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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

pequenina história - a aldeia onde não havia dinheiro

                                                 A aldeia onde não havia dinheiro



            










           




foto de Lara Rocha 



              Era uma vez uma aldeia pequenina, feita de casas pequeninas, janelas pequeninas, portas pequeninas, jardins e quintais pequeninos. Todos os habitantes eram pequeninos em tamanho, mas enormes em bondade, simpatia, sorrisos, coragem, amizade, abraços, carinhos.             
           Nessa aldeia, ninguém tinha dinheiro, mas não lhes faltava nada. Tudo o que precisavam era pago com estrelas, e o mais caro, pagavam com cometas. Os trocos eram dados com estrelas ou cometas de acordo com o que compravam.
            Tinham alimentos que os próprios cultivavam, e ofereciam aos que não tinham esses alimentos, em troca de outros que lhes faziam falta.
            De vez em quando, recebiam pequenas prendinhas oferecidas por anjos que se esmeravam, como forma de agradecimento por terem corações tão bonitos. Não eram prendas materiais, mas bem mais especiais.
            Umas vezes, eram lindas enormes, leves e mágicas borboletas, de asas cheias de cores e finas, nunca antes vistas, que deixava todos maravilhados. Outras vezes recebiam flores vistosas com salpicos de brilhantes.
            Na Primavera, os anjos ofereciam uma paisagem natural que parecia um sonho. Cheia de cor, flores, cheiros leves e agradáveis, um sol que sorria sem parar, porque até ele ficava encantado com tanta beleza, cestas de fruta da época à porta de cada casinha, e sementes de alimentos.
            No Verão, os habitantes reuniam-se num pequeno largo, com candeeiros habitados por minúsculas fadas que acendiam as luzes, e assistiam a concertos de cigarras, grilos, e peças de teatro do grupo dessa aldeia, ouviam poesia e conversavam sobre elas. Eram noites recheadas de muitas gargalhadas. Tinham à sua disposição sumos de fruta da época, e nas noites de Lua Gigante, havia um baile mágico que parecia um sonho.
             No Outono, os anjos ofereciam uma nova paisagem à aldeia. Espalhavam tapetes de folhas de muitas cores, por todo o lado, aquelas que vemos nas árvores, castanhas, nozes, maçãs suculentas e bonitas, uvas grandes, de várias cores, peras, à porta de cada habitante.
             No Inverno, os anjos ofereciam um gigante manto de neve, leve e macia, que durava até à Primavera, e não derretia com o sol. O Natal deles era muito bonito. Reuniam-se todos num parque da aldeia, protegido da chuva e do frio, com lareiras, cheio de felicidade, cores, música, canções, brincadeiras, partilha de presentes feitos com coisas da Natureza e da terra.
             E era assim, a aldeia onde não havia dinheiro como o nosso, mas onde não faltava nada, e tinham o principal: amizade, carinho, abraços, simpatia, sorrisos, mais os presentes dos Anjos.
                                                         
                                                                   Fim
                                                                   Lálá
                                                           10/Outubro/2019

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

o espelho

       

     
desenhado por Lara Rocha 

        Era uma vez uma concha com uma pérola muito bonita. Parecia igual a todas as outras conchas com pérolas, mas esta só algumas pessoas conseguiam abri-la. As que tivessem uma alma bonita, as bondosas, as que amavam a natureza. 
         A pérola da concha, cansada de ver almas escuras, decidiu retirar-se uns dias da superfície. Nesses dias em que esteve a descansar, também pensou muito, principalmente porque é que as pessoas andavam com as almas tão escuras.
         Viajaram até Angola, Moçambique, e Índia. Viram a miséria que lá havia, mas ao contrário do que elas imaginavam, muitas almas conseguiram abrir a concha, e ver-se ao espelho. Algumas eram tão bonitas que até apareciam pequeninos pontinhos brilhantes, de minúsculas fadas que cintilavam com a beleza das almas. Outras vezes apareciam arco-íris.
Elas não sabiam porque é que isso acontecia, até que decidiram perguntar a uma menina:

- Menina, desculpa a nossa pergunta: mas...como é que as vossas almas são tão bonitas numas cidades como estas, tão pobres, que não tem quase nada, vocês mal podem comer e viver?

