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sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Coração de Avó



NARRADORA – Era uma vez uma boa senhora, que se chamava Nicole, já com uma certa idade, mas com um espírito ainda muito jovem. Dona Nicole adorava costurar e bordar. Vivia sozinha, mas tinha todos os dias a casa cheia de amigas que faziam o mesmo…passavam tardes inteiras a costurar e a conversar, faziam chás e bolinhos e riam muito. Às vezes passeavam juntas, menos quando estava mau tempo. Também adoravam tratar das flores. Como era pleno Inverno, o vento soprava forte e assobiava, que dava medo…abanava tudo. Chovia torrencialmente e trovejava. A senhora só tinha medo quando estava sozinha, mesmo assim, procurava fazer sempre alguma coisa que a distraísse. Enquanto costurava com a Dona Gabriela, e com a Dona Judite, a Dona Nicole olha para o calendário.
D. NICOLE – Falta pouco tempo para o Natal!
D. GABRIELA – É verdade!
D. JUDITE – O tempo passa a correr.
AS TRÊS – É verdade.
D. GABRIELA – Parece que foi ontem o Natal do ano passado…com os meus netos e os meus filhos…naquela montanha gelada…e já estamos noutro Natal.
D. JUDITE – É verdade. O tempo passa, e nós nem damos por isso.
AS TRÊS – É isso mesmo.
D. NICOLE – O meu Natal, este ano é aqui na minha casa…o ano passado foi na Serra da Estrela.
D. JUDITE – O meu vai ser na casa do meu filho Pedro, com os meus netos…é uma alegria.
D. GABRIELA – O Natal é tão bonito!
TODAS – Sim, é!
D. NICOLE – Muito diferente do nosso tempo!
TODAS – Felizmente.
D. GABRIELA – O nosso Natal era uma pobreza…agora é muito melhor…muito rico.
D. JUDITE – É verdade! O nosso Natal era uma pobreza, mas não faltava comida, nem calor humano, nem alegria, nem amor.
D. NICOLE – Era…! Estávamos em família, à lareira...quase à luz das velas…deitávamo-nos cedo…!
D. GABRIELA - Tudo era cozinhado naqueles potes, que lhe dava um sabor especial.
D. JUDITE – Agora é tudo falsificado…até o bacalhau às vezes já não é igual ao nosso.
TODAS – É verdade!
D. NICOLE – Agora…as crianças são carregadas de brinquedos, caríssimos, e pouco ou nada lhes ligam, ou estragam.
D. GABRIELA – Pois é! Mas eu continuo a adorar o Natal.
TODAS – Eu também.
D. NICOLE – Mas sabem uma coisa…?! Nesta altura também fico sempre um bocadinho triste…
D. JUDITE – Porque lembras-te do teu Natal e da tua família…é normal! Eu também…mas quando estou com eles esqueço as tristezas todas.
D. NICOLE – Não…não é só isso! É que lembro-me muito de quem não tem família nem prendas…não é que as prendas sejam mais importantes, mas toda a gente gosta de receber alguma coisa…! Lembro-me muito dos meninos pobres…! Sempre quis deixar uma prendinha a cada um, nos bairros pobres, e onde há crianças abandonadas…mas não tenho dinheiro, nem tenho mãos tão rápidas como tinha antes, para fazer tudo a tempo.
D. GABRIELA – Isso também me lembro, e agradeço tudo o que tenho…a família que tenho, a casa, o conforto, o calor, as amigas, a roupa, a comida…tudo!
D. JUDITE – Olhem…sabem que mais?! Em vez de estarmos aqui a ficar tristes, com as recordações, e a ter pena dos que não têm nada…em vez de ficarmos pelo desejo de ajudar…vamos pôr mãos à obra e fazer bonecas, saquinhos e roupas, para as crianças pobres e para as que estão nas instituições.
D. NICOLE (sorri) – Excelente ideia! Tens toda a razão!
D. GABRIELA – Amigas…isso é tudo muito bonito, uma excelente ideia, mas têm a certeza que vamos fazer tudo a tempo? Três gatas pingadas…de patas murchas…lentas…falta pouco…não sei se estão a ter a perfeita noção.
D. NICOLE – Fala por ti…!
