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sexta-feira, 11 de abril de 2014

A flor do cabelo

Era uma vez uma menina com uns cabelos muito compridos, que prendia com uma linda flor. A menina adorava passear pelos montes com o seu amigo inseparável, um pónei que se chamava Flash, por ser branco e ter um pelo brilhante, macio.
            Num dos seus passeios, uma linda borboleta pousa na flor do cabelo da menina. A flor assusta-se e grita:
- Aii!
            A menina não se apercebeu que a borboleta puxou a flor e levou-a para a sua vila. Para entrar nessa vila da borboleta era preciso atravessar um tronco de uma enorme árvore.
- Ei, flor…estás aí? – Pergunta a borboleta.
            A menina fica sem resposta. A flor, já a atravessar o tronco olha para a borboleta e pergunta:
- Mas tu estás maluca das antenas?
- Não…porquê? Tu estás?
- Não. Tu é que poderias estar…
- Não sei porquê! Não tenho razão nenhuma para estar maluquinha das antenas…conheço borboletas que estão…mas não sou eu.
- Porque é que me tiraste do cabelo da menina?
- Porque fui atraída pela tua cor, pelo teu cheiro, pelo teu brilho, pela tua luz…e quero que venhas comigo conhecer o sítio onde vivo. És tão bonita.
- (sorri) Tantos elogios…até fico envergonhada. Obrigada!
- Mas são verdadeiros.
- Mas porque é que me estás a dizer isso tudo?
- Só estou a responder à tua pergunta.
- Que pergunta?
- A que me fizeste.
- E que pergunta é que eu te fiz?
- Ora…já não te lembras? Perguntaste porque é que eu te puxei do cabelo da menina.
- Áh…sim!
- (ri) Ficaste tão vaidosa com os elogios que até te esqueceste do que me perguntaste.
- (ri) Pois! É que a única que me faz elogios é a menina…e às vezes o pónei.
- Quem é o pónei?
- É o pónei…amigo da menina. Nunca viste um pónei?
- Sim, vejo muitos, todos os dias.
- Mas então…puxaste-me sem perguntar se eu queria ir contigo…
- Eu tenho a certeza que queres ir. Conta lá…estás a explodir de curiosidade não estás? Confessa lá.
- Até podia estar curiosa, mas já não estou.
- Porquê? Já conheces a minha vila?
- Não. Tu tinhas que ter pedido à menina se eu podia vir contigo. Isso é o que ela faz aos seus pais para ir para a casa das primas e dos amigos.
- Desculpa! Pensei que serias como nós…nós não temos que pedir. Trazemos quem quisermos. Vais ver que vais adorar conhecer a minha vila…vais ser muito bem recebida, e conhecer muitas amigas novas.
- Eu já tenho as minhas amigas.
- Mas podemos ter sempre mais.
- Sim, isso é verdade.
- Ou o teu coração é assim tão pequeno onde não caiba assim tanta gente?
- Não. Cabe muita gente.
- No meu também. E eu senti que podíamos ser amigas.
- Mas tu fazes isso com toda a gente que achas que queres como amigas?
- Sim!
- Mas…e quando elas não querem ser tuas amigas?
- Voltam para o sítio de onde vieram, mas pelo menos conhecem a minha vila e voltam lá. Isso é bom para nós.
- Não ficas triste quando recusam a tua amizade?
- Fico…mas passa rápido.
- Porque será que não querem ser tuas amigas?
- Não sei.
- Se calhar é porque não gostam que as tragas sem pedir primeiro, ou sem lhes perguntar se querem vir.
- Achas?
- Sim!
- Óhhh… - A borboleta fica triste.
- Óh, desculpa. Não te queria deixar triste.
- Tu não queres ser minha amiga?
- Quero.
            As duas sorriem.
- Obrigada.
- A amizade não se agradece…ou se é, ou não se é amigo…
- Está bem, eu pergunto-te agora: queres vir conhecer a minha vila?
