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sábado, 22 de agosto de 2020

Os colecionadores de lágrimas

 
Foto de Lara Rocha 
  

    Era uma vez um jovem artista, que colecionava lágrimas de pessoas. Por onde andava, sem que as pessoas percebessem, recolhia as lágrimas e guardava-as nos bolsos até chegar a casa. De vez em quando, pedia às pessoas que lhe dessem as suas lágrimas, quando não queria ser demasiado atrevido. 
    Geralmente, o jovem não dizia que era para construir obras de arte em vidro, e muitas vezes, ouvia «nãos», palavras agressivas, de pessoas que achavam que era louco, ou que tinha segundas intenções com esse pedido, e escorraçavam-no. 
    Outras pessoas eram simpáticas, mesmo sem perceber para que é que ele queria as lágrimas, deixavam-no recolhê-las, coisa que fazia com carinho. Agradecia muito, e quando regressava a casa, dividia as lágrimas por frascos, de acordo com as emoções que as fizeram cair.  
    Umas iam para o frasco da tristeza, de cor escura, quando choravam de dor, solidão, ilusões e desilusões, amores não correspondidos, fracassos, zangas. Outras para um frasco vermelho, se eram provocadas por raiva, irritação, frustrações e saudades. Para um frasco de várias cores, iam as lágrimas de felicidade, alegria, risos, conquistas, reencontros, boas notícias, saúde, e gargalhadas. 
    As suas lágrimas preferidas eram as dos frascos de várias cores, e era com elas que construía as mais bonitas e verdadeiras obras de arte, em vidro: estátuas com as expressões faciais das emoções, jarras, flores e outras com formas geométricas. Outras vezes, misturava os vários tipos de lágrimas. 
    Para algumas obras, metia as lágrimas numa máquina que as transformava em plasticina e massa mole, às quais o jovem juntava as cores que queria, e misturava tudo, como se estivesse a brincar. Outras metia numa espécie de micro ondas, para não ficarem muito duras, nem muito moles, salpicava com tintas e usava muitos materiais diferentes para construir o que imaginava, até algodão. 
    Certo dia, tentou vender muitas das suas peças, para ganhar espaço e algum sustento. Todos ficaram encantados, mas para surpresa sua, as mais vendidas foram aquelas feitas de lágrimas de tristeza. As mais coloridas ficaram para trás. 
    Uns dias depois, tentou vender só as de cores alegres, e não conseguiu. Lembrou-se de convidar um amigo palhaço, para trabalhar com ele. Explicou-lhe o tipo de trabalho, e o amigo aceitou de imediato. No dia seguinte, lá foram os dois, o seu amigo palhaço atraiu muita gente com a sua simpatia e brincadeiras, venderam tudo. 
    Para agradecer, o artista recolheu muitas lágrimas das pessoas que muito se riram com o palhaço, sem elas perceberem, durante vários dias seguidos. Com essas lágrimas construiu uma obra de arte, grande, dois amigos a dar um abraço e um sorriso aberto, toda colorida, para agradecer ao seu amigo a amizade que os unia há muitos anos, e a ajuda que este lhe estava a dar. 
    O amigo ficou sem palavras, e concretizou o abraço, agradeceu, e muito orgulhoso continuou a trabalhar com o artista. O problema foi que, com tanto sucesso, o artista tornou-se uma pessoa distante, fria, vaidosa. O seu amigo palhaço, ficou tão triste, que recolheu todas as suas lágrimas e ofereceu-as ao artista. 
