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sábado, 14 de dezembro de 2013

O desejo do gato (o gato, a gata e o Pai Natal


    Era uma vez um gato que passeava sem pressa por cima de um telhado, numa noite gelada de Inverno e cheio de neve. 
     Era noite de Natal, e todos estavam em casa, junto das suas famílias. 
    Mas o pobre gato estava muito triste, e suspirava:
GATO - Ai! Que tristeza…toda a gente metida no quente, à lareira, junto dos seus…e a comer…e eu aqui…cheio de fome, sozinho, triste, abandonado. Ai…! Quem me dera estar ali, ou ali, ou ali…!
      Aparece uma gatinha também muito triste pelo telhado. Os dois gatos olham-se longamente.
GATO - Olá!
GATA - Olá!
GATO - O que fazes por aqui?
GATA - Não sei…se calhar…o mesmo que tu!
GATO - O mesmo que eu? E tu por acaso conheces-me de algum lado para dizeres que vais fazer o mesmo que eu?
GATA – Eu conheço muito bem os gatos.
GATO – E eu também conheço muito bem as gatas.
GATA – Não…! Vocês são muito mais previsíveis.
GATO – Sabes uma coisa…?
GATA – O quê?
GATO – Digam, o que disseram…acho que nunca saberemos uns sobre os outros.
GATA – Porque é que dizes isso?
GATO – Porque…o principal…o que interessa mesmo conhecer, não se vê!
GATA – Estás a falar dos sentimentos, acertei?
GATO – Sim, é isso mesmo!
GATA – É do que vocês mais têm medo, não é?
GATO – Medo? Quem?
GATA – Vocês, gatos.
GATO – Nós…? Com medo…? Nunca!
GATA – Ai não? Que grandes mentirosos.
GATO – E quem disse que estou a mentir?
GATA – Claro que estás!
GATO – Não estou nada.
GATA – Claro, claro…! Comigo escusas de ter máscaras.
GATO – Eu não estou mascarado! Onde estás a ver as máscaras?
GATA – No teu focinho, e nos teus olhos.
GATO – O que tem o meu focinho?
GATA – É focinho de gato mentiroso…quer dizer…mascarado!
GATO – Não percebo o que dizes!
GATA – Porque não assumes os teus sentimentos?
GATO – Que sentimentos?
GATA – Os teus, é claro.
GATO – Ora, não sei onde queres chegar.
GATA – Porque é que eu já sabia! Fogem sempre ao assunto dos sentimentos.
GATO – Eu não fujo de nada. Nem dos sentimentos.
GATA – Claro que não…sou eu quem fujo!
GATO – Talvez.
GATA – Porque não os reconheces…?
GATO – A quem?
GATA – Aos teus sentimentos.
GATO – Não tenho isso.
GATA – Ai não? Então, és o quê? Uma pedra…? Um ramo de árvore? Uma gota…? Até esses têm os seus sentimentos.
GATO – Mas porque é que queres saber isso?
GATA – Para quebrar o gelo que está aqui à nossa volta.
GATO – Quebrar o gelo? Como vais fazer isso? Só se fizeres xixi em cima dele, ou se saltares para ele partir.
GATA – Ai, mas que ignorância!
GATO – És uma gata muito culta…
GATA – Sim, e sou mesmo!
GATO – Pois, mas eu não.
GATA – Já percebi…mas não quer dizer que fiques inculto o resto da tua vida!
GATO – In…quê?
GATA – Sem saberes nada…!
GATO – Áh! Eu sou muito burro.
GATA – Desculpa? Eu estou a falar com um gato, não é com um burro…! Não tenho nada contra os burros…aqueles animais da quinta, orelhudos, e peludos, que carregam coisas até aos olhos…coitados.
GATO – Eu não sei nada!
GATA – Porque não queres…! Podes sempre procurar e saber…perguntar a quem sabe, ler…
GATO – Tu sabes ler?
GATA – Claro que sei.
GATO – Mas eu não!
GATA – Eu posso ensinar-te.
GATO (sorri) – Adorava, mas acho que não consigo.
GATA – Mas que disparate…nunca experimentaste…como podes dizer que não és capaz?
GATO – Foi o que sempre me disseram.
GATA – E tu acreditaste?
GATO – Sim…porque eram pessoas muito importantes para mim.
GATA – Mas não quer dizer que as pessoas mais importantes para nós, estejam sempre certas, ou saibam sempre tudo!
GATO – Achas que elas iam mentir-me?
GATA – Com certeza…e porque não?
GATO – Mas porque me mentiriam?
GATA – Eles podem ter dito isso, só porque estavam chateados, ou tinham inveja de alguma coisa tua, e resolveram mascarar-se com esse disparate!
GATO – Mas…
GATA – Tens de experimentar. Primeiro passo…queres?
GATO – Sim, quero!
GATA – Muito bem. Segundo passo… (o gato interrompe)
GATO – Mas o que estás aqui a fazer, sozinha a esta hora?
GATA – Não mudes de assunto!
GATO – Acho que agora quem está mascarada és tu!
GATA – Não!
GATO – Então porque não dizes o que estás aqui a fazer a esta hora, sozinha?
GATA – Mas isso é assim tão importante para ti?
GATO – Sim! Talvez…eu possa ajudar-te?
GATA – Não…acho que não…está bem! Ando a vaguear.
GATO – E porque não estás em casa?
