        Ouvem uma voz pequenina: 

- Eu chego para todos! 

- Quem falou? 

- Eu não disse nada! 

- Nem eu! 

- Mas ouvi alguém a dizer que chega para todos... 

- Acho que foi da nossa imaginação, como diz a minha Avó. 

- É. A minha avó também diz isso muitas vezes. 

- Mas acho que ouvimos a mesma coisa. 

- Sim, e acho que tem razão! 

- Nós temos comida, elas também precisam! 

- Pois é! E que alegria termos comida, porque muitos meninos pelo mundo fora não têm. 

- É mesmo! É muito triste, e ainda há meninos que acham que são ricos e desperdiçam comida. Quem dera a esses meninos que não têm comida, o que eles desperdiçam, como os daqui da cidade, que vemos. 

- É isso. 

- Já sei! Para eles não nos comerem as coisas, deixamos pratinhos com comida para eles. 

- Boa! Aquelas que não usamos para as nossas coisas! 

- Isso! Como temos outros materiais, podemos partilhar, se não, um dia destas elas até nos devoram. 

(As duas riem) 

- Pois, e não sobra nada! 

- Que medo! - dizem as duas e riem 

        Juntaram aquelas flores qua não usavam: 

- Achas que elas comem isto assim...? 

- Claro que sim, elas não são esquisitas! 

        Juntaram flores que estavam mais murchas, numa fonte de água sempre a correr e fresca, as uvas também puseram algumas, e fizeram um acordo: 

- Meninas insetas, e meninos insetos, passarinhos, venham cá. Vamos fazer um acordo. Vocês deixam de comer as nossas coisas, e nós deixamos-vos aí comida e bebida, combinado? - diz uma menina 

- Não comam as nossas, por favor! - implora a outra menina 

- Nem andem à nossa volta, abelhas e outras, porque temos medo de vocês! 

(As abelhas riem) 

- Passarinhos...parem de comer as nossas uvas, vocês têm muitas aí à disposição. 

- Chega para todos! - diz outra vez uma voz pequenina

- Áh! Esta frase foi a que ouvimos...! - dizem as duas 

- A imaginação das crianças é demais... - todos os insetos riem e comentam entre eles  

- Claro que chega para todos. 

        Os insetos e os passarinhos saltitam, zumbem de alegria, voam felizes, e aceitam o acordo. Assim, as meninas puderam continuar a fazer todas as coisas bonitas, que os pais vendiam numa feira semanal para ajudar, os insetos e os passarinhos, todos os animais voaram  felizes, livres, com alimento e bebida à farta, sem atrapalhar o trabalho das meninas. 

        Para agradecer, algumas abelhas traziam pólen e enchiam frasquinhos a pedido das tias, das mães e das avós, para que pudessem fazer mel, compotas, bolos e rebuçados da melhor qualidade. 

        Era assim que aproveitavam tudo o que a Natureza lhes dava. 

- De quem acham que era a voz que elas ouviram, mas não viram ninguém? 

Podem deixar as respostas nos comentários. 

                                          Lara Rocha 

                                       24/Setembro/2022  

quinta-feira, 6 de outubro de 2022

A cartola do sapo




        
Era uma vez um rapazola que ia a passar sem pressa por um campo com a sua flauta numa mochila. 

     Viu um sapo a saltar de um riacho com uma sacola, e perguntou: 

- Sapo, sapola, o que trazes nessa sacola? 

     O sapo não gostou nada de ser chamado por sapola, e respondeu: 

- Óh rapazola, chamaste-me sapola, vais ficar sem saber o que levo na sacola. E tu, rapazola, o que levas na mochila? 

- Desculpa sapola...quer dizer, sapeco...levo uma flauta na mochila. 

- Mau…! Agora chamas-me sapeco?! Não estou a achar piada nenhuma! 

- Desculpa...sapoide! 

- E continuas a chamar-me nomes feios?! Que chato. Sou sapo! Vai lá passear com a tua lá o que é, na mochila, que eu não tenho paciência para quem me chama nomes. 

- É flauta! 

