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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A pintora sonhadora






























Era uma vez uma menina, que um dia olhou da sua janela do quarto e viu que o céu estava muito escuro. Foi ter com a sua avó, se estava na sala a tricotar, e os seus pais trabalhavam de noite, e disse:
- Avó…já viste o céu?
- Sim, o que tem?
- Está muito escuro.
- Claro…é noite! Não há sol.
- Pois é. Mas eu não gosto dele assim.
- Não faz mal…daqui a bocadinho já estás a dormir, e não olhas para ele. Quando acordares, estará sol, um dia claro.
- Avó: podes dar-me os pedacinhos de lã que tens aí?
- Para quê?
- Para transformar em estrelas, e para eu gostar mais do céu.
- Óh…que disparate! Achas que isso é possível?
- É.
- Está bem…pega lá neles…estão ali.
A menina pega em todos os restos de lã que a avó tinha num cesto, e leva para o seu quarto. Pega num fio de cada cor, enrola e esfrega na sua mão e sopra virada para a janela.
E cada fio de lã transforma-se num fio de estrelas que se evapora. Quando ela repara, o céu está cheio de estrelinhas cintilantes. Ela abre um grande sorriso, e fica muito surpresa.
- Áh! Fui eu que as pus ali? Aquelas estrelas todas, com as lãs da minha avó? Ááááááhhhh…. Que lindo! Assim já gosto do céu.
Vai a correr ter com a avó, e grita:
- Avó...anda ver o que eu fiz com os teus pedacinhos de lã… (A avó assusta-se, a menina leva-a pela mãe e vai ver). Olha…transformei-as em estrelas. Agora o céu está muito mais bonito. Já gosto dele assim.
- Está bem. Que lindo! Muito bem…agora já podes dormir.
- Está bem. Boa noite, Avó querida…e obrigada pelos teus pedacinhos de lã, com que fiz estrelas.
A avó ri-se, trocam carinhos, beijos e abraços, a Avó cobre-a carinhosamente, e ela adormece a sorrir. No dia seguinte, chove muito, está muito frio e cai neve. A menina recebe a visita de uma fada e convida-a para passear.
Pelo caminho, a fada conta-lhe que ela é também uma fada, e as duas apanham gostas de chuva num frasco, para transformar noutras coisas, mas este é um segredo só delas. As duas divertem-se muito.
À noite, a fada leva umas gotinhas de gelo à menina, e as duas transformam-nas em estrelas, outras transformam-nas em sorrisos, outras em beijos que depois espalham pelas casas do bairro, para que as pessoas que lá vivem se tratem bem e com carinho.
No dia seguinte está sol, e as duas aproveitam para brincar na neve, com outras fadas e bailarinas de gelo. Aproveitam as gotas com o arco-íris da luz do sol nas gotas de chuva que escorregam pelas folhas das árvores, e transformam-nas em luzinhas para levar para os meninos não terem medo do escuro, que distribuem pelas casas.
Na noite seguinte, o céu estava outra vez muito escuro, e as fadas reuniram-se todas, a menina também, e pintaram o céu com estrelas. Mas de repente, uma bruxa malvada, passou pelo céu, espalhou um pó que fez as fadas dormirem, e roubou todas as estrelas que elas tinham pintado. Quando acordaram, não se lembravam do que tinha acontecido, mas viram que faltava alguma coisa no céu… claro…as estrelas. Todas começaram a gritar…
- As estrelas…? Onde estão as estrelas…? Levaram as nossas estrelas…?
A avó ouve a menina aos gritos, vai ao quarto dela, e ela abre os olhos.
- O que foi, filha? – Pergunta a Avó
- Avó…roubaram as nossas estrelas.
- Que estrelas?
- As que eu e as minhas amigas fadas pintamos lá em cima.
- Ãhhhh…?
A menina olha para a janela.
- Olha…vês…? Não há nenhuma estrela lá fora.
- Pois não, porque está nublado e a chover. Mas as estrelas continuam lá, por trás das nuvens.
- As minhas amigas estavam a dizer que tinham roubado as estrelas.
- Quem roubou?
- Alguma bruxa.
- Óh. Estavas a sonhar…
- Não, Avó…aconteceu mesmo. E antes, transformamos gotas de chuva que brilhavam ao sol, em luzinhas e distribuímos pelas casas, para os meninos não terem medo do escuro. Depois, pegamos em gotinhas de gelo e umas transformamos em sorrisos, outras em beijos, e outras em estrelas, e distribuímos pelo bairro, para as pessoas se darem bem.
A Avó sorri:
- Áh, que coisas tão bonitas que fizeram…
- Eu sou uma fada.
- Sim, claro que sim.
- Já sabias?
- Já.
- E nuca me tinhas dito?
- Era um segredo…pediram-me para guardar.
- Ai foi? Quem?
- Outras fadas…
- Áh! Tu também as conheces?
- Claro.
- E também pintaste estrelas, com elas? E transformaste gelo em sorrisos, beijos e estrelas e luzinhas…?
- Sim.
- Então tu também és uma fada?
- Sou.
- E tens poderes?
- Sim, alguns.
- Estou muito feliz de ter uma Avó fada. E a mãe também é?
- É.
- Boa! Somos uma família de fadas.
- Sim…
- E agora, quem vai pôr lá as estrelas que nos roubaram?
- Eu ponho-as lá.
- Prometes?
- Prometo. Fecha os olhos…
                E a menina fecha os olhos, adormece outra vez, e a avó sorri. Na manhã seguinte, tudo estava na mesma…a menina tinha apenas imaginado, e sonhado que era uma fada e que tinha pintado estrelas, transformado gotas de água e gelo, em sorrisos, luzinhas e outras coisas bonitas que ela desejava. Era só uma menina que adorava ser uma fada, mas era só uma menina.

