Histórias infantis, para crianças, adolescentes, e adultos, peças de teatro e monólogos
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domingo, 17 de janeiro de 2021
A lenda do casal de dançarinos
sexta-feira, 1 de janeiro de 2021
O (des) orgulho dos meus pais (monólogo para adolescentes e adultos)
Pertenço a uma família de médicos, são pessoas maravilhosas, os meus pais, os meus avós, e sempre fizeram tudo para cuidar de nós, dão-nos tudo o que precisamos, a mim e aos meus irmãos.
Sendo filho de médicos, toda a família dizia, achavam que tínhamos de ser médicos, como eles.
Pintavam-nos a profissão de cor de rosa, adorávamos ouvir falar em salvar vidas, em cuidar, em ser corajosos, e ganhar um bom dinheiro, ter um título.
Só que...à medida que vamos crescendo, e tomando consciência da realidade do que somos, do que nos rodeia, e do que queremos ser...as coisas ficam diferentes. Durante muitos anos, até à faculdade, eu queria seguir medicina, achava que sim, e que iria ser o orgulho dos meus pai.
Estudava que me matava, até ao limite, até não poder mais, os meus pais eram muito exigentes, porque sabiam como era preciso grandes notas para esse curso, tinha que conseguir, desse por onde desse.
Não tinha vida de adolescente, praticamente! Não saía, não ia a festas, porque tinha que estudar. Explicações, mais apoios, mais estudo, mais isto, mais aquilo, fui para a faculdade, entrei em medicina.
Fiquei tão feliz, e os meus pais ainda mais. Aqui, sim, aproveitei ao máximo farras, namoros, saídas, jantaradas, copos, e claro, estudo. Estava a viver a adolescência com os meus colegas.
Comecei a perceber que...sentia-me estranho! Aquilo não era bem o que eu imaginava, manifestei várias reações estranhas no corpo, fiquei doente várias vezes, sem razão aparente, perdi a vontade de estudar, senti muitas vezes nojo do que via.
Os meus pais gostavam de conversar sobre o que estava a aprender, diziam que era normal, eu sentir nojo de algumas coisas. Mas comecei a não conseguir comer, nem dormir.
Na minha cabeça, era como se vivessem dois pequenos seres irritantes… um a dizer que eu tinha que continuar, não podia desistir, porque ia magoar os meus pais, ia ser a vergonha deles, ia desiludi-los… outro… dizia...pensa bem, talvez não seja isto que tu queres, os teus pais gostam, mas tu não gostas...desiste e pensa noutras alternativas. Isto está a dar cabo de ti.
A qual é que eu ia dar resposta? Os dois tinham razão! Como ia resolver? Não encontrei outra saída a não ser...liquidar-me! Apagar, e recomeçar se conseguisse. Num impulso, fui para a praia, e não me recordo de absolutamente mais nada!
Nem do antes, nem do momento seguinte, só tenho a sensação de que estava num grande sofrimento, completamente perdido, desorientado, desanimado, parecia que um ser estranho estava a comandar-me, e eu só obedecia, sem questionar se era o correto ou não.
Não conseguia pensar nem decidir nada, só ouvia essas duas vozes, e de repente… não sei o que me fizeram, trouxeram-me para aqui, nem sei há quanto tempo. Os meus pais quiseram saber porque tinha feito aquilo.
Muito envergonhado e com medo da reação deles, contei-lhes que estava desiludido com o curso, era a pouca coisa que me lembrava...que achava que não era o que eu imaginava, nem o que eu queria realmente.
Pedi-lhes desculpa. Percebi na expressão deles que ficaram tristes, mas disseram-me que compreendiam e se não gostava do que estava a estudar, podia mudar de curso, para alguma coisa que me preenchesse realmente!
Prometeram ajudar-me, e apoiar-me na escolha do curso, no financiamento. Perguntei-lhes se estavam desiludidos ou magoados comigo, responderam que não, mas acho que sim.
A minha mãe até acrescentou que os filhos não são a continuidade dos pais, não têm de ser iguais a eles, cada um tem os seus gostos, e está tudo bem! Foi um grande alívio para mim, agora estou a recuperar e a descobrir a minha verdadeira personalidade, os meus gostos.
