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segunda-feira, 13 de maio de 2024

Todas as lágrimas

TODAS AS LÁGRIMAS

Se eu juntasse todas as lágrimas

que chorei por ti,

poderia agora matar a sede

aos povos, 

aos animais 

e aos vegetais

que sofrem 

por não a ter em abundância.

Sim! Essas mesmas.

As lágrimas que caíram dos meus olhos

sempre que nos separávamos

enquanto trabalhaste fora

e ficávamos ou mês ou dois

sem que os nossos corpos se sentissem.

Era triste e duro

mas só no primeiro momento

porque depois

os nossos olhos tocavam-se

sempre que falávamos

no computador

e no telefone,

no telemóvel

mas não era a mesma coisa.

Era o possível.

Dava-me força para suportar a distância,

o teu argumento melodioso,

de que estavas a trabalhar para nós,

para construir o nosso futuro…

Sim, era o que estávamos a planear,

quando eu e tu,

éramos um só!

Mas de repente, os sonhos…

desprenderam-se

e perderam-se no Universo!

Quando o nós,

se dividiu em eu...e tu,

despedaçando-se como cometas

quando tu escolheste apagar o amor que nos unia

e que dizias sentir por mim.

Eu, como te amava,

na minha inocência, acreditava que sentias o mesmo.

Mas será que alguma vez sentiste mesmo isso?

Será que sabias mesmo

o que é o amor?

Então, porque acabou?

Se fosse amor como dizias…

Não tinha acabado!

Porque o amor não tem tempo para acabar!

Não é um produto com data de validade!

Porque o amor não acaba!

Nem se deixa adormecer por outra,

nem põe prazo limite de duração da relação!

O amor não se alimenta de chantagens,

Nem de pressões!

O amor espera,

E sabe esperar.

Tu é que quiseste assim!

Espero que estejas muito feliz agora! 

Lara Rocha 

21/3/2014 





domingo, 12 de maio de 2024

Cidade Romântica

Porto! 

Cidade apaixonante,

Fresca, 

Luminosa,

Cidade dos apaixonados!

És um paraíso

Encontrado apenas por alguns,

Os que veem com a alma.

As tuas águas calmas,

Embalam as almas.

Enfeitiças quem passa por ti

E te sorri!

Com toda a tua beleza.

A força das tuas águas,

Que às vezes parece

Que carregas toda a tristeza das pessoas,

Suportas toda a raiva…

Tens a força de um furacão.

Quando as ondas da Foz

Passam todas as barreiras, 

Um espetáculo

Arrepiantemente belo,

Assustador…!

Assim ficam os pensamentos

De uma alma sozinha.

Parece que…

Tens vida,

 Tens alma,

Tens olhar…

És mistério, 

És uma pérola

Que esconde mil segredos,

Infinitas belezas,

Que dá vontade de descobrir,

Tocar,

Cheirar,

Embalar,

Absorver,

Ingerir,

Inspirar

E respirar

Todo a cidade!

És…

Provocação,

Tentação…

És história a cada recanto…

És…

Romance…

Paixão,

Sedução,

Refúgio,

Guardas em ti,

gritos silenciosos, 

e guinchos das gaivotas esfomeadas. 

És embalo, colo, carinho, 

Porto de repouso, 

Para os teus barquinhos,

Que te acariciam

Nem o vento te resiste! 

Adora acordar as tuas águas serenas, 

Como se estivesse a respirar

Tens ondas de prata, 

quando as nuvens se veem ao espelho

E ondas de ouro, 

quando o sol ilumina 

toda a cidade

e as tuas águas. 

És sonho,

Fantasia,

Ilusão,

Realidade

És colo, 

braços, 

abraços, 

para quem te vê. 