    O artista recebeu-as, e quase não lhe deu atenção, só estava centrado nas suas obras grandes. Quando utilizou as lágrimas que o amigo lhe deu, todas as suas obras estalaram, partiram, derreteram. O artista não percebeu porque é que tal aconteceu, e foi a casa do amigo, muito irritado tirar a situação a limpo. 
    Gritou com o amigo, chamou-lhe falso, vigarista, interesseiro, e outras coisas feias. O amigo ouviu até ao fim, triste. 
- Já acabaste? - perguntou o amigo palhaço
- Já. Ainda queres mais? - pergunta o artista zangado 
- Agora vou falar eu…As lágrimas que te dei, mostram o que aconteceu às tuas obras! São o espelho de como me sinto, desde que a fama de subiu à cabeça. De coração partido, estalado, estilhaçado. Estou desiludido e magoado contigo. Desde que te tornaste conhecido, esqueceste que eu existo, que somos amigos desde crianças, que crescemos juntos, e que estivemos do mesmo lado, sempre que um de nós precisou, nos piores momentos. Esqueceste-te que vendeste muito desde que eu trabalhei contigo, mais uma vez estive ao teu lado, a chamar as pessoas para as tuas obras. Desde que és famoso, só pensas nas tuas obras, na tua fama, no dinheiro, e quem está à tua volta, deixa de existir. Desde que cresceste, diminuíste como pessoa, desapareceste como amigo. Não falas mais comigo, nem com quem gosta de ti. Fiquei muito desiludido contigo! Se as tuas obras se desfizeram com as lágrimas que te ofereci, com aquelas que chorei por causa da tua indiferença, foi para te mostrar como eu fiquei e como estou. Só assim é que te lembraste de mim. 
    O artista fica em silêncio. 
- Desculpa! Acho que tens razão. 
    Vira costas e sai. Vai para casa, pensa muito na situação e fica triste. Passadas umas horas, volta a casa do amigo, depois de também muito chorar. 
- Será que mereço uma segunda oportunidade? Eu sei que errei, magoei-te, desiludi-te, fui injusto contigo, egoísta...mas será que me podes perdoar e voltar a ser meu amigo? 
- Estás a dizer isso só porque precisas de mim, ou de coração? - pergunta o amigo palhaço
- Estou a falar de coração. 
    Os dois olham-se fixamente, e num impulso trocam um abraço longo, choram os dois de alegria, e o artista recolhe as lágrimas dos dois. 
- Obrigado, amigo. Queres ver como estou a falar de coração? 
    Constrói uma obra com as lágrimas dos dois, e até ensina o amigo a sua arte. A obra não se destrói, pelo contrário, parece feita de cristal brilhante. 
- Vês?! 
    Os dois passam a trabalhar em conjunto, na recolha de lágrimas, e na construção de obras que  vendem, dividindo os lucros pelos dois. O mais importante, foi continuar a amizade que quase se destruiu como as obras feitas com as lágrimas do coração partido, por causa de ganância e atenção excessiva às obras, à grandeza, ao dinheiro e à fama. 
    Às vezes é o que acontece com as amizades de hoje em dia. Há valores que falam  mais alto, e partem o vidro mais bonito de cada um, estatelam o nosso interior, fazem-nos colecionar lágrimas em frascos de cores escuras, em vez de construirmos lindas obras de vidro com as nossas lágrimas dos frascos de várias cores, onde se inclui a amizade. 

