Número total de visualizações de páginas

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Glorinha e a Gotinha


NARRADORA - Era uma vez, uma gotinha de água salgada que vivia numa praia pequenina, e tranquila, com outras gotinhas da sua família. Esta gotinha era muito energética, saltitona, adorava brincar e recebia toda a gente que visitava a praia, de uma forma simpática. Num dia muito quente de Verão, uma menina pequenina, Glorinha, foi para a praia com os seus pais brincar para a areia molhada, com os seus baldinhos e pás. Enquanto brincava, cantarolava e falava com os seus amigos imaginários. Os pais estavam nas dunas, mas sempre de vigia. A gotinha de água estava a saltitar alegremente de poceca em poceca e de repente vê a menina. Sorri e vai ter com ela...mas fala a medo…pois não sabe se a menina a vê. 


GOTINHA (sorridente) – Olá!


GLORINHA (sorri) – Olá.


GOTINHA (sorri) – Ai, tu consegues ver-me…?


GLORINHA (sorri) – Sim. Estou a ver uma gotinha…


GOTINHA (sorri) – Isso mesmo, sou uma gotinha.


GLORINHA (sorri) – E falas!


GOTINHA (sorri) – Falo.


GLORINHA (sorri) – Mas és uma gotinha de quê?


GOTINHA – Sou uma gotinha de água salgada…como a água do mar.


GLORINHA – E tu, sabes o que eu sou?


GOTINHA – És uma menina…!


GLORINHA – Pois sou.


GOTINHA – Estás sozinha aqui na praia?


GLORINHA – Não…os meus pais estão ali em cima. E tu, vives aqui?


GOTINHA (sorri) – Sim.


GLORINHA – Onde é a tua casa?


GOTINHA – É aqui…no mar. Por aí…onde calha. Não temos sítio certo.


GLORINHA (surpresa) – Áááááhhh…mas porquê?


GOTINHA – Não sei…só sei que andamos sempre a mudar de casa.


GLORINHA – Eu estou sempre nas mesmas casas…na minha e na dos meus avós e na dos meus tios e na dos meus primos…!


GOTINHA – Olha, queres vir dar uma volta comigo?


GLORINHA (sorri) – Sim…vou só dizer aos meus pais que vou contigo…não…anda comigo e eu apresento-te os meus pais.


GOTINHA – Não precisas de dizer…é aqui perto…não vamos para longe.


GLORINHA – Mesmo assim, tenho que dizer aos meus papás. Tenho que lhes obedecer. (p.c) Não quero que eles fiquem preocupados.


GOTINHA (sorri) – Então vai. Eu espero aqui!


GLORINHA (sorri) – Está bem. Já volto…tomas conta das minha coisas?


GOTINHA – Sim.


NARRADORA -  A menina vai ter com os pais e informa-os. Os pais desvalorizam, e acham que ela está a imaginar. Riem, respondem que pose ir, mas para não se afastar muito. Os pais deixam-na brincar e apreciam. A menina caminha pela praia com a Gotinha e as duas conversam alegremente. De repente a menina dá a mão à Gotinha, e a Gotinha voa sobre o mar com a Glorinha.


GOTINHA (sorri) – Olha que lindo, Glorinha…! Não tenhas medo, que eu não te largo a mão, nem te deixo cair. (p.c) Já viste que tem cores diferentes…?

(Glorinha olha para o mar, e vê que realmente tem cores diferentes).


GLORINHA – Pois é…! (p.c) Que bonito…como é que aquelas cores foram ali parar…?


GOTINHA (ri) – As cores não foram ali parar…apareceram ali!


GLORINHA – Mas se apareceram ali, é porque alguém as levou…! Ou foi alguém que despejou tintas daquelas cores ali na água? Isso não se faz…está a poluir os mares…será que foi algum pirata?


(A Gotinha ri animada).


GOTINHA (ri) - Até podia ter acontecido, terem despejado ali tintas destas cores todas, e podiam não ser piratas, pois há muitos humanos que poluem os mares…mas felizmente…aquelas cores todas apareceram ali, de forma natural…foi a mãe…!


GLORINHA (surpresa) – A tua mãe?


GOTINHA (ri) – A nossa mãe…!


GLORINHA (surpresa) – Mas…eu não sou tua irmã…a minha mãe não é a mesma mãe que a tua, pois não?


GOTINHA (ri) – Não…! (p.c) A nossa Mãe…é a Natureza! (p.c) Os teus pais nunca te apresentaram a nossa Mãe Natureza…?


