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sexta-feira, 29 de novembro de 2019

minhas queridas sombras - momólogo e diálogo sobre anorexia e bulimia (psicólogos; estudantes de psicologia; população em geral)


Minhas queridas sombras

1ª parte – monólogo



            Minhas queridas sombras! Onde estão? Abandonaram-me? Fizeram como todos os outros? Ingratas, depois de tudo o que vivemos juntas naquele nosso sítio secreto! O deserto escuro sem água, sem comida, só eu e vocês. Era tão bom. Fartamo-nos de trocar carinhos, brincar rir e fotografar. Fizemos longas caminhadas, rolamos na areia, treinamos andares.

Esquecia tudo, enquanto estava lá convosco. Até me esquecia de mim mesma, que era o que eu queria. Lá não havia espelhos, felizmente. Era tão agradável aquele espaço. Melhor que a realidade assombrada que me cerca, cheia de gente falsa, julgadora, que só critica, humilha, fere.

Tenho saudades vossas, apesar de quase me terem matado, eu sentia o vosso apoio. Sei que só fizeram isso para me ajudar a concretizar o meu desejo, de emagrecer. Vocês amavam-me, davam-me valor! Nunca me chamaram gorda, baleia, nem recusavam entradas, não me rejeitavam.

Eu queria ser como vocês, por isso é que me juntei convosco. No meio de tanta indiferença, vocês preenchiam-me. Nunca vos encontrei na cidade, entre todos os que passavam por mim indiferentes, a olhar de canto e a apontar, a disparar risinhos, e comentários.

Não era esta vida que queria, mas é esta a que tenho agora. Dizem que foi escolha minha. Mais uma vez, lá está a maliciosa sociedade que só sabe apontar o dedo. Tanta falsidade! A vida que tive já desapareceu, e depois desta vida, terei outra com certeza muito diferente. Não sei como será, mas uma coisa é certa: não voltarei a passar fome para agradar aos outros.

Ainda tenho pouca força, e estou aqui a receber vida por este tubinho. Foi fácil espetarem-me uma agulha nesta minha mão, que só tem pele e osso. Não sei se doeu, se não doeu. Não me lembro de mais nada. Sei que estava a caminhar pelo deserto, vocês não estavam lá, o deserto ficou cada vez mais escuro, parecia que tinha sido engolida por um buraco de areias movediças, e afundava-me não sei onde.

Eu procurava-vos. Fiquei triste como a noite por não vos ver lá, no sítio de sempre onde já fomos tão felizes. Acho que foi isso que acabou comigo. Algo neste tubinho impede-me de me encontrar convosco, e ir para o nosso esconderijo.

Tenho saudades vossas. Não sei há quanto tempo não nos vemos, perdi a noção de tudo! Aliás, nem sei há quanto tempo estou aqui. Ouço para aqui a falar em números e não sei sobre o que se referem.

Não sei quem é esta gente. Não sei se isto que vejo é real ou não. Não sei se isto que vejo é uma mão ou um engaço, um garfo ou um pente. Estou muito confusa das ideias. Umas que andam sempre por aqui dizem que é a minha mão. Até essas são cruéis.

Tenho de vos agradecer, queridas sombras, por me terem ajudado a atingir o objetivo de ser elegante. Esta sociedade respira e explode em maldade por todos os poros.

Quando era gorda, chamavam-me um jardim zoológico ambulante, uma incrível variedade de bichos… vaca, porca, baleia, tubarão, lontra, foca, monstro, e produtos de mercado, como pote de banha, banha de porco, bola de unto, e outros piores que eu nem conhecia.

Todos os outros, riam, não sei onde estava a piada. Se estou elegante, dizem que estou magra ou perguntam-me se estou doente. Se estou um balão, perguntam se estou grávida.

Tudo o que era diferente, comentavam, até os meninos com deficiência, eram gozados, humilhados, imitados, afastados, desrespeitados. Para que comentam?

Os meus pais nunca se pronunciaram sobre isso, mesmo assim, eu achava que eles não gostavam de mim por ser tão gorda. Eu queria emagrecer para deixar de ouvir aqueles comentários maldosos, e para agradar a todos, para não afastar os meus colegas, ter muitos amigos, ser apreciada, e escolhida, ter namorados como as outras meninas que eram magrinhas.

Eu detestava-me ver ao espelho, ter de me despir e vestir em frente às outras, porque elas riam-se e chamavam-me gorda. Quando eu ia tomar banho, fugiam, e nos balneários punham-se bem longe. Nas aulas não queriam ficar á minha beira.

Ficava triste como a noite! Fiz de tudo para emagrecer, consegui umas míseras gramas perdidas, quando a médica de família regrou a minha comida. Cortou-me à ração. Consegui cumprir, mas sempre que sentia fome, comia o triplo, a toda a hora, escondida.

Não percebiam que o comer tanto deixava-me feliz, preenchia o maldito vazio dentro de mim que aumentava de dia para dia com a solidão cada vez maior. 

E eu, engordava! Claro que só podia engordar. Quanto maior era a minha vontade de emagrecer, mais eu engordava, e mais me apetecia comer, com o desgosto. Cheguei a uma altura em que não queria saber do que os outros pensavam, o mais importante era eu preencher-me. Era tudo sol de pouca dura.

Quando aderi aos conselhos da médica, pesava-me todos os dias, várias vezes por dia, e o maldito peso assombrava-me. Estava sempre na mesma! Não descia nem uma grama.

Desisti. Continuei a comer. Só quando vos conheci, querida Anorexia e querida Bulimia, é que consegui emagrecer. Primeiro conheci a Bu, Bulimia. Era linda, uma rapariga sexy, simpática, magra, que me ensinou o segredo dela para ser magra!

Vomitar depois de comer. Claro! Mas que ideia genial, como é que eu nunca tinha pensado nisso? Era uma maneira fácil. Que espetáculo. Quase a pus no altar. Quando apliquei esse truque, consegui finalmente emagrecer.