                                                     FIM 
                                                 Lara Rocha 

                                                          22/Agosto/2020  

                                                             

                                                      
    
  

A lua de todos nós


Foto de Lara Rocha 

Há uma lua que nos espia lá em cima. 

Há uma lua que nos espreita, 

há uma lua que nos ilumina, 

há uma lua que nos vê. 

Há uma lua que nos sussurra, 

há uma lua que nos embala, 

há uma lua que nos envolve. 

Há uma lua que nos inspira, 

há uma lua que nos pega ao colo, 

há uma lua que nos espera. 

Há uma lua que nos escuta, 

há uma lua que nos conta histórias, 

há uma lua que nos faz sonhar. 

Há uma lua que brinca connosco, 

há uma lua que nos segue, 

há uma lua que nos encanta. 

Há uma lua que nos guia, 

há uma lua que nos toca, 

há uma lua que nos beija. 

Há uma lua que nos canta, 

há uma lua que nos sorri, 

há uma lua que nos ouve. 

Há uma lua...lá fora, em mim, em ti, para mim, para ti no mundo, em todos nós! 



                                                                Lara Rocha 

                                 2/Agosto/2020 

                                                                              



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sexta-feira, 21 de agosto de 2020

O sonho gelado e o mundo real

         






















desenho de Lara Rocha 



         












          Era uma vez uma terra gelada, numa grande cidade, coberta de neve que não derretia. As casas eram feitas de gelo, os habitantes eram criaturas de gelo, sem expressões faciais, e outras com expressões neutras, ou carrancudas, tristes, aborrecidas, pesadas. 
         Já estavam habituados a viver naquele gelo, mas um dia, uma criatura estranha, nunca antes vista, visitou aquela terra. Por fora era feita de pequeninas chamas que flamejavam à medida que ela se mexia, aumentavam e diminuíam. 
         Por onde passou, as pessoas que eram de gelo sentiram um grande calor, e uma grande vontade de se abraçarem umas às outras, o que nunca tinha acontecido. Tinha um sorriso que iluminava tudo e fazia as pessoas de gelo sorrir. 
         Mergulhou no rio, o gelo derreteu e borbulhou, as pessoas viram-na tão feliz, que quiseram experimentar. O rio ficou cheio de gente, que ficou sem gelo, e apareceram pessoas humanas, umas mais bonitas que as outras, começaram a falar umas com as outras, abraçaram-se, riram, brincaram, mergulharam. 
         A paisagem que era escura, ficou dia claro, cheio de sol e céu azul. Onde era gelada transformou-se num manto verde, cheio de flores, de todas as cores e espécies, animais a correr livremente, e a pastar, todas as fontes que estavam geladas há milhares de anos ficaram a descoberto, e deitavam água que dava gosto ver e ouvir, a cair por uma série de rochas. 
         Onde havia silêncio e gelo, ouviam-se pássaros, e nasceram árvores, risos de crianças a brincar, pessoas a falar alegremente umas com as outras. Como tudo estava lindo, e maravilhoso! De repente, esse mundo mágico desapareceu outra vez, a jovem abriu os olhos, sorriu, mas logo ficou triste, ao perceber que tinha sido só um sonho… a sua vontade que o seu mundo gelado, onde vive, com pessoas como ela, mas geladas, fosse um mundo colorido, luminoso. 
         No mundo desta jovem, as pessoas são de carne e osso, mas parecem feitas de gelo, como no sonho, pela indiferença com que muitas vezes tratam os outros, pela correria, pela falta de tempo, pela ganância, maldade, ambição de ser mais que o outro, e esquecem-se de ser chama! Como aquela pessoa feita de chaminhas no sonho. 
         Ela vivia assim em dois mundos diferentes: no seu mundo real, gelado, e no seu mundo ideal que só existe nos sonhos. Podemos ser como a personagem das chamas, se olharmos um bocadinho mais para o outro que pode precisar, tal como nós, e pelo menos nesse bocadinho derreter a paisagem gelada que nos cerca. 

                                                                    Fim 
                                                                 Lara Rocha  
                                                               21/Agosto/2020

domingo, 16 de agosto de 2020

Sensações agradáveis

SENSAÇÕES AGRADÁVEIS.

Imaginem que vão a passear alegremente a caminho de uma linda e maravilhosa floresta.

Antes de lá entrar, passam por um parque muito agradável…com árvores grandes e recheadas de folhas.

Num dos ramos dessas árvores, vive uma família de passarinhos: os pais, que foram buscar comida, e os filhotes, que ficaram no ninho.

Passa um macaco muito estouvado, habitante da floresta, e com a brincadeira de subir à árvore, como é muito curioso, quase deita o ninho abaixo, e um passarinho cai aos vossos pés. Vocês assustam – se.

