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sábado, 8 de junho de 2013

Pequena história para estimular a aquisição de novo vocabulário, aprendizagem e a articulação das vogais: A, E, I, O, U


LETRA E
(Identificar todas as palavras começadas por E. Estimular a Atenção e a memória)

    Era uma vez uma menina chamada Ester, que vivia numa casa enorme, com os seus pais, irmãos, avós e alguns animais.
Ester gostava muito de todos os animais, mas o seu favorito era uma linda égua, chamada Estrelinha, de pêlo castanho-escuro, ainda novinha que era muito elegante, meiga e obediente.
Numa tarde de férias, Ester saiu com a sua égua Estrelinha, e foram as duas passear pelos campos. 
Pelo caminho, Estrelinha cruzou-se com Estrelada, uma égua que vivia na casa ao lado, e com quem brincava muitas vezes, pois os campos eram pegados.
Mas não eram só as éguas que eram amigas. As suas donas também eram: a menina Ester e a menina Elisa, que também gostavam muito de brincar juntas.

- Olá Ester! – Disse Elisa sorridente.

- Olá Elisa! – Respondeu Ester.

- Onde vais? – Perguntou a Elisa curiosa.

- Vou passear com a Estrelinha e tu?

- Eu vou esperar a minha prima Elsa que chega hoje com os pais de Espanha.

- E onde vais esperá-la?

- Vou esperá-la na Estação da Esmeralda.

- Está bem!

- Depois podemos brincar juntas se quiseres.

- Sim, claro. A Elsa é muito simpática, vais gostar muito de a conhecer. Já lhe falei muito de ti.

- Ai sim?

- Sim, disse-lhe que és a minha melhor amiga. – Responde a menina Elisa.

- Óh…! Tão querida, Elisa…eu também gosto muito de ti. Tu também és a minha melhor amiga!

          As duas meninas abraçam-se e beijam-se.

- Eu posso acompanhar-te com a Estrelinha, até á Estação da Esmeralda? – Perguntou a Ester.

- Claro que sim! E a Estrelada também vai para ajudar a trazer as coisas da minha prima Elsa e dos meus tios. – Respondeu a Elisa.

- A Estrelinha e a Estrelada também são muito amigas. – Repara a Ester.

- Sim, é verdade. É como nós as duas. Também são vizinhas, é natural que se entendam muito bem uma com a outra. – Concorda a Elisa.

- Pois é! – Concorda a Ester.

         E as duas éguas vão felizes, lado a lado, com a Ester e com a Elisa, a conversar alegremente, a cantarolar, até à Estação de comboios da Esmeralda. 
      Quando chegam à Estação da Esmeralda, a sua prima Elsa acabara de chegar com os pais e os três irmãos mais pequeninos. 
    Cumprimentam-se alegremente, e Elisa apresenta a sua prima Elsa, à amiga Ester. Elsa e os pais ficam felizes por rever a Elisa, e por conhecer a Ester, mas principalmente, encantados com as duas éguas: Estrelinha e Estrelada. 
Elsa acaricia as duas éguas e pergunta:

- Posso montar numa delas? – Pede Elsa.

- Sim. – Respondem as duas meninas.

- Qual gostas mais? – Pergunta Ester.

- Esta…!

- É a Estrelinha, a égua da Ester. – Responde Elisa.

- Está bem. É linda! – Elogia Elsa.

- Podes montar em segurança. Ela é muito meiga, e porta-se sempre muito bem.

- Tios: querem que a Estrelada leve os vossos sacos? – Oferece-se Elisa.

- Não! – Respondem os tios.

- Nós levamos…são leves. – Responde a Tia Eugénia.

- Os pais estão bons, querida Elisa? – Pergunta o Tio Eduardo.

- Sim, tio…estão bem, obrigada. Já vai vê-los a seguir. Não vieram porque estão no campo a cortar a erva para os animais.

- Sim, eu sei como é! – Responde o tio Eduardo.

       Elsa monta na doce égua Estrelinha, os três pequeninos vão no carrinho, e dormem. Todos falam alegremente pelo caminho, até casa. 
      Quando chegam a casa, as éguas ficam no campo a comer erva fresca e suculenta, pois a caminhada fez fome e sede.
Em casa de Elisa, há festa, por isso, Elisa não pode ir brincar com a Ester, por isso volta para a sua casa e deixa a sua égua no campo, com a amiga Estrelinha, que brincam juntas, livres e felizes.
À noite, Ester vai à janela do seu quarto, e antes de se deitar, olha para o céu.

