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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

A ÁRVORE


NARRADORA – Era uma vez uma árvore enorme plantada num pinhal onde existiam casas. O seu tronco era enorme e largo, quase parecia uma casa; e os troncos pequenos pareciam braços. Mas esta não era uma árvore qualquer…! Vejam porquê. Num dia de Verão, passa uma Avozinha pequenina, enrogadinha, mas cheia de genica e sorridente a carregar sacos. A Avó já era muito conhecida da Árvore, e adorada por esta, pois a Avozinha sentava-se muitas vezes debaixo das suas folhas á sombra, no Verão, e abrigava-se da chuva no Inverno, desde que era muito pequenina e guardava o gado. Actualmente, a Avó sentava-se, encostava-se ao tronco, e tinha longas conversas com a sua amiga Árvore a quem contava histórias. A Avó tinha netos, e também estes já iam para debaixo da árvore.
ÁRVORE (sorridente) – Óh…olá querida Avozinha, como estamos hoje?
AVOZINHA (sorridente) – Olá bom dia, estou bem…quer dizer…viva…de olhos abertos, a respirar, com o coração a bater…e posso mexer-me. É sinal que estou bem, tirando as dores nas costas.
ÁRVORE (ri) – Ai Avó, a Avó é uma maravilha! Um exemplo a seguir para toda a gente.
AVOZINHA (sorri) – Óh, filha…a minha vida não foi fácil, mas considero que sempre fui feliz. Agora as pessoas têm tudo e estão sempre infelizes e insatisfeitas…! (p.c) Não dão valor ao que é mais importante, e o que é do melhor que podemos ter.
ÁRVORE (sorri) – A Avó está sempre bem disposta…é por isso que tem essa saúde fantástica, e essa carinha de boneca…!
(Gargalhadas da Avó)
AVOZINHA (ri) – Ai, querida, achas que acredito mesmo no que tu dizes…?
ÁRVORE – Eu estou a ser sincera…está com um ar óptimo.
AVOZINHA (ri) – É…sou uma boneca…está bem…uma boneca de papel ou de trapos velhos.
ÁRVORE – Que horror…não diga essas coisas. (p.c) Sente aqui…pouse os sacos e descanse um pouco.
AVOZINHA – Filha, não posso demorar…os meus netos devem estar a chegar.
ÁRVORE – Sim, mas sente…vou dar-lhe um copinho de água! (p.c) Quer uma cadeira, um banco, um sofá…?
AVOZINHA – Qualquer coisa.
ÁRVORE – O que é mais confortável para si…?
AVOZINHA (sorri) – Tudo é confortável, eu não sou esquisita.
NARRADORA – Num instante, a árvore remexe com uns troncos fininhos dentro do seu tronco grosso, e tiras de lá um sofá, e um copo de água para a Avó. A Avó senta-se no sofá e bebe água.
AVOZINHA (sorri) – Ááááhhh…que delícia de água! Obrigada, querida.
ÁRVORE (sorri) – De nada! Quer mais?
AVOZINHA (sorri) – Não! (p.c) Tu estragas-me com mimos!
ÁRVORE (ri) – A Avó merece! (p.c) Permita-me que lhe faça umas massagens, posso?
AVOZINHA (sorri) – Óh, filha, isso é fantástico. Claro que sim. Mas eu não quero incomodar-te, nem abusar da tua bondade!
ÁRVORE – Fique descansada, Avó, que se eu não tivesse nada para lhe oferecer, não lhe falaria nisso. Dou-lhe todo o carinho, do coração. (p.c) Vá…deite-se à vontade, por favor…logo, logo vão desaparecer as dores nas suas costas. Só tem que se entregar a mim.
(A Avó ri, deita-se)
AVOZINHA (sorri) – Áh! Que bom…estou nas tuas mãos! (p.c) Mas… (preocupada) e os meus netos…?! (p.c) Ai, não posso ficar as massagens! (p.c) Não, não me posso entregar às dores.
ÁRVORE – Calma, Avó. Não se preocupe, que quando os seus netos chegarem, eu chamo-os! (p.c) Descanse. Eu vejo daqui.
AVOZINHA (sorri) – Obrigada.
NARRADORA – E assim é…a Árvore, com uns troncos fininhos massaja delicadamente a Avó nas costas. A Avó está deliciada e relaxada! (p.c) De cima, a árvore vê os netos pequenos da Avó, e estica os troncos, para chama-los delicadamente. Os meninos também já conhecem a árvore, e seguem-na. A árvore pede que façam silêncio, e eles…pé ante pé, silenciosamente vão ter com a árvore, que continua a massajar a Avó.