GLORINHA (sorri) – Áááááhhh…Sim. Já percebi.


GOTINHA (sorri) – A nossa Mãe é que pôs ali aquelas cores.


GLORINHA (sorridente e encantada) – Áááááhhh…que lindo! Está tão bem pintado…então estas tintas não poluem os mares, nem matam os peixinhos, nem intoxicam as gaivotas…?


GOTINHA (ri) – Não. Estas tintas, não são tintas…! Não poluem mares nem matam.


GLORINHA – Não são tintas…? Então…como é que aparecem estas cores todas nas águas?


GOTINHA (sorri) – São as algas…!


GLORINHA – Algas?


GOTINHA – Sim, sabes o que são, não sabes?


GLORINHA – Sim, sei, aquelas coisas que parecem cabelos ou lãs…! Aquilo ali…!


GOTINHA – Isso mesmo!


GLORINHA – E elas têm tinta?


GOTINHA – Não…as algas têm aquela cor, e como estão em águas claras e limpas, elas vêem-se…estão quase à superfície, e à superfície mesmo…como aquelas que estão ali a boiar…!


GLORINHA (sorri) – Áááááhhh…estou a perceber…umas são verdes mais claras e outras são verdes mais escuras, outras… castanhas claras, outras castanhas escuras…outras…amarelas…outras roxas…!


GOTINHA – Pois. Há muita variedade…! E não são tóxicas, muito pelo contrário, até são usadas para fazer muitos medicamentos para vocês, humanos, muitos produtos como sabonetes, cremes, champôs e até servem para comer.


GLORINHA (surpresa) – Ui, servem para isso tudo…?! E…para comer…? Nunca comi algas…!


GOTINHA (sorri) – Dizem que são muito boas. A tua mãe já deve ter comido!


GLORINHA (sorri) – Áááááhhh…então as algas, pintam a água, e fazem bem à nossa saúde…!


GOTINHA (sorri) – Isso mesmo. E também há animais que vivem nas algas e assim protegem-se dos que lhes querem fazer mal.


GLORINHA (sorri) – Áááááhhh…que giro! Mas…como é que eles fazem os medicamentos, e os cremes e os champôs com as algas?


GOTINHA (sorri) – Isso não sei…só sei que vem aqui muita gente apanhá-las para isso.


GLORINHA (sorri) – Que giro! (p.c) E como é que são as algas…? Macias…ou ásperas…? Lisas ou com picos…?


GOTINHA (sorri) – Umas são macias e escorregadias, lisas…outras…são mais ásperas…e com uns biquinhos macios…mas podem ser um bocadinho arrepiantes…ora…toca nelas…!


NARRADORA -  A Glorinha pega em várias diferentes, que a Gotinha vai tirando do mar, e acaricia-as, sorri, encolhe-se ao tocar em algumas, atira de imediato outras que a arrepiam, as duas riem, brincam com as algas, Glorinha passa com as algas mais macias na pele, cheira, põe no cabelo, e fica deliciada. De repente, Glorinha repara numa coisa nova: GLORINHA - E no fundo também tem areia…?


GOTINHA – Sim, há areia ao longo de todo este imenso mar. Aqui não é o fundo do mar…ainda é superfície, aqui o ser humano tem pé, para tomar banho…experimenta…senta-se na areia, e vais ver por onde te dá a água.

(Glorinha senta-se num banco de areia, e fica com água até à cintura. Ela sorri).


GLORINHA (sorri) – Pois é…! É baixinho…! E a areia é muito fofa.


GOTINHA – Ali mais em baixo, também há areia, mas para chegar lá tem que se mergulhar muito. Não podemos ir lá assim…!


GLORINHA – Mas tu já foste lá não já?


GOTINHA (sorri) – Sim…claro…vou lá todos os dias…muitas, muitas vezes...lembra-te que sou uma gota de água.


GLORINHA – E o que é que tem lá em baixo?


GOTINHA – Tem…muitas coisas…! Muita água, muitas algas, muitas plantas diferentes, que só vivem debaixo de água…tem…muitas rochas…umas grutinhas…tem…muito lixo, infelizmente…e…golfinhos…e muitos milhares de peixes diferentes…! Tem…alguns corais…e…conchas…e…milhões de pedras de tamanhos diferentes, cores diferentes, formatos diferentes…como estas que vês aqui na areia ao longo de toda a praia…


GLORINHA (sorri) – E tem luz…?


GOTINHA – Até um sítio tem luz, mas mais para baixo…quanto mais se desce, já não há luz natural…é por isso que os mergulhadores levam aquelas luzes na cabeça…!


