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quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

AS DEUSAS DE PEDRO E SARA

                                                           foto de Lara Rocha 

Era uma vez um casal com muita idade, que vivia numa casa isolada no pico de uma montanha com a povoação no seu vale. O casal vivia feliz, e tinha tudo o que precisava, amigos também. À volta da casa tinham um quintal enorme, e campos onde pastavam animais.
Um dia Pedro e Sara foram ao quintal e pareceu-lhes ver alguma coisa de diferente…não sabiam o que era, mas algo tinha mudado. Brilhava uma luz diferente naquele espaço, mas não viram que havia uns pequeninos rebentos na terra.
Nessa noite, os rebentos cresceram e na manhã seguinte, com o sol acabado de se levantar, já se via um pé alto, com umas cabecinhas de flores, fechadas em botão. Pedro e Sara tinham a certeza que não haviam plantado nada nos últimos dias, pelo menos ali, mas a verdade é que estavam mesmo uns rebentos com cabecinhas de todas as cores…cada qual a mais bonita. Levantaram as mãos para o céu e agradeceram.
Pedro e Sara deixaram que as flores abrissem, mas não abriram. Sempre que eles olhavam para elas, nunca as viram abertas, viam-nas sempre em botão. Mas uma tarde, Sara foi ao quintal, e ouviu umas vozes, uns murmúrios e risinhos pequeninos. Ficou preocupada, olhou para todo o lado, e não viu ninguém, sentiu muito medo:
- Acho que ouvi alguma coisa…estarei a ficar louca? – Diz assustada
As vozes calaram-se. Passado um bocadinho, voltaram. Sara fica gelada, e pergunta nervosa:
- Quem está aí?
As vozes calaram-se outra vez, quando ela chamou o marido muito assustada:
- Pedro…Pedro…anda cá fora… - Chama a Sara aflita
Pedro vai ter com a esposa assustado:
- O que foi? Estás pálida…está tudo bem?
- Eu ouvi vozes. – Diz Sara
- O quê? – Pergunta Pedro assustado
- Sim. Já por duas vezes. – Confirma Sara
- Não pode ser!
- Eram vozes, tenho a certeza…
- Se calhar foi alguém que passou aqui.
- Não…não passou ninguém! Eu ouvi…Elas falam e calam-se, e riem.
- Não pode ser.
- Estou-te a dizer.
- Acho que te vou levar ao médico.
- Não.
- Sabes que ouvir coisas pode não ser um bom sinal.
- Estás-me a chamar velha, ou louca?
- Não…
As vozes regressam, e os risinhos também.
- Olha…estão a falar outra vez.
- Eu…não ouvi nada.
- Estou a ouvir…
- Mas estás a ouvir o quê?
- As vozes…e risos.
- Óh…que disparate…acho que apanhaste sol a mais…
- Não. Elas estão a falar.
E as flores desenrolam-se, uma por uma…botão por botão, mostrando as suas belas cores.
- Olha…as flores abriram!
- Áh! Que lindas.
As flores voltam a fechar-se, muito enroladinhas, e envergonhadas.
- Então…? Fecharam outra vez…?
- Mas…não estou a perceber nada.
- O melhor é…vamos para dentro… vamos… está calor, e acho que nos está a fazer mal.
O casal volta a entrar, muito pensativo e intrigado. As flores voltam a abrir e delas saem umas lindas fadas, cada uma com longos vestidos, cintilantes, cabelos compridos brilhantes, olhos grandes, elegantes, e conversam alegremente umas com as outras. Espreguiçam-se, bocejam, e rodam os seus vestidos para se sacudirem.
Sara espreita à janela, abre os olhos e a boca até não poder mais, quando vê as fadas a rodar os seus vestidos, a passear pelo quintal e as flores sem cabecinhas, porque as cabecinhas eram as fadas a dormir.
Sara corre para o jardim.
- Mas o que é que se passa aqui? Quem são vocês? Vocês existem mesmo? De onde vieram? Quem vos deu autorização para virem para aqui?
As fadas riem, apresentam-se, e dizem que vivem nas flores que ela viu. A senhora nem quer acreditar, sorri e diz:
- Desculpem tanta pergunta…mas que antipática que eu fui…é que…então eram vocês que falavam, murmuravam e riam?
- Sim! Éramos nós.
- E como é que não vos via?
- Porque estávamos em botão!
