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quinta-feira, 27 de maio de 2021

O cheirinho

       



Foto de Lara Rocha  

       Era uma vez um senhor que vivia numa aldeia com mais habitantes. A sua esposa ia vender pão e bolos, legumes,  sopas caseiras de vários ingredientes diferentes, frutas e flores, enquanto ele ficava em casa de volta do forno a preparar os deliciosos bolos, pão, e sopa.  

        Da sua casa era possível sentir quase todos os dias uma mistura de cheirinhos muito agradáveis, de fazer crescer água na boca, mas os seus vizinhos não sabiam o que era, porque a sua esposa saía antes do sol nascer, e o senhor quase nunca o viam fora de casa. 

        Ouviam muitas vezes a assoviar, e a cantar acompanhado de um rádio, e falava com alguém, pensavam que seria consigo próprio, com o locutor da rádio, ou com algum animal que teria dentro de casa. O sr. tinha longas conversas...

        Um dia, umas crianças da aldeia, de várias idades, estavam a brincar ao ar livre e sentiram a mistura de cheiros. Mas entre esses cheiros havia um em particular que até lhes abriu o apetite, e para se distraírem da fome, cheios de curiosidade, não queriam invadir a casa, então, fizeram um jogo, em que cada um tentou adivinhar ao que pertenciam os cheiros. 

        Como conheciam os cheiros dos alimentos cozinhados, nas sopas, conseguiram acertar todos, mas aquele especial...huuummmm....era a bolos. 

        Não resistiram. Foram silenciosamente até à casa do vizinho, ficaram à porta, os cheiros tornaram-se mais fortes, e cada qual o mais apetitoso. 

        Espreitaram discretamente pela janela com cortinas, e perceberam que se mexia de um lado para o outro, ouviram a música, e o senhor a falar. 

       O sr. percebeu que estava a ser observado, e discretamente, abriu a janela. As crianças esconderam-se rapidamente, como puderam, para não serem apanhados, mas foram vistos e não repararam. 

       O sr. riu e fez de conta que não viu. Continuou o seu trabalho, as crianças voltaram a espreitar, e ele viu as sombras das cabecitas. Desta vez não tiveram tempo de se esconder, foram apanhados em cheio. 

- Oláááááá! - diz o Sr. simpático 

- Olá! - respondem todos mais vermelhos do que pimentos 

- Estavam a espreitar não era...? 

- Era! - respondem em coro 

- Precisam de alguma coisa? 

- Desculpe, não queríamos ser atrevidos, mas cheirava tão bem. - explica um mais crescidinho 

- É. Não resistimos! - acrescenta outro 

- Mas estávamos a tentar ver o que estava a cheirar tão bem. - diz outro 

            O Sr. dá uma gargalhada: 

- Não precisavam de espreitar. Bastava baterem à porta. Entrem para ver o que cheira bem. 

- Não queremos invadir a sua casa, nem atrapalhá-lo. - comenta outro 

- Não, não tem problema. Entrem, vamos conversar um bocado. 

O Sr. abre a porta, dá um aperto de mão a cada criança. 

- Bem-vindos à minha casa... 

           Mostra a casa toda, e conversa com os pequenos, depois leva-os para a cozinha, cheia de farinha, fermento, pedaços de massa, o forno a trabalhar, e o rádio. 

         Um bolo de chocolate crescia no forno, e o Sr. conta a sua vida, o seu trabalho, mas sempre a trabalhar, a amassar, a fazer bolinhas de pão, a mexer as sopas no fogão, a deitar farinha e fermento, sementes e sal. Falou da sua esposa, do seu trabalho, dos filhos, dos netos. As crianças estavam boquiabertas e maravilhadas com o senhor. 

- Querem experimentar fazer a massa, e as bolinhas de pão? - sugere o sr. 