Embalas com carinho 

os poetas, 

pintores, 

escritores, 

fotógrafos

que 

Sonham, sonham, sonham…

E fabricam sonhos,

Para quem sabe sonhar,

E quem se deixa tocar…

A tua brisa de mar,

Penetra as peles e sussurra aos corações…

És calmante,

Com o doce gemido das águas,

Ao sentir…

A tua brisa suave, ou forte,

Ao ver…

As danças sensuais

Das águas e dos barcos,

O brilho das estrelas

Nas tuas águas,

O reflexo da Lua

A ver-se ao espelho

É mágico…

Tudo se transforma em nós,

Enfeitiças.

Ao ver-te da janela do quarto…

Ou nas janelas dos nossos olhos,

Ou no quarto da nossa lembrança,

Ou estando na tua presença…

Diante de ti…

Grandioso…

Sentimo-nos minúsculos

Mas fortes…

E num autêntico paraíso.

Porto, Porto…

Minha inspiração poética…

Lara Rocha 

21/3/2014

quinta-feira, 2 de maio de 2024

A orquestra separada

 Era uma vez uma orquestra que estava toda separada, os instrumentos escondidos em sítios diferentes, e os tocadores andavam à sua procura. 

Depois de tanto procurar, encontram nos lugares que nunca tinham imaginado! 

A viola dentro de uma cartola, 

A bateria numa vacaria, 

O trombone a falar ao telefone, metido numa gaiola, 

A flauta juntamente com uma pauta, dentro de uma gruta, a ensaiar para fazer um sainete. 

O tambor arrumado no armazém de um lavrador, 

As baquetas e os ferrinhos, estavam numas gavetas de um móvel à porta de uma carrinha.

O cavaquinho enrolado com um fio nas costas de um cabritinho saltitão, 

As guitarras penduradas nas garras de uma águia, 

O clarinete a preencher um grande alfinete com um girassol para oferecer à sua amiga que fazia anos no dia a seguir. 

A pandeireta refastelada numa cadeira de palheta, que estava a experimentar um capacete 

A corneta a brincar com uma caneta, e a riscar uma parede 

O trompete a dançar com uma carpete 

A tuba a enfeitar a juba de um leão, 

O saxofone a experimentar um megafone, e a gritar alegremente com um xilofone, numa toca de morcegos 

O violino armado em dançarino com uma bela fada do jardim

O violoncelo a fazer uma corrida de carros de brincar, com um menino chamado Marcelo, 

O piano a limpar as suas teclas com um pano, e o oboé numa conversa muito animada com um bebé 

A harmónica, no bolso do vestido de uma menina chamada Mónica

Os pratos a servir de diversão para patos e gatos que rodopiavam, e deslizavam sobre eles, ouvindo o seu som, e a rir à gargalhada

O fagote escondido num pacote, um adufe a dormir num pufe. 

Os músicos acham que estão a sonhar, porque nunca viram os instrumentos todos espalhados e nos lugares menos esperados. 

Recolhem todos os instrumentos, metem-nos na carrinha e vão para a cidade atuar. 

Que grande espetáculo! A praça cheia de pessoas, a ouvir muito atentas, encantadas, embaladas pelos diferentes instrumentos, soltam gargalhadas, palmas, suspiros, e fotografam. 

Quais as palavras que rimam? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :) 

                                      FIM 

                                Lara Rocha 

                               (2/Maio/2024) 

quinta-feira, 25 de abril de 2024

As flores que subiam e desciam as escadas

foto de Lara Rocha 

                                Era uma vez umas flores muito irrequietas.   Estavam contrariadas numa casa onde não recebiam atenção, e sentiam-se tristes porque não reparavam nelas. 

    Além disso, não as regavam, nem falavam com elas, estavam num vaso com outras flores que já estavam habituadas. Como ficavam nervosas, saiam dos vasos, subiam e desciam as escadas da casa, centenas de vezes por dia, e de noite. 

    Não gostavam de nenhum vaso, tentavam fugir, mas não conheciam o sítio onde estavam, por isso também não sabiam para onde ir. 