Conseguia controlar a cena. Uau! Que liberdade. Era um alívio indescritível. Habituei-me, e os vómitos várias vezes por dia, depois de comer tudo o que mais gostava e queria, fizeram parte do meu ritual diário.

Senti-me poderosa a ninguém reparou. Esse foi o problema. Ninguém reparou que havia qualquer coisa de diferente em mim. Como era possível? Eu ia todos os dias para a balança, várias vezes por dia, e perdia uma grama de cada vez. Era uma festa quando perdia um kilo depois de quase um mês a vomitar o excesso.

Não ficava satisfeita, é claro, porque o excesso continuava. Queria uma coisa mais rápida…então…além de provocar o vómito, enfrasquei uma série de produtos laxantes e de emagrecer, comecei a ter disenterias, cólicas horríveis, dores de estômago e da cabeça, acidez, mas a partir daí, as coisas começaram a melhorar.

Eu achava que sim, independentemente dos efeitos secundários. Emagreci realmente mais rápido. E tu, querida Bu, sempre presente do meu lado, a incentivar-me a não desistir e a continuar.

Obrigada, amiga! Era de pessoas como tu que eu precisava, mas ninguém à minha volta fazia isso. Escondia isso tudo dos meus pais, e comia com eles, como se estivesse com fome, e tudo estava bem.

Mas tu, Bu, era assim que eu te tratava carinhosamente, achaste que me estava a sentir sozinha, e para me incentivar, apresentaste-me a Ano, como carinhosamente a tratava, porque o nome dela era estranho… Anorexia!

Ela era uma brasa, até fazia inveja! Pálida, pele e osso, e com olheiras. Usava uns vestidos que lhe ficavam na perfeição. Foi muito especial quando comecei a andar mais com ela.

Ela foi tão espetacular e gostou tanto de mim à primeira, que não largava. Ensinou.me muita coisa, principalmente, fez com que os outros começassem a reparar mais em mim, eu estava a ficar parecida com ela! Aliás, eu acho que ainda consegui perder mais peso do que ela, até vir para aqui.

Estava tão feliz, sentia-me preenchida, que não tinha necessidade de comer. Era correspondida na amizade, mesmo feminina, e elas davam-me tudo o que eu precisava para me livrar do enorme vazio.

Não sei porque é que ela desapareceu. Eu estava a passear no deserto e não a vi, depois acordei aqui. Onde estás, Bu? Onde estás Ano? Tiraram-me daquele deserto escuro, mas eu estava lá bem, e estava convosco. Agora não sei onde estão.

Devem ter posto alguma coisa aqui neste tubinho, além de vida e comida, tomo carradas de medicamentos. Já quiseram que me visse ao espelho, mas não tenho força para me levantar e segurar nas pernas.

Disseram-me que ainda tenho um longo caminho a percorrer, mas que vou ficar bem. Pensando bem…a Ano não era muito bonita, mas era magrinha, isso agrada aos outros. Ela tinha qualquer coisa de especial, não sei explicar muito bem o que era.

Talvez na verdade, eu própria, não sei se gostava muito de ser assim como ela! Só que, gorda também não podia ser. Ao ser gorda era motivo de gozo, desgraçavam-me.



2ª Parte

(Diálogo)

Aparecem duas mulheres no quarto dela, vestidas de azul.

RAPARIGA (sorri) – Buli…Ano…

AS DUAS – Olá!

RAPARIGA – Estava mesmo aqui a recordar os bons tempos que passamos juntas. Porque é que vocês despareceram?

AS DUAS – Estamos aqui.

RAPARIGA – Ano…estás diferente!

ANOREXIA – Sim, estou mais refeitinha, mais saudável, não te parece?

RAPARIGA – Sim! Mas eras tão magra quando te conheci.

ANOREXIA – Era doente! Como tu.

RAPARIGA – Mas eu não sou doente.

AS DUAS – És.

RAPARIGA – Ei, já parecem a sociedade.

BULIMIA – Desde que eu te conheci! A minha presença na vida das pessoas é para as alertar de que estão doentes.

ANOREXIA – A minha também!

RAPARIGA – Não acho nada. Para mim, vocês foram uns anjos.

BULIMIA – É por isso que estás aqui.

RAPARIGA – Foram vocês que me trouxeram para aqui?

AS DUAS – Não.

RAPARIGA – Foram vocês que me tiraram do deserto?

AS DUAS – Não.

RAPARIGA – Não me lembro de coisas más, só me lembro dos momentos bons que passava convosco.

ANOREXIA – Nós desaparecemos quando te trouxeram para aqui!

BULIMIA – Porque desmaiaste na rua, e descobriram que estavas pele e osso.

RAPARIGA – Mas isso era mesmo o que eu queria, como te contei, Bu. E foste tu que me ensinaste o truque de vomitar.

BULIMIA – Mas já aí estavas doente.

RAPARIGA – Toda a gente vomita de vez em quando, e toda a gente quer ser magra. E eu também queria ser, porque quando era gorda, toda a gente fugia de mim; gozavam comigo, chamavam-me nomes feios. Eu odiava ver-me ao espelho.

ANOREXIA – E agora, gostas?

RAPARIGA – Não sei, ainda não me vi, não me seguro nas canetas…mas acho que gosto.

AS DUAS – Não!

BULIMIA – Quando vires a tua imagem no espelho não vais gostar.

RAPARIGA – Porque não?

ANOREXIA – Estás na pele e osso.

RAPARIGA – Mas era isso que eu queria ser.

BULIMIA – Magra, não é pele e osso como tu estás.

ANOREXIA – Porque é querias tanto ser magra?

RAPARIGA – Para ter amigos, e para repararem em mim. Nas gordas não reparam, ou se reparam é para dizer mal. Queria sentir orgulho em mim, e senti porque consegui controlar o meu impulso selvagem de comer, e não engordar mais. Senti-me forte, corajosa, atraente e apreciada. Foi difícil emagrecer, mas consegui. Sinto-me realizada! Vocês não estão orgulhosas de mim?

AS DUAS – Não.