- Sim. - respondem em coro 

           Eles seguem atentamente o que o Sr. faz e diz, repetem tudo, e fazem várias bolinhas de pão enquanto o Sr. trata das sopas, e conversam alegremente uns com os outros. Há muita gargalhada, e trabalho. 

- Muito bem! Agora... vai sair do forno o que cheira tão bem. Sentem-se! - Diz o senhor 

          Estão todos em pulgas para saber o que é. O Sr. abre o forno e tira de lá um grande bolo de chocolate. Os olhos das crianças quase saltam de órbita ao ver um bolo com tanto chocolate a acabar de fazer, e os olhos brilham. 

- Huuuuummmmm... - dizem todos, a lamber a boca

- Vamos experimentar. - convida o Sr. 

           Corta uma fatia para cada um. 

- Provem, e se quiserem podem comer mais. 

            Enquanto as crianças se deliciam com o bolo de chocolate, o Sr. mete as bolinhas do pão, e desliga as sopas. Pega numas caixinhas e oferece sopas diferentes a cada menino, perguntando quantos eram em cada casa. 

            As crianças agradecem, e vão para casa encantados com aquela experiência e com o Sr. As sopas não podiam estar melhores, e os pais vão agradecer pessoalmente a casa do Sr. A partir desse dia,  os habitantes foram buscar sopas, e às vezes pão, bolos, flores, para o ajudar. As crianças também iam fazer-lhe companhia, ajudá-lo a fazer massa de pão, e às vezes como recompensa levavam um pedacinho de bolo. 

Afinal, aquele cheirinho diferente dos que eles já conheciam, era a bolo. 

E vocês, que cheiros sentem à vossa volta? Sabem de onde vem? 

Podem escrevê-los aqui, se quiserem....


                                                                    FIM 

                                                                    Lara Rocha 

                                                                    27/Maio/2021

terça-feira, 18 de maio de 2021

Passeio imaginário - história para todas as idades/ relaxamento

Imaginem que vão a passear calmamente, sem pressa…num dia cheio de sol, quente, mas com uma brisa suave…que ao bater na vossa carinha sabe mesmo bem. Entram numa floresta, muito verde, agradável, com árvores que quase formam túneis, e vocês passam pelo meio delas. Pelo caminho ouvem os passarinhos nas árvores a cantar…e que bonito que é ouvi-los! Vocês sentem paz!

As borboletas sobrevoam as flores…e algumas pousam nos vossos cabelos, no nariz…vocês sopram-lhes e sorriem-lhes…elas continuam o seu passeio. Inspiram e expiram…cheira tão bem…a mentol…dos eucaliptos. Atravessam uma pontezinha de pedra, que passa por cima de um laguinho com patinhos, cisnes, muitas plantas diferentes. Que bonito!

Passam por uma linda cascatinha…de águas correntes, frescas e transparentes, que corre entre as árvores e as pedras. Param e ficam a ouvir o som da água a correr…que bom! Continuam a andar, encantados com a paisagem. Entregam-se totalmente àquele sítio, cheio de coisas lindas. Estão tão absorvidos por esse espaço de sonho, que sem contar, entram num caminho da floresta, estranhamente bonito!

Um lago tranquilo, que reflete tudo à sua volta na água. Humm…soa-vos a mistério! Mas vocês não sentem medo…porque já que chegaram ali, também andam mais um bocadinho. Estão curiosos para saber onde é que aquilo vai dar. 

Ao fundo ouvem uma música muito alegre...onde acaba esse caminho de árvores, aparece um gato deitado ao sol…cheio de preguiça. Ele olha para vocês com aquele ar de…selvagem e aquele olhar penetrante, boceja, e mostra-vos os dentes com um forte miar… Uf…que susto! Pensaram que ele vos ia arranhar ou fazer mal. Ficam quietos…mas não. Ele simplesmente espreguiça – se, e volta a deitar-se. A música está cada vez mais perto.

