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terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Socorro...eles querem entrar

 


        























       Era uma vez uma menina chamada Gágá, que vivia na cidade, com os pais. Às vezes os pais não deixavam as janelas totalmente fechadas até se deitarem, para a Gágá não ter medo, e fechavam silenciosamente quando ela estava mesmo a dormir. 

   Quando o João Pestana se enganava no saquinho, ou queria brincar, ter companhia, em vez de pó de soninho com bons sonhos, soltava pó de soninho com pesadelos. 

     Nessas noites, a Gágá e muitos outros meninos tinham pesadelos, em vez de bons sonhos. Acordava aos gritos, aos pontapés, aos murros, a chorar e a gritar, com o coração aos saltos, e a soar, parecia que nem conseguia respirar. Gritava pelos pais. 

   Que alívio quando os pais iam ao quarto assutados com os barulhos da Gágá e acendiam a luz! Perguntavam-lhe o que se passavam, mas ela, umas vezes não sabia dizer, outras vezes lembrava-se que era um mau sonho, e contava todos os pormenores. 

        A mãe respondia-lhe: 

- Foi o João Pestana que se enganou no saquinho! 

- Tu viste, mamã? 

- Não, mas já sei que isso às vezes acontece! Ele às vezes também fazia isso comigo, quando eu era da tua idade, diz a tua Avó, não me lembro. 

- Eu não gosto que ele se engane no saquinho. Da próxima vez vou ralhar com ele! Eu não sabia que ele tinha dois saquinhos de soninho diferentes. - diz Gágá 

- Não! Tem o saquinho do sono com sonhos bons, e tem o saquinho do sono com sonhos maus. - diz a mãe 

- E porque é que ele manda soninho com sonhos maus? Isso não se faz. 

- Para os adultos também manda os dois tipos de soninho. 

- Ai é? 

- É. 

     Como não conseguia voltar a adormecer, os pais levavam-na para a sua cama e quando adormecia voltavam a pô-la na sua cama. Os pais sabiam que eram pesadelos, dos medos que a filha sentia, comuns a todas as crianças da mesma idade. 

    À medida que foi crescendo, os pais mostravam-lhe que estava no quarto dela, na cama dela, e que era tudo da sua imaginação. Os sonhos bons e os sonhos maus eram como se fossem as histórias que ele ouve, no colégio e em casa, mas estas são contadas pela cabecinha dela, e não por educadoras, pelos pais, e pelos avós. 

    Garantiam-lhe que estava tudo bem, que não havia nada no quarto além dela, do boneco com quem dormia. e dos móveis com os brinquedos, livros, cadeira, mesa. 

- Tens a certeza? - perguntava a Gágá 

- Absoluta! - confirmava a mãe 

- Fecha os olhinhos, agora vais ter sonhos bons! - diz o pai 

- É! O pai já mandou mensagem ao João Pestana para ele trazer pozinho com sonhos bons. 

- Ai foi? Tu viste-o, Papá? 

- Não, mas eu tenho o número de telemóvel dele, e às vezes ligo-lhe, quando ele se atrasa a mandar o saquinho do pozinho. 

- Áh! Ele também vos manda saquinhos de sono? 

- Claro! - dizem os pais 

- Vá! Deita-te outra vez e dorme! Vais ver que agora o teu sonho vai ser mágico. 

- Está bem! - diz a Gágá, convencido com o que os pais lhe disseram, e mais sossegada. 

   Beijam-na, abraçam-na e ela volta a dormir sossegada. A Gágá tinha medo do escuro, mas foi perdendo esse medo quando os pais lhe diziam isso, e quando brincaram com ela ao claro e ao escuro, ao silêncio e ao barulho, para ela conhecer os barulhos típicos que existiam no quarto e na rua. 

    A própria Gágá quando tinha pesadelos acordava muito assustada, mas os pais ensinaram-lhe um truque mágico: acender a luz da mesinha de cabeceira, ver que estava tudo na mesma, e lembrar-se que era mais uma história inventada pela sua cabecinha, como as que ouvia no colégio, pelos pais e Avós, porque não via nada. 

     Nem precisava de ver. Os olhos queriam descansar do dia para o outro que seria cheio de atividades umas mais divertidas do que outras, mas precisavam de ficar um bocadinho no escuro. 

      Já não gritava pelos pais, nem ia para a cama deles, ralhava com o João Pestana: 

- Outra vez, João Pestana? O saquinho errado? Que chatice! Vê lá se estás mais atento, que eu não gosto nada deste sono. Tu és muito chato! Porque é que fazes isso connosco? (espera um bocadinho) O quê? Queres brincar? Mas não são horas de brincar, para isso trazias o saquinho do soninho bom  mais tarde. Ai fazes isso porque sentes-te sozinho? Que aldrabão…! Eu não quero brincar contigo. Vai-te embora, e deixa aqui o saquinho do soninho com sonhos bons. 

     Apagava a luz, abraçava-se ao seu boneco, e voltava a dormir sossegada. De manhã, contava aos pais, orgulhosa, que o João Pestana tinha-se enganado outra vez no saquinho, ela teve um sonho mau, acendeu a luz, estava tudo na mesma, e pedia ao Pai para ralhar com o João Pestana. 

      Ela dizia que tinha ralhado com ele, mas ele riu-se dela, podia ser que se fosse o Pai a ralhar, ele obedecesse e trouxesse o saquinho do soninho com sonhos bons. 

     O Pai prometeu que ia fazer isso, que ela tinha toda a razão! Além disso, davam-lhe os parabéns por ela acender a luz, e lembrar-se que era mais uma história da cabeça dela. Estava tudo igual quando acendeu a luz. 

     Um dia quente de Verão, a Gágá estava feliz, porque ia passar o fim de semana com os pais, na casa dos Avós, nos arredores da cidade onde vive. 

     Ela adora ir para lá, tem muito espaço, ouve os passarinhos, corre atrás deles, passeia pelos campos numa conversa muito animada com os Avós, a contar todas as novidades. 

     Brinca com o boneco e mais alguns brinquedos, ajuda os Avós e os Pais a apanhar fruta do chão, castanhas, nozes, laranjas, maçãs, corre pelo espaço todo, toma banho na piscina. 