- Apareceu o teu marido, ficamos com vergonha, voltamos a enrolar-nos.
Sara ri.
- Áh! Então, não estou louca…!
- Não.
- Claro que não.
- O teu marido é que não nos viu porque nós não quisemos.
- Nem vos ouviu.
- Pois não!
- E porque ele não acredita em nós.
- Pensei que estava a ficar louca, ou a ouvir coisas que não existiam na realidade. Era muito mau sinal.
- Existe…somos nós.
- Mas como é que vieram aqui parar?
- É uma longa história.
- Gostamos deste sítio.
- Sentimos as vossas boas energias.
- E viemos fazer-te companhia.
- O meu marido já me faz companhia.
- Sim, mas sentimos que gostarias de ter mais meninas à tua volta.
- E acertaram. (sorri)
- Podemos ficar aqui?
- Claro que sim.
- Vais poder assistir aos nossos ensaios.
- Ensaios…?
- Sim, de danças.
- Áh…adoro danças.
- Boa…até podes dançar connosco.
- Está bem. Se eu souber…mas…e o meu marido?
- Deixa o teu marido…
- Ele vai achar que avariei de vez!
As fadas riem.
- Aproveita para te divertires…não te preocupes com o que o teu marido pensa…desde que isso te faça feliz.
- Acredito que sim.
- Vê lá.
Umas fadas vão buscar os seus instrumentos às flores, e começam a tocar. As outras dançam com os grande vestidos a rodar, que se encaixam uns nos outros, cruzam e foram um lindo espetáculo de cores, quando se abraçam e rodopiam, entrançam os cabelos umas nas outras, sempre com um sorriso.
Às vezes rodam tão rápido que só se vêem riscos de cores, a passar como se fossem estrelas cadentes, e voltam a subir, descem. A Sara fica encantada, e quando as fadas mudam a música, Sara acompanha-as como se fosse outra vez criança. Isso fê-la sentir-se tão feliz, e cheia de energia, riu, saltou, mexeu-se, tanto como elas.
O marido apreciava-a da janela, preocupado mas ao mesmo tempo ria-se. Ele não via as fadas. Quando vai ter com Sara, viu que ela estava rodeada de encantadoras mulheres, e rapidamente elas voltaram a enrolar-se sobre elas próprias e a esconder-se nas flores.
- Estás feliz…! – Comenta Pedro
- Sim. Parece que renasci! – Diz Sara com um enorme sorriso
- Dá para ver. Que linda que estás…sempre foste, mas estás mais agora.
- Estou ótima.
- Eu sei…sempre foste ótima.
- Estas flores são especiais.
- Eu acho que vi alguma coisa…
- Viste! E eu tinha razão. Não estava louca, nem a ouvir vozes… era tudo verdade, tanto que agora dancei com elas.
- Com quem?
- Meninas…
E cada flor volta a desenrolar-se, e aparecer como fada, com os seus lindos vestidos.
- Olá! – Dizem todas
Pedro solta uma longa exclamação:
- Ááááááááááhhhhhhhh….com todo o respeito pela minha esposa… que lindas mulheres! De onde vieram?
- São aquelas flores que apareceram de novo!
- O quê?
- Isso mesmo!
- E foi com elas que dancei agora.
- Mas que lindas…
E as fadas dançam outra vez para eles. A partir desse dia, tornaram-se uma verdadeira família. Sempre que não atuavam, as flores enrolavam-se sobre si próprias, e repousavam nos pés, descansavam, conversavam com a senhora, riam, e quando queriam, saiam das flores, e andavam pelo quintal, livres, ajudavam Sara e Pedro a plantar, a regar e a colher os alimentos, e frutos. Eram as deusas de Pedro e Sara, como se fossem filhas.
FIM
Lálá
(4/Janeiro/2017)


sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O sonho do sonho, aos olhos de duas corujas

           


            Duas corujas estão pousadas na árvore, e conversam sobre o vizinho de cima, um poeta sonhador, que sonha acordado, às vezes conta os seus sonhos, que rasga, depois de escrever num papel, e atira para os pés da árvore.
- Olha lá, oh amiga...tu sonhas?
- Sim, sonho...quando estou a dormir, e tu?
- Eu também sonho. E que sonhos são esses?
- Umas vezes são sonhos bons, felizes, outros...são...sonhos estranhos, confusos, aterradores!