Vocês, refeitos do susto, avançam mais um pouco. Encontram uma gruta entre rochas. Vocês aproximam-se, espreitam…sim…vê-se tudo. O que haverá lá dentro? Será perigoso entrar…? Será que tem saída? Existirão lá animais perigosos…? 

Estão tão curiosos…e…entram mesmo. Ficam maravilhados e espantados ao ver a gruta. É mais pequenita do que o que vocês imaginaram, mas está vazia. Quer dizer…vocês pensavam que estava vazia, porque não ouviam ninguém, nem viam movimento.

De repente, pouco antes da saída da gruta…apanham um grande susto, porque sem fazer barulho…aparece à vossa frente, um ser muito estranho…misterioso, pequenino, e dourado…com uma chave na mão. 

Vocês ficam gelados, e parece que de repente se transformaram em estátuas. Estão a olhar para ele, fixamente, com a boca e os olhos muito abertos, assustados e a pensar quem é aquele ser, e o que quer de vocês! 

E porque razão vos dá aquela chave, se nunca se viram antes? Ele não é igual a vocês…é muito estranho. Ele levanta a chave, estende-a para vocês e não fala, mas dá-vos a entender que é para vocês. Vocês pegam na chave…ele esconde-se rapidamente num buraquinho da gruta. Vocês ficam com a chave na mão, a olhar para ela e para a parede…sem saber o que fazer.

 A música…que ouviam lá atrás antes de entrar na gruta ouve-se muito alto, parece que está mesmo ali á beira. Será que é aquele ser misterioso que está a tocá-la? Vocês olham em volta…não…o som não vem da parede…saem da gruta, e vão ter a um espaço verde, fantástico. Nunca viram aquilo! Uma montanha, e mesmo à vossa frente dão de caras com um castelo, totalmente diferente do que conhecem dos castelos. Este está num tronco de uma árvore.

Vocês ficam surpresos…e encantados. Parece que estão a sonhar. Encostado ao tronco está um bobo, pequenino, quase da vossa altura, a tocar muito bem, e a cantar alegremente, com um grande sorriso. 

Toca mesmo bem…e é simpático! Vocês batem-lhe palmas. Ele faz uma vénia para agradecer. Vocês olham para a mão e têm a chave. De onde será a chave? Será que o menino que canta e que toca sabe de onde é? Será daqui do castelo? Humm…mas que estranho…a que propósito é que alguém vos ia dar a chave do castelo? 

Vocês resolvem perguntar…o bobo responde-vos afirmativamente, com a cabeça, e estende o braço, indicando-vos a entrada. Vocês nem querem acreditar…como é que vão entrar aqui…se é tudo tão pequeno…? 

E com tantas fechaduras…como é que sabem qual é a que está certa? Bem…vão experimentando…e…ao fim de várias tentativas, a chave entrou. Fixe! Vocês saltitam de alegria. Mas…e agora…como é que vão entrar? 

São tão grandes…e os espaços são tão pequeninos…! Espreitam por uma portinha…está tudo maravilhosamente decorado…mas não veem ninguém. Quer dizer…vocês achavam que não havia ninguém…aparece de repente uma jovem rapariga, pequenina, mas muito bonita…primeiro assustam-se, e depois sorriem encantados com a jovem. 

Ela sopra-vos um pozinho e vocês ficam do tamanho dela. Só assim é que conseguem entrar no palácio, recheado de coisas lindíssimas, muito aconchegante e confortável, acolhedor, onde vivem reis, rainhas, príncipes, princesas…onde há muita música, alegria, dança, banquetes…e tudo o que vocês gostavam de ver nesse castelo.

                                                                            FIM 

                                                                           Lara Rocha 

                                                                            18/Maio/2021 

A menina que sonhou que era chuva

 


       Era uma vez uma menina que estava aborrecida, por ter de ficar dentro de casa.      

Chovia muito, e ela não gostava nada de ficar em casa. 