Não temos que dar cabo da nossa vida para sabermos o que gostamos, o que queremos, e quem somos. Na realidade, eu nunca tinha feito isso antes, estava influenciado pelos meus pais, e é muito importante que conheçamos muito bem aquilo que somos capazes, o que faz sentido fazermos, o que nos faz feliz, o que gostamos, para o que temos jeito… tive muito medo, mais foi o melhor que fiz, porque não ia correr bem!
Pode demorar um pouco, mas é melhor sair do que não gostamos, de onde sentimos que não é o nosso lugar, do que estar num curso e ser eternamente frustrados, ou maus profissionais.
Há várias escolhas, para o próximo ano, e talvez agora tudo comece a fazer sentido!
Lara Rocha
29/Dezembro/2020
o sentido do amor (monólogo para adolescentes e adultos)
Olá, sou a J., sobrevivente de uma tentativa de suicídio, uma não, várias! Mas esta última é a que me lembro mais porque é a mais recente, e...quase me fazia não estar aqui para contar.
Tenho um bebé, que amo com todo o meu ser, aliás, ele passou a ser a minha razão de viver, e o que dá sentido à minha existência. Mas nem sempre foi assim. Durante muito tempo, odeei e recusei, não desejei esse bebé, mais precisamente, desde que o pai dele me deixou.
Trocou-me por outro homem, que na verdade eu também conhecia mas nunca imaginei que tivessem tanta intimidade. Senti nojo dele, a pensar que ele me tinha dado um filho, e andado já com...outro!
A minha felicidade de ter um filho, o meu desejo e fantasias, ter um filho fazia parte do meu sentido de vida, de família, de mulher, tudo se apagou quando me revelou a sua homossexualidade.
Eu não tinha nada contra os homossexuais, mas nunca imaginei que lidasse com um tão de perto. Depois do nojo e da revolta, da vontade de tirar o bebé que ele me tinha dado, para ficar com um homem...conversamos os três, de forma civilizada, e percebi que ele queria esse filho, mas não fazia sentido para ele, estar comigo, sem me amar.
A minha feminilidade deixou de existir, senti-me...usada, vazia, como é que eu ia ter um filho de um homossexual? Como é que eu ia contar ao nosso filho que nasceu do amor falso, entre um homem e uma mulher, que eram mais amigos do que marido e mulher? Como é que ter uma relação de pai e mãe, com o nosso filho, se ele estaria com outro homem?
Nada parecia real, tudo parecia um pesadelo, um filme de terror...mas era bem real, existia, e estava diante dos meus olhos, do meu corpo, que foi usado para fabricar uma criança, que depois…não ia ter...um pai a viver com a mãe!
Surreal. Que vergonha seria para mim, e para o nosso filho, dizer aos outros que era filho de um homem, e tinha uma relação com outro homem. Foi um turbilhão de emoções, um sofrimento, uma angústia que nunca tinha vivido antes.
Porquê a mim? Que sonhava com uma família como a minha… um pai, uma mãe e o rebento! Não, uma mãe, um filho e um pai homossexual que estava com outro homem. Nem eu parecia real, acho que deixei de existir, de ser alguém quando ele me disse que escolheu esse caminho.
Queria desaparecer, e reaparecer numa forma normal. Então...achei que só conseguiria se desse cabo de mim. Não queria aquela realidade, tentei mudar. E mudei, nem me lembro como o fiz, mas sei que acordei no hospital, nos cuidados intensivos, cheia de máquinas, e buzininhas, luzinhas, tubos, batas brancas e verdes, máscaras, gente estranha, que nem sabia quem era, ou se era mesmo gente.
Nem me lembrei que estava grávida. Não era eu, era outra qualquer, que nem eu própria conhecia. Vi o pai do meu filho com o companheiro, nem os reconheci, estavam lavados em lágrimas.
Foram eles que me trouxeram para aqui, onde ainda estou a recuperar, pelos vistos, há várias semanas, e no início não dava sinais de recuperação. Tiveram de me tirar o bebé que foi para a incubadora, fazer tratamentos, e já tinha bastante tempo de gestação, mas com o que fiz…ficou com sequelas.