MENINOS – Avó!
AVÓ (sorri) – Olá meus amores. (p.c) Desculpem não vos dar beijinho, mas estou aqui a receber massagens.
MENINOS (sorriem) – Está bem Avó.
AVÓ – É que doem-me as costas. Tudo bem convosco?
MENINOS (sorridentes) – Sim.
MENINA – Avó…temos fome!
AVÓ – Esperem um bocadinho…!
ÁRVORE – O que querem comer?
AVÓ – Eu já lhes dou a seguir.
ÁRVORE – Digam lá…!
MENINA – Eu quero um iogurte, e uma torrada.
MENINO – Eu também quero isso.
AVÓ – Óh meninos, que chatos…esperem.
ÁRVORE – Deixe-se estar, Avó, eu dou-lhes.
AVÓ – Ai, que já estamos a abusar.
ÁRVORE – De maneira nenhuma.
NARRADORA – A Árvore, enquanto massaja a Avó, com outros tronquinhos pequeninos, remexe no seu tronco e tira de lá uma mesinha e umas cadeiras para os meninos. Eles sentam-se e a árvore tira do tronco o lanche dos meninos. Eles sorriem.
MENINOS – Obrigada!
ÁRVORE – Querem mais alguma coisa?
MENINOS – Não, obrigada.
ÁRVORE (sorridente) – Como correu a escolinha?
MENINOS (sorridentes) – Bem!
NARRADORA – A Árvore, a Avó e os netos falam alegremente. De repente, um menino está perdido no campo, e chora muito assustado, andando de um lado para o outro e a chamar pelos pais e pelos avós. A Árvore conhece-o, agarra-o pela camisola e arrasta-o para a sua beira.
ÁRVORE (sorridente) – Então, pequenote? (o pequeno pára de chorar) O que foi?
MENINO 2 – Eu não sei onde estão os meus pais, e os meus avós, nem sei onde é a minha casa.
ÁRVORE – Eu sei onde é a tua casa, e quem são os teus pais…não te preocupes…vais já ter com eles! (p.c) Queres alguma coisa?
MENINO 2 – Não!
ÁRVORE – Meninos, podem ir levar este menino ali a casa, por favor?! Aqui…mesmo em frente!
MENINOS – Sim, anda!
(Os dois dão a mão ao menino)
ÁRVORE (sorri) – Já passou, querido! (p.c) Já vais para casa.
MENINO 2 – Está bem!
ÁRVORE (sorri) – Um beijinho para os teus pais e Avós!
MENINO 2 (sorri) – Obrigado!
AVÓ (sorri) – Eu sei quem és! (p.c) Vou lá contigo cumprimentar os teus pais. (p.c) Muito obrigada querida árvore, as massagens souberam mesmo bem.
ÁRVORE – Óh, já vai Avó? Hoje não me vai contar uma história?
AVÓ – Desculpa, hoje não tenho histórias para contar.
ÁRVORE (sorri) – Não faz mal, Avó…! (p.c) Quer ajuda para levar os sacos?
AVÓ – Não, filha, os meninos levam!
ÁRVORE – Não é preciso, vá descansada, eu deixo-lhe os sacos em casa!
MENINA – Não, nós levamos!
ÁRVORE (sorri) – Levem o menino a casa! (p.c) Eu deixo lá em casa.
TODOS – Está bem.
NARRADORA – Vão levar o menino a casa, a mãe já estava preocupada, e a árvore estica uns troncos e pousa os sacos da Avó à porta da sua casa. Aparece um casal de Aves feridos, que levaram um tiro numa asa e numa pata, por isso não conseguem voar…vão pelo chão com muita dificuldade e a gemer.
AVE – Por favor…pode ajudar-nos? (p.c) Estamos…ai, ai, ai…feridos!
ÁRVORE (preocupada) – Claro que sim, mas…o que vos aconteceu?
AVES – Levamos um tiro.
AVE 2 – Sim, íamos a voar sossegados, e um maluco deu-nos um tiro…conseguimos fugir e esconder-nos mesmo feridos…e depois viemos pelo chão.
AVE – Chegamos, mas está a doer muito!
ÁRVORE – Mas que maldade…
NARRADORA – Remexe no tronco, e retira de lá um almofadão, uma lupa, duas pinças, álcool, algodão, mercúrio, adesivo, tesoura…observa, limpa as feridas, e faz os curativos às aves.
ÁRVORE (sorri) – Já está. Agora, vão ter de ficar de repouso.
AVES – Nem pensar.
AVE – Não temos onde ficar…!
ÁRVORE – Têm sim…ficam aqui num dos meus ramos, vou preparar-vos o ninho.