ANOREXIA – Estou orgulhosa por tu não teres desistido, mas estou triste porque quase perdeste a tua vida, e agora tens muito para recuperar, só por causa dessa tua ideia fixa de ser magra.

RAPARIGA – Como não? Foram as primeiras a incentivar-me a emagrecer.

BULIMIA – Não era para teres chegado a este ponto.

RAPARIGA – Não estou a perceber.

BULIMIA – Tu foste longe demais nessa obsessão pela magreza.

RAPARIGA – Claro. A sociedade só me criticava.

ANOREXIA – Porque é que a sociedade era tão importante para ti?

RAPARIGA – Faziam-me sentir uma porcaria.

BULIMIA – Porquê?

RAPARIGA – Porque humilhavam-me, gozavam-me.

ANOREXIA – Porque é que a opinião deles era assim tão importante para ti?

RAPARIGA – Porque não me integravam, e eu sentia-me isolada, sozinha, feia, gorda.

BULIMIA – E os outros, eram iguais a ti?

RAPARIGA – Não. Mas eram mais magros.

ANOREXIA – Achas que gostavam todos da mesma maneira uns dos outros?

RAPARIGA – Não sei.

BULIMIA – Então porque é que dizes que eles te isolavam e gozavam?

RAPARIGA – Era o que eles faziam.

ANOREXIA – Alguma vez tentaste aproximar-te deles, para quanto mais não fosse mostrar-lhes que estavam errados a teu respeito?

RAPARIGA – Tentei…

BULIMIA – Como é que tentaste?

RAPARIGA – Aproximava-me, a sorrir, mas eles ignoravam-me na minha cara.

ANOREXIA – Tu é que fugias, porque achavas que eles te iam rejeitar.

RAPARIGA – Acho que não. Como é que vocês sabem?

AS DUAS – Não és a única.

ANOREXIA – A tua função era ignorar os outros e gostar de ti como eras.

RAPARIGA – Mas eles não sabiam que eu não gostava de mim.

BULIMIA – Na verdade suspeitavam que não gostavas de ti.

RAPARIGA – Eu nunca falei com eles sobre isso. E eles também nunca me perguntaram.

BULIMIA – Há outros sinais que eles percebem.

RAPARIGA – E não sabiam ajudar-me?

BULIMIA – E se eles tentassem ajudar-te, será que tu deixavas?

RAPARIGA – Claro que sim, eu não sou como eles.

BULIMIA – Não sei.

RAPARIGA – Acho que eles deviam ter dito e ter-me ajudado.

ANOREXIA – Foi por isso que desaparecemos.

RAPARIGA – Para me fazer sofrer?

AS DUAS – Não.

BULIMIA – Para tu veres que eras tu que não estavas a deixá-los aproximar-se para te ajudar.

ANOREXIA – A culpa foi tua, não foi nossa.

BULIMIA – Não tinhas de nos seguir, nem de te deixar influenciar pelos outros.

RAPARIGA – Mas eu gostei tanto de vocês.

BULIMIA – Já sabes que os outros falam sempre. Mas tens de gostar de ti, o suficiente para não ficares tão afetada com os comentários.

ANOREXIA – A tua oportunidade de renascer é agora. Esquece os outros. não prejudiques a tua saúde e a tua vida, para agradar aos outros, pelos outros.

BULIMIA – O teu vazio interior não vai ser preenchido pelo excesso de comida, vómito e magreza.

ANOREXIA – Quando aprenderes a gostar de ti e esqueceres os outros, vais ver a diferença.

BULIMIA – Para quê, ser magra e doente, infeliz, só para os outros gostarem? tens é de mostrar o teu valor interior.

ANOREXIA – O dentro é que faz toda a diferença.

BULIMIA – O que os outros falam de ti, não é o que te alimenta, não te faz feliz. São só opiniões, como tu tens as tuas!

ANOREXIA – Podem não corresponder ao que és mesmo.

BULIMIA – Escusavas de estar aqui, a receber vida e alimento por um tubinho.

ANOREXIA – A felicidade está em ti, não no teu físico, não nos outros.

BULIMIA – Dá valor a ti própria, como és. O teu corpo é perfeito, como é! Funciona bem, tem tudo no sítio. É teu! Não é dos outros. os outros têm o deles, se não gostam é problema deles, ou inveja de não ser como tu!

ANOREXIA – O teu corpo é único, tu és única, cada um é único, para quê, ser outro, que nem sequer é saudável, para os outros? cada um tem a sua beleza!

BULIMIA – Enquanto não gostares de ti, e enquanto puseres os outros à frente, nunca vais ficar satisfeita, nunca vais ser feliz, e nunca te vais sentir plenamente realizada nem preenchida.

RAPARIGA – Estão a querer dizer que a culpa foi minha?

AS DUAS – Sim.

RAPAIGA – Isso é muito mau.

ANOREXIA – Mas tem retorno.

BULIMIA – E é a partir de agora.

RAPARIGA – E os meus pais não estão orgulhosos de mim por eu ter emagrecido?

AS DUAS – Claro que não.

BULIMIA – Estão os dois muito tristes e muito preocupados. Acham que a culpa foi deles, porque não estiveram atentos, ou que não te deram amor suficiente.

RAPARIGA – Tristes…? Envergonhados?

AS DUAS – Sim.

RAPARIGA – Isso é muito mau.

AS DUAS – É.

BULIMIA – Mas tem retorno.

ANOREXIA – A partir de agora!

RAPARIGA – O que é que tenho de fazer?

BULIMIA – Cumprir tudo o que as pessoas especializadas vão dizer-te para fazer.

RAPARIGA – Não são vocês?

AS DUAS – Não.

ANOREXIA – A nossa missão contigo, está cumprida. Sê forte! Ainda tens uma nova e longa caminhada pela frente, mas acredita em ti, e em quem te quer ajudar.

RAPARIGA – Não quero! Estou cansada!

ANOREXIA – Agora estás cansada, mas não quer dizer que te vais entregar ao cansaço, e que vais ficar o resto da vida cansada.

BULIMIA – Não voltes a brincar com a tua saúde.

