Número total de visualizações de páginas

quinta-feira, 24 de março de 2016

o palhacinho e a boneca

 

      Era uma vez, uma linda boneca que vivia numa loja de brinquedos. Essa boneca, era tão linda e tão perfeita que toda a gente reparava nela, mas na hora ninguém a queria levar porque era demasiado cara, segundo as pessoas. Com o passar do tempo, a boneca começou a ficar triste…por estar sempre na loja e por ninguém a querer. E a pobre da boneca chorava, chorava, chorava. Ninguém via as suas lágrimas mas ela chorava muito. Numa noite, a loja fechou como sempre acontecia. Passou por essa loja, um palhacinho humano, também muito triste, a arrastar os pés e a chorar, a chorar, a chorar… o palhacinho parou em frente à loja. A boneca, ao vê-lo, ficou com pena dele, bateu no vidro para que ele reparasse, ele olhou, mas não ligou.

BONECA (grita) - Eiii…

NARRADORA - Bate outra vez no vidro. O palhacinho olha, a soluçar, a boneca acena - lhe e bate mais uma vez no vidro…o palhacinho nem quer acreditar. BONECA (grita) - Tira-me daqui. Eu tenho de falar com aquele rapaz pintado…como é que eu vou sair daqui? Está tudo fechado…

NARRADORA - Aparece uma fada e leva a boneca, a boneca vai pelo ar, assustada. 

BONECA - O que é que está a acontecer?... Será que…a dona Jú … se fartou de mim e vai pôr-me fora da porta…?! (p.c) mas…estou a voar?

FADA (sorri) - Sim! Vou levar-te àquele rapaz palhacinho. A loja está fechada, esta é a única maneira de saíres.

NARRADORA - A boneca que sai a voar, está espantada, e encantada com o que está a ver.

BONECA - Ááááááhhhh…este sítio é muito diferente da loja…!! É tão bonito… e este ar…huuuummmm….estas luzes todas….óh fada… Tu conheces aquele rapaz pintado?

FADA - Sim. Tu vais ajudá-lo muito, e ele a ti.

BONECA - Ai sim? Porque é que ele está tão triste?

FADA - Já vais saber isso tudo.

NARRADORA - O palhacinho ainda está a olhar para a montra. A fada pousa a boneca mesmo à sua frente. O palhacinho está inconsolável. Coitadinho…até mete pena. Olha para a frente e a boneca está a olhar para ele.

BONECA - Olá…

PALHACINHO - Olá…

BONECA - Porque é que estás a chorar tanto?

PALHACINHO - Porque…por muitas coisas…de onde é que caíste?

BONECA - Eu saí aqui da loja!

PALHACINHO - Saíste da loja? Mas está fechada…atravessaste o vidro foi, ou a loja tem algum buraco?

BONECA - Saí a voar…uma fada tirou-me dali…

PALHACINHO - Eras tu que estavas a chorar e a bater no vidro?

BONECA - Sim. Tu viste-me?

PALHACINHO - Sim! Pensei que estava a imaginar, mas pelos vistos vi-te mesmo. 

BONECA - Vives por aqui?

PALHACINHO - Eu…vivo… num sitio qualquer desses… não tenho sítio certo…e tu…vives naquela loja?

BONECA - Sim… ninguém me quer…ninguém me leva…toda a gente olha para mim, oiço dizer que sou bonita, mas no fim, é na loja que fico. Ando muito triste, sabes?!

PALHAÇO (admirado) - Ai sim? Eu pensei que as bonecas não ficavam tristes…!! Porque é que ninguém te quer?

BONECA - Não sei! Acho que é por eu ser muito cara…não sei o que isso significa, se é um elogio, ou uma coisa má… sei que fico lá sempre! (p.c) É uma tristeza, quando fico feliz de pensar que finalmente vou sair daquela loja, e vou ter alguma criança ou uma velhinha como companhia, que me vai tratar bem, que…me vai pegar ao colo, abraçar-me, beijar-me, brincar comigo…lá fico eu outra vez naquele sítio…!

PALHACINHO - Sim…deve ser mesmo muito triste…eu também gostava de ter isso tudo que tu disseste…um colo, um abraço, um beijinho…um carinho… e que alguém brincasse comigo!

BONECA - E não tens?

PALHACINHO (triste) - Não! Acho que…há muito tempo atrás tive um bocadinho disso, mas nem me lembro bem…sei que era bom!

BONECA - Quem é que te dava isso?

PALHACINHO (triste) - Os meus pais…

BONECA - E porque é que deixaram de te dar carinho e de te pegar ao colo…? 

PALHACINHO - Não sei…acho que…deixaram de gostar de mim…

BONECA - Mas…acho que os pais…não deixam de gostar dos filhos…ou…será que fazem o mesmo que aos brinquedos quando crescem?

PALHACINHO - Realmente… disseram-me a certa altura que os pais nunca deixam de gostar dos filhos, mas, eu acho que é mentira!

BONECA - Onde estão os teus pais?

PALHACINHO - Os meus pais estão a trabalhar no circo, andam por aí.

BONECA - E não te levaram com eles?