GATA – Porque hoje é noite de Natal, e fui posta fora de casa, porque há uma espécie de…humanos…que não me suporta, e os simpáticos dos meus donos, puseram-me fora da porta. E tu, moras aqui?
GATO – Óh, mas isso não se faz.
GATA – Para nós, gatos, tudo é muito mais fácil.
GATO – Se tens donos, eles não te deviam pôr fora da porta, pelo menos…és como se fosses um membro da família, não?
GATA – Eu achava que sim, mas agora não tenho a mesma certeza! Mas, e tu?
GATO – Eu sou vadio…durmo por aí, como por aí…
GATA – Estás a olhar para aquelas casas, cheias de gente, não estás?
GATO (suspira) – Confesso que sim.
GATA – Querias estar ali, com eles, não era?
GATO – Sim, era! No quente da lareira, sossegado, acompanhado, valorizado, alimentado, acarinhado…mas não…estou aqui fora, ao frio, com fome, sozinho!
GATA – É triste! Desculpa…disseste…sozinho?
GATO – Sim, disse sozinho! Óh…desculpa…agora tenho-te aqui.
GATA – Até me estava a sentir desprezada.
GATO – Óh, não…não era essa a minha intenção. Mas…tu não gostavas de estar em casa, assim como eles?
GATA – Claro que gostava! Mas sou pacata, e da paz…por isso, não me apetece lutar, nem protestar…em breve, terão a paga por isto, e sentirão a minha falta, espero eu…
GATA - E tu, o que fazes aqui?
GATO - Olha, vim…desabafar.
GATA - Com quem?
GATO - Com a lua, sei lá!
GATA - Com a lua?
GATO - Sim, com a lua…não sabes quem é?
GATA - Sei. Está mesmo à nossa frente. Entendo-te! Eu também desabafo muito com ela.
GATO – Mas será que ela nos ouve?
GATA – Ouve, sim!
GATO – Mas não responde!
GATA – Claro quer não…quer dizer…pelo menos por palavras, mas ela responde de outra maneira.
GATO – Responde? Qual?
GATA – Com a sua luz, o seu brilho, as suas várias formas…
GATO – Mas eu nunca ouvi nada!
GATA – Porque tens o coração magoado e essa dor, não te deixa ouvir, nem ver.
GATO – Ui…achas que eu tenho algum problema de saúde?
GATA – Não! Eu estou a falar nas feridas provocadas pela tristeza.
GATO – Áh! Está bem.
GATA – Estás triste, não estás?
GATO – Sim, estou! E tu?
GATA – Também.
GATO – O Natal para mim, nunca foi feliz, é sempre assim!
GATA – Eu já tive Natais felizes…mas este…
GATO – Os teus donos deviam ter vergonha.
GATA – Também acho. Sabes uma coisa?
GATO – O quê?
GATA – Qual era o teu maior sonho de Natal?
GATO – Era…Huummm…passá-lo com alguém…com muitos gatos e gatas, dentro de uma casa, com um enorme banquete, e uma lareira…! E o teu?
GATA (sorri) – O meu também! Quer dizer…tenho muitos mais sonhos, mas neste momento, era esse.
GATO – Acho que o nosso sonho vai ficar mesmo aqui. Não passará de um pequeno floco de neve!
(Os dois suspiram, aparece o Pai Natal)
PAI NATAL – Mas o que temos aqui?
(Os dois gatos olham assustados)
GATOS – Pai Natal?
PAI NATAL (sorri) – Sim, sou eu…boa noite!
GATOS (sorriem) – Boa Noite.
PAI NATAL – Mas que tristeza é essa?
GATO – É a tristeza de ser um gato vadio, de passar o Natal sozinho, fora de casa…
GATA – Expulsa…
PAI NATAL – Estão um com o outro. Quem te expulsou?
GATA – Os meus…donos. Eu achava que eram meus donos, mas puseram-me fora, só porque uns tais…não sei quem…da família deles, não gostam de gatos, são alérgicos ao meu pelo…é tudo inveja de certeza!
PAI NATAL – Que coisa mais feia! Isso não se faz, muito menos numa noite de Natal.
GATO – Inveja? De ti…? Por favor…
GATA – Sim, de não ter roupas, carteiras ou sapatos com o meu pêlo ou pêlos dos meus semelhantes.
GATO (ri) – Estou a ver…
GATA – Até tu a querias não?
GATO – Dá para fazer cobertores?
GATA – Infelizmente sim.
GATO – Deve ser bem bom!
GATA – Como é que sabes?
GATO – Eu já tive namoradas…todas tinham pêlos espantosos…cheirosos…
GATA (sorri) – Sim, nisso tens toda a razão…somos todas estupendas…afinal até sabes apreciar!
GATO – Já te esqueceste que sou burro?
GATA – Deixa esse animal em paz!
PAI NATAL – O quê? Onde está o burro?
GATA – Está nas quintas por aí.
PAI NATAL – Então, estes gatico, deve estar com uma crise de identidade! Oh, oh, oh…
GATO – O que é isso?
PAI NATAL – É tu não saberes se és um gato ou se és um burro.
GATO – Áh! E o Pai Natal, o que acha?
PAI NATAL – Eu acho que és um gato! Quer dizer, tenho a certeza.
GATA – É claro que és um gato!
PAI NATAL – Porque estão tão zangados um com o outro?