- (sorri) Quero.
- Boa…- Saltita a borboleta feliz.
            E as duas entram no tronco. A menina continua o seu passeio com o pónei e de repente, mexe nos cabelos. Não sente a sua flor.
- Flor… - Chama a menina
            A resposta que recebe é o silêncio. Pergunta o pónei:
- Pónei…vê se a flor está a dormir, ou se foi picada por um bicho.
            O pónei olha para os cabelos da menina e não vê a flor.
- Aaaahhh…menina…desculpa dizer-te isto, mas…a tua flor não está nos teus cabelos.
- Como?
- É!
- Mas…não pode ser…tem de estar! Eu trouxe-a.
- Sim, eu vi que a trouxeste, mas não está.
- Flor…óh…onde estás? Óh…não…perdi a minha flor! Óh…não pode ser! Óh, flor…
- Perdeste a tua flor?
- Acho que sim.
- Será que ela encontrou alguma amiga e ficou para trás?
- Ela costuma dizer-me sempre tudo, e apresentar-me às amigas. Desta vez, não disse.
- Podia estar distraída.
- Óh…a minha flor…
- Deve ter caído.
- Coitadinha!
- Fica descansada. Ela nunca se magoa.
- Onde a perdi? Onde pode estar?
- Vamos procurá-la juntos.
- Boa. És sempre o melhor, querido pónei.
            Ele sorri.
- Já sabes que sou teu amigo. Faço tudo por ti. Principalmente, nos momentos tristes…
- Eu sei. É por isso que te adoro.
- (sorri) Eu também te adoro.
            Os dois voltam para trás e percorrem todo o caminho que tinham feito até aí. Olham para todo o lado, para o chão, para os troncos das árvores, para os jardins, tocas e folhas, perguntam aos animais por quem passam…e da flor, nem sinais.
A menina não sabe, mas a flor anda feliz pela vila da borboleta, com quem conversa alegremente. Nessa vila existem coisas maravilhosas para comer, cheiros irresistíveis, deliciosos, diferentes, e atractivos. As paisagens são lindas.
Há coros de passarinhos por todo o lado, que cantam que dá gosto ouvir. Há lagos com patinhos ao sabor do mexer da água, gatinhos que se espreguiçam e brincam na relva, anões deitados à sombra, muita floresta e sol.
A borboleta tinha toda a razão…a flor ia mesmo adorar, conhecer muitas amigas novas, e todas tão bonitas. Que bem recebida que ela foi. Estava tão feliz que até se esqueceu da menina.
A menina continuava à procura e começa a ficar muito triste, porque não sabia da sua flor, e o pónei também não sentia o seu perfume em lado nenhum.
- Óh flor…onde estás? – Pergunta a menina muito triste
            O pónei, embora triste e preocupado, sentou-se à beira da menina e encostou a sua cabeça na menina, carinhosamente. A menina abraça-o, acaricia-o, e beija-o.
- Não te preocupes…nós vamos encontrar a tua flor.
            De repente, o pónei sente um aroma…uma mistura de perfumes muito frescos, suaves. O pónei levanta a cabeça, fecha os olhos e mexe o nariz para tentar identificar os perfumes,
- O que foi Flash?
- Estou a sentir…alguma coisa nova.
- O quê?
- Uma…mistura de…(cheira) perfumes muito suaves.
- E são novos?
- São!
- Tens a certeza que nunca os sentiste?
- Tenho!
- E de onde vem?
            O pónei baixa-se e fareja quase a rastejar. O cheiro torna-se mais forte ao chegar ao tronco da entrada para a vila da borboleta.
- Vem deste tronco. – Diz o pónei
            A menina aproxima-se e também sente o cheiro.
- Hum! Cheira tão bem aqui.
- Pois cheira.
- Será que está neste tronco?
- Sim…se o cheiro vem daqui!
            A menina espreita e grita:
- Está alguém aí…?