- Concha, essa pergunta é fácil! É que nós temos tão pouco, mas temos o que nos faz mais felizes, e mais bonitas. Um coração generoso, os nossos mais velhos ensinam-nos o que é preciso. Temos casa, temos roupa, temos calor, temos comida, natureza que nos dá tudo o que precisamos para viver, temos família, temos amor, e saúde.

- Mas os outros povos têm muito mais do que vocês, e as almas deles são feias, escuras, infelizes! - diz a pérola

- Claro, são ricos em material, mas eternamente insatisfeitos. Quanto mais têm, mais querem, mais exigem. Como podem ser felizes com mais, se não acham suficiente? Talvez lhes falte o principal…

- E o que é o principal? - pergunta a concha

- É a felicidade nas pequenas coisas, nas mais pequenas, como poder ver, ouvir, cheirar, sorrir, ter braços e mãos para ajudar, trabalhar, abraçar, e fazer tudo o que queremos. É a felicidade de ter pessoas que sabem muito, com idade, mas corações enormes, mãos vivas, olhos felizes. Os outros povos não sabem o que é isso! Não têm de buscar nada, não veem nada do que é realmente bonito.
Como podem ser bonitos e com almas claras, se não veem...a felicidade e a paz. Os abraços, os carinhos e os sorrisos. - Explica a menina

- Áhhhh! Que bonito! - Dizem as duas a sorrir encantadas

- Muito bonito, e verdadeiro. Foi o que me ensinaram, a mim e ao meu povo! - diz a menina

- Mas que maravilhosa lição. Muito obrigada. - Diz a concha

- Muito bom. Obrigada.

- Já vão embora? - pergunta a menina

- Sim, vamos ensinar esta lição às almas escuras. - diz a concha

- Vão iluminá-las…? - Acrescenta a menina

- Isso! - Dizem as duas

- Mas voltamos! - promete a pérola

- Até já!

- Até já e boa viagem.

            A concha e a pérola regressam aos outros povos onde as almas eram infelizes, e em vez de só permitirem que as almas bonitas as abrissem, deixaram que as almas tristes pudessem ver-se e ao mesmo tempo, quando se viam no espelho da concha, a pérola irradiava luzes de todas as cores, que tornavam as pessoas mais felizes.
           E sempre que precisavam de luz, voltavam aos povos que eram mais pobres, mas mais felizes. Mesmo assim, havia pessoas que não conseguiam mudar para cores claras. Para essas, a concha fechava rapidamente, pois achava que elas não queriam ser felizes.

         Se fossem vocês, a concha abriria? Que cores veriam no espelho?

                                                             Fim
                                                             Lálá
                                                      12/Agosto/2019

quarta-feira, 22 de maio de 2019

o arco-íris perigoso


           foto de Lara Rocha 

Era uma vez uma linda praia, de águas calmas e transparentes, onde dava para ver o fundo e os peixes raros que lá viviam. 
      Tudo corria bem, até que um dia...um grupo de humanos ambiciosos, que só pensavam em ganhar dinheiro com pesca de espécies raras e exóticas daquela ilha, montaram uma armadilha.
      Pintaram um arco-íris na água que parecia natural, mas era na verdade óleo que despejaram nas águas, e brilhava como o arco-íris com o sol. 
      Uns raios de luz do sol com esse falso arco-íris entraram na água e espalharam-se para atrair os peixes.
      Todos os habitantes submarinos acharam estranho. Nunca tinham visto nada assim. Era realmente muito bonito, mas a rainha dos mares, que passava naquela altura, sentiu um cheiro diferente na água. 
      Olhou para cima e viu aquele misterioso arco-íris.

- O que é isto? - Perguntou a rainha

- Não sabemos. - respondem todos

- Há aqui um cheiro estranho. Grisalho...vai lá ver o que é. Com cuidado!

      Grisalho é um peixe guarda da rainha. Rapidamente, vai à superfície e volta.

- Então…?

- Viste alguma coisa?

- Vi, e não gostei nada!

- Como?

- Vi um bando de homens a deitar qualquer coisa nojenta na água. Óh, já sei… era igual a este arco-íris.

- Estão a poluir a água?

- Sim, infelizmente!

- Não posso acreditaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrr…. - grita estrondosamente a rainha cheia de raiva.