    As outras flores riam à gargalhada ao vê-las subir e
descer as escadas da casa, voltar para o vaso, recuperavam o fôlego, voltavam a sair do vaso, subiam e desciam as escadas. 

    Um dia, uma outra flor, cansada de ver toda aquela agitação de subir e descer as escadas da casa, perguntou porque faziam isso. 

    Elas não sabiam explicar. Perguntou se elas gostavam de estar ali. Responderam que não. E se sentiam nervosas, elas disseram que sim. Era por isso que subiam e desciam as escadas da casa, centenas de vezes por dia e de noite. 

    Perguntou porque não gostavam de estar ali, e porque estavam sempre nervosas. Elas responderam que não recebiam atenção, ninguém reparava nelas, nem cuidava delas. 

    O subir e o descer as escadas ajudava-as a acalmar a tristeza e a raiva, mesmo que elas não soubessem, mas ficavam cansadas. 

    A outra flor, compreendeu a tristeza delas, e perguntou se pensavam fugir. Disseram que sim, mas não conheciam o sítio, por isso não sabiam para onde. 

    A flor teve uma ideia: 

- Vou levar-vos a conhecer outros sítios, mas prometem que não fogem? 

- Prometemos! 

    A flor sai com elas, mostra-lhes um jardim lindíssimo, da casa, muito bem tratado, cheio de flores, com a relva muito verde, bem aparada, onde viram o sol nascer. Nunca tinham visto, ficaram encantadas. 

- Áh! Que coisa linda. Já tinhas visto? - perguntou uma das flores 

- Sim, vejo praticamente todos os dias. 

- Aqui neste jardim? - pergunta outra 

- Sim, outras vezes, vejo o sol já quase no nosso vaso. 

- Que lindo que é! - suspira outra flor 

- Olhem agora o jardim ao amanhecer! 

- Ainda é mais bonito! - diz uma das flores 

- Uau! Aquela relva, parece dourada…

- E as flores, que lindas! Cada cor mais bonita que a outra. 

- Porque é que elas são tão bem tratadas, e nós somos esquecidas? 

- Porque nós somos flores bravas, livres, silvestres, independentes, podemos andar por aí, por onde quisermos, mudar de lugares. Viver nos campos, nas bermas das estradas, no meio de outras flores, em vasos, entrar e sair quando queremos, que os donos da casa nem reparam. Estas são de jardim, podem parecer maus sortudas, mas não são. Não são tão livres como nós! Precisam de cuidados, dedicação, rega, poda, troca de terra e muitas outras coisas, para ficarem assim tão lindas. Se saem deste pedacinho de terra não duram muito tempo, e nós podemos pegar, resistir noutros sítios, se nos tirarem dali.  

    Faz-se silêncio. As flores que subiam e desciam as escadas não sabiam que eram flores bravas, nasciam espontaneamente, por sementes largadas pelos passarinhos.       Já eram regadas com a chuva, e com a rega dos campos à volta, apanhavam sol, cresciam, não precisavam de cuidados. 

- Mas...então o que estamos aqui a fazer? - pergunta outra flor 

- Estão a fazer-nos companhia. 

- Devíamos estar nos campos, não era? Ou nas bermas das estradas…!

- Podemos estar em qualquer lado. 

- Gostas de estar aqui? E as tuas amigas, naquele vaso? 

- Sim. 

- Mostra-nos mais deste sítio. 

- Venham! 

    A flor mostra um tanque, uma fonte com uma estátua, o céu azul, as árvores, os passarinhos a cantar, os cães a ladrar, o vento, as pessoas da casa a falar, e a andar de um lado para o outro. Casas à volta, casas em frente, tudo era novo para elas.

- Então…? Ainda querem mudar de sítio? 

- Ahhh...acho que não. 

- Podemos vir aqui sempre que quisermos, certo? 

- A este jardim? 

- Sim. 

- Claro que sim, em vez de andarem  a subir e a descer as escadas da casa, centenas de vezes. 

    Todas riem.