AVE 2 (sorridente) – Ai, muito obrigada. Nem sabemos como lhe agradecer a sua generosidade!
ÁRVORE (ri) – E quem disse que têm de agradecer…!
NARRADORA – A árvore prepara um ninho confortável, num ramo, pega em cada uma das aves e coloca-as carinhosamente no ninho. Dá-lhes água, e cobre-as com um lençol. Dá-lhes alimento e fala um pouco com eles. Aparece um pequeno gatinho que consegue trepar à árvore, a brincar e distraído, mas não consegue descer, fica com medo. A árvore pega nele e pousa-o no chão. Pouco depois um jovem cavaleiro cai de cansaço no campo e porque está doente. A árvore arrasta-o para o seu tronco, põe – lhe a mão na testa, e sente que está muito quente. Remexe no seu tronco, tira de lá um termómetro, e realmente, o pobre cavaleiro está mesmo com muita febre. Ela abre uma portinha no seu tronco e mete lá o cavaleiro. Dá-lhe um medicamento, água e agasalha-o cuidadosamente. O cavaleiro adormece. A árvore olha em volta, e avista o cavalo deitado na relva, igualmente desidratado e doente. Remexe no seu tronco, e tira de lá água para o cavalo, um cobertor, alimento, um guarda-sol e medicamentos. Tapa o cavalo com o guarda-sol, dá-lhe água e alimento, deita os medicamentos na água, e cobre o cavalo, deixando água ao pé do cavalo para ele ir bebendo. Nos dias seguintes, os doentes recuperam, com tanto carinho da árvore. E qualquer pessoa ou animal que estivesse em perigo, a árvore ajudava com tudo o que podia. Que árvore maravilhosa! Era adorada por todos, e mágica. Gostavam de ser uma árvore assim? Sabem…podem ser como ela…! Sim, é verdade…não são árvore, nem têm aquelas coisas todas no tronco, mas há sempre alguma coisa de bom no vosso coração, que podem dar aos outros, para os ajudar…se não for bens materiais, podem muito bem, dar simplesmente um sorriso, um abraço, uma mão, a vossa amizade, a vossa presença, podem emprestar os vossos ouvidos a quem precisa de falar, um desenho bonito, uma flor, um beijinho, emprestar alguma coisa que tenham e o outro menino não tenha, e muitas outras coisas boas que descobrirão certamente, poderão fazer alguém que está ao vosso lado muito, muito feliz.

MORAL DA HISTÓRIA PARA OS PAIS, AVÓS, PROFESSORES E OUTROS:
Infelizmente não somos árvores poderosas, com tudo o que precisamos de dar a nós mesmos e aos outros, mas temos sempre alguma coisa. E não precisamos de ir muito longe para fazer alguma coisa pelos outros, pois mesmo ao nosso lado, e às vezes dentro de nossa casa, temos alguém que precisa sempre de alguma ajuda nossa, ainda que pequena e simples. E mesmo que pequena…deve ser sempre valorizada e elogiada, para que as seguintes possam ser cada vez melhor e maiores. Papás…e mamãs…e Avós…valorizem sempre a boa vontade dos vossos pequenos, e engrandeçam todas as pequenas vitórias e pequenos esforços que eles mostram…mesmo que não seja de forma perfeita! Mesmo as tentativas falhadas, e as críticas devem ser cautelosas, suaves, sem humilhar e sem desvalorizar totalmente. Corrijam, mas realcem sempre a parte positiva, e expliquem como devem fazer, até a brincar! Aprenderão muito melhor do que se forem criticados e humilhados! Lembrem-se…os pequenos não fazem as coisas perfeitas, como vocês querem ou gostariam, Ninguém é perfeito! Nem vocês! E as crianças, ao ser valorizadas por pequenas coisas, sentir-se-ão igualmente valorizadas, esforçar-se-ão por fazer ainda melhor das vezes seguintes…! Dessa forma, sem críticas severas e destrutivas, os vossos filhos crescerão de forma equilibrada, feliz e com boa auto-estima…fundamental para a sanidade mental. Se a criança cresce na crítica, é isso que ela vai aprender a ser e a fazer aos outros. Se a criança cresce no meio da violência, é isso que vai mostrar aos outros. Se a criança cresce no ódio é o que ela vai sentir em relação a si mesma e em relação ao outro. A família é um excelente laboratório social, muito importante para a formação de cidadãos, que dependendo dos pais, poderão ser cidadãos de classe, bondosos e solidários, e também mais humanos e felizes. Não precisam de gritar, com os vossos filhos quando fazem alguma coisa mal, ou menos perfeita que vocês, nem de humilhar, pois dessa maneira não aprendem, muito pelo contrário.  