GLORINHA (surpresa, sorri) – Áááááhhh…que lindo, que deve ser o fundo do mar!


GOTINHA (sorri) – Sim…tem a sua beleza, mas muito sinceramente, gosto mais de viver por aqui! Aqui tudo é mais bonito, com o sol.


GLORINHA – E onde estão os golfinhos…?


GOTINHA – Estão mais afastados daqui…!


GLORINHA - Não podes chamar um, para eu ver…?
NARRADORA - A Gotinha assobia e aparece um doce golfinho. A Glorinha sorri feliz, e maravilhada com aquela surpresa. Ele salta feliz, e convida a Glorinha para brincar. A Glorinha acaricia o Golfinho com um lindo sorriso, e abraça-se ao bichinho. O Golfinho cumprimenta-a carinhosamente, com aquele som maravilhoso, e a Glorinha e a Gotinha sobem para o lombo do golfinho alegremente. O Golfinho leva-as, feliz, a dar um passeio encantador, com mergulhos, saltos, e muitas gargalhadas dos três, brincadeiras na água, cantorias e palmas, e piruetas, e um pequeno espectáculo do golfinho para as duas. As duas assistem maravilhadas, batem palmas, riem, cantam e dançam, e trocam carinhos. Glorinha está muito feliz, e as duas brincam com os brinquedos na areia, e conversam as duas alegremente. De repente, a mãe aproxima-se e pergunta:

MÃE – Glorinha…já te molhaste?


GLORINHA (sorri) – Sim, Mamã…fui ver o mar, e fui dar uma voltinha…brincar com a Gotinha de água salgada, e um golfinho…! Foi tão giro…!


MÃE (surpresa) – Com quem…?


GLORINHA – Com a minha amiga Gotinha de Água do Mar, e ela apresentou-me um lindo golfinho…!


MÃE (faz de conta que acredita) – Áááááhhh…! A tua amiga…conheceste-a hoje?


GLORINHA (sorri) – Sim…ela está aqui…!


MÃE (a fingir) – Áááááhhh…pois está! Olá…Gotinha…muito prazer em conhecer-te! Desculpa, estava distraída…!


GOTINHA (sorri) – Olá Mãe…muito prazer…que pena não me estar a ver!


GLORINHA – Ela mostrou-me tantas coisas bonitas…!


MÃE (sorri) – Ai foi…? E o que é que ela te mostrou?


GLORINHA (sorridente) – Mostrou-me…algas de muitas cores…umas verdes mais claras, outras verdes mais escuras, outras castanhas, outras amarelas…outras roxas…e a Gotinha disse que essas algas eram usadas para medicamentos, champôs, cremes…e até para comer…!


MÃE (sorri) – Sim…é verdade!


GLORINHA (sorri) – Eu até toquei em algas diferentes…e umas são macias, lisas, outras são ásperas e tem uns piquinhos, outras arrepiam…e foi a nossa Mãe que as pôs lá. É por isso que o mar tem aquelas cores todas.


MÃE (sorri) – Áááááhhh…que bom! Esta mãe é uma maravilha…


GLORINHA (sorri) – E também vi um golfinho, e estivemos a brincar com ele! Demos saltos, brincamos, cantamos…ele fez um espectáculo só para nós…! Não viste?


MÃE (sorri) – Não, filha…estava deitada…!


GLORINHA – Se quiseres eu peço ao Golfinho para aparecer outra vez, e para fazer outro espectáculo para ti.


MÃE (sorri)- Agora não, filha…outro dia…vá…anda secar-te!


GLORINHA – Óóóóhhh…mas eu queria ficar a brincar mais com a Gotinha.


MÃE – A tua amiga também tem de ir para a casa dela…outro dia brincam mais…não é Gotinha.


GOTINHA (sorri) – Sim…


GLORINHA – Amiga, não ficas triste?


GOTINHA (sorri) – Não, claro que não.


GLORINHA – Anda comigo até lá cima, Gotinha…e lanchas comigo…pode ser não pode, Mamã…?


MÃE (sorri) – Sim.


GLORINHA (sorri) – Anda aqui no meu balde…eu vou levar água do mar para o meu pai.


GOTINHA (sorri) – Está bem!


