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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

notas outonais

       


         Era uma vez uma menina que num dia cheio de nuvens, vento frio e chuva, desenhou várias notas musicais, em linhas de uma pauta musical, sem saber que notas eram aquelas, e se dariam uma música. Era apenas um pedaço de papel de músicas, com uns desenhos parecidos com notas que ela nem sabia quais eram, mas foi o que lhe apeteceu desenhar na hora.
        Olhou pela janela e vê uma chuva de folhas a cair das árvores, a rodopiar como ela nunca antes tinha visto, faziam redemoinho.
- Que ventania! - Diz a menina assustada
- Filha, anda lanchar... - Diz a mãe da cozinha
- Óh mãe, anda ver como aquelas folhas caem e rodopiam.
- Claro, está muito vento. - Diz a mãe
- Eu nunca as vi  rodopiar assim!
- Pois não, não adamira, estás sempre a olhar para outras coisas.
- Alguma coisa de muito estranho está a acontecer lá fora.
- Não há nada de estranho. Anda lanchar.
        A menina vai lanchar, mas sempre a pensar no que tinha visto. Enquanto ela está na cozinha, as notas musicais apresentam-se, e conversam entre elas. Quando a menina chega, calam-se. Olha para o desenho e está tudo igual:
- Será que estes desenhos têm algum valor? Será que são uma música?
        Quando o seu irmão mais velho chegou, a menina pediu-lhe para tocar na viola, aquelas notas musicais.
- Óh mano, achas que isto que desenhei são notas musicais?
        O irmão olha:
- Claro que são.
- São? Eu desenhei, mas não sei o que significam. Será que consegues tocá-las aí na viola?
- Posso experimentar...
        O irmão segue as pautas, e toca nota por nota, cada nota dança e canta com a voz que lhe pertence, depois toca tudo seguido, e todas as notas cantam em coro, dançam, brincam umas com as outras. O irmão sorri:
- Viste? Construíste uma linda canção.
- Gostaste? - Pergunta a menina a sorrir
- Gostei muito. É bonita. Onde foste buscá-la?
- Só desenhei estas bolinhas, com estes traços à sorte, vi-as num caderno teu, achei-as engraçadas e há bocado quando olhei para a janela, lembrei-me delas. Não sabia se iam ser música ou não, mas pelos vistos...
- Sim, construíste mesmo uma música.
- É assim que tu também fazes as tuas músicas?
- Algumas sim, mas a maior parte delas já está feita, eu só copio. Que nome queres dar a esta tua música?
- Hum, não sei. O que achas?
- A mim parece-me uma música de Outono. Quando a ouço, parece que consigo imaginar folhas de outono, o vento, as nuvens...os sons soam-me a Outono. Parece que consigo ver uma cor de Outono em cada nota musical que desenhaste.
- Áh! E quais são as cores do Outono que consegues ver?
- As que tu conheces...amarelo, verde, castanho, vermelho, roxo, cinzento, cores misturadas...
- E como é que consegues ver?
- Com os olhos da minha imaginação, os sons também nos fazem sentir coisas...despertam a nossa imaginação, como as palavras e as imagens.
- Que lindo! Nunca experimentei.
- Experimenta...fecha os olhos, eu vou tocar outra vez a tua música, e esquece o que eu disse... deixa que seja a tua imaginação a falar, pode ser muito diferente da minha. Preparada...?
- Sim.
         A menina fecha os olhos, e o irmão toca a música que ela própria compôs. Enquanto o irmão tocava, ela também deixou que a sua imaginação falasse. Encontrou-se com uma princesa feita de tronco de árvore, cheia de folhas e ramos ondulados que faziam lembrar os cabelos, tinha dois olhos, que eram uns enormes girassóis, um botãozinho de tronco que era o nariz, uma boca com um lindo sorriso, a condizer com os olhos, um vestido amarelo, com folhas de várias cores pregadas, e castanhas como se fossem brilhantes espalhadas por todo o vestido. Era tão simpática.
         As notas musicais, puseram o ser que ela imaginou, a dançar, e tudo nela dançava, até dançaram as duas: a menina e a outra menina que ela imaginou. Quando a menina lhe perguntou quem era, e como se chamava, ela disse que era a menina Outono.
         O irmão acabou de tocar, e ela diz:
- Mano, essa música vai chamar-se a menina Outono! Eu encontrei-me com ela, essa música fez magia...! Enquanto tocavas, vi uma menina  feita de tronco de árvore, cheia de folhas e ramos ondulados que faziam lembrar os cabelos, tinha dois olhos, que eram uns enormes girassóis, um botãozinho de tronco que era o nariz, uma boca com um lindo sorriso, a condizer com os olhos, um vestido amarelo, com folhas de várias cores pregadas, e castanhas como se fossem brilhantes espalhadas por todo o vestido. Era tão simpática! Dançamos as duas, e ela disse que era a menina Outono!
- Áh! Vês? Imaginaste uma coisa diferente de mim, enquanto ouvimos a mesma música. O tema era o mesmo...o Outono, mas o que imaginamos sobre o Outono, foi diferente.
- Pois foi. Que engraçado!
- Imaginaste uma coisa muito bonita.
- Eu também gostei.
- E que tal se esta música se chamar... notas Outonais?
- Notas Outonais...? Hum, até acho um nome bonito. É...acho que pode ser.
- Vou tocá-la aos meus amigos, pode ser?
- Pode. E pergunta-lhes o que imaginaram com essa música.
- Está bem. De certeza que vão gostar.
- Obrigada. Se calhar vão imaginar outras coisas diferentes.
- Sim, claro. Mas pode ser que o tema seja o mesmo. Estamos a entrar no Outono.
- Quando é?
- Depois de amanhã.
- O tempo que faz lá fora, já parece Outono.
- É. Ele já anda por aí.
- O Outono é um menino ou uma menina?
         O irmão dá uma gargalhada.
- É um menino...
- Então porque é que eu vi uma menina?
- Não sei, ele pode ter uma irmã!
- Pode, e pode ser gémea. Da próxima vez que a encontrar pergunto-lhe.
- Claro, se ela for como a que tu viste, ele é muito parecido. Mas achas que vais vê-la outra vez?
- Sim.
- Podes imaginar outras coisas diferentes, das próximas vezes que ouvires a música.
- É?
- É!
- Tu gostas dele?
- Gosto...algumas coisas.
- Eu também gosto.
        Os dois irmãos continuam a conversar sobre o Outono que se aproxima rapidamente, falam do que ele traz, do que muda na natureza, do que mais gostam e do que menos gostam. O irmão toca a música da menina aos amigos, e estes imaginam outras coisas, como era de esperar, mas dão os parabéns à menina pela música tão bonita que criou, sem saber que o que ela pensava ser só um desenho, afinal era música que o irmão conseguiu tocar na sua viola, e gostou muito.