       Todos estremecem e encolhem-se. A rainha pior que furiosa, ganha a forma de um tubarão gigante. Na água apanha todos de surpresa, prende os homens na sua bocarra, eles gritam em pânico, enquanto ela vê de onde vem o arco iris.
       Ela cospe-os com tanta força que eles vão parar quase às dunas da praia, e caem uns por cima dos outros. Olham para a rainha assustados. 
        Ela está gigante, olha-os nos olhos, com os seus olhos que parecem balas de canhões, mostra uns dentarrões e grita-lhes:

- Quem são vocês, malditos?

      A voz da rainha parece um tufão. Eles nem se atrevem a falar.

- Não falam seus covardes? Não saem daqui inteiros se não falarem.

      Ela dá uma sacudidela com a enorme barbatana na areia a olhar para eles nos olhos.

- Para a próxima a barbatana cai em cima de vocês! Vamos…não tenho o dia todo. Expliquem que porcaria é aquela?

- É... óleo. - confessa um dos homens cheio de medo

- Cala-te palerma. - Grita outro homem

- Óleo… - diz a rainha como se estivesse calma, mas com vontade de os esfarrapar - Que óleo? - Grita a rainha

- Óleo… - respondem todos

- Que óleo?

- É...para… para…

- Para quê? - grita a rainha

- É que…nós… - diz outro homem

- Ai, que paciência… - resmunga a rainha e bate com a barbatana na areia - despachem-se - grita

- É que…

- Querem servir de refeição para nós, é? - pergunta a rainha zangada

- Na...na...não.

- Então?

- Nós queríamos levar as espécies tão bonitas que há aqui.

- Mas era só o que mais faltava. Levá-las para onde?

- Para… muitos sítios. Precisamos de dinheiro.

      A rainha explode, desata a bater sem dó nem piedade nos homens com as barbatanas pesadas e gigantes, e grita-lhes:

- Isto foi só uma amostra! Porcos. Vão limpar imediatamente aquela porcaria… ou querem ser almoço, jantar, pequeno almoço, lanche, almoço, jantar, ceia… para o meu povo?

- E como é que vamos limpar?

- Isso não é comigo! - grita - com a vossa língua a ver se gostam. Onde já se viu…? Levem uma garrafinha para meterem pela boca abaixo. Imbecis. Ainda não aprenderam o mal que estão a fazer, a eles próprios, e aos semelhantes! Já para não falar em nós… Vamos… - grita - souberam poluir, agora também tem de saber como tirar aquela porcaria dali, ou eu faço-vos engoli-la. Rápido… antes que eu perca a pouca paciência que me resta…nem consigo olhar para vocês. Que nojo.

      Os homens aterrorizados, recolhem a água poluída com óleo para umas garrafas limpas. A rainha assiste a tudo, e com as suas explosões de raiva, forma redemoinhos no mar para complicar o trabalho dos homens. 

     Ri-se, e quando o trabalho fica completo, ela faz um aviso:

- Ponham-se bem longe! Ai de vocês que vos veja em praias aqui das redondezas… o dinheiro vai pagar a vossa saúde? Vai…claro que sim...vão ver onde vão parar com o que andam a fazer. O que vão comer, quando no nosso e vosso planeta só houver plástico, lixo, e óleo nos mares e na terra, e não houver peixe? Vão sobreviver, a comer lixo? Vão? Vão continuar a pescar peixes bonitos para ganhar dinheiro...e vão comer o dinheiro? E o que fazem aos peixes que levam? Eles vão alimentar-se de plástico e lixo. Vai ser o que vocês vão comer…? Vocês, humanos… e nós, peixes. Pensem nisso, se a vossa ambição pelo dinheiro, pelo vender peixes raros, a poluir, vai dar-vos saúde e matar a fome. Vai? Mergulhem para ver o vosso futuro muito próximo! Desapareçam. E não quero voltar a ver-vos aqui.

        Os homens fogem o mais rápido que conseguem, sem olhar para trás, e quase sem respirar. A rainha volta para o seu reino marinho, conta aos outros o que aconteceu. Todos aplaudem a decisão e coragem da rainha, agradecem, e prometem estar atentos a todos os sinais de poluição.

                                                                          FIM
                                                                          Lálá
                                                                   (22/Maio/2019)
 

           

             

segunda-feira, 20 de maio de 2019

O sol que nasceu por trás da flor

           

            












            





foto de Lara Rocha 


            Era uma vez uma fada bebé, que foi deixada pela mãe atrás de uma flor enorme, dentro de um ovo de cristal, ainda fechado, enquanto a sua mãe foi trabalhar com as outras fadas. Ainda era cedo para a bebé nascer, acreditava a mãe, embora a pequena já fosse comprida, por isso, confiou e deixou-a debaixo da flor, um lugar seguro e quente.

