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quarta-feira, 24 de junho de 2020

monólogo/ diálogo para adolescentes e adultos sobre suicídio (psicólogos, estudantes de psicologia, e população em geral)

       
                                                 Foto de Lara Rocha 

       Ela ouviu uma voz doce que a chamava...sentiu uma presença sem rosto, sem cor, sem sombra nem tamanho, mas com um cantar arrepiantemente belo e melodioso. Uma outra voz humana gritou-lhe, mas ela não a ouviu. 
      Estava encantada com aquela voz. Seguiu-a e num abrir e fechar de olhos, fundiu-se naquela voz, e cantou a paz que a sua alma não encontrou, com a sereia no silêncio daquela, onde o mar chorou! 
      Aquela sombra sedutora, que só ela via, conquistou o seu coração até então vazio...falava com ela e dizia-lhe as coisas mais maravilhosas que mais desejava ter ouvido daquele que amou! 
      A sombra que só ela via, jurou-lhe amor eterno...para além da terra e da vida, estava esfomeada de amor, e seguiu a sombra. Ambos fizeram a viagem das vidas deles. Sim, foi mesmo uma viagem para toda a eternidade naquela linha de comboio. 
      Ela dizia que o seu corpo era habitado por corvos. Ela sentia as garras dos corvos negros apertarem-lhe a garganta e tomarem conta do seu corpo. 
      Queria livrar-se deles, mas quanto mais ela tentava, mais eles a apertavam...parecia que ia sufocar. Então, a maneira que ela encontrou de deixar voar os corvos que habitavam o seu corpo, foi cortar-se em várias partes. 
      Pensou que tinha conseguido correr com eles, sentiu alívio, e esqueceu por momentos a dor, mas uma ave branca salvou-a. 

       O suicídio não tem raça, cor, género, idade ou profissão, família, riqueza ou pobreza. O suicídio é o grito ensurdecedor de uma alma vazia, ferida como uma gaivota que quer voar, quer ser mais forte que o vento, ela luta o mais que pode...enquanto pode...até que sucumbe ao cansaço. 

        Sente que não tem  nada a perder, e deixa que o vento a leve, na esperança de uma transformação...talvez...até tenha a ganhar! 

        Ganhar um novo fôlego, uma nova vida e deixa que o vento a leve para onde quer. Mesmo que para o fundo do mar, ou que se lance de um precipício. 

        Como tu, fizeste isso. Pensaste que eras gaivota? Ou invejaste a vida dela? E como uma lança disparada do infinito, o teu grito de revolta ecoou pela encosta e fez tremer o mar onde se afundou no silêncio eterno e assustadoramente frio. 
        Ninguém sabe para onde foi a lança, ou o grito, o certo é que ninguém reparou que essa lança era um pedido de ajuda! Chamaram-te louca, como se isso resolvesse. 

        O suicídio é um grito ensurdecedor, cruel, que usa o corpo em vez da voz! Mas por muito má que seja a situação e por muito grande que seja a tristeza, enquanto estamos de olhos abertos podemos pensar, pedir ajuda, lutar...a morte pode parecer o caminho mas não é. 
        E quem está em sofrimento sabe-o, simplesmente o nevoeiro da sua floresta por onde vagueia não deixa ver a luz que a tirará das trevas. 

       Qualquer um de nós pode ser as asas de algum pássaro ferido, caído no chão que não consegue voar. Podemos alimentá-lo e devolvê-lo à liberdade quando estiver novamente forte e capaz de voar em todas as direções. Não te iludas…! Do lado de lá não podes resolver nada!  
       A morte pode parecer-te o caminho mais curto, mais fácil, ou simplesmente… o caminho! Não acredites! O caminho é na Terra onde tens os pés pousados...e há tantos! Procura uma luz! Segue os caminhos por onde vires luz, mesmo que haja nevoeiro, a luz da vida e o pulsar do teu coração guiar-te-ão. 
        Porquê? Se tudo parecia bem, tu sorrias, e rias, brincavas, e de repente...porquê? Se estávamos aqui? Porque não pediste ajuda? Porque não te abriste connosco? Os amigos não são só para a diversão, muito pelo contrário, estão aí para os piores momentos. E tinhas tantos… porque fizeste isso? 
        Não é justo! Tantos porquês...tantas dúvidas, tantas hipóteses que levantamos, mas só tu poderias dizer o que realmente te empurrou para o precipício! 
        Agora...nada podemos fazer. Descansa, vive a tua paz! Onde quer que estejas, e olha por nós. Protege outros que tentem fazer o mesmo que tu! 
       Descansa, e quando acordares conversamos…! Mas não te livras de uma tareia. Uma tareia já deste a todos. Acreditamos em ti, na tua força, e vais vencer, vais voltar. Coragem, estamos contigo, e cá te esperamos! 
       Não precisavas de fazer isso para nos chamar a atenção mas nós perdoamos-te, o que queremos é que fiques bem, e estamos aqui para te ajudar, quando acordares dessa overdose! 
       Queres gritar a tua dor, grita! Nós ouvimos. Queres explodir a tua raiva, explode, nós estamos aqui para recolher os estilhaços e colar o teu coração. 
       Liberta tudo o que te sufoca, nós estamos aqui para te ouvir, para te ler, para te fazer companhia, para chorar e rir contigo, para te abraçar. 
       Ainda tens muito para viver, muito para sofrer e crescer, e nós estamos sempre aqui. Pede ajuda. Não sejas teimosa. Não estás sozinha, ou sozinho! 
       Há sempre uma mão estendida, ouvidos para te ouvir, braços para te abraçar, e devolver-te à vida. Não te entregues à tristeza. Luta. É assim que te tornas pessoa, aqui na Terra, ao nosso lado! 

