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sábado, 9 de novembro de 2013

As vozes do mar


foto de Lara Rocha 


         Era uma vez uma vila de pescadores, com as casinhas em cima da areia e vista para o mar de qualquer lado. Era pacata, até um dia…tudo muda. Os habitantes começam a ouvir vozes vindas do mar. Uma jovem rapariga vai à janela refrescar-se, numa noite quente de Verão, e ouve uma voz de mulher fininha, a cantar, numa língua que não era portuguesa.
JOVEM - Uau! Que voz tão bonita. Quem canta assim?
NARRADORA - Ela olha para o mar. Não se vê ninguém na praia, nem no mar, apenas se ouve a voz.
JOVEM - Quem me dera ter assim uma voz! – Suspira, e olha outra vez para a praia – Mas quem canta assim, tão bem? Não está ninguém na praia!
(A sua mãe aparece).
MÃE - O que estás a fazer de pé? Pareces uma alma penada.
JOVEM - Mãe ouve esta voz!
MÃE - Que voz?
JOVEM - Esta… que voz tão linda!
(A mãe não ouve nada).
MÃE - Não ouço nada.
JOVEM - Agora também deixei de ouvir.
MÃE - Como ouviste uma voz a cantar se não está ninguém na praia?
JOVEM - Não sei, mas eu estava a ouvir.
MÃE - Óh, vai mas é dormir que o teu mal é sono…já não são horas de estares à janela.
JOVEM - Estava com calor.
MÃE - Mas vai dormir, que até já estás a ouvir coisas que não existem. Isso é sono.
JOVEM – Se eu a ouvir outra vez, chamo-te.
MÃE – Está bem…ai de ti que me acordes para ouvir o que não ouço…!
JOVEM – Vais ouvir…
MÃE – É. Vou ouvir para dentro…deita-te, que a voz desaparece.
JOVEM – Porque não acreditas no que eu estou a dizer?
MÃE – Porque não ouço nada. Dorme.
(A mãe vai deitar-se, e a jovem também, ouve-se o som muito forte, as duas levantam-se sobressaltadas)
AS DUAS – O que foi isto?
(A mãe acorda o marido, e este resmunga)
MARIDO – O que foi?
MULHER (assustada) – Ouvi um barulho muito estranho.
MARIDO (resmunga) – Lá estás tu com os barulhos estranhos. Dorme, e deixa-me dormir.
MULHER (assustada) – A nossa casa pode estar em perigo, e tu mandas-me dormir.
(Levanta-se e vai ter com a filha que está outra vez à janela, também assustada)
MÃE (assustada) – Ouviste barulho?
JOVEM (assustada) – Ouvi…também ouviste?
MÃE (assustada) – Sim…um estrondo…!
JOVEM – Vamos lá fora ver se está tudo bem…
(As duas saem abraçadas, e tudo sossegado. Procuram pela praia, e não há viva alma. Voltam para casa)
MÃE (assustada) – Acho que me deixaste sugestionada há bocado.
JOVEM – Eu ouvi, e tu também, por isso não te deixei sugestionada coisa nenhuma.
MÃE – Acho que estamos as duas a ficar loucas…
JOVEM – Tu não ouviste aquela voz linda, mas eu ouvi.
MÃE – Bem, é melhor dormirmos…isto deve passar.
NARRADORA – As duas não dormem o resto da noite, mas nessa noite, não se ouve mais nada. Na noite seguinte, elas e mais vizinhos ouvem sons diferentes: um que parece uma mulher a chorar, outro que parece um homem a pedir socorro, outro que parece uma ventania forte, sem abanar as árvores, outro que parece uma mulher a gritar, outro que parece um trovão, outro que parece um bailado, e outro que parece uma invasão de morcegos. Mas nada acontece na praia. Quando vão ver, não vêem ninguém, não ouvem nada, nada mexe. No dia seguinte, não se fala noutra coisa, e nessa noite, mais sons diferentes…desta vez, parecem cantos de sereias diferentes. Todos ficam encantados com as melodias, mas quando chegam à beira da água, não vêem nada, nem ninguém, nem há movimentos estranhos, nem pegadas na areia.
PESCADOR – Isto não me cheira bem!
PESCADOR 1 – Não fui eu…comi feijoada, mas já fiz a digestão.
(Todos riem)
PESCADOR – Não estou a falar desse cheiro.
PESCADOR 1 – Que susto.
PESCADOR 2 – Então haverá por aí pescado estragado…
PESCADOR – Não. O que há são coisas misteriosas, que temos de tentar descobrir o que é.
PESCADOR 3 – Como vamos descobrir, se não há viva alma, nem passos na areia, nem movimentos…nada…não há um único sinal.
PESCADOR – Mas há qualquer coisa.
PESCADOR 4 – Só se forem fantasmas.
PESCADORES – Cruzes…
PESCADOR 5 – Deus nos livre e guarde, de encontrar criaturas dessas.
PESCADOR – Não brinquem com coisas sérias…nunca se sabe!
PESCADOR 6 – Calem-se com essas coisas…temos de procurar é…o que se passa aqui…a minha filha e a minha mulher ontem ou anteontem…ouviram vozes. A minha filha diz que ouviu uma mulher que cantava muito bem, tinha uma voz linda…depois…as duas…ouviram um estrondo. E vieram à praia, não encontraram nada…nem viva alma, nem estragos, nem pés…nada!