E…muito zangados, ralham com o macaco, ficam com pena do passarinho, pegam nele com cuidado, o bichinho está a tremer e a piar assustado, fazem – lhe festinhas para o sossegar.

As peninhas dele são tão fofinhasque bom que é tocar – lhe na cabecinha. O passarinho fica mais sossegado. Vocês estendem o braço com o passarinho na mão e põem – no no ninho juntamente com os outros. Olham para os passarinhos, sorriem, fazem uma festinha aos 4 passarinhos, fazem sinal com a mão «xau» e seguem para a floresta. 

            Na floresta está um dia quente, mas como há muitas árvores frondosas e sombra sente – se uma brisa muito suave, que transporta consigo cheiro a flores, a eucalipto das folhas que os kualinhas estão a comer, e a outras coisas.

            Ouvem – se os passarinhos a cantarque bem que cantam…parecem canções de embalar…estão a dar – vos as boas – vindas! Sorriam para lhes agradecer.

            Inspirem o ar purohummmm…que delícia…sabe tão bem…até podem esticar os braços, bocejar…o que quiserem, desde que se sintam livres, e bem dispostos.

            A erva que vocês pisam é fresca, verde…apetece tirar os sapatos e senti – la mesmo nos vossos pezinhos, correr em cima dela, rebolar…mas não façam isso…choveu nos dias anteriores e se molham os pés ou a roupa podem ficar doentes.

            Sigam em frente que vão encontrar mais surpresas…estão a andar…olham para o vosso lado…ááááááááhhhhhh….tão queridos…uns póneis, umas lindas éguas e uns cavalos elegantíssimos…uns brancos…outros castanhos…outros malhados…que bonitos! E vejam como eles estão felizes a correr soltos, e a relinchar. Apetece – vos fazer – lhes companhia não é? Tentem…vão ter com eles, de mansinho…mas talvez se assustem…! Vocês…vão apenas ter com eles, fazer uns carinhos nos seus pêlos macios e brilhantes…o dono deles está de olho em vocês, e andam uns cães à solta que vão ter convosco. Vocês primeiro assustam – se, eles cheiram – vos, o dono diz – vos que eles não mordem, que podem fazer festinhas à vontade. Vocês fazem festinhas aos cães…e eles abanam o rabo felizes, lambem – vos, rebolam na relva e viram – se de barriga para cima…que engraçados…estão a pedir miminho…vocês fazem – lhes mimos.

            Continuam a andar pela floresta e por entre as árvores vêem uns coelhos muito despachados a correr, a esconderem – se nas tocas…uns esquilos a descer e outros a subir às árvores, a roer bolotinhas…, alguns macacos a saltitar e a brincar uns com os outros…tão engraçados…! Sorriem e continuam o passeio.

            Estão vocês a andar alegremente, e umas borboletas…um grupo grande acompanha – vos, voam à vossa volta. Vocês olham – nas e seguem os seus movimentos…rodam a cabeça para cima, para o lado direito, para o lado esquerdo, e vocês tentam apanhá-las, mas elas não se deixam apanhar.

Aparecem quatro gatinhos pequeninos, muito bonitos e fofinhos, a miar docemente…tão fofinhos…parecem umas bolinhas de pêlo. Vocês sentam – se no chão para lhes fazerem festinhas, e brincar com eles. Eles gostaram de vocês…sobem para as vossas pernas, enroscam – se no vosso colo, nas vossas pernas, e até no vosso pulso…vocês riem – se, e brincam com eles, rebolam como eles na relva, pegam neles ao colo, fazem festinhas, gatinham com eles e como eles, e vão a brincar juntos o resto do caminho.

            Óóóóóóhhhh…que pena…a mamã está a chamar – vos. Vocês levantam – se, fazem outra vez o caminho, mas ao contrário, apanham umas lindas florinhas para a mamã e outras para a vovó. Quando chegam à beira da mamã oferecem – nas e dão – lhe um abraço e um beijinho. Ela agradece – vos, e retribui o abraço e o beijinho

Situação 3

Está um dia radioso…cheio de sol e calor. Vocês vão para a praia com os vossos pais e menos, e carregados de coisas para brincar.