Fim
Lálá
(25/Outubro/2016)



terça-feira, 25 de outubro de 2016

As galochinhas


 
Era uma vez uma árvore muito velha por fora, mas no seu tronco que estava oco, por dentro estava tudo mobilado e vivia uma família de esquilos com oito esquilinhos, brincalhões, cheios de energia, saltavam, corriam, trepavam às árvores, subiam e desciam, escondiam-se em tocas, entravam e saiam, e ainda ajudavam os pais.
Depois de uma tarde de Outono chuvosa, com muitos saltos em poças de lama, corridas e escorregadelas em cima de folhas molhadas os esquilinhos lavaram e deixaram as suas galochinhas à porta de entrada a secar.
Cada par de galochinhas tinha cores diferentes, mas tamanhos quase iguais, porque os esquilinhos eram de idades muito próximas e não cresciam muito. Tomaram um belo banho quente, jantaram e foram dormir, porque estavam muito cansados, de tanto salto e brincadeira.
Enquanto dormiam, um gato, uma gata e quatro gatinhos bebés, miavam cheios de frio, caminhavam devagar. A chuva estava cada vez mais pesada, e muito frio, os gatos decidiram descansar e abrigar-se por ali.
O sítio escolhido foi mesmo…as galochinhas dos esquilinhos, como estava um pouco escuro não viram o que eram, nem sabiam que aquilo eram galochas para se usar nos pés, porque era uma entrada protegida.
O pai gato virou as galochinhas, deitou-as no chão, e os gatinhos bebés entraram, instalando-se no cano das galochas. Os pais gatos fizeram uma espécie de círculo fechado, com as galochinhas para protegerem mais os bebés, entraram noutras galochas, e ficaram bem juntinhos.
Que confortáveis e quentes ficaram nas galochinhas, enquanto caiam trombas de água, umas atrás das outras, que faziam muito barulho, juntamente com o vento forte. Todos dormiram até de manhã.
Na manhã seguinte, os esquilinhos preparavam-se para sair depois de uma noite bem dormida, e um belo pequeno-almoço. Quando iam para pegar nas galochinhas, ficaram gelados, sem se mexer, de boca aberta, a olhar para as galochinhas.
- O que é isto? – Perguntam todos
- O que temos aqui? – Pergunta um esquilinho
- Pêlo… - Exclamam todos enojados
- Pêlo nas galochas? – Pergunta outro esquilinho
- Elas não têm pêlo… - Diz outra esquilinho
- Pois não! – Confirmam todos
- Como assim…pêlo…? – Pergunta uma esquilinho
- Que nojo! – Exclamam todos
- Pêlo de quem? – Pergunta outra esquilinho
- Acho que nem quero saber… - Exclama outra esquilinho
- Acho que não volto a calçá-las. – Comenta outro esquilinho
- Nem eu! – Dizem todos
- E agora? – Pergunta outro esquilinho  
- O que vamos fazer? – Pergunta outra esquilinho
- Serão…- pensa alto outra esquilinho
- Ratos…? – Perguntam todos
E começam todos a gritar, os gatos estremecem, e escondem-se mais dentro das galochas, e voltam a aparecer, e a esconder-se.
- O que foi? – Perguntam os pais esquilos
- Estão ali umas coisas com pêlo…! – Explica um esquilinho
- Onde? – Pergunta a mãe esquilo
- Ali…nas nossas galochas. – Aponta uma esquilinho
- Quando nos íamos calçar, vimos pêlo… - Diz outra esquilinho
- Que nojo! – Dizem todos
- Meteram-se lá para baixo agora.
- Já estiveram aqui em cima, no cano.
- Apareceram, desapareceram…