- Agora sou flauta? 

- Não, estou a dizer que levo uma flauta na mochila, tu mandaste-me passear com ela, e não lhe chamaste flauta, ela não ficou zangada. E eu também não fiquei zangado, é o que me chamam! E sou um rapaz ainda novo. 

- Mas eu sou um sapo, e ponto final. 

- Vá lá, desculpa sa...sapo! 

- Áh! Assim está melhor. 

- Mas então o que levas na sacola? 

- Levo uma cartola, e tu? 

- Uma cartola? Uau! Eu levo uma flauta. Posso ver a tua cartola posta na tua cabeça horrorosa de sapo? - pergunta o rapaz 

- O que é que estás a dizer da minha cartola...? - pergunta o sapo irritado 

- Só pedi para pores a cartola, por favor, só para eu ver como fica, é que nunca vi um sapão tão grandalhão com uma cartola. 

- Tu pareces educado, e de repente estragas tudo...! Só por isso não a ponho. 

- Vá lá. Por favor...! Não te quis ofender, mas és realmente um sapo enorme, e nunca vi nenhum de cartola. 

- Eu não sou um sapo qualquer! E esta não é uma cartola qualquer... 

- Põe-na, por favor! 

        O sapo quase se nega a pôr a cartola, mas põe, e dobra os lados, para segurar. O rapaz dá umas sonoras gargalhadas. 

- Que cartola horrorosa! Parece um saco de atar, ou um chapéu com orelhas, daqueles países frios...que coisa tão feia, isso nem parece uma cartola! Parece um capacete da idade da pedra, ou do século passado. Se eu usava isso! - diz à gargalhada

       O sapo fica irritado, tira a cartola, tira de lá uma bola e atira-a com força para a cabeça do rapazola, que se senta com o impacto da bola: 

- Pega lá uma bola, nessa tola, para não dizeres mal da minha cartola, seu antipático! Achas que te fica bem, dizer isso na cara de alguém?! 

- Ei, que mau feitio sapola…! Levas tudo tão a sério…! Até dizemos coisas piores uns aos outros, mas é a brincar. 

- Claro, claro, a brincar, e depois andam ao murro e à chapada, ou ao pontapé, como eu já vi, quando chamam coisas que eu prefiro nem saber o que é, mas...claro...é na brincadeira! Vocês, humanos...são uma coisa do outro mundo! 

- Sim, é verdade, somos diferentes dos sapos! Somos humanos. 

- Duvido que sejam melhores que sapos, ou mais bonitos que nós! 

- Isso de beleza, há de tudo! 

- Não estou habituado a que me chamem nomes, nem a que digam mal da minha cartola. - reclama o sapo 

- De onde saiu essa bola que me acertou em cheio na tola? - pergunta o rapaz meio atordoado

- Saiu da cartola que tu disseste que era horrorosa, que parecia um saco com orelhas, e são orelhas, para segurar quando a ponho na cabeça! Mas garanto-te que não é uma cartola qualquer. 

- Bela pontaria! Desculpa…! Acho que já percebi. É feia, mas é mágica! - diz o rapazola 

- Queres levar com outra coisa na tola? Vê lá…! - ameaça o sapo irritado - Voltando ao que tu trazes, para não me irritar mais, e não te mandar uma coisa pior: disseste que trazes uma flauta? Não sei o que é isso! 

- Posso tocar alguma coisa, para tu veres…! Huuuummmm, já sei. 

- Óh, sim, por favor! Muito obrigado. 

        O rapaz tira a flauta da mochila e toca uma bela melodia para o sapo. O sapo solta exclamações de encanto e de espanto. 

- Áh! Que som tão bonito. É difícil tocar isso? 

- Obrigado. Bem...eu já toco há muito tempo, não é difícil, mas no início sim, foi um bocadinho. 

- É preciso umas boas guelras, não? 

- Não. Nós não temos guelras, temos pulmões. Quer dizer quanto melhor respiramos, melhor tocamos, mas também não podemos soprar demais senão fica um som muito agudo e incomoda! 