                                                          FIM
                                                          Lálá
                                                 (20/Setembro/2017)  

E vocês? Acham que o Outono é um menino ou uma menina? Como é que o, ou a imaginam? O que gostam mais dessa estação do ano? O que muda na natureza? Façam uma composição ou um desenho sobre isso!

sábado, 9 de setembro de 2017

Os cheiros no quarto da Maria e da Luísa


      foto e brinquedo pertencente a Lara Rocha 

Era uma vez duas meninas: uma chamava-se Maria, a outra chamava-se Luísa, que eram irmãs e dormiam em quartos separados. Uma noite, a Luísa que era a mais nova acordou para ir à casa de banho e sentiu um cheiro no seu quarto que não costumava sentir. Cheirava-lhe a praia, maresia e algas.
- Mas que cheiro bom é este?
            Foi ao quarto da irmã Maria, mais velha, que estava a dormir, e acorda-a:
- Mana…há um cheiro diferente no meu quarto!
            A irmã acorda assustada, com os abanões da Luísa.
- O que foi, Luísa?
- Tenho um cheiro diferente no meu quarto! 
- A quê?
- A maresia, a algas e a praia.
- Como é possível? Não tens a janela aberta, nem estás na praia.
- Pois não! Mas acordei para ir à casa de banho e senti esse cheiro.
- Óh, deve ser impressão tua! Se calhar sonhaste que estavas na praia ou imaginaste!
- Anda comigo, para sentires o cheiro!
- Que chata, Luísa. Vai dormir, deixa o cheiro para lá!
- Anda comigo mana, vá lá…por favor!
- Ai…! Eu tenho que aturar cada uma…
                A Maria levanta-se e vai com a Luísa, de olhos quase fechados ao quarto.
- Cheira! – Diz Luísa
            A Maria inspira e responde:
- Não sinto nada, cheiro nenhum. Sonhaste, só pode.
- Mas eu sinto esse cheiro.
- Eu não! Vai dormir, que eu também vou dormir. E não me acordes outra vez para cheirar se cheira.
            A Maria volta para o seu quarto, e a Luísa fica no dela, amuada. Volta a dormir, mas sempre a pensar no cheiro, de onde vinha e porque é que a Maria não tinha sentido! Adormece e volta a acordar. Agora cheira-lhe a cerejas. Acende a luz para ver se existiam cerejas no quarto mas não as encontrou.
- Cheira-me a cerejas, mas não estão aqui no quarto!
            Levanta-se e vai ao quarto da Maria outra vez. Acorda-a e diz-lhe:
- Mana, agora cheira-me a cerejas! Anda…
- Outra vez, Luísa? Que chata. Agora não vou. Há bocado cheirava-te a praia, algas e não sei que mais, agora cheira-te a cerejas. Dorme! Esquece os cheiros, isso és tu a imaginar. Vai dormir.
                Luísa amua e volta para o seu quarto. O cheiro a cerejas tinha desaparecido. Ela fica muito pensativa, mas volta a dormir. Quando acorda outra vez sente um cheiro de flores. Levanta-se:
- Agora cheira-me a flores. Não estou a perceber nada.
            Procura no quarto todo.
- Nada de flores.
            Vai ao quarto da Maria, mas esta grita-lhe:
- Nem te atrevas…já vens outra vez com a história dos cheiros? Vai dormir.
            Luísa ainda tenta:
- Agora cheira-me a flores!
- E a caca não te cheira? – Diz a irmã zangada
            A Luísa choraminga:
- Má…
- Vai dormir.
                Luísa não consegue sossegar. Já que a irmã não lhe ligou, foi ao quarto dos pais.
- Mamã, papá, cheira-me a flores no quarto! Há bocado cheirou-me a mar, algas e praia, depois cheirou-me a cerejas, agora cheira-me a flores. Venham ao meu quarto. A mana foi lá mas diz que não lhe cheirava a nada. A mim cheirou-me, mas depois quando voltei já não me cheirava a cerejas. Mas agora cheira-me a flores. Anda cheirar mamã…e papá! Não sei de onde vem, eu não tenho flores no quarto.
            O pai mandou-a dormir, zangado, a mãe vai com ela ao quarto, inspira e diz:
- A mim não me cheira a nada, filha!
- A mim cheira-me a flores. Há bocado fui à casa de banho e cheirou-me a praia, algas e mar.
- Depois a cerejas e agora a flores. Deves ter sonhado, ou imaginaste! – Diz a mãe
- A mana também me disse isso. Mas eu sinto, e senti. – Garante Luísa.
- Está bem, agora dorme!