D. JUDITE – Mas que desvalorização…! Não confias nas tuas capacidades? Sempre fizemos coisas tão bonitas…e estamos sempre a descobrir peças novas…!
D. NICOLE – Não sejas tão pessimista.
D. GABRIELA – Acho que já não temos idade para nos metermos em altas cavalarias.
D. NICOLE – O quê?
D. JUDITE – Isso até é pecado!
D. NICOLE – Isso é preguiça tua…!
D. JUDITE - Idade…? Qual idade…eu nem sei quantos tenho! Sei que Graças a Deus tenho mãozinhas e cabecinha para fazer o que mais gosto…o resto…não quero saber.
D. NICOLE – Pois claro! Tens toda a razão.
D. JUDITE – É preciso que haja boa vontade, e confiança.
D. NICOLE - É claro que vamos conseguir fazer tudo a tempo. Querem ver? E não vão ser só três gatas pingadas de pata murcha…! Seremos um gatil.
NARRADORA – Dona Nicole levanta-se e vai ao telefone. Liga para todas as suas amigas e pouco depois, todas aparecem na sua casa, cheias de felicidade, entusiasmadas, e com vontade de trabalhar. Todas concordaram e levaram consigo todos os tecidos e materiais que precisavam. Numa grande alegria, enquanto conversam e riem umas com as outras, fazem roupas, pijamas, casacos, calças, meias, camisolas, gorros, luvas, vestidos, saias, botinhas de agasalho, saquinhos, e bonecas de pano. Cada qual a mais bonita. Juntam-se todos os dias e quando reparam, quase sem dar por isso…muito bem-dispostas, já têm vários caixotes e sacos cheios com os seus miminhos para os meninos.  Antes da noite de Natal, o Pai Natal da aldeia, recolhe os caixotes e sacos, na casa da D. Nicole, e distribui pelas crianças das Instituições e dos bairros sociais mais pobres da aldeia, e da cidade. Todas estão felizes e orgulhosas. As crianças pobres que receberam as roupas e as bonecas ficaram ainda mais felizes, e pediram ao Pai Natal para visitar as senhoras e agradecer. O Pai Natal leva-as à casa da Dona Nicole, que está com a sua família e toca à campainha. Ela abre a porta e todos gritam com um grande sorriso…
TODOS – Feliz Natal, Avó Nicole!
NARRADORA – Dona Nicole sorri emocionada, e cada menino abraça e beija a senhora.
CRIANÇAS – Muito obrigada, Avó Nicole!
UMA CRIANÇA (sorridente) – Avó Nicole…este foi o melhor Natal da nossa vida. Estamos muito felizes e muito agradecidos!
D. NICOLE (sorridente) – Eu também estou muito feliz.
PAI NATAL (sorridente) – Hoh, Hoh, hoh…! Feliz Natal querida Avó Nicole! És um anjo.
D. NICOLE (ri) – Que anjo, o quê? Eu sou só uma mulher velha…com uma criança debaixo da pele.
PAI NATAL (sorri) – E que linda que é essa criança! Não pediste nada…
D. NICOLE (sorridente) – Este é o melhor presente que podia receber…ver estas crianças, pobres, com estrelas nos olhos de felicidade por tão pouco. E esta visita…este carinho todo…! Além da saúde…o resto já tenho!
PAI NATAL (sorridente) – É uma Avó de Luz…! Que alma linda!
DONA NICOLE (sorri) – Tenho Natal todo o ano no meu coração!
PAI NATAL (sorri) – É verdade!
DONA NICOLE – Entrem! Está muito frio.
NARRADORA – Mas os meninos ficam envergonhados.
TODOS – Boa Noite, e Feliz Natal.
UMA CRIANÇA – Venha visitar-nos mais vezes!
OUTRA CRIANÇA – Agora é a nossa Avó Nicole!
D. NICOLE (sorri) – Com muito gosto! Irei com certeza. Não querem entrar?
TODOS – Não, obrigada.
CRIANÇA 3 – A família, o amor, o carinho, a amizade, a saúde, a alegria, a união e a paz são os maiores presentes que podemos ter!  
E começam a cantar, com umas pilhas, e vão saindo:
«Noite feliz…noite feliz…o Senhor…Deus de Amor…Pobrezinho nasceu em Belém…Eis na lapa Jesus nosso bem…Dorme em Paz óh Jesus…dorme em paz óh Jesus.»
TODOS - Feliz Natal!
FIM
Lálá

