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sábado, 3 de novembro de 2012

Canto, toco ou choro?

NARRADORA - Era uma vez…um elfo que vivia nas profundezas de um imenso bosque. Um lugar onde metade era sol, outra metade era sombra. O elfo tocava e cantava durante muito tempo, e toda a gente achava que ele era muito estranho. As suas melodias até eram bonitas e agradáveis ao ouvido, mas quem lá vivia perto dele, acabava por se fartar de ouvir, e não percebiam como é que ele aguentava cantar e tocar tanto tempo. Umas vezes, ficava numa só árvore, outras vezes, saltitava e corria todas as árvores desse terreno a cantar e a tocar. Uma noite, um macaco irritou-se de ouvir o que o elfo tocava…ainda por cima, o desgraçado queria dormir, e tinha filhos pequenos, mas com aquele barulho, dessa noite, não conseguiam.
MACACO – É hoje que eu corto o pio àquela réla.
MACACA – Que réla…?
MACACO – Este ou esta que está a fazer esta barulheira…vou dar cabo dele.
MACACA – Não vais a lado nenhum…vais ficar aqui quietinho a dormir.
MACACO – Ááááhhh…isso é que não vou ficar aqui a aturar isto. Não tem nada que estar aqui a esta hora a fazer este barulho.
NARRADORA – O macaco levanta-se nervoso, e vai à janela ver de onde vem o som.
MACACO (grita) – Cala lá essa porcaria…!
(O elfo estremece, pára de tocar, intrigado, olha para todo o lado).
MACACO (grita) – Aqui, óh malvado…atrevido…!
(O elfo sorri e cumprimenta)
ELFO – Óóóhhhh…boa noite, vizinho.
MACACO (nervoso) – Boa Noite…? Boa noite…? Mas… que atrevimento…!
ELFO – Desculpe…é de noite, não é?
MACACO (nervoso) – Sim, é de noite, é!
ELFO (educado) – Precisa de alguma coisa, vizinho?
MACACO (nervoso) – Preciso que cales essa porcaria desse rádio, imediatamente.
ELFO – Rádio…? Mas…onde está o rádio?
MACACO (nervoso) – Ora…não me digas que não tens aí um rádio que não se cala…!
ELFO – Não…não tenho rádio nenhum.
MACACO (nervoso) – Não tens rádio? Mas…eu estou a ouvir uma música irritante…ou uma suposta música…barulho…! (p.c) E vinha daqui, tenho a certeza.
ELFO – Desculpe, aqui não há rádio nenhum.
MACACO (nervoso) – Então és tu, que estás a fazer barulho?
ELFO – Desculpe, eu não estou a fazer barulho. Estou a tocar e a cantar.
MACACO (nervoso) – E por acaso cantas horrivelmente mal.
ELFO – Aaaaaiiii…!
MACACO – O que foi? Dói-te alguma coisa…?
ELFO – Está a falar comigo de uma maneira…
MACACO (nervoso) – Pois…e achas que não é para menos…?
ELFO – Não.
MACACO (nervoso) – Ai não? (p.c) Então…pensa bem…estás a tocar e a cantar a estas horas da noite, quando tudo quer dormir, na paz…e tem filhos pequenos, para fazer o mesmo, mas é impossível.
ELFO – Óóóhhhh…coitadinhos…! (p.c) Mas…embale-os a ver se resolve…ou…então…meta-os no seu meio…
MACACO – O quê?
ELFO – Sim, faz-lhes bem. Os filhos gostam de ir para a cama dos pais, quando têm medo de tudo e mais alguma coisa…e querem mimo.
MACACO – O quê…? Mas que disparate.
ELFO – É verdade! (p.c) Todos os adultos dizem isso, e é bom para toda a gente…ou então…eu posso tocar para eles…! Quer?
MACACO (ralha) – Mas que palermice…achas que eu ia permitir…? (p.c) Eles precisam de silêncio, e tu estás a fazer barulho a mais.
ELFO – Ora…não seja tão mauzinho. Isto é música.
MACACO (nervoso) – Música o raio que te parta.
ELFO – Ai…que mau humor. Cruzes…venha cá mais perto…eu vou tocar uma melodia para si, para acalmar os nervos.