Felizmente, estão a fazer de tudo, e ele tem melhorado. Sobrevivemos os dois, e quando peguei nele ao colo, pouco depois de recuperar...não sei o que senti! Mas parecia que não conhecia aquele ser, nem eu, nem ele.
Não sentia nada! Só aquele corpinho minúsculo, e magrinho, numa paz, encostado a mim. Olhei para o pais dele e para o companheiro, que choravam e sorriam do lado de fora.
Fiquei com raiva deles, pareciam dois idiotas, quando saí, olhamos os três para a incubadora...uns para os outros, conseguimos conversar, e chegamos a um acordo. Ele, o pai, assumiria o seu papel, o companheiro iria contribuir com tudo o que pudesse, seria o padrinho, a quem a criança também chamaria de tio, e...seríamos uma família.
Que bonito! Que coisa tão romântica e fácil. Não sei o que senti na hora...mas...quando olhei para o bebé…uma nova coisa estava a nascer em mim. Eu olhava-me ao espelho, não me reconhecia, nem me identificava.
Tinha medo de mim mesma, do meu reflexo! Achava que era outra a perseguir-me. Tive de me reconstruir, reinventar, aquela criatura precisava de mãe e de pai, e tinha! Recebi todo o apoio do pai do meu filho, do companheiro, decidi e consegui respeitar, aceitar a escolha dele, e a ajuda do pessoal de saúde.
Tem sido um processo muito difícil e longo, mas se sobrevivi...é porque tinha de ser… é porque… a criança queria ter-me como…mãe...não sei se sou! Hoje sinto raiva, medo, desconfiança e insegurança, mas já tenho alguma consciência do que sou, de quem sou!
Parece que perdi parte, ou a totalidade de quem era, e de quem sou agora, ainda desconheço de mim. Sinto raiva, por não ter aceitado logo a escolha do pai do meu filho, não compreendi que ele não era obrigado a ficar comigo, só porque aconteceu de engravidar!
Talvez eu até o tenho ajudado a descobrir e a assumir a sua escolha, a sua verdadeira identidade sexual. Desde que ele cumpra as suas funções de pai. Esse acontecimento destruiu toda a noção de família que me transmitiram.
Eu achava que família, era pai, mãe, juntos na mesma casa, que se amam, e os filhos! Mas fui-me apercebendo que muitos amigos, não viviam com os dois pais na mesma casa, o amor entre os pais acabava, mas continuavam a encontrar-se com os filhos.
Para mim, fazia-me confusão, mas hoje é cada vez mais comum, e não há problema, a não ser quando não assumem o divórcio, ou quando se vingam nos filhos da frustração.
Pelo menos, o pai do meu filho assumiu. Eu acreditava que por ser homossexual, o pai do meu filho não poderia, nem saberia amar o filho! Estava totalmente errada. Por causa daquele preconceito, sem sentido...porque...na verdade, ele e o companheiro provam-me todos os dias que me amam, à maneira deles, talvez...um amor mais puro, mais sincero.
Amam o meu...o nosso filho! Como um pai verdadeiro. Lá porque é homossexual, não deixa de ser pai. Temos medo, eu e eles, por causa do que vão dizer, quando a criança crescer...mas já combinamos que seremos uma família, o pai estará presente, o tio e padrinho também, e depois veremos!
Agora é aproveitar, lutar, ajudá-lo, respeitamo-nos os 3, temos uma relação maravilhosa, e o nosso filho, é amado! Agora sim, a minha vida faz sentido! Faz sentido eu continuar a existir, faz sentido o amor, faz sentido a união.
Faz sentido o pai não ter que ficar obrigatoriamente com a mãe, se para ele não faz sentido, nem é feliz, não é o que quer, só porque existe um filho! O amor é o que faz sentido, seja de que forma for!
E como é lindo, o resultado do nosso amor! Como é lindo este amor.
Lara Rocha
29/Dezembro/2020
domingo, 20 de dezembro de 2020
O chapéu da fonte ao lago
Era uma vez uma menina que se chamava Rubi, pelo seu cabelo ruivo. Um dia de Verão foi passear com a sua amiga Mara, e o seu cão, pela montanha.