                                                          Fim
                                                       Lara Rocha 
                                                   23/Junho/202o

                                             
Silêncio 

Silêncio é a única coisa que me ocorre 
neste momento, 
em que todas as palavras 
que existem na minha mente 
Evaporaram-se no espaço, 
No escuro da noite, 
No escuro da morte 
Tão cedo! 
As minhas palavras choram… 
Não conseguem sair da minha boca, 
Apenas recolhem-se nas suas conchas 
Estão frias…
Como tu estás agora. 
Porquê?
Porquê? 
Pedro…
A resposta a este porquê, 
Permanecerá no silêncio  cortante
Da pedra onde repousas. 
Porquê? 
Porquê? 
Com tanto que podias fazer, 
Tanto que podias dar…
Descansa em Paz! 
Devias procurá-la em VIDA! 
Encontrá-la-ías de certeza. 
Mas entregaste-te ao cansaço…
Perdeste a força
Perdeste o sorriso…
Perdeste tudo. 
Que a tua luz se reacenda 
Lá em cima 
E ilumine todos 
os que passam pelo mesmo motivo 
Que te levou a tornar-te estrela. 
Era aqui na TERRA que tu devias continuar. 
Mas a tua dor não permitiu. 
A tua terminou, 
Mas a de muitos...aumentou. 
Resistirão…
Talvez! 
Onde quer que estejas
Ilumina todos os que sofrem. 
Até sempre…

Lara Rocha 
28/Abril/2014 
                                        

                                                
 

terça-feira, 23 de junho de 2020

monólogo - Os segredos das lágrimas


Cada lágrima, conta um segredo nunca confessado, um desejo nunca realizado, um sonho, uma recordação ou várias recordações: felizes, tristes, doces, românticas. Cada lágrima revela ou desvenda um sentimento, uma emoção, um medo. Cada lágrima conta momentos de dor, de saudade de alguém, de algum lugar, de alguma coisa especial... um momento, um tempo feliz, e mesmo de alguns minutos inesquecíveis...Cada lágrima...conta mágoas...rancores, iras, frustrações, derrotas,vitórias...Cada lágrima...solta um grito, ou vários gritos silenciosos...profundos, que têm de ser calados, sufocados...Que emanam do oceano interior...Grito de aflição, dor, tristeza, raiva, ódio...
De amores não correspondidos, proibidos, que não saem dos sonhos...Cada lágrima, conta a solidão, canta a tristeza. Cada lágrima...varre a alma, limpa o coração, purifica, descongela-nos. Liberta o que está preso na alma...Cada lágrima...Mostra tudo o que temos dentro de nós...quando as máscaras caem...Cada lágrima...despe-nos, mostra o que somos realmente. Cada lágrima...Conta uma história de vida. O mar também tem lágrimas, e também elas guardam segredos. Nas suas águas revoltas, descanso os meus olhos, lavo a alma, nas tuas ondas, repouso os meus pensamentos, a ti entrego os  meus segredos e sonhos que não quero contar. Mas tu sabes quais são...Recebes cada um deles, como se fosse um tesouro, e embalas num barco seguro. Em ti posso confiar, óh mar...Silencioso! Guarda bem os meus lamentos, os meus pensamentos, os meus desejos...Só em ti posso confiar.



                                                                            Lara Rocha
                                                                          23/Junho/2020 


quinta-feira, 18 de junho de 2020

Na linha de comboio (psicólogos, estudantes de psicologia; e população em geral)