     Parece que fica ligada à tomada, salta, brinca, só para para comer e dormir a sesta. O pior...foi à noite, quando os pais pensaram que ela ia dormir sossegada, como geralmente acontecia, tirando as noites em que estava doente, ou tinha pesadelos. 

     O quarto dela ficava entre o dos pais e o dos Avós, mas ela foi a primeira a deitar-se, os adultos ainda ficaram na cozinha. Era voltado para o jardim, onde havia árvores. 

    Como estava calor, os pais não fecharam totalmente as portadas das janelas, só as de vidro, para a Gágá não ter medo. Era um espaço quase novo para ela, porque só lá tinha estado quando era mais pequenina, mas não se lembrava.

     Quando os Pais apagaram a luz do quarto, a Gágá olha em volta, e com as luzes de fora, da rua acesas, não estava tudo escuro. Apesar de estar muito calor nessa noite, havia vento forte, que sacudia as árvores, assobiava nas janelas e fazia as pontas dos troncos, os galhos, e as folhas que estavam muito próximas da janela, bater nos vidros. 

   A Gágá pensou que estavam a gritar ou que eram vozes de bruxinhas a rir, a construir feitiços, ou a assustá-la. As sombras nos vidros a abanar com o vento, e os assobios pareciam pequeninas garrinhas e bracinhos a bater no vidro, a arranhá-los. 

     Criaturas quase sem forma que o medo dela, inventou mais uma história....na sua cabecinha, eram monstrinhos noturnos que gritavam, e batiam na janela para entrar e fazer mal. 

      O seu coração quase saía pela boca, e os olhos pareciam saltar de órbita. Nesse momento esqueceu tudo o que tinha aprendido na cidade e já conseguia fazer. 

   Desta vez, com os estalos no vento, que ela ouvia de forma diferente na cidade, os assobios, os galhos a bater na janela, que formavam sombras parecidas com  garras, estes barulhos eram totalmente estranhos e desconhecidos para ela, por isso eram tão assustadores. 

   Acreditou que fossem mesmo monstrinhos, saiu da cama aos gritos, a chorar, e a correr pelo corredor fora, até à cozinha. Os pais e os Avós até se assustaram. 

- O que foi, filha? - pergunta a Avó 

- Avó, Avô, Mãe, Pai...há gritos no meu quarto, guinchinhos, acho que são bruxinhas e monstrinhos que estão a bater com os bracinhos e garrinhas, na janela, querem entrar para me fazer mal. Socorro! 

- Já estavas a dormir? - pergunta o pai 

- Não. Não consigo, com aqueles gritos, guinchinhos, e sapatadinhas nas janelas. Estão a arranhar os vidros, e a olhar para mim. Não quero que eles entrem, eu não sei como são, se calhar só têm braços, ou são feitos de paus...venham lá ver. 

     Os adultos desatam às gargalhadas, porque já perceberam que é a menina aterrorizada, está a imaginar coisas, como não é o seu quarto, ela está a estranhar. 

    Vão todos com ela, acendem a luz, e ouvem o que a Gágá acha que são os guinchinhos, gritos ou assobios. Olham para a janela e veem que são os galhos das árvores a abanar, e o vento forte que assobia. 

- Vês alguma coisa agora, Gágá? - pergunta a Avó 

- Vejo! 

- Ouves alguma coisa agora, Gágá? - pergunta a Mãe 

- Ouço! 

- O que é que tu costumas fazer quando tens medo, no teu quarto? - pergunta o pai

        A menina conta as estratégias. 

- Então, porque é que estás com medo, aqui? - pergunta o Avô 

- Nunca vi, nem ouvi isto na cidade! - explica Gágá 

- É mais uma história inventada pela tua cabecinha, como aquelas que ouves no colégio, ou as que te lemos. - assegura a  Mãe 

- Não são guinchinhos, nem gritinhos, nem bruxinhas ou monstrinhos, a bater na janela para entrar. - explica a Avó 

- Então o que são? Olha para aquilo e ouve isto! Mete muito medo! - diz Gágá 

- Está tudo lá fora! Aqui no quarto não há nada! - diz o Avô 

- É o vento, filha! Tu não tens vento, na nossa cidade e na nossa casa? - pergunta a mãe 

- Sim! Mas eu não o ouço assim, nem vejo aquelas criaturas a bater na janela. - responde Gágá 

- Porque na cidade, vives num sítio mais alto, tens muitas casas à tua volta e à tua frente, as janelas têm outras proteções, existem barulhos diferentes, à tua volta. Na cidade tens carros, aqui não. Cães, temos aqui e tu tens na cidade, aqui não tens prédios, nem outras casas, tens árvores e vento a abaná-las! Queres ver? - explica o Avô 

        O Avô abre as janelas. 

- Avô, cuidado, vais deixar entrar os monstrinhos-? - diz Gágá aterrorizada 

        Todos dão uma gargalhada. 

- Anda ver os monstrinhos que tu disseste - convida o Avô

        O Avô pega nela ao colo, com a janela aberta e ela sente o vento quente. Vê as árvores a abanar, muito próximo da janela e deles. 

- Ouves agora os guinchos? - pergunta a mãe 

- Não!

- Pois não, porque as janelas estão abertas, mas vês as árvores a abanar, não vês? - pergunta o Avô 

- Sim! - responde Gágá 

- Agora a Avó vai apagar a luz para tu veres a diferença... 

(A Avó apaga a luz) 

- Estamos aqui todos no escuro. Vês os monstrinhos que dizias? - pergunta o Avô

        Gágá olha em volta: 

- Não! 

- Ouves os guinchinhos que dizias? - pergunta o Avô 

- Não! 

- Mas ouves o vento? 

- Sim, muito forte, é ele que faz este barulho? 

- É. A passar entre os pinheiros, e as árvores que estão no jardim. Vês? - aponta o Avô 

- Áh! Elas estão a cair. - diz Gágá assustada 

- Não estão nada, nem vão cair. Elas aguentam, como as da tua cidade que também abanam assim de certeza, e o vento faz este barulho ou maior, tu é que não vês, nem ouves, porque estão mais desviadas, estás com as janelas fechadas, que estão mais isoladas contra barulhos, para não entrar frio nem calor... 