GATO – Desculpe, Pai Natal, estamos muito tristes.
PAI NATAL – Não são amigos?
GATOS – Somos.
PAI NATAL – Já se conheciam antes?
GATOS – Não!
PAI NATAL – Mas não podem dizer que estão sozinhos, estão um com o outro, são dois gatos.
GATOS – Sim.
GATA – Mas a frieza dele, é tanta que parece que continuo sozinha.
GATO – O quê?
GATA – É isso mesmo.
GATO – Mas…estamos a falar…conhecemo-nos agora há pouco tempo, o que querias que eu fizesse contigo?
GATA – És muito mascarado!
GATO – Outra vez a máscara…?
GATA – Sim, tu tens máscaras…tens medo de mostrar os sentimentos, e de falar deles.
GATO – Pai Natal, importa-se de traduzir o que ela disse?
PAI NATAL – Huummm…oh, oh, oh…se bem entendi, ela está a reclamar a tua masculinidade!
GATO – A minha quê?
PAI NATAL – O teu carinho, a tua atenção…
GATO – Mas…eu não a estou a tratar mal.
PAI NATAL – Mas ela quer que te chegues mais perto dela.
GATO – Para quê?
PAI NATAL – Óh, valha-me todos os anjos…
GATA – Pai Natal…não lhe pode oferecer uma luz, como prenda? Para ver se ele fica mais inteligente, e mais próximo?
PAI NATAL (ri-se) – Oh, oh, oh…vou oferecer-vos uma prenda melhor.
NARRADORA – O bondoso Pai Natal, estala os dedos, e aparece no terraço do telhado duas lindas casas pequenas, mas com tudo o que existe numa casa, muitos confortáveis, com lareira, cama, sofá, cozinha e casa de banho. Mantas por todo o lado, almofadões e mobília, comida à farta, janelas e água, e luz. Os dois gatos ficam maravilhados.
GATA – Áh!
GATO – Áh!
GATA (sorridente) – Estou a sonhar…?
PAI NATAL (ri) – Não…é uma casa verdadeira. Este foi o vosso desejo, lembram-se?
GATOS (felizes) – Sim!
GATO (sorridente) – Ááááhhh…muito mais do que eu imaginava e desejava! Não vou ter de dormir mais por aí, nem aquecer-me nos carros ou debaixo dos candeeiros, nem…nas saídas de ar dos parques de estacionamento, ou nas soleiras das portas! (p.c) Áh! Não vou ter de andar mais por aí a comer o que me dão…nem…Uau! Tenho uma casa, quente com lareira e tudo…e…casa de banho…! Áhhh…Pai Natal…nem sei como te agradecer.
(Pai Natal sorri)
PAI NATAL (feliz) – Vocês merecem. Feliz Natal…!
GATOS (sorridentes) – Feliz Natal…!
NARRADORA - Os dois gatos abraçam-se e lambem-se carinhosamente, felizes, e entram na casa um do outro. Enquanto mostram as casas um ao outro, entusiasmados e felizes, o Pai Natal põe uma linda mesa com uma cobertura, cheia de luzinhas, velas e um belo banquete, com música ambiente, e duas simpáticas duendes para servir.
PAI NATAL (sorridente) – Bichanos…hora de jantar.
NARRADORA – Os dois ficam boquiabertos, de tão encantados.
GATO – Áh…estarei a sonhar?
GATA – Então eu também estou a sonhar!
GATO – Estamos a ter os dois o mesmo sonho?
GATA – Sim!
DUENDE 1 (simpática) – Por favor, instalem-se meus queridos!
GATO – Óh, mas o meu aspecto mede medo!
DUENDE 2 (simpática) – Ora, o aspecto exterior não importa…o que importa é a luz que brilha nos teus olhos e no teu coração.
GATO (sorridente) – Óh, que lindo isso! É um elogio?
GATA E DUENDES – Sim.
GATO – Eu…não sei elogiar!
GATA – Mas sabes dar abraços com alma, sinceros, apertados…!
GATO – A sério?
GATA (sorri) – Sim…o teu…foi o melhor abraço que eu já recebi em toda a minha existência…! E já dei muitos abraços, mas este teu…foi especial. Talvez…por ser Natal, ou…por eu estar mais sozinha…!
(O gato sorri vaidoso)
GATO – Esta está a ser a noite mais feliz da minha existência…pela tua presença, e por este presente!
GATA – Isto é lindo! Áh…que maravilha! Nunca vi nada assim.
GATO (sorri) – Lindo mesmo! Parece que estamos num mundo à parte!
GATA (sorri) – Pois é.
GATO – Mas…isto é só hoje, ou é para sempre?
PAI NATAL (sorridente) – Claro que é para sempre…pelo menos, enquanto vocês quiserem. Estas casas estarão sempre aqui para vocês!
OS DOIS (sorridentes) – Muito obrigada, Pai Natal.
PAI NATAL (feliz e sorridente) – Até breve.
      O Pai Natal distribui as prendas pelo bairro, enquanto os dois gatinhos sentam-se à mesa, e deliciam-se com os pratos saborosos que as duendes servem, numa conversa muito animada.             Depois de tudo comerem, os dois gatos vão para o terraço ver a paisagem, e as luzes, de patas dadas, bem juntinhos a olhar para a Lua.
GATA (sorri) – Que linda Lua.
GATO (sorri) – Sim. É linda como tu…e como esta noite. (Os dois sorriem). Vais voltar para os teus donos?