MACACO (grita) – Eu não quero porcaria de melodia nenhuma, quero é que te cales.
ELFO – Eiii…já nem posso tocar e cantar sossegado?!
MACACO – A esta hora não…por favor. Toca e canta de dia, mas agora…está calado.
ELFO (triste e envergonhado) – Desculpe. (p.c) Eu gostava de o poder ajudar.
MACACO – E já ajudas se te calares.
ELFO (triste) – Desculpe, mas isso não posso.
MACACO – Não podes…? Já agora…! (p.c) Então vai para outro sítio.
ELFO (triste) – Não posso parar de tocar…nem de cantar.
MACACO – Porquê?
ELFO (triste) – Porque se paro de cantar e de tocar…choro.
MACACO – Tens uns parafusos a menos…mas…é problema teu…Vai para outro lado, fazer barulho.
ELFO (triste) – Para onde?
MACACO – Não sei, nem me interessa. Há por aí muitos lugares. Vai para longe.
ELFO (triste) – Não sei para onde…!
MACACO – Arranja-te.
ELFO (triste) – Não gosta da minha música?
MACACO – Não.
ELFO (triste) – Ai, não é nada simpático…
MACACO – Eu seria simpático se tu fosses para outro lado, e nos deixasses dormir. (p.c) Por favor…para de fazer barulho.
ELFO – Mas assim choro…
MACACO – Sempre será menos barulho, do que este…
ELFO (triste) – Óóóhhhh…que sorte a minha…
MACACO – Por favor…cala-te.
ELFO (triste) – Está bem, pronto. Desculpe.
MACACO – Espero não voltar a ouvir barulho, se não…vamos ter problemas.
NARRADORA – O macaco vira costas, e faz-se silêncio. O Elfo procura outro lugar, muito triste…encosta-se a uma árvore e chora baixinho. O macaco respira de alívio. Finalmente tem silêncio. Aparece pouco depois um passarinho e vê o Elfo muito triste.
PASSARINHO – Olá, boa noite…
ELFO (a soluçar) – Boa…Noite…!
PASSARINHO – Hoje não tocas…?
ELFO (a soluçar) – Já toquei.
PASSARINHO – E porque paraste?
ELFO (a chorar) – Mandaram-me calar…e se…eu não toco, nem canto…choro!
PASSARINHO – Óóóhhhh...coitadinho! E porque é que choras tanto?
ELFO (a chorar) – Porque…porque…fico muito triste se não canto nem toco. Ninguém gosta da minha música.
PASSARINHO – Eu gosto.
ELFO (a chorar) – O macaco mandou-me calar.
PASSARINHO – Mas…porquê?
ELFO (a chorar) – Disse que…eu estava a fazer muito barulho, e ele queria dormir…e os filhos pequenos também…e que...já não são horas de estar a tocar nem a cantar.
PASSARINHO – Mas, estavas a fazer assim tanto barulho?
ELFO (a chorar) – Ele disse que siiiiimmmmmm…! (p.c) Eu só estava a tocar e a cantar.
PASSARINHO – Pois…eu gosto muito da tua música, mas olha, desculpa dizer-te…ele tem razão…já é um bocado tarde…! Tu também devias dormir.
ELFO (ainda mais triste e a chorar) – Não quero dormir.
PASSARINHO – Mas toda a gente dorme.
ELFO (a chorar) – Mas eu não quero…nem durmo.
PASSARINHO – Porquê? És diferente de nós?
ELFO (a chorar) – Sim.
PASSARINHO – Tens de descansar…! Agora descansa…amanhã tocas…e até tocas melhor se descansares.
ELFO (a chorar) – Não quero!
PASSARINHO – Óóóhhhh…mas faz esse favor a todos nós…eu prometo que amanhã venho aqui ouvir a tua música.
ELFO (a chorar) – Nãããoooo…tem que ser hoje.
PASSARINHO – Por favor…não chores…e dorme.
ELFO (a chorar) – Também não posso chorar, agora?
PASSARINHO – Não…!
ELFO (a chorar) – Não…?
PASSARINHO – Quer dizer…podes…mas não te queria ver chorar.
ELFO – Então deixa-me cantar e tocar.
PASSARINHO – Tu és tão estranho.