(4/Outubro/2013) 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A folha e o cão

Era uma vez uma folha de árvore enorme, que numa noite de tempestade, com chuva torrencial, trovoada e vento forte, foi arrancada da árvore e arrastada numa enxurrada que se formou no chão do jardim onde vivia.
            A folha deixou-se levar, triste, a tremer, sem saber onde ia parar, mas não podia fazer mais nada…tudo era mais forte que ela. Rolou ao sabor da corrente, escorregou, bateu contra paus e pedras, enrolou-se com outras folhas, e com lixo.
            A noite foi terrível, e a folha só parou quando bateu contra uma janela de um quarto, numa casa, e caiu atordoada. Uma velhinha que passou, com passinhos pequeninos e lentos, apoiada numa bengalinha, e bem agasalhada, passeava o seu cão, e olhou em volta.
- Foi uma noite terrível! Que medo! Nem dormi…e tu também não…pois não, pantufinhas? Uivaste, ladraste, ganiste…mas foste uma grande companhia e aqueceste-me! Como sempre! É por isso que eu gosto tanto de ti! Ainda está tudo de pernas para o ar.

            O cão cheira a folha, e ladra-lhe. A folha assusta-se, e olha para ele.

- Óh, não…não bastava a tempestade, ainda vem este…Aaaaiiii…o que é que vem agora? Olha bichano…deixa-me respirar, sim? – Diz a folha.

            O cão ladra.
- Au…Au…! O que é que te aconteceu? – Pergunta o cão á folha

- Por favor, não me ladres tão perto…estou cheia de dores de cabeça. – Pede a folha.

- Oh…desculpa…! É que nunca te vi aqui antes. Mas estás doente?

- Acho que…não sei.

- Não sabes…? Como assim? Dói-te alguma coisa?

- Sim, dói-me a cabeça e acho que estou toda amassada!

- Não! Até estás mais ou menos direitinha…és enorme.

- Preciso de me secar! E de aquecer…

- Já percebi, foste trazida pela tempestade.

- Sim. Mas não sei onde estou! Eu vim de muito longe, acho eu…ai…não sei…sei que andei aos trambolhões muito tempo, a chocar com paus e com pedras e lixo… Nem sei onde vim parar! - Explica a folha.

- Eu sou daqui! E apercebi-me de tudo…ouvi as chuvadas, que pareciam que iam partir os vidros todos…os trovões, que até me abanavam o esqueleto todo…e…o vento…uuuuuuhhhhhh…parecia que me atravessava! Até ficou quase louco. Estive sempre com a minha dona, à beira dela, bem quentinho e a aquecê-la! Ela estava com muito medo, e eu…nem se fala! Mas enquanto estava lá confortável, pensava nos estavam à chuva, e ao vento…nos que não têm casa, e nos que não se podem aquecer, nem têm ninguém para aquecer! Fiquei triste, sabes…e imaginei-me todo-poderoso, a construir casas para esses…como se fosse um mágico! – Diz o cão.

- A sério? Tu és um bom cão…tens bons sentimentos! – Elogia a folha.

- Sim. Eu também já fui um cão sem dono, e sem casa…dormia onde calhava…e era muitas vezes chutado! Mesmo assim, nunca mordi ninguém. Foram tempos muito duros, mas se calhar, isso amoleceu o meu coração! Gosto apenas de carinho, e de fazer companhia…! Aquela é a minha dona! Trata-te muito bem, e retribui o amor que tenho por ela. Foi ela que me acolheu, quando eu era ainda muito pequeno, e fui deixado na rua! A família dela está muito longe, por isso, eu sou a sua família, neste momento, e ela é a minha família. Uma senhora maravilhosa, com um coração enorme! Anda comigo. Vou mostrar-te onde moramos.

- Está bem.