RAPARIGA – E vou ficar gorda outra vez?

ANOREXIA – Gorda não! Com um ar saudável, sim, um corpo saudável, e uma menina, mulher feliz que gosta dela. Respeitada, valorizada, bonita.

RAPARIGA – Óh, vocês são tão simpáticas. E vocês o que vão fazer?

ANOREXIA – Nós vamos estar por aí.

BULIMIA – A ensinar outras jovens e adultas como tu.

RAPARIGA – Há mais?

AS DUAS – Claro que sim.

RAPARIGA – Eu vou deixar de voa ver?

AS DUAS – Não…

ANOREXIA – Nós vamos visitar-te nos próximos dias.

BULIMIA – Mas promete-nos que vais recuperar, que vais gostar de ti, e que vais ficar bem.

RAPARIGA – É difícil.

ANOREXIA – O que é que é difícil?

RAPARIGA – Prometer-vos isso.

AS DUAS – Porquê?

RAPARIGA – Não sei o que fazer.

BULIMIA – Mas vais saber.

ANOREXIA – Sê paciente. As coisas demoram o seu tempo. Prometes?

RAPARIGA – Vê lá se cumpres, se não, vamos embora!

RAPARIGA – Óh, por favor… não vão embora. Não vão abandonar-me aqui, pois não? Depois de tudo o que passamos juntas, aqueles momentos tão bons, tão nossos…

(As 3 sorriem)

BULIMIA – Não, não te vamos abandonar, mas vamos encontrar-nos cada vez menos.

RAPARIGA – Não! Vou ficar sozinha?

AS DUAS – Não.

ANOREXIA – Não vais precisar de nós.

BULIMIA – Vais ter muitos amigos, muita gente a gostar de ti, e a ajudar-te.

ANOREXIA – Vamo-nos encontrar, mas só para matar saudades.

RAPARIGA – Mesmo?

AS DUAS – Sim.

RAPARIGA – Obrigada por tudo, amigas!

AS DUAS – De nada!

ANOREXIA – É essa a nossa missão.

AS DUAS – Até já.

(Trocam carinhos e abraços)



3ª PARTE

(Monólogo)

Passados uns longos meses…a rapariga está em recuperação, e escreve uma carta à Anorexia e à Bulimia.



            Queridas amigas Ano e Bu: escrevo-vos da minha casa. Finalmente sai do hospital. Não reconheci o meu quarto, à primeira. Parece que dormi um sono de meses, ou que emigrei e voltei.

Ainda é tudo muito novo para mim, tenho a sensação que nunca estive nesta casa, mas aos poucos, vou reconhecendo. Depois de vários meses em acompanhamento psicológico, psiquiátrico e alimentar, exercício físico, passeios, relaxamentos, culinária e muitas outras atividades, estou quase nova. Irreconhecível.

As refeições com os meus pais são fantásticas, parece que estão a ensinar um bebé a comer, provar sabores, comer bocadinhos e horas certas. Vejo que eles estão felizes. Eles são um apoio incansável.

A minha alimentação sofreu grandes mudanças, mas sinto-me cada vez melhor, e tanto eu como os meus pais festejamos todos os mais pequeninos progressos. Cumpri o que vos prometi. Engordei, quer dizer…recuperei o peso até ao valor saudável e indicado para mim, de acordo com a altura e idade.

Ainda tomo suplementos alimentares, mas agora gosto muito de mim. Aprendi que tenho muitas qualidades que a obsessão pelo peso não me deixava ver.

Agora que estou mais composta, gosto muito mais do meu aspeto. Todos repararam que estou bonita e elegante. Sinto-me maravilhosa! Ganhei uma série de amigas, que me têm dado muito valor, rio muito com elas, saímos muitas vezes, vamos às compras, elas preenchem-me de carinho. Estou feliz, e não sinto aquele vazio.

Não voltei ao nosso local secreto, mas também não sinto falta. Gosto mais da luz que há à minha volta, a que os meus olhos veem. Estou a aprender a gostar da perfeição, imperfeição do meu corpo.

Eu estava mesmo feia, Ano, com a pele e o osso, parecia uma radiografia, via os ossos todos. Não gostava de mim, gorda, nem assim tão esquelética. Estou a aprender a não ligar ao que os outros dizem, e a perceber as belezas de cada um que se cruza comigo.

Antes ficava ofendida, agora, sorrio ou ignoro. Talvez fiquem surpresos por ver as minhas mudanças, e se não virem já não me preocupo. O mais importante é que estou a gostar.

Os profissionais que me estão a ajudar desde o início, são uns anjos, e tenho conhecido outras raparigas, bonitas, que estiveram na mesma situação que eu, nas terapias de grupo. Como aprendo com elas!

Gosto das minhas mudanças e estou feliz com as minhas vitórias. Registo-as todas, desde as mais insignificantes, às maiores. Faço os trabalhos de casa que eles marcam.

Alguns fazem-me chorar, no início antes de escrever, sinto coisas más, mas depois de as escrever e de falar sobre elas nas terapias, é um alívio. Sinto que cresço e que me transformo.

Às vezes releio-as, e nem imaginam como me sinto quando vejo tudo o que passei, tudo o que mudei, o que melhorei e as descobertas que esse episódio me ofereceu.

Sinto-me mesmo orgulhosa. Desculpem, amigas. Vou ter de sair para a minha ginástica. Outro dia escrevo-vos mais, porque acho que também ficarão orgulhosas por todas as minhas vitórias.

Saudades.

Beijinhos, e até já.

Olha para o espelho, ajeita-se, sorri, manda um beijo e sai.