NARRADORA _  A Glorinha enche o baldinho, e a Gotinha vai no balde da menina, muito contente, e as duas vão a conversar alegremente. A Mãe ri deliciada a ouvir a conversa. A Glorinha apresenta a Gotinha ao Pai, e o Pai também faz de conta que acredita mas não vê a Gotinha…só vê água. A Mãe murmura:


MÃE (sorri) – A imaginação das crianças é maravilhosa…! (p.c) Pelo menos está feliz e a desenvolver a linguagem…


NARRADORA -  A Glorinha e a Gotinha constroem uma grande amizade, e encontram-se, falam, riem e brincam juntas todos os dias. Para os pais da Glorinha…tudo não passava da imaginação da filha…! E vocês…meninos que leram esta historinha…o que acharam…? Será que a menina deu mesmo esse passeio com a Gotinha e conheceu-a, e brincou com ela, e viu o golfinho…ou a menina estava só a imaginar dois novos amigos…? Gostavam de ter uma amiga gotinha de água salgada? O que faziam com ela? Estariam só vocês na praia ou levariam convosco para conhecer a Gotinha, algum amigo ou o mano ou mana…ou os Avós…ou outras pessoas…? O que é que ela vos mostraria…? Imaginem! Podem desenhar isto ou escrever.





                                                 FIM


                                                 Lálá


                                       (31/Julho/2012)





 








         

A AVÓ FLORESTA E OS SEUS NETOS DO CORAÇÃO


desenhado por Lara Rocha 


VOZ - Era uma vez uma Avó que vivia numa pequena aldeia, perdida na montanha, numa casa de pedra. Essa aldeia ficava localizada num sítio onde a Natureza estava ainda em estado puro, fresco, com várias espécies de árvores e de animais protegidos e em vias de extinção, riachos de água limpa, pura e fresca, com vista para a cidade. 
        A Avó Floresta era a única pessoa da floresta, e não era muito visitada porque os estudiosos da natureza, os únicos que la iam, queriam continuar a preservar aquele recanto mágico e encantador da floresta. 
        Aqui havia muitos tesouros por descobrir, coisas belíssimas e raras que não podiam ser destruídas. Além disso, havia uma lenda, que nesta floresta vivia uma bruxa velha, muito feia, que fazia mal a toda a gente que lá fosse. 
        Já algumas pessoas diziam ter visto e ouvido essa bruxa, e que era mesmo horrível, e outras pessoas diziam já ter sido atacadas por ela. 
        Os pais das crianças usavam essa lenda para castigar as crianças quando estas não comiam, ou desobedeciam...diziam que as levavam à bruxa da floresta...e ficavam amedrontadas. 
            Na verdade, tudo não passava da imaginação das pessoas, influenciadas pelas histórias que ouviam em crianças relacionadas com a floresta, e como era um sítio de sombras...tudo fazia sentido que de facto vivesse mesmo lá a bruxa má! 
            Não havia bruxa alguma, o que havia era uma senhora já com alguma idade, que vivia isolada, na sua casa...uma senhora que tinha sido obrigada a fugir há muitos anos, quando ela era ainda muito pequenina, por causa de grandes incêndios que houve na sua terra, muito longe dali, onde as pessoas eram muito pobres e viviam em barracas construídas de palha...quase pré-histórico. 
            Depois de muito andarem, encontraram aquele paraíso e ali se instalaram. Os seus pais estavam muito velhinhos e viviam num lar, no centro da cidade, e a Avó Floresta ia visitar os pais todos os dias. Os irmãos emigraram e trabalhavam fora a maior parte do ano, mas a Avó trabalhou muitos anos na cidade e vivia na casa da montanha. Ia e voltava todos os dias, para fazer compras e estar com amigas. 
            Não era casada, nem tinha filhos, e no fundo ali...só tinha como companhia os animais da quinta, de quem cuidava e com quem falava. Muitas vezes sentia-se muito sozinha, mas não se deixava vencer pela tristeza, mantinha-se ocupada a fazer limpezas, a tratar dos animais, a fazer rendas, malhas, roupas que vendia na cidade, a fazer bolos que lhe encomendava e deixava numa pastelaria da cidade, e pintava lindos quadros, que também vendia na cidade. 
            Ela nunca levava ninguém à sua casa para proteger a floresta, e vivia feliz naquele sítio. Todas a achavam um pouco misteriosa, mas ela não tinha mistério nenhum...era uma senhora como as outras, simpática, bem-disposta, brincalhona, solidária, meiga, sensível, bondosa, e tinha um aspeto cuidado, era bonita, tratava bem de si, andava bem vestida e bem apresentada. 
          Tudo ao contrário de uma bruxa! Um dia, umas crianças foram num passeio escolar para essa montanha, e quatro meninos e quatro meninas estavam um pouco assustados, porque todos sabiam da lenda e pensavam que poderiam encontra-la, mas ao mesmo tempo queriam mesmo descobrir se era verdade, ou não, se existia mesmo essa bruxa. Não ia ser muito fácil, porque estavam com as professoras, que acreditavam nessa bruxa, e com os outros meninos. A professora Nicole informe:

PROFESSORA NICOLE – Meninos...estamos mesmo a chegar...àquele sítio maravilhoso...já sabem...podem brincar e correr, mas não se afastem muito! Nós queremos ver-vos sempre...combinado?