A sua Avó, com quem ficava até a mãe e o pai regressarem do trabalho, ensinou-lhe uma maneira de ela se sentir mais feliz, mesmo em dias de chuvas.

         Convidou-a a olhar para a janela e ver as cores das nuvens. Umas com formatos engraçados, pareciam animais, outras monstros, uma fazia lembrar um dragão, outra uma ovelha de lã cor de laranja. 

         Viu nuvens cor de rosa, roxas e azuis escuras, com uns raios de sol que as atravessavam. Os raios de sol esconderam-se, e as formas das nuvens juntaram-se numa imensa manta escura.

        Começa a chover, e a avó convidou a neta a apreciar a variedade e intensidade das gotas a cair. 

        Começaram a cair umas gotinhas pequeninas, fininhas, que pareciam brilhantes a cobrir os passeios, e reparou que haviam tracinhos de água no vidro.

       A Avó abriu a porta onde estavam protegidas da chuva para ouvir os sons. As primeiras gotinhas quase não se ouviram, mas rapidamente começou a carregar, juntamente com o aumento da intensidade do vento, que abanava as folhas. As gostas tornaram-se mais pesadas, mais grossas, maiores, até se transformarem em saraiva.

       O barulho da chuva a cair pareciam pedras, era granizo, o vento estava fortíssimo, tiveram de fechar a porta e foram ver chover para a janela, que estava cheia de gotas enormes, com bolas de granizo à mistura, e um barulho muito forte.

      A avó relembrou tudo o que tinha acabado de ver, convidou-a a ver como era mágico as gostas caírem das nuvens tão escuras, primeiro levezinhas, quase sem se ouvirem, sem se verem, e de repente, com o vento a assobiar, as gotas transformaram-se em granizo, pesadas, barulhentas.

       A menina estava assustada, mas quando viu que a Avó estava a adorar aquele espetáculo, sentiu-se segura, e deixou-se levar pelo som da chuva, do vento, do granizo, deitou-se num pequenino sofá onde gostava muito de estar sentada a apanhar sol, e adormeceu.

      Sonhou que uma fada saiu de um raio de sol, e transformou-a numa gota de chuva. Foram as duas passear, pelas nuvens, e desceram,  levadas pelo vento. Chegaram ao solo, descendo pelo raio de sol entre as nuvens, até ao passeio.

      Primeiro, uma gotinha levezinha como se fosse um brilhante, a fada disse que ela estava muito bonita, parecia uma pedrinha preciosa, caída das asas de uma borboleta. 

      Depois, sentiu o vento, e tornou-se mais pesada, caminhou pelo passeio, e por onde passava deixava o rasto de muitas outras gotas de chuva caídas das nuvens.

      Essas gotas que ficavam para trás, amontoavam-se, e brilhavam. Mais à frente sentiram o vento forte, a menina ouviu outra vez no seu sonho, o barulho do vento forte, e da chuva a carregar, até que se transformou numa pedra de granizo, pesada, quase não conseguia andar pelos passeios.

      Não gostou nada dessa parte, por isso acordou, e olhou para a janela, ainda estava a chover muito pesado, o céu estava cheio de nuvens e o barulho do vento era assustador.             Contou à Avó o seu sonho, e as duas riram, mas concordaram que eram sons muito bonitos, agradáveis, diferentes.

      E vocês, se sonhassem que eram chuva, seriam gotinhas levezinhas, mais pesadas ou pedras de granizo? Ouviriam o som do vento? Como desciam das nuvens para a a terra?

                                Fim 

                           Lara Rocha 

quinta-feira, 13 de maio de 2021

ser mãe e mulher (monólogo para adolescentes e adultos)










        A mulher às vezes é um lindo cisne de asas abertas, que se deixa levar pelas águas serenas do lago, ao sabor dos seus sonhos. Outras vezes, a mulher é um pavão com capacidade para seduzir.