FIM
Lálá
(25/Dezembro/2012)
  

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

A PRAIA DA PRINCESA LUA

foto de Lara Rocha 


NARRADORA - Era uma vez uma praia deserta, pequena, que pertencia ao terreno de um pequeno castelo. O mar era muito transparente e sereno, e tudo pertencia a uma família de reis, rainhas, príncipes e princesas. A praia era maravilhosa, e por isso, também muito visitada pelas pessoas. Toda a gente gostava de ir lá passear, tirar fotografias, meditar e apanhar um pouco de sol, e de mar. Numa bela tarde, uns jovens pescadores decidiram ir pescar para essa praia. A princesa Lua, que estava a brincar na areia assustou-se quando ouviu um barulho de motores, pois nunca tinha visto nada daquilo por ali. Estava habituada ao sossego.
PRINCESA LUA (aos gritos) – Ááááááááhhhhhh….Socorro…! (corre para o seu pai) Papá…que barulho é este?
REI – Qual barulho?
PRINCESA LUA (assustada) – Este…ouve.
(O Rei vê o barco)
REI – É um barco.
PRINCESA LUA – Um barco? (p.c) Mas ele não pode andar aqui.
REI – Não devia, mas pode, filha.
PRINCESA LUA – Nem pensar. Eles vão poluir a água.
REI – Não…se for só desta vez não faz mal.
PRINCESA LUA (zangada) – Mas não pode ser, nem só desta vez…nem de vez mais nenhuma. (p.c) Vou mandá-los embora.
REI – Não vais nada. Ficas aqui quietinha.
NARRADORA - A princesa obedece, mas fica amuada. Os jovens pescadores saem, e ela murmura muito zangada:
PRINCESA LUA – Se aqueles voltam…eu…viro-lhes o barco. Não tem nada que vir para aqui poluir a praia. Querem poluir vão para outra praia.
NARRADORA – Os pescadores foram embora, e a Princesa Lua voltou a brincar descansada e alegre. Mas nesse mesmo dia, à noite, um grande grupo de jovens decidiu fazer uma enorme festa na praia. Levaram música, comidas, bebidas, e divertiram-se como se não houvesse amanhã. A Princesa Lua, ouviu barulho da música, mas não ligou, e conseguiu dormir na mesma, pois a música estava longe. Até aqui, não há problema, mas o pior…foi quando…aos primeiros raios de sol, eles foram embora…mas deixaram a praia e o mar uma porcaria. Papéis por todo o lado, sacos de plástico com restos de comida, copos de plástico partidos, e com restos de bebidas, guardanapos imundos, ossos de carne espalhados pela areia toda, garrafas partidas encostadas aos troncos das árvores, cigarros queimados na areia, comida por todo o lado…metia nojo! É o que vocês vêem nas praias no Verão não é…? Uma porcaria. Quando a princesa Lua acordou e foi à janela, ver a paisagem como fazia sempre, nem queria acreditar no que estava a ver. Desata aos gritos, completamente fora dela, de tão zangada.
PRINCESA LUA (histérica) – Ááááááááhhhhhh… (p.c) Mas o que é isto…? (p.c) Não acredito…! (p.c) Isto é um pesadelo não é…? (p.c) Eu…não estou a ver isto, pois não…? (p.c) O que é que aconteceu aqui…?
NARRADORA - Desata a correr pelo castelo fora, vai dizer aos reis e a todos, e todos vão ver de perto o que aconteceu naquela praia. Todos ficam em estado de choque.
RAINHA (enojada) – Ai…acho que estou mal disposta.
PRINCESA LUA (a chorar) – Ááááááhhhh…mamã…papá…e toda a família…e agora…? O que fizeram à nossa praia.
REI – Houve uma festa, mas esqueceram-se de limpar.
PRINCESA LUA (a chorar) – E agooooorrraaaa…?
REI (zangado) – Pára de chorar, rapariga…!
RAINHA – Óh homem, ela tem razões para estar assim, eu também me apetece fazer o mesmo…mas o nojo é maior que a minha vontade de chorar.
REI (indignado) – Que duas.
PRINCESA FLOR – Agora temos de limpar esta porcaria toda.
TROVADOR – Peço desculpa…os respectivos…porcos…com todo o respeito por esses animais…é que deveriam limpar.
EMPREGADA – Pois claro. Os porcos…com todo o respeito…animais…são mais limpos do que esses…de duas pernas e m… (interrompem, todos olham para ela na expectativa)
TROVADOR – Então…menos…estão aqui crianças.