- Óh, agudo é melhor não, se não acordamos os animais que estão a dormir. 

- Áh, sim, claro.

     Outra gargalhada do rapazola a gozar com a cartola do sapo, e comenta: 

- Essa cartola, ou lá o que é, que parece tudo menos uma cartola, e feia, está cheia de coisas, estou a ver! 

- Ai queres ver mais…? - nunca vi um humano tão provocador como este, mas eu não me calo! Pega lá…!

   Quando o sapo vasculha a cartola, para procurar outra coisa e atirar ao rapaz, que ri à gargalhada, e o sapo furioso, passa um ganso patola, a fugir de alguém que ia com uma gaiola para o prender, a quem tinham calçado umas botas. 

- Safei-me! Obrigado, pateco. - diz o rapazola às gargalhadas 

- Até com o ganso patola és atrevido! - resmunga o sapo 

     Ia tão aflito e tão zangado por não saber andar nelas, que resmungou, tentou desviar a bola, mas deu um valente trambolhão, rebolou e ficou virado para cima. 

- Então patola, o que aconteceu?

- Óh, por favor, ajudem-me, vem atrás de mim uns homens com uma gaiola e calçaram-me esta porcaria que nem sei o que é, nem consigo andar nelas. Por favor, escondam-me e se passarem por aqui, digam que não me viram! Onde me posso esconder. 

- Ali. - diz o sapo, pondo um anexo num tronco da árvore, da mesma largura, e cor, que tirou da cartola. - Fica calado, aí estás seguro, mesmo assim não faças barulho. 

- Eles vem aí. - diz o rapazola surpreso com a magia do sapo 

     Aproximam-se uns homens mal encarados, irritados e aos gritos perguntam: 

- Viram passar aqui um ganso patola, com umas botas nas patas? 

- Não! - respondeu o sapo e o rapazola 

- Isso são maneiras de falar connosco? - perguntou o sapo 

     E o rapazola dá uma sopradela irritante, e aguda na flauta. Os homens começam aos gritos, o sapo encolhe-se todo, e grita:

- Deixem os gansos patolas em paz. Vão caçar carrapatos, ou ervas daninhas… nojentos! Fora daqui… 

   Os homens começam a correr sem olhar para trás, irritados, e o ganso patola respira de alívio: 

- Ufa. Foi por pouco. Muito obrigado. Viram a cara deles…? Que medo! 

- Está descansado, já estás em segurança. 

- Quem deu aquele grito estridente que pareciam vidros a partir? - pergunta o ganso patola 

- Foi o rapazola com a sua flauta. - diz o sapo 

- Áh. 

- Deixa-me tirar-te essas botas… - diz o sapo ao patola 

     O sapo tira as botas ao ganso patola. 

- Áh, que bom. Muito obrigado. 

- O que vais fazer com elas, sapeco? 

- Vou atirar-tas com elas! Há bocado escapaste, mas desta não escapas.

     O sapo atira as botas que o ganso patola tinha calçadas, mas o rapazola já se defendeu delas, e quando estavam quase a acertar-lhe, ele devia-se, e não leva com elas. 

- Chamas-me mais uma coisas dessas e meto-te na cartola, óh rapazola. Verás em que é que te transformo. - diz o sapo irritado. 

    O rapazola ri-se, o sapo apanha as botas, zangado, põe-nas na cartola abana-a e sai uma camisola. 

- Oferece esta camisola a quem precise, óh rapazola. Ou então fica tu com ela para ver se deixas de me chamar nomes feios. 

- Óh! Muito obrigado, sapo. 

      O sapo abana outra vez a cartola, e cai de lá uma gaiola.

- Toca aí, qualquer coisa óh rapazola, para chamar os pássaros, por favor.

- É para já, sapeco, sapola, sapão, sapalhão... - diz o rapazola a rir 

- Ai, ai, ai, ai....queres ser tu o primeiro a ir para lá? - resmunga o sapo 

- Desculpa

       Ri o rapazola e toca uma melodia tão suave, que chegam centenas de pássaros aos bandos, embalados pela música e entram na gaiola. 

