Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A luzinha de presença

     

Era uma vez uma menina que tinha muito medo do escuro. Sempre que tinha de ir para a cama gritava, resistia, lutava, inventava mil e uma coisas para fazer até cair mesmo com sono. Quando acordava de noite, via tudo escuro e a sua imaginação começava a trabalhar. Parecia que o seu quarto era invadido por seres monstruosos, horríveis, que a assustavam, diziam mal dela, provocavam-na e obrigavam-na a gritar. 
        Saía do seu quarto a correr, para o quarto dos pais, os pais iam com ela ao quarto, acendiam a luz e mostravam-lhe debaixo da cama, nos armários, nas gavetas, em todos os sítios que não havia ninguém, estava tudo sossegado, e ela tinha era de fechar os olhos e dormir. Ela achava aquilo tudo muito misterioso. 
      Os pais voltavam a deitá-la, faziam-lhe carinhos, e quando adormecia, apagavam a luz, e voltavam a sair. Acordava outra vez, e lá estava outra vez o seu quarto cheio de criaturas assustadoras, vindas das gavetas, das portas, das janelas, cada qual o mais feio, debaixo da cama, uns que lhe puxavam os cabelos, outros que a descobriam, outros que lhe tiravam a chupeta, outros que lhe tiravam a almofada. 
        Gritava outra vez, e lá ia a mãe a correr, acendia a luz, ela estava muito assustada, mas a mãe não via nada no quarto, a não ser o que já existia. A mãe ficava com ela até adormecer e voltava a apagar a luz. Quando percebeu que era tudo imaginação da menina, e o medo do escuro, deixou de ir ter com ela. 
         A mãe ensinou-a que sempre que ela sentisse medo, ou achasse que aquelas criaturas estavam no quarto, acendia a luz, porque elas tinham medo de luz. A menina voltou a sentir medo, acendeu a luz, e não é que a mãe tinha razão? As criaturas que a assustavam tinham mesmo muito medo do escuro. 
        No seu aniversário, a mãe ofereceu à menina uma luz de presença, fraquinha, pequenina, de colocar na tomada para quando ela acordasse e olhasse em volta, percebesse que estava em segurança no quarto, e que não havia monstros nenhuns. Era uma luz azul clarinha, onde até o João Pestana gostava de repousar um bocadinho e aquecer-se, quando ia levar os frasquinhos com pó de sono e sonhos. 
          Uma noite, a menina viu o João Pestana pousado na lâmpada e perguntou-lhe: 
- Olá João...o que fazes aqui?
- Olá! O mesmo de sempre. 
- E o que é o mesmo de sempre? 
- É trazer-te soninho e sonhos!  
- Mas trazes coisas que eu não gosto, não trazes? 
- Eu? Trago coisas que não gostas? Como assim? O quê? 
- Tu trazes criaturas horrendas que se metem em tudo quanto é sítio aqui no quarto e depois atacam-me, puxam-me os cabelos, puxam-me a chupeta, puxam-me a almofada, gritam-me, chamam-me nomes feios, fazem-me gritar. 
          O João Pestana dá uma sonora gargalhada. 
- Ai, que susto! O que foi isso?
- Isso o quê? 
- Esse barulho, não ouviste? 
- Foi uma gargalhada minha! - Diz o João Pestana 
- E porque é que te riste assim? Foi para me assustar? 
- Não. 
- Também fazes parte das criaturas horríveis que me assustam?
- Também não! Nem sei do que estás a falar. 
- Nunca ouviste falar de umas figuras assustadoras, feias, malvadas, no quarto das crianças?
- Não. Também nunca falei com eles. Só deixo os frasquinhos, e depois eles que se arranjem. 
- Será que elas só vêm ter comigo? 
- Não sei! 
- Mas se não és tu que as trazes...quem as trará? 
- Não sei! Vou continuar o meu serviço. Gosto muito da tua lâmpada. 
- Gostas? 
- Gosto. 
- O que tem de especial? 
- É bonita, e aquece-me. 
- Tu também tens frio?
- Tenho, claro. 
- Mas não vais levá-la pois não?
- Não! 
- É que desde que a tenho, os monstros não voltaram. 
- Ainda bem...Boa noite! 
- Óh, espera! 
- O que foi?
- Achas que esses monstros estão aí nessa lâmpada? 
- Claro que não! Aqui nesta lâmpada, só tem a sua luz. 
- De certeza? 
- Sim. 