            Toda a vila da borboleta estremece.
- O que é isto? – Pergunta a flor muito assustada
- É um tremor de terra…! – Diz a borboleta, calma.
- Um tremor de terra? Mas…isso é assustador…como estás assim tão calma?
- Não te assustes…passa já! Sentimos isto todos os dias, e não nos acontece nada.
- Nunca tiveste medo?
- Não. Sempre me disseram o que era…por isso…como já sei, não tenho medo. Apenas deixo passar.
            A menina volta a gritar. A flor reconhece a sua voz.
- Óh…é a menina que está à minha procura.
- Convida-a para visitar a minha vila também.
- Ela pode andar aqui…?
- Claro que pode!
- E o pónei?
- Também. Vamos lá ter com ela.
            A borboleta vai à entrada da vila com a flor.
- A minha flor? – Grita a menina feliz
- Olá. – Diz a borboleta
- Onde estavas? – Pergunta a menina
- Fui com a borboleta conhecer a vila dela.
- Mas eu não te vi sair do meu cabelo…
- Pois não, porque a borboleta puxou-me do teu cabelo…nem tive tempo para te avisar.
- Eu já pedi desculpa. Não sabia que tinham de dizer uns aos outros onde iam e com quem iam…
- Sim, temos. Para os adultos não ficarem preocupados, e se nos acontecer alguma coisa, sabem onde estamos. É porque gostam de nós, e preocupam-se connosco.
- Claro! (sorri a borboleta) quando gostamos de alguém preocupa-mo-nos em saber se estão bem. Tens razão. Desculpa, eu devia ter-te dito. – Reconhece a borboleta. - Quero convidar-te a entrar na minha vila, linda menina, e tu, pónei, também podes entrar. – Convida a borboleta
- Boa! – Diz a menina a sorrir
- É uma vila muito bonita. Vale mesmo a pena visitar…e já tenho lá muitas amigas novas! – Conta a flor.
- Eu disse que ias adorar! Venham! – Diz a borboleta  
            A menina e o pónei seguem a borboleta. A flor volta para os cabelos da menina. Quando chegam à vila, são muito bem recebidos.
- Áh! Que gente tão simpática. – Diz a menina
- Pois é. – Confirma o pónei
- Espera até mais à frente! – Diz a borboleta a sorrir
            A borboleta mostra todos os cantos e encantos da sua vila, apresenta toda a gente, e as flores dançam á volta da menina e do pónei.
- Áh! O cheirinho era delas! – Reconhece o pónei
- Sentias o nosso cheiro lá fora? – Pergunta uma flor
- Sim. Sentia muitos cheirinhos frescos misturados e bons! – Diz o pónei
            Quanto mais as flores se mexiam, mais perfume libertavam e deixavam rastos brilhantes em forma de flores, que depois caiam em cima da menina e do pónei. A menina e o pónei ficam maravilhados e entram na dança das flores.
- Venham. Ainda há muito para ver! – Aconselha a borboleta
- Áh! Isto é tão lindo! Adorei conhecer-vos, flores, e dançar convosco. – Diz a menina
- Volta sempre que quiseres! – Convida outra flor
- Sim. Acho que vou mesmo voltar. Quer dizer…se a borboleta me convidar. Não vou entrar aqui, se não for convidada. – Diz a menina
- Mas é claro que estás convidadíssima, menina. Tens sempre a porta aberta. Aparece sempre que quiseres…e tu também…flor…e pónei.
- Obrigada. – Dizem todos
- Até já. – Diz a borboleta
- Até já.
            O passeio continua, cheio de novidades e coisas lindas para conhecer. Estão todos encantados.
- Áh! Que lindo!
- Olha isto, que giro.
- Áh! E olha estas flores…na nossa vila não existem.
- Olhem o cheirinho que vem desta árvore.
- Huummm…que bom!
- E a cor destes frutos…
- Uau!
- Podem ser comidos?