            A menina amua, a mãe cobre-a, dá-lhe um beijo e volta para o seu quarto, apagando a luz. No seu quarto, Luísa vê uma luzinha a andar de um lado para o outro, e agora sente no ar muitos cheiros diferentes, a fruta. Luísa senta-se na cama, a Luzinha aproxima-se e Luísa vê que é uma fada pequenina, com um cesto cheio de frascos vaporizadores.
- Olá!
- Olá! Quem és tu?
- Sou uma fada, venho da praia, e da floresta, fui recolher novos perfumes. Sentiste algum cheirinho aqui no quarto?
- Sim, senti vários cheirinhos diferentes, até fui buscar a mana e a mamã, mas elas não sentiram. Eu senti! Primeiro cheirava-me a praia, maresia, algas, depois cheirou-me a cerejas, mas quando voltei já não me cheirava, depois cheirou-me a flores, e agora está-me a cheirar a frutas variadas, e outras coisas.
- Áh! Boa! É que abri os frascos aqui, para ver se gostavam dos aromas, e se eu própria gostava. Se não gostasse teria de ir procurar outros.
- Tu fabricas perfumes?
- Sim, ajudo a fabricar, eu e muitas outras fadas.
- Áh! Que giro, e porque é que vieste aqui ao meu quarto?
- Desculpa, é que foi o lugar maior que encontrei para experimentar.
- E porque é que a mana e a mamã não sentiram?
- Não sei, talvez não sejam cheiros muitos fortes, ou não estavam muito atentas…mas tu gostaste?
- Gostei!
- Boa!
- Que outros perfumes já fizeste mais?
            As duas têm uma longa, agradável e divertida conversa. A menina cheira mais perfumes, e diz os que gosta e os que não gosta. A fada agradece e vai para a fábrica dos perfumes. A Luísa ainda dorme até de manhã.
            Na manhã seguinte, quando a menina acorda, sente um cheiro delicioso de bolo de chocolate.
- Hum…que cheirinho bom! És tu, fada dos perfumes? Olha que este é muito bom, nunca tive nenhum perfume com este cheiro, mas podes experimentar porque sei que há sabonetes com este perfume!
            Ela procura a fada pelo quarto toda, mas não está. Sai do quarto, vai ao quarto da Maria e diz:
- Mana, cheira-me a bolo de chocolate!
- A mim também me cheira a bolo de chocolate.
- Ai agora também sentes o mesmo cheiro?
- Sinto!
- Descobri de onde vinham aqueles cheiros que eu senti e tu não sentiste!
- A sério? O quê? Descobriste que sonhaste ou imaginaste não?
- Não! Era uma fada que trabalhava numa fábrica de perfumes e foi buscar novos perfumes à praia, e à floresta. Depois quis experimentar, e abriu lá os frascos para eu cheirar.
- Áh! Está bem. Mas este cheiro não deve ser de um perfume dela. Vamos à cozinha, deve ser a mamã ou a Avó que está a fazer lá um bolo.
            As duas vão à cozinha, e acertaram em cheio! O cheirinho delicioso que elas sentiam vinha de um bolo de chocolate que a Avó estava a fazer.
- Hummm…o cheiro vem daqui! – Gritam as duas com um grande sorriso!
- Bom dia! – Diz a Avó que espreita o bolo no forno – está mesmo a ficar pronto!
- Hum! Que delícia. – Dizem as duas
- Vão comendo o resto. – Diz a avó
- Avó sabes uma coisa? Esta noite senti muitos cheiros diferentes no meu quarto! – Diz Luísa
- Foi? Como assim? – Pergunta a avó surpresa
- Foi. Cheiro a praia, mar, algas, cheiro a cerejas, cheiro a flores e agora cheiro de chocolate.
- E de onde vinham tantos cheiros? Sonhaste?
- Não. Foi uma fada que trabalhava numa fábrica de perfumes, e foi buscar novos cheiros à praia, à floresta, e a jardins.
- Áh, que sorte! – Diz a avó com um sorriso
- Fui chamar a mana e a mamã, mas elas não sentiram.
            Chega a mãe.
- Áh! Que cheirinho bom! Este cheirinho acordou-me! Até parecia estar lá no quarto. – Diz a mãe
- Foi como o cheiro de praia, maresia, algas, e flores que só eu é que senti. E era uma fada que andava lá no quarto, que trabalhava numa fábrica de perfumes. – Conta outra vez Luísa
            Todas riem, tomam o pequeno-almoço sem pensar mais nos cheiros e preparam-se pois há muitas coisas para fazer.
            E vocês? Conhecem os cheiros do vosso quarto? Já sentiram algum cheiro diferente? E na vossa casa, que cheiros existem?
                                                           FIM
                                                           Lara Rocha 
                                               (7/Setembro/2017)