    O sapo, e o ganso patola abrem um grande sorriso. È uma gaiola gigante para os pássaros de abrigarem. Os pássaros agradecem numa grande sinfonia de chilreada e oferecem um bailado ao fim do dia, tão espetacular como numa antes tinham visto. 

     O sapo abana outra vez a cartola e cai de lá um gafanhoto saltitão, que pousa no cabelo do rapazola, este desata aos gritos e tenta bater-lhe com a flauta. O sapo e o ganso riem à gargalhada. 

- Socorro, sapo, sapoide, sapola, sapão, tira esta porcaria daqui de cima de mim. 

  O sapo ficou irritado que soltou mais uns quantos gafanhotos, e ri à gargalhada com o ganso ao ver o escândalo que o rapazola estava a fazer por causa dos gafanhotos. 

- É para ver se aprendes a chamar o meu nome e não esses que dizes! 

      Tirou da cartola um sardão com uma língua tão comprida que parecia um chicote e deu uma sapatada na cabeça do rapazote. 

   Os gafanhotos fogem o mais rápido que podem, porque sentem muito medo de sardões, o rapazote tenta afugentar o sardão com a música. E consegue! 

    O ganso patola dá um pontapé a um chapéu que vai para à cabeça de uma menina que andava à procura dele. 

- Ei, como é que ele veio aqui parar? 

- Menina, queres esta camisola? Foi o sapalhão...sapo, sapola, sapoide, sapão que o tirou da cartola. 

  O sapo respira fundo ruidosamente, para se controlar, por respeito à menina: 

- Queres que tire alguma coisa da cartola, menina? 

- Podes tirar uma linda boneca para mim, por favor? 

- É para já! Uma boneca linda como tu… 

- Obrigado! - diz a menina a sorrir 

      Remexe a cartola, e sai de lá uma linda boneca. A menina fica muito surpresa e pergunta: 

- Como fizeste isso? Tu és um sapo mágico…? 

        O sapo sorri, e pergunta: 

- Gostas desta ou queres outra? 

- Gosto desta. Muito obrigado. Até parece que adivinhaste os meus gostos. 

        O sapo ri. 

- Sapola...ahhhh....quer dizer....sapo, que tal se fizermos um lanche? - sugere o rapazola 

     O sapo quase explode, até sai fumo, e os olhos quase saem das órbitas, mas controla-se: 

- Eu…a ti, rapazola, dava-te um lanche especial...mas...hummmm....parece-me bem! 

- Boa! - diz a menina 

- Áh! Soa bem, já estou com fome - diz o ganso patola

- O que é que cada um gosta? - pergunta o sapo 

       Cada um diz o que gosta, o sapo agira a cartola e retira de lá tudo o que todos gostam para o lanche. Conversam alegremente, riem, e o rapazola toca várias músicas com a sua flauta, o sapo tira outros instrumentos musicais da cartola, que cada um mais aprecia. 

        Juntam-se mais outros à festa, cantam, dançam, batem palmas, riem, os cães e os lobos acompanham a uivar, e a ladrar, os passarinhos a chilrear, as crianças, os pais e os avós recebem balões, flores, doces, bonecas, carrinhos, tirados da cartola do sapo. 

- Quais são as palavras que rimam? 

- Acham que o rapazola agiu bem com o sapo? (sim, não, porquê) 

- Se vocês fossem o sapo, o que faziam? Como respondiam? 

- E se vocês fossem o rapaz? 

- Como lhe diziam que ele não estava a ser amigo do sapo? 

- O que tiravam da cartola, se tivessem uma cartola como a do sapo? 

                

                                         FIM 
                                                   Lara Rocha 

               6/Outubro/2022 

vai vento vai, uns anos mais tarde - monólogo

 


foto de Lara Rocha 

   
Estava eu a arrumar uns papéis e encontrei estas frases: Vai vento, vai…Leva a minha dor, a tristeza e a solidão. Sim, era isso que eu queria, há uma série de anos atrás, já lhes perdi a conta. 

