Pessoa,
pessoas
Fazemos
parte de um grande mundo, todos, tudo o que vemos, tudo o que
sentimos, ouvimos, cheiramos. Todos: pessoas, animais, plantas, rios,
serras, campos, montanhas, florestas, glaciares, mar, terra, ar,
água.
O
que nos diferencia é a forma como nos mostramos aos outros, como os
outros nos veem, e as nossas respostas aos acontecimentos de vida.
As
diferenças que nos chamam mais a atenção, referem-se ao corpo.
Sim, os animais também tem o seu corpo, diferente do nosso, tal como
as árvores que às vezes também parecem corpos humanos na sua
perfeição.
Uma
pessoa é constituída por um corpo e por um espírito. O corpo é
vivido em dois polos: o exterior e o interior. Exteriormente, o corpo
pode ser semelhante à nossa perceção, é igual para todos, todos
veem o rosto uns dos outros, o físico.
Não
obstante as diferenças particulares, físicas de cada um, todos
temos os mesmos órgãos internos «cabeça, tronco e membros».
Interiormente, esta refere-se à experiência do sentir, traduz a
maneira como nós nos vemos a nós mesmos, como cada um sente o seu
corpo, o que se passa dentro de cada um através dos sentidos.
Estas
duas experiências estão interligadas, porque o corpo está no mundo
como objeto exterior, mas é habitado por cada pessoa. Quando dizemos
«o meu corpo é meu», dizemos que nosso corpo pertence-nos
(«pertence-me este corpo»).
Quando
dizemos «eu sou o meu corpo» referimo-nos à experiência interior,
quando experimentamos, quando nos sentimos bem no nosso corpo,
entramos em nós, encontramos em nós essa experiência (sensações),
«sentir», e o reconhecimento das sensações.
O
termos um corpo, significa que este nos pertence, cada um tem o seu
corpo, é algo que lhe pertence, com o qual pode fazer o que quiser.
O
corpo humano é fonte de expressão e comunicação, é a origem de
todo o significado do ser humano, bem como é fonte de humanização
do mundo através do qual podemos utilizar as ferramentas e
objetivos.
O
corpo humano, é pessoa humana enquanto manifesta o nosso interior,
exprime os nossos sentimentos. O corpo é uma presença no mundo,
pois requer aproximação do mundo e está no centro deste.
O
corpo funciona como linguagem: podemos estar em silêncio e comunicar
através do olhar, das expressões faciais: riso, choro, alegria,
admiração, maravilha, e outras.
Com
o corpo podemos mostrar a linguagem ainda que sem palavras usando a
dança artisticamente trabalhada, intencional, isto é, a harmonia,
podemos usar a linguagem da ternura, da carícia, através da mímica,
do teatro, da música, entre outras formas.
O
corpo é a possibilidade máxima e o limite. Somos a condição do
corpo, existimos ou como homem ou como mulher, ou como mistos em
alguns casos.
O
corpo é a própria pessoa. E a pessoa é também afetividade: tem a
capacidade de ser modificado por algo exterior que se faz presente à
pessoa.
A
afetividade pode ser sentida a dois níveis: ao nível mais
superficial que é dado pelas emoções, comoções intensas mas
passageiras, irrefletidas, bruscas, vinculadas fortemente à
corporeidade.
Nestas
incluem-se: o medo, a cólera, a angústia, o estar contente ou o
entusiasmo. Afetividade tem também um nível mais profundo no qual
encontramos os sentimentos, estados afetivos de moderada intensidade
mas de longa duração. Neste segundo nível está a intimidade.
A
situação de maturidade afetiva e de equilíbrio psíquico, a
afetividade é razoavelmente controlável pela vontade, e quando
assim não acontece, é sinal de imaturidade da personalidade, ou
psicopatologia.
A
afetividade abre-nos à relação com os outros. Para a pessoa se
realizar não pode reprimir a afetividade porque esta também se
forma e fortalece na relação com os outros.