- Consegues ver? 
- Consigo! Não está aqui nada, nem ninguém. Agora, tenho de ir...Dorme bem! 
- Espera! 
- O que foi?
- Então se calhar elas têm mesmo medo da luz! 
- Talvez. E tu, tens medo do escuro?
- Tenho! 
- Então é por isso que eles aparecem! 
- Como assim? 
- Esses monstros aparecem quando os meninos têm medo do escuro! 
- Ah! Então conhece-los? 
- Acho que sim... Mas agora fecha os olhos que eles também não aparecem. 
- Não?
- Não! 
- Como é que sabes? 
- É o que dizem! 
- Então também já os conheces? 
- Não! Já ouvi falar neles, por outras crianças, mas eu nunca os vi. Nunca falei com eles. 
- Não tens medo do escuro?
- Não! Agora dorme... 
- Espera! 
- O que foi? 
- O que é que os outros meninos dizem deles? 
- Óh, não sei, não decorei, mas acho que são coisas parecidas com o que tu dizes. 
- Como é que sabes? 
- É o que todos dizem. Dorme! 
- Espera... 
- O que foi? 
- Eles também têm luzes como as minhas? 
- Sim, alguns. 
- E os monstros aparecem? 
- Acho que não. 
- E aos outros que não têm luzes? 
- Acho que aparecem, pelo menos é o que dizem! Agora, fecha os olhos, e dorme...eu tenho de continuar o meu trabalho. 
- Espera! 
- O que foi agora? 
- Espera mais um bocadinho! 
- Não posso. 
- Vá lá! Porque é que estás com tanta pressa de ir embora? 
- Porque ainda tenho muitas casas para onde ir. Daqui a pouco é tarde. 
- Não é nada, para nós crianças não existe tarde, são sempre horas de tudo, e ficamos muito zangados quando temos de interromper o que estamos a fazer, para te fazermos a vontade! Dormir...detestamos dormir. 
- Mas dormir é preciso, e eu só faço isso para vosso bem, porque vos faz bem, e porque me mandam. 
- Quem é que te manda? 
- Os vossos pais e outras pessoas que não conhecem. 
- E para que é que eles te mandam fazer isso?
- Porque vocês crianças precisam de descansar, e eles também. 
- Tu também dás sono aos grandes? 
- Claro.
- Mas eles ainda não estão a dormir. 
- Pois não, dormem mais tarde. 
- Porquê? 
- Porque não conseguimos distribuir sono e sonhos por toda a gente ao mesmo tempo, as crianças têm de dormir mais tempo, e precisam mais, por isso damos primeiro às crianças. 
- Não é justo! 
- Dorme! Boa noite, descansa... 
- Espera! 
- O que foi? 
- Faz-me companhia até eu adormecer. 
- Mas ainda vais demorar a adormecer...e eu tenho mais o que fazer. 
- Como é que sabes que vou demorar a adormecer?
- Porque estás com vontade de conversar. 
- Não, se ficares só um bocadinho à minha beira, eu adormeço rápido. 
- Posso ficar aqui na lâmpada? 
- Não. Anda mais perto de mim. 
- Óh...! 
- O que foi? Viste alguma criatura das que te falei? 
- Não. Para que queres que eu vá para a tua beira até adormeceres? 
- Quero sentir-te! 
- Para quê? 
- Para ter a certeza que tu existes. 
- Ora essa, é claro que existo, acho que não preciso de ir para a tua beira, para saberes que existo. 
- Vá lá! 
- Vocês são muito estranhos...pessoas! 
- Tu não és uma pessoa?
- Sou...mas não como vocês. 
        O João Pestana aproxima-se, e a menina sorri:
- Sim, já percebi que existes mesmo...mas aquelas criaturas... 
- Não está aqui mais ninguém: só eu, tu e aquela luz maravilhosa.
- Boa noite, obrigada! Volta um dia destes para conversarmos mais, e para te aqueceres ali na lâmpada. 
- Está bem. Um dia destes. Enquanto isso, dorme descansada. 
- Tens a certeza que os monstros não vão aparecer aqui no quarto? 
-Tenho! 
- Prometes? 
- Prometo! 
- Olha, podes vir aqui aquecer-te mais no fim do trabalho, mas não deixas os monstros entrar aqui, está bem? 
- Está bem! 
- Se os vires, dá-lhes uma sova! 
- Está bem. 
- Prometes? 
- Prometo! 
- Eu não gosto deles! 
- Eles não entram aqui. 
- Tens a certeza? 
- Tenho!
- Como? 
- Eles não gostam da tua luz de presença! 
- Não? 
- Não! 
- Tens a certeza? 
- Tenho.
- Toma conta de mim, se os vires avisa-me. 
- Está bem. 
- Obrigada, boa noite.
- Boa Noite