- É verdade! - confirmam os pais

- É um barulho muito agradável - diz a Avó 

- Verdade! - dizem todos 

- Agora, o Avô vai fechar as janelas, no escuro, para tu veres se são os monstrinhos ou se são os galhos, os troncos e as folhas a bater nas janelas. - sugere o Avô 

        O Avô fecha a janela, no escuro. 

- Lá estão eles...olha...e os guinchos! - diz a Gágá 

- Não! É tudo o que viste e ouviste com a janela aberta, mas agora, com a janela fechada, vês as coisas de maneira diferente, e ouves os sons de forma diferente! - explica o Avô 

- Estás em segurança! Está tudo bem. - garante a Avó 

- Vocês não têm medo? - pergunta Gágá 

- Não! - respondem todos 

- É mais uma história contada pela tua cabecinha mas não é verdadeira. - diz a Avó 

- Nós estamos na cozinha, vais voltar para a tua caminha, e vais dormir com o teu amigo, que está ali à tua espera. Vais dormir bem, está bem?  diz o Avô 

- Acreditas nos Avós, e nos Pais, não acreditas? - pergunta a Avó 

- Acredito! - diz Gágá 

- Então, acreditas que estás num quarto seguro, onde os barulhos estão lá fora. Na tua cidade, no teu quarto, também estás na tua cama, e ouves barulhos que já sabes que estão fora da janela, não é verdade? - pergunta a Mãe 

- Sim, é verdade! 

- O Pai vai ligar ao João Pestana, para ele trazer o saquinho correto, o do sono, com sonhos bons! - diz o Pai 

- Está bem. - responde a Gágá 

- Nós também ouvimos e vemos isto tudo nos nossos quartos, e não temos medo, até gostamos de ver e ouvir estes barulhos. - diz a Avó 

- A sério? - pergunta Gágá 

- A sério! - respondem todos 

        A Gágá fica mais descansada. A Avó acende a luz, o Avô deita-a, cobre-a, os Avós e os Pais abraçam-na e beijam-na. 

- Boa noite, meu amor! - diz a mãe 

- Boa noite, corajosa! - diz o pai 

- Boa noite, boneca! - diz o Avô 

- Boa noite, princesa! - diz a Avó 

- Boa noite! - responde Gágá, com um sorriso. 

        A Gagá adormece, mal os Avós apagam a luz, e dorme a noite toda até ao dia seguinte. 

                                            FIM 

                                         Lara Rocha 

                                        31/Janeiro/2023 


Para os Adultos: 

     Ela estava num  lugar desconhecido! Não era o quarto dela, não conhecia os barulhos daquele quarto, que eram diferentes dos que ela ouvia no quarto da cidade. 

     O escuro transforma o espaço, aumenta as sombras, em conjunto com a imaginação das crianças, desperta reações de medo. É muito importante que os Adultos (pais e Avós) transmitam segurança, com recurso à imaginação / fantasia. 

    O medo do desconhecido é normal (tanto nas crianças como nos adultos), não deve ser demasiado a sério, mas é bom mostrar à criança, antes de dormir num espaço diferente do dela, habitual, que o espaço é seguro, e os pais estão lá. Não há nada de assustador, e se sentem medo, é uma história que a sua cabecinha inventou, ou o João Pestana enganou-se no saquinho do sono. 

     Dizer à criança que é muito mais corajosa do que as histórias que o escuro conta, ou a cabecinha dela (os medos irracionais), brincar com os medos, desafiar a imaginação da criança na exteriorização dos seus medos, «materializá-los», dar-lhes forma, pode ser em plasticina, desenho, ou bonecos, incentivar a criança a inventar diálogos, onde é o super herói que mostra ao medo do escuro e do desconhecido quem manda. 

 


terça-feira, 17 de janeiro de 2023

Aquela estrela e nós

Olho para o céu, à noite, às vezes e vejo uma imensidão, um gigantesco manto negro por cima de mim, à minha volta, claro, é noite! 

   Só à noite vemos como somos minúsculos cá em baixo, e elas, as estrelas longe, parecem tão perto, porque conseguimos vê-las, umas melhor do que outras. São todas lindas! Pensamos: como é possível existir uma maravilha destas? 

  No meio de tantas estrelas cintilantes, há uma que sobressai, e é para ela que olho, para aquela estrela, que vejo da minha janela, aquela estrela que brilha mais, mesmo à frente dos meus olhos! 

     Ela está lá todas as noites, de certeza, mas não vou vê-la todas as noites. Mesmo assim ela está lá, muito senhora do seu nariz. 

    E continua a ser ela, sem querer saber se olham para ela ou não! Porque sabe que é mesmo muito bonita, e que há sempre alguém que a vê. 

     Devíamos ser como ela, senhoras e senhores dos nossos narizes, brilhar sem estarmos preocupados com o que os outros vão achar de nós, ou se vão gostar de nós, se fôssemos de outra maneira talvez gostassem mais ou não. 

     Há sempre alguém que nos aprecia, como nós apreciamos as estrelas, e tal como elas, cada um de nós tem o seu próprio brilho, uns conseguem vê-lo, outros não. 

    Uns toleram o nosso brilho, e as nossas estrelas, outros não, sentem medo deles, e afastam-se. Nós ficamos a pensar que não gostam de nós, mas às vezes são outros motivos, talvez...a nosso luz os ofusque. 

     Ou têm um ego maior que a via láctea, a achar que todos vão reparar neles, um nariz maior que aquela estrela muito senhora do seu nariz. Acham-se donos do espaço, do mundo, de todos. 

   Há sempre alguém que não diz por palavras que nos admira, mas consegue ver o nosso brilho, ao olhar para nós como se estivesse a ver as estrelas. E nós sentimos que sim, pelo olhar, pelo sorriso, pela delicadeza, pelo respeito com que nos tratam. 

    Mas às vezes, o céu também fica escuro, e as estrelas escondem-se, por trás das nuvens, para se recolherem, para chorarem, ou para não verem as tristezas da terra, como a guerra, a fome, as tempestades, a destruição geral. 