- Serão ratos? – Pergunta a mãe esquilo
E aparecem os gatinhos baralhados e assustados, a tremer:
- Óh! São gatinhos! – Diz o pai esquilo
- Gatos? – Perguntam todos
- Sim! São inofensivos! – Diz o pai esquilo
- O que é isso?
- Que não fazem mal!
- Como é que foram aí parar?
E o pai gato explica:
- Peço desculpa! Este sítio é vosso?
- Sim! – Respondem todos
- É a nossa casa.
- O que estão aqui a fazer?
- É! Ainda por cima nas nossas galochas, para pormos os pés?
- Eu posso explicar…é que esta noite choveu muito, estava muito frio e escuro, tivemos de parar. Encontramos esta entrada que pelo menos era protegida, e pensei que os meus bebés se podiam aquecer ali…quer dizer…nisto…
- Nas galochas. – Dizem todos
- Mas nós vamos embora!
- Não! – Dizem todos os esquilos
- Se não têm para onde ir, podem ficar aqui! – Diz a mãe esquilo
- Claro! – Confirma o pai esquilo
- Nas nossas galochas?
- Não!
- Pedimos desculpa por ter gritado! – Diz um esquilinho
- Assustamo-nos! – Diz outro
- Mas não faz mal…! Se não nos fazem mal. – Diz outras esquilinho
- Vamos arranjar um sítio para vocês! Aqui…nesta árvore ao lado, vejam se gostam! – Sugere o pai esquilo
- É. Está desocupada, mas é seguro ficar lá. – Diz a mãe esquilo
- Óh! Está maravilhosa…vamos ver…
Os esquilos acompanham os gatos com os seus bebés e os gatos decidem ficar na árvore ao lado, com um tronco oco, mas espaçoso e quase todo fechado. Estava seco.
- Sim! Aqui estamos protegidos! O que acham? – Pergunta o pai gato
- Sim! – Responde a sua família
- Gostei deste sítio! – Diz a mãe gata a sorrir
- Venham tomar o pequeno-almoço connosco, e depois vou ver o que vos posso dar! – Diz a mãe esquilo
- Isso! E depois vamos dar aí uma volta para conhecerem o espaço! – Sugere o pai
- Óh! Não queremos incomodar. Já incomodamos de mais! – Diz o pai gato
- Nada disso! Vão ser nossos vizinhos. Aqui temos esse hábito…quando chega alguém de novo, recebemos. Porque a qualquer momento poderemos precisar uns dos outros! Vivemos no mesmo sítio, conhecemo-nos, e damo-nos todos muito bem. – Diz a mãe esquilo
- Muito obrigada. – Dizem os gatos
- Venham… - Diz a mãe esquilo
A mãe prepara um belo pequeno-almoço para os gatos, e todos conversam alegremente. Os pequenitos esquilos travam logo amizade e ganham confiança com os pequeninos gatinhos, mostram a casa toda, a paisagem das janelas, os brinquedos, as árvores, e a mãe esquilo procura roupas de cama, lençóis e cobertores, colchas, almofadas macias que pode dar, alguns brinquedos, alimentos, utensílios de cozinha, móveis…
Enquanto os pequeninos brincam juntos numa grande alegria e correria, com muita energia e gargalhadas, os pais tratam da mudança e acomodam a casa. Formam a partir desse dia, uma verdadeira família, com amizade, partilha, convívio, os gatos foram às festas e fizeram grandes amigos.
Era um bairro grande, com casas nas árvores, onde viviam animais de várias espécies, mas isso não os impedia de serem amigos; e eram mesmo! As galochinhas voltaram a ser usadas só para os esquilinhos calçarem nos pés, mas elas foram um ninho, pelo menos durante uma noite, para gatinhos que se transformaram em amigos.