- Claro. Provem.
            Todos provam.
- Huummm…que bons!
- São docinhos.
- São dos nossos preferidos.
- Ali existem outras coisas…são casas e tendas de anões. Ali é o bairro dos porcos, e ali o bairro dos macacos…ali é o bairro das galinhas, aquele é dos gatos, aquele dos lobos, ao lado está o das ovelhas…o bairro das vacas e dos bois…aquele é o dos burros…- A borboleta mostra tudo.
- Este sítio é muito diferente daquele onde vivemos. – Repara a menina
- Pois é. – Diz o pónei
- Eu também gosto da vossa vila. – Diz a borboleta
- A tua tem um ar mais puro. – Diz a flor
- E esta relva…Huummm…deliciosa. Não é que a que eu como seja má…mas esta é demais…! – Diz o pónei.
- Pois é!
            Depois de conhecerem toda a vila, a menina diz que tem de voltar para casa, mas ficou entre eles a promessa de voltarem a encontrar-se na vila da borboleta, e na vila da menina. Trocam elogios simpáticos e carinhos, e cada um volta para a sua casa.
- Flor…ainda bem que a borboleta de tirou do meu cabelo! – Diz a menina
- Pois foi. No inicio não gostei, mas depois, acho que se ela não me tivesse tirado do teu cabelo, não precisavas de me ir procurar, e também nunca teríamos conhecido aquela vila tão bonita. – Acrescenta a flor
- Sim, é verdade. Eu nem fazia ideia que aquela vila existia. Mas gostei muito. – Diz a flor.
- Eu também.
            Os três conversam alegremente sobre a vila que acabaram de conhecer, mesmo á beira da deles, e eles nunca lá tinham ido. Viram coisas mesmo bonitas. E nos dias seguintes, cumpriram a promessa! Voltaram à vila da borboleta, onde passaram tardes inesquecíveis.
E vocês? Como imaginam que era a vila onde a menina, a flor e o pónei viviam?
E a vila da borboleta, como acham que eram?
Podem desenhar as duas vilas, ou se quiserem podem descrevê-las.

FIM
Lálá
(31/Março/2014)






quarta-feira, 2 de abril de 2014

O COMBOIO MÁGICO

        
                                                                foto de Lara Rocha 

           Era uma vez um comboio pequeno, todo colorido, que nunca antes tinha sido visto a passar pela floresta. Esse comboio não andava sobre carris, tinha rodas e andava na terra, mas era um comboio. De dia, o comboio rodava pela floresta, feliz, a cantarolar, sorria a quem passava e de repente desaparecia, e voltava a aparecer mais adiante, diferente…mas nunca se via ninguém a sair de lá. Parecia que entrava em alguns sítios e tornava-se invisível.
            Outras vezes, o comboio andava na terra e levantava voo, como se pudesse andar e atravessar as nuvens, mas não se via asas. À noite, este comboio ficava cheio de lindas luzes, parecia um presépio, ou muitas casas todas juntas, e viam-se outras luzes à sua volta…seriam pirilampos ou fadas? Não se conseguia ver porque estava escuro. Toda a gente falava do comboio.
Um grilo sentia uma agitação estranha, mas não sabia o que estava a acontecer. Adorava ficar à porta da sua toca, à noite, a conviver e a cantar com as cigarras, e outros grilos. Faziam grandes concertos juntos, e havia muita gargalhada, pela noite fora. De repente, o grilo olha para o horizonte, e no escuro vê muitas luzinhas a brilhar.
- Amigos…o que é aquilo? – Pergunta o grilo assustado
            Todos olham.
