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domingo, 14 de agosto de 2016

O bairro das cortinas

                                                                       foto de Lara Rocha 


Era uma vez um pequeno bairro coberto de grandes árvores que se encostavam e formavam um telhado natural, que cobria as mimosas casinhas feitas de cascas de nozes, e ouriços de castanhas, portas e janelas, onde viviam pequenas fadas e elfos.

Dentro das casinhas tinham todo o conforto e tudo o que precisavam, cozinha devidamente equipada para cozinhar, uma salinha de estar, uma casa de banho e uma caminha, luz, água e móveis.

Não passavam frio, e estavam protegidos do calor com as árvores, mas faltava-lhes qualquer coisa…uma tarde de muito calor, um grupo de joaninhas tecedeiras que estavam tão cansadas, pousaram na relva fofa à sombra.

As fadas que estavam a descansar aperceberam-se de alguma coisa a cair. Saíram das suas casas e foram ver. Ficaram muito preocupadas porque as joaninhas estavam a respirar muito rápido…pareciam muito cansadas.

Cada fada volta à sua casa e enche uma bacia, e copos com água. A bacia para as joaninhas se refrescarem e os copos para elas beberem.

- Ai, que calor… - Suspira uma joaninha

- Está mesmo… - confirmam as outras e as fadas

- Refresquem-se! – Recomenda uma fada

- Têm essa bacia para mergulhar… - aconselha outra fada

- E estes copos para beber. – Acrescenta outra fada

- Ááááhhhhh…! – Suspiram as joaninhas consoladas quando bebem.

- Que fresquinha…! – Comentam as joaninhas ao mergulhar.

- Que água maravilhosa… - Diz outra joaninha

- Querem mais? – Pergunta uma fada

- Acho que…- diz uma joaninha

- Bem, não queremos dispor ou abusar de vocês, mas…acho que sim. – Diz outra joaninha um pouco envergonhada

- Não nos custa nada… - Diz outra fada

E algumas vão buscar mais água.

- Querem comer alguma coisa? – Pergunta outra fada

- Não! Muito obrigada. – Respondem todas 

- Vocês são daqui? – Pergunta uma fada

- Não! – Respondem as joaninhas

- Somos aqui de perto. – Acrescenta outra joaninha 

- O que estavam a fazer aqui, com este calor? – Pergunta outra fada

- Com este calor, deviam estar recolhidas a descansar… - Aconselha outra fada

- Sim, nós sabemos… - Diz outra joaninha

- É que estamos tristes. – Diz outra joaninha 

- Tristes, porquê? – Perguntam as fadas

- Porque estamos sem trabalho! – Respondem todas

- Mas o que é que isso tem a ver com o andar neste calor? – Pergunta outra fada

- Andamos à procura de trabalho…

- Como estamos muito preocupadas, não conseguimos dormir.

- Mesmo assim descansavam e vinham mais tarde.

- Mas porque é que vocês estão sem trabalho?

- Não sei! – Respondem todas

- O que fazem? – Pergunta outra fada

- Somos tecedeiras, costureiras… - Respondem as joaninhas

- Óhhh! – Dizem as fadas

- Bem…fiquem aqui a descansar um bocadinho. – Sugere outra fada

- Acho que…- pensa uma joaninha

- Vamos ficar. – Dizem todas

- Desculpem a invasão. – Diz uma joaninha envergonhada

- Não é invasão nenhuma…- Garante uma fada

- Fiquem à vontade. – Dizem as fadas

- Nós vamos ajudar-vos. – Diz outra fada

- Querem mais água? – Pergunta outra fada

- Não. Obrigada.- Respondem as joaninhas

- Aqui está fresquinho. – Comenta uma joaninha a suspirar satisfeita

- Sim, está ótimo. – Dizem todas

- Voltamos já… descansem. – Dizem as fadas

- Muito obrigada. Até já. – Dizem as joaninhas

- Nós vamos também descansar um bocadinho. – Diz outra fada

- Já voltamos. – Dizem as fadas

- Se precisarem de alguma coisa, toquem… - lembra outra fada

- Ok. Obrigada. – Dizem as joaninhas   

As fadas voltam a casa, e as joaninhas ficam a descansar. As fadas querem mesmo ajudar as joaninhas, e reúnem-se na cratera de uma árvore, um lugar onde se encontram sempre que têm decisões importantes a tomar, e quando as conversas são sérias…lá partilham as suas preocupações, medos e tentam encontrar soluções umas com as outras.

