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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

As cores do jardim

NARRADORA – Era uma vez um jardim congelado, cheio de neve onde a única cor que se via era o branco. Não havia árvores, nem flores, nem animais, e muito menos água. Uma menina passou por essa cobertura branca, de balão, quando foi passear.
MENINA – O que é isto? É neve? Áh! Que lindo. Será que está alguma coisa ali debaixo?
FALCÃO – Sim! Há um jardim.
MENINA – Ai, que susto! (A menina vê o falcão á sua frente) Óh não…não me faças mal. Por favor…
FALCÃO – Mas quem é que falou em fazer mal?
MENINA – É que…dizem que tu és perigoso!
FALCÃO (a rir) – Eu? Perigoso…? Não entendo porquê!
MENINA – Não sei…dizem que tu…caças, com essas garras, e magoas com esse bico…!
FALCÃO (surpreso) – Áhhh…acho que entendo. Pelo meu tamanho, acham que sou mau. Julgam-me pela aparência. Mas olha…eu também sei dar beijos, queres ver…? Sem magoar.
(O Falcão encosta o seu bico à cara da menina, esta encolhe-se e sorri, e o Falcão faz-lhe carinho com as penas)
FALCÃO – Vês?
MENINA (ri) – As tuas penas são macias…e o teu bico é muito duro.
FALCÃO – Sim. Cada um é como é! Eu caço para me alimentar…como vocês humanos também caçam animais para comer. Então, se eu sou mau porque tenho esta aparência e dizem que ataco…os humanos são ainda piores.
MENINA (sorri) – Sim…quer dizer…eles também sabem dar carinho aos animais, e às outras pessoas…
FALCÃO – E também matam, sem ser para caçar…e comer. Matam por maldade, os animais não…esses matam para se alimentarem e sobreviverem. A mãe natureza fez-nos assim! Eu também sei dar abraços, queres ver?
(O falcão abre as suas asas e envolve a menina)
MENINA (sorri) – Áh! Que quentinho…
(O falcão sorri)
FALCÃO – Mas olha…O que fazes por aqui?
MENINA – Vim passear de balão, e agora estava a passar por aqui…e pensei…o que está por baixo deste branco todo…? Será que existe alguma coisa? Estava a tentar imaginar.
FALCÃO – E o que imaginas que está ali debaixo?
MENINA – Não sei…talvez…uma rua…ou…um pátio…um…parque…
FALCÃO – Um jardim.
MENINA – Há um jardim?
FALCÃO – Sim, há um jardim, mas está congelado.
MENINA – Esta neve não derrete?
FALCÃO – Talvez nunca derreta.
MENINA – Ai, não gosto da palavra «nunca». Eu acho que um dia vai derreter, para eu ver o que há debaixo daquela neve!
FALCÃO – Como te disse, há um jardim.
MENINA – Tu já foste a esse jardim?
FALCÃO – Sim, muitas vezes!
MENINA – O que foste lá fazer?
FALCÃO – Fui buscar comida.
MENINA – E encontraste?
FALCÃO – Sim! É por isso que eu sei que ali debaixo há um jardim. Já voo por aqui há muitos anos.
MENINA – Como é esse jardim?
FALCÃO – Não sei!
MENINA – Não sabes? Mas tu disseste que sabes que há um jardim e que já foste lá buscar comida, muitas vezes…
FALCÃO – Sim, e é verdade, mas nunca vi esse jardim! Está sempre com neve.
MENINA – Não estou a perceber…se foste lá devias saber como é esse jardim, e devias ter visto.
FALCÃO – Esta neve toda não me deixa entrar. Mas eu , com o meu nariz apurado e as minhas garras, percebo que é um jardim, e consigo furar a neve para chegar até ela.
MENINA – Áh! Achas que eu também consigo furar um bocadinho de neve para ver o que há no jardim?
FALCÃO – Eu posso fazer um furo na neve, com as minhas garras, mas não sei se mesmo assim vais conseguir ver.
MENINA – A neve é muito leve.