        A menina boceja, sorri e adormece. O João Pestana sorri respira de alívio, e sai. Quando a menina acordava via a luzinha de presença e não via os monstros. Era uma luzinha mágica que fazia desaparecer os monstros, porque eles têm medo da luz e adoram o escuro. 

                                                                 Fim 
                                                                 Lálá

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A casa das gotinhas flutuantes

             
desenhado e pintado por Lara Rocha 


         Era uma vez um grupo de amigas fadas que foram passear e encontraram uma casa muito bonita mas misteriosa, em forma de gota de água. Olharam, e voltaram a olhar, e não lhes pareceu que vivesse lá alguém. Bateram nas janelas e na porta, e não se ouviu nada.
- Acho que é uma casa abandonada. – Repara uma fada
- Também acho! – Confirmam todas
- Vamos entrar? – Pergunta outra fada
- Por onde? – Perguntam todas
- Está ali uma janela com o vidro partido, acho que passamos por lá!
- Boa! – Dizem todas
- Estou curiosa para saber o que há ali. – Comenta outra fada
- OU não haverá nada! – Diz outra
            Entram pela janela que tinha os vidros partidos, olham para todo o lado, com algum medo que aparecesse alguém. Não havia ninguém à vista.
- Olá! – Dizem todas
            Esperaram uma resposta, mas não se ouviu nada. Era uma casa abandonada, onde estavam livros.
- Áh! Afinal parece que vive aqui alguém! – Repara uma fada
- Os habitantes da casa devem ser os livros! – Diz outra
- Quem esteve aqui levou tudo, menos os livros.
- Tantos livros! – Diz outra
        Ficaram muito surpresas ao ver tantos livros numa casa onde parecia não viver ninguém, pois estava tudo cheio de pó, cheirava a mofo, e não havia louças, nem roupas, nem alimentos, só os livros.
            Elas adoravam livros, por isso mal os viram, ficaram logo muito curiosas e soltaram o pó. Quando o pó saiu, elas perceberam que alguns livros falavam da natureza, outros de seres como elas, outros de animais. Uns tinham lindas imagens, outros, só letras. As fadas começaram a folhear, a pegar nas palavras pondo-as a flutuar e a brincar, trocando a ordem das letras e criando novas palavras com quem dançaram.
Depois, pegaram nas imagens dos livros, tiraram-nas dos livros e animaram-nas; puderam entrar em muitas imagens e passear por espaços tão bonitos como aquele onde viviam, conheceram novos animais, e muitas personagens misteriosas, fantásticas, umas simpáticas outras nem tanto.
No fim, devolveram as palavras e as imagens aos livros, soltaram e espalharam milhares de bolas de sabão e gotinhas de água flutuantes que acariciaram os livros sem os molhar e navegaram com as personagens numa grande brincadeira, alegria e gargalhadas.
            De repente, chegam as donas da casa…uma enorme família de gotas de água também flutuantes, leves e muito simpáticas. As fadas ficaram muito envergonhadas, geladas, sem cor e assustadas.
- Ah! São vocês que vivem nesta casa? – Pergunta uma fada
- Sim. – Respondem as gotas
- Óh! Desculpem… - Dizem as fadas nervosas
- Nos…pensamos que não vivia aqui ninguém! – Explica outra fada
- Foi por isso que tentamos...
- É. Como batemos à porta e às janelas, e não respondeu ninguém!
- Desculpem!
- Vimos livros…e…gostamos tanto de livros que quisemos saber como eram.
- É.
- Mas se calhar não devíamos ter entrado…
- Não…
- Mas a nossa curiosidade foi maior.
- Acho melhor irmos embora meninas, já fizemos asneiras.
- Até deixamos aqui umas gotas que também quiseram conhecer e para fazer companhia aos livros.
- Que pensávamos que estavam abandonados.
            As gotinhas desatam às gargalhadas.
- Já acabaram? – Perguntou uma gota
- Sim. – Respondem as fadas
- Ninguém vos perguntou nada. – Diz outra gota
- Mas nós achamos que devíamos dar uma justificação para a nossa malandrice.
- Nada disso! Não precisam de se explicar. Nós compreendemos. – Diz outra gota
- Estejam à vontade! – Diz outra gota
- São muito bem-vindas.
- Nós vivemos aqui, encontrámos esta casa abandonada, e cheia de livros, pareceu-nos um lugar seguro, e é! Aqui estamos abrigados, protegidos, não passamos frio, e os livros fazem parte da nossa família, dão-nos tudo o que tem uma casa, e tudo o que precisamos. É só abri-los onde queremos.
- Entraram e fizeram muito bem. Nós também teríamos entrado, e entramos.
            Uma gotinha abre um livro que fala de jardins e dele salta uma mesa de ferro, cadeiras e muitas coisas apetitosas para lanchar em cima da mesa. Juntam mais cadeiras, abrem a página das flores e enchem o espaço com elas.