Na linha do comboio 

foto de Lara Rocha 

          Moro perto da estação de comboios, e há mais ou menos seis meses, fui passear o meu cão. Até aqui tudo normal, eu e o meu cão adoramos passear. Ele é geralmente calmo, exceto quando pressente alguma coisa, quando tem medo, ou em situações que o stressam. 
         Acho que nessa tarde, apanhei o maior susto da vida, que tenho memória. Ao chegar perto da estação o meu cão mudou o seu comportamento, ao contrário do que costuma acontecer
        Ficou muito agitado, a ladrar virado para a estação, parado numa parte em que se vê a linha de comboio de fora, a uivar, a ladrar, a olhar para mim, e para a frente e a rodar sobre si próprio. Parecia que queria alertar-me para alguma coisa! 
        Senti medo que ele fosse atacar alguém, ou que alguma coisa de mal estivesse para acontecer. De repente, sai disparado da minha beira e mete no túnel de acesso à estação, a esse espaço visível a ladrar completamente possuído. 
       Fui atrás dele, e qual não é o meu espanto, ao ver uma pessoa sentada na encruzilhada das linhas, vestido de preto, parecia um rapaz. O meu cão saltou quase em voo para a linha de comboio, e empurrou o rapaz para o chão, espetou-lhe os dentes na camisola e arrastou-o para um lugar seguro onde a linha estava em manutenção. 
      O rapaz parecia anestesiado, porque deixou que o meu cão o arrastasse, que continuava a ladrar. Ouvi a voz informativa da estação a anunciar a linha em manutenção onde estava o meu cão, a saída de um comboio e a entrada de outro. 
     Fiquei ansiosa, meti pelo túnel de acesso à outra linha e o meu cão ladrava para o rapaz, começou a lambê-lo, o rapaz estava lavado em lágrimas, completamente entregue à tristeza. 
      Acariciei o meu cão, o rapaz tinha uma respiração ofegante, inclinou-se num impulso para a linha de comboio outra vez, mas desta vez, eu consegui reagir, ainda não sei como. O meu cão agarrou-o pelas calças e eu disse-lhe: 
- Mas o que é que tu vais fazer? É muito perigoso! 
- Eu não quero estar aqui, não quero viver, não posso. Quero desfazer-me...para ver se nasço de novo, diferente. 
- O quê? Senta-te aqui, à minha beira, vamos conversar um pouco. Eu estou aqui, o meu cão também. 
        O meu cão ladra, como que a confirmar, e põe a pata em cima do ombro dele. Acariciei o meu cão, e disse: 
- Já percebi que não estás nada bem, mas não estás sozinho. 
       Passam os dois comboios, num grande barulho, encolhi-me, tapei os ouvidos e o rapaz tremeu da cabeça aos pés, num choro sem fim. O meu cão ladra outra vez e encosta a cabeça ao ombro do rapaz. 
- Ninguém quer que eu esteja aqui. Nem eu quero! O teu cão não tinha nada que me empurrar, nem trazer-me para aqui. Era agora que eu ia ter paz! Queria morrer e nascer diferente. 
- Ainda bem que o meu cão te empurrou! Ele sabe o que faz (ladra). 
- Está a confirmar! (ladra outra vez) 
       Os dois rimos, apesar do riso do rapaz ser tímido. 
- A tua vida é preciosa. Sou psicóloga, se quiseres podes conversar comigo. 
      O rapaz olhou para mim, com um olhar como nunca tinha visto, vazio, cheio de lágrimas. Sentou-se ao meu lado. 
- Tens uma cara tão bonita! - disse eu 
- Achas? Também não me serve de nada ter uma cara bonita, ninguém quer saber. 
- Porque é que queres morrer e nascer diferente? 
- Porque sou homossexual. 
- Sou humilhado, rejeitado, gozado, a minha mãe juntou-se com um homem de quem não gosto, e expulsou-me. Estou a vier na casa de um primo, que vive sozinho, o meu pai nem me conhece. Eu não quero ser homossexual, não gosto, não posso. Se continuar a ser homossexual, vou ficar sozinho. Disse à minha mãe que sou homossexual, ela reagiu muito mal, insultou-me, bateu-me, mandou-me rezar. Sinto a falta dela, e de amigos. 
      Deixei que ele exteriorizasse tudo o que sentia. O meu cão parecia estar a perceber tudo, e sensibilizado com a história dele. Ouvi-o atentamente, e acho que ele também sentiu que estava a ouvi-lo. 
      Depois de me contar vários episódios de agressão, humilhação por parte dos colegas, insultos, rejeições e abandonos por parte de amigos, disse-lhe: 
- Ninguém tem nada a ver com a tua escolha sexual. É a ti que diz respeito. Tens direito a ter a tua privacidade, tu é que escolhes quem queres amar, com quem queres ter prazer, ser feliz e partilhar a tua vida, os outros não têm direito de se pronunciar, só tem de respeitar a tua escolha. E com certeza vais encontrar muitos e muitas outras pessoas com a mesma escolha, que te vão aceitar como és. Eu tenho muitos amigos e amigas que fizeram essa escolha! Respeito-os e eles a mim, temos uma amizade fraterna, muito especial, muito bonita, sincera, dedicada. Não tens de acabar com a tua vida, nem mudar a tua escolha e ser infeliz, só por causa dos outros, do que os outros acham que devias ou tinhas que ser. Era só o que faltava! E se gostares de mim, tenho a certeza que vais ganhar várias dezenas de amigos, e parceiros. Só tens de te sentir orgulhoso pela tua escolha, e vivê-la. Ele olhou-me, a soluçar. Limpa as lágrimas. 
- Fogo...nunca me tinham dito uma coisa dessas…! Posso pedir-te uma coisa? 
- Só se forem duas ou mais! - Disse-lhe eu.
     Ele sorri timidamente. 
- Posso...dar-te um abraço? 
    Abri-lhe um grande sorriso. 
- Claro que sim! Dois… 
     Trocamos um longo abraço, ele desatou num choro, e eu quis passar vida para ele, através do abraço. Acho que consegui, porque abraçou-me com muita força, e chorou encostado a mim, eu sentia o coração dele a bater rapidamente, e acariciei-lhe as costas e a cabeça. 
    O meu cão lambeu-o e deitou a sua cabeça nas pernas dele. Ele sorriu, fez festas ao meu cão. Abraçou-me novamente. 
- Não consigo largar-te! Desculpa. - diz ele 
    Eu ri-me. 
- Eu não me queixei, pois não…? 
    Rimo-nos. 
- Nem nos conhecemos, e eu já estou aqui cheio de coisas contigo… 
- Mas podemos conhecer-nos, e podes ter a certeza que tens em mim uma amiga para o resto da tua vida! Que grande asneira que tu ias fazer. 
        Ele sorri. 
- Acho que tens razão! Já gosto de ti. És linda, és um anjo, não? 
- Não, sou uma pessoa como tu, boa e às vezes má. 
    Rimo-nos. 
- Vens comigo, passear mais um pouco o meu cão, e conversamos mais? - convidei-o 
- Ok… se queres que te faça companhia. 
- Com certeza! 
- Devo-te a vida. Obrigada. 
      Abraça-me novamente. Dei-lhe um beijo na cara e ele retribui. Fez mais festas ao meu cão, e disse-lhe: 
- Obrigado, bicho. Foste o maior.  
     O meu cão ladra-lhe, e lambe-o. Rimos. 
- Este cão é demais… - diz ele 
- É. 
     Levantamo-nos, o meu cão ladrou e acompanhou-nos, sempre ao lado dele. Eu e ele fomos abraçados, e conversamos bastante, fora da estação, rimos, e percebemos que vivíamos muito perto um do outro. 
    Trocamos contactos, e combinamos falar-nos nesse mesmo dia pelo Facebook. No fim de jantar lá estava ele, conversamos quase três horas, e ele quis ver-me pela câmara. O sorriso dele já era outro. 
      Depois desse dia, sugeri-lhe que tivesse acompanhamento psicológico, e encaminhei-o para outro amigo, psicólogo, que trabalhava na área da sexualidade. Comecei a apresentar-lhe vários amigos homossexuais, com quem passou a conviver, a sair, a conversar, a divertir-se. 
       Sempre que eu e ele nos encontramos, trocamos aqueles abraços sinceros, fortes, fraternos, disse-me desde logo que eu era a família dele, e falamo-nos todos os dias, várias vezes por dia, pelas redes sociais, por telefone, e mensagens. 
O meu amigo psicólogo deu-lhe uma preciosa ajuda, a melhorar a sua auto-estima, e a viver bem com a sua escolha sexual. 
       Depois do susto, ganhei um amigo para o resto da vida, um irmão como ele às vezes diz, carinhoso, atencioso, dedicado. Ele agradece-me constantemente de o ter salvo, e de vez em quando oferece-me flores, chocolates, postais. Há respeito entre nós. 