PALHACINHO - Não! Eles dizem que aquilo não é vida para mim.

BONECA - Então se calhar não te levaram para te proteger…(p.c) porque gostam de ti…e não querem que nada de mal te aconteça! (p.c) porque é que andas assim pintado?

PALHACINHO - Para ganhar algum dinheiro…quando os meus pais vão por aí, eu fico na casa de uma vizinha, mas ela não gosta de mim, está sempre a resmungar comigo, e a ralhar-me, quase nunca está em casa. O marido também me deixa à-vontade, diz que nem ele a pode aturar, por isso deixa-me sair…mas há uma coisa que me deixa ainda mais triste…

BONECA - O que é?

PALHACINHO - É já não conseguir fazer as pessoas: crianças, adultos e mais velhinhos rir.

BONECA - Tu fazes as pessoas rir?

PALHACINHO - Sim. Eu pinto a cara e ando assim vestido para repararem em mim, para se rirem…mas isso não tem acontecido. Toda a gente perdeu a vontade de rir.

BONECA - Mas…isso é muito mau não é?

PALHACINHO - Sim é! É muito mau para mim, e para as pessoas que não se riem. É porque possivelmente andam doentes… deprimidas…

BONECA - Mas porque é que elas não se riem?

PALHACINHO - Não sei…devem andar tristes…

BONECA - E porque é que elas andam tristes?

PALAHCINHO - Não sei. Não falo com eles…já não olham para mim. Sinto-me muito sozinho! É por isso que vou embora para outro sítio qualquer, a ver se estas pessoas sentem a minha falta! Eu acho que não vão sentir, mesmo assim, vou tentar a sorte noutro lugar.

BONECA - Eu também me sinto sozinha!

PALHACINHO - Mas…estás rodeada de outros bonecos, tens sempre gente que repara em ti…!

BONECA - De que é que isso adianta? Não são meus amigos…! Tu não tens amigos mesmo?

PALHACINHO - Hummm…acho que…alguém que mereça esse nome não tenho! Tenho muita gente conhecida, mas amigos…acho que…não…! Mas, o que é para ti amigo?

BONECA - Olha…é aquela ou aquelas pessoas que tem muitos gostos iguais 
aos teus, mas também diferentes, … e essas coisas diferentes não vos faz ficar chateados um com o outro…! Amigos também são aquelas pessoas que contam tudo umas às outras, e que sabem guardar segredo… que brincam contigo… que se preocupam contigo…que te convidam para festas, passeios, jogos, e que te apresentam outros amigos, que dividem brinquedos contigo, … que vão passar tardes a casa uns dos outros… que também te dão carinho, e que se riem contigo, … que sabem alegrar-te quando estás triste, hummmm… ser amigo é muitas coisas boas! E tu, o que achas que é ser amigo?

PALHACINHO - Para mim…ser amigo…também é … quase isso tudo que tu disseste! (p.c) Mas … outra coisa… há quanto tempo estás naquela loja?

BONECA - Não sei! Sei que umas vezes está muito claro aqui fora, outras vezes está muito escuro, e quando está muito escuro, nós ficamos na loja sozinhos!

PALHACINHO - Claro… quando há muita luz, as lojas estão abertas, porque é de dia, quando está muito escuro, as lojas fecham porque é de noite e está tudo a dormir.

BONECA - Ááááhhh… olha, leva-me a dar uma volta por aí…e vamos falando, pode ser?

PALHACINHO - Está bem! Dá-me a mão…

NARRADORA - A boneca dá-lhe a mão, olham-se fixamente. A boneca sorri-lhe, e os seus olhos azuis brilham. O palhacinho sorri também timidamente. 

PALHACINHO - És mesmo bonita!

BONECA (sorri) - Achas? Obrigada.

PALHACINHO - Vou levar-te ao jardim onde estive a dormir ontem. É muito bonito.

BONECA - Boa !!

PALHACINHO - Desculpa…nem te perguntei como te chamas…?

PALHACINHO (muito admirado) - Não sabes?! Não tens nome?

BONECA - Não. Chamam-me sempre boneca…não sei…pensando bem…deve ser assim que me chamo… e tu?

PALHACINHO - Chamo-me Rafael.

NARRADORA - Caminham mais um bocadinho, a falar e chegam rapidamente ao jardim.

PALHACINHO - Chegamos ao jardim…

NARRADORA - O palhacinho mostra o sítio todo, a boneca fica deliciada ao ver tanta coisa bonita, tantas flores, com a fonte, o sossego, o cantar dos grilos e das cigarras, o voo dos pirilampos à volta das lâmpadas…tudo é novidade para a boneca.

BONECA - Tu devias estar contente…por viver num sítio tão bonito como este! (p.c) eu ficava aqui a viver!

PALHACINHO - Eu gosto muito deste sítio, mas tenho de procurar um outro lugar, ou cidade onde as pessoas reparem em mim, riam e claro onde ganhe algum dinheiro.

BONECA - Então…vais mesmo embora?!

PALHACINHO - Sim…com muita pena minha!

