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segunda-feira, 17 de março de 2025

O saquinho das amoras

 


    























    Era uma vez uma floresta ao lado de casas numa pequena Vila. Uma floresta aparentemente pequena, achavam as pessoas, porque a entrada era escura, provocada pela sombra das árvores enormes, frondosas, que se entrelaçavam umas nas outras. 

    Formavam um túnel onde dificilmente entraria o sol, e no Inverno, a entrada era tapada com as folhas que caíam das árvores, um manto em altura que parecia uma porta. 

    Nenhum habitante, desde as primeiras gerações que viveram nesse lugar tinha entrado na floresta, porque ouviam muitas histórias de terror, de coisas que aconteciam a quem se atrevesse a tentar entrar para explorar o espaço. 

    Contavam muitos mitos, lendas que pensavam ser verdadeiras, porque ouviam barulhos estranhos, principalmente de noite! 

    Gritos, vozes que não se percebia o que diziam, mas pelo tom, pareciam estar a discutir, risinhos maléficos, estalidos, ressonâncias, sons misteriosos que não faziam parte do dia a dia, e do meio onde estavam.

    Diziam que viviam seres muito diferentes do ser humano, não humanos ou humanos cruéis. Na verdade, tudo não passava da imaginação das pessoas, por histórias contados dos antepassados, pelo medo do desconhecido e do escuro, embora nunca tivessem visto ninguém. 

    Histórias, mitos e lendas que faziam as pessoas ficar em casa à noite, imaginar coisas à noite, e tinham a certeza de que vinha da floresta, sentiam pavor, pânico, ansiedade. 

    Custava-lhes a adormecer, porque ficavam a pensar no que teria a floresta, se era assim tão terrível como diziam. 

    Um dia, dois adolescentes que também sentiam medo, viram um saquinho de lindas amoras vermelhas à sua porta, e na porta de outras casas. 

    Ficaram preocupados, mas gostaram tanto da cor do fruto que se esqueceram das lendas e mitos, nem sequer pensaram que poderia ter vindo da floresta. 

    Não sabiam como esse saquinho tinha aparecido à porta das casas, provaram e adoraram. Ofereceram aos pais e familiares, que primeiro gritaram: 

- Cuidado, não comam isso! Pode ser venenoso ou uma armadilha da floresta. - diziam os pais 

- Qual venenoso, ou armadilha, mamã e papá...claro que não é! Eu acabei de provar, e são uma delícia. Não sei quem as pôs aqui. - disse a Adolescente 

- Mais uma razão para não comer isso! Não sabemos. - diz uma mãe 

- Está bem, não querem provar, é quanto perdem! 

    A adolescente continua a comê-las deliciada. O adolescente faz o mesmo na casa dele, e as outras casas onde estava o saquinho com amoras. 

    Os pais decidem provar, a medo, mas primeiro rezam para que  não seja uma armadilha ou venenoso. Os adolescentes riem-se. 

    Todos comem e percebem que realmente tem um sabor irresistível, é bonito e não lhes aconteceu nada! Quando saem a porta, encontram-se com os outros vizinhos, e conversam sobre o saquinho das amoras que receberam. 

    Todos comeram a medo, mas acharam maravilhoso. 

- De onde terá vindo? - perguntam-se todos 

- Quem é que o terá deixado aqui à nossa porta, e para quê?  perguntam  todos 

    Quando olham para o chão veem várias amoras espalhadas pelo chão, até à entrada da floresta e no inicio desta. 

    Começam aos gritos, em pânico. 

- Eu disse que era uma armadilha! Ou veneno. - diz uma senhora com uma certa idade 

- Eu também. - concordam os pais da adolescente, em pânico. 

    Os adolescentes desatam às gargalhadas. 

- E agora, o que nos vai acontecer? - pergunta outro senhor

- É melhor chamarmos já ajuda, porque isto pode dar cabo de nós! - diz um senhor com alguma idade muito assustado 

    Os adolescentes não param de rir pelo exagero dos adultos, e por sentirem aquele pânico todo, ao pensar que vinha da floresta. 

- Eu vou entrar! - diz a adolescente 

- Eu vou contigo! - diz o adolescente 

- Eu também vou… - dizem todos os adolescentes 

- Vocês são loucos? - grita a Avó de um deles 

- Nem pensam no que estão a fazer! - diz outra Avó 

- Já deve ser efeito do veneno! - comenta um sr. 

- Só se riem, e ainda por cima querem entrar ali. - comenta outra Avó 

- Vamos, pessoal. 

    Os adolescentes, entram às gargalhadas na floresta. 

- Que irresponsáveis! - grita uma mãe 

- Voltem imediatamente. - grita outra mãe 

- São completamente loucos! - diz um pai 

- É da idade, mas vão-se arrepender! - comenta outro pai 

- Eu tenho pena mas não vou ajudá-los! Sempre tive, e tenho medo! - diz uma mãe 

- Eu muito menos - diz a Avó 

- Que assumam! - comenta um pai, nervoso - Eu também não me meto lá. 

- Nem eu! - dizem todos 

    Enquanto aguardam com expectativa e medo, a olhar para a entrada da floresta, os adolescentes, alguns a esconder e a disfarçar o medo, conversam alegremente, caminham, olham a toda a volta, para cima. 