- Mais daqui a bocado, levo-vos a ver lá fora. 

- Está bem! 

- Agora vamos descansar um bocadinho, pode ser? 

- Pode. 

- Obrigada por tanta coisa bonita que nos mostraste.

- De nada! 

    As flores descansam no grande vaso, as outras já não sobem e descem as escadas centenas de vezes, e passado algum tempo, depois de descansarem, vão ver mais coisas bonitas fora de casa. Voltam para o vaso, quase como se estivessem hipnotizadas, com tanta coisa bonita que viram. 

    Desde esse dia, deixaram de subir e descer escadas, compreenderam que eram diferentes, mas não deixavam de ser flores, livres. 

    Podiam andar por onde queriam, entrar e sair do vaso sempre que lhes apetecesse e passear por lugares diferentes, tendo sempre ali o seu recanto para descansar, que os donos da casa nem reparavam se elas estavam ou não. 

    Isso deixou-as muito felizes, e tornaram-se grandes amigas das outras, com quem saiam, conheciam novos lugares, novos campos, novos jardins que espreitavam e passavam um dia ou uma noite, sem serem vistas, para apreciar as coisas bonitas. 

                                        FIM 

                                   Lara Rocha

                                   25/Abril/2024  

Será que as rosas e outras flores bonitas, gostavam de estar sempre naquele sítio? 

E se elas pudessem ser mais livres, acham que as flores bonitas, ficaram sempre nos jardins? 

Se pudessem sair, onde acham que iriam? 

O que veriam? 

Podem deixar nos comentários, se quiserem :I 


domingo, 21 de abril de 2024

De que são feitas as pastas, capas e mochilas?

 


    De que são feitas as capas, pastas e mochilas que usamos nas escolas, desde o primeiro ano? Se as capas, pastas e mochilas tivessem memória e falassem, elas diriam que são feitas de muitas coisas! 

    De certeza que se lembrariam do primeiro dia em que foram usadas por nós, diriam que guardavam os nossos medo: o choro de muitos, pelo medo do desconhecido, o medo das mudanças que íamos enfrentar, o medo do ou da professora, o medo dos coleguinhas ou de mesmo sem sabermos, não termos amiguinhos, porque éramos envergonhados, ou porque tínhamos alguma coisa diferente, por isso iam pôr-nos de lado.  

    Lembrariam  das nossas lágrimas, ou do que o nosso corpo libertava mais, com o medo, não queríamos crescer, gostávamos tanto da infância, e sabíamos que ia ser diferente.  

    Lembrariam da quantidade de livros, cadernos, lápis, canetas, marcadores, tesouras, réguas, colas, e outro material que íamos utilizar. Ansiosos por estrear e utilizar aquilo tudo. 

    Recordariam as primeiras letras que aprendemos, as imagens, os exercícios, os gritos e ralhetes dos professores, quando errávamos, ou quando algum menino se comportava mal, o medo de fazer mal, misturado com a curiosidade e a ansiedade de saber fazer. 

    Falariam nos trabalhos de casa, que não era a nossa tarefa preferida, e da nossa tristeza por muitas vezes, esses trabalhos serem a nossa prisão, que nos impedia de brincar. 

    Saberiam certamente, do nosso entusiamo quando começamos a juntar as letrinhas e a ler as primeiras palavras, a ver livros de histórias fantásticas, a folhear livros, mesmo sem saber ler, nem escrever, e inventar as nossas próprias histórias. 

    Deveriam rir à gargalhada! E daquelas crianças mais sensíveis, que choravam porque faziam mal, ou porque ficavam de castigo no intervalo, as que eram mais lentas e a professora ou professor pressionava para se despacharem, mas o medo de errar era demasiado. 

    Além de levar livros, folhas, cadernos, lápis e outros materiais, as pastas, capas e mochilas que começavam a ficar cheias, também levavam lanchinhos que comíamos a meio da manhã, num saquinho de pano, ou de tarde. Um consolo para o stresse que sentíamos muitas vezes, e medo. 