BONECA (triste) - Mas…acabei de te conhecer, já te pus no meu coração como amigo…finalmente achei que alguém tinha gostado de mim…e que não ia ficar mais sozinha…e afinal… já vou ficar outra vez sozinha…vais abandonar-me …como fazem todos os outros? (desata a chorar)

PALHACINHO (triste) - Óh não…não chores, por favor! Eu não te vou abandonar…sou teu amigo…e gosto de ti…vens comigo! Ou então, se quiseres ficas aqui, eu vou para outro sítio e à noite volto para estar contigo. Queres?

BONECA (triste a soluçar) - Quero! Eu vou contigo, e ajudo-te a fazer com que as pessoas reparem em ti!

PALHACINHO (sorri) - Boa ideia! Podemos tentar. Se fores comigo, pode ser que reparem em mim. Queres brincar um bocadinho por aí?

BONECA (sorri) - Sim!

NARRADORA - E os dois brincam, saltam, riem, correm, dançam, o palhacinho mostra alguns truques à boneca, ela fica espantada e bate palmas. A boneca dança para ele e faz algumas habilidades de ginástica. Ele bate palmas e cantam juntos.

PALHACINHO (boceja) - Ááááááhhh… o João Pestana vem aí!

BONECA - Quem? (p.c) Conheces…? É teu amigo?
(Gargalhadas do palhacinho)

PALHACINHO (a rir) - O quê? Não conheces? ... Este toda a gente conhece… não é meu amigo, nem inimigo, simplesmente faz toda a gente ficar com sono!

BONECA (espantada) - Eu não conheço…apresenta-mo…

PALHACINHO (a rir) - Quando estiveres a ficar com sono, vais vê-lo…!

BONECA - Hummm… (boceja) também estou com sono…quero dormir…não te importas?

PALHACINHO (sorri) - Claro que não me importo… então…vamos dormir e amanhã pensamos numas ideias para repararem em ti, em mim e como havemos de fazer as pessoas voltar a rir, está bem?

BONECA (sorri) - Está bem!

PALHACINHO (sorridente) - Não sabes como estou feliz de te ter encontrado, adorei esta noite… já é quase dia…

BONECA (sorridente) - Eu também estou muito feliz por te ter encontrado, por me teres trazido a um sítio tão bonito, por me teres tirado daquela loja…por ter arranjado um amigo !!!

PALHACINHO (sorri) - Sim! Eu também arranjei uma amiga…!!! Linda…simpática…

NARRADORA - Os dois deitam-se felizes, lado a lado, o palhacinho cobre a boneca com a sua manta e abraça-a.

OS DOIS (sorriem) - Obrigada (o) fada!

NARRADORA - Os dois riem, a fada fica mais luminosa, e abre um grande sorriso. 

FADA - De nada! As vossas vidas vão ser melhores daqui para a frente…qualquer coisa, é só chamar.

PALHACINHO - Boa noite boneca…!

BONECA - Boa noite, … Rafael!

NARRADORA - Os dois adormecem a sorrir.
                                                                       2.
NARRADORA - Na manhã seguinte, as fadas preparam um belo pequeno - almoço para os dois. Quando acordam, o palhacinho e a boneca sorriem, dão dois beijinhos e ficam surpresos ao ver aquele pequeno – almoço. Comem com uma enorme vontade, e estão tão deliciados que nem falam. Só no fim.

BONECA - Huuuummmm... nunca tomei um pequeno – almoço destes! Tão bom!! Dormiste bem, Rafael?

RAFAEL - Sim, muito bem e tu?

BONECA - Eu também. (p.c) o que vamos fazer hoje?

PALHACINHO - Não sei…acho que vamos ficar por aqui, não? A ver se alguém dá pela nossa falta. Eu acho que ninguém vai reparar se não aparecer nas ruas. 

BONECA - Mas assim não ganhas dinheiro.

PALHACINHO - Sabes de uma coisa? Eu desisto de ser palhaço. Ninguém gosta de mim, eu não faço rir ninguém…sou um palhaço sem valor!

BONECA - Eu não concordo contigo! Tu és bom rapaz, porque é que as outras pessoas não hão-de gostar de ti?! (p.c) não roubas ninguém…não magoas ninguém…lá porque as outras pessoas se esquecem de rir, também não quer dizer que não gostem de ti (p.c) mas não podes desistir… não estás a fazer o que gostas?

PALHACINHO - Sim, gosto muito do que faço, mas não está a dar resultado, é melhor sair…

BONECA - Mas eu não te deixo desistir…! (p.c) temos de pensar é noutras brincadeiras diferentes para que reparem… fazes sempre as mesmas coisas…porque não fazer coisas diferentes?! Brincadeiras novas…surpreender as pessoas…!

PALHACINHO - Pois…era uma excelente ideia, mas…não sei inventar mais nada! 

BONECA - Mas é claro que sabes inventar outras coisas! (p.c) em vez de pensares em desistir de ser palhaço, pensa em brincadeiras… tenho a certeza que consegues. (p.c) eu sei de algumas, mas só te digo no fim! Primeiro pensa tu…! 

NARRADORA - Faz-se silêncio, a fada interrompe. Eles estremecem.