            A folha vai no lombo do simpático cão. Regressa para casa com a sua dona, e a folha vê a paisagem pelo caminho. Já em casa, a folha fica na beirada da porta para se secar, e aquecer. O cão vai para dentro de casa, mas está sempre de vigia.

- Áááhhh…que sol tão bom! – Suspira a folha a sorrir.

            Passa um coelhinho bravo pequenino, desesperado, a tremer muito, e a chorar.
- Óh, coitadinho…o que foi?

- Estou perdido! Não sei onde estão os meus pais. – Responde o coelhinho muito aflito e a chorar.

- Não te preocupes. Eles vão aparecer rapidamente…! Mete-se aqui debaixo, para aqueceres.

            O coelhinho senta-se na beirada, e o cão sente que alguma coisa não está bem, sai a porta.

- Amigo…este coelhinho está perdido…não sabe onde estão os pais. – Diz a folha.

            O cão cheira, e vai à procura rapidamente. Num abrir e fechar de olhos, com o seu olfacto apurado, encontra a toca do coelhinho, com a entrada coberta de folhas. Os pais estão lá dentro, muito preocupados. O cão espalha tudo com as patas, e põe a entrada a descoberto. O coelhinho saltita feliz, abraça o cão, e acaricia-o. Bate à porta e grita:
- Papá…Mamã…!

            Os pais vão à porta, e abraçam o filho, aliviados.

- Onde foste? – Pergunta o pai

- Ia buscar lenha para nos aquecermos…para vos fazer uma surpresa, mas…o vento arrastou as folhas e o lixo todo, e quando voltei…não soube onde estava a entrada! – Explica o coelhinho.

            Os pais sorriem deliciados.

- Óh, meu amor…que lindo…mas devias ter avisado, que íamos contigo. – Diz o pai.

- Mas assim já não era surpresa…!

- Não te preocupes com as surpresas para nós, querido! – Diz a mãe sorridente, com carinho.

- O cão descobriu a entrada!

            O cão sorri, e ladra.

- Muito obrigada! – Diz a mãe sorridente, acariciando o cão – Entra…vou dar-te água quente…e se quiseres comer alguma coisa…

            O cão entra com o coelhinho, e bebe água quente, conversam animadamente. A folha volta para o sol. Passa um passarinho, com as penas todas ensopadas e meladas da chuva, põe-se também ao sol, junto da folha. O cão regressa da toca, mesmo a tempo, pois prepara-se outra tempestade. Ele convida a folha a entrar. Ela entra. Fora da porta ficou o passarinho. O cão e a folha ficam cheios de pena do passarinho, e a folha quer ir abrigá-lo. Sai por baixo da porta, e fica encostada á janela por cima do passarinho, como se fosse um guarda-chuva. O cão fica com pena dos dois, e abre um cantinho da janela da sala.

- Entrem! Fiquem aqui…! – Diz o cão.

            A folha e o passarinho entram, e ficam abrigados, protegidos e quentinhos, na janela da sala onde tem lareira. A velhinha está a cozinhar, e os três na sala conversam alegremente.
Lá fora, cai uma valente tempestade. A velhinha fica muito assustada, e começa a falar com o cão. O cão, embora assustado, responde sempre, e senta-se à beira da velhinha que está sentado no sofá.
De repente batem à porta. A velhinha vai ver, e o cão segue-a. É uma cadelinha com uma grande ninhada de cãezinhos ainda bebés (8), quase congelados, e fracos.
O cão ladra, uiva, procura logo aquecer os pequeninos, com o seu pêlo, deitado no chão, quase em círculo á volta dos pequeninos.

- Uma visita…! Óhhh…coitadinha! Olha, amigo…acho que arranjei uma família para ti!

A velhinha pega na cadela, carinhosamente, e coloca-a num cobertor perto da lareira, acaricia-a, cobre-a, e dá-lhe água quente. A velhinha prepara outro local em frente à cadela e muito perto da lareira, com o cobertor e deita lá os cãezinhos, o cão ajuda a transportá-los.

- Obrigada, querido! – Diz a velhinha.