- Áááááhhh…que céu tão bonito. Está cheio de estrelas. 
       Elsa e Elisa também vêem as estrelas encantadas. As corujas e os mochos estão pousados na árvore, atentos a tudo. 
         As cigarras, os grilos, os sapos e as rãs fazem uma grande sinfonia, que parece um coro. 
     A noite passa, e o sol volta no dia seguinte, para as éguas Estrelinha e Estrelada correrem pelo campo, comerem erva, e as meninas Ester, Elisa e Elsa brincarem umas com as outras, enquanto a Tia Eugénia, cuida dos bebés e ajuda no que pode, e o Tio Eduardo trabalha na Terra com o pai de Elisa, que se chama Edgar.


FIM
Lara Rocha 
(8/Junho/ 2013)

Pequena história para estimular a aquisição de novo vocabulário, aprendizagem e a articulação das vogais: A, E, I, O, U


LETRA A

(Identificar todas as palavras começadas por A. Estimular a Atenção e a memória)

Um dia escuro!
         A Águia Ana saiu do seu ninho, quando o dia estava a amanhecer. Acordou com o galo que vivia no jardim da Avó Luísa, e do Avô André.
       Com os primeiros raios de sol, que hoje não está por trás das nuvens, o Galo começou a cantar alto e bom som.
A águia voou à procura de alimento pelos campos fora. A Avó Luísa e o Avô André acordaram, lavaram-se, vestiram-se, tomaram o pequeno-almoço e prepararam-se para mais um dia de trabalho.
Hoje o trabalho não ia ser ao ar livre, e estavam bem agasalhados, pois estava um dia cinzento, o céu estava cheio de nuvens enormes e escuras, pesadas, que mais pareciam grandes bolas de algodão, carregadas de água.
A Avó Luísa foi buscar a sua neta, Ana Paula, que vivia umas casas á frente da sua. Ana Paula estava de férias mas os seus pais ainda não…então, para não ficar sozinha, ia ficar com a sua Avó Luísa que muito amava.
As duas costumam fazer muitas coisas juntas, e muito divertidas, como: apanhar flores, frutos, legumes, alimentar e dar de beber aos animais, arrumar roupa, cozinhar e conversar, cantar, passear, brincar, ler histórias, fazer colares de flores naturais, e muito mais.
Chegam a casa, Ana Paula abraça e beija alegremente o Avô André, e faz-lhe um pedido:

- Avô…posso ir andar de bicicleta?

          O Avô André responde-lhe:

- Hoje, não, filha…não vês que está a chover?

- Óóóóhhh…!!! – Exclamou a Ana Paula muito triste.

- Podes ficar doente, se apanhares chuva. – Acrescentou o Avô André.

- Claro querida, o Avô tem razão. E podes cair e magoar-te. Vens connosco para a Eira, e ajudas-nos a apanhar as nozes e as aveias que caíram das árvores, para fazermos um belo bolo de chocolate, com esses frutos, ao lanche…pode ser? – Pergunta a Avó.

- Está bem, Avó, eu ajudo-te a apanhar as nozes e as aveias, adoro bolo de chocolate com esses frutos, feito por ti. – Concordou a Ana Paula, a sorrir, e disse orgulhosa da Avó.

- E também temos as amêndoas, que tornam o bolo mais saboroso não acham? – Lembrou o Avô   André, ciumento.

- Sim, é verdade! – Respondem as duas.

- Vamos então! – Ordenou o Avô.

          A Avó Luísa, o Avô André, e a neta Ana Paula, levam o guarda-chuva e vão para a eira. A Ana Paula pergunta:

- Óh Avó…já deram de comer aos animais?

- Sim, querida. Enquanto a tua Avó te foi buscar, eu alimentei os animais! – Responde o Avô André.

- E deitaste-lhes água? – Perguntou a neta.

- Sim, deitei-lhes água…eles precisam dela, como nós. – Respondeu o Avô.

- Pois é, Avô. Eu também bebo muita água. – Respondeu a Ana Paula.