            Uuuuaaaauuuuu…! O mar está tão baixinho…boa …! Há montes de possecas…que fixe…podem ir para a água e brincar com os baldinhos e as pás, fazer castelos encantados como os dos príncipes e princesas…os meninos vão poder jogar á bola e fazer corridas de motos e de carros nas pistas de areia. Que giro…! Vocês estão muito felizes, eufóricos…saltitam, batem palminhas, tiram a roupa, pegam nos brinquedos e começam a correr.

            A mamã recomenda-vos para não de afastarem e vocês obedecem. Só ficam lá diante dos olhos dos vossos papás que estão muito perto. Estão muito contentes a brincar na água, a encher os baldinhos com areia…e…surpresaaa…estão duas estrelas do mar, grandes a sorrir para vocês, encostadas nos penedos. Vocês ficam espantados…querem tocar, mas têm um bocadinho de medo…já ouviram falar nas estrelas do mar, mas ficam na dúvida se podem tocar nelas ou não…vocês estendem a mão e tentam agarrar…puxam a mão para trás outra vez e não tocam.

            Vão perguntar à mamã…a mamã diz-vos que podem tocar na estrela do mar, e até vai convosco vê – la. Que gira…! A mamã pega numa das estrelas do mar e vira – a ao contrário para vocês verem como é que ela é…! Vocês tocam – lhe, as patinhas muito pequeninas dela fazem – vos cóceguinhas nas mãos e nos dedos. Vocês riem e querem levá-la para casa. A mamã faz-vos a vontade! Leva-a para cima e põe-na ao sol. E se a deixar ao sol mais alguns dias vão poder pô-la na prateleira do vosso quarto a enfeitar.

            De repente passa um cão enorme por vocês, a correr…vocês assustam – se, gritam e choram, mas a mamã está à vossa beira…faz umas festinhas ao cão e o dono está por perto, diz que não faz mal. Realmente, o cão fica todo feliz com os mimos, até de deita na areia de barriga para cima, com a língua de fora, a vossa mamã está deliciada a fazer mimos ao cão, na barriga, no lombo, na cabeça, e nas orelhas.

            Como a mamã diz que o cão não faz mal, vocês também lhe fazem festas e riem. O cão segue com o seu dono, vocês e a mamã continuam a brincar. Ufff…que susto…mas…que alívio…a mamã estava lá junto de vocês.

            De tanta água, ficam com frio. A mamã leva-vos para o sitio onde estão, enrola-vos na toalha…hummm…que bom…a toalha está mesmo quentinha…e é tão bom senti-la na vossa pele…huummmm…sentem fome e sede…vão á lancheira da mamã e tiram de lá água e pãozinho com manteiga…que delicia!

            Na hora de mais calor e em que o sol é mais perigoso, vão para casa. 

                                                              Lara Rocha 

                                                              16/ Agosto/ 2020  

terça-feira, 28 de julho de 2020

O cisne flor

        