E vocês? Se deixassem as vossas galochinhas à porta da vossa casa, acham que algum bichinho as calçaria ou poderia instalar-se nelas? Qual? O que fariam?

Fim
Lálá
(22/Outubro/2016)


      

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

De gritos para canções




















Era uma vez uma menina quase adolescente, que estava sempre a gritar, não conseguia falar baixo, e quando falava baixo, os seus gritos transformavam-se em lágrimas, por isso, quando tal acontecia, ela tinha de fugir e gritar num sítio onde não incomodasse ninguém.
Mas um dia, nesse lugar onde ela foi para gritar, apareceu um ser muito misterioso, um rapaz adolescente, calado, alto, elegante, todo vestido de roupa preta. Ela assustou-se e engoliu o grito para não incomodar o rapaz.
- Ai…acho que vou rebent (com uma voz fininha e baixinho, até que grita outra vez) aaaaaaaaaaaaaaaaaaarrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...Desculpe! – Diz a menina a tossir
O rapaz dá uma sonora a dobrada gargalhada:
- Mas o que é que te mordeu?
- Nada!
- Estavas a gritar, pensei que algum bicho te tinha dado uma dentada.
- Não.
- Então porque estavas a gritar?
- É que…não consigo evitar…sinto umas coisas a subir pela minha garganta, e tenho que gritar, se não, fico muito mal disposta.
- Vens para aqui gritar?
- Sim.
- Porquê?
- Para não incomodar as pessoas com os meus gritos.
- E porque é que gritas?
- Não sei.
- É mais forte do que eu.
- Já fazes isso há muito tempo?
- Sim, desde bebé.
- E já foste ao médico?
- Já.
- E então?
- Ele não viu nada.
- Então já é de ti.
- Sim.
- Mas porque o fazes?
- Não sei. Sei que fico muito aliviada.
- Ora…grita lá.
- Óh, é melhor não…
- Vá lá.
- Não…vou incomodar…
- Não incomodas nada. Eu quero ouvir.
- O quê?
- Sim, eu quero ouvir-te gritar.
- Tens a certeza do que me estás a pedir?
- Tenho.
- Acho que não vai ser boa ideia.
- Anda…grita.
- Bem, se é isso que queres…
            A rapariga começa a gritar, e a fazer movimentos com o corpo, gestos que acompanham os gritos. O rapaz fecha os olhos, ouve-a, e diz:
- Chega.
            Ela cala-se muito surpresa. Ele sorri:
- Uau. Que linda voz.
- Ãh? Estás a gozar não?
- Não. Estou a falar muito a sério. Arrepiaste-me.
- Isso deve ter sido de nervoso…pelo menos é o que toda a gente me diz…que os meus gritos provocam arrepios de nervoso.
- Isso é insensibilidade.
- Eu acho que eles têm razão.
- Não. Tu dás tudo, os teus gritos ganham vida, têm emoções, todo o teu corpo falou enquanto gritaste…
- Mas…
- Alguma vez cantaste?
- Sim, mas rapidamente me mandaram calar.
- O que é que te acontece quando não gritas?
- Parece que rebento, e choro.
- Gostavas de cantar?
- Acho que…até gostava.
- Então vamos experimentar.
- O quê?
- Sim.
- Mas, o que é que tu fazes?
- Depois conto-te, agora quero ouvir-te.
            Ela começa a gritar, ele ouve atentamente, e responde com um tom de voz mais grave, mas igualmente bonito. Parece que os dois entram num lindo diálogo de ópera, com movimentos e gestos a acompanhar as vozes. A rapariga fica encantada com a voz dele.
A certa altura, ele manda-a gritar baixinho, e os gritos dela transformam-se em lágrimas, que ele transforma em notas musicais a sair dos olhos, apanha-as e mete-as numa bolsinha especial.
- O que é isso que guardaste?
- São as tuas lágrimas.
- Para que queres as minhas lágrimas?
- Para transformá-las em letras de músicas. Vou ouvir as tuas lágrimas, e compor canções para cantarmos juntos.
- Ááááááááááhhhhhhhh… nunca outra ouvi.
- Vais ver que vai ficar maravilhoso. Por favor…de cada vez que chorares, guarda as tuas lágrimas e traz-mas. Pode ser?
- Se fazes assim tanta questão…
- Sim! E cantaremos mais vezes juntos…aparece aqui, quando precisares de gritar.
- Combinado.
- Obrigado. Até à próxima.
         O rapaz desaparece, e ela fica pensativa. Cada um vai para sua casa, e o rapaz explora as lágrimas da rapariga, como notas musicais, compõe dezenas de letras para canções, experimenta, sorri, comove-se, e brinca com as notas musicais.
       Uns dias mais tarde os dois votam a encontrar-se, e a rapariga dá-lhe um frasco com mais lágrimas. Ele põe-na a ouvir as canções que compôs com as lágrimas dela. Ela fica muito surpresa, e ao mesmo tempo encantada.
- Uau! Estão maravilhosas…são lindas as canções! – Diz ela a sorrir
- Também achei. Vamos experimentar?
- Está bem.
E os dois cantam as canções dele, com muita delicadeza, suavidade, leveza e sorriem. Cresce entre eles muita cumplicidade, amizade, carinho e a paixão pela música. Ele leva as outras lágrimas dela, e compõe mais músicas.
Uns tempos depois, os dois vão pelas ruas mostrar as suas canções, e todos aplaudem, até dão moedas. Com o dinheiro que juntaram, conseguiram gravar o primeiro CD, e a partir daí não pararam mais. Tiveram muito sucesso, foram muito aplaudidos e solicitados para atuar.
Afinal, os gritos da rapariga eram um talento escondido, que se transformaram em canções, e foi descoberto por uma alma sensível.