FALCÃO – Mas a camada é muito grossa…não sei se consigo partir o gelo. Nevou muito estes dias.
MENINA – Óh. Eu queria tanto ver esse jardim!
FALCÃO – Podes sempre vê-lo.
MENINA – Como?
FALCÃO – Na tua imaginação, que é o que eu faço.
MENINA – Óh…mas não tem piada! Eu queria era mesmo ver…
FALCÃO – Só se a neve derreter entretanto, o que não me parece.
MENINA – Porquê?
FALCÃO – Ainda está muito frio, e quase não há sol para derreter a neve.
MENINA – Achas que o sol consegue derreter?
FALCÃO – Claro que sim, quando for um sol quente, mas por agora ainda é um sol muito frio, que só aparece para dizer que é de dia, e distinguir da noite.
MENINA – Mas o sol nunca é frio…é sempre quente!
FALCÃO – Não. Não é sempre quente! No Inverno, o sol é frio.
MENINA – Sim, pois é…tens razão. Às vezes na minha cidade há sol, mas está frio.
FALCÃO – Pois.
MENINA – Mas quando é que o sol vai ficar quente?
FALCÃO – Em breve…talvez…não sei! Não sou eu que mando. Vamos ter de esperar.
MENINA – Esperar o quê?
FALCÃO – Sim, esperar que o sol aqueça.
MENINA – Mas isso vai demorar muito?
FALCÃO – Não sei.
MENINA – Eu não queria esperar!
FALCÃO – Se queres ver…vais ter de esperar.
MENINA – Mas não posso esperar! Tenho de voltar para a minha casa!
FALCÃO – Então terás de dar outro passeio noutro dia e vens ver se a neve já derreteu.
MENINA – Já sei…vou pedir um desejo.
FALCÃO – A mim?
MENINA – Não. Às estrelas.
FALCÃO – Mas agora não há estrelas.
MENINA – Mas elas aparecem à noite, e pode-se pedir desejos de dia.
FALCÃO – E elas ouvem-te?
MENINA – Sim.
FALCÃO – E realizam os teus desejos?
MENINA – Umas vezes sim, outras vezes não.
FALCÃO – Porque é que não realizam todos?
MENINA – Não sei!
FALCÃO – E tu pedes muitos desejos?
MENINA – Peço!
FALCÃO – Então se calhar é por isso que elas não realizam todos.
MENINA – Achas que elas me acham chata?
FALCÃO – Sim!
MENINA – E tu achas que sou chata?
FALCÃO – Não, querida…conheci-te agora.
MENINA – Achas que peço desejos a mais?
FALCÃO – Talvez.
MENINA – Não, eu acho que não! Mas se calhar alguns são impossíveis para elas realizarem.
FALCÃO – Sim, pode ser.
MENINA – E tu, pedes desejos às estrelas?
FALCÃO – Não.
MENINA – Porquê?
FALCÃO – Nunca falei com elas!
MENINA – Porque não?
FALCÃO – Nunca me disseram que as estrelas ouviam, muito menos que falavam.
MENINA – Mas falam e ouvem! Já alguma vez tentaste falar com elas?
FALCÃO – Sim, para experimentar…mas…não me ouviram.
MENINA – Porquê?
FALCÃO – Porque não realizaram o meu desejo!
MENINA – Acho que elas só não realizam aqueles que não podem.
FALCÃO – Claro, não têm poderes para tudo.
MENINA – Pois não. Ou então, tu pedias coisas impossíveis para elas realizarem.
FALCÃO – É…talvez. E estão muito longe.
MENINA – Sim, podem estar muito longe, mas ouvem na mesma. Tu até estás mais perto delas do que eu! Até lhes podes tocar.
FALCÃO – Não. Não estou assim tão perto…e ainda bem!
MENINA – Porquê? Não gostas das estrelas?
FALCÃO – Gosto de as ver.
MENINA – Mas tu andas aqui por cima e elas também!
FALCÃO – Sim, mas nunca estive próximo delas.
MENINA – Nunca lhes tocaste?