GATA – Claro que não…vou apenas agradecer-lhes o que fizeram por mim. Queres vir?
GATO – Como vais fazer isso?
GATA – Vais ver…vou escrever um bilhetinho, na neve à porta deles.
          Os dois gatos vão a casa onde viveu a gata, e gata escreve com a patinha numa folha de um bloquinho que a menina tinha na sua casinha de brincar, com os bonecos no jardim, e onde a gata também costumava estar: «muito obrigada por tudo o que fizeram de mim, e por tudo o que me deram de bom. Sejam felizes, e tenham saúde. Gostei muito de vocês, e gostarei mesmo depois de me terem chutado. Estarão sempre no meu coração! Até um dia destes…se me quiserem procurem-me…» Pinta a patinha e carimba. As lágrimas caem-lhe pelos olhos.
GATA (a chorar) – Fui muito feliz aqui! Tenho muito boas recordações.
GATO (triste) – Queres ficar?
GATA (a chorar) – Não.
GATO (triste) – Se vais ter saudades deles, ou se vais ficar triste por causa deles, fica aqui. O meu desejo já realizei, e porque é um desejo…dura apenas uma noite. Se me quiseres, sabes onde estou!
GATA – Não! Eu vou contigo, para a minha casa! Serei muito feliz, contigo, como vizinho e como amigo!
GATO – E o que vais fazer com as saudades?
GATA – Quando as sentir…entrego-as embrulhadas numa nuvem à Lua!
GATO – Mas estás tão triste…não te quero ver assim à minha beira.
GATA – Não te preocupes, isto passa já.
GATO – Comigo nunca te sentirás só.
GATA (sorri) – Eu sei.
       Os dois sorriem, abraçam-se e voltam para as suas casas. No dia seguinte, todos a procuram, mas não a encontram. 
       Será que algum dia vão reencontrar-se? Acham que a gatinha perdoou os seus donos? 
       Acham que os dois gatos foram muito felizes? Sim…tornaram-se amigos inseparáveis, e viveram momentos muito felizes, divertidos, românticos, e quando a tristeza batia à porta de algum deles…puderam sempre contar um com o outro, e embrulhar a tristeza ou a saudade numa nuvem e entregar à Lua, que também esteve sempre presente.

FIM 
Lara Rocha 
(14/Dezembro/2013)


sábado, 7 de dezembro de 2013

BONECOS DE NEVE

Era uma vez uma aldeia, onde viviam pessoas, que ficava nos arredores de uma cidade muito poluída. O príncipe Inverno tinha acabado de chegar, e estava muito frio, mas…não havia neve, nem estava frio.
Os habitantes estavam a ficar preocupados com o atraso da neve e do frio, mas não eram só eles. os bonecos de neve começavam a sentir-se muito abandonados, e tristes porque ainda não podiam aparecer.
Passado uns dias, os bonecos de neve, já desanimados, decidem em grupo sair daquela aldeia, e procurar um sítio onde pudessem ser vistos.
Mas…surpresa…! Quando iam a passar na aldeia onde costumava ficar…sentem uma aragem muito fria.
- Esperem! – Grita um boneco de neve.
         A voz vinha de perto, mas não se via nada, estava muito escuro. Era uma raposa que se tinha escondido numa toca. Os bonecos estremecem e param.
- Quem está aí? – Perguntam todos em coro.
- Sou eu! – Responde a raposa.
- Quem? – Perguntam os bonecos em coro.
- Aqui na toca… - Responde a raposa.
- Uma raposa! – Dizem os bonecos em coro.
- Sim, sou uma raposa.
- Vamos embora…não temos tempo a perder. – Diz o boneco de neve que ia à frente.
- Óh, não…por favor…esperem.
- Não lhe dêem ouvidos. Ela é matreira. – Grita um lobo.
- Olha quem fala…! – Diz a raposa irónica.
- Vamos, amigos!
- Sim, vão…fujam enquanto podem. – Diz o lobo.
- Tenham cuidado com esse! – Grita a raposa.
- Mas que chatice! – Suspira o boneco de neve que ia à frente.
- O que é que queres raposa?
- Óh…que tom de voz estranho…calma…não vos quero fazer mal.
- Não acreditem nela! – Recomenda o lobo.
- Importas-te de te calar, por favor, óh peludo?
- Olha só para ela…a careca, queres ver? – Goza o lobo, a rir.
- Não vou estar aqui a discutir contigo, pêlos…
- Ainda querias mais pêlos?
- Estou com demasiado frio, para discutir contigo, óh grosso!
- Grosso? Eu…? Coitadinha!
- Não, eu!
- Não percebes nada de estilo!
- Tu ainda menos!
- Está a falar o roto do esfarrapado.
- O meu pêlo é muito mais bonito que o teu.
- Já te viste ao espelho?
- Sim, porquê?
- Parece que apanhaste um choque eléctrico.
- Estou arrepiada, com tanto frio.
- Com essa camisola e tens frio? És mesmo farpelas.
- Tens a mania que és muito forte, não?
- E sou!
- Muito…lá porque tens tamanho, não quer dizer que tenhas força.
- Mas tenho as duas coisas, enquanto tu…só tens palermice nessa cabeça.
- Ai…! Já estás a baixar de nível. Tu no fundo, gostas de mim.
- Ui, muito! – Diz o lobo a rir.