  
         Era uma vez um lindo cisne que vivia com outros cisnes, patos, gansos e outras aves aquáticas,  num lago do parque de uma grande cidade. Viviam todos como família, entendiam-se muito bem, eram amigos, brincavam e passeavam juntos, mergulhavam, gostavam de ser o centro das atenções e até faziam habilidades para repararem neles.
      Entre todos, havia um que se destacava mais, por ser enorme, branco, e discreto. Era mais atraente do que os outros, porque tinha uma deficiência nas asas, só que essa deficiência não era visível, mas todos os visitantes reparavam nele. 
    Porque, conforme os movimentos que fazia com o seu corpo, e as asas, sempre que as abria, para se espreguiçar, nadar, mergulhar, andar na água mais depressa ou mais devagar, parecia uma flor: às vezes uma rosa em botão, outras vezes, uma rosa enorme, aberta, um girassol ou uma tulipa.
      Chamavam-lhe o cisne flor, misterioso, todos o queriam ver e fotografar, mas ele nem sempre fazia a vontade às pessoas, era um bocadinho envergonhado. Ele gostava mais de surpreender as pessoas solitárias, e com mais idade que iam apreciar o nascer e o pôr do sol.
        Nestes momentos, o cisne sentia orgulho em mostrar as suas asas, porque também ele adorava acordar cedo, e encher-se com a luz dos primeiros raios de sol. Como as suas asas eram brancas e finas, ganhavam um tom amarelo, dourado, brilhante, parecia que as atravessavam e apareciam as flores.
     Mexia-se, enquanto se refrescava, e dava a sensação de que as flores também se mexiam. Os mais velhos que os viam, suspiravam, sorriam, e aplaudiam para agradecer aquela magia que lhes dava alegria e vontade de viver o resto do dia. 
   Alguns até agradeciam e diziam que só podiam ser anjos que pousavam naquele cisne para acariciar quem o via.
        O cisne já conhecia cada pessoa que ia vê-lo todas as manhãs, e sentia-se feliz por ver o encanto nos olhos e no sorriso de quem o apreciava. Outro momento mágico era nas noites de Lua Cheia, quando o reflexo da Lua iluminava o lago e todo o espaço à volta.
      
    Nessas noites, o cisne não dormia, porque o parque enchia-se de casais apaixonados, e grupos de amigos adolescentes, adultos, que se encontravam para apreciar, mas agora, as suas asas ganhavam um tom branco azulado, quase prateado.
    O cisne desfilava e dançava na água, quase parecia dançar com a Lua, e movia as suas asas, que formavam as flores, tocadas pelas cores da Lua. 
    Era um espetáculo encantador e encantado. Os casais e jovens aplaudiam e fotografavam o cisne, outros desenhavam-no, mas não conseguiam transmitir a beleza das suas asas.
      Os outros cisnes, patos, gansos e outras aves aquáticas, não faziam ideia do que este cisne era capaz. Talvez nem o próprio soubesse, mas para ele o mais importante e a verdadeira recompensa, era a alegria e encanto que via nos olhos de quem o apreciava. 
      Não era a deficiência nas asas que o impedia de ter valor, e de ser feliz, de fazer bem aos outros. E as pessoas com deficiência também são cisnes flores com o seu valor na diferença, porque na verdade também somos todos diferentes, e perfeitos na nossa imperfeição. 

                                     FIM

                                     Lara Rocha 
                                                            
                                       28/7/2020 
                                                                                  
           

quarta-feira, 24 de junho de 2020

monólogo/ diálogo para adolescentes e adultos sobre suicídio (psicólogos, estudantes de psicologia, e população em geral)

       
                                                 Foto de Lara Rocha 

       Ela ouviu uma voz doce que a chamava...sentiu uma presença sem rosto, sem cor, sem sombra nem tamanho, mas com um cantar arrepiantemente belo e melodioso. Uma outra voz humana gritou-lhe, mas ela não a ouviu. 
      Estava encantada com aquela voz. Seguiu-a e num abrir e fechar de olhos, fundiu-se naquela voz, e cantou a paz que a sua alma não encontrou, com a sereia no silêncio daquela, onde o mar chorou! 
      Aquela sombra sedutora, que só ela via, conquistou o seu coração até então vazio...falava com ela e dizia-lhe as coisas mais maravilhosas que mais desejava ter ouvido daquele que amou! 
      A sombra que só ela via, jurou-lhe amor eterno...para além da terra e da vida, estava esfomeada de amor, e seguiu a sombra. Ambos fizeram a viagem das vidas deles. Sim, foi mesmo uma viagem para toda a eternidade naquela linha de comboio. 
      Ela dizia que o seu corpo era habitado por corvos. Ela sentia as garras dos corvos negros apertarem-lhe a garganta e tomarem conta do seu corpo. 
      Queria livrar-se deles, mas quanto mais ela tentava, mais eles a apertavam...parecia que ia sufocar. Então, a maneira que ela encontrou de deixar voar os corvos que habitavam o seu corpo, foi cortar-se em várias partes. 
      Pensou que tinha conseguido correr com eles, sentiu alívio, e esqueceu por momentos a dor, mas uma ave branca salvou-a. 