                                                           FIM 
                                                           Lara Rocha 
                                                           18/06/2020 

                                   
 

domingo, 31 de maio de 2020

Direitos Humanos



Sou mãe, e por causa disso não posso andar vestida como quero? 

Ontem saí com o meu filho, ainda bebé, sim, fui mãe há muito pouco tempo. Quando me preparava para sair de casa, com um vestido acima do joelho fui recriminada pela minha sogra, com o seu comentário infeliz, falsa moralista de que tinha acabado de ser mãe, não podia andar com aquele vestido tão curto, porque uma mãe tem de andar tapada, uma mulher com filhos é só do marido, só pode agradar ao marido. 
Estou gorda para andar com este vestido, depois de ser mãe. É uma vergonha, vai tudo pensar que sou da vida...ou de rua. Mas era só o que mais faltava, eu andar vestida como acham que tenho de andar. 
Ainda ligou ao meu marido a fazer queixinha, e ainda bem que ele teve a feliz atitude de lhe dizer que ela não tinha nada que se meter, com todo o respeito...mas disse-lhe que eu andava como queria. 
Ele confia em mim, e pode confiar, porque não vai ser o vestido curto ou comprido que dita a minha fidelidade, ou amor pelo meu marido. Há respeito na nossa relação e amizade principalmente. 
O ser mãe é um privilégio que muitas mulheres gostariam de ter e não podem, mas não impede que ande vestida como eu quero, como me sinto bem, de acordo com a temperatura exterior. 
Era só o que faltava eu dar ouvidos e seguir as teóricas moralidades da minha sogra. Ela que ande como quiser, e não tem nada que se meter. O meu marido nunca se pronunciou sobre como eu devia andar, sempre andei ao lado dele enquanto namoramos, com roupas mais curtas ou mais compridas, como queria. 
Porque sempre me dei ao respeito, e respeitavam-me! Os meus pais também nunca me impediram de andar vestida como eu queria, como me sentia bem, vinha agora a minha sogra meter-se. 
Nem permitam que eles se metam nas vossas escolhas, meninas. Vistam-se como querem, como se sentem bem, não interessa o que os outros vão dizer ou pensar. 
Como se...o ser mãe implicasse andar tapada dos pés à cabeça, não? Temos o direito de andar vestidas como queremos, como gostamos, para nós, não para os outros repararem. 
Temos o direito de ser respeitadas, com vestido curto, comprido, mini saia. Temos o direito de não ser julgadas ou criticadas pela nossa maneira de vestir, só porque temos um filho. 
    Não temos de ser objeto de satisfação de prazer dos nossos namorados ou maridos, namoradas o que for. Merecemos respeito, como somos, como vamos vestidas ou calçadas, penteadas, despenteadas...vamos como gostamos, os outros só tem obrigação de nos respeitar.  