- Sentem-se! Fiquem à vontade. Façam de conta que estão na vossa casa. – Convida outra gota
            As fadas estão muito surpresas, sentam-se a medo, um pouco envergonhadas e com sorrisos tímidos. As gotinhas estão ruídas de curiosidade e outra gotinha pergunta-lhes:
- De onde são? 
- Daqui de perto! – Respondem as fadas
            E as gotinhas têm uma longa conversa com as fadas, lancham e riem, e num instante parece que já são todos da mesma família, ou amigos de longa data. No fim vão todos juntos passear pelo resto da imagem do jardim, tão bonito, com flores enormes e cheias de cores.
As fadas ficam rendidas, sopram bolas de sabão e mais gotinhas, e as outras aplaudem, até dançam e fazem um pequeno espetáculo de grande beleza, que deixa as gotinhas encantada com o que vêem.
            As gotinhas brincam nas bolas de sabão de todos os tamanhos, rebolam em cima delas, enrolam-se nelas, deixam-se voar juntamente com as bolas de sabão, até se juntam lindas, gigantescas e raras borboletas que todos adoram.
            Depois, as bolas de sabão e as gotinhas são levadas pelas fadas até uma fonte, desse jardim, as borboletas seguem-nas, dançam com as fadas sobre a água, deixando-a com brilhantes de todas as cores, fazem mais bolas de sabão e brincam na água do lago.
            Esta magia toda, desperta muita curiosidade nos grilos e cigarras que apesar de não se mostrarem, tocam nas suas tocas, os seus instrumentos musicais, que acordam os passarinhos das árvores e começam também a cantar.
            Que lindo! De repente, o que era um jardim numa imagem, ganha vida, cor, alegria, magia e música. O vento que era uma brisa muito suave, no jardim, e parecia estar embalado por todo aquele ambiente, é levado por um vento de fora, muito irritado, as fadas, as gotinhas e as borboletas são sopradas para fora do livro, em redemoinho, às cambalhotas e piruetas. Não se conseguiam segurar, gritavam e tentavam agarrar-se uns aos outros, mas não conseguiam…o vento era mais forte do que todos juntos.  
Fecha o livro, com toda a força, e todos caem no chão da casa, muito tontos, sem se conseguirem levantar, ainda a respirar muito depressa, e a olhar para todo o lado. Era um vento ciclónico, a mando de um bando de corujas mal-humoradas que queriam dormir na árvore ao lado da casa e todos voltam para casa, sem perceber o que tinha realmente acontecido, e em silêncio.
De repente parecia que todos tinham ficado mudos. Ninguém dizia nada, não sabiam o que tinha acontecido. As fadas não conseguiam falar, nem as gotas, por muito que tentassem. Estavam tristes.
O livro abriu-se outra vez, todos sorriram e o vento voltou a fechar; voltaram a ficar tristes e mudos.
- Obrigada! – Diz a coruja lá de fora.
            As gotas perceberam a mensagem…era para não fazerem barulho e as corujas estavam cheias de inveja com certeza. As fadas voltaram para a sua floresta, as gotas lá ficaram, e à noite, convidaram as corujas para conhecerem aquele jardim. Abriram o livro, e passearam com as gotas.
- Uau! – Suspiram todas as corujas  
- Que sítio maravilhoso. – Comenta uma coruja
- Não fazíamos ideia que existiam jardins assim… - Diz outra coruja
- É mesmo bonito! – Suspira uma coruja
- Obrigada, amigas. – Diz outra coruja
- Desculpem termos mandado o vento fechar o livro, mas é que queríamos dormir. – Explica outra coruja
- Como sabem trabalhamos de noite, e de dia precisamos de descansar. – Diz outra coruja
- Estava muito barulho! – Acrescenta outra coruja
- Eram as cigarras e os grilos a cantar…deixaram-se levar pela nossa magia e começaram a tocar, mesmo dentro das tocas, para nos acompanhar. – Diz outra gotinha
- A música era bonita, mas estava-nos a perturbar o sono. – Explica outra coruja
- Se tivesse sido de noite, nós também teríamos entrado na festa, e cantávamos. – Acrescenta outra coruja
- Nós entendemos. – Diz uma gotinha
- Percebemos logo que vos ouvimos agradecer ao vento. – Diz outra gotinha
- Mas assustamo-nos. – Comenta outra gotinha
- Claro! Desculpem. – Dizem as corujas
          Depois dessa noite, as gotinhas levaram as corujas a conhecer outros lugares, abrindo os livros. Todos eram diferentes, especiais, mágicos. Os livros têm essa função para nós: levar-nos a viajar, a conhecer outros mundos, lugares, povos, jardins, lendas, florestas e seres. E fazem parte da nossa família.
            E os vossos livros, o que significam para vocês?