FALCÃO – Não! É impossível tocar nas estrelas.
MENINA – Eu já toquei!
FALCÃO – No teu espaço imaginário podes tocar, mas na verdade não podes.
MENINA – Porque não?
FALCÃO – Porque elas estão muito longe! E lá em cima, não há ar!
MENINA – Pois não. Temos de ir com máscaras e naves espaciais. Mas…aqui, elas parecem tão perto.
FALCÃO – Parecem…mas não estão! Existem só para serem vistas e apreciadas de longe!
MENINA – Sim, se as apanhássemos, elas ficavam sem luz e sem brilho!
FALCÃO – Pois.
MENINA – Olha…vou continuar o meu passeio! Quando a neve derreter eu venho ver o jardim! Tu avisas-me? Eu moro ali em baixo.
FALCÃO – Está bem. Boa viagem!
MENINA – Obrigada. Até à próxima.
NARRADORA – A menina segue caminho, e à noite, na sua casa, pede um desejo às estrelas.
MENINA – Estrelas…por favor…derretam a neve daquele sítio, para eu ver aquele jardim. Obrigada.
NARRADORA – De repente, aparecem três lindas mulheres, de cabelos enormes, e lindos vestidos: uma tinha um vestido azul-escuro, cheio de estrelinhas, outra tinha um vestido dourado, e outra, um vestido vermelho. A menina estremece.
MENINA – Quem são vocês?
AS TRÊS – Boa noite!
FADA AZUL – Pediste um desejo, não foi?
MENINA – Foi. Pedi às estrelas que derretessem a neve daquele sítio para eu ver o jardim.
FADA AZUL – Eu sou a Fada da noite.
FADA DOURADA – Eu sou a Fada do sol.
FADA VERMELHA – Eu sou a Fada do fogo.
FADA AZUL – O teu desejo vai ser realizado!
NARRADORA – A menina abre um grande sorriso, e fica feliz. E no ar surgem enormes bolas de sol e de fogo que circundam a menina e desaparecem quando ela lhes toca.
FADA VERMELHA – Recolhe estas bolas de fogo, e de sol.
MENINA – Porque estão a desaparecer as bolas?
FADA DOURADA – Vão para dentro de ti…
MENINA – E o que é que me vão fazer?
FADA DOURADA – Vão dar-te poderes especiais para realizares o teu desejo!
MENINA (sorri) – Áh! Boa! Obrigada.
NARRADORA – A menina é levada pela fada azul-escura, e as outras duas acompanham-nas. Pousa no jardim coberto de neve.
FADA VERMELHA – Estende as mãos e por onde passares, os poderes que recebeste vão derreter a neve!
NARRADORA – A menina estende as mãos e por onde passa, toda a neve derrete. Ela sorri surpresa. À mostra fica um jardim sem cor. Tudo está queimado da neve. A menina olha em volta.
MENINA – Óh…! Não gosto deste jardim. Não tem cor.
FADA VERMELHA – Agora…tu é que vais dar cor a este jardim.
NARRADORA – A fada fogo mexe os braços e aparece uma palete cheia de cores e pincéis.
FADA DOURADA – Pinta este jardim das cores que quiseres!
NARRADORA – A menina fica feliz, pega na palete de cores e nos pincéis e pinta as flores de todas as cores, as suas cores preferidas e uma flor de cada cor…azul, vermelho, roxo, cor-de-rosa, amarelo, cor-de-laranja, mistura cores…pinta os arbustos e árvores de vários tons, a relva também e uns animais que aparecem lá. Depois de tudo pintado a menina olha para o jardim com um grande sorriso e orgulhosa. As fadas aplaudem, dançam e sacodem brilho, luz e outras cores, por onde passam.
MENINA – Áh! (sorri) Assim gosto! Está lindo!
FADA VERMELHA – Podes voltar a este jardim sempre que quiseres!
MENINA (sorri) – Sim! Voltarei. Mas como faço isso?
FADA AZUL-ESCURO – Basta fechares os olhos e lembrares-te deste jardim, ou usar cores.