As duas seguiam muito animadas, tão distraídas a cantarolar, felizes, que nem se aperceberam da falta do chapéu da Rubi.
Só quando o cão, que também ía distraído, parou a olhar para elas, é que olharam uma para a outra.
- Porque é que ele parou a olhar para nós? - pergunta Rubi
- Não sei. Será que ele está a querer dizer-nos alguma coisa? - pergunta Mara
O cão ladra. As duas estremecem e olham-se:
- Espera aí...acho que te falta qualquer coisa!
- O quê?
O cão ladra outra vez.
- O teu chapéu? - pergunta Mara
- Chapéu? Está...na minha cabeça!
- Não está não!
- Como não está? Claro que está! Eu sei que o... (põe a mão na cabeça) ahhhhh...eu trouxe-o.
- Mas não está na tua cabeça!
- Pois não!
- Acho que o perdeste...
Elas veem qualquer coisa a voar, mais longe de onde estão. O cão ladra e desata a correr.
- É o meu chapéu! - grita Rubi
- Apanha-o, manchinhas...- grita Mara para o cão
Mas nada feito. Mesmo depois de muito correrem, o chapéu vai mais rápido que elas.
O chapéu e os malandrecos dos pequeninos passarinhos que tiraram o chapéu da cabeça da menina,
mandados por um grupo de anões levezinhos, malendrecos, mas com bom coração.
Usaram o chapéu tirado da menina pelos passarinhos, para chegar mais rápido a um lugar
onde tinha acabado de nascer um bebé nas suas famílias.
Claro que não deviam ter feito isso, mas chegaram e pousaram o chapéu, no tronco da árvore em frente à
casinha. Entraram para ver o novo ser.
O vento ajudou-os, mas depois ficou envergonhado e triste.
Sentiu-se arrependido, quando se lembrou que o chapéu tinha sido roubado à menina.
Decidiu devolver o chapéu, ainda mais porque viu que a Rubi corria de um lado para o outro, à procura dele.
Como estava envergonhado, soprou o chapéu para uma fonte, para a menina o ver,
e ele ficou no mesmo sítio.
Os três, veem o chapéu na fonte, e tentam agarrá-lo. O cão saltou para a fonte, e trouxe-o, todo encharcado.
Ficaram contentes, mas a Rubi também ficou triste por não poder pôr o chapéu na cabeça.
Decidiram pô-lo a secar, pousado na berma do lago, onde dava sol.
Estenderam-se, para descansar e apanhar sol, mas acabaram por adormecer.
Os malandrecos dos anõezinhos levezinhos, saem passado um bom bocado, e procuram o chapéu.
O vento queria mostrar à menina quem roubou o chapéu, e os anões tinham que pedir desculpa.
Soprou o chapéu para a água do lago, os anões correm numa grande gritaria, acordam as meninas e o cão desata a ladrar.
As meninas gritam:
- O que foi?
- O chapéu está na água outra vez! - repara Mara
- Óh, não! - Diz Rubi desolada
- Adormecemos e ele voou. E agora? - pergunta Mara
- Quem são estes? - perguntam as duas
Os anões ficam muito nervosos, gritam e saltitam.
Eles não podem ir buscar o chapéu, mas dizem à menina que o chapéu é deles.
- Não, não! O chapéu é meu!
- Vocês roubaram o chapéu dela? - pergunta Mara
- O chapéu não é dela! Nós fomos nele ver um bebé de família. - explica um anão
- Mas o chapéu é meu, e não é para transportar anões ladrões! - resmunga a Rubi
- Nós não roubamos nada! - defende o outro anão
- É claro que roubaram!
- Que coisa mais feia. Ele estava na minha cabeça, não estava em qualquer outro sítio. - justifica Rubi
- Pois, e ela nem sentiu que o tiraram. - acrescenta Mara
- Isso foram os passarinhos que o tiraram, não fomos nós. - diz outro anão
- Os passarinhos, claro...! E vocês acham que nós acreditamos nessa... - diz Rubi irónica
Os passarinhos que já se preparavam para pegar outra vez no chapéu, pararam e ficaram a ouvir.
Ficaram irritados, e começam numa grande chilreada.