FADA - Tens toda a razão boneca. O teu amigo não vai desistir de ser palhaço. Nós temos a solução. Os dois vão trabalhar juntos todos os dias, e o palhacinho vai ter roupas diferentes todos os dias. Vão começar a partir de hoje…daqui a bocado. E tu, boneca, também vais ter roupas diferentes. Vá…ponham essas cabeças a trabalhar e vão para a rua!

BONECA (sorri, feliz) - Vês? Eu não te disse?

PALHACINHO (sorri) - Quais eram as tuas ideias?

NARRADORA - A fada, com os seus pozinhos mágicos muda as roupas ao palhacinho e à boneca, e os dois inventam coreografias, brincadeiras, danças, diálogos muito divertidos e lá vão eles para a rua. A fada tinha razão… o palhacinho não podia deixar de fazer rir as pessoas, e ele com a boneca iam fazer muito sucesso. Na rua, fazem tudo o que combinam. Por onde passam, toda a gente repara neles, riem muito, batem-lhes palmas, elogiam-nos, interagem com o público, brincam e toda a gente lhes dá dinheiro. Todos ficam encantados. Nos dias seguintes passa a acontecer o mesmo, e os dois estão muito felizes. Passado uns tempos, o palhacinho e a boneca são convidados para trabalhar num circo onde os pais de Rafael trabalham. Os pais ficam muito orgulhosos dele e a boneca também toda a gente gosta dela.
Antes de terminar…uma mensagem , ou pensamento, o que quiserem: não desistam de fazer o que mais gostam, e tenham sempre pelo menos uma pessoa a quem possam chamar de amiga/o, que esteja sempre do vosso lado, e que vos incentive a continuar quando a fraqueza, a tristeza e a vontade de desistir vos batem à porta. Há sempre alguém que compreende, que dá a mão ou diz uma palavra agradável…empresta os seus ombros ou o seu colo, e gosta de vocês como são, com as qualidades e defeitos. Mesmo quando às vezes parece que toda a gente vos ignora, há sempre alguém que mesmo sem palavras, apenas com o olhar brilhante, ou sorriso, ou lágrimas, dizem muito mais que mil elogios e que repara em vocês. Por muito difícil que tudo pareça, ponham a imaginação a trabalhar e vão em frente! Acima de tudo não desistam!

FIM.
Lálá 
(18 Setembro de 2009)



quarta-feira, 23 de março de 2016

O LOBO SENSÍVEL


Era uma vez, uma floresta muito perto de uma grande cidade, onde viviam muitos animais, entre eles uma matilha de lobos. Os lobos têm por hábito caçar, sem olhar a quê, mas o lobinho desta história é diferente e especial.
Certo dia, de manhã bem cedo o lobo saiu com a sua família para caçar. Uns foram para um lado, outros para outro e ficaram de se encontrar em casa com a caça.
Todos caçaram várias peças de carne, de animais diferentes, mas o lobinho não teve a mesma sorte. Não foi porque ele não soubesse caçar…outros motivos não permitiram que ele caçasse. Querem ver quais foram? Continuem a ler.
Começou a andar e sentiu o cheiro a carne…uns passarinhos chilrearam agitados quando viram o lobo.
CORO – Cuidado coelhinho…está aí o lobo…!

P1 – Foge!

P2 – Esconde-te…!

P3 – Ele vai-te comer…foge…foge.

Abriu bem as narinas, agachou-se, levantou as orelhas, cheirou a terra…e foi a rastejar, encontrando-se com um coelho tão fofinho…!

LOBO (murmura) – Calem-se idiotas…não me afugentem o pequeno almoço…já sinto fraqueza… ai…que fome! E vocês serão os próximos. (p.c) hhuuummm…coelho…que delicia!
       
           E põe a pata em cima da cauda do coelho.

CORO – Pobre coelhinho…!

P1 – Coitadinhos dos filhotes…!

P2 – Lobo maldito…

P3 – Não tens coração?

P4 – Devias era comer pedras…seu malvadão! Ou alguém da tua raça. (p.c)
Deixa o coelhinho em paz.

P1 – Que pouca sorte…!

P2 – Temos que fazer alguma coisa por ele.

P3 – Cala-te…pára quieto…ou queres ser o almoço dele…?!

P4 – Nós bem o avisamos para ele fugir. Mas não nos ouviu.

P1 – É agora que ele vai ser comido…ai…que horror!
P2 – Estes monstros não deviam existir…só vem perturbar a paz da floresta.

CORO – Pois. 

O coelho estremece e começa a gritar, assustado, a tremer.

LOBO (sorri) – Bom dia! Já tomaste o pequeno-almoço não já?!

COELHO (a tremer) – Bom dia…sim, já tomei. E tu?

LOBO (sorri) – Eu não… (com ar sério e ameaçador) mas vou tomar…! Agora!

COELHO (a tremer) – Áh…então bom apetite. (p.c) Eu não tenho aqui nada para te dar, se tivesse de sobra dava-te com bom gosto!

LOBO (sorri) – Óh…que simpático…tens um bom coração! (p.c) Tu…vais ser o meu pequeno almoço…!

COELHO (nervoso, assustado) – Óh… não! Por favor…eu não!