MENINA – Ou uso o balão para passear.
FADAS – Isso mesmo!
MENINA (sorridente) – Obrigada, estrelinhas, por terem ouvido, e realizado o meu desejo!
FADA AZUL – Agora…vai ficar noite…volta para a tua casa!
MENINA (sorri) – Está bem.
TODAS – Até à próxima.
MENINA (sorri) – Até à próxima.
NARRADORA - De repente, a menina acorda para ir à casa de banho, olha em volta.
MENINA – Já estou no quarto? Cheguei rápido! (Vai à casa de banho, volta, olha para a janela). É noite! Óhhh…acho que era tudo um sonho! Será que esse jardim existe mesmo? Era tão bonito! Amanhã vou pintar um igualzinho, para não me esquecer dele! Tudo o que nos faz feliz deve ser guardado na nossa cabeça, e lembrado muitas vezes porque faz bem à saúde.
NARRADORA – A menina volta a deitar-se, apaga a luz e dorme. Afinal…tinha sido só um lindo sonho!
FIM
Lálá
(12/Novembro/2013)



sábado, 9 de novembro de 2013

As vozes do mar


foto de Lara Rocha 


         Era uma vez uma vila de pescadores, com as casinhas em cima da areia e vista para o mar de qualquer lado. Era pacata, até um dia…tudo muda. Os habitantes começam a ouvir vozes vindas do mar. Uma jovem rapariga vai à janela refrescar-se, numa noite quente de Verão, e ouve uma voz de mulher fininha, a cantar, numa língua que não era portuguesa.
JOVEM - Uau! Que voz tão bonita. Quem canta assim?
NARRADORA - Ela olha para o mar. Não se vê ninguém na praia, nem no mar, apenas se ouve a voz.
JOVEM - Quem me dera ter assim uma voz! – Suspira, e olha outra vez para a praia – Mas quem canta assim, tão bem? Não está ninguém na praia!
(A sua mãe aparece).
MÃE - O que estás a fazer de pé? Pareces uma alma penada.
JOVEM - Mãe ouve esta voz!
MÃE - Que voz?
JOVEM - Esta… que voz tão linda!
(A mãe não ouve nada).
MÃE - Não ouço nada.
JOVEM - Agora também deixei de ouvir.
MÃE - Como ouviste uma voz a cantar se não está ninguém na praia?
JOVEM - Não sei, mas eu estava a ouvir.
MÃE - Óh, vai mas é dormir que o teu mal é sono…já não são horas de estares à janela.
JOVEM - Estava com calor.
MÃE - Mas vai dormir, que até já estás a ouvir coisas que não existem. Isso é sono.
JOVEM – Se eu a ouvir outra vez, chamo-te.
MÃE – Está bem…ai de ti que me acordes para ouvir o que não ouço…!
JOVEM – Vais ouvir…
MÃE – É. Vou ouvir para dentro…deita-te, que a voz desaparece.
JOVEM – Porque não acreditas no que eu estou a dizer?
MÃE – Porque não ouço nada. Dorme.
(A mãe vai deitar-se, e a jovem também, ouve-se o som muito forte, as duas levantam-se sobressaltadas)
AS DUAS – O que foi isto?
(A mãe acorda o marido, e este resmunga)
MARIDO – O que foi?
MULHER (assustada) – Ouvi um barulho muito estranho.
MARIDO (resmunga) – Lá estás tu com os barulhos estranhos. Dorme, e deixa-me dormir.
MULHER (assustada) – A nossa casa pode estar em perigo, e tu mandas-me dormir.
(Levanta-se e vai ter com a filha que está outra vez à janela, também assustada)
MÃE (assustada) – Ouviste barulho?
JOVEM (assustada) – Ouvi…também ouviste?
MÃE (assustada) – Sim…um estrondo…!
JOVEM – Vamos lá fora ver se está tudo bem…
(As duas saem abraçadas, e tudo sossegado. Procuram pela praia, e não há viva alma. Voltam para casa)
MÃE (assustada) – Acho que me deixaste sugestionada há bocado.