- E os teus sonhos como são?
- Os meus sonhos são sonhos. Umas vezes também são bons, outras vezes nem tanto.
- Mas gostas de sonhar?
- Gosto, e tu?
- Eu também.
- O sonho sonhou esta noite!
- Quem é o sonho?
- É o sonho...o nosso vizinho de cima.
- Como é que sabes que ele sonhou?
- De certeza que sonhou! Todos sonham.
- Mas os sonhos não sonham!
- Achas que não?
- Acho.
- Porque não?
- Porque os sonhos já são sonhos, não podem ter sonhos.
- O sonho sonhou mesmo!
- Ele disse-te?
- Disse.
- O que sonhou?
- Sonhou que era um sonho.
- Era um sonho bom ou mau?
- Sonhou! Não sei se foi bom, se foi mau...sei que sonhou!
- Sonhou?
- Sim, sonhou, todos sonhamos!
- Sim, claro...e que sonho foi esse?
- No sonho do sonho, o sonho sonhou que era um sonho!
- Mas o sonho já é sonho, como sonhou que era um sonho?
- O sonho sonhou que era um sonho!
- Áh! Sonhou…
- Sim, sonhou que era um sonho.
- Mas que confusão!
- O sonho sonhou com ele próprio.
- Sonhou como?
- Sonhou que era um sonho…
- Mas já é um sonho
- Sim, foi por isso que sonhou!
- Sonhou que era um sonho.
- Mas que sonho tão louco…
- Não! Foi só um sonho, que o sonho sonhou!
- E tu, não tens sonhos?
- Sim, tenho muitos sonhos.
- E os teus sonhos, também sonham?
- Não sei, nunca lhes perguntei.
- Mas achas que os teus sonhos, sonham?
- Acho que não sonham.
- Os meus sonhos sonham que são sonhos.
- Como é que sabes?
- Eu sei!
- Já os ouviste a conversar sobre sonhos, ou a sonhar?
- Nunca falei sobre isso com eles, mas de certeza que têm sonhos.
- Mas deve ser uma conversa de tolos.
- Não...são conversas de sonhos.
- Achas que os sonhos conversam?
- Sim, conversam.
- Sobre o que conversarão os sonhos?
- Não sei, nunca ouvi nenhuma conversa entre sonhos!
- Talvez os sonhos conversem sobre...sonhos.
- Sim. Mas deve ser difícil falar deles próprios.
- Como assim?
- É difícil falarmos de nós mesmos com outras pessoas. Talvez os sonhos também achem difícil falar deles próprios, ou dos seus sonhos a outros sonhos.
- Será que eles têm sonhos iguais?
- Não...quase de certeza que não têm o mesmo sonho.
- Porquê?
- Porque cada sonho, tem os seus sonhos.
- E os teus sonhos são iguais?
- Não. Sonho coisas diferentes todos os dias.
- E o sonho, será que sonha todos os dias?
- Claro que sim.
- Mas sonha todos os dias que é um sonho?
- Não sei. Se calhar sonha outros sonhos.
- Mas esta noite o sonho sonhou um sonho….
- Sim! Esta noite, o sonho sonhou que era um sonho.
- Que sonho estranho! Eu não gostaria de ter esse sonho, se fosse sonho.
- Eu gostaria de sonhar que era um sonho.
- Gostarias? Porquê?
- Talvez esse sonho dissesse muitas coisas de mim.
- Áh! Achas que o teu sonho ia falar de ti a outros sonhos, e que os levava para os teus sonhos?
- Sim.
- E gostavas de conhecer esses outros sonhos?
- Se fosse o sonho, sim, gostava de sonhar e conhecer outros sonhos.
- Achas que ias conhecer sonhos bons, ou sonhos maus?
- Eu preferia sonhar que conhecia os sonhos bons, mas os sonhos maus às vezes também nos visitam, e terão alguma coisa para nos dizer...
- Será que o sonho também gosta de sonhar com sonhos?
- Acho que sim.
- Serão sonhos bons ou sonhos maus?
- Os dois.
- Sim, pelo menos não temos sempre só sonhos bons.
- Se tu sonhasses com sonhos, que sonhos seriam esses?
- Ui, nunca mais acabava, se fosse sonhar com todos os sonhos que sonho.
- Eu também.
- E aqueles meninos que vivem em países que andam em Guerra, terão sonhos?