    Apanham alguns sustos com alguns animais, que aparecem de repente. Continuam a andar e identificam muitos dos barulhos que achavam estranhos e ouviam de noite. 

    Percebiam que eram os guinchos, os gritos, os risos maléficos, que os faziam imaginar coisas. 

    Viram seres iguais a eles, pessoas, com alguma idade, outros mais novos, e crianças, que se refugiavam naquele sítio, e onde viviam desde sempre. 

    Famílias inteiras a viver em tendas de campismo, e árvores, muito simpáticos e acolhedores, com um estilo de vida muito próprio, diferente do deles. 

    Os adolescentes perguntam se foram eles que deixaram aqueles saquinhos de amoras nas portas. Eles responderam que sim. 

- O que são? - pergunta um adolescente 

- São amoras! Gostaram? 

- Muito! - respondem todos 

- Os nossos pais, avós, tios, vizinhos estavam cheios de medo de comer isso, a pensar que era venenoso, ou uma armadilha! - diz um Adolescente a rir 

    Todos dão uma  gargalhada. 

- Não! Podem estar descansados, que não é nenhuma armadilha, nem veneno! Porque pensaram isso? Nós oferecemos, porque faz parte da nossa cultura, para nunca nos faltar nada! Não pusemos antes porque deixamos noutras portas por aí, noutros lados, mas este ano, escolhemos vocês, que não conhecemos! Mas somos pessoas como vocês, trabalhamos na cidade, levantamo-nos muito cedo, outros trabalham de noite, temos horários diferentes, as crianças andam nos vossos colégios, e escolas. 

- Áh! Que giro! - dizem todos a sorrir 

- Nunca ninguém entrou aqui, porque há muitos medos, mitos e lendas em relação a esta floresta. - diz uma Adolescente

- A sério? - diz uma habitante surpresa a rir

- Sentem-se aqui um bocadinho connosco, e contem-nos, por favor. 

    Os adolescentes sentam-se numa manta, e todos ouvem o que os visitantes contam. Todos desatam às gargalhadas e os Adolescentes também. 

- E vocês acreditavam? - pergunta uma habitante 

- Ahhhh...no início sim… - diz uma Adolescente 

- Sentíamos medo, pelo que contavam e achávamos que era verdade, porque ouvíamos alguns barulhos no escuro, que já descobrimos de onde vem. Como não conhecíamos, também imaginávamos coisas estranhas.

(Todos riem) 

- Pois, nós também nunca nos encontramos antes, nem lá fora, nem cá dentro! - diz a habitante 

- Ficaram cheios de medo que nós entrássemos…! - diz outra Adolescente 

- Claro, entendo! O medo faz parte de nós, e faz-nos imaginar coisas que não existem, o que não conhecemos. É normal. As nossas crianças, filhos, e adolescentes da vossa idade também têm os seus medos de coisas absurdas. Até os Avós, e nós. - explica outra habitante. Nunca vimos nada aqui, do que eles imaginam. 

- Sim! - confirmam os Adolescentes 

- Estamos a aprender isso. - diz outro 

- Mas...eu vou convosco, buscar as vossas famílias e vizinhos para virem conhecer a floresta, e a nós, e perceberem que afinal o medo deles não faz sentido. Nada do que eles imaginam sobre esta floresta, nada do que contam, é verdade! 

- Boa idade! - concordam os Adolescentes 

    Os habitantes acompanham os habitantes até à entrada da floresta, numa conversa muito animada, a rir, a mostrar coisas. 

    Os pais, os Avós, os tios e os vizinhos ficam muito assustados, surpresos ao ver os Adolescentes com todas aquelas pessoas desconhecidas. 

- Estão bem, filhos? - pergunta uma Avó

- Ótimos! - respondem todos 

- Quem é esta gente toda? - pergunta uma mãe inquieta 

- Olá! Somos os vosso vizinhos, aqui da floresta cheia de mitos e lendas, terrores… .- diz uma habitante 

(Todos dão uma gargalhada) 

- Venham conhecer a floresta que vos assusta tanto, e vão ver que nada do que sempre vos foi dito, é verdade. - acrescenta outra habitante 

- Como assim? - pergunta outro Avô 

- Nunca vieram a esta floresta porque sentem  medo, não conhecem como ele é, e isso alimenta a vossa imaginação. Mas acompanhem-nos, e venham conhecer. - convida outra 

    Todos seguem os habitantes e entram na floresta. Primeiro, a sentir medo, ao lembrar de tudo o que diziam existir. 

    Depois, a perceber que afinal aqueles ruídos e barulhos, sons estranhos, eram da natureza e não tinham nada de terrível. 

    Os gritos e os guinchos que ouviam era o vento entre as folhas das árvores nos descampados a passar entre as searas de milho e trigo, as agulhas dos pinheiros altos. 

    Os risinhos e as vozes que ouviam sem se perceber o que diziam, eram as pessoas que viviam nas tendas e nas árvores, a conviver, e a conversar entre si. 

    As crianças a brincar e a rir, eram os risinhos diabólicos. Viram coisas que nem imaginavam ser possível existir naquele lugar misterioso. 