                                                           FIM
                                                           Lálá
                                               (24/Abril/2017)




terça-feira, 11 de abril de 2017

A MENINA E AS CEREJAS

                         

 Era uma vez uma menina que foi passear por um dos campos da sua casa, num dia de muito sol e calor. Levou um vestido comprido, colorido, com folhos, e chapéu largo para lhe tapar o sol. Pelo caminho, quis tirar os chinelos para sentir a terra, e andou sem pressa.
      Parou debaixo de uma gigantesca cerejeira, carregada de lindas cerejas vermelhas, e sorriu encantada. Quis apanhar algumas, mas não chegava.
- Óh, que lindas cerejas. Dá vontade de comer esta árvore toda, só de olhar para aquela cor, e aquele tamanho. Hummm...cerejas...que delícia. Mas estão tão altas! Como é que eu vou chegar-lhes? Já sei, se encontrar um gato, eu peço-lhe, eles conseguem subir às árvores. Já tentei subir às árvores noutras alturas, e não correu bem. 
        Nem de propósito passa um gato da sua grande família de gatos, a desfilar, muito atento, a seguir um pequenino passarito que voava. 
- Ei, mesmo a jeito... - Diz a menina a sorrir. Óh bichano, podes fazer-me um favor...? Não te importas de subir a esta árvore para me apanhar umas cerejinhas...? 
         O gato nem para ela olhou, só estava fixo e preocupado com o pássaro que seguia. 
- Ei...óh gato...vá lá...! 
      O gato seguiu caminho, a menina voltou a olhar para a árvore e passou outro gato a correr desenfreado. Ela chamou-o, e pediu: 
- Óh gatinho, podes fazer-me um favor... (o gato para a olhar para ela) Podes subir a esta árvore para me cortar umas cerejinhas? 
- Desculpa, não contes comigo. Tenho muito medo de subir às árvores. Não gosto de alturas. (o gato desata a correr) 
- Um gato com medo de alturas...e de subir a uma árvore? Nunca vi. Deve ser má vontade. Mau...! E uma borboleta, será que me pode ajudar?
        Vê uma borboleta, e pergunta-lhe: 
- Olá linda borboleta. Podes ajudar-me, por favor? Podes cortar-me daí umas cerejinhas? É que não chego aí. Já tentei subir ao tronco, mas escorreguei. 
         A borboleta ri: 
- Desculpa, eu gostava muito de te ajudar, mas as cerejas são demasiado pesadas, e não tenho nada para as cortar. 
        A menina fica triste: 
- Óh...e agora? 
        A borboleta segue o seu voo. Vou tentar subir à árvore outra vez. Tentou subir, mas escorregou, felizmente só ficou sentada no chão. A seguir viu um enorme caracol e pediu que a deixasse subir para a sua carapaça, ele deixou mas sabia que não ia conseguir, porque o caracol não era assim tão grande, ainda ficava longe da árvore.
        A menina agradeceu, desceu e tentou subir por uns cogumelos grandes que estavam aos pés da árvore, mas nada feito...só os esmagou com os pés, e ainda por cima ficou cheia de comichão. Foi lavar os pés a um rego de água e voltou à árvore, ficou a pensar como iria chegar às tão apetitosas cerejas. 
        Viu um passarinho a voar e pediu-lhe ajuda, disse-lhe que queria cerejas, que já tinha experimentado várias maneiras de subir à árvore, mas não conseguia. O simpático passarinho cortou com o biquinho umas quantas cerejas, que a menina apanhou em baixo, levantando o seu vestido, para fazer de balde. A menina ficou radiante, e muito agradecida ao passarinho, que também ainda se deliciou com algumas cerejas. Pelo caminho, a menina ainda pediu ao passarinho que apanhasse uns lindos e enormes girassóis para oferecer à sua mãe e às suas Avós, e tias. Este levou-os no bico até casa da menina. 
       Toda a família ficou orgulhosa, feliz e agradecida à menina, puseram as cerejas num balde e foram comendo conforme lhes apetecia. As senhoras a quem ela ofereceu os girassóis ficaram todas felizes, e como recompensa, para agradecer ao passarinho, a menina arranjou-lhe abrigo para os dias frios que se avizinhavam, e era costume na sua terra. Uma casotinha num velho tronco de uma árvore, tapou os outros buracos do tronco com um cobertor, e preparou uma bela cama para o passarinho, macia, protegida do vento e do frio, água e comida. Mesmo com o frio, a menina ia visitar o passarinho, conversar com ele, dar-lhe carinhos, e perguntar se precisava de alguma coisa. Entretanto o passarinho arranjou novos amigos na casa da menina, que se tornaram como uma família. 

                                                                             FIM 
                                                                             Lálá 
                                                                    (11/Abril/2017) 