quinta-feira, 6 de julho de 2017

O galo que tinha a mania



Era uma vez um galo que vivia numa vivenda grande com jardim, na cidade. Era um galo grande, vaidoso, com penas muito bonitas, coloridas, vistosas, mas tinha a mania que cantava muito bem, muito melhor que todos os outros.
            Por ter esta mania, cantava a toda e qualquer hora, de dia, de noite, com sol, com chuva, de Verão, de Inverno, na Primavera e Outono, parecia que nunca se cansava. Só que…isso era o que ela achava, mas as pessoas à volta da casa, que viviam nos prédios não tinham a mesma opinião!
            Depois de vários dias seguidos a acordar e a ouvir o galo cantar quando queria, as pessoas foram bater à porta da vizinha, dona da casa e do galo, resmungar:
- Cala-me esse pito! – Gritava um senhor
- Que raio de rádio foi arranjar, não se cala, esse diabo desse pito.
- Como é que consegue aguentar esse maldito pito sempre a cacarejar, deve ser surda, não?
- Arrume-me esse franganito, de uma vez!
- É insuportável.
- Meta-o na panela, ou metemo-lo nós!
- Acabe com esse realejo.
- Essa bola de penas com patas devia ir para a panela.
- Cale-me essa coisa, corte-lhe o pio, ou nós cortamos.
- Olhe que, ou você cala esse pito, ou chamamos a polícia.
            A dona do galo ouvia e pedia desculpa. Achava que quem reclamava tinha a sua razão, e não foram poucas as reclamações. Mas ela também não queria matar o frango. Gostava dele. Decidiu ter uma conversa com ele:

- Olha lá, óh frango…estou farta de receber reclamações a toda a hora, por estares sempre a cantar.
- Essa agora? Então essa gentalha não sabe que os galos cantam? – Pergunta o galo muito indignado
- Sabem, mas reclamam porque cantas a toda a hora, todo o dia, à noite, todos os dias. À noite precisam de descansar, e ouvem-te a cantar. Acordam com o teu canto.
- Mas eu canto tão bem! – Exclama o galo
- Não estou a dizer que cantas mal, só que vieram aqui muitos vizinhos reclamar! Vê se pelo menos de noite, não cantas, por favor, para ver se acabam os protestos.
- Eu não sei quando é de noite, ou de dia, ou lá isso que dizes.
- De noite é quando está tudo escuro.
- E de dia posso cantar?
- Podes!
- Quando é que é de dia?
- De dia, é por exemplo, agora.
- Para mim é igual, de dia ou de noite! Eu canto, e quero cantar…se eles não gostam, é problema deles! Eu canto tão bem, tenho uma voz tão bonita, eles é que têm péssimos gostos. Não entendem nada de música, nem de vozes!
- Eles ameaçaram que te metiam na panela, se não te calasses. Até disseram para eu fazer o mesmo.
- E vais fazer o que eles querem?
- Não! Mas por favor, quando te disser para não cantares, não cantes, à noite.
- Tens de me dizer quando é noite! Porque é que eu não posso cantar de noite?
- Porque de noite, estão a descansar, quase não há barulho, e o que há, ouve-se mais.
- Não sei que barulhos é que há de noite.
- Há alguns carros a passar na estrada, algumas pessoas, gatos e cães, e tu a cantares.
- Esses também fazem barulho, falam lá na língua deles…na ladrês e em gatês… ou lá o que é. Porque é que esses podem falar até quando dizes que não posso, e eu tenho que silenciar a minha voz tão bela? Esses é que são irritantes, e insuportáveis, ninguém os manda calar, porquê? O meu canto é diferente, é especial.
- Sei que para ti é difícil não cantares, mas faz um esforço para não cantares de noite. Eu aviso-te quando for e noite! Aliás, porque é que estás sempre a cantar, a toda a hora? Não te cansas?
- Não! Porque canto com alma e paixão!
- Está bem, mas lá porque gostamos de fazer alguma coisa, não podemos estar sempre a fazê-la! Precisamos de descansar e na cidade trabalha-se muito.
- Porque é que vieste para aqui viver?
- Porque foi aqui que nasci, e sempre vivi aqui.
- Porque é que me trouxeste?
- Tu sempre estiveste aqui!
- Pois, então aqueles é que devem sair, se não gostam do meu canto angelical.
- Eles também estão aqui há muito.
- É problema deles! Não acho bem ter de me calar só porque aqueles não gostam! Não gostem, tapem os ouvidos! Não entendo…gostam de ouvir aqueles bichos, e eu é que apanho as resmunguices.
- Há muita coisa injusta, amigo.
- E o que é que eu vou fazer enquanto não canto?
- Descansas!
- Acho que não consigo estar calado!
- Sei que te vais habituar.
- Que maldade estarem a fazer isto comigo; eu se apanho esses idiotas incógnitos,
esfrangalho-os todos!
            A dona ri-se.
- Não te chateies! Vivemos na cidade, todos temos regras a cumprir.
- Nunca outra me aconteceu!
- Até já.
            E o galo fica muito triste, soluça, não canta. À noite, a dona manda-o calar:
- Agora não podes cantar, até eu dizer, está bem?
            O galo não responde, e obedece, com soluços e lágrimas nos olhos. As galinhas e os outros galos tentam conversar com ela, para o animar, mas ele só queria cantar, por isso não conseguia ficar feliz, não se ria, quase não se mexia. Era só um corpo presente. De dia também não cantou, só ficou em silencio, triste, com os olhos a lacrimejar, mesmo depois da dona ter dito que podia cantar.
            Os vizinhos estavam todos satisfeitos, felizes, por o galo não cantar, mas de dia para dia, o pobre galo ficou cada vez mais triste, não cantava, não se mexia, só chorava, e quase não comia. A dona ficou muito preocupada. Foi falar com ele:
- Então? O que se passa? Não cantas?
            O galo não respondeu, nem olhou para ela.
- Não falas?
            O galo não respondeu, e deu um soluço.
- Já percebi, estás zangado comigo, não é? Mas o que e que eu podia fazer?    
            O galo suspira.
- Porque não falas comigo? Talvez eu te possa ajudar… estás tão triste!