Sou homossexual, isso não me impede de ser respeitado pela minha escolha sexual. Os herterossexuais também são respeitados, porque é a escolha deles, que diferença faz ser homo ou hetero…? 
Todos temos um corpo, é como é, mais ou menos perfeito, todos somos iguais em sentimentos e emoções, que não têm rosto, nomes de pessoas, género. Todos merecemos ser acolhidos, abraçados pela diferença, respeitados pelas nossas escolhas sejam elas quais forem. 
A homossexualidade não é crime, xenofobia, homofobia, e companhia...isso sim, é uma doença grave! Podemos escolher livremente quem queremos amar, com quem queremos ficar, a quem queremos mostrar o nosso corpo. 
Temos o direito de ocultar essa nossa escolha, mas também podemos assumir livremente o amor pela outra pessoa, seja do mesmo género que nós ou diferente. 
Porque o amor não tem rosto, o rosto somos nós que lho damos, o da outra pessoa que escolhemos e com quem temos o direito de ser felizes, sem sermos atacados, julgados ou postos de lado, rejeitados, humilhados. 
Sou homessexual, mas sou um ser humano, como aqueles que não me respeitam. Temos direito de gostar do nosso corpo, e aceitá-lo como ele é, somos dignos de valor e de aceitação, porque na verdade, todos somos diferentes. 
Sou homossexual mas tenho direito a um trabalho, onde sou acolhido, integrado, valorizado, respeitado, admirado pelas minhas competências, e não pelo que escolho amar. 
Tenho direito a pertencer a uma família, que me ame, que me acolha, que me abrace, por ser parte deles, independentemente da minha escolha. Tenho direito a uma casa, a cuidados de saúde, à educação. 
Tenho o direito de não me esconder do mundo, só porque sou homossexual, e tenho direito a ser respeitado. Tenho direito a ter amigos. 

Sou mulher, mas não sinto como tal, quero ser homem 
    Tenho direito de mudar todo o meu corpo, se não gosto dele. Nunca me senti realmente mulher, detesto o meu corpo enquanto mulher. Sou transgénero, mesmo assim, mereço ser respeitada nessa escolha e nessa decisão de querer mudar. 
Tenho direito de manifestar essa vontade, e de querer mudar, sem que me ponham fora de casa, ou sem que a minha família me expulse e rejeite. Sei que os desiludi, porque imagino que seja muito mau para os pais mas mereço ser tratada, acolhida, protegida e cuidada, amada pela minha família. 

Sou mulher, mas não tenho de ser tua posse… 
    Sou mulher, gostava da nossa relação, até ao momento em que mudaste e começaste a controlar tudo o que eu fazia. Perdeste o meu interesse, desde que começaste a levantar-me primeiro a voz, e a seguir a mão. Sou mulher, mas tenho liberdade e direito de não me submeter às suas agressões. 
    Sou mulher, e podia ser tua namorada, mas não sou tua posse! Tenho direito a ser acarinhada e bem tratada, tenho direito à minha liberdade, às minhas saídas, às minhas relações, como tu tens esse direito. 
    Eu sempre respeitei esses teus direitos, mas tu proibiste-me de ter amigas, e amigos, de sair com eles, de falar com eles, até de estar e falar com a minha família. 
    A quantidade de vezes que menti, adiei, inventei desculpas, para eles não me verem com as marcas das suas porradas. Até que cansei de ti, da minha submissão desmedida, e do teu excesso de liberdade. 
    Não tens direito a aprisionar-me, a matar-me, a maltratar-me, a possuir-me, nem a tirar-me a minha liberdade, a que toda a gente tem direito. Querias uma escrava, não tens esse direito. A escravatura acabou, e quando existe não deve ser permitida. Não tens o direito de me torturar. 
    Eu tenho direito e liberdade para não te querer mais, e tu tens obrigação de me respeitar nessa liberdade. Sou mulher, e tenho direito e liberdade de escolher quem quero ter ao meu lado, com quem me quero relacionar. 
    Sou mulher e quero ser respeitada como tal. Não, não tenho que fazer tudo o que queres, se eu não quiser. Tenho é de respeitar a minha própria vontade, as minhas próprias emoções. 

Sou mulher...tenho que ter filhos…
    Não. Sou mulher, e não tenho que ter filhos, se eu não quiser. Sou livre para escolher e decidir ter um namorado ou marido e não ter filhos. Não é isso que me torna menos mulher, nem é isso que vai desfazer a minha relação com a outra pessoa, se ela respeitar e aceitar a minha decisão. 
    Ele também pode vir a escolher não ter filhos, e a mulher com quem está poderá nem conseguir dar-lhe filhos. Ele é livre para decidir continuar com ela, ou deixá-la, e ela tem de o respeitar. 
Temos direito a refazer e reconstruir a nossa vida, se não estamos felizes com alguém, mas deve haver sempre respeito. É importante respeitarmos acima de tudo o nosso próprio corpo, a nossa própria vontade, os nossos gostos, assumirmos as nossas escolhas, e responsabilidades, sem deixar que os outros decidam por nós. 