   Gosto de a ver, essa estrela que brilha mais, mesmo à minha frente. Para ela eu serei apenas mais uma, como outras almas solitárias, que nas noites de insónias olham para ela. Repousam na estrela os seus olhos tristes ou cansados sonolentos, sonhadores ou perdidos. 

     Os que procuram descansar os pensamentos barulhentos, os que procuram inspiração, respostas para perguntas que os inquietam. Outros olharão para ela, na esperança de pedir desejos e vê-los realizados, encontrar conforto e esperança. 

    Existem os que olham por olhar, até o sono chegar, ou sonham, constroem projetos, planos, desejos, a estrela brilhante aguenta! E deve rir à gargalhada com algumas coisas que ouve, que lhe pedem. 

      Como se ela fosse assim tão poderosa, milagrosa, para caprichos e sonhos humanos. Temos de ser nós a fazer para a concretização do que queremos, mas ver as estrelas é um privilégio que não pertence a toda a gente. 

    Privilégio, porque é sinal de que temos olhos, conseguimos pensar, idealizar, sonhar, planear e realizar alguns sonhos, projetos, ideias. 

   É um privilégio porque conseguimos vê-las da nossa janela, e não da janela de um hospital, num quartel dos bombeiros, cadeias, ou como outros, que têm outras profissões tão cansativas que, à noite só querem dormir. 

   Aqui, temos o privilégio do silêncio, mas os países que andam em guerra não se devem lembrar de olhar para as estrelas, com o medo sempre a tapar-lhes os olhos. 

    A estrela brilhante continua lá, como muitas outras, mas eles não conseguem olhar para elas, querem é fugir para salvar as vidas. Talvez para eles, as estrelas tenham outro significado. 

     As estrelas inspiram muitos de nós, como as pessoas se inspiram umas às outras, pelas atitudes de amor, de carinho, atenção, dedicação, companhia. 

    As estrelas vivem na terra, entre nós, naquelas pessoas que nos fazem bem, que nos querem bem, que cuidam de nós, dos animais, da natureza. 

     As estrelas estão na terra, nos médicos e enfermeiros, que cuidam de nós, os que são parte da nossa cura, com as palavras. 

    Nos professores humanos que estão atentos aos alunos e mais preocupados com eles do que com a matéria, nos professores que incentivam, elogiam, motivam, e cativam. 

  As estrelas estão nos alunos que obedecem e estão interessados, nos pais que respeitam os professores e que sabem educar, pôr limites, regras, nas pessoas que valorizam o trabalho dos outros. 

  Será que também olhas para ela? A mesma estrela brilhante que vejo? Não te vejo nela! Também não me vejo nela, mas gosto de pensar se haverá alguém a vê-la à mesma hora que eu, e se imagina o mesmo que eu!? 

     Será que também olhas para ela ao mesmo tempo que eu, e pensas que talvez alguém também esteja a olhar para ela? Mesmo sem saber a resposta, gosto de imaginar que a vês, e que talvez outros olhos repousem nela. Os meus e os teus.

    As estrelas gostam que olhem para elas, e nós também gostamos de olhar uns para os outros, mas só olhamos mesmo para fora, dizemos coisas desagradáveis, e nessas alturas as estrelas apagam-se em nós, toda a nossa luz se apaga. 

  Se dizemos coisas bonitas, agradáveis, palavras simpáticas, todo o Universo se acende em nós, iluminamo-nos, e iluminamos o mundo, os outros. 

  Quando olhamos para as estrelas, tenho a certeza aparente de que os nossos corpos não se encontram, todos os que olhamos para elas. 

  Mas quem sabe, porque gostamos de as ver e olhamos para elas a sorrir, a nossa essência troca abraços feitos de astros e estrelas cintilantes, com a promessa de que um dia os nossos olhos se encontrarão, longe da estrela que vemos. 

 Quem sabe, os nossos braços se entrelaçarão, como se envolvessem todo o universo, e nos tornaremos um só! Uma só estrela! E na nossa estrela viveremos o nosso amor eterno. 

  A estrela que talvez vejamos ao mesmo tempo, será a nossa madrinha. Como saberemos que somos nós? Os dois que olhamos para a estrela? Quando os nossos olhos se cruzarem, e virmos neles, a estrela a cintilar, eles reconhecer-se-ão, e o amor acontecerá.

                                                      FIM 

                                                  Lara Rocha 

                                                17/Janeiro/2023

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Obrigada querida almofada

 


  Era uma vez uma menina que recebeu uma almofada nova no Natal. Ela adorava a que tinha, desde a sua adolescência: uma almofada fofa, não muito grande, macia, com um enchimento trocado várias vezes, porque foi ficando achatada. 

    Como a menina tinha muitas alergias, o médico recomendou que trocasse de almofada, especial, anti alérgica, com um material diferente. 

    Ficou com pena de a trocar, mas pela sua saúde aceitou. A mãe e o Pai ofereceram-lhe uma almofada como devia ser, e era igualmente confortável. 

    A menina guardou a sua antiga almofada no armário, pediu à sua mãe que não a deitasse fora, nem a desse. A mãe respeitou a vontade dela, mas aconselhou a embrulhá-la num saco transparente, com fita cola para não apanhar mais pó. 

    A menina concordou. Embalou a almofada, fechou-a com fita cola, carinhosamente, e escaparam-lhe umas lagriminhas. Ela olha com pena para a almofada, abraça-a, e diz-lhe baixinho a chorar: 