- Deixou de cantar, ficou assim! – Diz uma galinha
- Está triste! – Diz outra galinha
- Eu nunca o vi assim. – Diz a dona
- Nem eu! – Dizem as outras galinhas e galos
- Nunca mais foi o mesmo. Nem connosco falou mais. – Diz outra galinha
- Nós tentamos puxar por ele, mas não adianta! – Diz outra galinha
- Óh, pobre bicho! Desculpa! Eu não queria que tivesse de ser assim. Vá lá, anima-te! Tenta pôr-te no meu lugar. Gostavas de ter de ouvir reclamações por causa de um galo? Já te disse que de dia podes cantar.
            O galo respondeu irritado:
- Gostavas que te mandassem calar? E se te obrigassem a estar calada, gostavas?
- Mas de noite estou calada, e de dia também não estou sempre a falar, nem ninguém. Às vezes ficamos calados.
- Vocês são mesmo estranhos.
- Já estamos habituados, e vocês animais também se habituam.
- Eu não gosto de estar calado. Não sei fazer outra coisa se não cantar.
- Claro que sabes fazer outras coisas. As galinhas também não estão sempre a cacarejar, os gatos não estão sempre a miar, os cães não estão sempre a ladrar.
- Porque eles não cantam, ou se têm a mania que é assim que cantam, cantam muito mal. Mas eu canto bem, para mim cantar é respirar…é viver! Não me deixam cantar, sufocam-me.
- Deves habituar-te a não estar sempre a cantar.
- Que injusto!
- Mas o que é que eu te posso fazer?
- Deixa-me cantar.
- Mas só cantas de dia, combinado? E calas-te quando eu mandar. Sempre que te apetecer cantar, vais ali para a garagem, e não cantas cá fora, quando eu disser, entendeste?
            O galo parece que apanha um choque elétrico, entesa-se, e sai disparado quase a voar para a garagem. A dona e as galinhas e os outros galos dão umas valentes gargalhadas. Mal ele chega à garagem desata a cacarejar muito alto, cheio de força e energia, salta, corre a garagem toda, a dona aprecia divertida, e põe um plástico duro na porta da garagem para isolar completamente, uma garagem com parede à prova de som.
            O galo estava completamente feliz por poder voltar a cantar. Cantou na garagem até ficar cansado. Saiu porque precisava de beber. Era um novo galo, de tão feliz que estava.
- Obrigado! – Diz o galo com um grande sorriso e um belo abanar de penas.
            A dona ri-se:
- Sei que estás muito feliz.
            O galo bebe.
- Estás mesmo feliz, és um novo galo…nunca imaginei que pata ti fosse tão importante cantar! Já sabes, cá fora podes cantar de dia, mas quando eu te mandar calar, à noite, vens para aqui para a garagem, sempre que te apetecer cantar. Aqui não se ouve. Combinado?
- Combinado! Não se ouve?
- Não! Agora podes cantar cá fora quando te apetecer, mas também não estejas sempre a cantar, porque se não, daqui a pouco vem aí outra vez chatear. Agora come, e habitua-te a descansar, também! Como faz a tua família.
- Entendido. Muito obrigado.
            E assim foi. Como o galo tinha a mania que era cantor, apetecia-lhe muitas vezes cantar, mas como não podia estar sempre a cantar para não incomodar, mesmo não concordando, ia cantar para a garagem, onde ninguém o ouvia.
            Parecia um andarilho, andava sempre de um lado para o outro, todo vaidoso, de dia, cantava às vezes, fora da garagem, nas traseiras da casa, outras vezes, e principalmente à noite, cantava na garagem.
            O galo continuou a fazer o que mais gostava, desfilava sem cantar, vaidoso e com orgulho, diante de quem passava, e chamava a atenção. Gostavam de o ver, de tirar fotografias e acariciar as suas belas penas.
            A sua vontade era dar uma bicada a cada pessoa por o terem proibido de cantar, e comentava quando viravam costas:
- Cínicos…falsos! Queriam ver-me na panela, mas gostam de me apreciar. Só não tem bom gosto para o meu canto. Idiotas!
            A dona não recebeu mais reclamações. O galo que tinha a mania que era cantor e que tinha uma bela voz, também gostava de ser apreciado.
            E vocês? Como é que ensinavam o galo a distinguir o dia, da noite, para ele poder cantar?
                                                           FIM
                                                          Lálá
                                                6/Julho/2017