            O cão está feliz e orgulhoso. A velhinha dá água quente aos pequeninos, sorri, acaricia-os e cobre-os. O cão lambe a cadela, e os cãezinhos pequeninos. A folha e o passarinho apreciam maravilhados. A velhinha janta, e dá de comer aos animais.
A cadela e os cãezinhos dormem, ao quentinho da lareira, e conversam alegremente uns com os outros. O cão apaixonou-se pela cadela, e pelos filhotes, que os trata tão bem como se fossem seus, sempre com a ajuda da velhinha que os acolheu para o resto das suas vidas.
A folha e o passarinho, ficaram a viver no quarto do sótão da casa da velhinha, e a folha servia de abrigo a muitos animais…era tão grande, que cabiam lá debaixo borboletas, joaninhas, passarinhos…para dormirem sonecas, e protegerem-se do calor, do sol, e mesmo da chuva e do frio.
A velhinha ficou muito mais feliz, e o bondoso cão, tornou-se um verdadeiro ídolo da aldeia, por todos os seus actos de salvar pessoas, de ajudar, e proteger…!

           
FIM
Lálá
26/Setembro/2013


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A menina que falava golfinhês

Era uma vez uma menina que não falava, e era muito difícil dizer e mostrar o que sentia. Foi rejeitada pelo pai e vivia com a mãe, numa casa pequenina, simples, mas muito confortável, não faltava nada na praia, nem precisava de atravessar a rua para ir para a areia.
           A mãe da menina estava já desesperada, porque não conseguia fazer com que a menina falasse…e às vezes ralhava com ela, obrigava-a a falar, gritava com ela, sacudia-a…e nada! Chamava-lhe bicho do buraco, até lhe batia para ver se ela acordava… Obrigavam-na a falar, e mesmo assim, não falava. Andava por médicos, e nada faziam. Diziam que era preguiça de falar porque não tinha qualquer problema. Mas era tudo para despachar.
            Um dia, a menina saiu de casa sem a mãe reparar, que tinha adormecido vencida pelo cansaço, e foi para a praia em frente à sua casa, onde havia golfinhos mas ela nunca os tinha visto.
            Os golfinhos sentem uma vibração estranha, e vão à superfície. Encontram a menina, saltam na água e encostam o focinho à barriga da menina. Querem cumprimentá-la.
Ela fica estática, com os olhos muito abertos, e os dois golfinhos sentem que ela ficou assustada. Voltam a mergulhar, e a saltar. A menina não sabe que são golfinhos.
Vem um golfinho e pára junto dela. Os dois olham-se fixamente. O golfinho toca-lhe, e ela encolhe-se, mas o golfinho volta a insistir, e deita o seu focinho nas pernas da menina.
Pela primeira vez a menina sorri, e toca a medo no golfinho. Ele solta um guincho doce e melodioso, e mantém-se com o focinho deitado nas pernas dela. Primeiro assusta-se com aquela boca, e tantos dentes, mas depois toca-lhe levezinho.
O golfinho faz-lhe carinhos com o focinho, na cara, dá-lhe beijinhos com o focinho, e ela ri com as cócegas. Acaricia o golfinho mais à vontade. Ele guincha feliz, e ela toca-lhe deliciada, o golfinho rebola e guincha docemente.
Há uma troca mágica entre os dois, e esta ligação desperta na menina emoções…até aí, não sorria, mas o lindo golfinho fê-la sorrir…não ria…e o carinho do golfinho fê-la rir com gargalhadas sonoras. O golfinho faz habilidades e a menina manifesta-se com todo o corpo, agita os braços e as pernas, sacode as mãos, ri e sorri, pelo encanto e a felicidade de os ver fazer habilidades.
Ela faz com a boca os guinchos dos golfinhos, mas não sai o som. A mãe acorda e não vê a menina. Procura-a por toda a casa, grita, chama-a, e sai a correr de casa em pânico.
- Filha…onde estás…? Aparece…Óh…mas porque é que eu adormeci…onde estás filha…? Ainda se falasses…ai…! E agora…? Vou chamar a polícia…
            Olha para a sua frente, e no fundo da praia vê golfinhos. Corre louca pela praia, em pânico, a gritar pela filha. Quando vê que é a filha sentada na areia, respira de alívio. Abraça-a, e beija-a…
- Ááááhhh…estás aqui nos golfinhos…! Quem é que te mandou sair de casa…? E quem é que me mandou adormecer…? Como é que vieste aqui parar…? Que susto! Ai…diz qualquer coisa…! Nem que seja uma asneira…um palavrão…! Fala, filha…fala…!
            A menina olha para a mãe, sem perceber nada do que está a dizer, inexpressiva, olha a mãe fixamente, e esfrega a sua boca e o seu nariz na cara da mãe. A mãe fica surpresa com aquela reacção.