- Só consigo ver que são muitas luzes juntas! – Diz uma cigarra
- Será uma festa? – Pergunta outro grilo
- Um circo? – Pergunta outra cigarra
- Não ouvi anunciar nenhuma festa, nem nenhum circo! – Responde o grilo pensativo
- Eu também não! – Respondem todos
- Devem ser aqueles encontros de gente estranha. – Comenta outra cigarra
- Aqueles que se juntam e fazem um barulho insuportável? – Pergunta outra cigarra
- Não são os sapos, nem os pirilampos…os outros. – Explica a cigarra
- Ela está a falar daqueles parecidos com os anões, muito estranhos. – Esclarece outra cigarra
- Áhhh! – Respondem todos
- Aqueles que deixam tudo uma porcaria, e queimam a floresta, cortam as árvores e as flores…e coisas parecidas ou piores! – Diz o grilo
- Isso mesmo! – Respondem todos
- Os homens…- Resmunga outra cigarra
- Esses. – Confirma o grilo
- Devíamos corre-los daqui. – Sugere outro grilo
- Não faltará muito para o fazermos. – Diz outro grilo
            Uma pica - pau sai do tronco a rir.
- Não é nada disso que estão a dizer.
- O quê? – Perguntam todos
- Acordamos-te? – Pergunta um grilo preocupado
- Não. Eu estava a acabar a minha renda, e vou agora dormir. Ouvi o que disseram. Aquelas luzes não são de um circo, nem de uma festa, nem de…humanos…até me dá azia no estômago a dizer esta palavra! Lhec.
- Lhec. – Repetem todos
- Então o que são aquelas luzes? – Pergunta o grilo
- São o nosso novo inclino. – Responde a pica-pau
- Inclino? – Perguntam em coro
- Sim! O quê? Nunca o viram? – Pergunta a pica-pau intrigada
- Não! – Respondem todos
- Estão muito desatualizados. – Responde a pica-pau
- Ai, conta tudo…- Pede uma cigarra
- Aquelas luzes todas são de um pequeno comboio que veio aqui parar. Se calhar ainda não o viram porque ele anda mais de dia. Não sabemos como veio aqui parar, nem de onde é, nem o que veio cá fazer…ele é muito estranho. Umas vezes, vê-se…outras vezes…parece que se torna invisível ou que desaparece em qualquer sítio…e à noite…tem todas aquelas luzes…umas vezes vêem-se, outras vezes, não.  
- O quê? – Perguntam todos
- Mas…isso não é possível! – Diz outro grilo
- Isso é muito estranho…- Comenta outro grilo
- Está-me a cheirar muito mal… - Diz uma cigarra muito pensativa
- Não fui eu. – Gritam todos
- Não estou a falar desse cheiro. Quero dizer que alguma coisa de muito errado se está a passar aqui. – Diz a cigarra pensativa
- Alguma vez falaste com ele? – Pergunta outro grilo á pica-pau
- Não. – Responde a pica-pau
- Vamos lá mais perto. – Sugere outra cigarra
- Não será perigoso? – Pergunta outro grilo
- Não. – Assegura a pica-pau
            Põem patas ao caminho e vão ter com o comboio. Aproximam-se um pouco a medo.
- Boa noite…aproximem-se! Não mordo. – Diz o comboio
- Quem és tu? – Pergunta a pica-pau
- És novo aqui, não és? – Pergunta uma cigarra
- Sim, sou novo aqui. Venho de muito longe. Gostei tanto deste sítio que decidi descansar aqui. Espero que não se importem! – Diz o comboio
- Fica á vontade! – Diz a pica-pau
- Desde que não destrua o nosso cantinho… - Diz uma cigarra
- Óh…destruir? Que horror…na…na…eu adoro a natureza, nunca lhe faria mal, nem a vocês. – Assegura o comboio.
- Porque é que tens tantas luzes…e às vezes deixas de ter luzes? – Pergunta outra cigarra curiosa e intrigada
- Porque…quando estou acordado, tenho as luzes acesas, quando estou a descansar ou a dormir as luzes apagam-se. – Explica o comboio
- Áh! – Respondem em coro
- Mas, entrem…e conheçam-me por dentro. – Diz o comboio
- Entramos por onde? – Perguntam em coro
- Pela porta que se vai abrir. – Responde o comboio
- Mas quem és tu? – Pergunta a cigarra
- Sou um comboio.