- Olá, boa noite, amiga. Posso deixar a minha princesinha enquanto vou trabalhar? - pergunta a fada

- Óh, boa noite! Claro que sim, com muito gosto. - responde a flor

- Ela ainda não vai nascer já, por isso, é só para deitares uma petalazinha de vez em quando. - responde a fada muito segura

- Vai descansada, querida amiga! Sabes que comigo ela está bem entregue e bem cuidada.

- Sim, eu sei que sim.

- Ela está sossegada como a noite! Que linda. - sorri a flor

- Até daqui a pouco… - diz a fada

- Até já. Boa noite de trabalho!

- Obrigada. Isso é o que não falta.

- Felizmente!

             As duas riem.

- Claro. Mas com uma pequena… é difícil. - suspira a fada

- Pois. Mas está tudo bem! Está quase.

           A mãe sabia que a bebé estava bem entregue. A flor gostava muito de tomar conta de ovos e de bebés, por isso, tudo estava sossegado, tal como a noite, quente, cheia de estrelas e uma lua enorme, cheia, linda.
           O silêncio da noite, foi interrompido de manhã, por uma grande festa. Com o nascer do Sol, a bebé fada fica muito agitada, dá murros, pontapés e cambalhotas dentro do ovo, e este começa a estalar por todo o lado, até que parte.
          A flor, como já tinha muita experiência de vida, primeiro ficou assustada, mas logo se lembrou que tinha diante de si uma bebé fada, dentro de um ovo. Aquela agitação toda, era o nascimento da fadinha, que aconteceu ao mesmo tempo do sol a nascer.
         Tal como o sol foi crescendo e aparecendo por trás da flor, a bebé fada partia mais o ovo, e começava a ficar com o seu corpo à mostra. A flor sorria, esperava pacientemente, e olhava deliciada.

- Vamos, pequenota…- dizia a flor

         Quando o sol estava já estava completo e bem iluminado, chega a mãe fada, e apanha um grande susto.

- Parabéns, mamã… a tua pequena não quis ficar mais lá dentro. Nasceu com o nascer do Sol!

- Áh! Mas ainda faltava tanto!

- Deixa lá isso. O que interessa é que ela está aqui, linda, perfeita. Olha que maravilha!

         A mãe fada, recomposta do susto, pega carinhosamente na filha, sorri, beija-a, abraça-a, a bebé sorri.

- Óh, Fadas, todas poderosas. Muito obrigada! - Diz a mãe fada

- É maravilhosa! - suspira e sorri a flor

- Como nasceste com o sol...vou chamá-la de Sol. O que te parece, amiga?

- Óh… (sorri) perfeito! Faz todo o sentido, o nome encaixa na perfeição.

- Aceitas ser a madrinha dela? - convida a fada

- Mas, mas…eu…

- Vá lá…! É uma escolha que faço com todo o meu coração, amizade e sinceridade!

- Bem…(sorri) estou sem palavras. Se é assim… aceito!

         As duas abraçam-se a sorrir, beijam a pequena fadinha, e trocam carinhos. A bebé anda de colo em colo, todas a abraçam e fazem uma festa de boas-vindas. O ovo é guardado numa gruta onde estão muitos outros milhares de ovos, porque conforme uma lei daquele reino, guardar os ovos dava saúde, felicidade e sorte!
                                                                       
                                                                      FIM
                                                                      Lálá
                                                              (20/Maio/2019)



         

         
             

