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terça-feira, 22 de setembro de 2026

O esconderijo da Garça Real

 

 Garça Real Europeia 
foto tirada por Lara Rocha (2026) 


        Era uma vez uma praia cheia de gente, com água do mar calma, e baixa, cheia de possecas, e rochas gigantes à mostra. Uma Garça Real Europeia sobrevoa a praia, algo que nunca tinha acontecido antes. Só estavam habituados a ver gaivotas e passarinhos pequeninos. 
      Todas as pessoas da praia olharam para a Garça Real Europeia, fotografaram, filmaram, seguiram os voos dela, próximo do mar. Pousa numa rocha, observa a água, a praia, e murmura: 
- Porque é que está tudo com aquelas coisas viradas para mim e a seguir tudo o que eu faço, como se fossem os donos da praia? 
     Mete a pata na água: 
- Gosto desta água! É limpa, e com uma temperatura agradável! Cheira bem! Tem algas que parecem suculentas. 
     Põe as patas na areia molhada, e na areia seca: 
- Gosto destas areias! 
     Levanta voo outra vez, pousa na areia, observa atentamente todo o espaço e cada rocha gigante. Espreita uma por uma, caminha dentro das grutas, olha para os tetos, para os buracos das paredes das rochas. 
- Hummm…Gosto! Aqui devo estar segura! Só espero que aqueles...humanoides, ou lá o que são...deixem de apontar aquelas coisas para mim. Também, posso mudar, se não estiver segura numa, existem outras por aí. 
     Sai das tocas, encontra-se com as gaivotas na areia, outras a sobrevoar. Olham-na de cima a baixo, desconfiadas. 
- Ei, óh…tu...pássaro estranho! O que é que fazes aqui? 
- Isso é maneira de falar comigo? Vocês também são pássaros! - diz a Garça 
- Conheces-nos?
- Conheço, claro! São gaivotas. 
- É! Somos. E tu, quem és? 
- Sou uma Garça Real! 
- Real? Sim, és tão real como nós… 
- Europeia, porquê? Andaste a viajar muito pela Europa? 
     Desatam às gargalhadas 
- Não estou a falar disso, estou a dizer que o meu nome, a minha espécie, é Garça Real Europeia.  
- Áh! - dizem as gaivotas 
- Nunca te vimos por aqui. - comenta a gaivota 
- É. Eu nunca andei por aqui, mas gostei desta praia. 
- E o que vens fazer aqui? 
- Vim passear, e estou à procura de um espaço seguro para os meus ovos! Esta praia é segura para isso? 
- Sim! - dizem as gaivotas 
- Há boa comida, quer dizer, depende do que comes...se comes coisas de príncipes, como és Real, deves ser da Realeza, com suas altezas...(gargalhada geral) desculpa desiludir-te, mas isso não vais encontrar! - comenta uma gaivota com ar de gozo 
- Nós temos bocas de pobres! É bom para nós. - diz outra 
- Hoje estais inspiradas. - comenta outra gaivota e todas riem à gargalhada 
- Eu tenho bico de pobre, também. - responde a Garça 
- Aqui safas-te! - diz outra 
- Tens por aí muitas grutas e tocas para esconderes os teus ovos. 
- E aqueles seres que nos apontam coisas, não vão lá? 
- Podem ir, mas se os puseres num sítio mais escondido, ou se estiveres por perto, não há perigo. - explica uma gaivota 
- Boa! Muito obrigada. - diz a Garça 
- Vemo-nos por aí! - diz a gaivota 
    As gaivotas ficam a rir e a comentar, a Garça levanta voo e vê mais algumas grutas. Entre tantas que viu, entrou numa, onde no início sentiu um bocadinho de medo, ouviu uma voz doce, e uma luz diferente muito bonita: 
- Olá! Podes entrar, é segura. 
     A Garça entra um pouco intrigada e assustada. Vê uma mulher lindíssima, com uns olhos em tons de azul e verde, como o mar, brilhantes, longos cabelos feitos de búzios, metade do corpo era humano, e outra metade, com cauda de peixe muito colorida, escamas. 
- Viva! Uma Garça Real, que linda! Coisa Rara, 
- É?! É raro? 
- É! 
- Obrigada. Também és muito bonita! Um ser diferente. 
- Sim. 
- Estou à procura de uma gruta onde guardar os meus ovos! Gostei desta praia.
- Sim, é uma boa praia, segura, podes deixar os teus ovos aqui, que eu tomo conta deles, quando precisares de sair. 
- A sério? E não te importas? 
- Não! Terei muito gosto. Comigo, estão seguros. 
- Que bom! Nem sei como te agradecer. 
- Onde estão os teus ovos? 
- Vou pô-los. 
- Fica à vontade! Põe-nos ali. 
- Está bem! 
     A Garça Real conversa alegremente com o ser desconhecido, enquanto põe os seus ovos. As duas tornaram-se grandes amigas, e a Garça põe os seus ovos num sítio bem seguro. 
    Quando precisa de sair para comer, a amiga fica a tomar conta, quando volta, vai ela, buscar comida. Os ovos nunca ficam sozinhos. Chega o momento das pequeninas Garças Reais saírem dos ovos. Começam a estalar as cascas, e aparecem as cabecinhas. 
    As duas ficam maravilhadas, sorriem, acariciam e alimentam os bebés, orgulhosas e felizes. Realmente, a Garça encontrou um sítio seguro para os seus ovos, uma amiga que ninguém via, e ajudava a cuidar das bebés. 
    As gaivotas continuam a gozar a Garça, e a rir dela, mas ela ignora. Passeia pela praia, com as pequenitas quando estas crescem, e a amiga vai com ela, nas horas em que a praia está vazia. 
    As gaivotas não faziam ideia que a Garça tinha guardado os seus ovos naquele sítio, tão seguro. Soltam grandes exclamações quando a veem a passar com as filhotas e a amiga. 
    Nem os humanos que visitavam a praia, sabiam que existia lá uma Garça Real, com bebés, e um ser metade humano, metade peixe. Alguns tentavam seguir a Garça, fotografavam-na, e queriam saber onde estava para ver as bebés, ou roubar os ovos, e vendê-los, ou cozinhá-los, mas ela desaparecia com as crias antes de a verem. 
    As bebés adoravam aquele espaço, cresceram, aprenderam a escolher as comidas, e a proteger-se dos humanos, a passear em segurança. 

                                                    FIM 
                                              Lara Rocha 
                                         (22/Setembro/2026) 

E vocês? Como imaginam o refúgio da Garça? E a amiga dela? 
Podem deixar nos comentários, ou desenhar.

foto tirada por Lara Rocha (Setembro, 2026)