ELFO (a chorar) – Se eu não toco, nem canto…choro.
PASSARINHO – Mas será que não podes estar sem fazer uma dessas coisas, e simplesmente…dormir…como toda a gente faz? Pelo menos a esta hora.
ELFO (a chorar) – Não.
PASSARINHO – Porque não…? (p.c) Claro que consegues. (p.c) Tenta…dormir e amanhã vais ver que vais acordar mais inspirado e tudo…!
ELFO – Não. Eu não posso deixar de cantar nem de tocar…
PASSARINHO – Claro que podes.
ELFO – Eu não…se não esqueço-me das músicas se dormir.
PASSARINHO – Mas que disparate…não te esqueces nada.
ELFO – Esqueço sim.
PASSARINHO – Mas tens de dormir…durante os sonhos também podemos lembrar de músicas e canções, e até criar umas novas.
ELFO – Achas?
PASSARINHO – Tenho a certeza. Experimenta.
ELFO – Aaaaaahh…não sei…!
PASSARINHO – Acredita. (p.c) Fecha os olhos, e dorme…vais ver que amanhã terás muitas músicas novas.
ELFO – Ai, tenho medo…
PASSARINHO – Tens medo de quê?
ELFO – De adormecer.
PASSARINHO – Não posso acreditar.
ELFO – Do escuro…nos olhos.
PASSARINHO – O quê?
ELFO – Tenho medo de dormir por causa do escuro nos olhos.
PASSARINHO – Óh, cromo…se estás a dormir, estás de olhos fechados, nem sequer vês o escuro. (p.c) Vá…dorme.
ELFO – Óhhh…não quero.
PASSARINHO – Então se não queres, vai chatear outro, para outro lado…tens que respeitar quem quer dormir. (p.c) Até amanhã, e não faças barulho.
ELFO – Estás a mandar-me embora?
PASSARINHO – Sim. Até amanhã…
NARRADORA – O Elfo fica muito triste, e chora, por não poder cantar, nem tocar. Aparece uma Fada, linda que toca maravilhosamente bem…harpa. E outra Fada que toca encantadoramente…violino. As duas são lindas. Começam a tocar, sentadas na relva à beira de uma cascata, e o Elfo fica como que hipnotizado a olhar para elas, e embalado com as músicas. Ele apercebe-se que ninguém reclama, por elas estarem a tocar.
ELFO – Mas…que lindas…! E as músicas…Uaaaauuu…! (p.c) Ninguém as manda calar, porquê? (p.c) Elas estão a tocar e a cantar como eu. (p.c) Que injustiça…também deviam ralhar com elas.
(Ele vai ter com elas).
ELFO – Boa Noite, minhas lindas.
FADAS (sorriem) – Olá!
ELFO – Olhem, isto não são horas de estar a fazer barulho.
FADAS – Desculpa…?
ELFO – É. Daqui a pouco vem aqui um macaco correr-vos…!
FADA AZUL – Mas não estamos a fazer barulho.
FADA VERDE – Pois não…estamos a tocar e a cantar.
ELFO – Sim, tudo isso eu estou a ver…e tocam e cantam muito bem…mas não podem…vão ter que ir para outro lugar.
FADA AZUL (surpresa) – Mas…nós vimos sempre para aqui, e nunca nos mandaram embora.
FADA VERDE – Até gostam que estejamos aqui, para embalar.
FADA AZUL – Não nos podes mandar embora, se nos mandas embora, nem as crianças nem os adultos daqui dormem.
ELFO – Não tenho nada a ver com eles…eu também não durmo. (p.c) Nunca vos vi por aqui, como é que sempre vieram para aqui?
FADA AZUL – Mas vimos todas as noites.
FADA VERDE – Sim. Se não nos vês, é porque estás a dormir…
(Elfo boceja)
ELFO – Eu…não durmo…! Só toco e canto…se não faço isso, choro.
FADAS – Como?
FADA AZUL – Mas choras porquê?
(Elfo boceja outra vez e fica molengo)
ELFO – Porque…adoro tocar e cantar, e sinto-me muito sozinho, não tenho ninguém com quem falar…a não ser…enquanto toco e canto…assim falo com quem me ouvem, e não me sinto tão sozinho.
(As fadas riem).