terça-feira, 14 de maio de 2019

Se eu fosse um pedaço de Lua


foto de Lara Rocha 


Se eu fosse um pedaço de Lua..
Ia descalça pelas ruas, com a minha enorme capa de brilhantes. 
Passava por pontes, onde me espreguiçava e esticava.
Deslizava, rodopiava e dançava nas águas das fontes.
Ia pelos campos e espalhava lantejolas da minha capa para chamar as fadas e os seres da Natureza. 
Ficava sentada na relva fofa a apreciar, a sentir e a falar com as cigarras, os grilos, os mochos e as corujas que me cantavam e embalavam com as suas canções. 
Se eu fosse um pedaço de Lua, 
Passeava com os meus pezinhos de luz, pela neve 
Brincava com focas, 
Entrava em tocas, 
Saía em grutas. 
Enfeitava-me com pedras e cristais, 
Saltitava de nenúfar em nenúfar, 
Cheirava todas as flores, 
A maresia,
A terra. 
Mexia na terra, na areia, 
Tocava nas folhas, nos troncos, nos ramos, nos galhos e nos botões de flores.
Acariciava a maciez das pétalas, e as penas dos mochas, das corujas e dos pássaros. 
Se eu fosse um pedaço de Lua, 
Subia montanhas para ver o sol nascer, 
Dormia na praia para ver o entardecer e o anoitecer, 
Rebolava na areia, apertava, largava, deixa-a passar sem pressa e com carinho pelos meus dedos das mãos, e depois pelos pés, pernas, braços...
E no fim, juntava-me à outra metade da Lua, que me esperava.
Dávamos as mãos, envolvíamo-nos num abraço sincero e carinhos,
Até ficar Lua Cheia! 


E vocês, leitores? O que fariam se fossem um pedaço de Lua?
(Podem escrever as vossas respostas, aqui no blog)


                                                     FIM
                                                     Lálá
                                                     14/Maio/2019


                 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

As velas

           