O cão também fica nervoso, ladra e rosna, tentando apanhar os passarinhos.
- Ladrões! - gritam as duas
- O chapéu apareceu na fonte, e agora está aqui no lago. - relembra Mara
- Voou! Não fomos nós. - reforçam os anões
- Foram eles. - Acusa outro anão
Os passarinhos ficam irritados e tentam puxar os cabelos aos anões por os estarem a acusar.
Os anões sacodem-nos, o cão ladra, e salta.
- Parem quietos...! - grita Rubi
- Se os passarinhos ajudaram também são ladrões. - diz Mara
- Não chegavam estes, ainda tinham que vir reforços... atrevidos! - ralha Rubi
- Estão todos metidos...não têm vergonha? - ralha Mara
Os anões ficam em silêncio e envergonhados, como os passarinhos.
- Gostavam que nós vos tirássemos os carapuços, as calças, os sapatos ou as camisolas?
E que disséssemos que não fomos nós? Ou se depenássemos os passarinhos?
- Não! - respondem os anões, e os passarinhos abanam-se.
- Vão ali buscar o chapéu, e devolvam-me. - grita Rubi
- Não podemos ir. - dizem os anões
- Porquê? - pergunta Mara
- Porque não sabemos nadar! - explicam os anões
- Não sabem nadar...? Que espertinhos! Estão a ver se nos enganam. Arranjem-se.
- Óh! Estamos a dizer a verdade. - diz outro anão
- Isso é desculpa vossa. - dizem as meninas
O vento sorri e dá uma ajudinha, quando o cão se preparava para levantar e ir buscar o chapéu.
O vento pousa o chapéu na berma.
- Áh! Veio sozinho? - pergunta Rubi muito surpresa
- Não. Foi o vento que nos trouxe, que o soprou, porque não sabemos nadar. - diz um anão
- E o lago pode ser perigoso para vocês! - explica outro anão
- Áh! Então o vento também estava feito convosco! - constata Rubi
- Foi só para nos ajudar. Desculpa! - diz um anão envergonhado
- É! Desculpem, não devíamos ter tirado o teu chapéu! - diz outro anão arrependido
- É! Não! Estávamos tão felizes que queríamos chegar mais rápido.
- Mas isso não é justificação...pois...nós...não roubamos, mas...roubamos! - reconhece outro
- Desculpem! - dizem os anões
- Está bem...eu já percebi que não fizeram por mal! - diz a Rubi
- Não! - respondem os anões
- O que podemos fazer para vos compensar? - pergunta um anão ´
- Que tal se formos lanchar convosco, enquanto o chapéu seca? - sugere outro anão
- Olha! Boa! Enquanto lanchamos, conversamos e secamos o chapéu no nosso secador de roupa.
Aceitam? - sugere ainda outro
As duas meninas olham-se, sorriem:
- Aceitamos!
- Vocês moram longe daqui? - pergunta Rubi
- Não!
- Tu já passaste à porta da nossa casa, onde te roubamos o chapéu.
- Áh! Nós íamos tão distraídas que nem sentimos que tiraram o chapéu!
Mas o mais importante é que vocês perceberam que fizeram mal.
O que fizeram não se faz, mas devolveram o chapéu! - Diz a menina
- Nós... não sabíamos o que é isso de...roubar. - diz um anão
- Roubar, é ficar com coisas que não são nossas, que tiramos de outras pessoas sem elas deixarem, ou sem saberem.
São as coisas que levamos sem nos oferecerem, e sem deixarem que levemos.
- Áh! Já percebi. - diz o outro
- Então nós roubamos mesmo. - diz outro anão
- Sim, roubaram, mas já devolveram! - relembra Mara com um sorriso
- Vocês não ficam zangadas connosco? - pergunta um anão
- Não! - dizem as duas
- Há bocado ficamos muito zangadas, mas o chapéu apareceu, e já não estamos zangadas. - confirma Rubi
- Boa! Então vamos à nossa casa. Passarinhos, venham também.
- Afinal fomos maus convosco, por isso temos de vos recompensar. - diz outro
Os passarinhos cantam docemente, muito surpresos com o que acabaram de ouvir.
Todos se levantam, e os anões conversam pelo caminho.