- O que é isso, filha? É um beijinho?  
            A menina olha para a mãe e sorri. A mãe solta uma grande exclamação, feliz:

- Ááááááhhhh…! Há bocado um beijinho…? Agora…Um sorriso? Não pode ser…estou a alucinar…? Áhhh…deve ser a minha vontade que fales…! Já estou a ouvir coisas, e a ver…sim, porque tu nunca sorriste…! Nem sequer isso, minha querida…nem sequer um sorriso, e nunca me deste beijos, nunca me tocaste…! Será que ficas tão triste quanto eu, por não falares, e por não te expressares…? Se calhar nem tens consciência do que se passa à tua volta! Não estás nada assustada…talvez porque já conheças bem este sítio…! Mas eu já ia chamar a polícia…felizmente encontrei-te a tempo! Sã e salva! Os golfinhos…são tão lindos, não são? (sorri) Que delícia de bichos!
            A menina deita-se na areia e a cabeça nas pernas da mãe, tal como o golfinho fez com ela. A mãe fica gelada para ver o que vai fazer.
- O que foi, filha…?
            A filha olha para ela, fixamente, deitada no seu colo, muito séria e inexpressiva. De repente, solta uma gargalhada sonora. A mãe muito surpresa, ri, e bate palmas, feliz.
- Ááááááhhhh…que gargalhada tão bonita! Boa, filha…que bom! Que felicidade ouvir a tua gargalhada, e ver os teus olhos brilhantes, com o sorriso. Mas…acho que acabou de acontecer um milagre! De repente foste expressiva…! Que linda! Obrigada, meu amor…obrigada. E tu também não te deitavas no meu colo, nem sorrias, nem me davas beijos…!
            A menina olha para os golfinhos com um grande sorriso, a mãe deixa escapar algumas lágrimas de felicidade. E de repente…os golfinhos guincham, e a menina reproduz os guinchos, toda entusiasmada, agitando as mãos e as pernas e rindo às gargalhadas. Sai do colo da mãe e vai para a beira dos golfinhos.
A mãe fica a ver o que ela vai fazer. Eles encostam-se a ela, aos guinchos, ela acaricia-os, feliz, e às gargalhadas. A mãe ri incrédula, e a menina continua a guinchar eufórica e a manifestar-se com todo o corpo.
Os golfinhos dão-lhe beijinhos, e ela retribui neles, e na mãe. A mãe não cabe em si de felicidade, e aproxima-se dos golfinhos, acaricia-os, e a menina abraça a mãe, e beija-a.
Depois deste dia, todos os dias, a mãe levava a menina para a lagoa artificial da praia, onde estão os golfinhos, e brinca com eles todos os dias. Eles guincham, ela também. Eles tocam-lhe, ela também, eles beijam-na, ela beija-os e beija a mãe. Eles guinchavam, ela também.
Nasceu uma nova menina, que graças à relação que criou com os golfinhos, uns tempos depois, tornou-se muito mais expressiva, começou a falar a sua língua normal, com a mãe, familiares e amigos, que lhe ensinavam pacientemente, e de forma carinhosa, com imagens e brincadeiras…e falava golfinhês, todos os dias, com os doces e simpáticos golfinhos, durante horas…com guinchos e gargalhadas, risos e carícias, mergulhos…
Por tudo isto, todos começaram a chamar este acontecimento de milagre dos golfinhos.
Tudo pode aprender-se melhor com as vibrações de carinho e dedicação, paciência, simpatia e elogios, risos, brincadeiras e valorizando cada pequenino passo.


FIM
Lálá
26/Setembro/2013



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

De quem é a cesta de Outono?