- Fazes tu muito bem. Queres beber agora? – Responde, e pergunta a Avó.

- Não, Avó…agora não! Obrigada! – Respondeu Ana Paula.

- Mais tarde, bebemos chá…ao almoço! – Diz a Avó.

- Boa! – Respondeu a menina.

      Os três apanham as aveias, as amêndoas, e as nozes na eira, para o bolo. Lá fora, a Águia Ana apanhou o seu alimento preferido, e pousou numa rocha da grande montanha, para procurar um sítio onde não chovesse. 
        A águia não consegue voar, porque está vento e ameaça chover a qualquer altura. Encontra uma pequenina gruta, e entra.

- Áh! Finalmente encontrei um sítio. Fico aqui. Acho que não vive aqui ninguém. Se aparecer alguém, eu peço desculpa por ter entrado, e explico que não foi por mal…foi só para me abrigar da chuva e do vento, e digo que…não consigo voar.

          Começa a chover muito forte! O vento abana tudo por onde passa, assobia, sacode as árvores, as flores, as antenas das casas, caem folhas às centenas…as nuvens parecem algodões a desfazer-se, e as gotas de chuva são enormes, pesadas, com pedras de gelo.

- O que é isto? – Perguntou um morcego que vivia na gruta onde estava a Águia Ana.

          A Águia Ana estremece.

- Ai, que susto!

          O morcego ri.

- Desculpa, não te queria assustar! – Diz o morcego.

- Tu vives aqui na gruta? – Perguntou a Águia.

- Sim…quer dizer…para já sim! Eu não fico muito tempo na mesma casa.

- Desculpa, acho que invadi a tua casa! – Diz a Águia preocupada e envergonhada.

- Não. Fica descansada. – Responde o morcego, simpático.

- Não te tinha visto!

- Não me tinhas visto…? Com esses olhos que vêem tudo a longa distância? – Diz o morcego, surpreso.

- Olhei, estava tudo sossegado, não ouvi barulho, nem vi ninguém, pensei que estava vazia. – Explica a Águia.

- Não te preocupes…! – Recomenda o morcego.

- Estou a abrigar-me da chuva e do frio, do vento… - continua a Águia.

- Cala-te um bocadinho, por favor…eu não te estou a pôr para fora! – Pede o morcego.

- Eu sei…mas não quero estar a incomodar-te…não gosto de ser atrevida, e de entrar na casa dos outros, sem pedir licença. – Explica a Águia.

- Não incomodas nada. Fica á vontade. O tempo não está para brincadeiras, nem para caçadas, nem nada. Só para estar recolhido! – Comenta o morcego.

- Pois é! – Concorda a Águia.

- Está muito escuro. – Repara o morcego.

     Os animais estão recolhidos, e continuam a falar um com o outro sobre vários assuntos. 
       Chove torrencialmente, mas dentro de casa não chove, e a Ana Paula está na cozinha a fazer o delicioso bolo com a Avó. 
          O Avô está sentado à lareira a aquecer-se. Enquanto o bolo fica no forno a crescer, a Ana Paula ajuda a Avó a dobrar a roupa, a arrumar uns armários, e a enfeitar umas jarras.
          De repente…começa a trovejar. A Ana Paula tem muito medo da trovoada, mas a Avó Luísa é muito corajosa. 
          O Avô André senta a sua neta no colo, e conta-lhe uma linda e divertida história que a faz rir muito com o que o Avô lhe conta. O bolo fica pronto, e comem-no deliciados, acompanhado com chá.

- Huuummm…está mesmo bom. – Elogia o Avô André.

- Sim…os bolos da Avó são sempre mais que bons. – Acrescenta a neta.

          A Avó Luísa sorri vaidosa.

- Tu também ajudaste querida! – Valoriza a Avó.

          A trovoada desfaz as nuvens que mais pareciam algodões gigantes e o sol volta a brilhar no dia seguinte. 
        Na manhã seguinte: o galo da Avó Luísa e do Avô André, voltou a cantar, a Águia tornou-se uma grande amiga do morcego que a acolheu na sua casa, o morcego sai de noite, mas recebe muitas vezes a sua amiga na gruta, que também leva alimento para ele. 
         A Avó Luísa e o Avô André saíram para o campo, e a menina Ana Paula foi passear pelos campos, apanhou flores, amoras silvestres, ajudou os Avós a fazer as tarefas simples, deitou-se à fresca e brincou com os cãezinhos, gatinhos, coelhinhos, patinhos e outros que com o sol puderam andar à vontade pela quinta.