- Falas de inveja! – Diz a raposa.
- És tão jeitosa, e estás metida na toca…nem apareces para cumprimentar os visitantes.
- Que visitantes?
- Ora, ora…estes! A quem tu disseste para esperarem…!
- Áh! Já me esquecia deles…desculpem amigos!
- Ai…Dai-me Santa Paciência! Óh bichos peludos, com licença…fiquem para aí a discutir um com o outro, que nós temos muito caminho pela frente.
- Mas, mas…esperem! Onde vão a esta hora? – Pergunta a raposa
- Não tens nada a ver com isso. – Responde o boneco de neve.
- Desculpa, não queria ofender! – Diz a raposa.
- Deixa-nos em paz. – Diz outro boneco de neve.
- Óh, por favor…fiquem! – Implora a raposa.
- Para quê? – Perguntam todos.
- Não fiquem…ela vai usar-vos para matar a sede, e a fome. – Avisa o lobo.
- Ai, ai, ai…francamente! Lobo metido! – Resmunga a raposa.
- Temos mais o que fazer… - Diz outro boneco de neve.
- Esperem, por favor! – Volta a implorar a raposa.
- O que queres? – Pergunta o boneco da frente, chateado.
- Fiquem!
- Não tens nada a ver com isso.
- Porque vão embora?
- Porque não há neve! – Suspiram os bonecos de neve.
- Aqui já começou a cair. E vai cair ainda mais! – Diz a raposa.
- Isso é verdade! – Diz o lobo, a uivar.
- Vêem?
- Os meus ossos parecem uns canhotos no lume! Credo! – Suspira o lobo.
- Claro, a idade passa para todos…velhote, de pêlo branco. – Diz a raposa a rir.
- Olha lá o respeito…! Arranco-te já esse casaco. – Diz o lobo zangado.
         Os bonecos riem.
- Estes dois adoram-se! – Comenta um boneco a rir.
- Ui…! Muito. – Dizem o lobo e a raposa a rir.
- Até nos damos bem…as nossas discussões são a brincar! – Diz o lobo.
- É. São trocas de carinho! – Diz a raposa a rir.
- Pois! – Dizem os bonecos em coro.
- Mas continuando…fiquem, que aqui vai cair muita neve. – Insiste a raposa.
- A sério? – Pergunta um boneco de neve.
- Sim, é verdade. Eu já a sinto no chão. Esperem que vai valer a pena! – Diz a raposa.
- Huummm… - Dizem os bonecos em coro.
- Sim, fiquem! – Diz o lobo.
         Os bonecos de neve olham-se.
- Bem…se vai nevar…é disso que precisamos. – Diz um boneco de neve.
- Mas olha que se estiverem a mentir, vamos embora…e ficamos muito tristes. – Diz outro boneco de neve.
- Sim, porque é muito triste, não termos trabalho! – Diz outro boneco, triste.
- Aqui, garanto-vos que não vos vai faltar trabalho. – Diz a raposa.
- Instalem-se, e esperem pelo sol. – Diz a raposa.
- Está bem, ficamos. – Dizem os bonecos.
         E os bonecos passam a noite na conversa com a raposa e com o lobo. Os dois tinham razão…sem darem por isso, acumula-se uma camada de neve com alguns sítios, onde foram metros de altura.
Com os primeiros raios de sol, os bonecos de neve vêem tudo cheio de neve, e fazem uma grande festa…escorregam na neve, andam pelas grossas camadas, atiram neve uns aos outros, entre muitas gargalhadas, e brincadeiras com a raposa e com o lobo.
Quando as crianças acordam, fazem uma grande algazarra e vão a correr brincar com a neve, brincam com os bonecos já feitos, e fazem outros, escorregam, riem, atiram neve uns aos outros, tiram fotografias, enfeitam os bonecos, destroem-nos e constroem-nos de outra maneira, e nem sequer vão à escola porque a neve não deixa entrar.
         Mas no meio de tanta alegria, acontece uma coisa muito estranha. Aparecem várias marionetes de madeira, aos gritos, envolvidas em chamas, e deitam-se na neve para apagar as chamas. Todos ficam a olhar para elas.
- O que é isto? – Pergunta uma criança.
- Fósforos gigantes! – Responde outra criança.
- Fósforos gigantes? – Perguntam todas em coro.
- Sim! – Responde a criança.
- Estão a arder! – Repara outra criança.
- Nunca vi nada assim…! – Dizem todas em coro.
- De onde vêem? – Pergunta outra criança.
- Não está nada a arder! – Diz outra criança.
- Pois não! – Dizem todas.
         As chamas apagam-se, e ficam pedaços de madeira queimados, e cinzas na neve. As crianças vão ter com elas, e perguntam-lhes o que aconteceu.
- O nosso dono queria acabar connosco…por causa de uma vingança. – Diz uma marioneta a respirar muito depressa.
- O quê? – Perguntam as crianças horrorizadas.
- Sim! – Respondem em coro.
- É verdade! – Confirma outra marionete.
         As crianças ouvem atentamente a história das marionetes, e ficam tristes. Como estão um pouco destruídas, as crianças decidem levá-las ao Avô Nónó, um senhor muito querido da aldeia, carpinteiro, e pedem-lhe para concertá-las.