FIM
Lálá

(12/Outubro/2016)

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

O potinho surpresa


Era uma vez uma aldeia, com casas de pedra, que ficava numa montanha. Era Outono, estava um dia quente, e os habitantes tinham por hábito lavar os potes onde cozinhavam o ano todo, mas havia uma lenda que dizia que teriam mais saúde e a terra produziria mais no Inverno, se os potes fossem lavados e secos ao sol, principalmente no Outono. Foi isso que eles fizeram: acordaram muito cedo, lavaram os potes, puseram-nos a secar ao sol, e à hora do almoço estavam prontos para ser usados.
À noite, um potinho ainda ficou fora da porta, com os gatos vadios. De repente ouve-se a tampa a mexer. Os gatos assustam-se, e começam a miar, a cheirar o pote. A tampa levanta-se e cai ao chão. Os gatos recuam assustados, e do potinho sai uma linda fada, de cabelos azuis muito compridos, roupa azulada e bem quente, e a sua pele parecia feita de gelo. Espreguiçou-se, bocejou, saiu do pote, os gatos recuaram assustados e ela diz:
- Olá boa noite! Vocês não deviam estar aqui fora. Está muito frio! (os gatos abrem a boca para tentar responder, mas a fada continua a falar). É melhor procurarem um lugar quente. Aliás costuma estar assim tanto frio aqui? (Os gatos tentam responder, mas a fada não se cala) Ali no pote estava muito mais quentinho, claro, não admira, esteve ao sol. Porque é que está tanto frio aqui? (Os gatos tentam falar, mas ela continua). Vocês estão muito calados, estão envergonhados? (Os gatos suspiram)
A Fada do Outono ri-se:
- Já desligaste o rádio, amiga? – Pergunta a fada do Outono
- Rádio? Que rádio? Estás aqui? Pensei que já tinhas ido embora…chegou a minha vez! – Diz a fada do Inverno
- Estás com pressa? Vais ter até à Primavera para trabalhar…é muito tempo! – Responde a fada do Outono
- Tu rompes a palavra tempo. (As duas riem)
- E tu falaste tanto até agora, que os gatinhos já tentaram falar, mas tu ainda não te calaste! – Responde a fada do Outono, os gatos riem.  
- A minha voz é música, tenho a certeza! Desculpem amigos, mas é que estou tão feliz por estar aqui, que quis dizer logo tudo…! Este lugar é lindo, e venho de muito longe, já passei por muitos lugares, mas este é especial… está sempre assim tanto frio aqui?
- Não! – Respondem os gatos
- Vocês dormem sempre cá fora? – Pergunta a fada do inverno
- Sim!
- Está tanto frio porque tu chegaste! – Diz a fada do Outono
- Áh! Pois é! Sou eu que trago o Inverno! A época do ano mais bonita. E não é por ser eu a trazê-lo. – Diz a fada do Inverno vaidosa, feliz e orgulhosa
- Áááááááááhhhhh…. – Exclamam os gatos
- Porque é que dormem cá fora? – Pergunta a fada do Inverno
- Porque somos vadios. – Respondem todos os gatos
- Não exigimos nada. – Diz um gato
- As pessoas é que nos dão o que querem e o que podem. – Acrescenta outro gato
- E já é muito bom. – Diz uma gata  
- Dão-nos comida, bebida, abrigo e mimos, mas a casa é por nossa conta. – Diz outra gata  