- Tão bonito isto! - suspiram e comentam os visitantes 

- Por causa do medo e do que nos contavam o que estávamos a perder! - comenta outro visitante 

- E nós acreditamos sempre...então o medo já era deles, e dos nossos avós, bisavós. Os mitos, as lendas, que inventavam, ninguém se atrevia a entrar aqui, mesmo não conhecendo, nem para conhecer. - lembra outra visitante

- Sim, acredito que sim. Nunca veio cá ninguém! É verdade, inventam cada uma, para não exporem a riscos desnecessários, e justificar de forma disfarçada o medo do que não conhecem! Nem permitem que outros conheçam, para não sentirem medo, sozinhas, e sozinhos. - diz uma visitante 

- É verdade! - confirmam todos os habitantes a rir 

    Ficaram encantados, com as paisagens e flores, frutos, cascatas, riachos, montanhas, prados muito verdes. 

    O gado que pastava sem pressa, outros deitados à sombra, alguns cavalos a correr livres pelos prados, ovelhas, vacas e bois, no repasto de erva suculenta. 

    Ouviram pássaros a cantar e a voar, de todos os tamanhos, patos a boiar, peixes de todas as cores, sol e sombra.

    Enquanto viam as maravilhas da floresta, ouviam o dia a dia dos seus habitantes, e entenderam que o medo falava mais alto, até lhes fazia ver e ouvir coisas que não existiam. 

    Como estavam errados, pediram desculpa, um pouco envergonhados, e a rir. Agradeceram as amoras, convidaram para voltarem sempre que quisessem e tudo o que precisassem, era só chamar. 

    Retribuíram, e nos dias seguintes, cumprimentavam-se, conversavam, riam, partilhavam alimentos e construíram uma linda amizade, uma família. 

    Passaram a ir mais vezes passear pela floresta, para apreciar todas as belezas, e conviver com os seus habitantes. 

    E vocês? 

Sentiriam medo de uma floresta que não conhecessem? 

Acham que as lendas, os mitos e o medo do que não se conhece, ou que tem um aspeto diferente, pode despertar medos? 

Que lendas e mitos é que já vos contaram, e que vos fizeram sentir medos? 

Confirmaram se existia mesmo? 

Continuaram a sentir medo?  

Se entrassem, o que viam? 

    Podem deixar nos comentários, o que quiserem. 

                                            FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      16/Março/2025 


sexta-feira, 14 de março de 2025

O menino com estrelas nos olhos

 

 boneco e fotografia de Lara Rocha 

    Era uma vez um menino não muito rico, que vivia com a sua família numa pequena casa, parecia frágil e desfazer-se a qualquer momento, num descampado de uma grande cidade, onde existiam mais casas, de pessoas a viver com dificuldades. 

    Na verdade, não tinham tantas coisas materiais como as crianças de agora, nem tecnologia, fugiam da Guerra, e da pobreza dos seus países. 

    Os pais trabalhavam, mas não faltava comida, higiene, livros, brinquedos, brincadeiras com os vizinhos, amigos e familiares ao ar livre, e nas casas uns dos outros. 

    Tinham muito amor, carinho, atenção, dedicação, diálogo, entre os pais e as crianças, interação e alegria, muitas gargalhadas, mesmo que às vezes não estivessem muitas horas com os filhos. 

    Quando estavam, estavam, inteiros, só para os filhos, com  carinho, amor, atenção, brincavam com eles, eles ajudavam os pais como podiam e sabiam nas tarefas, e os pais valorizavam, elogiavam, mesmo que não estivesse perfeito. 

    Eles próprios produziam muita da sua comida numa pequena horta, e partilhavam o que uns tinham e outros não, ou quando precisavam. 

    Não faltava roupa, bem tratada, limpa, passada a ferro, nem camas onde dormir, tinham cozinha, sala, casa de banho, sótão. 

    Eram crianças educadas, os pais estavam sempre preocupados em saber como iam na escola, falavam com os professores, pediam para ajudar os meninos, e era isso que faziam. 

    Crianças muito bondosas, como os pais. Cada um rezava várias vezes para agradecer tudo o que tinham, só pediam que continuassem juntos, com saúde, com comida, felizes, com comida, água, casa, cama, roupa, e o amor e carinho dos pais, dos irmãos, dos amigos, dos vizinhos e outros familiares. 

    Eram crianças e adultos com estrelas nos olhos, que faziam confusão aos coleguinhas da cidade, com mais bens materiais do que eles. 

    Não percebiam como é que não tendo o que eles tinham, nada, ou quase nada como achavam que era, conseguiam sorrir, rir, estar interessados nas aulas, ser bons alunos. 

    Um dia, um menino perguntou a esse coleguinha: 

- Desculpa, posso fazer-te uma pergunta? 

- Sim, claro! Faz…!

- Onde vives? 

- Já sabes onde vivo, é naquele descampado aqui da cidade, com mais pessoas, umas da minha cor, da minha raça, outras de outros lugares, e damo-nos todos bem! Mas não é só essa a pergunta, pois não? 

- Ahhh...bem...não quero ser demasiado aborrecido, mas...como é que vocês vivem? Não têm o mesmo que nós, pois não? 

- Temos muitas coisas que vocês têm! Uma casa, uma cama, pais, irmãos, primos, tios, água, comida, roupa, não nos falta atenção, amor, carinho, dedicação, conversa com os nossos pais e com os outros, brincadeiras. Não passamos frio, nem necessidades. 

- Mas vocês não têm telemóveis, nem mochilas de marca, nem roupa como a nossa, nem sapatos como os nossos, nem computadores. 