- Um comboio? – Perguntam todos em coro
- Sim, um comboio. Nunca ouviram falar de mim?
- Já! – Respondem todos
- Mas os comboios não são enormes? – Pergunta um grilo
- São…e eu também sou grande. – Diz o comboio
- Grande? – Perguntam em coro e riem
- Não se deixem levar pelas aparências…entrem e verão.
            E abre-se uma porta enorme. Todos soltam grandes exclamações de encanto e algum medo. Entram e fecha-se a porta.
- Bem-vindos a bordo…amigos! Conheçam-me à vontade.
- Áh! É mesmo enorme… - Repara uma cigarra
- Eu disse para não se deixarem levar pelas aparências. – Diz o comboio a rir
- Uau! – Suspiram todos, encantados.
Dentro do comboio a surpresa é total…um espaço enorme, cheio de cenários diferentes, cada qual o mais bonito, a três dimensões que parece estarem mesmo nessas paisagens. O comboio estica-se mais e alarga.
- Querem tomar alguma coisa? – Pergunta o comboio
- Chá… - Dizem as cigarras em coro
- Tens? Se tiveres, eu também tomo. – Pergunta a pica-pau.
- É para já…minhas donzelas.
            O comboio prepara um belo chá para as cigarras e para a pica-pau
- Aqui tem, meninas…querem açúcar?
- Não, obrigada. – Respondem todas
            Elas bebem e suspiram.
- Huummm… - Dizem em coro
- Mas que chá requintado…- Comenta a pica-pau
- Huummm…que sabor raro. – Comenta outra cigarra
- Está uma manjar das deusas… - Diz outra cigarra
- Não conhecia estes sabores, mas adoro. – Comenta outra cigarra
- Onde se encontra este chá tão bom? – Pergunta outra cigarra
- À saída, eu ofereço-vos uma caixa…ou então vem tomá-lo aqui, sempre que quiserem. – Diz o comboio
- Obrigada. – Dizem em coro.
- Fiquem à vontade. Qualquer coisa é só pedirem ou dizerem. – Diz o comboio
            Todos exploram o comboio. Tinha roupas de diferentes culturas, jóias, chapéus, gorros, cobertores, lanternas, mantas, fatos-de-banho, máquinas fotográficas e de filmar, milhares de fotografias de animais, paisagens e outros objectos. Tinha pratos de comidas típicas de países diferentes, borboletas e flores de todas as cores, voavam milhares de bolas de sabão e havia muita música, muitas luzes a piscar. De repente, o comboio levanta voo.
- Agora, olhem pelas janelas, e vejam a vossa floresta de cima, à noite.
            Recolhem-se as fotografias e abrem-se umas janelas enormes. Apagam-se as luzes do comboio, e todos olham pelas janelas.
- Ááááááááhhhhhh! - Suspiram todos a sorrir encantados
- Estamos a andar? – Pergunta uma cigarra
- Sim! É seguríssimo andar aqui. – Responde o comboio
- Que linda que é a nossa floresta! – Diz outro grilo
- De dia e de noite. – Acrescenta outro grilo
- Olha as casa dos anões… - Repara outra cigarra
- Maravilhoso. – Suspira outra cigarra
- É mesmo! – Sorri o comboio
- Já tinhas andado por aqui? – Pergunta a pica-pau
- Sim, quando cheguei. – Diz o comboio
            Depois da vista de sonho, o comboio volta a pousar. E acontecem coisas muito diferentes, todos brincam, saltam em piscinas de espuma, atiram espuma uns aos outros, mergulham em piscinas de água quente, e jacuzzis, escorregam em colchões de esponja e de plástico, brincam uns com os outros, convivem alegremente até ficarem com muito sono.