    Se elas se lembrassem e falassem, também poderiam incluir dentro delas, a nossa vontade de sair dali para fora, da alegria que era às sextas feiras, e aos fins de semana em que não tínhamos trabalhos de casa, e podíamos brincar.

    Mas não esqueceriam por vezes, o nosso medo, quando os pais vigiavam os cadernos, e livros para ver se não tínhamos trabalho de casa ou se não havia recados dos professores. 

    De certeza que não se esqueciam dos trabalhos fracos, ou mal feitos, cheios de erros, notas baixas, que nos faziam chorar, ter medo, e perder a vontade (já pouca para muitos). 

    Às vezes, as pastas, capas  e mochilas, estavam cheias de testes negativos que escondíamos, por vergonha e medo dos ralhetes. Mas essas mesmas pastas conteriam também as lembranças de brincadeiras com meninas mais próximas. 

    No recreio, os jogos coletivos, os diálogos com os professores, as queixinhas psicossomáticas, as atividades livres, os desenhos que mal ou bem, fazíamos.  Os comentários humilhantes de alguns professores, a sua falta de incentivo, a desvalorização dos pequenos passos  e conquistas, a ansiedade e o medo de falhar nos testes, que acabavam mesmo por fazer falhar.

    Lembrariam os testes negativos, que nos faziam corar de vergonha, chorar, ter reações nervosas, escondíamos ou omitíamos, tristes, mas os nossos pais encontravam e ficavam zangados, ralhavam. 

    Perdíamos a vontade de estudar, mas éramos obrigados a fazê-lo, sob pressão, contrariados, queríamos era brincar. Essas pastas, capas e mochilas, lembrariam com certeza dos amiguinhos que muitos chamavam de namoradinhos, namoradinhas, os melhores amigos, as tardes nas casas uns dos outros para brincar, a alegria que esses momentos nos traziam. 

    Arquivariam com certeza, as primeiras paixões, os amores não correspondidos, e os correspondidos, os namoricos às escondidas, de curta duração, e o «fim do mundo» que enfrentávamos quando terminavam, mas não dizíamos nada aos nossos pais. 

     As pastas lembrariam as regras demasiado duras, nas aulas, mas hoje, algumas fariam falta, porque havia respeito, mesmo à base do medo. E em casa, ainda mais. 

    Lembrariam as festinhas de fim de ano letivo ou épocas festivas na escola, a nossa vergonha ou vaidade, o nosso orgulho, o nosso nervoso disfarçado, as nossas  amizades, desilusões. 

    As fofoquices, os grupinhos que rapidamente se desfaziam, e construíam com novos elementos, o «veneno» e os ciúmes de muitas meninas, a inveja, as fantasias com os ídolos. 

    As trocas de papéis e bilhetinhos nas aulas, os jogos mais lúdicos, a vergonha nas aulas de Educação Física, a vergonha quando tínhamos de responder em voz alta, ou responder, e quando respondíamos errado, os risinhos dos sabichões, da turma toda. 

    As pastas, capas a mochilas, não esqueceriam o que aconteceu de melhor e de pior em cada ano de estudo que as usamos. Agora, que somos adultos, quando olhamos para as pastas, capas e mochilas, ainda cheias de material, pó, humidade, de estarem guardadas, é como víssemos escritas todas essas memórias, boas e más, além do material. 

    Não podemos guardar tudo, então, rasgamos papel que já não precisamos, e temos de deitar algumas capas fora porque se estragaram com o tempo, mas as lembranças, parece que as vemos lá escritas, as boas e as más, todas as que as preencheram. 

    Eram pastas, capas e mochilas, que contavam muitas histórias, eram feitas de muitas lembranças, umas que nos fazem rir, outras, nem tanto, e outras quase nos fazem chorar. 