- Mas temos isso tudo, para que é preciso marca? Ou telemóveis e computadores? 

- Nós não vivemos sem isso! 

- Pois, já reparei, mas os professores deixam-nos fazer os trabalhos à mão, eu gosto. 

- Vocês não brincam? 

- Brincamos, e muito! 

- Com quê? 

- A muita coisa, ao que nos apetece, e ao que nos faz felizes. Temos brinquedos, brincamos ao ar livre, uns com os outros, e nas casas uns dos outros, temos livros, lemos muito. E tu, brincas? 

- Sim, quer dizer...com brinquedos não, brincamos com os telemóveis, jogos eletrónicos, já somos crescidos para brincar como tu. 

- Que asneira! Vocês não são felizes, pois não? 

- Somos...

- Sois? Não parece nada. Duvido que ao brincarem com essas coisas, sejam felizes, como nós. 

    O menino fica pensativo. 

- É a marca das roupas, lá essas coisas eletrónicas que vos fazem felizes?

- Sim...- diz o menino triste 

- Porque ficaste triste? 

- Porque...acho que na verdade não temos tudo o que tu tens para ser feliz. 

- O que vos falta? 

- Falta-nos...o estarmos mais tempo com os nossos pais, que trabalham muito, e ao fim do dia, estão cansados, querem descansar, deixam-nos com os telemóveis, jogos e trabalhos de casa, mas não têm tempo para brincar connosco, até porque já somos crescidos para isso, como eles dizem. 

- Os meus pais, e os nossos pais também trabalham, nem sempre estão muitas horas connosco, mas quando estão, fazem-nos felizes, dão-nos amor, carinho, atenção, falam connosco. 

- Pois, os nossos pais não têm tempo para isso, levam trabalho de casa e tudo. 

- Para quê? 

- Para nos darem tudo o que precisamos! 

- E isso deixa-vos feliz? 

- Acho que...agora que estou a falar contigo...acho que não! 

- Claro que não podem ser felizes! De que adianta ter tudo, material, do bom e do melhor, se os pais se sacrificam tanto para vos dar o que precisam, mas não dão o que precisam realmente, e o que vos faz verdadeiramente felizes? 

- Pois é! Tens razão. 

- Um dia destes, vais à minha casa, ver como somos felizes, sem essas vossas coisas. Está bem? 

- Está bem. Obrigada, desculpa se fiz alguma pergunta que não devia. 

- Não faz mal. 

    Os dois combinam uma visita ao descampado onde vive o menino com estrelas nos olhos. Ficou muito surpreso, por ser tão bem recebido, e por perceber que todos eram tão felizes com tão pouco, como ele achava. 

    Brincaram, riram, o menino apresentou o amigo a toda a gente, todos o receberam com carinho e sorrisos, ele visitou várias casas, que realmente não tinham muito luxo, como as deles, mas tinham o essencial e eram confortáveis, acolhedoras. 

    Os pais dos meninos foram todos muito simpáticos, acolheram-no como se ele fosse da família, divertiram-se à grande, ele brincou com brinquedos como já não fazia há muito tempo, e adorou, sentiu-se feliz, riu muito, com todos. 

    Percebeu que o menino tinha razão, que tinham tudo! E eram felizes, muito mais do que ele e os outros meninos que viviam em casas com eletrónicas, que tinham computadores, jogos eletrónicos, roupas e sapatos de marca. 

    Mas realmente, a relação entre todos não se comparava com a deles. Sentiu-se feliz, como nunca antes se tinha sentido. 

    Não lhe faltou carinho, bem brinquedos e muita gargalhada, amizade, e até lanches recheados. Decidiu que ia dizer aos seus pais, que sentia falta do amor, do carinho, da presença, da atenção deles, mesmo que não fosse muito tempo, e que queria voltar a brincar com brinquedos. 

    Aprendeu muito com este amiguinho, e antes de ir para casa, agradeceu, dizendo-lhe: 

- Muito obrigado, amigo. Por me ensinares o que é a verdadeira felicidade, que esta está na simplicidade, no amor, na amizade, no carinho, na presença, no ter o suficiente. 

- De nada! Anda mais vezes, serás sempre muito bem recebido e muito bem vindo. Aqui foste feliz, não foste? - diz o menino a sorrir 

- Sim, fui! Muito feliz. Obrigado por me ensinares e mostrares o que é a felicidade. Agora é que percebi porque é que tens estrelas nos olhos, tu, e os teus! Todos os que aqui estão. 

- Sim! De que achas que é? 

- É de felicidade! E ela está em coisas que eu nunca imaginei. 

- Pois é! - sorri o menino - volta sempre! Hoje também tens estrelas nos teus olhos. 

- São de felicidade! - sorriem os dois, e trocam um abraço - Muito obrigado por tudo! Voltarei, sim.

- Até amanhã! 

- Até amanhã! 

    E o menino vai para casa, feliz, conta aos pais, que se sensibilizaram, quiseram falar com os pais do amiguinho, para saber como conseguiam, aprenderam, e fizeram como eles, tornando o menino tão feliz como o amiguinho. 

    Levaram-no para casa, brincaram juntos, e com os outros amigos, riram muito, os pais arranjaram tempo para estar com o filho.  

    Só para ele, como faziam os pais do outro menino, deixaram de se preocupar tanto com o trabalho, e aprenderam com aquela comunidade o que era a felicidade, onde estava, a ficar com estrelas nos olhos como eles. 