Daí saem sempre muito boas ideias e ajudas preciosas de amigas, porque levam muito a sério aquele pensamento de que duas cabeças juntas pensam muito melhor que uma.

Decidiram que como as joaninhas são costureiras e tecedeiras iam pedir-lhes para fazerem umas cortinas para as suas casas. E haveria trabalho para todas. Quando as joaninhas estavam mais recuperadas, e estava já o dia mais fresco, as fadas comunicaram-lhes a decisão e a vontade de as ajudar.

As joaninhas ficaram eufóricas, abraçaram-se com grandes sorrisos, e abraçaram as fadas. As joaninhas dividem-se pelas casas das fadas, tiram medidas, dão ideias, e cada fada quer uma cortina diferente. As fadas dão os materiais que querem por nas cortinas às joaninhas, e as joaninhas vão muito felizes para casa.

Uma fada quer umas cortinas feitas de cristais, outra quer cortinas rendadas, outra quer umas cortinas com bordados de muitas cores.

Outra quer uma cortina com o arco-íris, e outra cortina com flores variadas artificiais.

Outra quer uma cortina com conchas e outra cortina com búzios.

Outra quer uma cortina com escamas de peixes coloridas, e outra cortina com folhos.

Outra quer uma cortina com vários tecidos misturados e pregados, e outra cortina com folhas de árvores.

Outra quer que a sua cortina tenha gotinhas de água pintadas, e sóis pintados na outra cortina.

Outra quer uma cortina com estrelas prateadas num pano azul-escuro.

Outra quer duas cortinas de veludo, outra escolhe uma cortina de pano e outra de lã, outra quer uma cortina de croché e outra cortina de renda.

Outra quer uma cortina simples, uma de cor clara outra de cor mais escura.

E outra quer cortinas de missangas.

As joaninhas anotam tudo, e põem mãos à obra. As fadas sabem que as joaninhas vão ter muito trabalho, por isso não marcam data limite de entrega.

Mas as joaninhas com o entusiasmo e a felicidade de terem novamente trabalho, fazem as cortinas num instantinho, dedicam-se com muito amor e carinho, cantam enquanto trabalham, ajudam-se umas às outras, quando o cansaço toma conta, e também descansam.

Umas joaninhas acabam mais depressa do que outras, conforme os pormenores que lhes pedem. As fadas pagam-lhes, e ficam completamente maravilhadas.

Gostam tanto delas, que depois das cortinas, pedem-lhes para fazerem as lindas roupas para os seus espetáculos, e para as quatro estações do ano, lençóis, cobertores, toalhas de mesa, paninhos para cestinhas e muitas mais outras coisas…cada qual a mais bonita, para as fadas e para os elfos.

As joaninhas nunca mais tiveram sossego, e como ficaram felizes! O bairrinho ganhou uma nova vida, muitas cores, e alegria…e as joaninhas, além de dinheiro, ganharam uma nova família…as fadas e os elfos.

As joaninhas passaram a assistir aos espetáculos e a levar muitos outros amigos e amigas, que adoravam, e também começaram a trabalhar com elas. Eram espetáculos carregados de cores, magia e alegria, boa energia, muita dança e muitos aplausos.

O bairro passou a ser conhecido pelo bairro das cortinas que chamavam a atenção de todos os visitantes, e aumentavam as muitas cores que já lá havia. As casas eram verdadeiras obras de arte, completadas com as belas cortinas que as tornavam mais especiais.

E vocês? Se vivessem neste bairro, como seria a vossa casa? Em cascas de nozes, em ouriços ou em troncos…? Tinham cortinas? Como seriam essas cortinas?       