        É Setembro, e um agricultor levantou-se muito cedo, com os primeiros raios de sol. Vestiu uma roupa confortável, e um agasalho, pois nas primeiras horas da manhã está fresco, e depois aquece. Tomou o pequeno-almoço, e toda a família ficou a dormir, porque os seus filhos são muito pequenos, e a sua esposa ficou com eles.
Pegou nos seus lindos cães e levou-os para o campo, onde ficou de se encontrar com os vizinhos, também jovens rapazes, e algumas raparigas para a colheita. Puseram logo mãos à obra!
David conduziu o trator, pelos campos todos, sem pressa, e os outros nos atrelados, com as tesouras próprias para ficarem mais altos e chegarem mais facilmente aos frutos que estavam mais acima. Outros vizinhos, jovens cortaram os cachos e apanharam os frutos de baixo, e os mais velhos foram para outro campo, colher os legumes.
Colocaram tudo separado: maçãs em baldes, pêras noutro balde, uvas brancas noutro, uvas vermelhas noutro, amoras, castanhas, amêndoas, feijões, cebolas, nabos, alho francês, courgette, xuxus, batatas, cenouras, nozes, romãs, tomates, salsa, pepinos, limões, espigas de milho, laranjas, abóboras, cabaças, e muitas outras prendinhas da Natureza.
À medida que ia nascendo o dia e o sol aparecia, ia ficando mais quente, por isso todos iam bebendo água fresca, conversavam e riam alegremente. Num instante, todos os baldes ficaram cheios, com cores variadas e muito bonito. Vão buscar mais baldes e enchem-nos.
Como estão muito ocupados a cortar cachos enormes, e as frutas, nem dão pelo tempo passar, e chega a hora de almoço. A esposa de Francisco vai chamá-los, pois todas as esposas que ficaram em casa com as crianças, juntaram-se e cozinharam para todos.
Consolam-se com o almoço e convivem alegremente. No fim da barriguinha confortada, voltam para os campos apanhar o resto que falta. Os cães estão muito estranhos…molengos, mas ao mesmo tempo inquietos, ladram e uivam.
A senhora mais velha da aldeia, de 105 anos, muito fina de cabeça, e sempre muito simpática, carinhosa e dedicada, vai à janela, olha para a paisagem e sorri.
- Olá! – Diz a Sra. - Sente a brisa no seu rosto – Sei que já chegaste…e linda como sempre! Vens carregada de surpresas para todos…aposto!
- Que bom vê-la de novo, doce senhora! – Sussurra uma linda voz feminina.
- O prazer é todo meu…! Então…muito bem-vinda, princesa Outono! – Diz a senhora sorridente.
A senhora fica mais um pouco à janela. À noite, deitam-se cedo, porque estão estafados. De repente, passeia-se discretamente, no sossego da noite, e ao som das cigarras, grilos, sapos e rãs e relas…uma jovem rapariga misteriosa.
Tinha um vestido muito comprido, feito de folhas de vários tons, e cabelos de troncos fininhos com gotinhas de água transparentes penduradas, olhos dourados, e uma capa de nuvens cinzentas, com um lindo e grande cesto num braço, e o outro braço no seu namorado vento…muito ciumento, mas estava calmo, e muito apaixonado, é por isso que as pessoas sentiam uma brisa quente. Os dois passeiam sem pressa, trocando muitos carinhos, sorrisos, e risos, danças sem música, e brincadeiras.
- Que casal tão romântico…apaixonado…! Ai…! – Suspira a doce velhinha. – Como eu gostava de ter tido um amor assim…! – Sorri – E tive! Nos meus sonhos…! Nunca apareceu de verdade.
Enquanto a senhora fica a apreciar, sentada numa poltrona na varanda, a jovem aproxima-se dos baldes, e pousa o cesto no chão. O seu namorado sopra para o cesto, e este divide-se em cestos mais pequenos. Ela decora-os com grandes folhas verdes, e salpicos de outras folhas, mais pequenas, de outras cores. Pega nos legumes e frutas misturados e divide-os por cada cestinha. E na cesta grande, faz o mesmo.