MENINOS – Sim, professora.

HUGO – Professora Susana, não é aqui que vive a Bruxa?

PROFESSORA SUSANA (responde com segurança) – É, Hugo! Não sabemos bem onde, mas é nesta montanha...por isso não se afastem de nós, se não a bruxa pode apanhar-vos e fazer-vos mal...

PROFESSORA NICOLE – Não tenham medo...não pensem nela...ela não vai aparecer!

DIANA – Eu queria encontra-la.

NARRADORA – As professoras ignoram. De repente estacionam o autocarro e todos saem a correr alegremente. Hugo, Diana, Diogo, Gonçalo, Rafaela, Sofia, Afonso e Carolina reparam na casa isolada na montanha.

CAROLINA – Olhem aquela casa ali em cima…!

TODOS – Áááááááhhh!

SOFIA – Quem é que viverá neste sítio...sem nada,,,?

DIANA – Só tem esta casa aqui!

AFONSO – Eu não queria viver aqui.

TODOS – Nem eu!

GONÇALO – Não deve viver ali

RAFAELA – Esperem...acho que já sei quem vive ali…!

TODOS – Quem…?

RAFAELA – A Bruxa…!

TODOS – A bruxa?

SOFIA – As bruxas vivem em castelos...ou casas esquisitas...aquela não tem nada de esquisito nem parece um castelo.

TODOS – Pois...!

CAROLINA – Mas não se esqueçam que as bruxas têm poder, e ela pode muito bem viver num castelo, mas transformar o castelo numa casa, só para que nos aproximemos dela, e depois caçar-nos...!

TODOS – Achas...?

CAROLINA – Sim.

SOFIA – Pois é...pode ser uma armadilha.

HUGO – Qual armadilha, meninas?! Não há nada de armadilhas…! (p.c) Eu vou lá...quero ver se ela existe mesmo.

DIOGO – Eu vou contigo, não terei medo dela.

AFONSO – Eu acho que ela vive lá mais para dentro da floresta...acho que a casa se fosse dela, não estava tanto à mostra...!

GONÇALO – Mas as professoras disseram para não nos afastarmos sem lhes dizermos onde íamos.

HUGO – Não quero saber, eu vou na mesma lá tocar...as professoras nem vão reparar...e vocês também não vão dizer nada, pois não?

TODOS – Não.

DIANA – Vamos contigo!

SOFIA – Ai, anjinhos...protejam-nos daquela bruxa...

TODOS – Vamos.

NARRADORA – Os oito lá vão, por um caminho e como as professoras estão distraídas, não se preocupam. Hugo toca à campainha. Ficam todos à espera na expectativa. Diana repara:

DIANA – Esta casa pode não ser da bruxa, mas está habitada!

SOFIA – Como é que sabes que está habitada?

DIANA – Tem aqui animais da quinta!

RAFAELA – Podem ser animais de algum pastor que os guarda aí, mas pode não estar aí a viver.

TODOS – Pois! Tens razão.

NARRADORA – Hugo toca outra vez à campainha e aparece a Avó Floresta à porta. Os meninos assustam-se, mas ficam sem reação a olhar para a senhora.

AVÓ FLORESTA (sorridente) – Siiiiimmmmmm...? (p.c) Olá meninos… (p.c) o que estão aqui a fazer? (p.c) Estão perdidos?

MENINOS (sorriem) – Olá…!

HUGO – Nós estamos ali com as professoras e mais meninos!

DIOGO – Viemos passear!

AVÓ FLORESTA – Áááááááhhh, muito bem! (p.c) E disseram que vinham aqui?

TODOS – Não!

RAFAELA – As professoras não deixavam virmos aqui.

AVÓ FLORESTA – Então...é melhor dizerem, porque se não...vão ficar preocupadas convosco!

CAROLINA – É verdade que aqui vive uma bruxa?

AVÓ FLORESTA – Uma bruxa? (p.c) Aqui? Onde?

TODOS – Aqui na montanha!