FADA VERDE (sorri) – Sim, isso é uma excelente forma de falares com alguém, e deves falar muito, até com a tua viola…ou outros instrumentos que uses, mas as pessoas não estão sempre acordadas.
FADA AZUL – E tu também tens de dormir.
ELFO (quase a dormir) – Não…quero!
(As fadas riem, e o Elfo adormece)
FADA AZUL (ri) – Coitadinho…!
FADA VERDE (ri) – Caiu mesmo de sono.
FADA AZUL (ri) – Deve tocar tão bem que até o mandaram calar.
FADA VERDE (ri) – Pois. Ele tinha um ar meio maluco, mas também triste.
FADA AZUL – Sim, se ele se sente sozinho, não pode ser feliz…
FADA VERDE – Pois. (p.c) Mas será que o mandaram mesmo calar?
FADA AZUL – Acredito que sim. Se calhar não estava a tocar tão bem como nós, ou estaria a fazer barulho.
FADA VERDE – Ele nem queria dormir.
FADA AZUL – Pois…tinha medo.
FADA VERDE (ri) – Coitadinho…até fiquei com pena dele.
FADA AZUL – Achas que podemos ajudá-lo?
(O passarinho interrompe)
PASSARINHO (sorridente) – Desculpem interromper…queridas…belezas… estão a falar desse aí?
FADAS (sorriem) – Boa Noite.
FADA AZUL (sorri) – Sim, estamos a falar deste…pobre solitário.
FADA VERDE – Tu conhece-lo?
PASSARINHO (ri) – Sim…ele não funciona muito bem.
FADA AZUL (com pena) – Coitadinho…porquê?
PASSARINHO (ri) – Ele é estranho.
FADA VERDE – Ele disse que o mandaram calar…!
PASSARINHO – Claro. Porque a esta hora, e pouco antes, já estávamos todos a dormir, e ele só estava a fazer barulho.
FADAS – Ááááááhhhh…!
FADA AZUL – Por isso.
FADA VERDE – Mas ele estava a tocar bem e alto?
PASSARINHO (ri) – Não. Estava a fazer barulho, e a gritar…não sabe tocar nem cantar…só fazer barulho com os instrumentos e gritar, ainda por cima, desafinado. É horrível. Não tem nada a ver com a doçura das vossas melodias. (p.c) Ainda por cima, disse que não queria dormir, nem podia… (p.c) e que não podia deixar de tocar e cantar porque se não chorava.
FADA AZUL (ri) – Coitadinho!
PASSARINHO – Coitadinhos de nós, mas é, que queríamos dormir, e não conseguíamos com o barulho dele.
FADA VERDE (ri) – Ele chorava de solidão…porque pelo menos enquanto canta e toca, não pensa na solidão. E se não toca ou canta…pensa na solidão e fica muito triste.
PASSARINHO – Mas ele não sabe cantar nem tocar. É horrível ouvi-lo. (p.c) Nós até não nos importávamos que ele cantasse e tocasse…até podia ser a noite toda…já que não quer dormir…desde que o fizesse de uma forma agradável ao ouvido, e que fosse uma música suave, assim como a vossa. (p.c) Não queria dormir, mas está a dormir.
FADA AZUL (ri) – Adormeceu com a nossa música.
PASSARINHO (sorri) – O que vocês tocam é música.
FADAS (sorriem) – Obrigada.
PASSARINHO (sorri) – Bem, princesinhas…desejo-vos uma óptima noite, durmam bem…estou com soninho. (p.c) E continuem com a vossa música.
FADAS (sorriem) – Boa Noite.
(O passarinho afasta-se).
FADA AZUL – Olha, sabes uma coisa…?
FADA VERDE – O quê? (p.c) Tenho quase a certeza que sei o que vais dizer…mas…diz.
FADA AZUL – Vamos ajudar este desgraçado?
FADA VERDE (sorri) – Eu sabia que ias dizer isso. (p.c) Sim, vamos…eu pensei no mesmo. (p.c) Mas…como?
FADA AZUL – Já sei…vamos ensiná-lo a cantar e a tocar os instrumentos.
FADA VERDE (sorri) – Boa!