PESCADOR 1 – A minha mulher ouviu outra voz…disse que lhe parecia uma mulher a chorar…
PESCADOR 3 – A minha sogra diz que ouviu um homem a pedir socorro, mas quando veio ao mar, não viu nenhum sinal de homem, nem de barco…nada! Ficou sem saber quem era, ou se era mesmo.
PESCADOR 5 – Ai, que até me arrepio todo.
PESCADOR 7 – E eu ouvi um barulho que parecia um trovão, mas o céu estava limpo. Também não tivemos conhecimento de explosão.
PESCADOR 8 – A minha mulher diz que ouviu um barulho que parecia uma invasão de morcegos. Eu pensei que ela estava a delirar, porque não vi morcegos nenhuns.
PESCADOR 9 – Eu ouvi uma ventania forte, mas nada abanou.
PESCADOR – Alguma coisa se passa…será uma epidemia de loucura, que nos está a afectar a todos…?
PESCADORES – Esperamos que não.
PESCADOR 1 – É tudo muito estranho.
PESCADORES – É verdade.
PESCADOR – O que vamos fazer? Investigar.
PESCADORES – Como?
PESCADOR 2 – Não há um único sinal.
PESCADOR 4 – Agora todos ouvimos uma espécie de canto de sereias diferentes.
PESCADOR 6 – Ai, se forem sereias jeitosas, até as como.
PESCADORES – És sempre o mesmo.
PESCADOR 6 – O quê? Vão deixar escapar uma peixota jeitosa…? (ri)
(Todos riem)
PESCADOR 9 – Quem está a delirar és tu.
PESCADOR – Vamos meter-nos ao mar…e…ver o que encontramos.
NARRADORA – Todos os pescadores se fazem ao mar, de barco, com lanternas, binóculos, e bóias. Nem um único sinal, até que chegam a uma gruta entre duas rochas, e…surpresa. Encontram um piano velho, descascado, partido em vários sítios, e com as teclas todas. Os pescadores voltam a terra, e pegam num barco de carga maior. Seguem para a gruta, e todos juntos, ajudam a carregar o piano para o barco. As mulheres e os filhos estão em terra em pânico, ansiosos por notícias, e a rezar. Os pescadores atracam, e pousam o piano em cima da areia, longe da água. As esposas e os filhos correm para eles, e respiram de alívio.
MULHER 1 – Então…encontraram alguma coisa?
PESCADOR – Isto.
MULHERES E CRIANÇAS – Um piano?
PESCADORES – Sim! Um piano.
TODOS – Ááááhhh…!
MULHER 2 – Onde estava?
PESCADOR 2 – Numa gruta ali adiante.
MULHER 4 – Mas…e as vozes?
(Faz-se silêncio. Um pescador toca numa tecla, e não sai som)
PESCADOR 5 – Não vem daqui.
CRIANÇA – São as vozes do mar!
(Todos riem)
MULHER 6 (ri) – Santa inocência…!
MULHER 8 (ri) – Tanta imaginação.
MULHER 1 – O mar não fala.
CRIANÇAS – Fala!
MULHER 2 – Deixemo-los sonhar…coitadinhos.
PESCADOR 4 – Esse mistério talvez nunca o descubramos.
MULHER 6 – Mas o que vão fazer com este piano?
PESCADOR – Concertá-lo.
PESCADORES – Isso.
PESCADOR 3 – De dia. Agora não se vê nada…e precisamos de descansar.
TODOS – Sim.
NARRADORA – Todos regressam ás suas casas, e volta a música, os cantos das sereias, os trovões, as invasões de morcegos, as ventanias, as mulheres a gritar e a chorar, o homem a pedir socorro…todos vão às janelas e vêem o piano cheio de luz, com as teclas a mexer sozinhas. Nem querem acreditar no que estão a ver! Saem todos de casa, e vão mais perto, boquiabertos, maravilhados, encantados. Ficam sentados na areia a ouvir as melodias do piano que toca sozinho e dá luz. Todos aplaudem.
PIANO (sorri) – Obrigado!
CRIANÇA 2 (sorri) – Tu falas?
PIANO (sorri) – Sim, sou a casa de algumas das vozes do mar.
MULHER 1 (sorri) – Que lindo!
MULHER 4 – Então…?
PIANO – Tudo o que vocês ouviram…vinha de mim!
PESCADOR 2 (sorri) – Maravilhoso.
PESCADOR 5 – Quem te deixou ali?
PIANO – Não sei.
PESCADOR 6 – Já estás aqui há muito tempo?
PIANO – Sim…acho que sim. Perdi a noção de tempo.
PESCADOR 8 – Mas…
PIANO – Muito obrigado por terem ouvido as vozes do mar. Salvaram-me! Canto e toco para quebrar a solidão!
PESCADOR 5 – Vamos restaurar-te!
NARRADORA – Todos fazem perguntas ao piano, e este responde, toca lindas músicas, todos aplaudem, dança, e riem, até o sol nascer. E a partir desse dia, todos os dias e noites, o piano é restaurado, com a ajuda de todos, e com carinho. Para agradecer, ele toca lindas músicas. As noites passam a ser muito mais divertidas, e musicais. Afinal…não havia almas penadas, nem mulheres a chorar, ou a gritar, nem homens a pedir socorro, nem cantos de sereias…era apenas um piano abandonado que tocava as suas teclas sozinho, como as pessoas quando mexem os seus dedos, para não enferrujar, para combater a solidão…e para pedir ajuda. Mistério desfeito.