FIM

Lálá

(4/Agosto/2016)

 


O sol vermelho



Era uma vez um sol que estava na sua casa muito sossegado e quando sentiu cheiro a fumo foi à janela…não queria acreditar no que estava a ver…o fumo vinha da Terra, a sua vizinha de quem tanto gostava.

O sol sentiu um calor enorme apoderar-se dele, e ouviu a Terra a pedir socorro.


- Então vizinha…precisas de ajuda…Ááááhhhhh…estás a deitar fumo…


- Socorro…estou a arder. – Grita a Terra muito assustada


- Como?


- São aqueles malditos lá de baixo que me habitam.


- As tuas bactérias.


- Nossas.


A Terra tosse. O sol quase explodia e ficou vermelho de raiva. Era mesmo vermelho que ele estava, e era dessa cor que se via da Terra, por trás da nuvem escura de fumo.

Estava prestes a explodir de raiva pela maldade que estavam a fazer com a Terra e a Natureza…e por isso sentiam-no escaldante. O sol começou a tossir com tanto fumo, e decidiu recolher-se. Só uns dias depois voltou à sua cor normal.

Noutro dia, umas crianças de um colégio com os avós, construíram um gigantesco sol, de espuma e pintaram-no com muito carinho. Puseram-no a secar no jardim, o sol corou, fizeram uma roda, dedicaram-lhe poemas, canções, aplausos e danças.

O sol ficou vermelho de felicidade, carinho, vaidade e gratidão, enviou beijinhos em forma de borboletas vermelhas que invadiram o jardim e pousaram nas bochechas de cada um.

Ficaram muito surpresos, brincaram com elas, elas dançaram para todos, foram aplaudidas e delicadamente acariciaram com as suas leves asas.

Quando voltam à sala, as crianças construíram outro sol e pintaram-no de vermelho e puseram-no à beira do outro. O sol sorriu corado.

Um grupo de pessoas crescidas recortou muitos sóis de várias cores e tamanhos, com mensagens muito bonitas, positivas, de coragem e força, e distribuíram pelas pessoas que estavam doentes.

O sol viu lá de cima, enviou um raio da sua luz, em forma de lágrima de cristal, rubi, pela tristeza de os ver doentes, mas eram lágrimas curativas, e para retribuir esse gesto tão bonito, abriu um grande sorriso, ficou vermelho e todos os que receberam as suas lágrimas recuperaram a sua saúde e alegria.

Mas houve uma situação em que ele ficou outra vez vermelho de raiva, quando viu uma imagem igual à sua transformada num espelho, e numa porta da casa de uma bruxa que vivia numa montanha. Quase explodia…


- Como é possível, este monstro usar a minha imagem neste sítio e para maldades? Não pode ser…no meio destas figuras! Horrendas.


Lança um raio vermelho e a sua imagem desaparece desse lugar. A bruxa fica fora de si, e tenta por outra vez a imagem do sol vermelho, mas o sol não deixa e grita-lhe. O sol consegue vencer.

O sol ficou vermelho para ajudar a cozinhar num grande pote que tinha muita comida saudável para pessoas que só comiam coisas que faziam mal.

O sol ficou vermelho para aquecer uma aldeia que estava congelada há muitos meses, e as pessoas estavam a precisar dele. Fizeram uma grande festa para lhe agradecer, e ele ficou vermelho de vaidade e felicidade. Agradeceu e brilhou forte nos dias seguintes.

Ao fim da tarde, quase à noitinha, o sol fica vermelho quando vê a lua a passar, tão bonita, com os seus vestidos tão elegantes e leves. Ela é uma das suas paixões, a outra é a Terra.

À noite, a Terra acende milhares de luzes, que o sol adora ver, por isso ele não aparece…fica no seu cantinho, a vê-las, e vai passeando pelo espaço para dar os bons dias a outros pontos do Mundo, onde às vezes fica vermelho de vaidade, outras vezes vermelho de raiva, outras vezes corado de ternura, e gratidão, e outras vezes de paixão e felicidade.

É melhor que o sol fique sempre vermelho por boas razões como nós não é? E vocês, já viram o sol de cor vermelha? Quando? Onde? Em que parte do dia? Porque acham que ele ficou vermelho?