JOVEM – Eu ouvi, e tu também, por isso não te deixei sugestionada coisa nenhuma.
MÃE – Acho que estamos as duas a ficar loucas…
JOVEM – Tu não ouviste aquela voz linda, mas eu ouvi.
MÃE – Bem, é melhor dormirmos…isto deve passar.
NARRADORA – As duas não dormem o resto da noite, mas nessa noite, não se ouve mais nada. Na noite seguinte, elas e mais vizinhos ouvem sons diferentes: um que parece uma mulher a chorar, outro que parece um homem a pedir socorro, outro que parece uma ventania forte, sem abanar as árvores, outro que parece uma mulher a gritar, outro que parece um trovão, outro que parece um bailado, e outro que parece uma invasão de morcegos. Mas nada acontece na praia. Quando vão ver, não vêem ninguém, não ouvem nada, nada mexe. No dia seguinte, não se fala noutra coisa, e nessa noite, mais sons diferentes…desta vez, parecem cantos de sereias diferentes. Todos ficam encantados com as melodias, mas quando chegam à beira da água, não vêem nada, nem ninguém, nem há movimentos estranhos, nem pegadas na areia.
PESCADOR – Isto não me cheira bem!
PESCADOR 1 – Não fui eu…comi feijoada, mas já fiz a digestão.
(Todos riem)
PESCADOR – Não estou a falar desse cheiro.
PESCADOR 1 – Que susto.
PESCADOR 2 – Então haverá por aí pescado estragado…
PESCADOR – Não. O que há são coisas misteriosas, que temos de tentar descobrir o que é.
PESCADOR 3 – Como vamos descobrir, se não há viva alma, nem passos na areia, nem movimentos…nada…não há um único sinal.
PESCADOR – Mas há qualquer coisa.
PESCADOR 4 – Só se forem fantasmas.
PESCADORES – Cruzes…
PESCADOR 5 – Deus nos livre e guarde, de encontrar criaturas dessas.
PESCADOR – Não brinquem com coisas sérias…nunca se sabe!
PESCADOR 6 – Calem-se com essas coisas…temos de procurar é…o que se passa aqui…a minha filha e a minha mulher ontem ou anteontem…ouviram vozes. A minha filha diz que ouviu uma mulher que cantava muito bem, tinha uma voz linda…depois…as duas…ouviram um estrondo. E vieram à praia, não encontraram nada…nem viva alma, nem estragos, nem pés…nada!
PESCADOR 1 – A minha mulher ouviu outra voz…disse que lhe parecia uma mulher a chorar…
PESCADOR 3 – A minha sogra diz que ouviu um homem a pedir socorro, mas quando veio ao mar, não viu nenhum sinal de homem, nem de barco…nada! Ficou sem saber quem era, ou se era mesmo.
PESCADOR 5 – Ai, que até me arrepio todo.
PESCADOR 7 – E eu ouvi um barulho que parecia um trovão, mas o céu estava limpo. Também não tivemos conhecimento de explosão.
PESCADOR 8 – A minha mulher diz que ouviu um barulho que parecia uma invasão de morcegos. Eu pensei que ela estava a delirar, porque não vi morcegos nenhuns.
PESCADOR 9 – Eu ouvi uma ventania forte, mas nada abanou.
PESCADOR – Alguma coisa se passa…será uma epidemia de loucura, que nos está a afectar a todos…?
PESCADORES – Esperamos que não.
PESCADOR 1 – É tudo muito estranho.
PESCADORES – É verdade.
PESCADOR – O que vamos fazer? Investigar.
PESCADORES – Como?
PESCADOR 2 – Não há um único sinal.
PESCADOR 4 – Agora todos ouvimos uma espécie de canto de sereias diferentes.
PESCADOR 6 – Ai, se forem sereias jeitosas, até as como.
PESCADORES – És sempre o mesmo.
PESCADOR 6 – O quê? Vão deixar escapar uma peixota jeitosa…? (ri)
(Todos riem)
PESCADOR 9 – Quem está a delirar és tu.