     Só não chorámos porque já passou, fez parte do passado, e agora que somos adultos, percebemos que fomos aprendendo a não lhes dar tanto valor, aprendemos com algumas menos boas, a tornarmo-nos mais fortes, com outras a não suportar determinadas disciplinas, e a adorar outras. 

      Eram pastas, capas e mochilas cheias de sonhos para o futuro, dúvidas, fantasias, medos, incertezas, ansiedades, inseguranças, raivas, desilusões, frustrações, insónias. 

      A ideia ilusória da perfeição e de que tínhamos de ser os melhores, as competições com os outros, o terror antes dos testes e exames, a pressão que impúnhamos a nós mesmos, até prejudicarmos a saúde física  e mental. 

      O sentido de responsabilidade, os trabalhos de grupo, os colegas, os bons professores, outros, queremos esquecer, mas marcaram-nos pela «negativa». A rejeição, a baixa auto-estima pelos amores não correspondidos, e pelas notas baixas, ou auto-estima elevada para os que tinham notas excelentes e amores correspondidos. 

      O medo do fracasso, o medo de desiludir, o ser posto de lado porque se era diferente e não se seguia a maioria. As pastas, capas e mochilas, teriam muito para contar, mas tudo fica na nossa memória, ativada por elas, e fazem-nos viajar, recuar no tempo, e reviver o que parecia esquecido.

      Elas são feitas de pedaços daquilo que já fomos, e não somos mais. Outras, contêm sombras do que fomos e continuamos a ser, outras, restos daquilo que gostaríamos de ter sido. 

        Elas são feitas de uma criança, uma adolescente e uma adulta, com todas as transformações que sofremos em cada etapa, de que elas fizeram parte, connosco. 

                                                        FIM 

                                                  Lara Rocha

                                                  21/Abril/2024  

      E as vossas pastas, capas e mochilas? De que eram feitas? Eram parecidas com estas? Se quiserem podem deixar nos comentários. 

            

A obsessão do rapaz pianista



 Era uma vez um rapaz que estudava e tocava piano, e outros instrumentos. Era todo virado para a música, adorava o que aprendia de novo, e ensaiava horas, dias, até sair perfeito. 

Os pais sentiam um orgulho enorme, não lhe diziam diretamente, mas o próprio sentia que tinha de ser perfeito, o melhor, para que continuassem a gostar dele. 

O rapaz achava que se falhasse, os pais e todos os que o ouviam, deixariam de gostar dele, e sentiria uma enorme vergonha. 

Muitas vezes, os familiares e amigos convidavam-no para sair, distrair-se, brincar, fazer outras coisas. Umas vezes aceitava, mas os comportamentos dele, era de mexer os dedos como se estivesse a tocar piano, abanar a cabeça, e as mãos, imaginar que estava a tocar violino, enquanto conversava. 

Outras vezes, não aceitava porque tinha de ensaiar, tinha falhado uma nota, e gritava nervoso, frustrado, tinha crises de choro e ansiedade. Tremia como uma vara verde. 

Quando os pais lhe perguntavam o que tinha acontecido, gritava que tinha errado uma nota musical. 

Os pais diziam que aquele comportamento era um exagero, toda a gente falha, até os grandes músicos falharam, os artistas erram muitas vezes, mesmo assim, as palavras dos pais, acalmavam-no por pouco tempo. 

Mandavam-no parar, e fazer coisas diferentes, mas estava sempre ansioso por voltar a casa para estudar, tocar os instrumentos. 

De noite, acordava muitas vezes aos gritos, a transpirar, com o coração a bater muito rápido, falta de ar, ou a chorar. 

Os pais iam ver, e ele dizia que tinha tido um pesadelo, que tinha errado aquela nota, ou que estava num espetáculo e tinha-se esquecido da pauta toda, bloqueava. 

Os pais começaram a ficar preocupados com aquela obsessão do filho, porque só estava voltado para a música, demasiado centrado nos instrumentos musicais, no estudo da música, e andava com muitos comportamentos ansiosos, pesadelos constantes. 