FIM
Lara Rocha 
7/Junho/2013

terça-feira, 4 de junho de 2013

A cigarra envergonhada



NARRADORA - Era uma vez uma floresta onde viviam muitos animais diferentes, e todos se davam bem. Adoravam fazer muitas festas, e reuniam-se muitas vezes para longas, e quentes noites de Verão, ao luar, em campos enormes. Uns animais, gostavam de fazer rir, e vestiam-se de palhaços, com roupas cheias de cores, cabeleiras, pinturas estranhas. Outros animais, dançavam, outros passavam modelos, outros eram cabeleireiros e preparam ao pormenor os pêlos dos animais que iam às festas. Havia também os cozinheiros, os bailarinos, as bailarinas e os músicos, e os fotógrafos. Era sempre uma grande animação com todos a cantar, a rir, a dançar felizes, e a brincar. Mas no meio desta alegria toda, havia uma cigarra pequenita, que era muito envergonhada! Quase só falava com os seus pais e irmãos, e família, mas com as outras pessoas não falava. Até chegaram a pensar que ela tinha um problema na voz, na fala ou nas asinhas. Os coleguinhas da escola e os vizinhos achavam-na muito estranha, e não queriam brincar com ela, porque ela não falava. Ela bem se esforçava para falar, porque queria mesmo muito, mas não conseguia. Por isto sentia-se muito sozinha e triste. Uma noite, a pequenina cigarra olhou para as estrelas e murmurou muito triste:

CIGARRA – Óh…queria tanto falar como os outros, cantar como os outros…mas não consigo!

NARRADORA – Um mocho que estava pousado na árvore em frente, tossica, a cigarra estremece e tenta esconder-se e foge. O mocho grita-lhe:

MOCHO – Menina…volta aqui.

NARRADORA – Ensinaram à pequenina cigarra que quando um mocho dá uma ordem é para se cumprir. E a cigarra, lá voltou para a janela, onde estava a falar com a estrela, a tremer e muito devagar.

MOCHO – Podes vir devagar…eu tenho a noite toda…mas tens de vir.

NARRADORA – A cigarrinha encolhida para na janela.

MOCHO – Olha para mim.

NARRADORA – A cigarra treme como uma vara verde à brisa.

MOCHO – Ai…que paciência…! Aproxima-te, e olha para mim, eu não mordo.

NARRADORA – A cigarrinha olha para o mocho muito rápido e a tremer.

MOCHO – O que foi isso?

NARRADORA – A cigarrinha não responde, e fica muito assustada.

MOCHO – Porque tremes tanto?

NARRADORA – A cigarrinha não responde, nem olha para o mocho.

MOCHO – Mas, estou a falar com uma pedra, ou com um pau?

NARRADORA – A cigarrinha fica triste, encolhe-se.

MOCHO (suspira) – Olha, menina…vais ter de dizer alguma coisa!

NARRADORA – A cigarra abana a cabeça para dizer que não.

MOCHO – Mas porque não?

CIGARRA (baixinho) – Não.

MOCHO – Tens algum problema na voz?

CIGARRA (baixinho) – Não.

MOCHO – Então porque não dizes nada?

CIGARRA (baixinho) – Porque…porque…

MOCHO – Porque…?

CIGARRA (nervosa, baixinho) – Porque…não.

MOCHO – Mas estás a falar agora, e eu ouço-te a falar com os teus familiares…!

CIGARRA (baixinho) – Ai…

MOCHO – O que foi? Dói-te alguma coisa?

CIGARRA (a tremer, baixinho) – Não.

MOCHO – Então…porque nunca falas?

CIGARRA (baixinho) – Porque…tenho vergonha.

MOCHO – Como?

CIGARRA – Sim.

MOCHO – Mas…vergonha…de quê?

CIGARRA (baixinho) – De…falar.

MOCHO – Que disparate…vergonha de falar, porque razão…?

CIGARRA (a tremer) – Não sei…só sei que tenho vergonha.

MOCHO – Mas porquê? Não tens voz como os outros?