- Estamos habituados a tudo! – Diz outro gato  
- E onde dormem com este frio que eu trago? – Pergunta a fada Inverno
- O mais velhinho da casa deixa ali uma portinha aberta, num palheiro, um lugar aconchegante, mas tem tudo, é quente, põem-nos lá comida, bebida, e roupa…quer dizer…cobertores! – Conta outra gata
- É muito bom. – Respondem todos os gatos
- Adoramos estar lá! – Diz outra gata
- Somos livres, entramos e saímos quando queremos, a porta não tem fechadura nem chave. – Explica outro gato
- Somos muito bem tratados! – Dizem todos os gatos
- Boa! – Dizem as fadas
- E já estão cá há muito tempo? – Pergunta a fada Inverno
- Não sabemos. – Respondem todos os gatos
- E tu, já tens casa? – Pergunta outro gato
- Ainda não! Talvez fique neste pote. – Diz a fada
- O que fazes nesse pote? – Pergunta outro gato
- É aqui que preparo todas as maravilhas e surpresas do Inverno para a natureza e para as pessoas.
- Que surpresas e maravilhas são essas? – Pergunta outro gato
- Com licença…logo verão o que trago! Fada Outono, boa viagem! – Diz a fada Inverno
- Muito obrigada! Queres ajuda? – Pergunta a fada Outono
- Não, obrigada. – Responde a fada Inverno
- Até à próxima…! – Diz a fada Outono
- Até à próxima. Diverte-te! – Diz a fada Inverno
- Tu também! – Diz a fada Outono
A fada entra no pote, fecha a tampa e acende a sua grande pilha que ilumina todo o pote. Acende uma fogueira, os gatos ouvem barulhos estranhos, assustam-se, aproximam-se, recuam e não vêem nada.
Ela cozinha num pote especial muitas nuvens, mistura-lhes cores escuras, acrescenta grandes trovões, ventos fortes, e chuvadas, com granizo, neve e algum sol fraquinho. Mistura tudo e vai descansar.
No dia seguinte e nos outros vai tirando do pote e brincando com os ingredientes: num dia tira só nuvens, de manhã, e de tarde tira chuva forte, misturada com ventos fortes, à noite decora tudo com neve, e nos seus passeios gela tudo por onde passa.
Outro dia tira do potinho algum sol, e neve, que deixa todos os habitantes numa grande festa, adoram ver os flocos de neve a cair, e brincar com eles. Ela adora ouvir as gargalhadas, e ver os trambolhões.
Noutro dia, tira um sol fraquinho, decora o céu com nuvens escuras, e chuva. Outro dia tira trovões assustadores misturados com nuvens escuras, gelo, neve, chuva e vento…e vai variando conforme a sua vontade, e inspiração!
Os gatos adoravam as surpresas dela, andavam sempre fora e dentro, brincavam com a neve, ficavam no palheiro a ouvir e a ver chover, e apesar do medo dos trovões, gostavam de ver da porta os desenhos que eles faziam no céu.
De vez em quando, a fada ia visitá-los e era sempre muito bem recebida, brincava com eles, e conversavam longas horas, acompanhados de chás e biscoitos que a própria fada fazia, e os gatos adoravam.
A surpresa do potinho era os ingredientes do Inverno, que também tem as suas belezas trazidas pela fada.
Qual é o vosso ingrediente, ou quais são os vossos ingredientes preferidos do Inverno?