FIM

Lara Rocha

(23/Novembro/2019)






quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Rima para estimular a aplicação de sinais de pontuação


         
Era uma vez uma menina que desenhou um ponto numa folha. 
Não sabia o que desenhar a partir de um ponto. 
    Desenhou um ponto e uma vírgula. 
O ponto e a vírgula deram a mãozinha e uma cambalhota, que parecia um ponto de exclamação, muito comilão! 
A menina desenhou uma carinha redondinha, que parecia estar a piscar o olho. 
Mas ela queria mesmo era desenhar alguma coisa.
Não desenhou.  
Mas para sua surpresa,
          Com o ponto e vírgula, e o ponto de exclamação a menina conseguiu inventar uma canção. 
Ficou tão feliz, que escreveu a letra da canção.
Todas as letras da canção 
deram um chi-coração 
e voaram nas asas de um abelhão. 
Fora da sala, 
O abelhão sacudiu os pontos, as vírgulas, os pontos e vírgulas e os pontos de exclamação 
Para as folhas de um menino que escrevia outra canção. 
Soltou uma grande exclamação 
Por ver tantas letras e palavras, 
E assim com elas, escreveu outra linda canção. 
A canção da menina juntou-se com a canção do menino, 
Mas faltava o refrão. 
Um cão de rua gostou tanto da canção, que uivou.
O uivo do cão, 
Inspirou os meninos para o refrão 
da sua canção. 
Cantaram todos juntos, 
Até o cão participou, 
Ao cantar o refrão. 
De um ponto final, 
De um ponto e vírgula, 
De um ponto de exclamação 
escreveram uma canção, 
E depois, 
Inventaram um conto,
Sobre um ponto, 
Uma vírgula, 
Um ponto e vírgula, 
Um ponto de exclamação 
Uma canção, 
Com um refrão  
E a ajuda do cão. 

 Fim 
Lara Rocha 
20/Novembro/ 2019 

Convido todos os leitores que quiserem, a participar no desafio. Desenhar um ponto numa folha e deixar que a partir desse ponto seja criado alguma coisa: uma canção, um conto, um desenho, o que for. Podem colocar aqui, ou enviar para: lala.rochapsiact@gmail.com 
Pode ser uma atividade engraçada para pais e filhos :) 
Até já 


  

terça-feira, 12 de novembro de 2019

o gato e a abóbora


foto de Lara Rocha 

Candeeiro de Lara Rocha 
           
        Era uma vez uma noite de Outono que mais parecia Inverno. Fria, muito chuvosa e ventosa. Um gato estava na casa dos seus donos, deitado em cima de almofadões à beira da lareira, dado à preguiça, e a saborear a ventania, o crepitar do lume, o calor. As pessoas da casa já se tinham deitado, e o gato ficou no mesmo sítio. Era o seu sítio preferido.
       Naquele ambiente, olhou para a janela e embalado pelos sons que o envolviam, deu um grande salto quando viu olhar para ele uma abóbora com uns olhos enormes e parecia que dava luz. Ficou todo eriçado. Nunca tinha visto tal coisa.
- Mas que espécie de animal é aquele? Credo! Parece um filme de terror, ou que me vai devorar com aqueles olhos e a bocarra. Deixa-te estar, gato. Tu aqui, e ela lá fora. Só espero é que ela não olhe para mim, e que vá embora. Não quero encontrar-me com aquela criatura da noite.
      De repente o gato ouve passos. É a sua dona adulta que vai à janela, apaga a vela, e mete a abóbora rapidamente dentro de casa.
- Bital, não estragues esta abóbora, está bem? É para os meninos levarem amanhã para a escola.
       A dona acaricia o pelo do gato, ele mia, e devolve carinho.
- Áh, que quentinho que estás aí. Não precisas de mais nada pois não…? Não. Boa noite, e porta-te bem. Já sabes. Os donos gostam muito de ti.
      O gato deixa a dona subir as escadas. Olha para a abóbora, está sem luz.
- Mas o que é que aconteceu? Não é a mesma…ela chamou-lhe...abóbora? Bital é um nome, o meu nome, é musical, mas abóbora...porque é que ela lá fora estava a dar luz, e agora não está.
      A abóbora abana. O gato fica gelado, ronda a abóbora com medo, devagar, levemente, cheira-a, e ouve um bocejo.
- Aqui está bem melhor. - soa uma voz da abóbora
     O gato apanha um grande susto, recua, e fica muito quieto nos seus almofadões. Pelo interior da abóbora espreita um pequenino morcego que se tinha abrigado do frio da noite. O gato solta um miar de medo. O morcego estica as asas.
- Ui, tanta luz. (boceja) Ali ficou muito frio de repente, estava mais quentinho há bocado. Um gato neste espaço todo…? Mas, onde estou? Está aí alguém?
- Eu… - diz o gato com medo
- Onde? Não te estou…(cheira) Hummm… já sei, estás ali onde há muita luz.
- É uma lareira. Tu quem és?
- Ora, não me conheces? Sou mundialmente conhecido, eu e os meus. Sou um morcego.
- Áh. Sim, desculpa. E o que tens a ver com essa abóbora?
- Aproveitei-a para me abrigar do frio e da chuva. E tu, vives sozinho neste espaço?
- Não. Há muita gente nesta casa. Mas estão lá em cima, eu é que durmo aqui.
- Ah! Que sorte.
- Aproxima-te mais de mim…
- Para quê?
- Para conversarmos um pouco.
- Está bem, mas não me vais atacar pois não?
- Não.
- Eu também não.
       O morcego e o gato tornam-se logo grandes amigos, conversam durante toda a noite, riem muito, contam aventuras, partilham água quente, conversam deitados no chão, depois deitados nos almofadões, e quase ao amanhecer, o morcego dorme com o gato, escondido entre as costas e o almofadão, envolvido nas suas próprias asas.
       As crianças da casa estão eufóricas, e o gato de olhos fechados mas acordado, ouve dizer:
- Mamã: temos de levar a nossa abóbora. Tens alguma luz?
- Está aí dentro, é só acender a vela.
- Ainda bem que a puseste cá dentro! - diz o menino
- Claro, se ficasse lá fora, ficava toda melada.
- Boa! - gritam os dois
- Está linda. - diz a menina
- Tenho a certeza que vai ser uma bela festa! - diz a mãe
       As crianças acendem a vela e a abóbora fica toda cor-de-laranja. O gato abre os olhos, e vê a imagem que tinha visto fora da janela. Pensa para si próprio:
- É isto, que era tão assustador? Aquilo que olhava para mim com uns olhos e uma bocarra tão grande que me parecia que ia devorar. Está diferente! O meu amigo tinha razão…visto de noite, e visto de dia é muito diferente. De noite é assustador, parece muito maior, muito mais escuro. Hum, que engraçado. Ainda bem que ela guardou aqui a abóbora, porque assim conheci um amigo.
       Ele procura discretamente o amigo.
- Áh, estás aqui.
- Xau, Bital... hoje temos festa no colégio, é por isso que vamos levar esta abóbora.
- Xau, Bital, ainda bem que não a comeste. Ela está assustadora, não está? Mas não faz mal, é só para brincar.
      O gato mia e ri. Os meninos saem a correr com a abóbora na mão.
- Até logo, Bital. Lindo bichinho. Porta-te bem...
      O marido sai a correr, com os outros dois filhos ainda a dormir, até se esqueceu do gato. A seguir desce a filha mais velha, toma o pequeno almoço e sai.
- Será que vai tudo para a festa da abóbora? E eu, não vou? Porquê? Se não estivesse a chover ia atrás deles espreitar. Gostava de saber como é essa festa. E depois, o que fazem com a abóbora? Será que há mais abóboras, ou é só aquela?
      O meu amigo deve saber. Mas vou deixá-lo dormir, e depois quando ele acordar, de certeza que me vai responder.
      O dia do gato foi como o de sempre, o seu amigo desperta ao fim do dia, e os dois divertem-se muito. O morcego conta ao gato como é essa festa da abóbora. Os meninos chegam a casa e contam a festa toda ao gato, prometeram que fariam uma festa na sua casa, e ele estaria presente. A abóbora foi para a panela da mãe e fez uma rica sopa.
      O morcego não abandonou mais o seu amigo gato. E assim se cumpriu mais uma festa da abóbora, que primeiro assustou o gato, mas também lhe deu um amigo, o morcego!
                                                             