Coloca uma cestinha à porta de cada casa, e deixa a grande no campo. A rapariga misteriosa desaparece. Na manhã seguinte, a rapariga está lá, mas não a vêem.
            Quando saem a porta, reparam num cesto pequeno, sorriem, mas não dão muito valor. Quando os agricultores chegam ao campo, e vêem aquela cesta enorme, perguntam em coro:
- O que é isto?
- Parece que nos esquecemos de uma cesta aqui…! – Comenta Igor.
- Não! Esta cesta não é nossa! – Repara Nicole.
- Então esteve aqui alguém a mexer nos nossos produtos…! – Reclama João.
- Mas que grande lata…e deixou aqui vestígios…? – Pergunta Mára.
- Há aqui alguma coisa de muito estranho…não há marcas de passos no chão…como é que deixaram isto aqui? – Repara e pergunta Irene.
- Bem pensado! – Respondem em coro.
            Ouvem uma voz doce:
- É minha!
            E forma-se uma enorme ventania. O vento não gostou que a tivessem ignorado.
- Pára, amor! – Ordena a voz.
- Perdoa-me…minha princesa…! Já parei… - Diz o vento.
- O quê? – Perguntam todos, a olhar para todos os lados, para ver se descobrem de onde vem a voz.
- De quem é este cesto? – Pergunta Rita.
- É meu! – Responde a voz.
- Onde estás, tu que falas? – Pergunta Nuno, nervoso.
- Estou mesmo à vossa frente…no solo, na terra, nas árvores, nas frutas, nos legumes, no ar! – Responde a voz.
- O quê? – Perguntam em coro.
- Isto deve ser alguém a brincar! – Comenta Jacinta.
 - Não! É real…não viram o cestinho à vossa porta? – Pergunta a voz.
- Sim! – Respondem em coro.
- Fui eu que o deixei lá! E este também! – Diz a voz.
- Mas nós não pedimos nada…! – Respondem todos.
- Aparece! – Ordena Hugo zangado.
            O vento dá uma forte rajada na cara do Hugo, como se fossem duas grandes estaladas. Ele gira, e grita, com as fustigadas. A voz ri. A velhinha aparece, sorridente.
- Mas que linda cesta! – Diz a senhora.
- Sim…! – Dizem em coro.
- Estamos a tentar descobrir quem a deixou aqui…! – Explica Mónica.
- Eu sei quem foi! – Diz a senhora a sorrir.
- Sabe? – Perguntam em coro.
- Foi você? – Pergunta Diana
- Não…! Foi a Princesa Outono! – Responde a senhora.
- Quem? – Perguntam todos
- A Princesa Outono! – Diz a senhora
- Não vemos ninguém! – Respondem em coro
- Só ouvimos uma voz. – Diz Clara
- Ela está mesmo aqui! Diante dos vossos olhos, por todo o lado…no chão, na terra, nas árvores, nos frutos, nas cores… – Responde a senhora a sorri.
- Isso foi o que ela nos disse. – Respondem em coro.
- Mas que espécie é…? – Pergunta Nancy
- É a Princesa Outono! Ela não aparece em forma de gente, como nós…mas é um ser muito especial…deixou-vos um presente à porta, para anunciar a sua chegada, mas vocês estão tão emaranhados nos vossos afazeres que nem reparam no que se passa à vossa volta! Nem no vosso interior! – Diz a senhora.
- Obrigada pela cesta! – Dizem todos a sorrir.
- Chegou a Princesa Outono! – Diz a Senhora.
- Ááááááhhhh…! – Dizem em coro.
- Claro! Começa hoje! – Reflete Paula.
- Olá Outono! – Dizem em coro.
- Olá! – Diz a Princesa Outono sorridente.
- Que surpresas nos trazes este ano? – Pergunta Mónica
- Logo ficarão a saber…! – Responde a Princesa Outono.
- Porque não juntam tudo e fazem um grande piquenique? – Sugere a senhora.
- Excelente ideia! – Gritam todos, felizes.  
            E todos juntam as colheitas, fazem diferentes pratos, sobremesas, sumos, e sopas, cada qual a mais deliciosa, e saudável, numa grande festa, vestidos à época, com música, e a Princesa Outono, transformada numa linda mulher. O Outono também tem as suas belezas…! Feliz Outono!



FIM
Lálá  
(25/Setembro/2013)