    Tornaram-se quase uma família, e sempre que havia coisas que os filhos já não queriam, ou não vestiam nem calçavam, davam ao menino da comunidade e aos outros familiares, amigos, pais, primos, vizinhos.

    Aprenderam a partilhar, e recebiam outras coisas em troca. Quando isso acontecia, ficavam com estrelas nos olhos porque seria? 

Podem deixar os vossos comentários, se quiserem. 

                                                                                      Fim  

                     Lara Rocha 

                                                                             13/Março/2025 



     


sábado, 15 de fevereiro de 2025

À procura da neve











desenhado e pintado por Lara Rocha - A montanha Alpina 

    Era uma vez uma montanha Alpina com muita neve o ano todo, e lagos gelados, com partes congeladas, outras onde havia água e alimento. 

    Lá viviam muitos ursos e lobos. Além da neve numa parte da montanha, na outra metade era verde, com cabras que pastavam penduradas em rochas, e gado nos campos. 

    Ficava muito perto da povoação, com habitantes que não se atreviam a subir à casa dos ursos, como lhes chamavam. A neve chegava para todos e água de riachos com fartura, peixes que deliciavam os ursos de várias espécies, e o sol também marcava a sua presença mas não derretia a neve. 

    Quando isso acontecia, os habitantes da povoação deliciavam-se com a paisagem porque tudo brilhava, nos campos e à volta das casas, com as gotinhas de água nas flores e na relva, mas o mais especial era mesmo ver as montanhas pintadas de branco. 

    Os ursos e animais do gelo, que partilhavam o mesmo espaço sentiam-se felizes, e em paz, conviviam bem uns com os outros. 

    Riam, brincavam, mergulhavam, caçavam, repartiam os alimentos, e deleitavam-se com tanta neve, onde se deitavam, e dormiam em tocas, ou grutas com neve por cima. 

    De repente, aconteceu uma coisa muito estranha e quase terrível, com que ninguém contava: os incêndios nos montes, nas cidades mais próximas. 

    Os lobos e os cães das casas começaram a uivar como se não houvesse amanhã, um uivo de pânico terror, angústia, na noite em que começaram os incêndios. 

    Era um uivo arrepiante, as pessoas ficaram preocupadas, mas parecia tudo calmo. Os lobos e os cães pareciam pressentir ou anunciar alguma coisa. 

    Quase não conseguiram dormir com os uivos e o ladrar, e de manhã, perceberam o porquê dessa sinfonia! Uma poluição atmosférica que causava aflição, porque deixava o céu escuro, o sol vermelho, e onde ardia igualmente vermelho. 

    Que visão infernal. Os habitantes da povoação sabiam o que era, estavam inquietos, preocupados, com medo, porque o vento podia levar as chamas para a sua zona. 

    Sentiam dificuldade em respirar, tossiam, e tiveram de recolher o gado para não ficarem expostos ao fumo. A temperatura do ar subiu horrivelmente, um calor a que ninguém estava habituado. 

    Apanharam o máximo de alimento e água, não sabiam quanto tempo ia durar. Nessa manhã, os ursos viram que alguma mudança estava a acontecer, sentiram a agitação, um calor que se podia, e nunca tinham enfrentado, viram o fumo preto e o céu vermelho. 

    Ficaram nervosos e com medo, mesmo assim, tentaram disfarçar e fazer o seu dia normal. Pensaram que o que quer que fosse não chegava lá. 

    Os incêndios eram cada vez mais, de maiores dimensões, a poluição piorava, o ar era irrespirável, a neve começou a derreter, e estavam com dificuldade em aguentar aquela temperatura, aquele ar. 

    O gado não saía, as pessoas também quase não porque não aguentavam. Estavam todos muito preocupados. Como a neve estava a derreter, os ursos, cheios de pena e muito furiosos, tiveram de deixar aquele local, e deslocar-se sem rumo, tristes, a chorar, para onde houvesse mais neve, e mais fresco. 

    Andaram vários quilómetros, e encontraram! Que alívio! Fizeram uma festa, tinham neve com fartura, o ar gelado limpou-lhes a poluição, e sorriam, inspiraram e expiraram, rebolaram na neve, mergulharam, caçaram e guardaram alimento nas tocas provisórias. 

    Pelo menos esse era o desejo deles: que em breve pudessem voltar àquele sítio onde viviam. Estavam muito sossegados, poucos dias depois, os incêndios e a poluição continuavam, as temperaturas muito altas também, e chegou ao lugar onde eles estavam. 

    Aterrorizados, perceberam que a neve também tinha desaparecido, e os glaciares estavam a estalar, largando pedaços de gelo, a partir e a derreter aos bocados. 

    Choraram, e furiosos voltam ao sítio onde viviam antes, na esperança de encontrar neve. Quando chegaram, nem queriam acreditar...os incêndios tinham chegado lá, queimaram pastagens, os verdes estavam agora negros e tinham virado cinzas, pó. 

    O gado estava recolhido, a terra ainda fumegava, e a população chorava. Não havia sombra de neve, só calor e cinza. 

    Os ursos ficaram completamente fora de si, gritaram furiosos, mergulharam na água que também tinha diminuído. Felizmente ainda dava para se refrescarem e caçarem para comer. 