- Óh minha querida almofada! Como eu gostava de ti, e vou continuar a gostar. Tu vais continuar comigo. Como é bom estar abraçada a ti, como fiz estes anos todos. Abracei-me a ti, sempre que as coisas na escola não correram bem. Abracei-me a ti, sempre que sofri as desilusões amorosas, os desgostos, os amores não correspondidos, as traições das que achava que eram as minhas melhores amigas. Tantas vezes que deitei a minha cabeça sobre ti, para chorar, abracei-te e tu acolheste as minhas lágrimas, reconfortaste-me com a tua maciez. Os sonhos, as fantasias, os meus medos, que te contava como se fosses alguém, pelo menos não me magoavas com palavras, ou comentários menos simpáticos, desconfio que os ouvias e que os tornavas realidade enquanto eu dormia, nos sonhos claro, ou na minha imaginação enquanto estava de olhos abertos a imaginar, a sorri, ou a relembrar o dia, a rir, a chorar, ou mais ou menos. Foi tão bom, deitar a cabeça sobre ti, e sonhar, fantasiar, fingir que tinha namorado, e que era feliz com ele, que conversava com ele, que o abraçava. Nunca aconteceu, até acho que consigo ouvir as tuas gargalhadas, se fosses uma pessoa, ao ouvir as minhas infantilidades...eram...vontades ou ensaios para perceber se queria que acontecesse. Sim, na altura queria, pois, agora, ponho muitas reticências a esse querer. Fantasias e sonhos minhas, e de toda a gente...porque as minhas amigas falavam disso, e eram parecidas com as minhas, todas riamos, todas imaginávamos, todas fantasiávamos...todos passam por elas. Não cabiam duas cabeças em cima de ti, acho eu. Ou caberiam? Talvez. Foste tu, depois de eu às vezes acordar os meus pais, que me curaste quando tinha de ficar na cama, e aguentaste os meus pesadelos que se dispensava, mas fazem parte. Se calhar até eras tu que contavas histórias para eu adormecer, ou para me sentir, eu imaginava as tuas respostas, quando tinha longas conversas contigo, que não as partilhava com mais ninguém. Acho que tu até as sabias, mesmo sem eu falar, quando recebias as minhas lágrimas, e ouvias as minhas tristezas. Até nas noites em que praticamente não pregava olho, ou por causa das alergias, ou por causa dos medos, da ansiedade, da tristeza, eu gostava de estar deitada na tua maciez, e tentava acalmar, mas não conseguia. Foi com a cabeça deitada sobre ti, que pensei sobre o curso a tirar, cheia de dúvidas, expectativas, inseguranças, dividida entre os gostos e a realidade. Foi com a cabeça deitada sobre ti, ou abraçada a ti que rezei por mim, pelos meus familiares, que descansei ou dormi a sesta. Foste tu que aguentaste as minhas costas quando lia sentada na cama. Como é bom abraçar-te! Gostava tanto de ti, talvez me fizesses lembrar a infância, por seres pequenita, comparada com esta que recebi hoje. Continuas a ser maravilhosa. Gratidão, querida almofada, gratidão, gratidão, gratidão, por todos estes anos de conforto, companhia e confidência, por todos os momentos que passámos juntas. Eu queria continuar contigo, desculpa, mas as alergias obrigam-me a trocar de almofada. Foste trocada, mas não serás esquecida. Estás mesmo aqui ao lado, e sempre que tiver saudades, ou...todos os dias vou dar-te um abraço. Fica prometido! E vou continuar a falar contigo, às escondidas, claro, para não pensarem que estou com algum problema. 

    Dá mais um longo abraço à almofada antiga, deseja-lhe boa noite, coloca-a no armário, e deita-se com a nova almofada a quem se habitua rapidamente, pois é também muito confortável, e é pela sua saúde. 

    Mas como prometeu, todos os dias vai ao armário abraçar a almofada, umas vezes um abraço rápido, outras vezes mais demorado, sorridente. 

    Algumas vezes fala com ela, como se tivesse uma criança ao colo, ri, conta o que sonhou, quando vai ao armário faz-lhe um carinho. 


E vocês? 

    Já pensaram no privilégio que é ter uma almofada, macia, ou mais dura, com enchimentos diferentes, mas nem todos podem desfrutar desse privilégio que é ter uma almofada que nos permite descansar, sonhar, chorar, rir, fazer planos, recordar, decidir, pensar, e até ter pesadelos? 

    Já pensaram no privilégio que é, ter uma cama maravilhosa, com a almofada, lençóis, cobertores, colcha, e mais o que quisermos? 

   Nem todos têm esse mimo, em muitos países onde dormem no chão, ao ar livre sem almofada, sem colchão? 

   Já agradeceram à vossa (às vossas) almofada? Também falaram ou falam com ela? Também a abraçam? Para que é que ela vos serve?

                                            FIM 

                                         Lara Rocha 

                                        10/1/2023 



    


sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

O gelado do mágico

 


      Era uma vez uma aldeia um pouco isolada da cidade, onde as pessoas não iam facilmente à cidade, que recebeu a surpresa visita de um circo. 

  Os artistas estavam cheios de alegria, por ter enchido aquele lugar com muitos habitantes, crianças, adultos e avós, de encanto, espantos, palmas, muitas surpresas, magia, sorrisos e olhos brilhantes. 

  Para os artistas era o melhor que podiam receber. Prometeram voltar em breve, e nessa noite ficaram lá a dormir. 

  Um dos palhaços que também era mágico, tirou o seu fato colorido de atuar, e foi apanhar um pouco de ar, pois estava uma noite quente, com uma Lua Cheia gigante, e um céu cheio de estrelas. 

   O rapaz estava relaxado, a apreciar todo aquele quase silêncio, só cortado pelos animais noturnos, caminhou sem pressa pelo jardim iluminado, respirou aquele ar puro, ouviu o sussurro e o cantar das águas das fontes, dos riachos, dos tanques, e da cascata do monte, mais ao longe.

    Viu flores fechadas, borboletas maravilhosas gigantes e com umas asas tão bonitas que pareciam vestidos de bailarinas a dançar levemente. Fotografou-as e a tudo o que achou bonito.     

   Ficou tão agradecido e tão feliz com a reação das crianças e dos adultos ao seu espetáculo, e a todas as atuações que pensou deixar uma surpresa. 

  Pensou em várias coisas, mas achava que não seria o ideal. Lembrou-se de um gelado gigante: 

- Sim, boa ideia! Um gelado especial como eles. - murmurou ele 

  Rodou os dedos, e começou a fazer pequeninos círculos que rodavam com os outros dedos. Ele foi esticando, alargando-os para formarem o cone do gelado. 

   Um cone que começou estreito, e alargou, como todos os cones dos gelados, mas este mesmo muito alto. 

  A parte de cima, também gigante, podia comer-se: era cremoso, fofo, cheio de cores, e doce, com brilhantes. 

   Sorriu, satisfeito, porque este era só o início da surpresa. Foi deitar-se na sua tenda, e dormiu até de manhã. 