A LIÇÃO DA ÁGUIA AOS CORVOS

A LIÇÃO DA ÁGUIA AOS CORVOS 
               
          Era uma vez um passarinho com penas muito coloridas, entre elas, cor-de-rosa. Ele gostava muito das suas penas, até que um dia uns malvados corvos gozaram com as suas penas cor-de-rosa e chamaram-lhe menina, fizeram brincadeiras de muito mau gosto, dirigiram-lhe piadas de muito mau gosto, tentaram arrancar algumas e conseguiram, irritaram-no com os seus pios estridentes e guinchos.
          No inicio tentou não ligar, embora ficasse irritado, depois, tentou empurrá-los, mas eles eram tantos, que lhe deram bicadas, encontrões, atiraram-no de uns para os outros, como se fosse uma bola, pegando-lhe pelas penas. Ele gritava aflito, e tentava defender-se, mas os malvados apertavam-no contra as patas.
         Quando o libertaram, ele ficou tão triste e tão envergonhado que não quis dizer aos seus pais, para não os deixar zangados, ou preocupados, mas eles perceberam logo que o filho não estava bem. Perguntaram-lhe porque estava naquele estado, cheio de pó, sem algumas penas, e triste.
          Respondeu-lhe que esteve a brincar, com um riso disfarçado e forçado. Os pais não acreditaram, e insistiram com ele.
- Se fosse a brincar, estavas feliz, e não estás. – Diz o pai
- Nós sabemos que aconteceu alguma coisa… conta! – Diz a mãe
- Vocês gostam de mim? – Perguntam o pássaro
- Claro que sim! – Respondem os pais intrigados com aquela pergunta
- Já sabes que sim, filho. – Reforça a mãe
- Ou achas que não? – Pergunta o pai
- É…acho que sim. – Responde o passarinho
- Mas porque estás a fazer essa pergunta agora? – Pergunta o pai
- Realmente… parece que estás com dúvidas que te amamos! Falhamos, ou erramos em alguma coisa? Podes dizer, porque estamos sempre a aprender, e se fizemos alguma coisa má contigo, podemos corrigir. – Pergunta a mãe preocupada
- Não! Vocês não fizeram nada. São os melhores pais do mundo. Acham que eu sou bonito? – Pergunta o passarinho
- És! Com certeza que és.- Dizem os dois
- Sempre te dissemos que és bonito, para que estás com essas perguntas?  - Diz a mãe 
- Ai, que não estou a gostar nada dessas perguntas. O que aconteceu? - Insiste o pai 
- Até das minhas penas cor-de-rosa? - Insiste o passarinho 
- Sim! - Respondem os pais desconfiados 
- Mas porquê? - Pergunta a mãe 
- Eu quero pintar as penas de outra cor! 
- O quê? - Perguntam os pais 
- Tu não estás bom da cabeça, pois não? - Ralha o pai 
- Essa agora... - Comenta a mãe 
- É. Eu não gosto delas.- Diz o passarinho  
- Não pode ser. - Resmunga a mãe 
- Por favor, pintem-me as penas de outra cor. - Implora o passarinho 
- Não! - Gritam os dois 
- Nem pensar...para que queres pintar as tuas penas de outra cor, se elas são tão bonitas? - Pergunta a mãe 
- Eu não gosto das cor-de-rosa. - Diz o passarinho 
- Estás a crescer tão rápido, meu filho... - Suspira a mãe 
- As penas cor-de-rosa são só mais umas que tens, como de outra cor qualquer, tens tantas... - Diz o pai 
- Cortem-mas ou rapem-mas, ou pintem-mas...por favor! - Volta a pedir o passarinho 
- Nunca! - Gritam os pais 
- Que absurdo. - Diz o pai zangado 
- Porque queres fazer uma loucura dessas? - Pergunta a mãe 
- Sempre tiveste orgulho nas tuas penas, e agora estás com essas coisas? - Comenta o pai zangado
- Está a crescer. - Diz a mãe 
- Isso não é desculpa. Conta-nos o que aconteceu realmente, filho. Nós sabemos que não nos queres contar alguma coisa, mas conta. - Insiste o pai 
          O passarinho lá se decidiu a contar o que tinha acontecido, que os corvos gozaram com ele, por ter penas cor-de-rosa, que fizeram dele uma bola e atiraram-no de uns para os outros, puxaram-lhe as penas, arrancaram-lhe algumas, chamaram-lhe menina....os pais nem queriam acreditar. Ficaram muito irritados, e decidiram dar uma lição aos corvos.
          Mas nem precisaram, porque uma águia que soube do que os corvos tinham feito, lançou-se sobre os corvos com as suas garras afiadas e o seu bico que parece uma serra, tão rápido, que eles não tiveram como fugir e depenou-os num piscar de olhos. 
- As vossas penas não servem nem para limpar o pó! Que nojo...que coisa tão mal tratada, e mesmo assim acham-se maravilhosos. Tenham vergonha nesse focinho, seus invejosos. - Comenta a águia 
         Ela estava tão zangada com eles, que até levantou uma nuvem de pó, de andar com eles a rastos, presos pelas patas no seu bico. Eles gritavam, piavam nervosos, e quanto mais piavam, mais irritada a águia ficava, e mais os picava, arranhava.
- Que bonitos que vocês estão! Áhhh...! Estou orgulhosa do meu jeito para fazer penteados a corvos. Áhhhh... Ficaram mesmo lindos.O que farei da próxima vez que fizerem qualquer comentário palerma a qualquer espécie de animal...? Hummm...que grande dúvida...agora que vos depenei, não sei o que farei da próxima vez... Hummm...talvez... arrancar a vossa pele! Voltem a meter-se com pássaros ou com quem quer que seja, diferente da vossa espécie! Voltem! E vão ver o que vos acontece. Vai ser lindo! Muito lindo! Não se esqueçam que eu vejo tudo...- Diz a Águia a rir às gargalhadas
          Os corvos ficaram tão assustados, com tanto medo, e tão envergonhados que até disseram que preferiam ou gostariam de ter penas cor-de-rosa, em vez de não terem nenhuma. O passarinho voltou a andar à vontade por onde queria, feliz, livre, sem ter de aturar as patetices dos corvos que implicaram com as suas penas só porque eram cor-de-rosas, com muitas outras cores. A águia devia ter razão...eles estavam mesmo invejosos. 
          A águia estava sempre atenta! Os corvos aprenderam uma grande lição: que tinham de aprender a respeitar todos os que eram diferentes, pois também gostavam que os outros elogiassem as suas penas, mas nem todos gostavam delas.