Às vezes o sol é vermelho!


Fim

Lálá

(9/Agosto/2016)


        

Os novos donos do campo


fotos de Lara Rocha 
Era uma vez um conjunto de campos muito bem tratados, com erva fresca, aparada e aos molhos para os animais: ovelhas, cabras, cabritos, bodes, cavalos, bois, vacas, póneis, vitelas e burros comerem.
Mas ao fim desses campos bonitos havia um que estava abandonado, cheio de ervas enormes, umas verdes outras amarelas, quase do tamanho dos troncos das árvores, alguns com crateras que pareciam portas. Ao longe via-se uma casa grande em ruinas.
Um dia uns seres de espécies desconhecidas, muito pequenos, que pareciam bonecos feitos de paus ou ramos fininhos, não tinham casa fixa, andavam sempre em grandes grupos, foram passear e pararam a olhar para aqueles campos tão bonitos…mas quando viram o campo abandonado ficaram tristes.
Os mochos e as corujas perceberam que algo se passava de estranho, ficam agitadas, mas continuam de olhos fechados. Uma coruja abre os olhos mas não vê os seres. Volta a fechar os olhos e a dormir. As outras ouvem alguém a falar, mas o sono não as deixou perceber.
Os seres conversam uns com os outros:
- O que está ali? – Pergunta um ser
- Tanta erva tão grande e seca!
- Parece um campo.
- Devia ser, mas da maneira que está não sei bem o que é!
- Realmente! Será um campo? Tem uma casa ali ao fundo!
- Será que vive ali alguém?
- Não sei se se consegue viver ali…
- Mas não cuida do que está à volta?
- Vamos ver mais de perto.
E todos vão ver.
- Óh! É mesmo um campo e uma casa abandonada…
- Óh! Que pena!
- Porque não cuidamos nós disto?
- Como?
- Nem conseguimos entrar com a erva deste tamanho!
- Acho boa ideia.
- Deve ter muito bicho ai na erva!
Um deles pena num pau e começa a afastar a erva para abrir caminho, a olhar atentamente.
- Sigam-me…é seguro!
Cada um pega num pau do chão e abre caminho.
- Vamos ficar por aqui?
- Boa!
- Mas temos de limpar isto tudo.
- Claro!
- Como?
- Não é a primeira vez pois não?
- Não!
- E onde vamos fazer casas?
- Arranjaremos…vamos. Mãos à obra.
Um deles chama os animais do campo do lado para darem uma ajuda. Todos os animais ajudam a rapar a erva. Óh, que surpresa…a terra estava coberta de cascas de troncos, bolotas em carapuças, ouriços-cacheiros, castanhas, folhas, e musgo nos troncos.
Os seres aproveitam tudo para construir uma linda aldeia para eles, com casinhas feitas de cascas das árvores no chão, dos lados e por cima de carapuças das bolotas, dentro das crateras das árvores.
Nessa noite, as corujas e os mochos veem algo novo.
- Ááááhhhhh! – Exclamam todos
- Estou a sonhar ou isto está muito diferente?
- Está realmente muito diferente.
- Mas o que aconteceu?
- Boa pergunta! Este não é o espaço que eu conheço.
- Será que me enganei no terreno?
- Não! – Respondem todos
- Isto não estava assim.
- Pois não! – Dizem todos
- O que aconteceu? Perdi alguma coisa…?
- Só acordaste agora…sim, estamos todos a perceber que alguma coisa mudou aqui.
- Muita coisa!
- Estou a ver casas…?
- Sim! São casas. – Reparam todos
- Que bonitas!
- São mesmo.
- Quem as construiu?
- Se calhar foram as vozes que eu ouvia!
- E a agitação que eu senti, mas não consegui ver nada! Já foi de dia.
- Está tudo muito limpo.
- Que maravilha! – Dizem todos
- Finalmente. – Suspira um mocho
- Grandes habilidosos.
- Mas construíram tudo num abrir e fechar de olhos.
- Sim, enquanto dormimos!
- Mas onde estão as pessoas que as construíram?
- Já devem estar a descansar.
Entretanto sai um casal de seres, e outro e mais outro…vários para ver as estrelas. Os mochos e as corujas dão as boas-vindas e acham-nos muito estranhos, de aparência, mas logo percebem que são boa gente, ao enchê-los de perguntas. Nas noites seguintes constroem uma bela amizade, e dispõem-se logo a ajudá-los.
Os seres estão orgulhosos:
- Que lindas estão as nossas casas.
- Pois estão.
- Assim estamos abrigados do calor e do frio…das muitas que sobraram fizeram móveis para as casas, como bancos, mesas, cadeiras, camas, e utensílios de cozinha.
Os mochos e as corujas confirmaram que a casa estava desabitada, entram e limpam o espaço todo, as várias fontes de água, tanques e tudo o que estava disponível.
Transformaram as ruinas num salão de bailes e festas que adoravam fazer, porque todos eram artistas cheios de talento. Passaram a tratar daquele espaço com carinho, plantaram coisas, construíram uma verdadeira família com os mochos, e as corujas que estavam sempre disponíveis, e sempre que a erva começava a crescer, eles convidavam os animais para a comerem.
Eram na verdade uns seres encantadores, trabalhadores, preocupados, e assim o campo que estava abandonado, ficou tão bonito como os outros.
Fim
Lálá
(1/Agosto/2016)
 