LOBO (sorridente) – A tua carne é deliciosa! Eu era muito burro se te deixasse escapar. Huuuummmm…e com o teu pelinho vou conseguir uma bela manta para me cobrir do frio…Óóóhhhh…todos vão ficar muito orgulhosos de mim. Como tu és bonzinho e simpático, eu sei que vais deixar-me comer-te.

COELHO (nervoso, implora) – Eu compreendo a tua fome…mas por favor…come outro qualquer…mas a mim não! (p.c) Eu…tenho filhos ainda muito pequenos, eles precisam de mim, porque a mãe está a trabalhar longe…! Eu vim buscar o pequeno-almoço para eles! (p.c) Acredita que tenho pena de ti, e que te dava alguma coisa para comer, mas não tenho. Vim ao mesmo que tu.

LOBO (com pena, mais meigo) – Mas…eu estou cheio de fome! Também preciso de comer.

COELHO (nervoso) – Se não me comeres, eu prometo que te preparo um belo pequeno-almoço na minha casa!

LOBO (surpreso) – O quê…? Vais-me deixar comer os teus filhotes?!

CORO – O quê?

P1 – Ele está louco.

P4 – Não, deve ser o medo a falar por ele.

P3 – Pois…bem me parece que ele não sabe o que está a dizer.

COELHO (nervoso) – Nem penses! Eu dou-te um pequeno-almoço especial. (p.c) Vá lá…por favor, não me comas, os meus filhos precisam de mim. Tal como tu precisas dos teus pais.

LOBO (comovido) – Sim, eu preciso muito dos meus pais…e adoro-os, mas tenho que caçar para comer, e aparecer com a caça em casa.

COELHO – Mas leva outra coisa. Também não gostavas que alguém comesse os teus pais pois não?

LOBO (triste) – Não, claro que não.

COELHO (nervoso) – Imagina que tinhas filhos ainda muito pequeninos, e eras coelho…vinhas buscar o teu pequeno-almoço, e o deles, porque a tua mulher estava a trabalhar longe…imagina…gostavas que eu fosse lobo, e te comesse…? Com os teus filhotes muito pequenos em casa à espera…? Os teus pais com certeza, também não te deixaram sozinho em muito pequeno…pois não?

        O lobo fica pensativo, triste e com pena do coelho.

LOBO – Mas…que pequeno-almoço é que me vais dar, se não tens para os teus filhos?

COELHO – Há-de se arranjar qualquer coisa, mas por favor…os meus filhos não, nem a mim!

        O lobo rosna frustrado, uiva irado, e põe-se em posição de ataque com ar ameaçador e o coelho treme a chorar, muito assustado. O lobo olha para o coelho e fica comovido. Grita muito zangado e frustrado:

LOBO – Vai-te embora! Para bem longe de mim!

COELHO (a chorar) – Muito obrigado…tu és um bom lobo…! (p.c) Vais encontrar um manjar dos deuses para pequeno-almoço…vais ter uma boa recompensa por não me teres comido! Até logo.

        O coelho desata a correr, e o lobo rosna e uiva frustrado.

CORO (surpreso) – Ááááhhh…! Ele não o comeu!

P1 – Este lobo é diferente…será que era mesmo um lobo…?

P2 – Sim, era mesmo um lobo, mas este era…afinal…bonzinho!

P3 – Pode ser que não estivesse com muita fome. Se estivesse mesmo esfomeado, comia-o.

P4 – Mas o coelhinho foi inteligente…falou-lhe nos filhotes.

P1 – Nunca vi um lobo assim, que ficasse com pena da presa…!

CORO – Nem eu.

P4 – Mas ainda bem que não o comeu. Coitado do coelho.

P2 – Teve muita sorte.

CORO – Sim, pois foi.

LOBO – Raios! (p.c) Aquele coelhinho vinha mesmo a calhar…era…apetitoso…e esteve mesmo debaixo da minha pata…mas falou nos filhos…e na mulher que estava a trabalhar longe, e levantou-se muito cedo… (p.c) que raiva! Aaaaaaaúúúúúú…tive pena dele…fiquei sem pequeno-almoço! (p.c) Que tristeza! (p.c) Onde é que eu vou buscar agora o pequeno-almoço?

        De repente sobrevoa uma águia. O lobo olha para cima e esconde-se assustado atrás de um arbusto…e murmura:

LOBO – Óóóhhhh…não acredito! Esta tinha que vir para aqui estragar tudo. Agora que eu ia atrás de pequeno-almoço. O que é que eu fiz para merecer isto…?

        Ele ouve uma ovelha, a bramir. Levanta as orelhas, olha para um lado e para o outro…avista a ovelha, olha para cima e murmura:

LOBO – Espero que aquela selvagem cheia de penas fique bem longe…no canto dela! (p.c) Ai…esta ovelhinha…tão linda…tão…tenrinha…mnhã, mnhã…! Tão sozinha…! Coitadinha…esta não escapa.