FIM
Lálá

(9/Novembro/2013) 

O magusto das castanhas




fotos de Lara Rocha 

Era uma vez uma floresta, longe da cidade, onde vivia uma comunidade de castanhas. Era um sítio onde reinava a paz, o sossego e o ar puro, e onde todos se conheciam, todos eram amigos uns dos outros, principalmente quando mais precisavam.
Tal como noutra comunidade, no mês de Novembro elas fazem o magusto. Para isso, castanhas e ouriços juntam-se, e vão à pesca de ouriços-do-mar, pinhas e folhas de eucalipto.
Já falta muito pouco para que esta grande festa se realize. As castanhas mais velhas ficam em casa a tomar conta das castanhinhas mais pequenas, e a fazer deliciosas sobremesas, pasteis e petiscos. Sente-se uma grande agitação, e felicidade.
As castanhas e os ouriços vão pela manhã bem cedo, com os primeiros raios de sol à praia, pois é quando a maré está muito baixa e há muitos ouriços-do-mar à superfície. Enchem baldes, bacias e sacos com tudo o que precisam para os petiscos, e voltam para casa.
Todos trabalham em conjunto, a lavar os ouriços, a ferver as folhas de eucalipto, a lavar as algas e a preparar as pinhas. Depois, as castanhas ajudam a pequenada a vestir-se para o jantar, com umas roupas especiais, e elas também estão mais bonitas que nunca. Ajudam na cozinha e a colocar os pratos nas mesas. Os ouriços preparam a música, e as mais velhas fazem os sumos, e uma deliciosa sopa do mar, arroz do campo, e ouriços-do-mar, servidos em folhas de eucalipto, e pinhas estaladiças como aperitivo.
Rapidamente chega a noite tão esperada, que todas as castanhas adoram. Antes do jantar começar, todos se cumprimentam alegremente, com abraços e beijos, felizes pelo reencontro.
- Minhas boas castanhas e meus bons ouriços, vamos dar inicio ao momento de agradecimento aos nossos poderosos antepassados, e deuses da floresta, mais um ano de vida…tudo o que temos de bom, tudo o que nos rodeia, e tudo o que nos acontece! A paz, a amizade e tudo o que quiserem! – Informa o ouriço mais velho da floresta.
            O ouriço mais velho da floresta é um velho de picos brancos, de andar vagaroso, mas muito bondoso, e muito respeitado por todos. Ele sabe tudo, dá conselhos, ajuda quem precisa, educa, ensina e ama todos.
            Dão as mãos em silêncio e formam uma roda gigante, para agradecerem aos seus antepassados, e deuses do pinhal, o facto de estarem mais um ano juntos, e por todas as coisas deliciosas que têm à sua disposição para comer.
Agradecem a paz e a amizade, os sentimentos bons, as alegrias e as tristezas, as angústias, os medos, as lágrimas e os risos, as doenças e a saúde. Agradecem ao mar, ao vento, ao sol, à chuva, às nuvens, à água, à areia e às árvores…agradecem as casas e as roupas, e tudo o que têm.
Fazem um minuto de silêncio e no fim aplaudem, e todos deixam escapar algumas lágrimas de emoção, e felicidade.
- Lindo momento! Obrigado… - Suspira o ouriço. Vamos então começar a festa. Podem trazer o jantar.
            As castanhas trazem o jantar, orgulhosas, vaidosas e muito bem vestidas, com elegância. À sua passagem todas recebem muitas palmas. Cada um serve-se a gosto, e do que quer. Os ouriços ligam a música, e todos convivem alegremente, no meio de muitas gargalhadas. Depois do jantar vem as sobremesas, cada qual a mais deliciosa, e muita dança para fazer a digestão.
            A noite é longa, e de madrugada, depois da barriga bem cheia, há o baile do Outono, na sala das folhas, com muita diversão e algumas escorregadelas, onde todos dançam em cima de folhas de árvores, e saltam alegremente a piscina de folhas.
            Nessa noite ninguém dorme, e vão para a praia assistir ao lindo amanhecer…o nascer do sol. Todos aplaudem e agradecem este maravilhoso momento, de grande encanto e magia.
            Este é o magusto das castanhinhas e dos ouriços da floresta…muito diferente do nosso, não é?