        Umas vezes, a mulher é forte na máscara, mas por baixo da máscara ela esconde um ser frágil, um cristal, um botão de flor. Outras vezes, a mulher é uma tempestade, um raio luminoso, um vulcão que tudo derrete. 

        Mas seja qual for a sua máscara...Ela é sempre um ser mágico. Ela é MULHER! Essa é a verdadeira essência que todos acham que conhecem, mas muito raros são os que a conhecem realmente! Esses, jamais saberão os tesouros que cada faceta da mulher esconde.

        Ser mulher e ser mãe é difícil, porque é por muito tempo esquecermo-nos de nós próprias, para nos dedicarmos por inteiro aos nossos bebés, sem limite de idade! 

        Mesmo crescidos, é bom vê-los crescer, mas é triste perceber que não cabem mais no nosso colo. Ser mãe é ter o coração a bater muitas vezes forte disfarçadamente com sorrisos, mas com ele quase a sair pela boca, de preocupação. 

        Ser mãe é trabalhar até à exaustão e mesmo assim, ainda brincar com os seus pequenos como se estivesse ligada à tomada. Ser mulher e ser mãe é espalhar rastos de estrelas que acendem sorrisos com o olhar que só uma mãe tem, e iluminam os quartos dos filhos quando vão dormir só para não sentirem medo. 

        Ser mãe, é ter olhos de águia para vigiar os seus pequenos. Ser mãe é transformar-se em fera, com garras e dentes afiados para defender as crias de quem se atrever tentar fazer mal. 

        Mas ser mãe é também deliciar-se com o sorriso da sua criança, onde existe inocência, ingenuidade; pureza; bondade; simplicidade. E melhor ainda, o seu abraço, que é uma das formas mais puras, sinceras, verdadeiras de amor, reconhecimento e gratidão. 

        Quando a criança abraça um adulto, ela diz sem medo e sem máscaras, com toda a verdade, que gosta dele. No abraço de uma criança, e no brilho do seu olhar encontramos um momento de paz, e renascimento. 

        Um sorriso de uma criança, é um raio de sol, mesmo que esteja escondido entre as nuvens. Ser mulher e ser mãe é uma escolha, uma decisão que a cada uma diz respeito, porque não é fácil. 

Lara Rocha 

(12/Maio/2021)  


                   

Somos gaivotas em terra

foto de Lara Rocha 

Às vezes somos gaivotas em Terra em dias de tempestade. E outras vezes somos gaivotas na própria tempestade...Somos gaivotas em Terra...Quando temos o coração pesado...Cheio de dor, inundado de tristeza...Mas conseguimos sorrir, levantar a cabeça e seguir em frente. Conseguimos voar. Somos gaivotas na própria tempestade...Quando tentamos lutar e ficamos sem forças...A tristeza e a dor vencem-nos...As lágrimas caem teimosamente, mesmo que não queiramos...Somos gaivotas em Terra em dia de tempestade quando conseguimos ser mais fortes e encontrar a felicidade, mesmo que incompleta...Apenas aquela felicidade de máscara...Quando tirámos a máscara...sozinhos, entregues a nós mesmos, na dor, na tristeza, na solidão, na desilusão...Somos gaivotas na tempestade...quando damos pedacinhos de nosso coração, e quando nos retribuem esses pedacinhos com indiferença, com classificações pouco simpáticas...com o coração partido, pisado, magoado...Somos gaivotas em terra quando conseguimos continuar a dar pedacinhos do nosso coração. Somos gaivota na tempestade...Quando o conteúdo do nosso coração é tão pesado, quando está vazio, ferido...Que não conseguimos levantar quando não há qualquer máscara que nos valha...Quando os olhos mostram tudo...Somos gaivotas em terra e nas tempestades, quem nos protege da tempestade? Às vezes...Ninguém. Só nós mesmos...E a nossa força! E sem ela entregamo-nos, vivemos nesse mar revolto das emoções. Outras vezes...Há pescadores que nos salvam...Anjos que nos protegem, ventos que nos devolvem a força para enfrentar as tempestades, A força de um abraço, de um sorriso, de um carinho, de um beijo, de uma palavras meiga...Somos humanos, mas também somos gaivotas que queremos voar e nem sempre conseguimos, porque apanhamos tempestades.