    Era dirigida àquele ser sem classificação que me roubou o coração, e expressava a minha raiva por não querer esperar, nem dar segunda oportunidade das coisas melhorarem. O meu primeiro e único amor. 

      Para mim, estava tudo bem entre nós, estávamo-nos a dar muito bem, a fazer planos, sonhos para o futuro, desejos a dois, ilusões! Tudo não passou de bons momentos sonhados a dois, numa fase em que a paixão estava no auge. 

       Mal eu sabia ou sequer imaginava que esta se ia apagar a seguir, depois de me pedir em casamento. Vejam só. Eu aceitei, claro, tínhamos planeado quando as coisas estivessem estáveis no emprego, e outras áreas, para começar uma vida a dois, onde havia amor. 

    Claro. Mais uma ilusão! Eu acreditava que havia amor, santa inocência! Decidiu deixar-me uma semana depois do pedido de casamento, que coisa...e eu pedi ao vento, na fase de mais tristeza: Vai, vento vai...leva tudo isso, e sopra no ouvido dele, que ainda o amo, que ainda o quero. 

    Cruzes! Parecia uma adolescente influenciada pelo Romeu e Julieta, ou do Infante Pedro e Dona Inês de Castro. Onde já se viu? Desde quando é que eu ia amar alguém que me tinha deixado, pouco depois de me ter pedido em casamento? 

    Não teria nada na cabeça. Não, não era eu a falar, era a minha ilusão, a minha tristeza, a minha solidão, a minha raiva, a minha identidade a desmoronar-se, para eu recomeçar do zero. 

    O vento não seria normal se soprasse isso ao ouvido dessa criatura incógnita! Ainda bem que ele não fez isso, caso contrário, acho que até o vento me virava ao contrário, tipo furacão de raiva pelo que lhe estava a pedir, e eu dar-lhe-ia toda a razão. 

    Essa agora…? Depois de levar um arco enfeitado de hastes, tipo andor de caça na cabeça, ainda ia pedir ao vento para lhe soprar isso!? 

    Onde estava com a cabeça? Bem, acho que no mesmo lugar, mas vazia, para fazer um pedido desses ao vento, não podia estar recheada de miolo. E não. Eu senti-me desconhecida de mim mesma, estranha até a olhar para o espelho não me reconhecia. 

    Qual o amava, o quê? Desde quando? Qual o queria, o quê? Só se estivesse em curto circuito, estava, mas não cheguei a esse ponto, felizmente. 

    Pedi ao vento para lhe dizer que nunca é tarde para recomeçar...depende do que se recomeça, neste caso, nunca seria possível recomeçar, pelo menos com o mesmo pré-histórico. Para quê, e o que recomeçaria com ele? 

    Era só o que faltava. Ele sabia melhor que eu, caso nos zangássemos ou terminássemos a relação não teria volta de minha parte. 

    Aí, ele tinha toda a razão, nem fazia sentido, a única coisa que poderia recomeçar era eu devolver-lhe as hastes, até isso era perda de tempo, e gasto de energia com quem não merecia nem sequer as hastes, ou talvez...com outro tipo de adornos. 

    Depois do fim, nunca mais nos falamos, e ainda bem, porque as minhas poucas frases que lhe dirigi não foram simpáticas, nem podiam ser. 

    Ainda teve a ousadia de me convidar a conhecer a outra...só se fosse para eu cometer dois assassinatos. O meu ódio nesse dia com essa mensagem explodiu, ainda pensei duas vezes se ia ou não, mas decidi não ir, porque tenha a certeza que a coisa não ia correr bem.

    Sem vergonha! Passei num instante do amor ao ódio, sim, ódio, a palavra mais simpática para classificar o que senti nesse momento. Pedi ao vento que os levassem para o inferno, para um esgoto, para uma toca, para onde quisesse, que nojo que senti dele. 

    Escrevi ao vento e pedi-lhe, ainda sob o efeito da tristeza, que era possível voltar atrás, e corrigir os erros. Mas que coisa mais sem sentido, neste caso. 