                                                            Fim
                                                       Lara Rocha 
                                                  12/Novembro/2019


   

domingo, 3 de novembro de 2019

O que ficou lá atrás (monólogo de um refugiado)


O QUE FICOU LÁ ATRÁS
(Monólogo de um refugiado)
                   


            Estou aqui em segurança. Sim, eu sei e agradeço aos Deuses por estar aqui. Não tenho raiva de ninguém, nem de nada, porque não fui eu que inventei a maldita guerra que me fez deixar tudo para trás. A mim, à minha família e a todos os que vieram comigo.
A minha caminhada até à paz não foi fácil. Talvez até tenha sido mais difícil do que a guerra que eu tinha no meu país. O meu país! Era o meu país, a minha cidade, onde eu tinha a minha casa, os meus pais, os meus irmãos, os meus animais, o meu quarto, todo o conforto, e o amor. Esse era o principal cimento da nossa casa.
Um amor que os malditos invejavam, porque nos seus corações só havia ódio. Ódio, ódio por todos, ódio por dinheiro, ódio por armas. Odeio esses, sim, odeio! Odeio os que se matam e destroem por dinheiro, os que são infelizes e acham que os outros do bem têm obrigação de ser como eles.
Odeio todos os o que ficaram lá atrás, no meu país, onde eu tinha tudo. O meu país, que agora não passa de um amontoado de pedras, tijolo, vidros, pedaços de coisas queimadas, partidas, como ficaram os nossos corações.
Nossos, aqueles que somos do bem, que queríamos viver lá, no nosso país, onde nascemos do amor dos nossos pais, aquele país que nos formou…como pôde formar e ao mesmo tempo deformar tantos milhares? Pergunto-me muitas vezes, o que levou esses malditos que odeio, a escolher o caminho do mal, e a levar os do bem para o fim do mundo.
Do mundo inteiro, talvez não, mas do nosso mundo, onde eu tinha os meus sonhos, os nossos sonhos. A minha cidade, que ficou lá atrás, para onde quis voltar muitas vezes ao longo do caminho.
Vimos a nossa casa reduzida a escombros. Não sobrou nada. Apenas areia e chamas. A dor. No meio da paz do sono, fomos acordados por um monstro. Só tivemos tempo de sair, sem pensar no que estava a acontecer. Fora de casa, é que percebemos o que tinham feito… um pesadelo real. Felizmente estávamos todos juntos, abraçados.
Ainda hoje consigo ouvir os nossos choros, e os choros dos meus vizinhos que estavam ao lado, os gritos de raiva e dor. Ficamos petrificados sem saber para onde ir. Havia uma voz dentro de cada um de nós que nos dizia que tudo aquilo que estávamos a ver era um pesadelo. Mas não. Até a voz estava iludida. Era tudo bem real.
Eram estrondos por todo o lado, cheirava a medo em cada milímetro de pó, de chão, de paredes. Gritos, correria, sangue, dor, morte, destruição. Estávamos entre a espada e a parede… ou ficávamos ali e desaparecíamos juntamente com a casa e a nossa cidade, ou fugíamos e procurávamos um outro lugar seguro para continuar a viver e realizar os nossos sonhos.
Decidimos fugir. Não sabíamos para onde. As palavras desapareceram, e o caminho foi percorrido com lágrimas e gritos. Andamos sem rumo, só por andar. O peso que tínhamos nos pés era o mesmo que o peso da nossa raiva no coração, mas também talvez fosse esse peso monstruoso que nos segurava a vontade de continuar.
Fraquejamos, paramos muitas vezes, conseguimos comida, e água, de almas generosas que nos compreendiam. Dormimos em grutas, dunas no deserto, convivemos com feras que tinham mais medo de nós, do que nós deles.
Eramos aos milhares. Não tínhamos destino, mas também não queríamos aquele futuro, do nosso país que estava em pó. Todo o corpo doía, mas ainda mais doía a revolta dirigida a quem destruiu tudo o que nos pertencia, sem que tivéssemos nada a ver com isso.
Pelo caminho, sempre em lágrimas, muitos queriam desistir, voltar para trás, mas não sabíamos sequer onde estávamos. Tudo o que nós eramos estava a ficar muito lá para trás.
Não sabíamos onde, mas não era certamente ali, nem em nós. A nossa alma tinha ficado lá, com as nossas casas, na nossa cidade. Olhamos muitas vezes para o céu, à procura de um sinal, de uma estrela guia, de uma luz. A principal estrela era a nossa vontade de viver.
Muitos tentaram destruir-se em linhas de comboio, em falésias, em pontes por onde passamos. Mas o grupo não deixou. Eramos do bem, tínhamos o coração perdido, mas ainda dispúnhamos de mãos. Esses gestos davam-nos uma força renovada para continuarmos a acreditar que a nossa caminhada ia valer a pena.
Não foi fácil. Houve muito desespero. Demos muitas vezes as mãos, mesmo a quem não conhecíamos, mas estavam connosco, tal como nós, tinham deixado tudo lá atrás, com a dor e a tristeza.
O darmos as mãos dava-nos uma força que não sabíamos de onde vinha, apenas sentíamos, e uma esperança nunca antes sentida. Até que um dos nossos caísse e quisesse desistir.
Às vezes era uma vontade comum: voltemos para trás! Gritavam uns. Não quero continuar! Gritavam outros. Não aguento mais! Vou desistir! Continuem amigos, eu fico aqui.
Foi o que ouvimos constantemente, mas nesses momentos, talvez houvessem anjos à nossa volta, que nos serenavam a dor, e que nos davam força. Anjos que não víamos, mas estavam, acreditávamos que sim, porque se não estivessem, teríamos mesmo desistido.
A dor, e o choro sufocavam-nos. Levantávamo-nos e seguíamos, estávamos juntos com o mesmo propósito. Encontrar a paz, reconstruirmo-nos por dentro. Recomeçar. Queríamos, mas a incerteza nem sempre nos permitia seguir em frente. Parávamos, alimentávamos o corpo, rezávamos e continuávamos.
Não nos deixamos dominar por ela. Seguimos. Andamos milhares de quilómetros, por desertos, ruas, sempre com os olhos abertos a olhar para todo o lado. Passávamos discretos, nem sempre. Sentíamos que todos nos olhavam de canto, comentavam, afastavam-se.
Se eles soubessem! Se eles tivessem deixado tudo lá atrás como nós, compreenderiam. Não sabiam como doía. Todos nós, que víamos casas, lembrávamos a nossa casa, que agora já não existia, tudo o que tínhamos, tudo o que era nosso.