sábado, 30 de julho de 2016

O vento e o silêncio


Era uma vez uma jovem rapariga que se chamava Rubi, e vivia num acampamento de índios com uma grande família, numa montanha mais ou menos perto da cidade, onde às vezes também precisavam de ir trabalhar.

A vida era muito diferente no acampamento e na cidade! Um dia, Rosa, uma amiga da Rubi, que vivia na cidade, quis ir com ela para conhecer o seu espaço e a montanha. A Rubi também já tinha ido muitas vezes para a sua casa.

Foi muito bem recebida, no início achou tudo muito estranho, mas ao mesmo tempo engraçado e muito especial. Conheceu os muitos rituais de agradecimento, as danças diárias, as refeições, as roupas, as tendas, os objetos…ficou surpresa e assustada mas explicaram-lhe tudo com orgulho, e ela aprendeu encantada.

Teve a possibilidade de ver a maravilhosa princesa de vestido preto com estrelas, que ela pensava ser uma pessoa e afinal era a noite! Era muito mais bonita do que se fosse realmente uma pessoa como elas, pelo menos todos diziam isso e ela concordou.

Tanta estrela! Uau! De perder de vista. Deitados no chão…lindo! Diziam que a princesa de vestido preto era leve e bailava como uma pena, com o vento. Realmente parecia que todo o céu que estava por cima deles se mexia. A cama era muito confortável.

No dia seguinte, assistiu ao nascer do sol, e ao ritual que faziam para o cumprimentar e agradecer o terem acordado, e o que estavam a ver. Rosa arrepiou-se com a energia que se formou nesse momento.

De tarde a Rubi levou a sua amiga Rosa a um pequenino vale muito perto do acampamento, e disse-lhe para não falar! Ia conhecer dois amigos seus…esperam em silêncio até que chegaram os dois amigos…o vento que nunca vinha sozinho, trazia sempre o seu inseparável companheiro, de nome silêncio.

- Olha Rosa, chegaram! Olá! – Diz Rubi a sorrir

- Quem? – Pergunta Rosa

- Os meus amigos!

- Onde estão? Não vejo ninguém.

- Estão aqui. Amigos, apresento-vos a minha amiga da cidade. Chama-se Rosa.

- Mas tu falas sozinha?

- Não! Falo com os meus amigos!

- Amigos imaginários? Desculpa, acho que já somos muito crescidinhas para falar com amigos imaginários…isso são coisas de crianças pequenas…

- Não! Eles são reais.

- Mas não vejo aqui ninguém. A não ser…nós as duas!

- Fecha os olhos e ouve-os! Eles vão falar contigo. Não digas nada, para já. Primeiro ouve. O meu amigo silêncio acabou de te dar um abraço, e o meu amigo vento está a fazer-te carinhos! Estão a dar-te as boas vindas.