  Tomou o pequeno-almoço com os amigos e família do circo, e ouviram uma grande gritaria.

 Quando foram ver o que se passava, viram crianças e adultos muito surpresos a olhar para o gelado gigante, a perguntar se seria de comer, quem teria posto ali aquilo, e que bonito que ele era. 

    O mágico disse aos seus amigos que foi ele que pôs o gelado naquele sítio. 

  Foi ter com eles, e antes de chegar ao gelado, mexeu os dedos para que saíssem bolinhas doces, cheias de cor, e poderem comer. 

   As crianças e os adultos estavam pasmados. O mágico aproxima-se mais deles: 

- Bom dia! Já aqui? 

- Bom diiiiiiiiaaaaaaaaaa....! - gritam todos numa grande alegria 

   Milhares de bolas, como as bolas de sabão, de tamanhos diferentes e todas as cores, saíram do recheio. 

- Podem comer estas bolinhas! À vontade! 

- Foste tu que fizeste este gelado? 

- Fui! 

- Obrigada! Obrigado! - dizem todos em coro 

- Uau! Tem brilhantes. - diz uma menina 

- Também podes comê-los. 

  E transforma-se uma bola de brilhantes, que o mágico põe à frente da menina. 

    Todos batem palmas, e dezenas de bolas flutuam perto das pessoas, para que possam pegar-lhes, e prová-las. 

   Umas de todas as cores, outras de uma cor só, voavam por cima, por baixo, atrás, livremente. 

- Hummmm...que delícia. - Diz uma menina 

- Esta também é muito boa! Com estas cores...Huuuummmm! - diz outra menina. 

  Tanto as crianças como os adultos apanham as bolas que gostam mais, as de uma cor só, as de várias cores, as suas favoritas, algumas comem-nas, deliciados com o sabor. 

- Podemos levar algumas para casa? - pergunta uma senhora 

- Claro que sim! Todas as que quiserem! Elas são para vocês. - diz o mágico 

- Que lindo! - diz um pequenote 

- Nunca tinha visto um gelado assim! - comenta 

- Nem eu! - diz outro 

- O cone não se pode comer, mas também tem surpresas. - diz o mágico 

- Nós vamos a casa, e já voltamos. - dizem alguns 

- À vontade. 

 Alguns vão a casa buscar recipientes para guardar as bolas e enquanto isso o mágico, sem que ninguém se apercebesse, transformou o cone, num parque de diversões, com brinquedos, carrocéis, cabines surpresa, desafios, atividades de aprendizagem,  descobertas, marionetas que se mexiam sozinhas e falavam, tocavam instrumentos, cantavam, bonecos que faziam acrobacias, e habilidades, e uma porta grande que não existia no cone. 

    Os artistas do circo apreciam das janelas, orgulhosos e felizes. 

- Muito obrigada por todo o vosso carinho! Pelos vossos sorrisos, pelo vosso brilho no olhar, pelas gargalhadas, pelas palmas. - diz o mágico 

- Nós é que agradecemos esta noite tão agradável que vos tivemos aqui, esta surpresa, alegria e beleza que trouxeram à nossa aldeia! - diz o Presidente. 

- Foi um gosto enorme, ter-vos aqui. Muito obrigada! - acrescenta a esposa do Presidente 

- A vossa aldeia é maravilhosa, tal como vocês! - diz o mágico a sorrir 

- Muito obrigada! - dizem todos a sorrir 

- Até breve! Voltaremos. - diz o mágico 

- São sempre muito bem vindos! - diz o Presidente 

    O mágico volta para a caravana, e todos os habitantes acompanham a saída dos artistas, com palmas, e felizes.  

 Os artistas gostaram tanto daquela aldeia que voltaram poucas semanas depois, com a mesma receção, de grande alegria, e magia que foram recebidos da primeira vez, abraços, beijos, apertos de mãos, já eram quase família, filhos daquela terra. 

    Ofereceram petiscos da terra aos artistas, levaram-nos a conhecer a aldeia, antes do espetáculo, e neste, os artistas mostraram algumas atuações diferentes, fantásticas, o mágico mostrou outros truques, os palhaços fizeram novas brincadeiras, e muitas outras surpresas. 

 O público deu muitas gargalhadas, sorrisos, bateu muitas palmas, soltou muitas exclamações de surpresa, muita magia, e carinho. 

  Os artistas adoravam ser os olhares brilhantes de felicidade do público, da interação com eles, das respostas, das gargalhadas e das palmas. 

    Enquanto o circo não voltava, as crianças e os adultos divertiam-se no mundo mágico do cone. 

E vocês, gostam de circo? 

Já assistiram a algum? 

O que gostaram mais nesse circo? E o que gostaram menos? 

Se trabalhassem no circo, o que fariam? 

Podem deixar nos comentários as vossas respostas. 


                                     FIM 

                                 Lara Rocha      

                                6/Janeiro/2023 

      

quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A tradição das casquinhas de nozes

        


     Era uma vez uma aldeia isolada da cidade, com lindas casinhas todas em pedra, muito bem decoradas.        Várias vezes por ano, havia uma tradição de lançar ao rio da aldeia, que nascia numa montanha, começava pequenino, quase só uma lágrima. 

     Mas rapidamente ganhava a forma de um fio de água, pela rocha da montanha abaixo, mais abaixo ficava mais largo, e tornava-se num riacho, que passava pelas pedras, de diferentes tamanhos. 

     O som da água era delicioso: poucos eram os que conseguiam ouvir o som da lágrima, mas o fio de água já se ouvia alguma coisa, e o riacho, quem o ouvia dizia que ele cantava e encantava as pedras por onde passava. 

     O riacho a cantar e a encantar as pedras fazia parte de uma história muito antiga da aldeia. Contava-se que o riacho era um homem que vivia por trás das rochas, na sua solidão e tristeza, chorava tanto que formou aquele rio.  

     E a lágrima no início do rio, ensinou-o a cantar para as pedras para espantar a sua dor, tristeza e solidão. Pode ter sido inventada por alguém solitário, há muitos séculos atrás, mas fazia parte das memórias e da vida de todos. 