        O lobo aparece de repetente e agarra a ovelha. Ainda a prende e morde-a, mas para azar do lobo aparecem outras ovelhas, com os cães atrás. A ovelha brame fortemente. As outras bramem em conjunto, e os cães apercebem-se e tentam atacar o lobo. O lobo larga a ovelha, e envolve-se numa luta com os cães. As ovelhas fogem assustadas. O lavrador escorraça o lobo, e este desata a fugir, ferido, frustrado e nervoso. Pára na berma de um lago onde há patos. Os patos escondem-se todos enquanto o lobo se refresca, e falam uns com os outros, surpresos.

PATO 1 – Mas…o que é isto?

PATA 1 – Nós aqui tão sossegados, e de repente chega um intruso deste tamanho.

PATO 2 – Mas que raio! Como é que ele veio aqui cair?

PATO 3 – Se calhar está-se a proteger de um enxame de abelhas ou de pulgas.

PATO 4 – Ou tem o rabo a arder.

        Todos riem. 

PATA 1 – O rabo a arder…?! O juízo dele é que está a arder com certeza! Para se meter num lago…!

PATA 2 – Devíamos corrê-lo daqui à bicada.

PATA 3 – É melhor estarmos calados se não ainda servimos de almoço.

PATO 1 – Ele que nem se atreva…!

PATA 4 – Coitado de ti…ias fazer muito.

        As patas riem.

PATO 1 – Achas que eu não tinha coragem?

TODOS – Tinhas, tinhas…

LOBO (nervoso) – Humm…cheirava-me a patinho…onde é que eles se meteram?! (p.c) Óhhh…se calhar estava a alucinar! Isto já deve ser fome! E a vontade de comer!

        Passa uma galinha com os pintainhos, e o lobo atira-se a eles, por muito pouco conseguem escapar. Mais uma vez o lobo fica sem pequeno-almoço. E está cada vez mais zangado e nervoso. Como não sabe nadar, vai andando por terra, a chorar, devagar e murmura:

LOBO (a chorar) – E agora…?! Porque é que eu ainda não consegui apanhar nada…?! Deixei escapar aqueles petiscos…que raiva! O próximo animal que aparecer não vai escapar. (p.c) Porque é que eu sou bom?! (p.c) Não quero mais ser bom…nem sensível (p.c) Tenho que ser mau para sobreviver, se não…estou perdido…! (p.c) Ai…que fome! (p.c) Já estou a ficar sem forças…! (p.c) Acho que é melhor ir para casa! (p.c) Pode ser que haja alguma sobra…! (p.c) Ai…sou um fracasso!

        O Lobo vai para casa, fraco, ferido, triste, frustrado e zangado. Ao chegar a casa, os seus pais e irmãos estão a devorar deliciados um animal que encontraram. Todos param de comer e olham para ele.

PAI LOBO – Então, filho? Demoraste…deves ter caçado alguma coisa!

LOBINHA 1 – Ele está ferido! (p.c) Andaste à luta?

PAI LOBO (sorri) – É natural…é da raça.

LOBO (envergonhado) – Andei à luta, mas não cacei nada!

PAI LOBO (Zangado) – O quê? Como é que é possível?

LOBINHO 1 – Mas…tu és um lobo ou um maricas…?! Ou um boneco de
peluche?

LOBO – Sou…um lobo como vocês.

LOBINHA 2 – Como nós não és, se não tinhas trazido caça.

MÃE LOBA – Então meninos…respeitem o vosso irmão.

LOBINHA 1 – Esse palerminha é uma vergonha…nem deve ser meu irmão…porque nenhum de nós é igual a ele…

LOBINHA 2 – Felizmente…! Eu não gostava de ser como ele…tão feia que eu era...

        As duas Lobinhas e o irmão riem. A Mãe recrimina-as com o olhar. Elas calam-se.

MÃE LOBA – Anda comer daqui, filho! Ainda há de sobra!

PAI LOBO – Achas que ele merece? (p.c) Não fez nada para conseguir caçar…

LOBO (triste) – Fiz sim…até andei à luta com uns malditos cães, que me apanharam em flagrante quando ia comer uma ovelha, mas os desgraçados atacaram-me…e depois ainda apareceu o homem e escorraçou-me… (p.c) Aqueles monstros…

LOBO PAI (zangado) – O quê? Como é que te deixaste vencer por uns cães…?

LOBO (triste) – Ia caçar um coelho, mas tive pena dele, porque ele estava a buscar comida para os filhos ainda muito pequenos…e a mulher dele…saiu muito cedo para trabalhar!

LOBINHA 1 (a rir) – Que cromo…teve pena da presa…sinceramente!

LOBINHO 1 (a rir) – És mesmo palerma…!

LOBINHA 2 (a rir) – Nem pareces um lobo…pareces um gato melado…!

MÃE LOBA – Come filho, tens aqui! Anda…não ligues ao que estão a dizer!

PAI LOBO (grita) – Não comes nada. Queres comer, vai lá para fora e procura. (p.c) És um fiasco…és a vergonha da família! (p.c) Meninas, acho que vocês têm razão, ele não deve ser meu filho…a tua mãe deve-te ter tido de outro qualquer!