             Era uma vez uma caixa de velas, levada por uma menina que queria acendê-las pela paz e como agradecimento aos Anjos pelos Pais que tinha, pela boa saúde, pela comida e pela casa. Quando tentou acendê-las com um isqueiro, elas não acenderam. Tentou com fósforos, elas tossiram e não acenderam. Tentou acendê-las na boca do fogão, e elas acenderam uma chama fininha e pequenina. A menina sorri, põe-nas em cima da mesa, fecha os olhos a sorrir e reza. Quando abre os olhos, as velas estão apagadas e sem cera. A menina fica muito surpresa.
- Estas velas não prestam! E agora como vou rezar? Mãe…- Resmunga e chama a menina a gritar
- O que foi, filha?
- Comprei estas velas que a Dona Gazela me indicou, queria rezar, acendi de várias maneiras, só consegui na última, no bico do fogão. Mostraram uma chama muito pequenina e fininha. Quando fechei os olhos e abri, estavam apagadas.
- Não te preocupes, o teu pedido chega lá na mesma.
- Não era um pedido, era um agradecimento.
- Muito bem, seja o que for, chega lá.
- Como é que chega lá sem velas?
- Claro que chega lá sem velas. O que interessa é a tua intenção e a sinceridade com que rezas.
- Áh!
- É. Deixa as velas para quando não houver luz.
- Mas como é que eu sei que eles nos ouvem?
- Claro que ouvem! Também sabes que eles existem, e nunca os viste, certo?
- Certo.
- Com as orações é o mesmo.
- Áh! Pensei que as velas é que faziam chegar mais depressa ou com mais força a oração.
- Não.
- E agora o que faço?
- Metemos ali as velas, para quando for preciso. Pode ser por estar frio e elas não acendem.
- Elas também têm frio?
- Sim.
- Como é que sabes?
- Sei. Elas também são natureza como nós. Reza na mesma, sem velas.
- Está bem.
          E a menina agradece aos Anjos sem velas, explicando-lhes porque é que não tinha velas acesas. Sai da cozinha e deixa as velas. As velas conversam entre si:
- Ufa! Que gelo.
- Está mesmo.
- Também sentem frio?
- Claro!
- Ei, esperem aí...estamos num sítio diferente.
- Pois estamos. Não ouviste a conversa da rapariga?
- Ela queria ver-nos acesas!
          Começam todas a rir
- Para rezar…
          Todas riem
- Santa inocência.
          Riem alto
- Estes humanos são mesmo bichos estranhos.
- Acho que precisam de um bocadinho de fogo…!
- É!
- Até eu não me importava de ter um foguinho perto de mim.
          Riem
- Pois, um foguinho em cima de ti...queres tu dizer.
- Ai, que maliciosa…
           Gargalhadas
- Brincalhonas. Era só para aquecer um bocadinho o ambiente.
           Todas riem
- Por falar em gelo...Andam muito gelados.
- Quem? Nós, ou eles?
- Eles!
- E nós por arrasto.
- Pois, é por isso que nós também não conseguimos acender.
- Claro!
- Ei...está-me a cheirar a fumo!
- A mim também.
- Malta...acho que fui eu, desculpem.
           Gargalhadas.
- Pelo menos quebraste um pouco este gelo à nossa volta.
           Riem outra vez.
- Será que alguma de nós consegue dar um bocadinho de calor?
- Podemos tentar.
- E como fazemos isso?
- Encostamo-nos.
- Mas já estamos encostadas e não acendemos.
- Acho que estamos congeladas.
- E se dermos as mãos?
- Boa.
           As velas dão as mãos.
- Vamos pensar na nossa amizade, para ver se acendemos.
           As velas pensam na amizade entre elas, e acendem uma gigantesca chama. Ficam surpresas e sorriem.
- Resultou.
- Áh que bom!
- É porque a nossa amizade é mesmo sincera.
- Claro.
- Alguma tinha dúvidas disso?
- Não!
- Áh!
- Que quentinho delicioso.
- Mas esperem… porque é que não acendemos com a rapariga?
            Ficam em silêncio, pensativas.
- Se calhar é por ela não ser nossa amiga.
- Ou talvez pelo gelo que há entre as pessoas como ela.
- E há assim tanto gelo entre as pessoas como ela?
- Ouvi dizer que sim.
- Devia ser por isso que estávamos congeladas.
- Se calhar a oração da menina não era sincera.
- Pareceu-me sincera.
- Mas ela chamou-nos porcaria.
- Óh, isso não é para levar a sério. Já sabem que esta gente das cidades é assim.
- Acham que devíamos acender outra vez, para a menina?
- Acho que ela não nos vai tocar mais.
- Porque não?
- Acho que ficou muito zangada.
- Por isso é que não acendemos.
- Áh! Claro. - dizem todas
            Elas continuam a conversar, até que quando já estão quentes, apagam-se. Durante muitos dias, a menina rezava sem acender as velas. Um dia acendeu e elas iluminaram os lindos olhos da menina.
- Podemos ficar acesas.
- Ela é sincera.
           Dizem umas às outras. A menina abre um grande sorriso e faz a sua oração. No fim, canta. Elas ficam encantadas com a voz da menina, e aumentam a sua chama.
- Obrigada. - Diz a menina às velas
           Sopra-lhes:
- Até amanhã.
           As velas apagam-se. No dia seguinte, a menina volta a acender as velas. Mas de repente, um vento cortante, regelado, entra pela frincha da janela, sopra forte, abre a janela com força e congela as velas. Elas ficam cobertas de neve, tal como toda a cidade. A menina grita assustada, fecha a janela, tenta acender as velas, mas elas não acendem.
- Maldito vento! E agora?
           A menina mete os pés das velas em água quente, e cai o gelo, mas como estão molhadas não acendem. Ela deixa-as secar, cobrindo-as, enroladas numa manta fofa que usa para se deitar no sofá. No dia a seguir acordam a tremer de frio. A menina vai vê-las, elas aquecem, e voltam a acender. Eram umas velas muito sensíveis, como a menina. E assim surgiu uma troca de amizade entre as velas e a menina, que as levou para o seu quarto, e que as acendia sempre que queria rezar ou agradecer.

                                                                 FIM
                                                                 Lálá
                                                            3/Maio/2019
                       



         

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A amizade entre as gotinhas de água e a aranha

       

Era uma vez uma aranha que vivia num país muito quente, poluído, onde já não chovia há muitos anos. Os habitantes e os animais que lá viviam já estavam habituados ao calor. Mas ultimamente estava a ser demasiado, o calor, e a secura.
         Uma aranha passeava pela areia quente, sem pressa, e aos saltinhos pequeninos para não sentir tanto o quente, procurava desesperadamente uma sombra, era quase um oásis encontrar alguma. Para não ficar ao sol, ela andava mais rápido, e finalmente encontrou uma palmeira com grandes folhas.    Trepou rapidamente pelo tronco e chegou à primeira folha, dobrada, macia.

- Áh! Que bela sombra! - Suspira a aranha - Encontrei o paraíso. Como é possível este forno, quase ficava esturricada. Que sufoco...aqui está fresquinho. Áh! Que bom. Só falta água para ser perfeito. Quando irá acontecer? Aiiii...