    Mas eles queriam neve. Na água, acalmaram e partilharam a preocupação, baixinho, desviados dos ursinhos pequenos para não os assustar. 

- O que está a acontecer? - pergunta um urso

- Não sei! Mas alguma coisa grave, foi. Isto nunca esteve assim. - responde outro 

- Pois não. - concordam todos 

- A população também está assustada e nervosa...Aquele céu metia medo, e este calor, não é normal! - comenta outro urso 

- Não, mesmo! - concordam todos 

- A neve que encontramos mais à frente e o fresco também desapareceram num instante…

- Pois! Até lá estava calor. 

- E agora, aqui...assim! 

- Por este andar não sei onde teremos neve. 

- Teremos de procurar! 

- Ela há-de voltar...espero eu. 

- Também eu! - concordam todos 

- Até esta água está quente…- repara outro 

- Pois está. 

- Que horror. 

- Nestas alturas, gostava de me transformar em humano para lhes perguntar o que está a acontecer. 

- Eu também! - dizem todos

    Passados uns dias, chove torrencialmente, e ajudou a apagar os incêndios, limpou  a poluição, e as terras, o ar ficou bem mais fresco, mas não houve neve. 

    Os ursos voltaram ao sítio para onde fugiram...estava tudo na mesma. 

- Que tristeza! - lamentam e murmuram todos 

    Regressam a casa: 

- Está bem melhor! - diz um urso 

- Realmente! Oxalá traga neve! 

- Vamos fazer uma corrente, dar as mãos e pedir neve? - sugere um urso 

- Boa! - concordam todos 

    Ninguém sabia se ia funcionar, mas tentaram. Os seus antepassados diziam para fazerem isso, e pedirem o que precisassem, ou em momentos de aflição. 

    Chamaram pelos pequenitos, e todos deram as patas. Os adultos explicaram às crias o que iam fazer. Elas compreenderam, e todos pediram em silêncio, num grande círculo, à volta do lago, que a neve regressasse. 

    A chuva torrencial, o vento e o frio continuavam muito intensos depois de pedirem juntos, recolhem às suas tocas. O seu pedido foi ouvido e realizado. Nessa noite nevou, uma boa camada. 

    De manhã acordaram e ficaram muito surpresos, 

- A neve voltou! - grita o urso que sugeriu fazerem a corrente, sorridente

    Batem palmas, riem, soltam exclamações de felicidade, abraçam-se, atiram-se para a neve, ás gargalhadas, rebolam, mergulham na água gelada, congelada de um lado, caçaram, comeram, brincaram uns com os outros, saltitaram. 

    E agradeceram, não sabiam a quem, mas sabiam que existia alguém Superior, que os ajudava sempre que precisavam ou quando pedissem. 

    A neve continuou a cair durante o dia, e a amontoar, o gelo do lago aumentou, do outro lado, a água continuava a correr para se alimentarem. 

    Passou uma alcateia de lobos e um urso perguntou: 

- Óh...lobos, desculpem...podem-nos dizer o que aconteceu há dias? A neve derreteu… 

    Um lobo respondeu: 

- Claro. Houve muitos incêndios, muita poluição, muito calor, muito fumo, temperaturas nunca antes sentidas, de abafar, foi isso que fez derreter a neve, aqui - explica um lobo 

- Aquele sol vermelho e céu cinzento que de certeza também viram. - Acrescenta outro lobo 

- Sim! - respondem os ursos 

- Nós tivemos de ir para outro sítio, a uns quilómetros daqui, à procura da neve, encontramos, mas essa coisa terrível também chegou lá, derreteu a neve, o gelo estava a estalar por todo o lado, e a partir, um calor que não se podia. Voltamos para aqui. A visão não foi a melhor, mas felizmente choveu e agora nevou! 

- Pois é! - dizem os lobos 

- Os humanos disseram que foram as alterações cli...cli....climáticas, ou climatéri...qualquer coisa assim. Pelos vistos, já aconteceu mais vezes. Dizem que está a dar cabo deles e de nós, da Natureza e vai continuar a acontecer. - acrescenta outro lobo 

- Ficaram praticamente sem comida para os bichos, agora! - comenta outro lobo 

- Armazenaram enquanto tinham, até o fogo chegar aqui...mas não nascerá comida tão cedo! 

- Que horror! - dizem os ursos 

- Foi mesmo. Nós sentimos muito medo, quando começaram lá em baixo, muito antes de chegar aqui. 

- Foi quando uivaram muito, não foi? 

- Sim! Nós e os cães das casas, estávamos a avisar, e com muito medo, pressentimos que podiam estar em perigo! 

- Estão muito tristes e preocupados! - diz um lobo 

- Claro! Imaginamos que sim. Nós também tivemos medo que não houvesse mais neve! 

- E nós tivemos medos de tudo! Do fogo, do calor, de poder faltar comida...foi horrível - partilha outro lobo. 

    Os lobos e os ursos conversam mais um bocado, agora mais descansados. Os ursos agradecem a explicação e os lobos seguem caminho. Vão dar uma volta. No regresso um urso diz-lhes: 

- Se precisarem de alguma coisa, estamos aqui! 

- Obrigado! Nós também. - responde o lobo. 