        A Mãe Loba fica muito nervosa, mas mantém a sua postura de orgulho e mostra-se indiferente, embora silenciosa. Não responde à provocação do marido, corta um pedaço daquela carne, e leva-o para fora de casa, chama o filho. O marido grita-lhe:

PAI LOBO – Mas…o que é isto?! (p.c) Estás a desobedecer-me…?! (p.c) E a deseducar o meu filho?

        A Mãe Loba não responde e diz ao filho:

MÃE LOBA – Come, filho…!

        O Lobo come deliciado, e a mãe vira o rabo para o marido. O marido continua a protestar:

PAI LOBO (nervoso) – Como é possível…e não me viras o rabo porque eu sou teu marido e tens de me respeitar! Ouviste? (p.c) Tinhas que estar do meu lado…em vez de apoiar esse desavergonhado, frango maricas…não pode ser meu filho. Se fosse não me envergonhava a fazer destas coisas…onde já se viu…não caça uma presa porque fica com pena dela…! (p.c) Ainda por cima, a Mãe está do lado dele…ainda o alimenta, e alimenta a preguiça e a trenguice do filho…lorpa…! (p.c) Não aprendeu nada…é mesmo burro este meu filho…que vergonha…! Se fosse meu filho era inteligente…!

        O Lobo pára de comer, triste e envergonhado. A Mãe Loba perde a paciência ao ouvir tanta humilhação e tanta crítica dirigida ao filho que rosna e grita bem alto:

MÃE LOBA – Cáááááááááááááááállllllllleeeeeeeeeeemmmmm-seeeee…! (p.c) Suas pestes!

        Todos estremecem e olham para ela assustados. Os lobitos escondem-se a tremer, atrás do sofá, e vai espreitando.

PAI LOBO (surpreso) – Mas…como é que ousas gritar desta maneira na minha frente?! Eu sou teu marido! 

MÃE LOBA (grita) – Dizes mais uma palavra e eu não me responsabilizo pelos meus actos…! (p.c) Agora quem vai falar sou eu! E tu, nem te atrevas a abrir mais a boca…porque se te ouço mais uma vez…arranco-te essa língua…só para começar…! (p.c) Tens noção do que disseste, e do exemplo que estás a dar aos teus filhos…?! (p.c) Com certeza não tens…mas quando te calares, e quando olhares para a tua cabeça…pensares no que disseste, vais perceber…! (p.c) Lá porque és homem achas que já podes dizer tudo o que queres, e humilhar os teus filhos, e a mim…?! (p.c) Quem és tu para me dar ordens ou instruções de como eu tenho que falar? (p.c) Quem és tu para falar de respeito? (p.c) Só eu, que sou tua mulher, é que tenho que te respeitar? (p.c) E tu, a mim, não tens que me respeitar…? (p.c) Que raio de respeito é que tiveste ao dizeres que o filho não é teu…e que ele é uma vergonha, ou um fracasso…? Humm…? (p.c) Isso é maneira de o incentivar…? (p.c) Desclassifica-lo o quanto mais pode, como queres que ele evolua…? (p.c) Tu já nasceste ensinado, a saber caçar?

PAI LOBO (assustado e com o orgulho ferido, mais calmo) – Não nasci ensinado, mas aprendi rapidinho, que remédio, tive que me desunhar…mas garanto-te que não me punha com peninhas das presas…como esse!

MÃE LOBA – Devias ter vergonha!

PAI LOBA – Eu tinha vergonha era se fosse como esse.

MÃE LOBA (grita) – Esse, é teu filho! Quer tu queiras, quer não!

PAI LOBO – Ele que continue a ser um idiota e a ter pena das presas…bem que morre à fome!

MÃE LOBA – Não enquanto eu estiver por perto. (p.c) E ai de algum de vocês que seja contra ou que faça qualquer coisa contra… (p.c) se tal acontecer, vocês vão ver uma loba que nunca conheceram, e é melhor que não a conheçam.

LOBINHA 1 (baixinho) – A mamã está má!

LOBINHA 2 (baixinho) – Coitadinho do papá!

LOBINHO 1 (baixinho) – Nunca vi assim a mamã…até tenho medo!

LOBINHAS (baixinho) – Eu também!

PAI LOBO – Tu deves é picá-lo para ele acordar e deixar de ser maricas.

MÃE LOBA (grita) – Deixa-o comigo!

PAI LOBO – Duvido que consigas fazer alguma coisa desse atrasado!

MÃE LOBA (zangada) – Tu ainda vais engolir um sapo. Ai de ti que eu te ouça mais alguma vez a humilhar o nosso filho…!

PAI LOBO (orgulhoso) – Meninos…vamos até lá fora! Não me quero chatear mais. Os lobinhos passam a correr ainda assustados. O Lobo está destroçado, o pai vai brincar com os outros pequenos para o quintal. O Lobo fica com a mãe, muito triste, e ela está a arrumar a cozinha.

LOBO – Mamã…o papá não gosta de mim, pois não?

MÃE LOBA – Gosta sim, filho! Muito. Porque é que não havia de gostar…? (p.c) Já viste algum pai não gostar dos filhos?

LOBO – Mas…o meu não gosta! Ouviste o que ele disse de mim? Ele tem vergonha de mim! Diz que sou um maricas.