- Eu acho que esses nem devem dormir, com tanto medo e terror.
- Então não sonham!
- Não…se não dormem, não têm sonhos.
- Achas que eles sonham com sonhos, que lhes dão medo?
- Sim. De certeza!
- Mas não terão sonhos?
- Acho que não…
- Eu acho que eles sonham que a Guerra no país deles acaba quando abrem os olhos.
- Eu se estiver com medo, não sonho…ou…sonho sonhos com medo.
- E tens medo desses sonhos?
- Nos sonhos que tenho medo, sim.
- Eu também tenho medo.
- Eu se vivesse num país em Guerra também não tinha sonhos…ou…teria sonhos de medo, ou de fim da Guerra.
- Olha, e o sonho de cima, atira papéis lá para baixo…porque será?
- Será que são sonhos que ele sonha?
- Achas que ele escreve os sonhos?
- Pode ser…
- Será que são sonhos bons ou sonhos maus?
- Se calhar…devem ser sonhos maus, porque se fossem sonhos bons, ele guardava-os, não os rasgava.
- Pois… Acho que tens razão.
- Hoje, o sonho sonhou que era um sonho…e…eu é que acho que agora vou sonhar um bocadinho… (boceja) estou cheia de sono.
(A outra coruja ri-se)
- Vais sonhar que és um sonho?
- Acho que vou sonhar com um sonho…não sei qual.
(As duas sorriem)
- Para saberes se vais sonhar que és um sonho, ou se vais sonhar com um sonho, vais ter mesmo de fechar os olhos e dormir.
- É isso mesmo. Quando abrir os olhos, digo-te…(boceja outra vez) se sonhei que era um sonho, ou…(boceja outra vez) se…sonhei com algum sonho…Sonho….so…nnnnhhh…(adormece)
- O sonho sonhou que era um sonho. E tu, o que sonharás? Sonharás com um sonho, ou sonharás que és um sonho? Eu vou sonhar que com um sonho. Até já…bons sonhos.
         O sonho saiu da árvore ainda antes do nascer do sol, e regressa do seu passeio, já com o sol alto. As corujas que já tinham dormido, abrem os olhos. 
- Olá sonho! - Dizem as duas 
- Já de regresso? 
- Voltaste rápido! 
- Olá! Vai estar um dia lindo... - Diz o sonho
- Olha, tu sonhaste esta noite? - Pergunta uma coruja 
- Sonhei. E vocês não sonharam? - Pergunta e responde o sonho 
- Sonhamos! - Respondem as duas 
- E o que sonhaste? - pergunta uma coruja 
- Sonhei...que era um sonho! 
- Sonhaste que eras um sonho, ou sonhaste com um sonho? - Pergunta uma coruja 
- Sonhei que era um sonho! - Responde o sonho 
- E como foi esse sonho? - Pergunta a outra coruja 
- Sonhei comigo mesmo. Sonhei que era um sonho...o resto já não me lembro! 
- Mas, o que são os sonhos? - Pergunta uma coruja 
- Os sonhos que sonhamos, são sonhos que sonhamos. São desejos nunca confessados. Os sonhos que sonhamos, são filmes do que nos é proibido. São florestas de terror, medo, ansiedade, tempestades… - Responde todo poético, o sonho 
- Ai...não gosto desses sonhos! - Diz uma coruja 
- Nem eu! - Diz a outra 
- Eu também não, mas às vezes vamos passear por essas florestas, porque a entrada é a mesma. Mas os sonhos também são...lagoas serenas, de águas claras…
- Áh! Que lindas… - Suspiram e sorriem as corujas 
- São romances! - Continua o sonho poético 
- Gosto! - Dizem as duas corujas 
- São vitórias! 
- Áhhh!!! - Dizem as duas 
- Ééééhhhh… - Diz uma coruja 
- E derrotas… - Acrescenta o sonho 
- Óóóhhh… - Exclamam as duas corujas 
- Isso não! - Comenta uma coruja 
- Não gosto de derrotas. - Diz a outra 
- Nem eu! - Responde a outra 
- Eu também não, mas também fazem parte. Os sonhos são vontades...são música, são cores...são histórias contadas pelo cérebro...são personagens construídas pelos olhos, e pela mente...e representadas pelas emoções, pelo corpo...aprovadas e, ou...reprovadas pelo coração! Aliás...só ele entende a linguagem dos desejos nunca antes confessados! Alguns são tão bons! Pelo menos...nos sonhos que sonhamos...vivemos experiências, experimentamos emoções, entramos em contacto com o mistério que nos compõe. Outros...são apenas...sonhos sonhados! Que sonhamos...nem são desejos sequer...mas aparecem, quando o cérebro não está inspirado, ou está cansado e mistura tudo...como nós.