Mostram às meninas coisas que elas nunca tinham visto, nem nessa tarde, porque andavam à procura do chapéu.
O cão acompanha-os, cheira tudo, ladra, corre, salta.
As meninas dançam, cantam com os anões, riem, oferecem flores, colhem alguns frutos preferidos delas.
Chegam à sua casa.
- Áh! Pois já tínhamos passado aqui, já! - lembra Mara
- Sim, claro! Olha a nossa casa. - aponta Rubi
- Vê-se daqui? - perguntam os anões
- Sim! Ali. - dizem as duas
- Áh. Que casas tão grandes! - comenta um anão
- São mesmo. - respondem as duas
Outro anão assovia, os vizinhos aparecem com as suas famílias, muito simpáticos.
- Amigos, apresento-vos duas amigas novas, mais um cão... - diz um anão
O cão ladra. As meninas sorriem:
- Olá! - respondem as duas
- Olá! - respondem todos e todas
- Vamos fazer um lanche...venham. - diz o anão dono da casa
- Entrem, meninas... fiquem à vontade. Vou pôr o chapéu a secar, e já volto.
- Muito obrigada. - dizem as duas
As meninas instalam-se, visitam a casa toda, conversam animadas com os anões.
Ficam encantadas com a decoração da casinha.
Alguns anões preparam um lanche delicioso, com a ajuda das esposas.
Provam coisas novas, muito boas, outras que já conheciam.
Bebem chás perfumados que nem faziam ideia que existiam.
Enquanto conversam alegremente uns com os outros, riem e brincam, o chapéu seca.
Depois da tarde bem passada, cheia de novos amigos, as meninas têm de regressar a casa,
com a promessa de voltarem a encontrar-se em breve, trocas de abraços, beijinhos e sorrisos.
O vento está orgulhoso e feliz da ajuda que deu.
Principalmente porque os anões aprenderam uma coisa nova,
reconheceram que a sua traquinice é uma asneira e não se faz,
mesmo não sendo com maldade, porque não sabiam.
Foi bom, eles terem devolvido o chapéu à menina. e pedirem desculpa. É assim que se faz! Podemos partilhar e ficar com o que nos emprestarem, mas devolvemos.
Ou então, se nos derem, mas não devemos ficar com o que não é nosso, porque isso, é roubar. Roubar deixa as pessoas tristes porque ficam sem as coisas. E quem rouba, pode ficar sem amigos.
FIM
Lara Rocha
19/Dezembro/2020
domingo, 22 de novembro de 2020
As histórias que o corpo conta - monólogo
quarta-feira, 18 de novembro de 2020
A barafunda das figuras geométricas
Era uma vez numa grande fábrica, várias figuras geométricas que foram deitadas ao lixo, porque o responsável achou que tinham defeito. Quadrados, círculos, triângulos, lusangos, paralelepípedos, retângulos, meias-luas, às dezenas, juntaram-se no depósito, tristes e sem perceberem onde estavam.
- Ui, que cheirete! - diz um quadrado
- Onde estamos? - pergunta um triângulo
- Acho que estamos...no lixo! - responde um círculo
- No lixo...? Mas... porquê?
Levantam-se, olham em volta, olham uns para os outros, e em pânico correm de um lado para o outro, a gritar por socorro, a procurar uma saída, engancham-se uns nos outros para tentar chegar ao cimo do depósito.
Os retângulos presos uns aos outros, tentam fazer uma escada, por onde sobem os quadrados e os círculos, mas os círculos não se seguram, os retângulos estão tão assustados que escorregam e desmontam-se.
Os triângulos tentam ajudar, servem de apoio, mas os paralelepípedos são pesados e ao rolar dão encontrões às outras figuras, passam por cima de alguns retângulos, quadrados e círculos. Todos gritam, discutem, empurram-se, voltam a fazer de tudo para saírem de lá.
Um arrumador do lixo, fez a ronda pelo espaço e preparou os sacos para meter na trituradora. As figuras geométricas gritam por socorro. O arrumador, um rapaz jovem que aproveitava os seus tempos livres para fazer obras de arte, ficou com a sensação de que ouviu alguma coisa.