       O suicídio não tem raça, cor, género, idade ou profissão, família, riqueza ou pobreza. O suicídio é o grito ensurdecedor de uma alma vazia, ferida como uma gaivota que quer voar, quer ser mais forte que o vento, ela luta o mais que pode...enquanto pode...até que sucumbe ao cansaço. 

        Sente que não tem  nada a perder, e deixa que o vento a leve, na esperança de uma transformação...talvez...até tenha a ganhar! 

        Ganhar um novo fôlego, uma nova vida e deixa que o vento a leve para onde quer. Mesmo que para o fundo do mar, ou que se lance de um precipício. 

        Como tu, fizeste isso. Pensaste que eras gaivota? Ou invejaste a vida dela? E como uma lança disparada do infinito, o teu grito de revolta ecoou pela encosta e fez tremer o mar onde se afundou no silêncio eterno e assustadoramente frio. 
        Ninguém sabe para onde foi a lança, ou o grito, o certo é que ninguém reparou que essa lança era um pedido de ajuda! Chamaram-te louca, como se isso resolvesse. 

        O suicídio é um grito ensurdecedor, cruel, que usa o corpo em vez da voz! Mas por muito má que seja a situação e por muito grande que seja a tristeza, enquanto estamos de olhos abertos podemos pensar, pedir ajuda, lutar...a morte pode parecer o caminho mas não é. 
        E quem está em sofrimento sabe-o, simplesmente o nevoeiro da sua floresta por onde vagueia não deixa ver a luz que a tirará das trevas. 

       Qualquer um de nós pode ser as asas de algum pássaro ferido, caído no chão que não consegue voar. Podemos alimentá-lo e devolvê-lo à liberdade quando estiver novamente forte e capaz de voar em todas as direções. Não te iludas…! Do lado de lá não podes resolver nada!  
       A morte pode parecer-te o caminho mais curto, mais fácil, ou simplesmente… o caminho! Não acredites! O caminho é na Terra onde tens os pés pousados...e há tantos! Procura uma luz! Segue os caminhos por onde vires luz, mesmo que haja nevoeiro, a luz da vida e o pulsar do teu coração guiar-te-ão. 
        Porquê? Se tudo parecia bem, tu sorrias, e rias, brincavas, e de repente...porquê? Se estávamos aqui? Porque não pediste ajuda? Porque não te abriste connosco? Os amigos não são só para a diversão, muito pelo contrário, estão aí para os piores momentos. E tinhas tantos… porque fizeste isso? 
        Não é justo! Tantos porquês...tantas dúvidas, tantas hipóteses que levantamos, mas só tu poderias dizer o que realmente te empurrou para o precipício! 
        Agora...nada podemos fazer. Descansa, vive a tua paz! Onde quer que estejas, e olha por nós. Protege outros que tentem fazer o mesmo que tu! 
       Descansa, e quando acordares conversamos…! Mas não te livras de uma tareia. Uma tareia já deste a todos. Acreditamos em ti, na tua força, e vais vencer, vais voltar. Coragem, estamos contigo, e cá te esperamos! 
       Não precisavas de fazer isso para nos chamar a atenção mas nós perdoamos-te, o que queremos é que fiques bem, e estamos aqui para te ajudar, quando acordares dessa overdose! 
       Queres gritar a tua dor, grita! Nós ouvimos. Queres explodir a tua raiva, explode, nós estamos aqui para recolher os estilhaços e colar o teu coração. 
       Liberta tudo o que te sufoca, nós estamos aqui para te ouvir, para te ler, para te fazer companhia, para chorar e rir contigo, para te abraçar. 
       Ainda tens muito para viver, muito para sofrer e crescer, e nós estamos sempre aqui. Pede ajuda. Não sejas teimosa. Não estás sozinha, ou sozinho! 
       Há sempre uma mão estendida, ouvidos para te ouvir, braços para te abraçar, e devolver-te à vida. Não te entregues à tristeza. Luta. É assim que te tornas pessoa, aqui na Terra, ao nosso lado! 