                                                    Lara Rocha 

                                                   12/Maio/2021 

Há dias

foto de Lara Rocha 

    
   
Há dias em que me apetecia alguém completamente diferente da minha pessoa. 

Só porque...sim...tipo...apetecia-me ser uma égua, linda, elegante...e correr desenfreada, louca, solta, sem destino. 

   Subir montes, descer ravinas, percorrer castelos e campos verdes. Libertar toda a minha raiva relinchando até ficar sem voz...dar patadas. coices, fazer pó, cair em cima de certas pessoas...esbofeteá-las com o chicote da minha cauda, até ela me doer. 

     Poderia servir de defesa, proteger algumas pessoas em apuros. Gostava de ter poder para me transformar...e carregar em cima de mim, só os amores verdadeiros, os falsos, deitava-os abaixo e ainda lhes daria uma boa tareia. 

    Depois...poderia patinar no gelo, apenas com as minhas patas, devia ser bom escorregar...seria divertido! Queria ser muita coisa diferente do que sou. Por exemplo, há dias em que queremos tudo, e não queremos nada. 

     Há dias em que estamos calmos, e outros nervosos, dias em que somos: sol, luz, riso, euforia, alegria, sorrisos. E há dias em que somos...nuvens, chuva, cinzas, escuridão, tristeza, lágrimas, dor, tempestades...há dias em que sonhamos que somos capazes de abraçar o mundo inteiro, dias em que queremos ser vistos, e noutros dias queremos ser invisíveis. 

    Há dias em que desejamos poder curar o mundo, abraçar o mundo, mudar as pessoas, mudar a nós mesmos...há dias em que...quem precisa de abraços...nem que seja um...somos nós! 

      Até gostava de ser uma obra de arte, aliás, somos obras de arte, e tal como a arte, não encontramos sempre palavras para expressar as nossas emoções, nem as mais superficiais, nem as mais profundas. 

      Há dias em que queríamos ser perfeitos, mas nem as melhores obras de arte são perfeitas em tudo, quanto mais nós, que enfrentamos coisas boas e más?! Há dias em que gostava de ser uma imagem, que transmitisse o que estava a sentir, porque se em vez de palavras que podem ser traiçoeiras, ou «falsas», se pudéssemos utilizar imagens, para transmitir tudo o que às vezes fica em nós, teríamos menos problemas de saúde e emocionais. 

    Porque as imagens contam histórias, iguais às nossas e diferentes, mas que fazem despertar outras, que pensávamos estar esquecidas, guardadas no álbum das antiguidades. 

   Se nos pudéssemos transformar em arte para dizer o que sentimos, principalmente nos dias em que somos sombras deambulantes, nuvens cinzentas, chuva, escuridão, tristeza, poderíamos ser muita coisa: paisagens, mais ou menos bonitas, claras ou escuras, se pudéssemos obras de arte mais felizes, em dias tristes...elas contam histórias, fazem sentir algo especial, fazem pensar, sonhar, rir, chorar. 

    Podíamos ser qualquer tipo de arte, que é um meio de comunicação, para as palavras que se perdem e vagueiam sem encontrar a saída. Arte, dança, teatro, pintura, escrita, desenho, ou outras formas, são os suspiros da alma. Arte! 

     Há dias em que levamos o mundo à frente, e outros em que nos apetece fazer alguma coisa, mas não fazemos nada, não sabemos o que fazer. Há dias em que...somos apenas humanos, e por isso, temos dias de tudo! 