- Explica o sonho 
- Áh! Que bonito! - Exclamam as duas corujas a sorrir
- Então os sonhos são tanta coisa…! - Pensa em voz alta uma coruja 
- São mesmo! - Diz a outra 
- Há sonhos sonhados que sonhamos, e desejos que desejamos, que se transformam em bolas de sabão! - Acrescenta o sonho 
- Áh! Então andam muitos sonhos por aí… - Repara uma coruja 
- Sim. Nós vemos muitas bolas de sabão! Então...elas são sonhos que vagueiam… - Diz outra coruja 
- Isso mesmo! Essas bolas de sabão, têm aqueles sonhos que sonhamos e desejamos, e sabemos ao acordar, que não serão realizados…! - Diz o sonho com ar de sonhador 
- Óh, que pena…! - Dizem as duas corujas
- Eu tenho tantos sonhos que não se realizam…- Diz uma coruja 
- Eu também… - Diz outra coruja 
- Todos temos! Mas fazem parte de nós, vivem no nosso jardim, e quando os portões se abrem, todos entram…Porque esses são apenas...bolas de sonhos, bolas de desejos, bolas de vontades...que flutuam, pairam, vagueiam pelo jardim do sonhar e desfazem-se ao chegar ao Universo da realidade. São...sonhos! - Completa o sonho 
- Áhhhh…! - Suspiram as corujas a sorrir 
- Que lindo que deve ser esse jardim do sonhar. - Imagina uma coruja 
- Sim. É imenso...não tem fim, tem imensos caminhos, e existem milhões...todos diferentes. - Diz o sonho 
- Uau! - Dizem as duas 
- Que bom que é sonhar...sonhos bons. - Repara uma coruja 
- Pois é! - Diz a outra 
- É mesmo. - Responde o sonho
- Bem, desculpa amigo sonho...vou voltar a esse jardim do sonhar...porque estou cheia de sono. Só abri os olhos porque te ouvi chegar. - Diz uma coruja 
- Eu também! - Diz a outra coruja 
- Claro...à vontade! Eu também vou continuar o meu passeio. Até já...bons sonhos para vocês. - Deseja o sonho 
- Obrigada! - Respondem as duas 
         O sonho continua o seu passeio, e as corujas voltam a dormir. O que será que elas encontraram no jardim do sonhar? 

FIM
Lálá
(29/Dezembro/2016)


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

A neve com sabor



Era uma vez um caminho cheio de neve que ia ter a várias casas. Por todo o lado havia neve, um sol fraquinho que espreitava tímido entre o nevoeiro baixo e denso, e frio. Já nevava há vários dias e noites, mas quando parou, todos saíram de casa e foram sentir a neve, brincar com ela, escorregar, rir, construir bonecos e conviver.
Um menino pegou numa bolinha de neve redondinha e branca, leve, sentiu-a fria nas suas mãos e cheirou-a. Não cheirava a nada. Quis saber se a bola de neve tinha sabor…deitou a língua de fora, tocou a medo com a ponta da língua na neve e…óóóhhhh… que estranho! A neve…sabia a qualquer coisa! Mas não conseguia perceber muito bem ao que era.
Pediu aos pais que provassem, os pais deram umas sonoras gargalhadas e não provaram. Acharam que ele estava a imaginar. Pediu a uma menina sua amiga que provasse…a menina tirou um pedacinho de neve, provou-a e…Áhhhh…! Surpresa…a menina também sentiu que sabia a qualquer coisa.
Os pais provaram mas lembraram-se que aquilo podia ser venenoso. Quando olharam para os cães, viram-nos deliciados a brincar e a trincar neve, todos felizes, a correr, a saltar, a escorregar, a ladrar. Foram perguntar aos cães se a neve também tinha sabor.
Os cães não perceberam o que eles perguntaram e continuaram a trincar neve. Os meninos pegam noutro pedacinho e provam.