As lágrimas caiam e só ouvíamos o soluçar uns dos outros, um coro enorme e comum, no silêncio, de dor, quase ao mesmo ritmo do arrastar dos nossos pés pesados, que poucas vezes obedeciam à nossa necessidade e vontade de continuar a lutar. Pareciam colados e que transportavam tudo aquilo que já não eramos, as nossas recordações.
Enquanto caminhávamos não pensávamos no futuro, a incerteza não nos deixava, nem no passado, mas era impossível que ele não nos acompanhasse. Para não perdermos a força de continuar, não pensávamos nem no passado nem no futuro.
A nossa preocupação principal era o presente, apenas as formas de nos salvarmos, de conseguirmos força. Como conseguíamos? Não sabemos. A luta pela sobrevivência, talvez. Mas nem sabíamos para que sobreviveríamos, não sabíamos o que nos esperava.
Acreditávamos que encontraríamos algo melhor, mas não tínhamos a certeza. Só medo! Mesmo assim, uma força desconhecida, levou-nos a seguir. O grupo começou a dispersar-se, uns ficaram em cidades que os apanharam e acolheram porque estavam doentes e precisaram de assistência. Outros gostaram do sítio, sem saber o que iam encontrar.
Nós continuamos. Sempre com mil olhos abertos, sempre com o coração muito apertado, sempre sem rumo, e com a incerteza se íamos conseguir. Nunca nos abandonamos uns aos outros.
Escondemo-nos muitas vezes, apanhamos grandes molhas, tempestades, protegemo-nos em grutas, apanhamos tempestades de vento que nos chicoteavam dos pés à cabeça, mas nem esse era mais doloroso do que a nossa dor de termos deixado tudo para trás.
Chegamos a Portugal. O paraíso. Sim, aqui estamos bem. Fomos recebidos com carinho, arranjaram-nos uma casa, com todas as condições, deram-nos trabalho, dinheiro e alimentação, roupas.
Aqui estamos felizes, em paz. Temos paz. Um privilégio, a compensação da destruição que deixamos lá atrás. A família está comigo, entendemo-nos bem, mas a noite… a noite é o pior.
Não, não há guerra, aqui, mas há os medos que trouxemos, os traumas como dizem por aí. Mal fechamos os olhos começamos a ouvir outra vez os estrondos, as bombas, os choros, os gritos, vemos as chamas, a destruição…o nosso coração fica outra vez inquieto.
Dizem que é da nossa cabeça. E tem razão. Acendemos a luz, e tudo está bem! Respiramos fundo, que alívio. Mas porque é que isto não ficou lá atrás? O medo, mesmo quando está tudo bem, os pesadelos a noite toda. Será que alguma vez vai deixar-nos?
Isso gostaríamos que tivesse ficado noutro lugar qualquer, e nós, que tivéssemos ficado lá, lá atrás, na nossa cidade, no nosso país, em paz, sem guerra, na nossa casa, com as nossas coisas por que tanto lutamos, e de repente tudo ficou reduzido a nada, misturado com a dor e a tristeza.
Mesmo estando muito agradecidos, claro que as lágrimas continuam a cair, elas não ficaram lá, sempre nos acompanharam, e vieram. Claro que temos saudades, e às vezes vontade de voltar, mas não para o nosso país como está agora. Seria para recomeçar do zero. Isso fizemos aqui, em Portugal, neste recanto de paz, com boa gente.
Ainda assim, os Portugueses não podem ir lá atrás buscar tudo o que ficou. Nem nós. Mas aqui, já podemos pensar um bocadinho num futuro, e tentar esquecer o passado! Será que conseguimos? A dor é muito grande! É a vontade misturada com a saudade.
A raiva e o ódio estão muito presentes, contra quem nos destruiu. Cada um de nós nunca mais vai ser o mesmo. Até a nossa maneira de ser, ficou lá, ainda não sabemos quem somos, nem quem seremos daqui para a frente. Chegamos aqui vazios! Como é difícil renascer, deixar tudo para trás, à procura de melhores condições, de paz… e recomeçar.
E vocês que não têm do que reclamar, fartam-se de reclamar e exigir mais, e mais. Vão à nossa cidade, ao nosso país, ver se precisam realmente de mais, de tudo o que pedem?
Vão ver os hospitais de lá, as escolas, os supermercados, tudo! Vocês têm tudo, principalmente paz. Agradeçam por tudo o que não tem de deixar para trás. Agradeçam por não terem de fugir, agradeçam por terem tudo o que querem, e não levarem com bombas.
Agradeçam por não ouvirem gritos, choros, sangue, dor, desespero! Tudo o que deixamos lá atrás, nunca mais será nosso, nunca mais poderemos recuperar, a não ser na nossa memória, enquanto também ela não fica lá atrás.
Vocês visitam o lá atrás porque querem, para recordar memórias felizes, mas quando nos criticarem, ou quando criticarem o vosso país, a vossa cidade, tentem procurar o nosso país, a nossa cidade, e pensem se vale a pena recuperar o que deixaram lá atrás, ou se é preciso quererem tanto!
Vão ver tudo o que deixamos lá atrás, nós, os que fugimos, e pensem como são felizes! Eu não quero voltar lá atrás, se voltasse iria buscar o que ficou enquanto o ódio de muitos, e a ambição pelo dinheiro, o amor pelas armas, não falou mais alto. Para quê?
Ódio, guerra, destruição, dinheiro, armas? É isso que somos? E onde fica o que somos? O que temos de melhor?
Vão lá atrás e vejam tudo o que ficou. Nada! A única coisa que ficou foram estilhaços de nós, dos nossos sonhos, tantos que tínhamos para realizar, a nossa felicidade, pessoas, casas…tudo ficou no chão de uma guerra sem fim. 
          O mar mediterrânico, suspira, chora e traz à superfície os gritos das almas que se perderam, nas suas profundezas! É lá que procuram a vida que sempre desejaram. Não era isso que eles queriam, aqueles que deixam tudo para trás. Mas foi no mar, onde não há guerra, nem fome, onde só há silêncio e paz.
          O vento enraivece-se, pela impotência de não poder impedir tanta desgraça. O mar revolta-se por tanto indiferença, e grita para despertar consciências. Mar cruel…mar revolto, mar sem culpa, mar com dor. Mar Mediterrânico.
Demos agora as mãos, a quem está ao nosso lado, uns aos outros, e façamos uma grande corrente de paz. Para que tudo o que ficou lá atrás, volte em forma de amor para todos.