     Realmente, diziam que era isso que o fazia sentir-se feliz, elas gostavam de o ouvir, e das suas carícias. Depois o riacho alargava, rodeava as rochas, passava por cima de umas, mais rápido e por outras,  mais devagar, também aqui, diziam que era o solitário a cantar. 

     Percorria esse espaço, alargava mais ou menos, conforme a largura que a paisagem e as bermas dos campos permitiam. Todos adoravam esses sons. 

     Nas bermas mais largas e com rochas, fazia muito barulho, nas mais estreitas, corria mais devagar e quase sussurrava em alguns espaços, passando delicadamente por cima de outras rochas. 

     E mais próximo das casas, era um rio com muita água, com muita força, uma ajuda preciosa para moinhos, rega dos campos, e para os animais beberem. Além desta história, havia uma tradição, que não tinha dia certo. 

     Acontecia mais nas noites quentes de verão, e durante o Outono, à luz da lua. Lançavam casquinhas de nozes, do cimo da montanha, pelo rio abaixo, desde a lágrima até às casas. 

    Umas casquinhas de nozes levavam velas acesas, outras levavam pirilampos, outras cigarras e grilos, e em certas alturas o vento também participava, para dar uma ajuda. 

    Outras nozes, tinham pequeninas prendinhas, que eram ofertas de produtos da terra, partilhavam uns com os outros, com bilhetinhos que diziam onde podiam ir buscar, quem as apanhasse. 

    Era um sonho ver as casquinhas das nozes como se fossem barquinhos, pelo rio abaixo, às voltas, a rodopiar nas rochas, a descer mais depressa e mais devagar. 

    Cada um sabia qual a sua noz, porque eram todas diferentes. Umas pintadas, outras decoradas com luzinhas de Natal, outras com desenhos, outras com o número da casa a quem pertenciam. 

    Não era uma competição, nem para ver quem chegava primeiro, era para se deliciarem e conviverem, partilharem. Esse era o único e o mais valioso prémio. 

    Fotografavam, filmavam, aplaudiam, agradeciam a fartura das produções da terra, agradeciam a água, agradeciam uns aos outros, a amizade, a companhia, a partilha, a saúde e aquele espaço. 

    Adoravam ver as casquinhas das nozes a circular ao sabor das correntes de água, que variavam e faziam sons diferentes. Ficavam encantados, e relaxados! 

E vocês, se participassem nesta tradição, o que levavam na vossa casquinha de noz? Porquê? 

Podem deixar nos comentários. 

                                                                 FIM 

                                                              Lara Rocha 

                                                            29/12/2022

sábado, 3 de dezembro de 2022

Cabeça e coração, cansamos! - Monólogo ou peça de teatro para Adultos


M/H - Cansamos! E desistimos. Dizemos não, enquanto o coração insiste em dizer que sim. Não, não queremos desistir do que achamos que queremos, de quem pensamos ser a nossa alma gémea, o amor por quem tanto esperamos, com quem tanto desejamos estar, e pensamos que era para sempre! Mas cansamos, e acabamos por desistir, ao perceber com a maturidade que as pessoas que nós queremos, sonhamos, desejamos, não nos querem na vida delas. Criamos uma guerra entre o coração e a mente porque, o coração diz... 

CORAÇÃO - Não, não desistas, continua a insistir, se ele ou ela tiver de ser teu ou tua, será, a vida vai juntar-vos, o destino. Continua a acreditar, porque quando menos esperares vai aparecer. É sempre o que ouvimos dizer. Mas o coração acredita, porquê? Se do outro lado nem sinal, para que estamos a iludir o coração? Ou ele é que se ilude?

M/H - Se calhar gosta de sonhar como nós! 

M/H - Mas, e se não se realiza o sonho? 

M/H - Cansamos de esperar que apareça, cansamos de esperar que aconteça, cansamos de acreditar. 

OS DOIS/ 1 - Desistimos. 

M/H - Lá vem o coração e a mente, conversarem uma com a outra dentro de nós. A mente diz: 

MENTE - Esquece, ele, ou ela, não quer nada contigo, porque se quisesse já te teria procurado, ligado, mandado mensagem. Mas não fez nada disso. Ignora-te a toda a hora. Faz o mesmo! Esquece-o, ou esquece-a, ignora-o, ignora-a, é melhor para ti!». 

M/H - Mas o coração não gosta de ouvir essas palavras, e teima em não acreditar, então diz: 

CORAÇÃO - Não acredites no que estás a pensar. Acredita em ti, acredita que é possível, hoje ignora-te, amanhã pode procurar-te, hoje não fala, hoje não te liga, hoje não te responde às mensagens, mas pode ser que esteja ocupado, ou não ter tempo como diz sempre. Espera. Não desistas, é porque ainda não tem de ser já.

M/H - Vem a cabeça e contradiz: 

MENTE - Não acredites no que o coração diz. Não é verdade. Olha que ele ou ela não te quer, se ele ou ela quisesse alguma coisa contigo, arranjava tempo para te falar, para te ligar, para te mandar uma mensagem de vez em quando, nem que fosse para saber como estás, se precisas de alguma coisa. Se ele ou ela quisesse alguma coisa contigo, arranjava um minuto ou vários para ler as tuas mensagens, os teus e-mails, responder, perguntar. Ele ou ela não faz nada disso. Porque teimas em continuar a pensar nisso, em querer que aconteça, em querer que seja ele ou ela, ou a achar que é ele ou ela só porque achaste piada á cara dele. Não é só a cara que conta, até pode ser bonito, ou bonita mas não ser para ti. Não, não estou a dizer que és feia, ou feio, mas estou a dizer só para não te iludires, para não acreditares a 100% no que pensas, sentes ou achas que pensas e sentes. Desiste! É porque não tem de ser esse ou essa. É apenas coisa da tua imaginação, tu na verdade não sentes nada, a não ser atração, porque como podes sentir, querer, desejar alguém com quem te cruzas, vês nas redes sociais, ou no dia a dia mas nunca se falaram? 

M/H - Quem tem razão? A mente, ou o coração? 

M/H - Os dois, talvez! 

M/H (os dois, ou um/a) - Porque... 