                                                                    FIM 
                                                                Lara Rocha 
                                                                12/Maio/2021 

terça-feira, 11 de maio de 2021

Os poderes do Lobo de pelo dourado

      



  Era uma vez um lobinho muito bonito, que nasceu com o pelo demasiado branco, os olhos de um azul muito clarinho, diferente dos outros. Chamaram-lhe floco. No início todos os adultos o olhavam de canto, desconfiados, nunca tinham visto um dos seus com aquela cor de pelo, mesmo assim, para não deixarem os pais tristes diziam que era um lobinho encantador. Os pequeninos não queriam saber qual a cor do pelo, queriam e adoravam brincar com ele. 

        Os seus pais pensaram que ele ia ser albino, mesmo assim iriam amá-lo, e tratavam muito bem dele. À medida que foi crescendo, o seu pelo branco foi ganhando umas rajadas douradas, que brilhavam de dia, e cintilavam de noite, como as estrelas. Ficaram todos muito assustados, e levaram-no a um sábio lobo, com muita idade, mas muito bem de saúde, cheio de conhecimentos. 

        Mal olhou para o lobito, pressentiu que ele ia ser especial, descansou os pais, dizendo que não tinha nenhum problema, talvez já outros antepassados teriam passado pelo mesmo, podia ficar assim, ou ficar totalmente coberto daquela cor e não tinha qualquer problema. Não revelou a outra parte, que o ia tornar diferente, mas ele sabia-o! 

        O lobo cresceu, e o seu pelo ficou todo dourado, cintilante, como era bonito! E parecia pressentir que havia lobos em perigo: aparecia pouco antes dos perigos acontecerem, e estava lá para salvar todos os que precisavam! 

        Quando os pequenos e grandes não sabiam da existência de armadilhas escondidas, o lobo farejava ou parecia receber sinais de alarme e como quem não quer a coisa, desviava o caminho para os livrar do perigo. 

        Abocanhava os pequenitos com carinho, pelo lombo, sempre se aproximavam do rio com água a correr com muita força, e entretinha-os na margem, explicando-lhes que não podiam estar ali, assim tão pequenos, era muito perigoso, pela água, e pelos ursos que iam lá pescar. 

       Pressentia quando as lobas iam ter bebés, mesmo antes das próprias saberem, cheirando-as na barriga, e esfregando-se centenas de vezes, perto delas, comportando-se como um lobinho bebé, a tentar comunicar-lhes que vinha mais um a caminho, e rondava-as sempre atento para que nada de mal lhes fizessem, perguntava sempre se precisavam de alguma coisa. 

        Quando os bebés nasciam, ele passeava-os e adormecia-os, acalmava-lhes as cólicas, brincava com eles, e protegia-os. Era padrinho de todos os pequenos, pela sua generosidade, cuidado e proteção. Acompanhava os lobos mais velhos, mais lentos, conversava longamente com eles, ria, e aprendia muito, como ele próprio dizia. 

        Sentia a aproximação de predadores, incluindo humanos que lhes queriam fazer mal, e mandava-os recolher, por isso nem sequer as sombras deles viam. À noite, o seu pelo era tão luminoso e cintilante que iluminava uma boa parte do chão por onde passava, e nunca passeava sozinho, porque uma alcateia inteira passeava com ele, sabiam que estavam em segurança. 

        Era quase uma lanterna! Brincava com todos, acompanhava todos, ajudava todos, protegia todos, faziam bailes à luz da Lua Cheia que ficava ainda mais misterioso e bonito com o brilho do seu pelo, ao dançar maravilhosamente bem. Uivava como, e com os grandes. 

        Pressentia quando se aproximavam tempestades umas horas antes, prevenia os outros que ia acontecer, por isso, deveriam fazer tudo o que precisassem até àquele tempo e ajudava-os. Era o orgulho dos pais e de todos, um floco branco que passou a ser dourado e era tão especial, cheio de poderes.

                                                                    FIM 

                                                                    Lara Rocha   

                                                                    11/Maio/2021