Cada
um de nós só se pode realizar afetivamente se se abrir aos outros,
se se der aos outros; quando nos damos aos outros, sentimo-nos bem e
também estamos recetivos aos outros.
Todo
o ser humano desde que nasce, grande parte do seu desenvolvimento e
crescimento interior depende da afetividade que recebe da mãe, do
pai, dos irmãos se já tiver, dos avós, dos tios, dos primos e
depois dos amigos, e que utiliza para se relacionar com os outros que
o rodeiam.
Se
estivermos rodeados de afetividade, desde que nascemos, será assim
que nos vamos relacionar com, e mostrar aos outros. Todos precisamos
de nos dar aos outros, e os outros precisam do nosso afeto, mais ou
menos.
Se
não nos damos aos outros, sentimo-nos inúteis, não crescemos como
pessoa. Dependendo das experiências anteriores, por exemplo, uma
pessoa que viveu muitas experiências afetivas negativas, nas
relações seguintes, pode vir a ter comportamentos agressivos,
frios, distantes, pode isolar-se, fechar-se em si mesmo, tratar mal
os outros.
Isto
vai trazer infelicidade tanto para eles como para os outros, mas se
em contrapartida as experiências afetivas foram satisfatórias,
felizes, e boas, estas pessoas vão estar mais abertas com os outros,
vão ser mais sensíveis e atentos, mais delicados e afetuosos, e
sentir-se-ão mais felizes, completos interiormente.
O
corpo (humano, animal ou vegetal), existe para nos proteger, e para
nos permitir adaptar ao meio, por isso somos tão diferentes, com
algumas semelhanças.
Que
semelhanças? No direito à dignidade, ao respeito, ao amor, à
satisfação das necessidades mais básicas, físicas, e de carinho,
o sentirmos que pertencemos a uma família, comunidade, grupo de
amigos que gostam de nós e aceitam-nos como somos.
Todos
temos qualidades e defeitos, isso torna-nos diferentes, mas iguais.
Diferentes pelas nossas famílias, a genética, os valores que nos
transmitem em cada casa, a educação, os nossos antepassados.
Porque
vivemos em sociedade, e precisamos uns dos outros, a cultura, a
sociedade, as regras padronizadas que partilhamos para conviver, e
relacionarmo-nos uns com os outros, desempenha o seu papel na nossa
formação enquanto pessoas e naquilo em que nos vamos tornando ao
longo da vida.
Tornam-nos
diferentes, as experiências agradáveis e as desagradáveis, as más
e as boas, as pessoas que conhecemos, com as suas próprias
características que nos agradam, aproximam ou afastam de alguns
seres, aproximando-nos de outros.
Identificamo-nos,
ou não, com elas, na sua forma particular de ser, ou porque
partilhamos gostos comuns, ideias. Há pessoas que nos tocam mais e
outras que não nos conquistam.
Sendo
muitas vezes a aparência física um dos critérios que nos leva a
selecionar com quem nos queremos relacionar ou não; existe a nossa
personalidade.
Esse
é outro fator que nos torna únicos, individuais, diferentes dos
outros, mesmo dentro da própria casa, entre irmãos, diferentes dos
pais, a nossa essência.
Já
nascemos com personalidade? Com a que temos hoje? Não. Até
chegarmos ao que somos agora, já passamos por muito, já conhecemos
muitas pessoas diferentes, iludimo-nos e desiludimo-nos, várias
vezes em cada fase do desenvolvimento.
Sabemos
que acontecimentos que vivemos antes de nascer, já vão influenciar
de certa forma algumas características da nossa pessoa: as hormonas
da nossa mãe, do que ela vai sentindo, pensando, vivendo, passam
para nós, e vão ficando gravadas na nossa memória.
Mesmo
antes de nascermos, já vamos começando a conhecer o mundo através
do tato, dos sons que ouvimos, e mesmo sem sabermos, essas
informações vão contribuir para nos adaptarmos ao mundo lá for a
com mais segurança.