NARRADORA – As duas fadas tocam mais um pouco, e tudo fica em silêncio. O Elfo dorme a noite toda. No dia a seguir, as Fadas vão acordar o Elfo.
FADA AZUL – Elfo…
ELFO – Eu…onde estou?
FADA VEERDE – Estás na floresta de sempre.
ELFO – Mas…já é dia?
FADAS (sorriem) – Sim!
ELFO – E eu dormi?
FADAS (sorridentes) – Sim!
ELFO (preocupado) – Óh, não…não queria...não podia ter dormido…! Como é que esta coisa terrível foi acontecer…?
(As Fadas riem)
FADA AZUL (ri) – Que coisa terrível é que não te podia ter acontecido?
ELFO – O ter dormido…!
FADA VERDE – Mas não há nada de terrível nisso…
ELFO – Há…porque agora esqueci-me de todas as músicas…e agora…? (p.c) Não vou cantar, nem tocar…só chorar!
FADA AZUL – Deixa-te de coisas e anda connosco.
ELFO – Onde?
FADA VERDE – A um sítio.
ELFO – Qual?
FADA VERDE – Já vais ver…anda…!
ELFO – Não posso.
FADAS – Anda.
ELFO – Não posso!
FADA AZUL – Podes sim senhora.
ELFO – Mas…tenho de tocar, e cantar, se não…choro!
FADA VERDE – Vens connosco buscar novas músicas.
ELFO – Mas…novas músicas…não pode ser…! Eu não quero novas músicas…não sei tocar novas músicas…!
FADA AZUL – Claro que sabes tocar novas músicas.
ELFO – Eu…não!
FADA VERDE – Anda.
ELFO – Mas, mas…
FADA AZUL – À nossa frente já.
ELFO – Foram vocês que me roubaram as músicas…e agora querem devolver-mas é?
FADAS (a rir) – É.
NARRADORA – As Fadas dão as mãos ao Elfo, e seguem com ele para outro lado do bosque onde só há sol e muitas coisas bonitas da natureza. As Fadas começam a ensinar o Elfo a cantar como deve ser, e a tocar instrumentos correctamente. Num instante, o Elfo aprende, e as fadas batem palmas, felizes, e deliciadas com a rápida evolução do Elfo. E este inventa novas músicas, novas canções, muito feliz.
FADA VERDE (sorridente) – Tens uma voz tão bonita, tão cristalina…olha o que se estava a perder…!
ELFO – A sério…?
FADAS (sorriem) – Sim.
ELFO – Mas eu cantava!
FADA VERDE (sorridente) – Cantavas…mas agora cantas ainda melhor.
ELFO – Ai, eu cantava mal?
FADA VERDE – Não cantavas mal, mas puxavas muito pela voz, e um dia destes, ainda podias ficar sem ela.
ELFO – Era…? Que horror…! Se não tivesse voz para cantar, só podia tocar e chorar.
FADA AZUL – Ninguém te ia ouvir.
ELFO – Isso era terrível.
FADAS (sorriem) – Sim.
FADA AZUL (sorridente) – Esta noite, vais tocar connosco, naquele bosque, combinado?
ELFO (feliz e sorridente) – Sim, onde quiserem.
FADA VERDE (sorridente) – E agora…? Vais cantar, tocar ou chorar?
ELFO (pensativo) – Vou…cantar, tocar…e chorar…
FADAS – Chorar?
ELFO – Sim…quando tiver de parar de tocar.
FADAS – Errado.
FADA AZUL – Agora, não vais precisar de chorar, por estares sozinho.
ELFO – Não?
FADAS – Não.
FADA VERDE – Nós vamos estar sempre contigo…! A tocar, e a cantar.
ELFO – Então agora…não vou mais chorar…?
FADAS – Não.
ELFO – O que é que fizeram às minhas lágrimas? Roubaram-mas?
FADAS (riem) – Não…
FADA AZUL (sorri) – As tuas lágrimas continuam aí nos teus olhos.
ELFO – Ahhh…que susto!
FADA AZUL (sorri) – Não te roubamos as lágrimas, apenas não vais precisar de as deixar cair, porque não vais chorar mais por estares sozinho.
ELFO (sorridente e feliz) – Ááááhhh…! Que bom. (p.c) É muito triste estar sozinho.