Numa das grandes crises de ansiedade, em que os pais tiveram de o levar ao hospital, porque estava fora de si, só gritava, chorava, dava murros no piano, pontapés na cama, ficaram seriamente preocupados. 

Depois de o examinar, o médico disse que o rapaz estava a sofrer de grandes níveis de stresse, andava muito nervoso, muito ansioso pela obsessão com a música, e não descansava. 

Um médico perguntou-lhe: 

- Oh rapaz, porque é que não fazes as coisas que todos os rapazes da tua idade fazem? 

- Não sei, nem me interessa saber o que os outros rapazes da minha idade fazem. Só quero a minha música, os meus instrumentos, as minhas pautas, não dar erros, acertar todas as notas musicais, tocar tudo e mais alguma coisa, sem nunca falhar. 

A mãe, grita, nervosa e cansada daquela obsessão: 

- Ou fazes o que o Dr. te disser, ou sais da música! Essa tua ideia fixa está a destruir a tua saúde, e a nossa também. É isso que tu queres? Dar cabo de ti e de nós? Um rapaz da tua idade, não tem essas ideias fixas. (faz-se silêncio) Desculpe, Dr. 

- Não se preocupe. A tua mãe tem razão! 

- Eu tenho de ser o melhor! - diz o rapaz 

- Quem é que te disse? - pergunta a mãe irritada 

- Eu! 

- Para quê? - pergunta o médico 

- Para os meus pais e amigos, familiares e professores, a escola toda, sentirem orgulho em mim. 

- O quê? - perguntam os pais 

- Vamos ter orgulho nessa tua ideia fixa…? - pergunta o pai 

- Alguma vez te dissemos que tinhas que ser o melhor, se não, não sentíamos orgulho em ti? - pergunta a mãe 

- Alguma vez exigimos que nunca errasses, que fizesses sempre tudo bem, que fosses o melhor, o perfeito…? Isso não existe! - pergunta o pai 

- Achas que queremos um filho famoso? Queremos é que sejas feliz, que tenhas sucesso, claro, mas não que chegues a este ponto. - acrescenta a mãe 

- É claro que nós sentimos orgulho em ti! - diz o pai 

- E vamos sentir orgulho em ti, mesmo a falhar, mesmo a dar erros, mas não é preciso estares sempre a ensaiar, quase a enlouquecer, só porque falhaste, ou te esqueceste de alguma coisa. 

- Não percebemos nada de música, só gostamos de ouvir, por isso para nós é igual, falhares, esqueceres-te, errares...O orgulho é igual - diz a mãe 

- Ainda tens tantos anos pela frente, rapaz! Eu e todos os meus colegas erramos centenas, milhares de vezes, gostamos do fazíamos, mas havia outras coisas tão ou mais importantes do que o estudo! Havia o convívio, as festas, as brincadeiras, as namoradas, os passeios, as tunas, não era só estudar, e queríamos que os nossos pais sentissem orgulho em nós. Sabíamos que sim! E eles nunca exigiram que fossemos os melhores, nem os perfeitos. Reprovamos muitas vezes, a muitas cadeiras, mas nunca nos recriminaram por isso, sabiam muito bem como era a vida de estudantes! Fazíamos de novo, mais tarde. E os teus pais também sabem! É claro que eles sentem muito orgulho em ti, com erros, com reprovações, que servem para aprenderes, com as tuas brincadeiras com os outros, sentem orgulho em ver-te com namoradas, feliz, a sair, a descansar. A vida não é só estudo, e perfeição. Nem obsessões em ser os melhores, ainda tens muito tempo para aprender, melhorar, evoluir, mas primeiro, sê criança, sê jovem, diverte-te, não estejas sempre em casa, sempre a estudar, sempre a tocar instrumentos. Também erras porque estás sempre a fazer o mesmo, sempre a tocar, sempre a insistir, ficas com raiva quando erras, claro, a tua cabeça não aguenta! Nem a tua, nem a de ninguém. Os teus pais eram iguais a mim, com certeza! E olha como eles agora são bons profissionais! - diz o médico

Os pais sorriem. 