EMPREGADA (ralha) – Eu não ia dizer nada de mais…! Sua mente poluída…! Só ia dizer que… esses porcos têm duas pernas, e m… m… muita porcaria na cabeça.
TODOS – Ááááhhh…!
(Empregada ri maliciosa, com ar de inocente)
REI – Bem, deixem-se lá de conversas, e vamos limpar isto.
MULHERES (resmungam) – Não faltava mais nada.
PRINCESA LUA (zangada) – Eu vou atrás daqueles malditos porcos, e eles é que vão limpar.
TROVADOR – Menina, não sabes quem foram.
PRINCESA GIRASSOL – Eles devem voltar.
PRINCESA LUA – Eu vou encontrá-los, nem que seja na China.
PRINCESA FLOR – Nós vamos apanhá-los…mana, tenho a certeza.
RAINHA – Claro. As meninas têm razão.
REI – Mete-se-vos cada uma na cabeça…vocês acham mesmo que eles vão voltar?
MULHERES – Sim.
NARRADORA – Todos falam uns com os outros, e nesse dia esperam que alguém apareça. Realmente, aparecem mesmo, mas infelizmente para sujar ainda mais a praia. Fazem outra festa. Mas desta vez, a menina estava atenta, e quando vê outra invasão, fica tão nervosa, tão zangada, que vai falar com a sua amiga feiticeira.
(Bate à porta do quarto da torre do castelo)
LANTERNINHA – Sim…
PRINCESA LUA – Olá, sou eu…a Lua…posso entrar?
LANTERNINHA – Sim, entra.
(A Lua abre a porta, e entra)
LANTERNINHA (sorri) – Olá.
PRINCESA LUA – Acordei-te?
LANTERNINHA – Não, eu não estava a dormir.
PRINCESA LUA – Então, o que estavas a fazer?
LANTERNINHA – Estava a ler.
PRINCESA LUA – Desculpa, interrompi-te…
LANTERNINHA – Não faz mal. Diz…
PRINCESA LUA – Preciso muito da tua ajuda.
LANTERNINHA – Para…?
PRINCESA LUA – Quero que me dês poderes, para castigar uns porcos, que estão a poluir a praia toda.
LANTERNINHA – Porcos…? O que posso fazer com…porcos…?
PRINCESA LUA – Não são porcos…aqueles animais.
LANTERNINHA – Então?
PRINCESA LUA – São pessoas…que estão a poluir a praia toda. (p.c) Eu quero que me dês poderes para os apanhar, e obrigá-los a limpar.
LANTERNINHA – Mas…o que é que aconteceu?
PRINCESA LUA – Não viste?
LANTERNINHA – O quê?
PRINCESA LUA – A praia toda suja.
LANTERNINHA – Não…!
PRINCESA LUA (intrigada) – Como não viste…?
LANTERNINHA – Hoje não sai. (p.c) Mas…o que poderei fazer…?!
PRINCESA LUA – De certeza que vais ter alguma solução.
LANTERNINHA – É para apanhar…agora…?
PRINCESA LUA – Sim.
LANTERNINHA (pensativa) – Então…acho que… (p.c) pode ser… (p.c) Aaahhh…não…isso não… (p.c) Isto…Aaahhh…acho que não funcionaria… (p.c) Naaaa…
PRINCESA LUA – Por favor…pensa rápido…eles não podem sair daqui sem limpar.
LANTERNINHA – Não me interrompas…!
PRINCESA LUA – Pensa rápido.
LANTERNINHA – Cala-te…não me cortes o pensamento.
PRINCESA LUA – Desculpa…
LANTERNINHA – Não sejas impaciente…eu não trabalho sob pressão. (p.c) Não te preocupes…eles não vão sair daqui hoje.
PRINCESA LUA – É que eu quero mesmo dar-lhes uma boa lição.
LANTERNINHA – Sossega. (p.c volta a ficar pensativa) Esta…hummm…não… (p.c) Também não… (pega num livro, fecha os olhos, folheia-o, e abre numa folha. Olha…sorri, saltita) Sim…sim…é esta…! Sim…! (A Princesa Lua estremece, assustada)
PRINCESA LUA – Então…?
LANTERNINHA – Vais ter o poder…de…atirar uns pedregulhos e formar um cerco à volta deles, para que não tenham qualquer hipótese de sair. E se tentarem sair, as pedras dão choquezinhos eléctricos…só quando tudo estiver bem limpo…é que as pedras permitirão sair.
PRINCESA LUA (sorridente) – Que boa ideia…! (p.c) Muito obrigada. Mas…como é que eu consigo estes poderes.