O
«eu», aquele ser verdadeiro que tantas vezes somos «obrigados» ou
educados para «não mostrar», «disfarçar», «ocultar», dos
outros (algumas formas de agir e pensamentos), vive connosco
escondido pelo corpo externo.
Todos,
sem exceção temos particularidades que não revelamos quando
estamos com outras pessoas. Não temos o mesmo à-vontade com toda a
gente, nunca mostramos aos outros, porque podemos «magoar» o outro,
ou porque «o outro pode afastar-se de nós por causa disso».
Nunca
somos totalmente autênticos, nem totalmente verdadeiros na relação
com os outros. Vamos aprendendo a selecionar o que podemos mostrar de
nós, a quem, de acordo com as respostas que recebemos dos outros; e
estes segundos fazem o mesmo em relação a nós.
Com
as experiências aprendemos a transformar-nos, por vezes naquilo que
sabemos que os outros esperam de nós, e projetamos no outro que
conhecemos, as nossas características, geralmente as que mais
apreciamos em nós.
Mas
o outro é tão único como nós, na sua maneira de ser, pensar e
agir, e o mais comum é que seja totalmente diferente de nós. Por
este motivo, é muito fácil criarmos ilusões, «construirmos» na
nossa mente, pessoas que gostaríamos que elas fossem para nos
agradar.
Elas
não são como as imaginamos, quando nos mostram o seu verdadeiro
«eu», coberto pelo corpo, por uma cara bonita, ou por palavras
simpática.
Elas
mostram o socialmente desejável, e o socialmente esperado, por isso,
se o outro não age como esperávamos, pensávamos, queríamos ou
imaginávamos: desiludimo-nos, ficamos destruídos, tristes.
Mas
essas experiências, fazem parte do nosso desenvolvimento, todos
passámos por elas, e ajudam-nos a crescer. Normalmente, depois de
cada desilusão, ou quando alguém que apreciamos se afasta porque
não gosta de nós (achamos nós, o que nem sempre corresponde à
realidade), procuramos mudar aquilo que somos, só para agradar aos
outros.
Mas
alguém dos outros, pode apreciar essa nossa características, que
esse não gostou. Os outros são importantes para nós, claro que
sim, sem dúvida nenhuma.
Precisamos
de alguém externo à família, para partilhar as nossas dúvidas,
angústias, medos, ideias, emoções, coisas positivas e aspetos
menos bons.
Precisamos
do outro para nos sentirmos pertencentes a uma família, a um grupo
de amigos com quem podemos contar, principalmente nos nossos piores
momentos, em quem confiamos.
No
entanto, os gostos são muito subjetivos: eu gosto de alguém com
determinadas características, como pessoa, alguém que se relacione
comigo de certa maneira, que me trate de acordo com a minha maneira
de ser.
Queremos
alguém que nos complemente, não que nos faça mudar aspetos em nós,
traços da nossa personalidade que já nos caracterizam há tantos
anos, e se cada um de nós aceitar esses traços, poderá ser mais
fácil de lidar com a rejeição do outro.
Não
somos verdadeiros com nós mesmos, quando mudámos de forma forçada,
só para agradar aos outros, o que também acabamos por não ser
verdadeiros com os outros ao fazer isso, pois às vezes soa a falso
ao fim de pouco tempo, mesmo sem termos consciência disso, e o outro
percebe.
Não
temos que mudar só para outro gostar, porque o outro também vai ter
traços que não nos agradam tanto, e não tem de os mudar.
O
truque é aceitar também isso, e tentar encontrar a maneira mais
saudável de relação para os dois, se sentimos que podemos fazer
bem um ao outro, ou aprender alguma coisa.
Não
temos de ser iguais, nem somos. No meio de tanta gente que
conhecemos, com quem nos relacionamos, não podemos, nem agradamos a
todos. Muito menos, todos os outros têm de gostar de nós, só
porque alguns gostam, ou porque nós os apreciamos.
Precisamos
dos outros para nos auto conhecermos, para sabermos o que queremos
para nós, quem queremos ter do nosso lado, com que tipo de pessoas
nos relacionamos melhor, quem nos preenche, e quem nos faz mal.