                                  FIM 
                             Lara Rocha 
                          (11/Abril/2017)     

história infantil; corvos; águia; pássaros de outras cores; racismo; provocação; lição; julgamento; respeito pela diferença,

quinta-feira, 6 de abril de 2017

FILIPA DE CHOCOLATE

     

 Era uma vez uma linda menina, filha de um casal vindo de Angola, pele muito morena, cabelos pretos, compridos, aos cachinhos, olhos castanhos cor-de-mel (entre o castanho claro, o amarelo e o verde). Já tinha nascido em Portugal, frequentou a creche, o infantário e agora estava na escola primária.
        Era uma menina muito meiga, simpática, atenta, boa aluna, aplicada, dedicada, curiosa, e com muito bons sentimentos, estava sempre pronta a ajudar, e muito bem comportada.
        Mas nem todos os meninos eram como ela, e às vezes até eram maus, pois em vez de chamar pelo seu nome, que era Filipa, chamavam-lhe nomes feios, pela sua cor de pele, por exemplo «preta».
       Inventavam cânticos que a ofendiam, e ela ficava triste, acusavam-na de coisas que outros faziam, riam-se dela quando ela respondia, não queriam estar à beira dela, só quando a professora ralhava e obrigava.
    No recreio não a chamavam para brincar, e riam-se das brincadeiras que ela própria inventava, dançava sozinha, cantava, e fazia muito boa companhia aos adultos professores. Fazia queixa à professora, e esta só lhe dizia para não ligar, porque era uma menina muito querida, bonita e especial.
      Um dia, Filipa cansou-se de ser ofendida, fez queixa à professora e disse que queria sair da escola. A professora ficou muito zangada e decidiu acabar com a palermice dos meninos racistas, através de umas conversas muito sérias, e a dar respostas.
     Levou roupa de cor preta, e vários objetos da mesma cor. Chamou a Filipa e pediu aos meninos que olhassem bem para os objetos com muita atenção. Perguntou-lhes:
- De que cor são estas roupas e estes objetos?
- Pretos! – Respondem todos em coro
- Para que servem? – Pergunta a professora
- Para vestir. – Dizem todos
- As roupas pretas são para vestir, o chapéu preto é para…?
- Proteger do sol! – Respondem todos
- E estes lápis pretos? – Pergunta a professora
- Para escrever! – Diz um menino
- Para desenhar! – Diz uma menina
- Para pintar! – Diz outro menino
- Para fazer contas! – Diz outra
- E para atirar aos outros, ou para roer, não é? – Pergunta a professora
- Não! – Respondem todos
- Mentirosos! – Diz a professora
- Ááááááhhhh… - Exclamam todos
- Não sei porque é que estão tão espantados, com o que eu disse! Não é o que vocês fazem? – Pergunta a professora
- Às vezes! – Diz a Filipa
- Olha a preta a fazer queixinhas….- Comenta um menino
- O pote de café! – Acrescenta outro menino
- Pote de alcatrão! – Goza uma menina
- Já levaste com algum, Óh, preta queixinhas?
- É preta em tudo!
            Todos riem.
- Parou! – Grita a professora – Acabamos de falar na cor preta! A Filipa é um objeto, ou uma roupa, um chapéu ou sapatos? – Pergunta a professora
- Não! – Respondem todos
- O que é a Filipa? – Pergunta a professora
- É uma menina! – Responde outra menina
- E vocês, o que são? – Pergunta a professora
-Meninos e meninas! – Dizem todos
- São palermas! – Diz a professora
- Ááááááhhhh… - Exclamam todos
- E se eu agora, em vez de vos chamar pelo nome, vos chamasse por alguma coisa que têm de diferente? Por exemplo: óh tu, de óculos…óh tu orelhudo, óh tu desajeitado, oh tu preguiçoso…óh tu que não lês bem…óh tu da crista…óh tu das tranças, óh tu das sardas…óh tu baixote, óh tu gordo, óh tu trinca espinhas…gostavam?
            Faz-se silêncio na sala, e as caras ficam tristes.
- Não respondem? Eu perguntei se gostavam que vos chamasse pelo que têm de diferente, em vez de vos chamar…Nuno, Francisco, Gonçalo, Isabel, Sara, Rita, Paula, Pedro, André, Miguel, Joana, Rafaela, Raquel, Hugo, Daniela, Frederico, Rui, Abel, Marco, Mariana, Luísa, e Neusa?
            O silêncio continua, tal como as caras tristes.
- Então? Estou á espera! Vai responder um por um…e rápido! – Insiste a professora
- Não!
- Não!
- Não!
            Todos respondem não!
- E se eu vos oferecesse chocolate? – Diz a professora
- Áhhhh…Siiiimmmm! – Dizem todos
- Acham que merecem? – Pergunta a professora
- Sim! – Dizem todos
- Desavergonhados! Pensem bem se merecem! – Ordena a professora
- Merecemos! – Dizem todos
- Essa não merece. – Comenta uma menina
- Eu? – Pergunta a professora
- Não…- Dizem todos
- A professora merece. – Diz uma menina tímida
- Essa preta que está à sua beira é que não merece. – Acrescenta um menino desafiador
- De que cor estamos a falar? – Pergunta a professora
- Do preto! – Respondem todos
- É igual a essa sombra que tem ao seu lado…abutre! – Acrescenta outro menino