FIM
Lara Rocha 
(9/Novembro/2013)


Pequena atividade:
E o vosso magusto como é?

O que costumam fazer nesse dia?

O que comem nesse dia?

Gostavam de participar num magusto como o das castanhinhas, e dos ouriços ou o vosso é mais especial?

Desenhem a parte da história que mais gostaram…






segunda-feira, 4 de novembro de 2013

O JOVEM E AS NOTAS MUSICAIS FUGITIVAS

Era uma vez uma enorme família de notas musicais que tiveram de fugir dos instrumentos musicais onde viviam, porque eram muito maltratadas e exploradas.
Muitos artistas quiseram usá-las, mas não souberam fazê-lo e as notas cansaram-se. Assim que tiveram oportunidade fugiram e os instrumentos não tocaram mais.
Esses artistas andavam aflitos atrás de novas músicas, e não encontravam, por isso, o que faziam eram cantar as mesmas canções e tocar as mesmas melodias uns dos outros.
            As notas musicais fugiram e refugiaram-se num lindo e enorme castelo abandonado, numa montanha de difícil acesso. Instalaram-se, confortavelmente, e descansaram depois de uma longa viagem.
            De repente…na paz da noite, um jovem rapaz, saiu de casa, de mochila às costas e uma cadelinha a acompanhá-lo, e meteu pés ao caminho. Subiu a montanha, com o objectivo de encontrar paz, e inspiração para as suas músicas. Ele tinha uma voz maravilhosa, e sabia tocar alguns instrumentos, mas estava cansado, e sem inspiração. Sentiu que precisava de se isolar um pouco para mergulhar nas suas emoções e escrever músicas.
            Ao chegar ao cimo da montanha aparecem os primeiros raios de sol, acompanhados de nuvens e um vento gelado. Toma o pequeno-almoço que tinha levado numa garrafa térmica, e partilha com a cadelinha.  
- Que bom! – Suspira o jovem. – Agora vou descansar um pouco…e quando acordar, pode ser que tenha uma nova inspiração.
            A cadelinha ladra. Os dois entram no castelo, que tem a porta principal fechada, onde estão as notas musicais a descansar. Ele roda o trinco e abre a porta.
- Aqui estamos bem, não apanhamos vento, e está escuro. – Diz o jovem à cadelinha.
            A cadelinha instala-se de imediato. O jovem tira da sua mochila um saco cama, cobertores, e mantas…num instante constrói uma cama muito confortável. Tira os sapatos, e o kispo, deita-se, cobre-se e diz a sorrir:
- Descansa, bichinha…estou aqui ao teu lado. Toma conta de nós…até já.
            Suspira, olha em volta, e adormece. Entretanto, as notas musicais acordam, e assustam-se ao ver alguém ali. Começam todas aos gritos, e numa grande agitação, a tentar fugir para todos os sítios que encontram, chocam umas com as outras. Parece uma invasão de aves em voo.
- Afinal este castelo está habitado! – Diz uma nota musical
- Não pode ser! – Dizem várias notas musicais em coro.
- Eu estou a ver ali…gente…e um animal. – Diz outra nota musical.
            A cadelinha acorda e ladra. O jovem acorda sobressaltado, abre os olhos…
- O que foi…?
            Elas escondem-se em silêncio.
- Está aqui alguém?
            Ninguém responde, nem se ouve barulho, mas a cadelinha começa a farejar tudo, e ladra. Elas têm de aparecer.
- Se está aqui alguém apareça.
            E as notas musicais aparecem. Olham para o jovem.
- Olá! Estou a ver bem? – Diz o jovem a sorrir
- Sim! – Respondem em coro.
- Notas musicais? – Pergunta o jovem a sorrir
- Somos! – Respondem em coro.
- Vivem aqui?
- Sim! – Respondem em coro