Agradecem tudo, e voltam para a sua toca quase a arrastarem-se depois de tanta coisa nova e tão boa que experimentaram e conheceram. Estão mesmo cansados, mas muito felizes, quase ao nascer do dia.
            Nos dias que se seguiram, toda a gente quis visitar o comboio cheio de surpresas, e passeios fantásticos. O comboio fez muitas e boas novas amizades.
            Ele adorava receber visitas e levar os amigos a passear, mas às vezes também se cansava e precisava de ficar sossegado no seu canto, a descansar, de luzes apagadas, para criar novas magias. Todos já sabiam quando isso acontecia, e deixavam-no descansar. Quando estava totalmente recuperado, recomeçava tudo…as visitas, as magias, as luzes, os passeios, e muito mais. Este não era um comboio qualquer…este, era o comboio mágico, cheio de magia e amizade.
            Todos nós às vezes precisamos de algum tempo para estarmos fechados em nós mesmos, e descansar, para renascermos, novos, com uma nova força, uma outra energia, uma outra maturidade, e perspectiva das coisas.
Às vezes precisamos de viajar no nosso comboio interior, e descobrir ou revisitar memórias felizes, matar saudades, recordar momentos únicos e irrepetíveis que ainda hoje nos fazem arrepiar.
Às vezes todos nós precisamos de silêncio e paz, para nos encontrarmos com aquele ser único e irrepetível que somos…e procurar respostas, ou simplesmente, embalar o coração quando ele sofre.
            Às vezes…precisamos de abraçar novamente a criança que fomos, e tirá-la para fora do nosso comboio, para que reencontremos a felicidade de viver, e para que possamos renascer, criar coisas novas.
            Todos nós somos comboios cheios de magia!  

FIM
Lálá
(31/Março/2014)




sábado, 29 de março de 2014

A visita surpresa

Era uma vez quatro meninas que adoravam a Lua, principalmente quando ela ficava enorme e luminosa, que parecia uma enorme bola de luz.
Todas as noites, as meninas falavam da Lua, olhavam-na, desenhavam-na, liam-lhe histórias e mandavam-lhe beijinhos.
A Lua ouvia-as deliciada, e enchia-se de carinho, como se fosse uma mãe derretida com as suas filhas.
- Quando vens cá abaixo, Lua? – Perguntavam as meninas antes de dormir.
         A Lua não respondia…apenas sorria e murmurava:
- Um dia destes!
         As meninas pediam às estrelas, esse desejo, mas até aquela noite, não se tinha realizado. A Lua decidiu fazer-lhes uma surpresa. Como tinha de continuar a brilhar no céu, tirou uns pedaços de si, delicadamente, como se fossem pedaços de algodão ou de penas. Tão leves…
Enrolou um pedaço, e fez uma bola gigante. Outro pedaço pôs em forma de meia bola, outro em forma de meio arco fininho, outro em formato quase da espessura de uma unha. Que lindo.
Soprou esses pedaços delicadamente em direcção ao Planeta Terra e ordenou-lhes que fossem pousar em sítios específicos…na casa das meninas que tanto gostavam dela.
Rapidamente, e porque eram tão leves, os pedaços da Lua atravessaram o espaço e o planeta terra, passando pelas muitas nuvens finas e grossas, e chegaram à terra.
Cada pedacinho pousou em sítios diferentes: a lua gigante, pousou num ninho, outro pedaço na beirada da janela do quarto da menina, outro pedaço num monte de erva fofa, e o outro, num lago de patos que ficava em frente à casa das 4 meninas.
Os cães desatam a ladrar, ao ver aqueles pedaços de lua, e as meninas acordam assustadas. Vão à janela ver se há alguma coisa de estranho, e logo reparam nos pedaços.
- Ááááááhhhh…! – Suspiram as 4 meninas, muito surpresas, e um bocadinho assustadas.
- O que é isto? – Pergunta uma menina…
- Eu não tinha isto na minha janela. – Diz outra menina.