Sou Africano, sou Francês, Francesa, Turca, Chilena, Chinesa, Húngara, Brasileira, Peruana, Irlandesa… ou outra qualquer, temos liberdade para circular por todo o mundo, como tu tens liberdade de passear, viver ou mudares para outra cidade, outro país. 
Sou de um país diferente, e depois? Sou humano, como tu, tenho um corpo como o teu, igual ao teu, por dentro, tenho uma família como a tua, tenhos os mesmos direitos e deveres que tu, porque me chamas nomes ofensivos, pela minha cor diferente? 
Porque gozas com o meu sotaque, porque fazes piadas com as crenças do meu povo? Porque ofendes a minha crença, se eu não sou da tua, mas respeito-a? 

Tenho uma deficiência, mas sou humano como tu, que não tens deficiência, mas podias, ou ainda podes vir a tê-la. São situações que ninguém escolhe, e podem acontecer a qualquer um. 
Porque gozas com a minha deficiência? Porque não me tratas como um igual a ti, que sou? Tenho essa diferença, mas tu também és diferente, e eu gosto de ti. 
Não quero, nem preciso que tenhas pena de mim, nem que digas que sou um coitadinho, muito menos que faças por mim, coisas que consigo fazer. Só quero que me respeites como sou, que me mostres o teu respeito e carinho, a tua amizade, e que me acolhas, que me abraces, que brinques comigo, que converses comigo. 
Pensamos de forma diferente, mas porque tentas obrigar-me a pensar como tu? Temos direito e liberdade de pensar o que quisermos sobre os mesmos assuntos. 
Porque temos de ter a mesma ideia ou opinião sobre os mesmos assuntos, pessoas ou acontecimentos? Temos sempre coisas em comum, apesar das diferenças, e temos de respeitar, mesmo não concordando, podemos respeitar e muitas vezes até enriquecemos trabalhos ou fortalecemos amizades, conciliamos ideias que podem funcionar. 
Temos direito a pensar diferente, e todos pensamos diferente, mas não temos o direito de impor as nossas ideias, crenças e pensamentos aos outros. Todos temos direito à nossa liberdade de expressão, opinião, pensamento e ação, desde que não façamos mal ao outro, nem o outro a nós. 
Todos temos direito a uma casa, família, ao sentimento de pertença, ao afeto, ao cuidado, à saúde, à educação, à liberdade individual, à escolha sexual, ao trabalho, ao respeito, à valorização, realização pessoal e à dignidade.
Todos temos direito a ser tratados como seres humanos, como pessoas dignas de respeito, a não ser as que maltratam, matam, violam ou aprisionam os outros. 
Nos dias de hoje, ainda há muitos direitos que ficam aquém do acesso a todos. Ainda há muito a fazer. 




Inspirado no 2º Artigo dos Direitos Humanos 

                                                              Lara Rocha 
                                                              30/Maio/2020 



                                                                  