CIGARRA (baixinho) – Acho que sim…mas…ouço vozes tão bonitas…

MOCHO – Ora essa…a tua também é uma voz bonita…é a tua voz…a voz igual à da tua espécie.

CIGARRA – Mas eu não sei cantar como os outros, e vão todos gozar-me. Não sou como os outros…

MOCHO – Nisso, tens razão…não és como os outros…nós somos todos diferentes, nenhum é igual ao outro. Ainda bem!

CIGARRA – Mas os da minha espécie…são como eu…

MOCHO – O que vos cobre…a vossa pele…é toda igual, mas como animais…todos são diferentes…! Felizmente! Mas todos vivem bem uns com os outros, porque sabem que são diferentes em algumas coisas.

CIGARRA – Somos assim tão diferentes…pois, eu canto mal, eles cantam bem!

MOCHO – O quê? (ri) Lá porque são da mesma espécie, achas que todos cantam bem?

CIGARRA – Sim…!

MOCHO (ri) – Ainda não ouviste, uns e outros da tua espécie…! Quando ouvires com atenção, vais ver que tudo isso são ideias da tua cabeça, sem pés nem cabeça.

CIGARRA – As ideias têm pés e cabeça…?

MOCHO (ri) – Sim. Mas porque tens medo?

CIGARRA – Ahh…Áhhh…porque…porque…

MOCHO – Claro, não tens justificação!

CIGARRA – Porque…eles vão…gozar-me.

MOCHO – Que disparate. Vão agora gozar-te porquê?

CIGARRA – Porque…o meu pai disse que eu não canto nada.

MOCHO – E tu já cantaste com eles, ou para eles?

CIGARRA – Sim.

MOCHO – O teu pai deve achar que é um tenor…(ri) com todo o respeito…é a voz dele, mas há vozes muito mais bonitas. Por exemplo a tua.

CIGARRA – Como é que sabes, nunca me ouviste cantar? Uma vez que cantei, todos me gozaram…

MOCHO – São coisas da tua cabeça…nada é real. E tinhas ensaiado?

CIGARRA – O que é isso?

MOCHO – Cantaste muitas vezes, com alma, com amor, com alegria, com emoção…antes de cantares?

CIGARRA – Não. Cantei na hora…juntamente com os outros.

MOCHO – Minha querida…não há nada que saia bem, sem fazer mal muitas, e muitas vezes…!

CIGARRA – Mas…

MOCHO – Nunca te disseram que tinhas de cantar muitas, e muitas vezes antes de cantares com os outros…? E tinhas de te engasgar, e tinhas de ganhar tosse…e ficar rouca…ou com a garganta a doer?

CIGARRA – Ui, que horror…!

MOCHO – Disseram-te?

CIGARRA – Não!

MOCHO – Falharam.

CIGARRA – Mas os grandes nunca falham.

MOCHO (gargalhadas) – Ora essa…?! Nunca falham? Nunca outra ouvi.

CIGARRA – Pois…eles cantaram logo que foram para o palco.

MOCHO (ri) – E tu sabes quantas vezes eles passaram por tudo o que te disse, até conseguirem cantar assim?

CIGARRA – Nenhuma…eles já cantam tão bem, desde sempre.

MOCHO – Errado! Tu é que não os viste, nem ouviste…e eles já se esqueceram do que passaram até chegar onde estão agora.

CIGARRA – A sério?

MOCHO – Sim, claro.

CIGARRA – E tu viste?

MOCHO – Vi, claro que sim. Eu vejo tudo, e ouço tudo.

CIGARRA – Mas…então porque é que dizem que eu canto mal?

MOCHO – Ora aí está! Lá porque são grandes, não quer dizer que saibam tudo…nem que saibam cantar na hora…eles é que têm vergonha de te dizer que também começaram por cantar muito mal, e depois ensaiaram muito, ficaram muitas vezes sem voz de cantar tão mal…e muitas outras coisas.

CIGARRA – Porque é que eles dizem que eu canto mal?

MOCHO – Só te ouviram uma vez?

CIGARRA – Sim…não cantei mais, porque disseram-me que cantei muito mal, e fiquei cheia de vergonha.

MOCHO – E só porque te disseram uma vez…é porque cantas realmente mal?