LANTERNINHA – Come este chocolate.
PRINCESA LUA (sorridente) – Huuuummmm…chocolate…?! (p.c) Que bom. (A princesa dá umas trincas no chocolate) Mas…não acontece nada…!
LANTERNINHA – Agora…amassa isto…faz bolinhas
PRINCESA LUA – Mas…eu vou atirar-lhes isto…? (p.c) Isto não vai dar para nada…! Nem vão sentir.
LANTERNINHA – Faz o que eu estou a dizer… não sejas precipitada.
PRINCESA LUA – Está bem… (p.c) Eu acho que tu estás a enganar-me.
LANTERNINHA – Que chata. Faz o que eu estou a dizer e mais nada. (p.c) Que impaciente.
NARRADORA – A Princesa Lua amassa, e faz bolinhas.
LANTERNINHA – Agora…atiras essas bolinhas com toda a tua força e raiva, ali pela janela, assim…de forma a formar um muro à volta da praia onde há lixo, e onde eles estão.
NARRADORA – A Princesa Lua faz tudo o que a Lanterninha diz…atira com força e raiva as bolinhas, depois de comer o chocolate, e de uma forma mágica, as bolinhas transformam-se em pedras enormes quando chegam à areia. E a princesa atira-as de forma a construir um muro alto à volta de todos os sítios onde há lixo. A Princesa desata a rir, e fica maravilhada.
PRINCESA LUA (feliz) – Muito obrigada…!
LANTERNINHA (ri) – Vês, sua desesperadinha…?! (p.c) Valeu a pena ou não, deixares-me pensar…?
PRINCESA LUA (ri) – Sim. Foi uma óptima ideia. (p.c) Muito obrigada…boa noite… (p.c) Desculpa ter-te incomodado.
LANTERNINHA (sorri) – Não faz mal, és sempre bem-vinda, mas tenta ser mais paciente, está bem? (p.c) As coisas para saírem bem-feitas, não podem ser de forma rápida, nem com gente a pressionar, para nos despacharmos, entendes? (p.c) Nem com mau humor, nem contrariados! (p.c) Tudo tem que ser feito com entrega, boa disposição, sem pressões para que tenhamos excelentes ideias.
PRINCESA LUA – Mas é muito chato esperar.
LANTERNINHA – Mas tens de te habituar…! (p.c) Não podemos ter tudo na hora, assim que temos vontade. Às vezes temos de lutar pelas coisas que queremos, e pode demorar. (p.c) Mas se queremos muito isso, devemos esperar, o tempo que for preciso. (p.c) As coisas não fogem. (p.c) E não precisamos de pisar os outros para termos o que queremos.
PRINCESA LUA (sorri) – Entendi. Boa noite.
LANTERNINHA (sorri) – Dorme bem.
NARRADORA – A Princesa Lua vai para o quarto dela feliz. Na manhã seguinte, os jovens que fizeram a festa na praia, deixaram a praia ainda mais poluída do que já estava. Mas…surpresa…não encontraram a saída. A princesa acorda decidida a dar uma lição aos jovens. Senta-se em cima de uma das pedras e aprecia os jovens que mais pareciam baratas tontas à procura da saída.
PRINCESA LUA (murmura) – Ai, que divertido…! Sinto-me enorme!
JOVEM 2 – Esperem aí…mudamos de sítio sem dar conta?
TODOS – Não.
JOVEM 4 – Eu bebi um bocado, mas tenho a certeza que me lembro que este sítio não era assim.
PRINCESA LUA – Realmente…parece qualquer coisa menos uma praia.
JOVEM 6 – Mas o que é isto…?
PRINCESA LUA (a rir) – Eu perguntei o mesmo quando vi estas porcarias que deixaram aqui.
JOVEM 8 – Deixaram…quem?
PRINCESA LUA (a rir) – Fui eu, queres ver?
JOVENS – Não sei.
PRINCESA LUA (levanta-se) – Já viram a esterqueirada que fizeram aqui?
JOVENS – Esterqueirada?
PRINCESA LUA (grita) – Sim, esterqueirada…isto parece uma pocilga.
JOVEM 6 – Eu não estou a ver nenhum porco aqui!
PRINCESA LUA (grita) – Eu estou a ver muitos porcos mesmo à minha frente.
JOVENS – Áááááhhh…!
JOVEM 9 – Essa agora…nós só fizemos uma festa. (p.c) Fazem-se muitas festas nesta praia e noutra praia qualquer.
JOVEM 10 – Sim.
PRINCESA LUA (grita) – Só fizeram uma festa… (p.c) E a minha praia estava assim quando vocês chegaram por acaso?