    Não havia erros corrigíveis, o erro foi dele que estava faminto do que sabemos, e eu não o alimentei disso! A primeira cria que o satisfez, que lhe matou aquela fome, serviu. Em vez de esperar! Coitado. 

    Pedi ao vento, nos primeiros dias, que soprassem da cabeça dele, todas as dúvidas, pedi ao sol e à lua que o iluminassem e lhe mostrassem quem era a mulher da vida dele, eu. 

    A cabeça dele era anti vento, por fora, mas por dentro só tinha ar, o vento, o sol e a lua nem perderam tempo a tentar, e riram na minha cara, pela minha idiotice. 

    Eles tinham razão! Bem lhes pedi que lhe fizessem perceber que é sempre tempo e que vale a pena esperar por certas coisas. Sim, certas coisa, não certas...bolhas de ar em cabeças vazias, fracas, ele nunca ia perceber o que era esperar e porque é que era bom esperar por elas. 

    Esperar...o que é isso? Não faltava mais nada, que coisa da idade da pedra! Espera tu e é se queres, o problema é teu. Pedi ao vento para ir e levar o meu coração partido para junto dele...para quê? 

    Mas que ideia tão idiota que eu tive! Se ele estava partido, o que é que o miserável ia fazer com ele? Não tinha como o concertar, muito menos queria fazê-lo. 

    Eu também acho que não ia ter jeito para tal. Que estranho o meu pedido ao vento...leva-o e trá-lo de volta, a ele e ao meu coração reconstruído. 

    Ãhhh? Não devo ter sido eu que disse isto, devia ser a outra que existia antes, ela ia ter sorte, ia…! Passados estes anos todos, ainda não está colado, nem reconstruído ou colado, quanto mais nessa altura. 

    Mas que loucura! Pedi ao vento par ir e trazer de volta aquele sorriso que tanto me encantou. Tenho a certeza que não conseguia voltar a vê-lo, nem aquele sorriso que na altura gostei, mas rapidamente até o sorriso dele, me dava a volta às entranhas, tal como os olhos que eu achava lindos, agora não vejo onde estava a beleza, mas pronto, na altura foi o que vi, a pele branca. 

    A parte verdadeira, até acabar é que gostava daqueles lábios que me deixavam derretida, mas isso qualquer uma e qualquer um fica, enquanto está na fase do encantamento, e da paixão, que ofusca a realidade. 

    Os abraços bons, eu queria de volta, sim, é verdade, todos os que namoram gostam de abraços, e mesmo os de quem não namora, mas uns anos depois, percebi que já recebi abraços muito melhores do que os dele, de outras pessoas, que me transmitiram muito mais, que me preencheram de verdade, e não os dele. 

    O vento não atendeu ao meu pedido, ainda bem! Eu pedi-lhe que trouxesse os abraços dele de volta. Naaaa…! O vento estava a meu favor. 

    Pedi ao vento que fosse, e que levasse as recordações dos momentos inesquecíveis, para que também ele se lembrasse de mim. Racionalmente falando, e pensando uns anos depois, ele teria muito mais em que pensar, na nova...qualquer coisa que arranjou, não tinha tempo para se lembrar de mim, uma experiência, um ensaio, uma brincadeira cinematográfica. Já nem da minha cara se deve lembrar.

    Pedi ao vento que fosse, e que lhe puxasse muitos fios da saudade, no coração. Ui, que saudades que ele devia ter...nossa! Até dói imaginar. 

    Pedi ao vento que o fizesse lembrar de que o amava realmente. Daaaahhhhh...claro! É óbvio que eu não voltei a amá-lo depois do que me fez, mas a outra que existia antes desta eu, acreditava que sim. 

    E pedi ao vento que ele desse valor a quem o amava realmente. Pobre adolescente, ingénua, que achava que ainda tinha muita coisa para lhe dar, e pedi ao vento para lhe dizer isso. 

    É claro que o vento foi muito mais inteligente do que eu, e não disse, ele sabia que era tudo fantasia da minha cabeça, que era a tristeza a falar. 

    Tinha muita coisa boa para lhe dar, mas ele não quis, azar o dele, não ia ser o vento que o ia mudar, nem ia ser o vento que lhe ia dizer que ele comigo iria ser muito feliz. 