MÃE LOBA – E achas que isso é verdade…? Ele só disse isso da boca para fora. Com a cabeça quente, mas é claro que ele não razão.

LOBO – Sim…se calhar tem razão! Eu devia ter sido capaz de caçar…mas…tive pena do coelho…! (p.c) Isso não é comum nos lobos, pois não?

MÃE LOBA – E porque não filho? (p.c) Todos nós…lobos…temos o nosso lado sensível. Por sermos lobos, e por termos de caçar, não quer dizer que ataquemos todos os animais que nos passam pela frente, só porque temos fome. (p.c) Temos fome, somos caçadores, mas também temos as nossas preferências de carne, e as nossas afinidades. (p.c) Tu és um bom lobo! (p.c) Estás a fazer como eu também fiz no inicio, muitas vezes…tive pena de muitas presas, de quem hoje sou amiga…mas isso foi só no inicio. Em breve vais habituar-te!

LOBO (surpreso) – A sério? Também tiveste pena das tuas presas…? Aquele coelho que eu prendi…era pai…e acho que isso mexeu comigo… (p.c) ele pediu-me para não o comer…a história dele…não me deixou atacá-lo…porque se eu fosse pai…ou se fosse pequenino também não queria ficar sem pai…ou sem os meus filhos.

MÃE LOBA – Claro filho…o teu pai também teve os seus momentos de fraqueza…no inicio todos temos, mas aprendemos com isso!

LOBO – Mas…tu não ficavas envergonhada por não conseguir?

MÃE LOBA – Sim, claro que sim, mas os teus avós compreendiam-me, e nunca me humilharam! Sempre tiveram paciência comigo.

LOBO – Como é que tu deixaste de ter vergonha?

MÃE LOBA – Depois, à medida que eu fui crescendo, habituei-me a caçar…e contigo também vai acontecer isso! (p.c) Não dês ouvidos ao que o teu pai disse! (p.c) Ele a mim também diz coisas que me ofendem, mas eu já não lhe dou importância…sou mais forte, e mais valiosa que as humilhações dele. (p.c) O teu pai já se esqueceu que também foi criança…!

LOBO – Mas os manos conseguem caçar! Porque é que eu não consigo?

MÃE LOBA – Não tens nada que te comparar com os teus manos. São todos diferentes, mas todos são meus filhos, e amo todos por igual! Eu e o teu pai também somos diferentes um do outro, em gostos e em muitas outras coisas.

LOBO – Mas acho que o papá ficou mesmo chateado comigo…ainda bem que ao menos tu, mamã, deste-me de comer, mesmo contra as ordens do papá!

MÃE LOBA (a rir) – Claro filho! Não faltava mais nada, eu obedecer a tudo o que o vosso pai manda…! Somos casados, mas não temos que nos submeter um ao outro, em tudo! Nem ele manda em mim, nem eu nele…! Completamo-nos, respeitamo-nos…quase sempre (sorri) pelo menos o teu pai nem sempre me respeita, mas somos adultos, sabemos lidar com isso. Eu também nem sempre o respeito, porque há coisas que não concordo, por isso não cedo aos comentários e reclamações dele! Mas nunca nos tratamos mal. Discutimos, mas tudo se resolve!

LOBO – Vocês adultos são estranhos! (p.c) Mas é mau ser sensível, não é mamã?

MÃE LOBA (sorri) – Não é bom, nem mau…é só a tua maneira de ser…como a minha! (p.c) Claro que podemos ter algumas desvantagens em sermos sensíveis e bons…mas devemos respeitar essa característica e aceitá-la. (p.c) É bonito sermos bons e sensíveis! (p.c) Eu tenho muito orgulho em ti. (p.c) Daqui para a frente, passas a vir comigo caçar, está bem?

LOBO (sorri) – Está bem! Obrigada, mamã. Mas eu não quero que tu e o papá fiquem zangados um com o outro, por minha causa!

MÃE LOBA – E quem disse que estamos chateados…e logo por tua causa! Nem penses numa coisa dessas! Daqui a pouco arrefecemos as cabeças e está tudo bem!

        Sorriem, abraçam-se, trocam uns carinhos, a mãe cura as feridas do lobo, e nos dias seguintes, o lobo vai para a caça com a mãe. A mãe ensina-lhe truques pacientemente.
Alguns animais, ele não consegue caçar porque fica com pena deles, e a mãe nunca o recrimina por isso. Pouco tempo depois, o lobo torna-se num caçador autónomo, sedutor, vaidoso, orgulhoso e todos ficam felizes com a evolução dele.

PAI LOBO (sorri) – Estou muito orgulhoso de ti, filho! Cresceste e estás um verdadeiro caçador…um lobo autêntico!

MÃE LOBA (sorri) – Eu disse que ainda ias engolir o que disseste sobre o nosso filho!

        Graças aos elogios, paciência, o amor e os incentivos da mãe, o Lobo cresceu, tornou-se mais autoconfiante e autónomo, surpreendendo toda a restante família que o humilhou e não acreditava nele.
                                 
                                  FIM! 
                                Lálá 
                             14/Janeiro/2011