JOVENS – A tua praia?
PRINCESA LUA – Sim, esta praia é minha!
JOVEM 3 – Desde quando?
PRINCESA LUA – Desde que os meus Avós existiam.
JOVEM 5 – Tu deves ser uma vadia e gostarias que este lugar fosse todo teu.
JOVEM 7 – Onde é que está a placa a dizer que esta praia é tua?
PRINCESA LUA (grita) – Que placa? Tudo isto é meu! Pertence à minha família, àquele castelo.
JOVEM 2 – Vives ali?
PRINCESA LUA – Sim.
JOVEM 4 – Por isso é que tens a mania que és dona disto.
PRINCESA LUA – Eu sou mesmo dona disto.
JOVEM 1 – Estamos fechados.
PRINCESA LUA (grita) – Sim, estão presos. E só vão sair quando limparem esta porcaria toda.
JOVEM 2 – Não faltava mais nada!
PRINCESA LUA (grita) – Não faltava mais nada, era a minha praia ficar com esta porcaria toda. (p.c) Fizeste esta estrumeira toda, limpa…seu porco…mais porco que os porcos.
JOVEM 3 – Estamos presos…cercados.
PRINCESA LUA – Sim.
JOVEM 5 – E limpamos como?
PRINCESA LUA (grita) – Limpa, nem que engulas o lixo! Ou mete-o no bolso.
JOVEM 8 – Mas não cabe.
PRINCESA LUA – Tens aí muitos sacos do lixo! (p.c) Têm de enchê-los e levem – no daqui para fora. (p.c) Vocês por acaso gostavam de chegar a uma praia que está quase sempre limpa…e de repente encontra-la toda porca. (p.c) Se na vossa casa fazem lixo e deitam-no pelo chão, é problema vosso.
JOVEM 2 (resmunga) – Mas que raio!
JOVEM 1 – Que seca!
JOVEM 3 – Se a minha mãe visse isto…!
PRINCESA LUA (ri) – Ia ficar com certeza muito orgulhosa de ti…!
JOVEM 5 – Que vergonha.
PRINCESA LUA (ri) – Vergonha foi isto que tu fizeste, óh porco. (p.c) Com todo o respeito por esses animais, porque eles são mais limpos que vocês todos juntos.
JOVEM 7 – Que nojo!
PRINCESA LUA (ri) – É um nojo, é…mas quem o fez não fui eu…foram vocês!
JOVEM 8 – Que seca!
PRINCESA LUA – Seca, onde? (p.c) Aqui? (p.c) Só se for na tua boca, de tanto que comeste e bebeste!
JOVEM 9 – Que seca! Deves ter a mania que és muito inteligente.
PRINCESA LUA – Cala-te e limpa.
NARRADORA – Num instante, enchem todos os sacos do lixo, com o que apanham na areia e no mar. Dezenas de sacos do lixo cheios. Estão que quase nem se mexem no fim no fim da limpeza.
PRINCESA LUA – Olhem bem a quantidade de lixo que iam deixar aqui! (p.c) Que vergonha! E ia ficar aqui para nós, e para quem viesse procurar paz e ar puro. (p.c) Que coisas mais feia! (p.c) Podem continuar a vir, mas se querem fazer lixo vão para outra! (p.c) Pensem muito bem antes de voltarem a fazer lixo nesta praia, pois a próxima consequência vai ser bem pior!
NARRADORA – Ela estala os dedos e as pedras desfazem-se, transformando-se em areia.
PRINCESA LUA - Agora…ponham-se a andar…e levem a porcaria dos sacos do lixo. (p.c) Agora sim, a minha praia está outra vez limpa! (p.c) Tinhas razão Lanterninha…valeu a pena esperar, para ver os resultados. (p.c) É que eu queria muito dar-lhes uma lição por serem tão porcos, mas achei que não ia funcionar. Também não queria ser muito má com eles…era só dar-lhes um susto.
(Aparece Lanterninha a rir)
LANTERNINHA (a rir) – Eu disse-te que ia funcionar…! (p.c) Só tinhas de fazer o que eu estava a dizer, e esperar um pouco.
PRINCESA LUA – Mas eu não queria esperar. Tive medo que eles fugissem, enquanto eu estava a dormir, e depois a praia ficasse toda suja!