                                                          Fim
                                                       Lara Rocha 
                                                   23/Junho/202o

                                             
Silêncio 

Silêncio é a única coisa que me ocorre 
neste momento, 
em que todas as palavras 
que existem na minha mente 
Evaporaram-se no espaço, 
No escuro da noite, 
No escuro da morte 
Tão cedo! 
As minhas palavras choram… 
Não conseguem sair da minha boca, 
Apenas recolhem-se nas suas conchas 
Estão frias…
Como tu estás agora. 
Porquê?
Porquê? 
Pedro…
A resposta a este porquê, 
Permanecerá no silêncio  cortante
Da pedra onde repousas. 
Porquê? 
Porquê? 
Com tanto que podias fazer, 
Tanto que podias dar…
Descansa em Paz! 
Devias procurá-la em VIDA! 
Encontrá-la-ías de certeza. 
Mas entregaste-te ao cansaço…
Perdeste a força
Perdeste o sorriso…
Perdeste tudo. 
Que a tua luz se reacenda 
Lá em cima 
E ilumine todos 
os que passam pelo mesmo motivo 
Que te levou a tornar-te estrela. 
Era aqui na TERRA que tu devias continuar. 
Mas a tua dor não permitiu. 
A tua terminou, 
Mas a de muitos...aumentou. 
Resistirão…
Talvez! 
Onde quer que estejas
Ilumina todos os que sofrem. 
Até sempre…

Lara Rocha 
28/Abril/2014 
                                        

                                                
 

terça-feira, 23 de junho de 2020

monólogo - Os segredos das lágrimas


Cada lágrima, conta um segredo nunca confessado, um desejo nunca realizado, um sonho, uma recordação ou várias recordações: felizes, tristes, doces, românticas. Cada lágrima revela ou desvenda um sentimento, uma emoção, um medo. Cada lágrima conta momentos de dor, de saudade de alguém, de algum lugar, de alguma coisa especial... um momento, um tempo feliz, e mesmo de alguns minutos inesquecíveis...Cada lágrima...conta mágoas...rancores, iras, frustrações, derrotas,vitórias...Cada lágrima...solta um grito, ou vários gritos silenciosos...profundos, que têm de ser calados, sufocados...Que emanam do oceano interior...Grito de aflição, dor, tristeza, raiva, ódio...
De amores não correspondidos, proibidos, que não saem dos sonhos...Cada lágrima, conta a solidão, canta a tristeza. Cada lágrima...varre a alma, limpa o coração, purifica, descongela-nos. Liberta o que está preso na alma...Cada lágrima...Mostra tudo o que temos dentro de nós...quando as máscaras caem...Cada lágrima...despe-nos, mostra o que somos realmente. Cada lágrima...Conta uma história de vida. O mar também tem lágrimas, e também elas guardam segredos. Nas suas águas revoltas, descanso os meus olhos, lavo a alma, nas tuas ondas, repouso os meus pensamentos, a ti entrego os  meus segredos e sonhos que não quero contar. Mas tu sabes quais são...Recebes cada um deles, como se fosse um tesouro, e embalas num barco seguro. Em ti posso confiar, óh mar...Silencioso! Guarda bem os meus lamentos, os meus pensamentos, os meus desejos...Só em ti posso confiar.



                                                                            Lara Rocha
                                                                          23/Junho/2020