As figuras ficaram muito quietas, com medo que fossem destruídas. O jovem espreita e fica muito surpreso:
- O que é que estão aqui a fazer estes objetos...? São... figuras geométricas? Porque é que estão no lixo, não as vejo estragadas.
E sem perder mais tempo, num piscar de olhos encheu quatro sacos de lixo com as peças em madeira, que para ele estavam perfeitas. Meteu na mala do seu carro, e no fim do serviço levou-as para sua casa.
Tirou-as do saco, uma por uma, pô-las em cima de uma mesa, observou-as atentamente, limpou o pó a cada uma, carinhosamente, e começou a criar obras com as figuras geométricas. Pintou um quadrado com várias cores, colou um círculo no meio, de outra cor, e em cima do círculo um cilindro. Virou o quadrado ao contrário, e serviu de suporte a uma cara com um chapéu de palhaço.
Colou círculos, e fez uma figura feminina, com um bebé ao colo, pintadas. Com outros quadrados, retângulos e tiras de madeira que não tinham forma, fez casas, muito bonitas, prédios, com janelas e portas, a estação de caminhos-de-ferros, túneis, escolas, centros comerciais, o hospital e carrinhos pequeninos.
Usou retângulos e paralelepípedos para montar árvores, a igreja, os bancos de jardins, um supermercado em miniatura, com círculos e pedaços de madeira para construir figuras humanas, pintadas, e até pediu à sua mãe para fazer roupas e vesti-los.
A mãe fez as roupas com gosto, e o rapaz continuava a inventar figuras, a brincar com as figuras geométricas que iam para o lixo. Ele divertia-se muito a construir objetos, casas, pessoas, natureza, meios de transporte, animais, quadros com objetos transformados, e tudo que se lembrasse.
E vocês, já brincaram com objetos que pareciam estragados, transformaram-nos noutros brinquedos, ou imaginaram servir para outras tarefas? Quais? Em que os transformaram?
Podem deixar aqui as vossas respostas, ou os vossos papás e avós.
FIM
Lara Rocha
18/Novembro/2020
sexta-feira, 13 de novembro de 2020
Brincar com o tempo
O tempo… como passa rápido e não volta atrás! É um sopro. Não o vemos propriamente, como vemos objetos ou pessoas. Como passa! Tudo passa rápido, só nos lembramos quando pensamos que...parece que foi ontem, e já vai há tantos anos. Vemos o tempo nas fotos, nas rugas, nas mudanças do corpo, nas mudanças do pensamento, mas não podemos vê-lo, como vemos coisas.
O tempo brinca connosco como quem brinca com marionetas, o tempo...serve de desculpa para muitas fugas à realidade. O tempo justifica muitas atitudes, o tempo...tudo faz, tudo supera, tudo destrói, tudo constrói. O tempo tem o valor que cada um lhe dá.
Na verdade...será que existe mesmo tempo? Acreditamos que ele existe, mas nunca o vemos de verdade… passa tão rápido! O tempo corre connosco, faz-nos correr, e às vezes parar. O tempo existe na atmosfera: tempo de sol, tempo de chuva, tempo de neve, tempo de vento, tempo de trovoada, tempo de frio, tempo de calor, tempo de tudo junto, tempo de nuvens, tempo de geadas, tempo de granizo, tempo de mar bravo.
Tempo...é sempre tempo de passear, rir, brincar. saltar, abraçar, beijar, acariciar, conquistar, fazer amigos, conviver, conversar, fazer atividades diferentes, ouvir música, cantar, dançar, apaixonar-se. Ter medo, vencê-lo, sofrer, lutar, ganhar, planear, construir, destruir.
Há tempo de se apaixonar pelas pessoas, pela natureza, por tudo...é sempre tempo para sonhar, desejar, tentar de novo, corrigir, fazer de novo, aprender, viver, relaxar, descobrir coisas novas, conhecer, inventar, criar, recriar.
É sempre tempo de adormecer e renascer, ser forte, não se deixar vencer...sentir-se jovem, ser sempre criança, ser feliz. É sempre tempo de agradecer, todos os dias, a mim a muita gente, ao mundo, à terra, a tudo!