Mas
quantas vezes, à primeira vista criamos uma ideia distorcida das
pessoas e num contacto mais próximo, ou conversas, percebemos que
elas afinal não são nem de perto, o que tínhamos pensado que eram.
Com os outros em relação a nós também acontece isso, em relação
a nós.
O
meio molda-nos, principalmente no sentido de darmos a cada
experiência, em conjunto com a nossa personalidade, e outras
situações que vão contra os nossos valores ou se estão de acordo
connosco.
Somos
pessoas (unidades individuais), inseridas numa sociedade
(diversidade) em todos os aspetos. Além de seres únicos e sociais,
somos pessoas espirituais (mais ou menos), pois o espírito também
faz parte do corpo, do ser a pessoa que somos.
Enquanto
seres humanos sentimos maior ou menor necessidade de procurar sentido
para quem somos, um propósito, ter objetivos de vida, uma missão
para com os outros (a nível pessoal e profissional).
Precisamos
(uns mais, outros menos) de acreditar em alguma «Entidade» superior
a nós, que nos dê força nos piores momentos, de dor, sofrimento,
tristeza, angústia, desilusão, desorientação.
Sabemos,
ou achamos que não temos o direito de «incomodar» os outros com as
nossas coisas, quando consideramos que não podemos contar com os
outros para nos ajudar ou partilhar as coisas que nos incomodam, sem
medo do julgamento dos outros, ou da crítica.
Porque
precisamos, e queremos dar um sentido à nossa vida, à nossa pessoa,
e à nossa existência. Estes aspetos são igualmente subjetivos e
variam de pessoa para pessoa.
Nunca
temos respostas suficientes, nem para tudo, não sabemos o que existe
de facto, mas se nos ajuda, é porque existe, mesmo que não vejamos
alguém igual a nós, mas sentimos que interiormente mudou alguma
coisa.
Muitas
vezes sentimo-nos frustrados quando não encontramos as respostas que
procuramos, apesar disso, tanto estas respostas que não encontramos,
como nós (enquanto pessoas), fazem parte do grande mistério chamado
Mundo, e Pessoa.
Demoramos
nove meses a ser construídos, a nossa base, a formar a primeira
parte do nosso corpo, quando somos gerados, e enquanto estamos vivos,
a nossa auto descoberta, descoberta dos outros, do mundo, é um
trabalho diário, contínuo, que não tem fim.
Cada
experiência, cada pessoa que se relaciona connosco, modifica-nos,
faz-nos evoluir, crescer interiormente, torna-nos melhores ou piores
pessoas, faz questionarmo-nos, interpretar os acontecimentos de forma
diferente, que por sua vez mudam de acordo com a sua repetição na
nossa vida.
Aprendemos
muito, sozinhos e com os outros, e ensinamos muito, sem que tenhamos
de ser como esperam ou querem que sejamos. Nem nós acertamos sempre
nas expectativas que criamos em relação aos outros.
Temos
direitos e deveres, tanto nós como os outros: o direito de ser
diferentes, o direito a não se relacionarem connosco, nem de gostar
de nós, só porque gostamos delas.
Porque
cada um de nós também tem o direito de não gostar de todas as
pessoas com quem nos cruzamos. Mas temos o direito de fazer escolhas
(nós e os outros), e de sermos respeitados por elas, mesmo que sejam
diferentes das nossas.
A
nós, e aos outros, assiste-nos o dever de respeitar, ser
respeitados, direito à dignidade, valorização no todo que somos,
além do corpo.
Porque
somos pessoas únicas, temos liberdade de pensar de forma diferente,
uns dos outros, e temos o direito de escolher partilhar ou não esses
pensamentos uns com os outros, ou só com alguns.
Somos
corpo e «máscara», através da qual, entreabrimo-nos aos outros,
ao mundo. Ao mesmo tempo, essa «máscara» (o rosto, e o que
ocultamos dos outros, partes da nossa personalidade, características
individuais, ou disfarçamos emoções), impedem que sejamos
«invisíveis» aos outros.