- E tu, quem és? – Pergunta outra nota musical
- Sou…um cantor e vim à procura de inspiração.
- Um cantor…? – Perguntam em coro
- Sim! – Responde o jovem
- Nós somos refugiadas…! – Explica outra nota musical
- Refugiadas…? Como assim?
- Fugimos de uns instrumentos, outras fugiram de umas pautas. – Explica outra nota musical
- Estávamos fartas de ser mal usadas, exploradas, e cansadas da rotina…- Acrescenta outra nota.
- A sério?
- Sim. Chegamos há pouco. Aqui achávamos que ninguém nos ia encontrar. E tu, de onde vens? – Pergunta outra nota
- Eu venho da cidade ali debaixo.
- E o que vens cá fazer?
- Venho à procura de paz…e de inspiração para novas canções! – Explica o jovem.
- Talvez te possamos ajudar, não…? – Pergunta uma nota musical
- Talvez…! Sabem-me dizer onde posso encontrar inspiração?
- Aqui mesmo! – Respondem todas em coro.
- Permite-nos uma demonstração? – Sugere outra nota musical
- Com certeza…estejam à vontade.
            Cada nota musical mostra o que vale individualmente. O jovem fica maravilhado e surge-lhe logo um conjunto de frases na cabeça. Pega num caderno e escreve-as.
- Podem fazer alguma coisa em conjunto, por favor?
- Claro que sim!
            Elas juntam-se e o jovem escreve entusiasmado uma série de letras, enquanto elas se misturam, dançam alegremente, e espalham estrelas brilhantes, bolas de sabão, brilhos…o jovem está maravilhado. Aplaude, no fim de cada exemplificação e sorri. Quase sem dar por isso, já tem dezenas de letras para músicas.
- São maravilhosa…fantásticas. Aceitam trabalhar comigo? – Pergunta o jovem, feliz?
- Onde? – Perguntam em coro
- Na minha banda.
- Huummm… - Todas ficam pensativas
- Eu aceito! – Diz uma nota musical
- Eu também…com muito gosto…! – Diz outra nota.
- Tu cantas com sinceridade! – Diz outra nota
- E tens sensibilidade… - Diz outra nota
- Os teus olhos transparecem a tua alma… - Diz outra nota
- Muito obrigada! – Sorri o jovem
- Eu também aceito! – Gritam todas em coro
- Tenho a certeza que estaremos em boas mãos. – Diz uma nota musical.
- Claro que sim! – Responde o jovem
- Pelo menos tu não nos vais usar mal! – Diz outra nota musical
- Mas onde ficamos? Aqui? – Pergunta outra nota musical
- Sim! – Respondem em coro
- Se quiserem podem ficar na minha casa. – Diz o jovem
- Não…! – Respondem em coro
- Estamos fartas de estar presas, e de viver em pautas, em instrumentos musicais. – Diz outra nota musical
- Então podem ficar aqui, mas vão trabalhar comigo, prometem? – Pergunta o jovem
- Sim! – Respondem as notas musicais em coro
- Nem sei como vos agradecer! – Diz o rapaz.
- Quando começamos? – Pergunta outra nota musical
- Amanhã. Eu vou-vos mostrar onde é a minha casa…
- Está combinadissimo.
            O jovem sai do castelo com as notas musicais e mostra onde é a sua casa. Passa o dia com elas numa grande diversão, a escrever e a compor músicas. E no fim da tarde regressa a casa.
No dia seguinte, como combinado, as notas musicais aparecem na casa do jovem. E de cada vez que se encontram, surgem novas letras para músicas, fazem experiências de sons e instrumentos, trocam umas com as outras, misturam-se, e ele fica maravilhado. Depois ensaia com elas e com a banda.
Graças a estas notas musicais que figuram, o jovem e a sua banda têm muito sucesso, e constroem músicas fantásticas, únicas, de vários géneros, e lindas.
Construíram uma verdadeira família.

FIM
Lálá
4/Novembro/2013