- Esta também tem sabor! – Diz a menina surpresa
- Pois tem! – Diz o menino
- Humm….é boa!
- Também acho! Mãe…pai…ei…todos…provem a neve!
- O quê? – Perguntam todos
- Óh filho, alguma vez a neve se provou? – Pergunta um Avô
- Nós provamos…eu e ela!
- E tem sabor! – Garante a menina
- Não pode ser! – Dizem todos
- A neve nem sequer é de comer! Pelo menos por nós, humanos. – Comenta uma tia da menina
- Prova, tia! É boa. – Convida a menina
Ninguém acreditou, mas todos ficaram curiosos, queriam ter a certeza que era imaginação das crianças. Provaram a neve a brincar…pegaram num bocadinho de neve, e tocaram com a ponta da língua.
- Áh! E não é que esta neve tem mesmo sabor…?! – Comenta outro Avô
- Realmente…! – Dizem todos
- Isto é muito estranho! – Repara um pai
- Pois é! – Dizem todos
- Os cães também provaram e comeram neve! – Diz a menina
- Como é que pode ser? Nunca conheci uma neve que tivesse sabor.
De repente, enquanto estão todos muitos pensativos naquele mistério, ouvem alguém a chorar. Procuram por todo o lado, mas não vêem ninguém! É uma pequenina fada que está pousada em cima de um telhado, uma fada da cor do gelo, quase transparente que parecia vidro.
- Está ali…! – Diz a menina
- Quem está aí? – Perguntam todos
A fada assusta-se e para de chorar.
- Olá! – Diz a fada
- Quem és tu? – Perguntam todos
- Sou a fada do gelo!
- Áh! Que linda…! – Dizem os meninos a sorrir
- És tu que estás a chorar? – Pergunta uma mãe
- Sim! – Responde a fada
- Porquê? – Perguntam todos
- É que a fruta que eu tinha apanhada para fazer os meus produtos, foi sugada pelo vento forte…sugou tudo, e desapareceu. Perdi tudo! Agora como vou fazer os meus produtos? - Conta a fada
- Óh! Que pena. – Dizem todos
- Apanhas outras, não faz mal…! – Diz uma Avó
- É! O que mais há por aí é fruta…até podes vir ao meu jardim.
- A sério? Muito obrigada! – Diz a fada a sorrir
- Sabes que esta neve tem sabor?  - Pergunta o menino
- Tem sabor? Como assim? – Pergunta a fada
- Sim! Eu provei, e tem sabor. – Diz o menino
- É verdade! Eu também provei e soube-me a qualquer coisa! – Confirma a menina
- Pois é! – Dizem todos
- Eu pensei que eram eles a imaginar, mas também quis provar e também me soube a alguma coisa! – Reforça outra mãe
- Prova! – Desafia a menina
- A fada desce do telhado, pega num pedacinho de neve, prova e…
- Áhhhh! É mesmo! E que boa que é! Huuummmm…. Sabe a… fresco…a…água…a…plantas! – Diz a fada
- É isso! Não sabíamos dizer bem ao que sabia. – Diz outra mãe
E todos comem mais pedacinhos de neve. Descobriram vários sabores diferentes, em vários sítios por onde provaram. Uns pedacinhos sabiam a fruta, outros pedacinhos a plantas, outros a flores, outros a mentol e eucalipto, outros a limão.
Provaram tanta neve que quase congelaram…tomaram um chá quente, e todos ficaram doentes uns com tosse, outros com gripe, porque a diferença de temperatura foi muito grande, e ainda por cima tinham as roupas molhadas no corpo porque estiveram a divertir-se uns com os outros e com a fada.
A fada foi a única que não ficou doente, porque já estava habituada, e foi visitar um por um, levando-lhes bolinhas de mel, geleia de água quente com limão, almofadinhas bordadas pelas suas amigas com eucalipto e mentol…eles agradeceram à fada, com uma grande festa, depois de estarem totalmente bons.
Afinal…a neve tinha sabor porque o comilão das nuvens adorava fruta, aspirou todas as frutas que a fada apanhou, para fazer os seus bolos, e todo o sumo que ele deixou cair, porque era muito trapalhão, foi parar às nuvens que iam para a terra, a quem se juntaram para brincar. Acabaram congeladas como as outras gotas de chuva, e transformaram-se em neve! Neve com sabor…
Fim
Lálá
(7/Dezembro/2016)