    Bem, uns anos mais tarde... o vento já o sabia...não...não iriamos ser felizes, porque se tivéssemos de ser felizes juntos, nunca nos tínhamos separado, e ele teria aguentado do meu lado, para vivermos o que tínhamos sonhado, planeado para os dois. 

    Mandei o vento, disse-lhe para soprar tudo isto ao ouvido dele, que ficaria à espera. Seria perda de tempo esperar? Com toda a certeza! 

    E foi, não esperei, rapidamente, o ódio não permitiu que eu esperasse, ao contrário dele que foi outro obstáculo. Perguntava muitas vezes ao vento: Será que vale a pena acreditar que ele ainda vai voltar? Será que posso acreditar que ainda vamos ser os dois muito felizes um com o outro? Que tudo isto que estamos a passar de mau, é um teste ao nosso amor, e vamos passar os dois? É só uma fase má, como todos os casais vivem, e vai passar? Ele vai voltar? Será que posso acreditar que o amor será mais forte e que há-de vencer? Por mim, sim. 

    Acreditava, acreditei, mas rapidamente perdi toda a ilusão, acreditava que o amor ia vencer...pedia ao vento para o fazer mudar de ideias, como se isso fosse possível, eu achava que sim! 

    Pedia ao vento que ele voltasse para mim. Felizmente nunca aconteceu! Pedia ao vento para lhe levar as minhas mensagens, mas nunca soube se as recebeu, provavelmente o vento não as entregou porque sabia que não ia valer a pena! 

    Dizia-lhe para ele tentar convencê-lo a ficar comigo, mas isso era impossível, e tinha esperança, mas pouco depois tive a certeza de que era impossível, e que nunca ia acontecer. 

    Ainda bem, o vento tinha razão, e sabia o que estava a fazer. Pedia ao vento que lhe dissesse para voltar para mim, que ia ser muito bom, e seriamos muito felizes. 

    Pedia ao vento para lhe dizer que era sempre possível voltar! Pedia-lhe que lhe assobiasse tudo o que eu sentia, talvez o vento lhe tivesse assobiado o que eu sentia de mau. 

    Imaginem só, o que eu pedia ao desgraçado do vento: Diz-lhe que é sempre possível voltar! Assobia-lhe tudo o que sinto…Grita-lhe que o amo, e que é sempre tempo de…Recomeçar. E o amor…vencerá. 

    Diz-lhe que não demore. Que estou aqui à espera dele…Que se ele voltar, eu perdoo-o…Vai, vento, vai…E traz de volta o meu amor…!

    Porque para mim, é sempre tempo de voltar e recomeçar, é sempre possível uma segunda oportunidade, para melhorar…se há amor! 

    Tanta inocência, tanto romantismo, tanta irrealidade. Alguma vez tal seria possível depois do que me fez? Se não há amor, nada é possível. 

    Com certeza. E não havia, nem do meu lado, nem do dele. Mas eu acreditava que ia renascer...mais forte, do lado dele! Pedia ao vento para lhe dizer que não há distância que separe quando dois corações se unem pelo amor...que bonito, não é? 

    Nos contos de fadas, em telenovelas, e filmes românticos. Não é preciso distância, basta estar no mesmo local de trabalho, com assanhadas, e crias esfomeadas para as coisas sérias irem pelos ares.

    Otário, ela estava a gozar contigo, estava carente e tu caíste que nem um pato! Ficou muita coisa por te mostrar, e tu a mim. Ficou muita coisa por viver a dois, muitos sonhos por realizar a dois, muita descoberta! 

    Tiveste pressa, monstro…! Conheces esta? Duvido, conheces a única coisa que te interessa e que eu não te dei. Em dois anos, conheceste essa melhor do que a mim, com quem namoraste 4...claro...é por isso que nas fotos irradiam carantonhas, principalmente tu, e ela, bem...não devias ter os óculos contigo!