- Foi muito bom termos conversado e partilhado os nossos medos. - acrescenta outro lobo 

- Claro que sim, nós também os sentimos. - diz um urso 

- Pois. - diz outro lobo 

    Como eram amigos, às vezes juntavam-se para passear, conversar, e conviver. Quando precisavam, estavam uns para os outros. 

    Sentiram pena dos animais e das pessoas da povoação, que pensaram eles, devem ter sentido ainda mais medo do que eles, e queriam ajudar. 

    Reuniram-se com os lobos, estes acharam uma ótima ideia, e partilharam o sentimento de pena. Também queriam ajudar. Pensaram em conjunto, como e se podiam ajudar as pessoas da povoação, e tiveram uma ideia. 

    Cada urso e cada lobo carregou fardos de palha, erva seca, erva suculenta, flores silvestres, e outras coisas coisas do chão, por onde passaram, que sabiam que os outros animais comiam. 

    Várias vezes no mesmo dia, deixando á porta de cada pessoa da povoação para os animais. Os ursos levavam pedaços de gelo que estavam a boiar, em sacos que usavam para os manter congelados, puseram nas pias dos animais, derreteram rapidamente e transformaram - se em água. 

    As pessoas da povoação fechavam-se em casa, com medos dos ursos e dos lobos. Mas nem queriam acreditar no que estavam a ver. 

    Em vez de os correr, os ursos e os lobos receberam mimos, alimento extra, e agradecimento: 

- São a nossa salvação e dos nossos animais também. Gratidão gigante, a vocês bichos maravilhosos! - diz uma senhora 

- Nunca vi animais assim, a ajudar-nos e a trazer-nos alimento, bebida. - comenta outra muito surpresa 

- Que coisa fantástica! - suspira um senhor 

- São sempre muito bem vindos. - diz uma senhora comovida 

    Os lobos e os ursos retribuem os mimos com encostos, lambidelas, abraços com as patas á volta dos humanos, e estes riem, deliciados. 

- A terra está a gritar e a avisar que está doente, mas há gente que não a ouve, a ambição e o dinheiro, ou a maldade, não as deixa ouvir a dor da Terra. - lamenta um senhor 

- Ficamos praticamente sem nada para comer, só ração, e não lhes faz tão bem, e esta água...que pura! - diz outra senhora.

- Vivemos um terror! - acrescenta um senhor 

- E vocês tiveram de fugir, não? - pergunta outro senhor 

    Os animais respondem á maneira deles, as pessoas percebem. Durante vários dias, e sempre que os ursos e os lobos percebiam que os outros estavam a ficar sem comida, ou água, faziam caminhadas, com comida e gelo. 

    A população parecia que via seres mágicos, ou encantados, e fartava-se de os mimar, agradecer, retribuir. A neve continuava a cair, lobos, ursos, humanos e animais das casas, tornaram-se numa grande família. Todos ajudavam e as pessoas retribuíam.  

     Ajudar, agradecer, retribuir.  

                                                        Fim 

                                                   Lara Rocha 

                                              15/Fevereiro/2025 


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

A rolinha que tinha medo das alturas

      

Foto tirada por Lara Rocha 


   Era uma vez uma rolinha pequenina que andava em terra, não subia às árvores como as outras. Ficava mais no seu ninho. Olhava para as outras que voavam livremente, de forma tão rápida e tão à vontade que ela ficava muito surpresa. 

   Pensava para consigo mesma: 

- Como é que elas conseguem subir tanto, tão à vontade, tão leves, e descem. Será que só eu é que não consigo? Porquê?! 

   As outras rolas ignoravam-na, deixavam estar no chão, gozavam com ela, riam dela, e não percebiam porque é que ela não voava. Os pais da rolinha não admitiam que as outras a gozassem ou rissem dela, e ralhavam-lhes. 

  Elas fugiam rapidamente, os pais da rolinha diziam aos pais das outras que as filhas não tinham nada que gozar com a deles, porque também já foram daquele tamanho, e não voavam, nem por isso foram gozadas.

   Os pais das outras compreendiam, concordaram, diziam que tinham razão, pediam desculpa, e proibiam as filhas de gozar a pequena. Mesmo assim, elas não resistiam e riam-se, já se tinham esquecido. 

   Só de olhar para os ramos altos onde as outras pousavam, a rolinha encolhia-se toda, estremecia da cabeça até às patas e parecia que ficava com frio. Sacudia-se. 

   A rolinha não dizia nada, não respondia às outras, mas ficava triste. Um dia, a mãe disse: 

- Anda cá para cima, filha! Já consegues voar como nós, de certeza! 

- Áhhh…não! Tenho medo. 

- Tens medo? De quê, se nós fomos feitos para voar e andar em terra? Aqui não tem nada de assustador, e voar é muito bom! Tu é que nunca experimentaste, mas está na altura. 

- Anda ver que bonita que é a vista daqui! - diz o pai

- Como é que eu vou para aí ? - pergunta a rolinha a tremer

- Ora...a mãe acabou de dizer! A voar, é claro. Como nós fazemos. Já não és nenhuma bebé. 