AVÓ FLORESTA – Uma bruxa aqui na montanha?

TODOS – Sim.

AVÓ FLORESTA – Mas...como é que vive aqui uma bruxa? Não pode ser! (p.c) Já vivo aqui há tantos anos, e nunca vi nenhuma bruxa por estes lados...! (p.c) A única pessoa que vive aqui nesta casa e nesta montanha sou eu...já viveram aqui os meus pais e irmãos, mas de momento sou só eu...!

DIANA (sorri) – Realmente, a senhora não tem cara de bruxa...

CAROLINA – Mas pode estar disfarçada!

AVÓ FLORESTA (ri às gargalhadas) – Quem é que vos disse que vive aqui uma bruxa?

TODOS – Toda a gente…!

AVÓ FLORESTA (ri) – Vão chamar os vossos amigos e professoras, que eu preparo-vos um lanche, com bolo...e sumo...e assim também já veem que a casa não é de nenhuma bruxa.

GONÇALO – Mas, você é que é a bruxa, e está disfarçada para nos apanhar é...?

AVÓ FLORESTA (a rir) – Não, meu amor...eu...bruxa…? Isso é que era bom…! Áh, áh, áh…! Vão lá chamar os outros.

NARRADORA – Os meninos desatam a correr, um pouco assustados, e dizem às professoras.

GONÇALO – Professoras...amigos...vimos a bruxa!

DIANA – Não é nada a bruxa! É uma senhora bonita e simpática.

HUGO – Ela mora ali.

CAROLINA – Ela convidou-nos para ir lá lanchar, e diz que nunca viu nenhuma bruxa por aqui. Só ela é que vive aqui.

DIOGO – Vamos lá, professoras…!

PROFESSORA SUSANA – Calma, meninos…!

TODOS – Vamos...vamos…!

PROFESSORA NICOLE – Bom...vamos ver...também quero saber se essa lenda é verídica.

NARRADORA – A Avó Floresta ficou à porta, surpresa a olhar para os meninos e acena-lhes. Os meninos e as professoras vão ter com a Avó Floresta, a medo...ela recebe-os com um sorriso.

AVÓ FLORESTA (sorri) – Olá! Sejam bem - vindos…!

TODOS (sorriem) – Boa tarde!

PROFESSORA SUSANA – Desculpe… (ralha) estes meninos, não tinham nada que vir aqui!

PROFESSORA NICOLE (ralha) – Pois não! (p.c) Nós deixamos bem claro para os meninos não se afastarem...mas os meninos teimosos...afastaram-se, sem nos dar conhecimento, e depois vieram aqui incomodá-la!

AVÓ FLORESTA (sorridente, calma e meiga) – Ora, não se zangue com os meninos...não ralhe com eles…! (p.c) Eles não incomodam, nem vocês! (p.c) Entrem! (p.c) Tenho muito gosto em receber-vos aqui...vou preparar-vos um lanche!

PROFESSORAS (assustadas) – Não…

AVÓ FLORESTA – Porque é que estão tão assustados…? (p.c) Eu sei que estou velha e enrugada, e com roupa de estar em casa, mas não faço mal... (p.c) Desde que não destruam este meu paraíso...todos são bem-vindos...entrem! Nunca recebo visitas...toda a gente foge de mim...parece que têm medo de mim...não percebo porquê? (p.c) Acho que não tenho assim uma cara tão assustadora...mas talvez seja por ser só eu que vivo aqui! (p.c) Até acham que sou uma bruxa (p.c) Às vezes até gostava de ser...mas seria uma bruxa boa... (ri) só seria uma bruxa má para quem tentasse fazer maldades à minha mãe natureza... (p.c) Ai de quem tentasse destruir este paraíso...! (p.c) Sentem-se, fiquem à vontade...eu não mordo!

PROFESSORA NICOLE (sorri) – Veja lá...não queremos incomodá-la. 

AVÓ FLORESTA – Ora...não incomodam nada! (p.c) Tenho todo o gosto em receber-vos aqui! (p.c) São crianças, não há problema. (p.c) Sinto medo no ar…! Porquê?
(Faz-se silêncio)

PROFESSORA NICOLE (sorri, um pouco embaraçada) – Desculpe...é que estávamos todos a contar ver a bruxa da lenda...e...penso que as crianças acharam que era a senhora…!

PROFESSORA SUSANA (sorri) – Mas estávamos todos errados, não é meninos…?

TODOS – Sim!