CIGARRA – Sim…os adultos é que sabem

MOCHO – Não acredites nisso! Os adultos também já foram crianças, também já não souberam nada…e também já cantaram horrivelmente mal. Mas eram felizes com certeza.

CIGARRA – Sim, e eu também era feliz se cantasse bem, se apreciassem a minha voz.

MOCHO – Como queres que apreciem a tua voz, se não falas, nem cantas?

CIGARRA – Tenho medo que eles não gostem.

MOCHO – Que disparate. Tens de experimentar.

CIGARRA – Huuummm…acho que não.

MOCHO – É uma ordem minha…tu vais cantar.

CIGARRA (a tremer) – Ai…não…que vergonha.

MOCHO – Vais desobedecer-me?

CIGARRA – Não.

MOCHO – Então vais cantar.

CIGARRA – Não.

MOCHO – Vais desobedecer-me?

CIGARRA – Não.

MOCHO – Então vais cantar.

CIGARRA – Mas eu não sei cantar.

MOCHO – Que disparate. Claro que sabes cantar.

NARRADORA – O mocho, pacientemente, leva a cigarra para a beira do rio, onde não tem ninguém, e ensina-a a cantar, a aquecer e a afinar a voz, a respirar, e outros truques muito importantes. Passado uns dias, depois de muitos ensaios, e enganos, o Mocho sempre incentivou a cigarra, sempre valorizou os seus pequeninos progressos, tudo o que ela errava e fazia bem a seguir, o mocho elogiava, aplaudia, dizia palavras agradáveis. Muitas vezes cantaram os dois juntos. A cigarra ficou muito mais feliz, muito mais vaidoso, e orgulhosa, e muito mais aberta, mais segura, e mais faladora. Durante vários dias e noites, a cigarra pequenina ensaiou com o mocho. Numa noite de festa, em que todos estavam felizes e a cantar, acontece uma coisa muito estranha…e misteriosa…levanta-se uma grande ventania e todos os que cantavam, perdem a fala, depois de muito tossir com a poeira do vento, e do frio. A única que não foi afectada, foi a cigarrinha. O mocho grita à cigarrinha:

MOCHO (grita) – Vai…é a tua vez. Mostra o que vales…! O palco é teu…

CIGARRA (assustada) – Ai…não…!

MOCHO (grita) – Vai…todos perderam a fala, restas tu! É agora a tua oportunidade! Força…mostra o que está guardado por trás da tua vergonha e do teu medo. Estivemos a ensaiar…lembras-te?

CIGARRA – Sim.

MOCHO (grita) – Vai…! Força!

CIGARRA – Ai…ai, ai…!

MOCHO – Vai, sem medo! Respira…fecha e olhos, e canta. Vá lá…!

CIGARRA – Cantas comigo?

MOCHO – Sim. Começa.

NARRADORA – E na confusão, onde todos estavam nervosos, muito aflitos por terem perdido a voz e por estarem a tossir, a cigarrinha fecha os olhos, e canta com toda a força…surge uma voz doce…tão linda…que todos fazem silêncio, incrédulos ao ver que era a pequenina cigarra tão tímida, e calada, que quase ninguém conhecia…o mocho acompanha, e todos ficam arrepiados de emoção ao ouvir aquele dueto tão lindo. Os pais da cigarrinha estão maravilhados, e parece que todos ficam hipnotizados por aquela beleza. No fim, todos batem muitas palmas de pé, sorriem felizes, e a partir desse dia, a doce cigarrinha não teve mais medo de falar, nem vergonha, tornou-se muito respeitada, e muito solicitada para cantar.

CIGARRA (feliz) – Muito obrigada, estrelas, por realizarem o meu desejo. E muito obrigada mocho, por tudo o que me ensinaste.

MOCHO (sorri) – Ora essa, filha…não fiz nada! E isto é só o começo…muito mais haverá.

NARRADORA – E a cigarrinha nunca mais parou, e nunca mais se sentiu sozinha, passou a viver rodeada de amigos, e a ser muito faladora. Os seus pais têm um grande orgulho nela, e passam a cantar juntos nas festas. Às vezes acontecem-nos coisas estranhas, para mostrarmos quem somos, sem fingirmos, e para mostrar coisas boas que temos. Somos assim, como somos, todos diferentes, mas todos podemos ser amigos.


FIM

Lara Rocha 

(3/Junho/2013)