PESCADOR – Vamos meter-nos ao mar…e…ver o que encontramos.
NARRADORA – Todos os pescadores se fazem ao mar, de barco, com lanternas, binóculos, e bóias. Nem um único sinal, até que chegam a uma gruta entre duas rochas, e…surpresa. Encontram um piano velho, descascado, partido em vários sítios, e com as teclas todas. Os pescadores voltam a terra, e pegam num barco de carga maior. Seguem para a gruta, e todos juntos, ajudam a carregar o piano para o barco. As mulheres e os filhos estão em terra em pânico, ansiosos por notícias, e a rezar. Os pescadores atracam, e pousam o piano em cima da areia, longe da água. As esposas e os filhos correm para eles, e respiram de alívio.
MULHER 1 – Então…encontraram alguma coisa?
PESCADOR – Isto.
MULHERES E CRIANÇAS – Um piano?
PESCADORES – Sim! Um piano.
TODOS – Ááááhhh…!
MULHER 2 – Onde estava?
PESCADOR 2 – Numa gruta ali adiante.
MULHER 4 – Mas…e as vozes?
(Faz-se silêncio. Um pescador toca numa tecla, e não sai som)
PESCADOR 5 – Não vem daqui.
CRIANÇA – São as vozes do mar!
(Todos riem)
MULHER 6 (ri) – Santa inocência…!
MULHER 8 (ri) – Tanta imaginação.
MULHER 1 – O mar não fala.
CRIANÇAS – Fala!
MULHER 2 – Deixemo-los sonhar…coitadinhos.
PESCADOR 4 – Esse mistério talvez nunca o descubramos.
MULHER 6 – Mas o que vão fazer com este piano?
PESCADOR – Concertá-lo.
PESCADORES – Isso.
PESCADOR 3 – De dia. Agora não se vê nada…e precisamos de descansar.
TODOS – Sim.
NARRADORA – Todos regressam ás suas casas, e volta a música, os cantos das sereias, os trovões, as invasões de morcegos, as ventanias, as mulheres a gritar e a chorar, o homem a pedir socorro…todos vão às janelas e vêem o piano cheio de luz, com as teclas a mexer sozinhas. Nem querem acreditar no que estão a ver! Saem todos de casa, e vão mais perto, boquiabertos, maravilhados, encantados. Ficam sentados na areia a ouvir as melodias do piano que toca sozinho e dá luz. Todos aplaudem.
PIANO (sorri) – Obrigado!
CRIANÇA 2 (sorri) – Tu falas?
PIANO (sorri) – Sim, sou a casa de algumas das vozes do mar.
MULHER 1 (sorri) – Que lindo!
MULHER 4 – Então…?
PIANO – Tudo o que vocês ouviram…vinha de mim!
PESCADOR 2 (sorri) – Maravilhoso.
PESCADOR 5 – Quem te deixou ali?
PIANO – Não sei.
PESCADOR 6 – Já estás aqui há muito tempo?
PIANO – Sim…acho que sim. Perdi a noção de tempo.
PESCADOR 8 – Mas…
PIANO – Muito obrigado por terem ouvido as vozes do mar. Salvaram-me! Canto e toco para quebrar a solidão!
PESCADOR 5 – Vamos restaurar-te!
NARRADORA – Todos fazem perguntas ao piano, e este responde, toca lindas músicas, todos aplaudem, dança, e riem, até o sol nascer. E a partir desse dia, todos os dias e noites, o piano é restaurado, com a ajuda de todos, e com carinho. Para agradecer, ele toca lindas músicas. As noites passam a ser muito mais divertidas, e musicais. Afinal…não havia almas penadas, nem mulheres a chorar, ou a gritar, nem homens a pedir socorro, nem cantos de sereias…era apenas um piano abandonado que tocava as suas teclas sozinho, como as pessoas quando mexem os seus dedos, para não enferrujar, para combater a solidão…e para pedir ajuda. Mistério desfeito.

FIM
Lálá

(9/Novembro/2013)