        Umas gotas de água ouviram o seu desejo e ficaram com pena dela. Decidiram cair da atmosfera e pousaram em cima da teia. A aranha tece uma teia em cima da folha, muito vagarosamente, mas o efeito final parece uma colcha rendilhada. Finalmente repousa num cantinho da sua teia. Adormece, e sonha com muita água, que havia água por todo o lado, e ela nadava feliz, saboreava a frescura da água, e refrescava-se.
       As gotinhas já lá estão a brincar e a saltar na teia, quando a aranha acorda a sorrir. Teve de olhar várias vezes para as gotinhas, pois pensava que ainda estava a sonhar.

- Água...? Ááááááhhhhh.... Sim, quero água! Quero tanto água que até sonho com ela. Acho que ainda estou a sonhar, e a vê-las aqui. Mas com este calor é impossível haver água. Ai, que sede! Água... por favor, onde há água? Água!

- Coitadinha, está a delirar com o calor. - diz uma gotinha

- Olá! - dizem as gotinhas em coro

- Água...- diz a aranha

- Estamos aqui. - Respondem as gotinhas

         Sacodem-se e molham a aranha, outras gotas contorcem-se por cima da aranha e dão-lhe um belo jato de água. A Aranha suspira feliz, ri.

- É real ou estou a sonhar?

- É real.

- Água? Isto é água? Áááááááhhhhhh... Á-g-u-a...Água! Sim, é agua! - Salta a aranha feliz - molhem-me mais, por favor.

         As gotas juntam-se, entrelaçam-se, abraçam-se, e enchem um buraco no tronco da palmeira com água. Depois enchem outro buraco ainda maior com água para ela beber. A aranha sorri, saltita feliz, toda brilhante.

- Áh! Água... Muito obrigada. Quero beber mais água...

         Abre a boca, e as gotinhas deitam mais água na teia para a aranha se molhar e beber sempre que sentisse sede. As gotinhas riem ao ver a enorme felicidade da aranha.

- Quando precisares de água, chama-nos. - Diz outra gotinha

- Muito obrigada!

         As gotinhas voltam para a sua casa, e a aranha sente-se tão feliz, mas tão feliz que fica mergulhada na água que as gotinhas deixaram no tronco. Mas, começou a pensar:

- Eu estou aqui agora, rodeada de água, que maravilha! Mas...e os humanos, será que também não precisam de água? Eu até lhes dava alguma, mas não quero saber, também não gostam de mim, nem da minha família. Que se arranjem! Espera...e se eu lhes der água, será que eles me aceitam melhor e começam a gostar mais de mim? Hum, acho que não. Eles são muito nojentos. Tratam-nos muito mal, não merecem! Não. Esta água é toda para mim. Óh…mas...e se há bebés? E outros animais? Todos precisamos de água! Mas não quero saber.
       
         Enquanto a aranha refletia, dividida entre a bondade e a vontade de ignorar quem não gosta dela, começa a chover torrencialmente. Ela dá um grito, e muito assustada corre para uma toca onde estavam morcegos a dormir. Ela nem reparou.
         Choveu durante horas e horas seguidas, as pessoas da terra ficaram tão felizes, queriam tanto água, e precisavam mesmo, que dançaram, apanharam chuva, cantaram, encheram baldes, atiraram-se para as piscinas, porque estava calor.
         A chuva foi tanta que encheu barragens completamente vazias. Felizmente voltou a haver muita água nas torneiras, criaram ilhas naturais no meio de areias, encheu tanques, fez crescer vegetais, e voltou a haver água que se farta, o que foi ótimo para a alimentação dos animais.
        A teia da aranha ficou cheia de gotinhas saltitantes, que se desprendiam com o vento, que as sacudia. Umas conseguiam agarrar-se à teia, outras caíam. A aranha ficou deliciada a ouvir o barulho da chuva a cantar em tudo o que batia. Ela saiu da toca e foi brincar com as gotinhas. Por isso, além de água, a aranha ganhou novas amigas que adoravam saltar na sua teia, e elas, em troca para agradecer, matavam-lhe a sede, e refrescavam-na. A aranha e as gotinhas tinham longas conversas, riam e brincavam muito umas com as outras. Sempre que estava tudo demasiado seco, as simpáticas gotinhas levavam as famílias e as amigas para inundar tudo outra vez.
         E assim cresceu uma linda amizade entre as gotinhas e a aranha.

                                                                            FIM
                                                                            Lala
                                                                      22/Abril/2019