- Tenho medo! - diz a rolinha envergonhada 

- Anda! Deixa-te de coisas. Voa...abre as asas e voa. - diz a mãe 

- Óhhh...venham-me buscar. Eu não sei fazer isso. - suplica a rolinha 

   Uma rolinha mais crescida que nunca a tinha gozado, pousa à beira dela no solo, e diz-lhe: 

- Eu sei que tens medo de voar para ali, e mais alto, eu também tive medo, a primeira vez, como tu, não percebia como é que as outras conseguiam voar tão rápido, tão alto, tão à vontade! Eu, daqui de baixo, a olhar lá para cima, onde estão os meus pais naqueles ramos, e os teus ali, até me encolhia toda, tremia da cabeça até às patas. Depois, ganhei coragem, porque queria ver luzes e sítios diferentes, passear pela cidade, ver outras coisas, pousar em varandas e janelas, telhados altos, ver o que há na cidade, de cima, e é maravilhoso! 

  A rolinha sorri timidamente, meia desconfiada: 

- A sério que sentiste medo? 

- A sério! Os nossos pais também sentiram, mas nem sempre nos dizem, para nos encorajar. Nós temos asas, podemos andar no solo, ou voar. Anda comigo! Quando experimentares, não vais querer outra coisa! Quero ajudar-te. Posso? 

- Como é que me vais ajudar? Eu tenho medo! 

- Não precisas de ter medo, nem há razão para isso! Abre as asas, e segue-me. Estás em segurança, tenho a certeza, prometo! Qualquer coisa, eu estou contigo. 

  A rolinha abre as asas cheia de medo. 

- Podes parar de tremer se faz favor? A tremer não consegues voar. 

- Como é que eu faço isso? 

- É só lembrares-te que tens asas, e podes ir onde quiseres, com elas! As tuas asas fazem parte de ti, são seguras, podes confiar nelas, estão cobertas com as penas, e tens a cauda que te ajuda. Podes pousar quando te apetecer, ou quando vires comida no chão. Elas são feitas para te ajudar. Anda! 

- De certeza? 

- Sim! As outras, e os nossos pais também as têm! E sempre souberam disso! Mas no inicio, é claro que sentiram medo, só que não ficaram com medo, percebiam que podiam confiar nas asas e que são seguras. Anda! Eu estou aqui. Um...dois...três…

 A rolinha amiga, põe as asas na amiga, como se estivesse a pegar nela ao colo. 

- Primeiro, vamos abraçadas, mas daqui a bocadinho quero que vás sem mim, está bem? 

- Ahhh...não sei se consigo! 

- É claro que consegues. Tenho a certeza! Eu confio e acredito em ti. Vamos...confia em mim também! 

- Ahhhh...está bem!

- Boa! Primeiro saltita ao mesmo tempo que eu...um...dois...três…

   A rolinha amiga segura-a, e levanta voo com ela, um voo pequenino, do solo, para o primeiro raminho da árvore, quase pegado ao tronco, baixinho. A rolinha voa, mas a gritar. Pousam no ramo. 

- Não precisas de gritar! Estás em segurança, e eu estou aqui! Agora vais tu sozinha, e eu fico aqui. Vai. Um...dois...três… 

 A rolinha abre as asas e grita outra vez, mas conseguiu dar esse saltinho do tronco para o chão. 

- Boa! Estás a ver como conseguiste? (a rolinha amiga, ri e aplaude) Isso mesmo! Agora, anda para aqui, a voar e sem gritar. Voa, só. O gritar não é preciso. 

 A rolinha faz o que a amiga diz, e consegue sem gritar. Aplaude, e convida-a a libertar-se mais. As duas fazem voos juntas. Primeiro, pequeninos, com saltinhos e voos para o chão, os pais aplaudem, riem orgulhosos. 

 Depois, vão subindo para raminhos mais altos, juntas e em separado, a rolinha percebe que a amiga tinha razão, e ganha confiança nela própria, com a amiga sempre a apoiar, a acompanhar o voo, e a incentivar.

 A rolinha está tão feliz, que vai subindo ramo a ramo, a apreciar a paisagem de cada ponto, onde para, até aos ramos onde estão os pais. 

 A rolinha percebeu que realmente voar era muito bom e conseguia fazer o que todas fazem; além de poder confiar nas suas asas. Adorou tudo o que viu, e passado algum tempo já seguia os adultos, as outras, e a amiga para onde iam, sem medo. 

 Os pais agradeceram à amiga, e sentiram orgulho nas duas que se tornaram inseparáveis, davam passeios animados e leves pela cidade, viam coisas bonitas, aplaudiam, cantavam, pousavam no chão e nas árvores, nas janelas, nos telhados altos, iam com os pais. 

  E foi assi  que a rolinha aprendeu a voar, sem medo, com o apoio  e a compreensão da amiga que também sentiu medo no início, mas aprendeu a confiar nas asas, começou com voos pequeninos, e foi subindo aos bocadinhos para ramos mais altos. 

  O medo, para nós também é assim, vamos perdendo um de cada vez, tentando, treinando, com incentivo, ainda melhor, aplausos, confiança de outros em nós, e nós mesmos, com vontade de descobrir, amizade e respeito. 

 A primeira vez, todos sentimos medo, do desconhecido, existem medos que é bom sentirmos, outros, existem, sem querermos, ou sem percebermos como, porque os sentimos. 

  Podemos aprender a lidar com eles, ou a não alimentá-los, se não fazem sentido, e quando percebemos que são exagerados. Mas todos merecem respeito, não devem ser gozados por outros porque cada um de nós, tem os seus medos, e todos os sentimos. 

                                              FIM 

                                       Lara Rocha 

                                      9/Fevereiro/2025