O Nónó põe mãos à obra, e reconstrói todos os pedaços que as marionetas perderam. Estão mais lindas do que antes, e novas. Elas ficam a descansar na casa do velho Nónó, juntamente com muitas outras marionetas.
No dia seguinte, acontece outra coisa muito estranha…a neve tinha derretido, e tudo estava cheio de água. Ninguém se tinha apercebido, mas durante a noite choveu muito, e a neve foi juntamente com a água.
A neve e os bonecos de neve, que foram parar a um sítio onde havia muita humidade concentrada, misturada com fumos e maus cheiros, nuvens negras, e ruídos de todo o tipo. Mesmo com muito frio, não havia neve.
Os bonecos não se sentiram nada bem…havia muita poluição, por isso, deixaram-se ir com a água, e foram parar a um lago completamente congelado. Com uma grossa camada.
Não sabiam onde estavam, mas pelo menos aí sentiam-se bem! Tinham neve por todo o lado, e conheceram outros bonecos de neve que lhes falaram maravilhas daquele sítio…principalmente das lindas meninas que gostavam muito de os vestir e acariciar.
A raposa e o lobo ficaram muito tristes, quando perceberam que os amigos tão recentes, já não estavam lá…
- Óh…o que aconteceu? – Pergunta o lobo.
- Não sei. A neve desapareceu!
- Óh…não pode ser…ainda ontem tínhamos aqui tanta neve, e hoje não temos nada? – Pergunta-se o lobo muito surpreso.
- Não sei…será que sonhamos que havia neve? – Pergunta a raposa pensativa.
- Mas…então eu e tu, tivemos o mesmo sonho?
- Sim…pode ter sido!
- Mas não pode ser…como é que tivemos os dois o mesmo sonho?
- Não sei…se calhar, porque era uma coisa que nós os dois queríamos que nos acontecesse!
- Tu querias que tivesse nevado?
- Sim, claro. E tu?
- Eu também, mas não me lembro de ter dormido…! E tu dormiste?
- Ah…não sei. Estou confusa! Eu…achava que não tinha dormido…mas…agora já não sei.
- Mas…e se tu sonhaste com neve, eu também…tu sonhaste que tínhamos conhecido uns bonecos de neve?
- Sim!
- Eu também!
- Não…acho que não íamos sonhar os dois a mesma coisa! Nem na mesma noite.
- Achas que não?
- Não!
- Mas desapareceu tudo tão rápido…
- Pois foi…! Óh…pareceu mesmo um sonho!
- Onde estão os bonecos…?
- Não sei! Devem estar noutro sítio.
- Ou foram levados pela água?
- Foram levados pela água, para outro sítio!
- Achas?
- Sim.
- E aqueles fósforos gigantes que apareceram aqui a arder?
- Áh! Não sei. Também os viste?
- Vi.
- Eu também.
- No sonho?
- Não sei se foi no sonho, ou se foi mesmo real…mas eu acho que foi mesmo real!
- Eu também acho que sim.
- Olha os fósforos grandes ali…com o Nónó.
- Áh! Pois é!
- Será que ele sabe dos bonecos de neve?
- Vamos perguntar-lhe!
         Chamam o Avô Nónó, e perguntam-lhe. Contam-lhe as suas preocupações.
- Não…não foi um sonho que tiveram. Aconteceu mesmo! – Diz o Avô.
- A sério? – Perguntam os dois.
- Sim. Foi mesmo verdadeiro.
- Você também viu?
- Vi.
- Mas onde está a neve?
- Desapareceu!
- Tão rápido?
- Sim, porque choveu!
- Áhhh! – Respondem em coro, surpresos.
- E a neve?
- A neve foi com a chuva.
- Para onde? – Pergunta o lobo.
- Não sei…para sítios aí à frente.
- E os bonecos? – Pergunta a raposa.
- Também não sei…mas foram levados pela água, com certeza.
- Mas porque é que a água tinha de fazer isso?
- Não sei. – Responde o Avô.
- Que grande maldade! – Suspira a raposa.
- Maldade, porquê? – Pergunta o Avô?
- Porque tirou-nos os amigos que tínhamos conhecido há tão pouco tempo, mas já estávamos a gostar muito deles! – Diz a raposa.
- Queridos…isso faz parte da vida…!
- Como?
- Temos amigos, que estão connosco pouco tempo, mas ficam para sempre no nosso coração, e nas nossas recordações mais felizes!
- Mas não sei onde é isso? – Diz a raposa.
- Dentro de nós. – Responde o Avô.
- Dentro de nós? Mas…é alguma casa? – Pergunta a raposa.
- Não…é no nosso coração…na casa das emoções…! – Diz o Avô.
- Áh! – Respondem os dois.
- Mas isso não é a mesma coisa! Nós queríamos tê-los aqui, como está o Avô connosco…! – Suspira o lobo.
- Entendo a vossa tristeza, e a vossa vontade…talvez em breve se voltem a encontrar…e enquanto isso, fiquem felizes, ao lembrarem-se deles…isso aquece-vos, e dá-vos esperança para reencontrarem os vossos amigos. – Explica o Avô.
- Acha que eles gostaram de nós, Avô? – Pergunta o lobo.
- Claro que sim! – Diz o Avô.
- Acha que eles ainda se vão lembrar de nós? – Pergunta a raposa.
- Com certeza! Os amigos, mesmo longe, nunca se esquecem! – Diz o Avô.
- Óhhh…já tenho saudades deles…! – Suspira a raposa.