                                                                        Fim 
Lara Rocha
3/Novembro/2019

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

pequenina história - a aldeia onde não havia dinheiro

                                                 A aldeia onde não havia dinheiro



            










           




foto de Lara Rocha 



              Era uma vez uma aldeia pequenina, feita de casas pequeninas, janelas pequeninas, portas pequeninas, jardins e quintais pequeninos. Todos os habitantes eram pequeninos em tamanho, mas enormes em bondade, simpatia, sorrisos, coragem, amizade, abraços, carinhos.             
           Nessa aldeia, ninguém tinha dinheiro, mas não lhes faltava nada. Tudo o que precisavam era pago com estrelas, e o mais caro, pagavam com cometas. Os trocos eram dados com estrelas ou cometas de acordo com o que compravam.
            Tinham alimentos que os próprios cultivavam, e ofereciam aos que não tinham esses alimentos, em troca de outros que lhes faziam falta.
            De vez em quando, recebiam pequenas prendinhas oferecidas por anjos que se esmeravam, como forma de agradecimento por terem corações tão bonitos. Não eram prendas materiais, mas bem mais especiais.
            Umas vezes, eram lindas enormes, leves e mágicas borboletas, de asas cheias de cores e finas, nunca antes vistas, que deixava todos maravilhados. Outras vezes recebiam flores vistosas com salpicos de brilhantes.
            Na Primavera, os anjos ofereciam uma paisagem natural que parecia um sonho. Cheia de cor, flores, cheiros leves e agradáveis, um sol que sorria sem parar, porque até ele ficava encantado com tanta beleza, cestas de fruta da época à porta de cada casinha, e sementes de alimentos.
            No Verão, os habitantes reuniam-se num pequeno largo, com candeeiros habitados por minúsculas fadas que acendiam as luzes, e assistiam a concertos de cigarras, grilos, e peças de teatro do grupo dessa aldeia, ouviam poesia e conversavam sobre elas. Eram noites recheadas de muitas gargalhadas. Tinham à sua disposição sumos de fruta da época, e nas noites de Lua Gigante, havia um baile mágico que parecia um sonho.
             No Outono, os anjos ofereciam uma nova paisagem à aldeia. Espalhavam tapetes de folhas de muitas cores, por todo o lado, aquelas que vemos nas árvores, castanhas, nozes, maçãs suculentas e bonitas, uvas grandes, de várias cores, peras, à porta de cada habitante.
             No Inverno, os anjos ofereciam um gigante manto de neve, leve e macia, que durava até à Primavera, e não derretia com o sol. O Natal deles era muito bonito. Reuniam-se todos num parque da aldeia, protegido da chuva e do frio, com lareiras, cheio de felicidade, cores, música, canções, brincadeiras, partilha de presentes feitos com coisas da Natureza e da terra.
             E era assim, a aldeia onde não havia dinheiro como o nosso, mas onde não faltava nada, e tinham o principal: amizade, carinho, abraços, simpatia, sorrisos, mais os presentes dos Anjos.
                                                         
                                                                   Fim
                                                                   Lálá
                                                           10/Outubro/2019