- E o ninho não tinha aquela bola enorme…- Diz outra menina.
- Pois não! – Respondem em coro
- E o que é aquilo naquele monte de erva? – Pergunta outra menina
- E aquilo no lago…? – Pergunta outra menina.
- Nunca vi isto! – Diz uma menina.
- Nem eu. – Acrescentam as outras.
- Parece… - Todas olham para a lua
- A lua! – Gritam em coro.
- Sim. A lua realizou o nosso desejo…? – Pergunta uma menina.
         A Lua sorri-lhes e diz:
- Sim, queridas…esses pedaços são uma prenda minha para vocês.
- Ááááááhhhh… - Suspiram todas felizes e sorridentes.
- Isto é tudo teu? – Pergunta outra menina
- Sim. Este era um desejo vosso não era? Vocês pediam todas as noites às estrelas, que eu vos fosse visitar! – Diz a Lua
- Era! – Respondem em coro, sorridentes.
- É que nós gostamos muito de ti…- Diz outra menina.
- Sim, eu sei. Foi por isso que vos mandei um pedacinho de mim, para cada uma de vocês…ou para todas, como quiserem. – Diz a Lua
- Como fizeste isto? – Pergunta outra menina
- Estás aqui e aí? – Pergunta outra menina
- Eu estou aqui, mas também estou aí…esses são pedacinhos de mim. – Explica a lua.
- Mas como fizeste isso? – Pergunta outra menina.
- Eu tenho esse poder, de me dividir por muita gente, e muitos lados. Em cada pedacinho desses, vai um pedacinho de mim, do meu carinho por vocês! – Explica a lua.
- Ááááááhhhh! – Respondem em coro surpresas
- E eles não se desfazem? – Pergunta outra menina
- Não! – Garante a Lua
- Vamos ali buscá-los… - Sugere uma menina
- Sim! – Concordam todas.
- Façam o que quiserem. Não quero é que se chateiem umas com as outras, por minha causa…muito pelo contrário, quero que se unam e que sejam amigas! – Recomenda a lua
 - Claro! – Dizem todas
- Sempre fomos amigas… - Diz outra menina
- Às vezes zanga-mo-nos… - Confessa outra menina
- Mas fazemos as pazes. – Corrige outra menina
- Pois claro. E assim é que deve ser! – Diz a Lua
- A mamã e o papá ficam muito felizes por sermos amigas. – Diz outra menina
- Pois. – Dizem todas
- Eu também fico! – Diz a lua.
- Adoramos a tua visita…- Diz outra menina
         As 4 meninas apanham os pedaços de lua em silêncio para não acordar os pais. Juntam todos os pedaços no seu quarto e acariciam-nos, abraçam-nos, beijam-nos, como se fossem bonecos. Brincam com eles, felizes.
- São levezinhos…! – Diz uma menina
- Pois são. – Respondem todas
- Que fofinhos…! – Diz outra menina.
         E cada menina dorme com um pedacinho de lua. Nos dias seguintes, trocam os pedacinhos com que dormem. E mostram à lua, como estão a tratar bem do seu carinho. Como se fosse um tesouro! Todas as noites contam histórias aos pedacinhos de lua, e à lua, cantam canções, embalam-nos, abraçam-nos, e enchem-nos de mimos.
- Muito obrigada, lua…! – Dizem todas em coro
         E a lua sorri orgulhosa.


Moral da história:
Todos temos objectos que guardamos com todo o carinho, pequenas coisas, que nos fazem lembrar bons momentos, e fazem-nos sentir a presença de pessoas que foram e, ou, são muito especiais para nós…ou aquelas que fizeram parte da nossa vida, mas seguiram outros caminhos. Todos temos pedacinhos de lua que guardamos para sempre no nosso pensamentos e no nosso coração. Assim, mesmo longe estão sempre perto!


FIM
Lálá
(29/Março/2014)