Utilizamos
constantemente estratégias que não deixam os outros ter acesso e
ver o que cada um de nós é, na sua totalidade, e o outro faz o
mesmo.
Porquê?
Pelo medo da solidão, da rejeição dos outros, porque achamos que o
outro não vai gostar de nós por este, ou aquele «defeito», e
porque «representamos vários papéis» no convívio com os outros.
O
que nos torna humanos é o amor, uma necessidade comum a todos nós,
sermos amados, acolhidos, precisamos de afeto (dar e receber), de
sermos queridos e desejados pelos outros, para que a nossa existência
ganhe sentido.
Se
aprendemos a ser amados, desde que nascemos, e se nos sentimos
amados, queridos, desejados, acolhidos, vamos sentir-nos mais seguros
em nós mesmos, vamos gostar de nós, amarmo-nos e aceitarmo-nos como
somos.
Vamos
aceitar melhor ou lidar melhor com os nossos defeitos e com os dos
outros, sem entrar em conflito, porque não podemos mudar o outro,
não temos esse direito, nem é possível.
Ao
sentirmo-nos amados, vamos dar essas respostas aos outros, seremos
mais educados, sensíveis, amorosos, afetivos, dedicados aos outros.
Seremos
mais capazes de dar um bocadinho de nós aos outros. Porque nem nós,
nem os outros podemos ser tratados como objetos, coisas que podemos
explorar ou ser explorados, muito menos fazermos do outro o que
queremos (incluindo magoá-lo ou feri-lo de todas as maneiras).
Não
podemos exigir do outro o que quer que seja, para satisfazermos as
nossas vontades individuais, nem podemos exercer o nosso poder sobre
o outro.
A
pessoa não tem preço, não podemos exigir que ele ou ela seja igual
a nós, e só temos de respeitar, mesmo que nos doa. Ser pessoa é
saber aceitar estar com nós mesmos, e com os outros, quando estes
querem, ou por outro lado, dar espaço quando este não quer.
Ser
pessoa é respeitar o outro, na sua individualidade, as suas ideias,
crenças e emoções, a sua raça, a sua idade. É respeitar a sua
dignidade por ser humano.
Ser
pessoa é em parte «cuidar» do outro, sem no entanto impor as suas
próprias ideias ao outro. Ser pessoa é respeitar a liberdade do
outro, e ter consciência de que o outro é diferente de mim.
Ser
pessoa é perceber o outro, conhecer a sua maneira de ser através do
seu rosto. Ser pessoa é ter consciência de que a vida não é só
feita de momentos bons, mas também maus, no entanto, esses maus
momentos têm um papel importante para o nosso crescimento interior e
desenvolvimento pessoal, são uma fonte de aprendizagem.
Ser
pessoa é ter liberdade de escolher, de tomar decisões individuais,
mas sem prejudicar o outro. É ter liberdade de escolher como
queremos ser e que caminhos queremos seguir, mas sem nunca ignorar o
outro.
Ser
pessoa é sentir que somos necessários para a sociedade, não
importa qual seja a nossa função na mesma. É preciso que cada um
de nós se manifeste e se deixe manifestar através do rosto. Se nos
apropriamos do rosto do outro, o outro esconde-se, não se manifesta.
Ao
ser através do rosto que o outro se manifesta, no olhar pode-se
despertar a necessidade de dar uma resposta à interpelação do
outro. É ao darmo-nos ao outro, ao relacionarmo-nos com o outro que
revelamos a nossa própria individualidade.
Com
o outro aprendemos a interpretar o silêncio do olhar, pois, com o
olhar o outro comunica-nos muitas das suas emoções, sentimentos e
até necessidades mais profundas, como a necessidade de amor, de ser
amado por alguém, de ser querido, a necessidade de afeto, e outros.
O
outro incita-nos a dar-lhe aquilo de que já nos apropriamos, põe em
questão a nossa posse das coisas. O outro obriga-nos a uma reflexão
sobre o mundo e as coisas que o compõem.