- Animem-se! Eles voltarão. – Promete o Avô – Bom…tenho de ir trabalhar. Até logo.
- Até logo…! – Respondem em coro.
E as crianças ficaram ainda mais tristes, porque já podiam voltar para a escola, e não havia mais neve para brincarem.
As marionetes ficaram a viver na casa do simpático Nónó, que lhes deu trabalho, e onde conheceram muitas outras marionetes. Todas fizeram muitos espectáculos com o Nónó que as tratava como filhas, com muito cuidado, carinho e delicadeza.
         O tempo passa, e volta a nevar intensamente. No sítio onde estão os bonecos de neve, chove torrencialmente, e derrete a neve toda. Os bonecos apanham a boleia da chuva e vão ter outra vez ao jardim onde conheceram o lobo e a raposa. Na manhã seguinte, o lobo e a raposa, recebem o melhor presente que jamais imaginavam receber…o regresso dos amigos bonecos de neve, que os abraçam fortemente, e beijam, rebolam na neve, e brincam juntos.
- Ai, que maravilha! Pensei que nunca mais nos íamos encontrar! – Diz a raposa feliz.
- Eu também! – Diz o lobo.
- Nós sabíamos que um dia destes viríamos outra vez aqui parar. – Responde um boneco.
- Tivemos muitas saudades vossas, amigos! – Diz a raposa a suspirar, e a sorrir.
- Nós também! – Dizem os bonecos em coro.
- Queríamos mesmo muito que voltassem! – Diz o lobo a sorrir.
         Abraçam-se outra vez, e beijam-se outra vez.
- Agora não vamos pensar mais nisso, vamos mas é aproveitar este momento de reencontro tão feliz, e tão bom! – Diz o lobo, sorridente.
- Isso mesmo! – Respondem todos.
- Vocês estiveram sempre no nosso coração, e no nosso pensamento! – Diz um boneco de neve.
- E vocês no nosso! – Responde o lobo e a raposa.
- Mas agora estamos aqui…em gelo…outra vez convosco, e isso é o que interessa! – Diz outro boneco.
         E a diversão continua. Os bonecos decidem não sair mais daquele jardim, e todos se tornam amigos inseparáveis.

FIM
Lálá
(7/Novembro/2013)


domingo, 1 de dezembro de 2013

A cidade leve

                                                                             foto de Lara Rocha 

        Era uma vez uma cidade, que se chamava cidade leve, porque lá, tudo era leve. Ficava no pico de uma montanha muito alta, onde quase ninguém conseguia chegar a pé…só de carro, e mesmo assim, era difícil. Um dia, Carolina, uma menina de 5 anos, quis ir visitar essa cidade de que todos os seus amigos, e muitos adultos falavam. Ela não sabia como se ia para lá, mas queria muito conhecer.
- Óh, mãe…onde fica aquela cidade que toda a gente fala?
- Fica naquela montanha…lá muito em cima. Porquê?
- Tu já foste lá alguma vez?
- Sim, algumas vezes. Foi lá que eu conheci o teu pai.
- Áh! Que lindo! (sorri) Eu queria ir lá!
- Para quê?
- Para conhecer, e encontrar lá o meu príncipe.
(A mãe ri-se)
- Um dia irás.
- Um dia?
- Sim. Quando fores mais crescida.
- Tu gostaste de ir lá?
- Sim! Muito.
- Então porque é que não vais lá outra vez, e levas-me…e o pai vai também.
- Filha, o teu pai está a trabalhar muito longe.
- Mas quando vier.
- É, pode ser…se ele quiser ir vamos, mas ainda não é já.
- Porque não vamos agora?
- Porque não dá para ir a pé.
- Mas podemos ir de carro…!
- Não!
- Porquê? Não tens carro?
- Tenho, mas agora estou muito ocupada.
- Óh!
- Já te disse que vamos lá um dia. Agora brinca.
Passou uma borboleta linda, gigante, nunca antes vista por aqueles lados, e ouviu a pergunta da menina. Pousou na janela e bate levemente no vidro, para a menina reparar nela. A menina olha para a janela e vê a borboleta.
- Áh! Que linda borboleta… (Abre a janela e sorri) Gigante! Uau! Olá!
- Olá! – Diz a borboleta com as asas a abanar levezinho.
- Que asas tão fininhas que tens, borboleta!
- Sim, são para eu voar.
- Não partem?
- Não!
- Nunca vi uma borboleta com umas asas como as tuas!
- É normal…eu não sou daqui.
- Não? De onde és?
- Sou da cidade leve. Conheces?
- Não…! Estava mesmo a dizer à minha mãe que gostava muito de ir a essa cidade, mas ela disse que é muito longe.
- Sim, é um pouco. Pode-se ir lá a pé ou de carro. É ali muito em cima.
- Como é que tu vieste cá para baixo? A pé?
- (ri) A voar, é claro.
- Óh. Quem me dera ser uma borboleta, assim como tu, tão bonita, e com essas asas…para poder voar até essa cidade, sempre que eu quisesse. Assim a minha mãe já não me dizia que ia lá um dia…!
- (sorri) Eu posso levar-te lá agora, se quiseres.
- A sério? (sorri) Sim, quero! Leva-me…por favor. Como vamos para lá?
- A voar!
- Mas…eu não tenho asas, como é que eu vou a voar? Lembra-te que sou uma menina…com pernas.