terça-feira, 26 de maio de 2020

monólogo A pressa, e à pressa


foto de Lara Rocha 

    Vivemos numa sociedade feita à pressa, e com pressa! Não há tempo para nada, dizemos todos! O tempo...ele próprio parece correr. Parece que mal começa, já está a terminar...tão rápido. 
    Onde vai tudo com tanta pressa? Os carros, as pessoas, os telemóveis, a sociedade, a vida, as relações. Nada mais existe à nossa volta? Não há flores que gostam de ser apreciadas? 
    Porque não paramos um minuto que seja a olhar para elas, flores, que se vestem de sol para ficarem mais vistosas? Se qualquer mulher gosta de ser apreciada, as flores também...e merecem. 
    Não há tempo para relações, não há tempo para abraços reais, sorrisos sinceros, e reais, naturais, não há tempo para sorrir, para conversar e ouvir as vozes dos outros. 
    Sim, porque um dia, numa outra época, isso já aconteceu! E como era bom! Na sociedade que só sabe correr, não acontece mais nada a não ser...correr...! 
    Comer a correr para satisfazer caprichos, enganar o estômago, sem sabermos o que comemos ou sem sentirmos o sabor das coisas, para dar resposta a caprichos de patrões que vivem a correr, e mandam os seus funcionários, pessoas iguais a ele, com um título diferente do dele, mas os patrões têm mais em que pensar, por exemplo, no que era para ontem. 
    Os funcionários correm, pressionados pelos patrões esfomeados de lucro, que só veem cifrões à frente, e só sabem correr. Agora é tudo a correr...conhece-se alguém a correr, desliga-se com a mesma rapidez de alguém a quem já nos ligamos, fala-se a correr, de forma seca, pouco sincera, e distante, porque temos de correr, não temos tempo para ouvir o outro. 
    Beijamo-nos a correr, porque às vezes já há outro escondido, ou outra, à espera impaciente, cheio de pressa, que tem de se envolver com outro a correr, e voltar para aquele a correr, para não desconfiar.     Somos feras loucas, a conduzir, impacientes, sem vermos sequer se há peões ou obstáculos, porque vamos a correr, temos segundos ou milésimos de segundos a cumprir, porque o chefe mandou correr, e já ligou 50 mil vezes, a dizer que era para ontem. 
    Conduzimos a correr, em piloto automático, sem sentir o carro, sem termos consciência do que temos nas mãos, e explodimos, quando alguém nos empata a marcha, porque o outro pode não ter que correr, mas nós temos. 
    Somos intolerantes a demoras no supermercado mas muitos de nós não nos importamos de esperar horas e horas em fila para ter um bilhete de futebol ou um concerto, ou um telemóvel topo de gama.        Tanta correria! Não há conversa, só por redes sociais e telemóveis, é aí que fica a família, nas conversas fúteis, máscaras, exibicionismos do que não se é. Onde fica a pessoa que está por trás de cada rosto que se vê? 
    Onde ficam aqueles que convivem com gente que só corre, e que escolhe viver mais devagar? Solitários? Antissociais? Egoístas, frios...Sim, mas são esses os que reparam no que há de melhor à nossa volta. São esses que não tem tantos problemas causados pelo sempre a correr. 
    Os que andam sem tempo, são os mais felizes e serenos, os mais saudáveis, porque param nem que seja por um ou dois minutos para apreciar, ver ao vivo, sentir, ouvir, sorrir a uma flor. 
    Os que só correm, ignoram, nem devem saber que ela existe, porque passam por ela mas olharam para o que corria no carro ao lado, mais do que o outro, e que buzinou porque parou na passadeira para um peão passar. 
    Nem repararam naquelas flores bonitas que esperam os seus olhares, porque vão a olhar para o telemóvel que exibem nas mãos, não interessa se passa alguém ao lado dele, conhecido. 
       Não veem mais nada. Só correm. Esquecem as árvores, as cores, o vento, as folhas a cair, ou a voar com o vento, esquecem de ouvir os pássaros e as rãs que saltitam nos rios, esquecem das praias, e o reflexo prateado, multicolor às vezes, do sol na água. 
       Correm tanto que não ouvem enquanto podem, enquanto os seus ouvidos permitem. Vão com tanta pressa que nem veem as crianças, nem os seus sorrisos e inocência, perfeição. 
    Como podemos estar saudáveis, se só sabemos correr todos os dias? Só corremos para o dinheiro, para a fama, para a exibição e competição...Corremos na verdade para a desgraça, infelicidade, isolamento, conflito, vazio, solidão, frieza, desconfiança... 
    Corremos sem vermos o que há de melhor à nossa volta, a natureza. Corremos! Só corremos! E o planeta corre connosco para a destruição. 
    Como corremos tanto, todos os dias, ele tem de chamar a atenção, e fá-lo da pior forma porque está magoado, triste, desiludido, com gente que corre tanto que o destrói. 
    E continuamos a correr. Só correr! Correr cada vez mais, sem nos darmos conta disso, talvez quando o planeta nos fizer parar...sabe-se lá como... nós que tanto corremos, nos demos conta, mas nessa altura pode ser tarde demais. 
    Podemos não ter para ver aquilo de que ainda dispomos e não vemos, porque passamos os dias a correr! Porque não paramos vários minutos por dia para ver o melhor que nos cerca? 
    Porque não saímos dos telemóveis e computadores e olhamos, sentimos, sorrimos, tocamos, no que realmente nos faz bem no que nos revitaliza, e renova as nossas forças gastas pela correria ?! 
    A natureza! Ela que nos dá tudo, e nós... o que lhe damos? A correria! Se continuarmos a correr tanto, não teremos a melhor recompensa, pois pode já ser tarde, pode já não haver mais nada para ver, do que ainda podemos ver, em vez de correr. Paremos então, alguns minutos...? A natureza merece, e nós também. As melhores coisas não são aquelas feitas a correr, nem podem ser feitas a correr. 

                                                  Lara Rocha 

                                                 30/Maio/2019   

sábado, 23 de maio de 2020

As marionetas que nunca desistiram

      




foto de Lara Rocha 

 