- Não estou a ver nenhum abutre nesta sala! Vai ver ao dicionário o que quer dizer a palavra abutre e copia para o caderno, que a seguir já conversamos. Os outros meninos vão procurar o que é a cor preta, o que é uma menina, o que é Angola, e como são os Angolanos, como trabalho de casa.
- Perguntamos a essa coisa que tem ao seu lado…ela sabe, ela é de lá. É preta de Angola.
- Agora olhem para a Filipa.
- É feia. – Diz um menino
- É preta! – Diz outro menino
- É mal-educada. – Diz outro
- De que cor são as pessoas? O que é que falamos ontem sobre as pessoas?
- Umas são brancas, outras são morenas, outras mais escuras… - Diz uma menina
- De cabelo, pele e olhos somos todos diferentes, de muitas cores. – Diz outra menina
- E os corações? – Pergunta a professora
- É vermelho! – Dizem todos
- Não tem cor! – Diz uma menina
- A cor do coração depende dos sentimentos que cada pessoa mostra, leva nele, e dá aos outros! – Responde Mariana
- Muito, muito bem! Excelente resposta. Mariana, anda cá escrever essa frase! Aqui no quadro, em letras bem grandes…até vamos fazer um cartaz com ela.
            Mariana levanta-se, sorri, passa pela Filipa, abraça-a carinhosamente, e dá-lhe um sonoro beijo, faz-lhe um carinho na cara, dá a mão à Filipa, escreve a frase sobre o coração, orgulhosa. Um menino comenta:
- Que nojo!
            Mariana da mais um abraço a Filipa, e esta retribui com outro abraço e outro beijinho com umas lagriminhas a cair dos seus olhos.
- A Filipa sabe a chocolate, e linda, tem olhos de amêndoa, e um coração lindo, cheio de cor, de todas as cores, porque carrega muitos sentimentos bons. Gosto muito dela, e nunca brinquei muito com ela, mas já vi muitas vezes o coração dela. É muito fofinha. Todos temos inveja dela, porque no Verão vamos para a praia e queremos ficar da cor dela, queimamos a nossa pele e gostamos de ver...ela tem esta cor o ano todo. - Diz a Mariana 
- Muito bem!  Temos aqui dois lindos corações. - Aplaude a professora.
- Sim, professora. Temos um chocolate e um chocolate branco, o chocolate é a Filipa, e eu sou o chocolate branco. - Diz Mariana a rir 
- É verdade! - Diz Filipa a rir 
- Mesmo! - Confirma a professora 
             Todos riem. 
- Todos os meninos e meninas são chocolates quando são doces, outros são chocolates amargos, com licor, quando são bons, e quando são maus uns com os outros. Mas nenhum destes meninos e meninas estava a ser chocolate. Nem doce, nem meigo, nem simpático. Parece que nem estiveram na sala ontem a ouvir o que dissemos. A partir de agora, ai do menino ou menina que volte a chamar outro nome que não seja Filipa. Não quero voltar a ver a Filipa sozinha no recreio, e ai do menino ou menina que não queira ficar com a Filipa nos trabalhos, ou jogos. Terão todos logo negativa. Estamos combinados? - Diz a professora com cara zangada 
- Sim! - Dizem todos tímidos 
- Não ouvi! - Diz a professora 
- Sim! - Gritam todos 
- E preto, ou preta é uma cor, não é uma menina, nem menino. Agora...um por um...vão pedir desculpa à Filipa. - Manda a professora 
               Quando os meninos iam contrariados, a professora mandava sentar, levantar outra vez, e pedir desculpa à Filipa. A professora mandou que cada um se levantasse e fosse abraçar como devia ser, a menina. 
- É verdade! A Filipa é mesmo parecida com chocolate, e deliciosa como chocolate. 
- É linda! - Reforça um menino 
- Pois é. - Concordam todos 
           A Filipa ficou muito feliz, e quando os meninos começaram a conhecer mesmo a menina, e o seu povo no trabalho que fizeram, a sua cultura, e a maneira como era, perceberam que estiveram sempre errados. Afinal ela era mesmo uma menina linda, doce, meiga, simpática, bondosa, brincalhona, sensível, amiga de todos, aplicada, e aprenderam a gostar dela. Aprenderam a gostar dela, a brincar com ela, a respeitá-la, a integrá-las nas brincadeiras. 
          Filipa tornou-se a mascote da turma, uma menina muito solicitada, até lhe deram o nome de Filipa de Chocolate, que para ela era um nome muito carinhoso, e o seu riso era tão bonito, sincero e feliz que por onde passava, com todos os meninos com quem brincava, que contagiava todos. 
          Aprenderam a abraçá-la, com sinceridade, e a tratá-la com muito carinho. Adoravam-na, e ela a eles. Diziam a toda a gente que ia lá à sala, com os olhos a brilhar, e um sorriso cheio de carinho, que Filipa era A NOSSA FILIPA DE CHOCOLATE. 

E vocês? Conhecem meninos ou meninas como a Filipa de Chocolate? Gostam de brincar com elas, e eles? 
                                                                    FIM 
                                                               Lara Rocha 
                                                             (6/Abril/2017)