M - Às vezes desistimos mesmo! Não porque queremos, porque na verdade queríamos era que os nossos desejos se realizassem, receber atenção da outra pessoa, mas desistimos porque cansamos. Não aguentamos mais continuar a esperar uma coisa que o coração até sabe que é real, ou seja, que o que nós desejamos não vai acontecer. O que tanto queríamos, ou não é mesmo para nós, ou ainda não é, nunca será. Isso não sabe, talvez, mas sabe que o melhor é mesmo esquecer. Esquecer...quer dizer...desistir! Não queríamos desistir, queríamos continuar a acreditar, mas é demasiada utopia, porque somos tantos no mundo, e podemos não ser o que a outra pessoa deseja. Também, como podemos querer se não a conhecemos. De que adianta gostar do físico que atrai, se na verdade não sabemos como é o outro, ou a outra, nem ele ou ela sabem de nós! Claro que todos fantasiamos, mas as fantasias na sua maioria não se realizam. Por isso de que adianta continuar a fantasiar sequer? 

CORAÇÃO - Fantasiar é só para dares mais força à tua vontade que quem sabe, pode realizar-se! 

MENTE - Ou não realizar-se, que será o mais certo. Temos olhos, podemos ver, gostamos de ver, faz-nos bem ver, de preferência caras bonitas, mas isso não quer dizer que aconteça alguma coisa. Somos tantos milhões, cruzamo-nos com tantas dezenas por dia, umas caras bonitas, outras que não nos atraem, como nós, alguém pode reparar em nós, e outros não. 

CORAÇÃO - Mas fantasiar é só para te desiludires! Enquanto fantasias, achas que vai acontecer, ou desejas que possa acontecer, mas não sabes se sim, ou se não! 

M/H - É por isso que cansamos! Não queremos desistir, mas cansamos. 

M/H - Cansamos de receber Indiferença, silêncio, frieza, em troca de atenção. Cansamos de dividir o coração com alguém que desliga, que nem repara no carinho, ou interpreta mal... 

M/H (ou os dois) - Às vezes desistimos, não porque queremos, mas porque cansamos! 

M/H - E cansamos da bondade...Quando recebemos de volta o gelo da indiferença, do silêncio. 

CORAÇÃO - Óh, não, não é caso para cansar, nem interpretar como gelo de indiferença, silêncio. 

MENTE - É claro que só pode significar isso, é dessa maneira que ele ou ela te trata: com indiferença, silêncio, é claro que sentem gelo. 

CORAÇÃO - A mente é que faz sentir-vos um cubo de gelo, mas não acreditem nela. 

M/H - Às vezes desistimos, não porque queremos, mas porque percebemos que não vale a pena! 

CORAÇÃO - Claro que vale a pena! Nada de desistir, as coisas podem mudar. 

MENTE - Claro que é melhor desistir, é claro que se cansam de esperar, de não receber nada em troca, o que esperavam, o que desejavam, o que sonhavam, de quem queriam. E não vale a pena! 

M/H - Às vezes, desistimos, não porque queremos, mas porque cansamos Da tristeza, da solidão. A cada desilusão, a cada ilusão que criamos. 

MENTE - Não tenho nada a ver com isso! 

CORAÇÃO - Tens sim, tu é que crias ilusões. 

MENTE - Pensa bem se sou eu que crio ilusões....pensa bem! 

M/H - A cada tristeza que sentimos, a cada perda, a cada derrota, a cada abandono...a cada doença, a cada maldade, a cada injustiça...Lançamos um pedaço de gelo para o nosso coração. 

CORAÇÃO - Confirmo! 

MENTE - A culpa é tua! 

CORAÇÃO - Ninguém te perguntou nada. 

M/H - Umas vezes grande, outras vezes pequeno, mas é sempre uma pedra de gelo! 

CORAÇÃO - É verdade, eu é que levo com elas. Uns pedaços de algumas  derretem, outros não! Uns transformam-se em lágrimas, outros ganham ainda mais força, peso e espessura. 

MENTE - Não tens vergonha de pôr as pessoas a chorar, e aceitas as pedras? Gostas de sofrer? 

CORAÇÃO - Tu também as atiras. 

MENTE - Era só o que faltava…! 

M/H - E quanto mais gelo acumulamos mais pesados ficamos e mais frios somos. Quem pode desfazer os cubos de gelo? 

CORAÇÃO - Isso também gostava de saber, porque não gosto nada de carregar com elas. Talvez tu, óh mente…! 

MENTE - Não tenho nada a ver com isso. 

M/H - Talvez...Cada um de nós, alguém, ou nunca os desfaremos. 

CORAÇÃO - Que medo! Que previsões terríveis…! 

M/H - Mas mais cedo ou mais tarde, o gelo torna-se visível Mais gelado, mais duro. E nós? Em que nos transformamos? Em nada A não ser… Gelo! 

CORAÇÃO - Em lágrimas! 

MENTE - E cada lágrima conta um segredo, nunca confessado! Aqueles momentos em que querem ser vocês a mandar mensagens, a ligar, a chamar a atenção, e têm de ficar com o desejo nunca realizado para vocês. 

CORAÇÃO -  As lágrimas veem-se, e cada lágrima transporta um sonho, uma recordação, recordações, felizes, tristes, doces, românticas que já viveram, mas não sabem se vão viver desta vez.

MENTE - Em cada lágrima, vai um sentimento, uma emoção, um medo, mágoas, rancores, iras, frustrações, que o outro não vê, porque te ignora. E tu continuas a acreditar, ou desistes?! 

CORAÇÃO - Eu digo, não desistas, porque tudo pode acontecer, tudo pode mudar, quando estiveres preparado, preparada para amar, quando curares as feridas que ainda não estão fechadas, quando te deres o direito de esquecer o passado, e pensar que o futuro será outro, muito melhor. 

MENTE - Tanta ilusão, pobre coração! Sejam realistas...não há respostas do outro lado, esqueçam, não vai mudar. 

CORAÇÃO - Porque é que és tão quadrado. 

MENTE - Não sou quadrado, tenho muitos caminhos, recantos. 

H/M - Cansaço, desilusão, realidade e a ilusão, razão, coração, emoção. 

M - Quem ganha? 

H - Quem tem razão? 

M/H (os dois) - Uma pergunta sem resposta. 

                                                  FIM 

                                             Lara Rocha 

                                            3/12/2022