desenhado por Lara Rocha 

     Era uma vez um grupo de marionetas que estava abandonada num teatro, em ruínas. Elas foram arrumadas nu  armazém, juntamente com muitos outros fatos de atuações que enchiam salas. Estavam lá há tanto tempo, que nem tinham a noção de quanto.
    Começaram a estranhar tanto tempo de silêncio, e tanta quietude. Olharam umas para as outras, e para o espaço todo à sua volta.
- Meninas, não acham estranho todo este silêncio?
- Sim! - concordam todas
- E este espaço...? - pergunta uma delas
- Está muito maltratado.
- Não sei o que está a acontecer,  nem o que estamos a fazer aqui há tanto tempo.
- Tens razão. - dizem todas
- Mas o que terá acontecido?
- Acho que fomos abandonadas... lamento mas parece que já passamos à história.
- O quê?
- De moda.
- Falas de maneira esquisita.
- (suspira) quero dizer que fomos esquecidas.
- Ahhhh... - dizem todas
- Não pode ser!
- Infelizmente sim.
- Oooohhhh! - dizem todas
- Sim.
- Mas... como é que isto nos foi acontecer?
- Isso não sei.
- Parece que já ninguém quer saber de nós!
- Pois, acho que já não vemos gente, há muito tempo, pela maneira como está a sala.
- E agora? - perguntam todas
- Agora...
- Vamos embora daqui! - Dizem todas
- Mas como e para onde?
- Logo veremos. Vamos!
- E o que fazemos com estes fios?
         Faz-se silêncio. Uma marioneta acabou de ver uma tesoura no chão. Sorri, pega na tesoura. Todas gritam e tentam fugir.
- Calma! Porque estão a gritar e a esconder-se?
- Tu vais acabar connosco?
- Olha que não fomos nós que  te trouxemos para aqui.
- Pensei que estavas connosco,  mas com isso na mão...
 (a marioneta suspira e ri)
- Ai, como vocês são! Nada disso. Esta tesoura vai cortar os nossos fios ou querem continuar com eles?
- Ah, que susto! - suspiram todas e sorriem.
- Sim.
- Posso cortar, ou não?
- Sim, por favor. - dizem todas
          A marioneta corta fio por fio, às outras, elas encolhem-se com medo e respiram de alívio.
- Por favor... alguém me pode cortar estas?
- Eu corto.
          E outra marioneta corta-lhe os fios.
- Obrigada! Agora vamos à procura da saída. 
          Elas levantam-se, sacodem-se.
- Será que não vamos precisar dos fios? - lembra uma marioneta
- Se quiseres guarda.
          E a marioneta guarda os fios, encontram rapidamente a saída, agora são bonecos todos articulados sem fios. Sentem-se leves, saltitam, correm, fazem movimentos com todo o corpo para desentorpecer, descem as escadas do sótão para a sala grande, e quando se preparavam para sair  encontraram umas bolas transparentes a flutuar. Quase focam hipnotizados ao ver as bolas.
- Ah! Que lindas.
- Uau. Para que servem?
- Não sei.
        As bolas pousam no chão, e as marionetas tocam-lhes a medo.  Depois sentem uma enorme vontade de subir pelas bolas e experimentá-las. Quando sobem, apreciam a sala em ruínas. 
- Óh! Que sala tão bonita. 
- Que saudades de ver esta sala cheia de luz, crianças às gargalhadas ao ver-nos, os aplausos. 
       Ficam tristes e percorrem a sala com os olhos. Deixam escapar uns soluços e umas lágrimas, as bolas começam a rolar, a subir, e a flutuar pela sala, devagar, até à saída. 
- Óh! Que tristeza! 
- Bem, sim... é muito triste, mas temos de continuar. 
- Talvez um dia destes voltemos a este espaço, cheio de crianças , grandes, aplausos e gargalhadas. 
- É. 
- Vamos acreditar que sim. 
- E agora vamos para onde? 
- Por aí... 
       As bolas transparentes levam-nas pela cidade e pousam num belo parque, muito verde. 
- Áh! Que sítio lindo! 
- Sim! Gosto. 
- É muito diferente do nosso. 
      Saem das bolas, e correm livres pelo parque como nunca antes tinha acontecido. Soltam grandes gargalhadas, de satisfação, exclamações, trepam árvores, deliciam-se com a paisagem, rebolam na relva, brincam, cheiram flores, tocam nas pétalas, molham-se nas fontes, tomam banho nos pequenos lagos, e secam-se refastelados ao sol. 
      Quando a noite chega não querem dormir, ficam deitados nas bolas, que estão pousadas e paradas, a ver as milhares de estrelas, e a conversar, até o sol nascer. 
      Quando começa muito movimento de pessoas, as marionetas refugiam-se nos troncos das árvores, quase se confundem com elas, pela sua cor, e dormem. 
      Sonham que aquelas sala de onde saíram estava cheia de crianças e adultos que riam à gargalhada com elas, interagiam com elas, brincavam, aplaudiam. Uma sala tão bonita, cheia de luz, e voltavam a atuar. 
        Quando acordaram tudo estava igual, e foi igual durante muito tempo, mas muitos meses depois, para grande surpresa e felicidade das marionetas num dos seus passeios viram que a sala de teatro estava a ser restaurada. 
       Foram acompanhando as obras e as mudanças, com a esperança que os atores as procurassem, mas perceberam que infelizmente, aquele espaço onde tinham ficado já não existia, tinham tirado as roupas e os adereços, para outra sala, mas não se lembraram das marionetas. 
        Como ficaram tristes, as pobres marionetas. 
- Que injustiça! - Suspira uma marioneta 
- Fomos esquecidas! - diz outra marioneta 
        E regressam ao parque a chorar. 
- Agora só podemos contar umas com as outras. 
- Como acontecia antes. 
- Pois. 
- Não estamos sozinhas, resta-nos continuar e unirmo-nos mais. 
- Sim. 
        E assim foi, trocam abraços, e apesar da enorme tristeza que acompanhou as marionetas vários dias e várias noites, as lágrimas que teimavam em cair, não se deixaram vencer. 
        Continuaram juntas a dar espetáculos, que eram vistos por centenas de crianças e adultos que se deliciavam, aplaudiam, riam, interagiam com elas. 
       Elas ensaiavam e apresentavam para quem estava. Ninguém sabia como tinham ido lá parar, mas todos as adoravam. As marionetas divertiam-se muito, e sentiam-se mesmo muito felizes.
      Uns anos mais tarde, entre as pessoas que assistiam estava um ator de teatro, que também escrevia peças e estava sempre à procura de atores para as representar. 
     Gostou tanto das marionetas que as convidou para trabalhar com ele em espetáculos de rua e de sala. Elas aceitaram logo, e com isso, ganharam reconhecimento, e mais um novo amigo, que as levou para sua casa. 
       Elas não desistiram, e conseguiram! 

                                                             FIM 
                                                             Lálá 
                                                         22/Maio/2020