LANTERNINHA – Princesa…todos os dias temos de esperar por algumas coisas…não temos tudo ao nosso dispor…! (p.c) Por exemplo, temos de esperar que as sementinhas das flores nasçam, cresçam…temos de as regar, de as acarinhar, e tudo isso demora o seu tempo! (p.c) Também temos de esperar pelas refeições, mesmo que estejamos com muita fome, porque elas não se fazem sozinhas. (p.c) E muitas, muitas outras situações que temos de esperar. (p.c) Se vamos ficar impacientes por tudo o que não temos na hora que queremos…a vida perde a piada! (p.c) Enquanto esperamos, temos um motivo para ficarmos alegres, e lutar pelo que queremos.
PRINCESA LUA – Sim, tens razão. Não tinha pensado nessa. Os meus papás também tiveram de esperar por mim, não foi?
LANTERNINHA – Claro! (p.c) E ainda que esperaram…olha se eles fossem impacientes como tu…? (p.c) Um bebé demora nove meses a chegar aos papás! (p.c) E eles esperam! (p.c) As outras coisas são pequenas esperas…!
PRINCESA LUA – Ai, tanto tempo…nove meses á espera…?! (p.c) Eu não esperava esse tempo todo.
LANTERNINHA (ri) – Se fosses mamã esperavas! (p.c) Com a tua idade é claro que não esperas. (p.c) A pressa, e a impaciência, fazem-nos passar muita coisa ao lado…fazem com que não vejamos muitas coisas bonitas à nossa volta. (p.c) Enquanto esperamos, estamos a aprender, e a ver o que há à nossa volta. (p.c) Além disso, se os meninos soubessem esperar uns minutinhos, quando os papás e os avós dizem para esperar…os meninos não levavam tantos ralhetes, nem os papás e avós ficavam tão chateados com os meninos.  
PRINCESA LUA – Ai é?
LANTERNINHA – Claro…pensa bem…achas que os papás e os avós ficam felizes por ralhar com os meninos, ou quando vos vêem tristes, ou a resmungar…? (p.c) De maneira nenhuma…!
PRINCESA LUA – Às vezes ainda parece que gostam…não fazem outra coisa.
LANTERNINHA – Mas não gostam. (p.c) Experimenta o seguinte: da próxima vez que estiveres à espera de alguma coisa que queiras muito, olha à tua volta e vê o que há…todas as belezas…vais ver…essa coisa até chega mais depressa!
PRINCESA LUA (sorri) – A sério?
LANTERNINHA (sorri) – Sim. (p.c) O que queremos muito, não foge de nós…mesmo que não seja na hora que queremos, essas coisas aparecem, e temo-las na mesma! (p.c) Não precisamos de ficar impacientes.
PRINCESA LUA (sorri) – Sim, é verdade! Muito obrigada.
LANTERNINHA (sorri) – De nada!
(As duas continuam a falar mais um pouco).  
NARRADORA – Primeira lição…habituarmo-nos a esperar pelo que queremos. Se não for naquele minuto ou naquela hora…será mais tarde…mas será! (p.c) Tudo vem ter connosco! (p.c) E é como a Lanterninha diz…há muita coisa pela qual temos de esperar para que seja nosso…porque não se fazem sozinhas…! (p.c) Enquanto esperamos, estamos a aprender coisas novas, e a ver coisas bonitas…depois até dá mais gosto quando recebemos as coisas que queremos, e elas até chegam mais rápido. (p.c) Segunda lição… (p.c) Todos os anos há toneladas de todo o tipo de lixo nas praias. Aquele que é causado pelas ondas…lixo natural, como paus, pedras, e outro lixo industrial, que por vezes até sufoca animais e provocam-nos doenças! (p.c) Infelizmente não é fácil de eliminar o lixo todo das praias, mas cada um de nós pode fazer com que esse lixo não aumente ainda mais. E há programas que põem várias gerações a limpara as praias! (p.c) Isso é uma ajuda preciosa para todos nós e para o planeta. Deviam ser postos em prática todo o ano, e não só uma vez por ano…não acham? (p.c) Já sabem amigos…quando forem para a praia não poluam a areia que pisam, nem o mar! (p.c) A praia e o mar incluído são muito nossos amigos, dão-nos muita saúde e muitas coisas de que precisamos, mas também podem ser perigosos para nós se houver neles…lixo! E moscas. (p.c) Na praia para onde vão há muito lixo? (p.c) Como é que se sentem, ao ver tanto lixo? (p.c) O que fariam se vissem alguém a deitar lixo na praia ou no mar? (p.c) Acham que os jovens fizeram bem em ter poluído a praia? (p.c) O que é que eles deviam ter feito no fim da festa? (p.c) Podem responder a estas perguntas com os meninos da vossa escola e fazer desenhos se quiserem, ou escrever uma lista de todas as atitudes correctas e incorrectas.

FIM
Lálá
(23/Dezembro/2012)