O
encontro com o outro, a partir da nossa separação que é o nosso
egoísmo de ser-no-mundo, apela a um discurso de não violência que
constitui a condição necessária para a subjetividade, e
constituição do mundo.
Na
epifania do rosto, descobrimo-nos como seres egoístas, descobrimos o
mundo na sua significação e toda a humanidade se abre diante de
nós.
A
relação com o outro, ou discurso é o questionamento da nossa
liberdade, o apelo vindo do outro para nos chamar à
responsabilidade, enunciando um mundo objetivo e comum.
O
eu pode recusar-se ao outro, mas não ao questionamento que lhe é
posto pelo outro. Cada ser humano nasce com um chamado «tu –
inato», que se traduz na capacidade inata de nos relacionarmos com
os outros, contudo, ainda há quem diga que qualquer pessoa pode
muito bem viver sozinha.
Ninguém
consegue sobreviver e viver sozinho, só voltado para si mesmo,
porque é através da nossa capacidade e necessidade de estabelecer
relações com os outros, que encontramos os «Tus».
Uma
pessoa sozinha não encontra o outro, principalmente porque porque
nos momentos de solidão não há diálogo, e o diálogo, a
comunicação com os outros é um ponto fulcral na criação de uma
relação.
Temos
capacidade de acolher o tu; de receber a relação, e é neste
encontro que existe: a reciprocidade; a presença; a totalidade e a
responsabilidade.
Se
estamos inseridos numa sociedade, temos de viver com a comunidade,
com muitas outras pessoas que se cruzam todos os dias no nosso
caminho.
Precisamos
de dialogar com elas, aprender sempre coisas novas através das
experiências vividas pelos outros e dos seus conhecimentos.
No
contato com os outros, compreendemos melhor o funcionamento do mundo
que nos rodeia, e são os outros que nos ajudam a garantir as
necessidades mais básicas, e a sobrevivência. Precisamos das
funções que cada um desempenha, e eles de nós. Por exemplo, nos
nossos piores momentos é bom sentir que alguém como nós está do
nosso lado, há aquela presença que porventura também já terá
passado por experiências semelhantes às nossas.
Todos
precisamos de sentir que não estamos sozinhos, que alguém nos
escuta e compreende; e não nos deixa cometer atos tresloucados, que
seguram a nossa mão, nos momentos de desespero em que parece estar
tudo perdido.
É
importante sabermos que os nossos verdadeiros amigos (aquele grupinho
de pessoas com as quais podemos contar, conversar, «pensar em voz
alta», dividir as nossas tristezas e multiplicar as nossas alegrias.
Aquelas
pessoas raras e queridas que nunca nos viram as costas; que nos
apoiam, que nos ensinam e ajudam a seguir em frente, com as suas
palavras, a sua escuta, o seu abraço, a sua mão, aqueles que gostam
de nós como somos, com quem não precisamos de usar «máscaras» da
nossa pessoa, aceitam-nos como somos.
Mas
só descobrimos quem são esses seres de luz, que aparecem nos
momentos de escuridão da alma, temos de estabelecer uma relação
com eles, com bases sólidas, deixarmo-nos revelar para eles, e
permitir que eles se revelem para nós.
Dialogar
com eles, e saber, conhecer o que está por detrás da «máscara»
que surge na nossa frente. O diálogo é «passaporte» para o
conhecimento do outro, o outro também precisa de nós.
Há
sempre uma reciprocidade, uma troca constante de conhecimentos,
ideias, sentimentos, emoções, vivências, e experiências, o que é
muito salutar e importante para o crescimento interior das pessoas.
Nas
relações deve haver sempre: intimidade, respeito, compreensão,
ajuda, capacidade de saber ouvir, sinceridade, diálogo, abertura,
bondade, apoio.
Deve
haver de parte a parte: a vontade, a paciência e a preocupação de
se irem desvendando um ao outro, aos poucos, sem pressões.
Lara
Rocha
2004