Fim
Lálá

(1/Outubro/2016)

A festa de Outono das fadas













foto de Lara Rocha 



Era uma vez um jardim muito verde, florido e cheio de árvores com grandes troncos e copas frondosas, onde dormiam mochos e corujas de dia, e onde pousavam de noite para vigiar tudo como deve ser!
Num dia quente de Verão, o jardim estava silencioso. Nele descansavam confortavelmente deitadas na sombra, e cobertas pelas pétalas das flores em botão fechado, que tinham escolhido para casas, fadas com lindos vestidos, leves, frescos, e coloridos depois de uma noite muito animada.
Sem darem por isso, enquanto dormiam, o vento entrou sorrateiro, de mão dada com uma linda princesa que ninguém conhecia, a sua namorada. E porque os dois estavam tão felizes, contagiaram tudo o que estava à sua volta.
Por onde passaram, por cada árvore, espalharam um pó dourado, brilhante, luminoso, a condizer com os seus corações e com a luz do amor que os unia. Esse pó coloriu milhares de folhas, de amarelo, castanho, verde, vermelho, laranja, roxo, bordo, e folhas com salpicos de várias cores misturadas.
Todo o jardim se transformou, com beijos que os dois trocaram, olhares, sorrisos ternos, sinceros, e abraços que se transformaram em folhas que esvoaçaram e dançaram, leves, e borboletas que as acompanharam pousando nelas, e dançando com elas.
As fadas acordaram nesse momento e ainda puderam ver este par romântico e feliz, que adoravam. Os dois sopraram outra vez quando viram as fadas, e mudaram as suas roupas, para cores parecidas com as deles, mais quentes, mais compridas mas, na mesma encantadoras.
 Elas aplaudiram, agradeceram e nessa noite festejaram, brincaram e fizeram jogos com as folhas que cobriram o jardim por todo o lado, dançaram, escorregaram, correram, riram, cantaram, e deixaram-se cair por cima do manto de folhas.
O vento e a namorada também participaram e tornaram a festa muito mais bonita, com a decoração, dourada, brilhante, luminosa, colorida, levantaram as folhas do chão, tão bonito que estava o espaço.
Vieram fadas de todo o lado, de outros jardins, trouxeram música, muitos instrumentos musicais, peixes amigos que faziam bolas especialmente grandes de sabão, espigas fritas, uvas, castanhas, amoras, nozes, ouriços estaladiços, e outros que enfeitavam, potinhos de mel, geleias, doces, pólens, biscoitos de pétalas de flores, flores de todas as espécies, chá, sopa de Outono e sumos naturais, para saborear e festejar o Outono.
Fim
Lálá

(1/Outubro/2016)