- Não senti nada…nem um nem outro. Nem os vejo! Os nomes dos teus amigos são esses? Vento? E silêncio?

- São.

- Nunca outra ouvi.

- Fica em silêncio.

- Mas eles falaram? Não ouvi nada…? Porque é que não aparecem? São envergonhados?

A Rubi ficou em silêncio e pediu à amiga para fazer o mesmo. Rosa ficou muito surpresa, ficou calada, mesmo sem perceber o que estava a acontecer, e porque tinha de ficar calada, porque é que os tais amigos não aparecem, nem ela conseguia ouvir…

- Rosinha…por favor…manda calar um bocadinho as vozes que estão a falar na tua cabeça.

- O quê? Estás a ouvir vozes na minha cabeça…? Ai…!

- Sim! São os teus pensamentos. Estás a pensar não estás?

- Estou…

- Sei que queres saber o que está a acontecer, que não estás a perceber nada, e que queres ver e ouvir os meus amigos…queres saber porque é que eles não falam, nem aparecem…mas…espera! Fica só em silêncio.

- Tu consegues ler os meus pensamentos?

- Consigo. É o vento que me está a dizer. Não te assustes. Fica descansada…sem falar, e aproveita esta companhia do meu amigo silêncio.

- Está bem…

- Sossega. Daqui a pouco vais saber todas as respostas.

E passado um bocado Rubi ri-se e fala com o vento.

- Estás a falar comigo? – Pergunta Rosa

- Não. Desculpa. Estou a falar com o meu amigo vento!

- Mas eu só te ouço a ti, e só te vejo a ti. Tu deves ter uns parafusos a menos…desculpa! É que não estou habituada a estas coisas…

- Não te preocupes. (sorri) Tu também podes ouvir o meu amigo vento, e o meu amigo silêncio! O meu amigo silêncio está aí ao teu lado. O meu amigo vento está a falar…fica em silêncio, fecha os olhos e ouve o que a brisa que sentes te diz. Não é uma pessoa, mas ele fala. E como vem com o seu amigo podemos ouvi-lo, perceber o que diz quando toca nas folhas, nas flores, no chão, na erva, na água, nas folhas dos pinheiros, entre os troncos, nas penas dos pássaros, no pelo dos animais, nas árvores e em nós…ele também canta e fala de sentimentos. Sente…ri…chora…revolta-se…os dois também vão à cidade, mas nunca ninguém os ouve, ou entende. Se o nosso amigo silêncio não andasse com ele, nunca conseguiríamos ouvir o vento, nem percebê-lo, tal como acontece entre nós pessoas…também não nos conseguimos ouvir uns aos outros, se falarmos ao mesmo tempo, ou se estivermos distraídos a pensar noutras coisas, enquanto falamos com alguém. Na cidade há muito barulho, e movimento, não conseguimos senti-lo…passa-nos despercebido com tanta correria. Na cidade, o vento não é bem recebido, a não ser quando está calor. Mas ele gosta de conversar. Aqui aprendemos a ouvi-lo, e é muito bom! Experimenta. Só tens de fechar os olhos…estar em silêncio, e ouvi-lo!

Rosa ouviu a Rubi atentamente, e sorriu com a beleza da explicação. Nunca tinha pensado em nada disto. Nunca outra tinha ouvido, e nunca tinha falado com o vento, nem achou que fosse possível…pensou que essas coisas eram ideias de pessoas misteriosas, com poderes, ou com algum problema mental, pois era o que lhe diziam na cidade.

Rubi ensinou-a, e vários fins-de-semana seguidos, a Rosa acompanhou Rubi ao pequenino vale onde as duas se encontravam com o vento e com o silêncio, e aprendeu também a ouvir o vento, a compreendê-lo, a interpretá-lo, a falar com ele!

Com o silêncio, ela sentia uma grande paz, alguma coisa que ela não conseguia dizer por palavras, tal como a Rubi, arrepiava-se, ria e chorava com a Rubi e com os dois amigos. Depois de aprender, as duas tinham longas conversas com o vento, e Rosa ficou muito diferente!