AVÓ FLORESTA (ri) – Não se preocupe, querida...já muita gente pensou que era eu a bruxa da floresta…! Quando falam comigo na cidade sobre a tal bruxa...eu tenho sempre a sensação de que se referem a mim! (p.c) Mas é normal...eu compreendo porque dizem isso...eu...na minha infância fazia o mesmo, associava a floresta a essas histórias de monstros e de lobos...e com as lendas, acontece o mesmo! Passam-se sempre nas florestas, porque é um sítio misterioso, sombrio, desconhecido, escuro, com barulhos de bichos…! Tudo isso desperta a imaginação das pessoas! (p.c) Ainda hoje, isso acontece comigo, quando vou para sítios que não conheço, também fico um pouco assustada no início, e começo até a imaginar coisas… (ri) tenho a cara enrugada, e o resto do corpo, mas o meu coração e o meu lado infantil não tem rugas…!

PROFESSORAS (sorridentes e cheias de ternura) – Ai...que lindo!

AVÓ FLORESTA – E vocês vem de onde?

TODOS – Da cidade!

PROFESSORA NICOLE – De um colégio.

AVÓ FLORESTA – De qual?

NARRADORA – As professoras e os meninos apresentam-se

AVÓ FLORESTA (sorridente) – Muito bem! Conheço muito bem esse colégio. Sou eu que faço muitas das sobremesas para lá, e as cobertas dos meninos, as mantas...e outras coisas. (Todos ficam surpresos) Sirvam-se à vontade. Comam o que quiserem...não tem veneno! E bebam à vontade!

PROFESSORA NICOLE (sorri) – Obrigada! A Sra. é maravilhosa!

PROFESSORA SUSANA – De onde veio?

NARRADORA – A Avó Floresta conta toda a sua história. Enquanto os meninos comem e bebem. Todos ouvem atentamente, e as professoras ficam comovidas.

PROFESSORA NICOLE – Estão a ver meninos, como vocês têm muita sorte?! (p.c) Devem ficar sempre muito contentes por tudo o que têm...e tratar muito bem a Natureza, limpar tudo o que possa provocar incêndios, para não acontecer como a senhora, e como aconteceu noutras localidades.

AVÓ FLORESTA – Verdade! (p.c) Meninos, não devem ficar tristes com os vossos pais, nem resmungar com eles quando eles não vos dão o que vocês querem...devem ficar felizes com tudo o que têm, mesmo que achem pouco. Agora vocês têm tudo...mas de certeza que os vossos pais eram muito mais felizes, como eu, porque não tinham nada...mesmo os nossos brinquedos, muitos deles, eram inventados por nós! E divertíamo-nos muito. Os vossos pais não podem dar-vos tudo o que querem. Vocês tem que ter desejos para pedir às estrelas, e prendinhas para escrever ao Pai Natal...se tiverem tudo o que querem ao mesmo tempo, não tem piada...o mais importante é que os vossos papás vos deem comida, roupas para vestirem e para vos agasalhar, sapatos para não andarem descalças, e muito amor, muito carinho, muitos beijinhos e abraços, colo, sorrisos, que brinquem convosco...e também...que ralhem convosco e que vos deem umas sapatadinhas quando se portam mal! (p.c) As coisas materiais não são o mais importante! (p.c) Há meninos que não têm nada!

PROFESSORAS – Tem toda a razão!

NARRADORA – Os meninos estão maravilhados.

DIOGO – Como eram os seus brinquedos?

NARRADORA – A Avó conta às crianças como eram os brinquedos, e explica como eram construídos. As crianças e as professoras estão maravilhadas.

PROFESSORA SUSANA – A Sra. Não se sente sozinha aqui?

AVÓ FLORESTA – Senhora...?! Ai, menina, por favor, senhora não...Avó...podem-me chamar Avó Floresta!

TODOS (surpresos) – Avó Floresta?

AVÓ FLORESTA – Sim! É como eu sou sempre chamada, desde pequena! (p.c) Respondendo à sua pergunta...sim, querida...sinto-me muitas vezes, muito sozinha...só tenho a companhia dos bichos...mas falo com eles e já fico melhor. (p.c) Sabe...não vem aqui quase ninguém...ainda bem! Só alguns estudantes e estudiosos da floresta...e esses já me conhecem, mas é bom que não venha aqui muita gente porque assim não estragam este paraíso!

PROFESSORAS – Claro!

AVÓ FLORESTA – Não tenho filhos, nem sou casada, mas mesmo assim sou muito feliz aqui!

CAROLINA – A Avó Floresta sabe alguma história?

AVÓ FLORESTA – Sei...milhares de histórias, filha!