- Sim, eu sei. Mas eu tenho asas, e basta agarrares-te a mim.
- Áh! Está bem. Já percebi.
        A borboleta envolve a menina nas suas asas, e ela transforma-se numa menina muito leve…parecia quase uma boneca de ar…a borboleta leva-a para o pico da montanha, e pousa-a. Ela está encantada.
- Áh! Que linda paisagem! É tão alto…! E eu, estou tão levezinha…pareço uma borboleta. Que giro!
- Sim, é muito alto, mas vale a pena entrar. Deixo-te aqui, minha querida. A entrada é ali, naquela gruta.
- Tem bilhete?
- Sim.
- Mas eu não tenho dinheiro.
- Não é a pagar…na entrada vão-te dar o bilhete.
- E tu, não vais?
- Ainda não…ainda vou dar umas voltas lá por baixo.
- Mas vives aqui?
- Sim, vivo aqui, foi por isso que te trouxe, e é por isso que sou tão leve!
- Áh! Boa! Obrigada.
- Bom passeio.
- Obrigada, para ti também.
- Vemo-nos por aí…!
- Espera…como é que eu volto lá para baixo?
- Depois lá dentro, vão dizer-te como…
- Está bem.
- Diverte-te!
- Obrigada, tu também.
        A borboleta segue a sua viagem, e a menina entra na gruta. A entrada para essa cidade, era feita numa gruta de espuma, com milhares de bolas de sabão que flutuavam por todo o lado. O bilhete para quem quisesse entrar era uma pena de pato. Quando entravam nesta gruta, todas as pessoas ficavam muito leves.
Os visitantes eram recebidos de forma muito simpática, e sorridente, por uns guardas com fatos de asas de borboletas, que recebiam os bilhetes, e levavam as pessoas que queriam a um comboio, com carruagens feitas de nuvens, guiadas por balões. Era uma viagem encantadora por toda a cidade.
- Eu quero andar no comboio! Que giro…um comboio de nuvens…Áh! Nunca pensei que houvesse comboios de nuvens… é muito confortável. Os bancos são macios, fofinhos.
(Carolina anda de comboio, feliz, e encantada com o passeio. Admira tudo o que vê, e sorri. Sai do comboio, e vai para o jardim).  
Quem não queria ir de comboio, ia a pé, pelo chão que era um enorme colchão fofo, de cor verde, e relva muito macia. As pessoas andavam descalças ou em meias, e era muito confortável, de forma muito leve, uns mais depressa, outros mais devagar. Parecia que de repente estavam no espaço.
As árvores eram feitas de esponja, e de espuma, as folhas eram de veludo, as flores eram de todas as cores, feitas do mesmo material que as árvores e as folhas, e de gelatina. Dava gosto tocar.
Carolina toca em tudo saltita, rebola, ri, e segue o passeio, pelos bairros, onde umas casas eram feitas de nuvens e de bolas de algodão, outras eram de espuma, outras eram de esponja, outras de penas, e outras de veludo.
Umas casas eram redondas, em forma de cogumelos, outras em forma de planetas, outras em forma de lua, e de sol, outras em forma de gotas, e de muitas outras formas.
Havia laguinhos com água muito fresca e leve, piscinas de espuma, e água quente, o vento quando havia era leve, e suave, agradável, e a chuva era quase sempre leve.
Também havia lá animais, que eram leves, voavam livremente. Carolina ainda tem tempo de fazer novos amigos, brincar com eles, e provar petiscos da cidade.
A menina adorou tudo! Depois de correr toda a cidade, a pé e de comboio, de brincar muito, encontrou outra vez a borboleta gigante, e pediu-lhe para a levar para casa. A borboleta envolve-a outra vez nas suas asas, e leva-a.
A menina regressa a sua casa, feliz. Era o que acontecia com quem ia lá visitar essa cidade: era tudo tão leve, tão bonito e agradável, que até os corações e as cabeças das pessoas ficavam em paz, leve.
Quem lá ia, voltava para o planeta terra, leve, feliz, cheio de bons sentimentos, e diferente.
- Obrigada, linda borboleta! Adorei! Volta sempre.
- (sorri) De nada…sim, voltarei. Sempre que quiseres ir lá. Há muito por descobrir.
- Está bem. Obrigada. Não queres ficar mais um bocadinho?
- Não…! Tenho de voltar.
- Boa viagem…
- Obrigada.  
A borboleta levanta voo. Carolina deita-se no chão da sua sala, perto da lareira, coberta com uma manta, e com o seu cão aos pés, também a dormir. A mãe vai ter com ela.  
- Mamã…eu fui à cidade leve! É linda. Quero ir lá contigo outra vez contigo.
- Estavas a falar com quem?
- Com a borboleta que vive na cidade leve, e que me veio buscar.
(A mãe ri-se e faz de conta que acredita)
- Ai foi? Áh. E gostaste?
- Sim, adorei. Vou voltar lá mais vezes.
- (sorri) Está bem, mas agora vais lanchar.
        A mãe pensou que era tudo imaginação da Carolina. Mas Carolina voltou mais vezes, nas asas da borboleta gigante, e cada vez, conheceu melhor a cidade leve…cada vez gostou mais. Depois, tal como a sua mãe tinha prometido, passado muito tempo ela foi com os pais à linda cidade leve.

FIM
Lálá
                                               (1/Dezembro/2013)