Até na cidade ela sentia a presença do seu amigo silêncio e do vento, às vezes chamava-os, quando precisava de relaxar e tomar decisões ou fazer escolhas difíceis, pedia conselhos e ouvia-os.

Com a Rubi e os seus dois amigos: o vento e o silêncio, Rosa descobriu todo um mundo novo que estava diante de si, mas que lhe era totalmente desconhecido pelo barulho e agitação da cidade.

Fim

Lálá

(30/Julho/2016)


DESAFIO:

E vocês? Conseguem estar em silêncio e ouvir o vento? Já imaginaram que o vento fala? O que acham que ele diz ou pode dizer? O que ouvem no silêncio? Imaginem, experimentem e escrevam alguma coisa que o vento vos tenha dito.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

A palavra da estrela cadente





















foto de Lara Rocha 


Era uma vez uma menina que foi á praia e escreveu na areia a palavra paz. À noite, antes de se ir deitar olhou para o céu e viu uma estrela cadente, a quem contou que tinha escrito na areia da praia nesse dia, a palavra Paz. Pediu á estrela cadente que levasse essa palavra pelo mundo.
A estrela cadente foi à praia e viu a palavra paz que estava intacta, como se tivesse sido escrita nesse minuto. Deitou-se na areia por cima da palavra e encheu de estrelas pequeninas e brilhantes, as três letras.
A brisa vinda do mar, soprou suavemente e a palavra paz levantou com as estrelinhas de mãos dadas para a palavra não se desmanchar. A palavra voou pelo espaço atrás da estrela cadente e passeou devagar para que todos vissem.
A menina sorriu ao ver que o seu pedido tinha sido ouvido e realizado! Quando viram a palavra paz, muitos trocaram abraços e beijos, e todos dormiram melhor nessa noite, ficaram encantados.
Enquanto todos dormiam, a palavra paz continuou a sua viagem. Em alguns cantos do mundo, quem viu a palavra paz, deu as mãos e formou-se um grande cordão humano, cada um pediu em silêncio que a paz chegasse a todo o mundo, a palavra de estrelas pairou, para receber e sentir a energia dos corações a bater serenos pela paz. No fim aplaudiram longamente, e a palavra brilhou mais forte.
Continuou a sua viagem, sem pressa, passou noutra praia e umas gotinhas do mar quiseram senti-la, com as estrelas. Outras gotinhas quiseram beijar letra por letra e levaram na sua água, estrelinhas de paz, que distribuíram pelas plantas e flores penduradas nas janelas e varandas.
Outras gotinhas cheias de estrelinhas, acariciam o pêlo dos animais, para que também eles sentissem paz. Outras gotinhas quiseram provar a palavra e saborearam cada letra. Gostaram tanto dela que guardaram a sua energia numa concha e espalharam-na por todo o oceano que ficou mais sereno que nunca.
Depois, a palavra paz regressou à menina levada na cauda da estrela cadente, com o triplo do tamanho. A menina achava que ela não ia ser devolvida, mas foi devolvida por homens que não queriam paz!
A menina ficou triste porque percebeu que uma palavra tão bonita e tão forte, não chega a todos os corações como ela, e todas as boas pessoas, gostariam. Mesmo assim agradeceu e prometeu escrever mais vezes a palavra paz, na esperança de que em breve, ela consiga derrubar corações de pedra, que só querem guerra.
Ela acreditava que ia conseguir, porque a paz é mais forte, ou é melhor que a guerra. Pelo menos no seu coração e em muitos outros, até no da natureza, a palavra paz entrou e lá ficou.

A estrela entrou com a paz no vosso coração? Conseguem senti-la? Que forma tem? Que tamanho tem? Qual o seu sabor e cor?