CAROLINA – Pode contar-nos alguma?

AVÓ FLORESTA – Com todo o gosto…

NARRADORA – A Avó Floresta conta uma história deliciosa, encantada, mágica...com tanta expressividade que as crianças e as professoras conseguem imaginar e sonhar acordadas, e riem, suspiram, e emocionam-se, estremecem...todos ficam maravilhados. No fim da história todos batem palmas.

AVÓ FLORESTA (feliz) – Obrigada! (p.c) E se viessem todos os dias aqui, ouviam todos os dias uma história diferente!

TODOS (sorriem) – Conte, conte...

PROFESSORA SUSANA – A Avó não se importa...e gostaria...de ir ao nosso colégio contar histórias tão bonitas e tão educativas como esta aos nossos meninos?!

PROFESSORA NICOLE – Sim...era excelente! (p.c) São lições de vida e grandes aprendizagens para estes futuros cidadãos.

PROFESSORA SUSANA – Sim, e são diferentes das que eles conhecem.

CRIANÇAS – Siiiim!

GONÇALO – Venha, Avó!

CAROLINA (sorridente) – Nós queremos ouvir as suas histórias!

DIOGO – Sim...Assim tem-nos como netos.

NARRADORA – A Avó e as professoras abrem um grande sorriso!

SOFIA (sorri) – A Avó Floresta é tão boa pessoa…

DIANA (sorridente) – Sim...e é bonita...e simpática…!

DIOGO – Podia também fazer os lanches para nós!
(A Avó ri)

PROFESSORA SUSANA – Que atrevido!

RAFAELA – Vá lá Avó...venha!

PROFESSORAS (sorridentes) – Sim! Por favor, por favor…!

AVÓ FLORESTA (feliz) – Está bem...eu aceito ir contar-vos as minhas histórias ao vosso colégio!

TODOS – Ééééééhhhh...!

NARRADORA – Dirigem-se todos para a Avó Floresta, abraçam-na e beijam-na carinhosamente, ela ri e retribui.

AVÓ FLORESTA (sorri) – Que meninos tão maravilhosos! Hoje já ganhei muitos netos...não são os meus netos biológicos, porque eu não tenho filhos, mas serão os meus netos do coração! E as professoras são também as minhas netas!

NARRADORA – As professoras também abraçam a Avó e sorriem emocionadas.

DIANA (sorri) – Agora a Avó nunca mais se sentirá tão sozinha!

AVÓ FLORESTA (sorridente) – Pois não! (p.c) Quando começo minhas netas?

PROFESSORAS (sorriem) – Amanhã!

PROFESSORA SUSANA (sorri) – Se puder e quiser, claro!

AVÓ FLORESTA (sorri) – Está combinado! Amanhã.

PROFESSORA NICOLE (sorri) – À hora que lhe der mais jeito...é só dizer que é a Avó Floresta.

AVÓ FLORESTA (feliz) – Está bem!

PROFESSORA SUSANA – Avó...nós ficávamos aqui o resto do dia e da noite, mas temos de regressar ao colégio.

TODOS – Óóóóhhh…

AVÓ FLORESTA – Já? Óóóóhhh...eu estava tão feliz e tão bem convosco aqui…! (p.c) Podem voltar sempre que quiserem! (p.c) Não querem mais nada?

TODOS (sorriem) – Não, obrigada!

AVÓ FLORESTA (sorri) – Vão, queridos...boa viagem, e encontramo-nos amanhã está bem?

TODOS (sorriem) – Está bem!

NARRADORA – Cada um dá mais um abraço e beijos à Avó, e voltam felizes para o colégio. No dia seguinte como combinado, a Avó aparece feliz no colégio e é recebida numa grande festa e alegria, com muito carinho. Conta uma história e todos ficam maravilhados a ouvir, muito atentos, riem e batem palmas. E a partir desse dia, a Avó passou a ir ter com os seus netos do coração, que a adoravam...contava as histórias, cozinhava para eles, fazia mantinhas e bonecos de pano e de trapos e de malhas, bolos...e as crianças também passaram a ir todos os dias ao lar conviver com os Avós adotivos que ficavam sempre muito felizes, e que muito tinham para ensinar às crianças. Os dias dos Avós passaram a ser muito mais dinâmicos e muito mais alegres, com o convívio das crianças e o carinho destes. Devemos sempre respeitar os Avós biológicos e os Avós do coração...e temos muito a aprender com eles!


      Fim 

                                                                                  Lara Rocha 

                                                                                (2/Agosto/2012)