foto tirada por Lara Rocha (2026)
Era uma vez uma praia cheia de gente, com água do mar calma, e baixa, cheia de possecas, e rochas gigantes à mostra. Uma Garça Real Europeia sobrevoa a praia, algo que nunca tinha acontecido antes. Só estavam habituados a ver gaivotas e passarinhos pequeninos.
Todas as pessoas da praia olharam para a Garça Real Europeia, fotografaram, filmaram, seguiram os voos dela, próximo do mar. Pousa numa rocha, observa a água, a praia, e murmura:
- Porque é que está tudo com aquelas coisas viradas para mim e a seguir tudo o que eu faço, como se fossem os donos da praia?
Mete a pata na água:
- Gosto desta água! É limpa, e com uma temperatura agradável! Cheira bem! Tem algas que parecem suculentas.
Põe as patas na areia molhada, e na areia seca:
- Gosto destas areias!
Levanta voo outra vez, pousa na areia, observa atentamente todo o espaço e cada rocha gigante. Espreita uma por uma, caminha dentro das grutas, olha para os tetos, para os buracos das paredes das rochas.
- Hummm…Gosto! Aqui devo estar segura! Só espero que aqueles...humanoides, ou lá o que são...deixem de apontar aquelas coisas para mim. Também, posso mudar, se não estiver segura numa, existem outras por aí.
Sai das tocas, encontra-se com as gaivotas na areia, outras a sobrevoar. Olham-na de cima a baixo, desconfiadas.
- Ei, óh…tu...pássaro estranho! O que é que fazes aqui?
- Isso é maneira de falar comigo? Vocês também são pássaros! - diz a Garça
- Conheces-nos?
- Conheço, claro! São gaivotas.
- É! Somos. E tu, quem és?
- Sou uma Garça Real!
- Real? Sim, és tão real como nós…
- Europeia, porquê? Andaste a viajar muito pela Europa?
Desatam às gargalhadas
- Não estou a falar disso, estou a dizer que o meu nome, a minha espécie, é Garça Real Europeia.
- Áh! - dizem as gaivotas
- Nunca te vimos por aqui. - comenta a gaivota
- É. Eu nunca andei por aqui, mas gostei desta praia.
- E o que vens fazer aqui?
- Vim passear, e estou à procura de um espaço seguro para os meus ovos! Esta praia é segura para isso?
- Sim! - dizem as gaivotas
- Há boa comida, quer dizer, depende do que comes...se comes coisas de príncipes, como és Real, deves ser da Realeza, com suas altezas...(gargalhada geral) desculpa desiludir-te, mas isso não vais encontrar! - comenta uma gaivota com ar de gozo
- Nós temos bocas de pobres! É bom para nós. - diz outra
- Hoje estais inspiradas. - comenta outra gaivota e todas riem à gargalhada
- Eu tenho bico de pobre, também. - responde a Garça
- Aqui safas-te! - diz outra
- Tens por aí muitas grutas e tocas para esconderes os teus ovos.
- E aqueles seres que nos apontam coisas, não vão lá?
- Podem ir, mas se os puseres num sítio mais escondido, ou se estiveres por perto, não há perigo. - explica uma gaivota
- Boa! Muito obrigada. - diz a Garça
- Vemo-nos por aí! - diz a gaivota
As gaivotas ficam a rir e a comentar, a Garça levanta voo e vê mais algumas grutas. Entre tantas que viu, entrou numa, onde no início sentiu um bocadinho de medo, ouviu uma voz doce, e uma luz diferente muito bonita:
- Olá! Podes entrar, é segura.
A Garça entra um pouco intrigada e assustada. Vê uma mulher lindíssima, com uns olhos em tons de azul e verde, como o mar, brilhantes, longos cabelos feitos de búzios, metade do corpo era humano, e outra metade, com cauda de peixe muito colorida, escamas.
- Viva! Uma Garça Real, que linda! Coisa Rara,
- É?! É raro?
- É!
- Obrigada. Também és muito bonita! Um ser diferente.
- Sim.
- Estou à procura de uma gruta onde guardar os meus ovos! Gostei desta praia.
- Sim, é uma boa praia, segura, podes deixar os teus ovos aqui, que eu tomo conta deles, quando precisares de sair.
- A sério? E não te importas?
- Não! Terei muito gosto. Comigo, estão seguros.
- Que bom! Nem sei como te agradecer.
- Onde estão os teus ovos?
- Vou pô-los.
- Fica à vontade! Põe-nos ali.
- Está bem!
A Garça Real conversa alegremente com o ser desconhecido, enquanto põe os seus ovos. As duas tornaram-se grandes amigas, e a Garça põe os seus ovos num sítio bem seguro.
Quando precisa de sair para comer, a amiga fica a tomar conta, quando volta, vai ela, buscar comida. Os ovos nunca ficam sozinhos. Chega o momento das pequeninas Garças Reais saírem dos ovos. Começam a estalar as cascas, e aparecem as cabecinhas.
As duas ficam maravilhadas, sorriem, acariciam e alimentam os bebés, orgulhosas e felizes. Realmente, a Garça encontrou um sítio seguro para os seus ovos, uma amiga que ninguém via, e ajudava a cuidar das bebés.
As gaivotas continuam a gozar a Garça, e a rir dela, mas ela ignora. Passeia pela praia, com as pequenitas quando estas crescem, e a amiga vai com ela, nas horas em que a praia está vazia.
As gaivotas não faziam ideia que a Garça tinha guardado os seus ovos naquele sítio, tão seguro. Soltam grandes exclamações quando a veem a passar com as filhotas e a amiga.
Nem os humanos que visitavam a praia, sabiam que existia lá uma Garça Real, com bebés, e um ser metade humano, metade peixe. Alguns tentavam seguir a Garça, fotografavam-na, e queriam saber onde estava para ver as bebés, ou roubar os ovos, e vendê-los, ou cozinhá-los, mas ela desaparecia com as crias antes de a verem.
As bebés adoravam aquele espaço, cresceram, aprenderam a escolher as comidas, e a proteger-se dos humanos, a passear em segurança.
FIM
Lara Rocha
(22/Setembro/2026)
E vocês? Como imaginam o refúgio da Garça? E a amiga dela?
Podem deixar nos comentários, ou desenhar.