O tempo brinca connosco, como quem brinca com marionetes, mas nós também podemos brincar com ele! E os tempos modernos...que loucura! Nós os dois, eu e a minha mulher, temos o tempo muito ocupado.
Depois de nos reformarmos, o tempo ainda ficou mais recheado de atividades, principalmente, quando os nossos 4 filhos se casaram e saíram de casa, para nós foi difícil, no início, mas rapidamente ficamos contentes porque percebemos que tínhamos mais tempo, um para o outro!
Porque não, aproveitar para compensar o tempo perdido, dos tempos em que trabalhávamos, chegávamos a casa, mal tínhamos tempo para ir à casa de banho, quanto mais olhar um para o outro. Foi inesquecível quando recomeçamos a ter tempo para nós, quando olhamos outra vez um para o outro, sem pressa, com todo o tempo por nossa conta!
Depois de tanta correria, esse reencontro e recomeço, foi quase uma primeira vez, que romântico! Percebemos o quanto era e é importante termos tempos só para nós os dois, para percorrermos o corpo um do outro, brincarmos, redescobrirmos novas formas de sabermos do que somos feitos, partes do corpo que parecia que nem sabíamos que existiam, por termos pressa.
Quando voltámos a ter tempo um para o outro, revelamo-nos, facetas desconhecidas, ou que já existiam, mas não sabíamos. O tempo deixou de existir, e éramos só nós os dois...como dois adolescentes a descobrir o sexo, debaixo de rugas e gordurinhas, ossos salientes, mais ou menos arqueados... o que importa?
As emoções, o amor, o carinho, o respeito, o desejo, a vontade de sentir! Se das outras vezes, em que não tínhamos tempo, tivéssemos feito dessa maneira, bem... não sei, mas talvez agora seja melhor, temos mais maturidade, e a nossa descoberta um do outro, continua!
Ela é uma revelação diária, e prova-me que valeu a pena tê-la conhecido. Em lugar de outras mais jeitosas...aventuritas. Ela nunca soube, e provavelmente também as teve, mas nunca lhe perguntei, nem ela a mim. O mais importante é o agora, em que somos um do outro, e tudo melhorou quando voltámos a ter tempo só para nós.
Amámos os nossos filhos e os nossos netos, passamos tempos maravilhosos com eles, mas continuamos a ter momentos só para nós. É especial. Eu brinco, enquanto tenho saúde, brinco com a minha esposa desde a adolescência, apaixonámo-nos muitas vezes um pelo outro, ao longo destes anos, e voltamo-nos a apaixonar, eu volto a pedi-la em namoro, ela emociona-se tanto como na primeira vez, e eu choro de felicidade com ela!
Nós esquecemos o tempo e a idade, principalmente quando voltamos a ter noites quentes, eróticas. Não, não é como a primeira vez, porque os nossos corpos mudaram, mas o desejo acorda constantemente. Ela é uma velhota atraente e eu também.
Tentamos sempre reacender a paixão, todos os dias, como fizemos ao longo do nosso casamento. Às vezes elas mandava-me dormir com o cão, quando estava virada ao contrário, mas eu lá lhe fazia o frete, dormia no sofá, e de manhã estava tudo bem!
Isso faz-nos sentir vivos, mais novos, o tempo deixa de existir nesses momentos. Gostamos um do outro, ao fim de tanto tempo, mas é possível sim. Não é fácil, é preciso ter imaginação, isso também nos faz bem aos miolos, não deixa queimar os fusíveis.
Até descobrimos uns brinquedos....(ri) que são um mimo! (gargalhada) Aproveitem o vosso tempo com as vossas companheiras, ou com outras, mas tenham tempo. Elas são exigentes, e merecem que lhes dêmos os nossos tempos com qualidade, independentemente do nosso físico.
Os jovens agora, não têm tempo para nada, só dão rapidinhas, e perdem o melhor...o percorrer o corpo, a descoberta, as sensações, a beleza da comunicação silenciosa. Experimentem! O tempo corre, mas eu, e a minha mulher fazemo-lo andar mais devagar.
Aproveitem! Muita imaginação, paciência, vontade, carinho, respeito, companhia...e... tempo!!
FIM
Lara Rocha
13/Novembro/2020