- É verdade! - dizem os dois 

- E continuamos a errar, a falhar, a não saber tudo, mas vamos aprendendo, melhorando. - diz o pai 

- Claro. - confirma a mãe 

- E a nossa vida de estudantes, não era ficar fechados no quarto a estudar o dia todo. É claro que sim, também íamos a festas, convivíamos, saímos, brincávamos, fazíamos parte das tunas, reprovamos em muitos testes e exames, porque a vida de estudante não era só estudar. Como hás-de aguentar? Claro que não. - reforça o pai 

- E mesmo assim, vamos sentir muito orgulho em ti, também já fomos da tua idade, estudantes como tu. 

- Isso mesmo! Vou medicar-te, e vais prometer-me que vais mudar a tua vida, que vais ser um rapaz como os da tua idade, estudar e fazer outras coisas, sem estar o dia todo a estudar. Prometes que vais reprovar algumas vezes também, e que isso não significa que és mau, só significa que és jovem, que estás a aprender, e tens possibilidade de fazer bem, a seguir a um ensaio? Prometes que vais errar e falhar, como todos os da tua idade? Prometes que vais ter as tuas saídas e namoradas? Isso traz-te novas ideias, e saúde, nova inspiração. Para que queres ser o melhor, o perfeito? Ninguém é o melhor, ninguém é perfeito, fazemos bem umas coisas, outras nem tanto, mas somos todos assim! Para quê perseguir uma ideia que não existe? Uma realidade que não passa de ficção?  Isso não existe, só te destrói e até te afasta das pessoas, o que é muito mau! - pergunta o médico 

- Prometo! - diz o menino 

- É que se não prometeres, vens para aqui, e olha que aqui não é bom! - diz o médico 

- Está bem. 

O médico medica-o, agradecem, marcam encontro para passados uns tempos, e o menino quando regressa a casa, fica deitado, em silêncio, a pensar no que o médico tinha dito. 

Vai para o piano, começa a tocar, a fraquejar, até que adormece em cima das teclas. O pai pega nele ao colo, deita-o, cobre-o, e ele continua a dormir, com a persiana mais baixada.

O menino começou a tomar a medicação, e decidiu seguir as indicações do médico. Descansou uns dias, com passeios pela natureza, a apreciar coisas que nunca tinha visto, por estar só centrado na música. Começou a dar caminhadas com os pais, feliz, e quando voltava, ensaiava mais leve. 

Passou a sair com amigos, a ir a festas, muito mais calmo, ensaiava na mesma, mas intercalava com outras atividades, ria e brincava com os amigos. 

Como um rapaz da idade dele, teve amizades coloridas e namoricos, quando errava, voltava a ensaiar, mais calmo, ria de si próprio, e como estava mais inspirado, até criou novas letras de músicas, que compôs com a ajuda dos professores. 

Era um rapaz muito diferente do que estava obessecado em ser o melhor, em fazer tudo perfeito, porque ficou a saber que os pais sentiam muito orgulho nele, mesmo com o que ele achava imperfeito ou errado. 

Deixou de ter pesadelos, e tanta ansiedade, deixou de ser obessecado pela perfeição, sempre com o apoio dos pais, dos amigos, dos professores, e do médico que o acompanhava constantemente, também muito feliz pela mudança. 

O rapaz partilhava com o médico as coisas novas que fazia, e o médico elogiava-o, incentivava-o a continuar, mas com regra, sem pressão, e na brincadeira. 


                                                FIM 

                                           Lara Rocha 

                                          (20/Abril/2024) 


Qual é, (ou quais são as vossas) obsessões? 

Como é que elas vos fizeram ou ainda fazem sentir? 

Como lidam com elas? 

Se quiserem, podem deixar nos comentários.