    Bem disse ao vento que queria conhecer o teu lado mais romântico, mas ele sabia que não havia. Pedia ao vento que lhe mostrasse e que lhe levasse: a minha alma…o meu amor…Tudo…        Vai, vento, vai…Leva as minhas palavras, o meu coração, os meus olhos, a minha tristeza, a minha dor, as minhas lágrimas, a minha saudade, e os meus sonhos e desejos…Todo o meu ser…E traz o meu amor de volta, com o meu coração reconstruído, e as minhas lágrimas secas.

    Foi o que escolheste, foi o que perdeste, mas é mesmo assim que acontece! Ainda bem que o vento não me fez as vontades, nem te transmitiu as minhas mensagens, vontades, ou então, afogaste-as.         Nunca mais fui a mesma, tu não sei, nem quero saber, só sei que já vai há tanto tempo, e o que eu pedi ao vento deixou de fazer sentido pouco depois, mas o meu coração...esse...nunca mais foi o mesmo. 

       Transformei-me num cubo de gelo, em alguém que não era, nem imaginava ser,  parte do meu coração não sobreviveu, nem ressuscita com coisas boas, há sempre pedaços que nunca se colam, e voltam a partir, ponho cola, mas por vezes voltam a quebrar. 

    Mas se estás feliz é o que interessa...depois de tanto tempo, e apesar de tudo, peço ao vento agora que me leve para ti, a minha gratidão por todos os bons momentos que vivemos. 

    Disse-to na altura em que acabamos e muitas vezes durante o namoro, mas agora que nunca mais nos vimos, em que somos recordações (talvez vagas para ti), é a única coisa que peço ao vento...é que te entregue a minha gratidão! 

    Agora tudo não passa de boas recordações, e às vezes das más, do fim, da dor, da cratera que não fecha, está apenas adormecida e fechada em si própria. 

    Não peço mais nada ao vento! Vai em paz, vento, vai! 

    E tu também. 

                                                   Lara Rocha 

                                                    6/Outubro/2022 

quarta-feira, 5 de outubro de 2022

Onde está o meu coração?

 Onde está o meu coração?










foto de Lara Rocha 


Já alguma vez se sentiram como se não soubessem onde está o vosso coração? 

Alguma vez o procuraram? 

Umas vezes…

Parece que o nosso coração sai do peito

Parece ou será que sai mesmo? 

Com o vazio que sentimos, deve sair mesmo!

Alguma vez...O procuraram fora de vocês…?

Eu sim! Já o procurei muitas vezes, fora de mim.

Cheguei a pensar que ele estava no peito,

Mas logo duvidei,

E pensei que era o eco das suas batidas

A impressão que ele estava fora,

Continuava,

Embora o sentisse bater.

Bateria mesmo, ou estaria eu a imaginar?

Com a dor que sentia, e pela quantidade de lágrimas que caíam dos meus olhos

Acho que ele estava mesmo fora do sítio

Ou...estaria mesmo lá?

Porque é que sentimos dor, e vazio…?

E porque é que as lágrimas caem?

Talvez porqueO coração está mesmo fora do peito.

Às vezes cai, outras vezes levanta-se

Às vezes sai, outras vezes entra

Às vezes fere-se e nunca se cura,

Outras vezes, fere-se e cura-se.

Pobre coração!

Sofre mais que um condenado

Umas vezes é esquecido,

Apertado,

Enforcado,

Maltratado,

Desvalorizado,

Pisado,

Humilhado,

Torturado,

Partido,

Ferido,

E mesmo assim

Continua a bater,

E a manter-nos vivos.

E mesmo assim,

Continua a inventar paixões impossíveis

Gostas de sofrer, coração?

Ou fazes tudo isso

Para nos castigar

E relembrar-nos que existes?

Para nos acordar?

Para nos sentirmos vivos,

Só porque bates mais depressa?

Obrigada

Mas sinceramente

Podias arranjar outra maneira

De darmos por ti

Sem sofreres outra vez

Amores não correspondidos

Fazem-nos sentir vivos,

Mas também nos fazem chorar.


                                                                   Lara Rocha 
                                                                 22/Março/2018