Fim
Lálá
(22/Julho/2016)


quinta-feira, 21 de julho de 2016

O sino rebelde



Era uma vez um sino de uma torre de uma pequena aldeia, que era muito rebelde. Todos os outros sinos eram muito obedientes, tocavam apenas o que lhes mandavam, ou tocavam a música que lhes tinham ensinado a tocar a todas as horas, ou os toques para anunciar algo.
Chegava a vez desse sino e ele tocava só o que lhe apetecia, as músicas que queria, conforme as energias que sentia no ar, e adorava denunciar as verdadeiras emoções das pessoas, mesmo quando elas tentavam disfarçar.
Quase ninguém entendia o que ele queria dizer, e se estava chateado com alguma coisa que tinha acontecido ou ouvido, fazia um barulho insuportável, irritante, e escandaloso.
Umas vezes parecia que estava a gritar, outras a chorar, outras a rir, outras a troçar, outras vezes parecia que estava parado a pensar e deixava-se levar pelos sons da natureza à sua volta.
Todos ficavam muito surpresos, porque ele não tinha horas certas de o fazer…era quando queria, e ficava louco quando o obrigavam a tocar sons que ele não gostava.
Perguntava muitas vezes aos outros sinos se gostavam que os obrigassem a tocar músicas que eles não gostavam, e se gostavam mesmo dessas músicas que os mandavam tocar ou não.
Uns sinos não lhe respondiam, outros diziam que tanto lhes fazia tocarem músicas alegres ou tristes, outros reconheciam que tocavam porque eram mandados, mas não gostavam de todas as músicas.
O sino tentava convencer os outros a juntar-se e protestarem, mas os outros não lhe ligavam. Estavam habituados. Chamavam-lhe o sino rebelde e começaram a ficar fartos dele.
O presidente da aldeia fartou-se de tantas queixas dos habitantes contra o sino, e mandou retirá-lo da torre da igreja. Muitos homens reuniram-se e fizeram um grande esforço para o tirar da torre porque era enorme, muito pesado e tinham escadas para descer.
Pousaram-no no chão encostado a uma árvore velha com um tronco que parecia uma cratera oca. O sino continuou a tocar à sua vontade, de acordo com as emoções que sentia no ar, em quem passava por lá, e as melodias que queria, à hora que queria.
Ficaram irritados quando voltaram a ouvi-lo mesmo depois de tirado da torre. Alguém se lembrou de forrar o interior do sino com esponja e espuma…com isso ele apenas vibrava mas pelo menos já não se ouvia.
Ele ficou furioso, atirou-se para o chão, e pediu socorro para ver se alguém lhe tirava aquela cobertura. Não teve sorte. Ficou assim vários dias, e de um dia para o outro, desapareceu.
Foi levado por um homem que era director e músico de um coro de outra igreja, que o pendurou, tirou-lhe a cobertura interior, e o sino tocou de alegria, aliviado. O senhor achou tão engraçado, que pediu para ele lhe mostrar o que sabia tocar. O sino ficou tão feliz que mostrou tudo o que era capaz, sentiu-se livre, e contagiou o senhor com a sua felicidade que riu, dançou e aplaudiu.
Depois, o senhor descobriu que o sino tocava de acordo com as emoções que sentia no ar, de quem passava, mas era um segredo dos dois…só os dois sabiam isso, e o sino alertava o senhor quando as pessoas estavam a mostrar emoções falsas. Falavam um com o outro por códigos…discretamente, uma linguagem que só eles os dois entendiam.
E ele passou a fazer parte da animação das missas juntamente com o coro…às vezes nem eram canções que o coro conhecesse ou que tinham ensaiado, mas eram cantadas com tanta energia positiva que todos se deixavam levar por ele, e sentiam-se bem.
O sino passou a ser muito valorizado e usado para todas as festas. Aqui o sino podia ser ele mesmo, deixar as suas emoções falarem livremente, mais positivas e menos agradáveis, todos aprenderam com o sino a expressar também as suas emoções de forma natural, e livre, tão livre como os pássaros que pousavam no sino, e levantavam voo quando ele tocava, mas depois do susto, gostavam de o ouvir e até dançavam ao som das suas melodias.
O sino não saiu mais de lá, e tornou-se amigo de todos…era o ponto de atracão de quem ia visitar a aldeia, e dos próprios visitantes. Foi rejeitado num lugar, mas aceite noutro. A mudança levou-o para a felicidade.
Fim
Lálá

(21/Julho/2016)