FADA VERDE – Tem coisas boas estar sozinho, e há momentos em que precisamos de estar um pouco sozinhos.
ELFO – Ai, não quero estar mais sozinho.
FADA AZUL – Não penses que vamos atrás de ti, para a casa de banho…!
ELFO (ri) – Coitadas de vocês se fossem comigo para a casa de banho…!
(Todos riem).
FADA VERDE – Agora não queremos mais tristeza em ti.
ELFO (sorridente) – Ááááhhh…agora, estou acompanhado e feliz. (p.c) Óóóhhhh…muito obrigado.
FADA AZUL – Bem, chega de conversa. Vamos ensaiar outra vez.
ELFO – Sim.
NARRADORA – As Fadas e o Elfo ensaiam alegremente, riem, batem palmas uns aos outros, conversam e brincam pelo meio. Como combinado, á noite, as Fadas e o Elfo vão tocar e cantar doces melodias, músicas de embalar, para os habitantes, por todo o bosque, que os aplaudem. O casal de macacos está à janela.
MACACO (sorridente, surpreso) – Quem diria…aquele lateiro…que só fazia barulho…a tocar assim tão bonito.
MACACA – Era este rapaz que fazia aquele barulho todo…?
MACACO – Era!
MACACA (sorridente) – Não pode ser!
MACACO – Era mesmo!
MACACA (deliciada) – Ááááhhh…! Que bonito…parece um coro...Até os nossos diabinhos estão embalados…quase a dormir.
MACACO (sorridente) – Muito bom! (p.c) Parece que a paz regressou aqui ao nosso bosque.
MACACA (sorridente) – Sim…e ele é bem jeitoso…bonito…além de cantar de uma maneira tão… (suspira)
MACACO (ciumento) – Aaaaaiiii…! Vamos lá ver…! Comporta-te.
MACACA (ri) – Tu também aprecias outras macacas que passam por aqui, e outras bichas…pensas que eu não sei.
MACACO (embaraçado) – Mas…mas…óh minha querida, isso é…impressão tua…!
MACACA – É. (murmura) Pensas que eu nasci ontem…?
MACACO – Só tenho olhos para ti…só gosto de ti.
MACACA (ri) – Claro. (p.c) Olha, sabes o que me apetecia fazer?
MACACO (preocupado) – O quê…? Ir atrás dele…? (p.c) Beijá-lo…raptá-lo…? (p.c) Vai…!
MACACA (ás gargalhadas) – Não, tótinho…! Eu sei distinguir as coisas…admirar alguém é muito diferente de amar alguém.
MACACO (ciumento) – Acho bem. (p.c) Eu sou muito melhor que ele.
MACACA (ri) – Pois és. Claro que sim.
MACACO – Então o que é que te apetecia…?
MACACA (sorridente) – Dançar contigo…!
MACACO – Dançar comigo…? Mas…mas…será que estás grávida?
MACACA – O quê?
MACACO – Que desejo estranho…! Só tinhas isso enquanto estiveste grávida.
MACACA (chateada) – Que insensível…!
MACACO – Desculpa…eu danço contigo…Rapaz…chega aqui.
(O Elfo pára, olha para ele)
ELFO – Chamou?
MACACO – Sim.
ELFO (sorri) – Vai – me mandar embora outra vez?
MACACO – Não…por favor…toque aí qualquer coisa, porque a minha mulher quer dançar…!
ELFO (sorridente) – Muito bem…com certeza que toco…será uma honra…! (p.c) Amigas…por favor…!
NARRADORA – A macaca abre um sorriso de orelha a orelha, bate palminhas, saltita…As fadas e o Elfo tocam uma linda e doce melodia. O macaco estende a mão para a macaca, e os dois dançam maravilhosamente bem, apaixonados. As fadas e o elfo estão maravilhados, e tocam sorridentes…no fim batem palmas.
MACACOS (sorridentes) – Muito obrigada…obrigado.
ELFO (sorridente) – Muito obrigado nós, e muitos parabéns…que o vosso amor seja sempre assim tão bonito, verdadeiro…e musical.
MACACA (sorridente) – Muito obrigada. E muitos parabéns…! Tocam que dá gosto. Passem sempre por aqui, está bem?
ELFO E FADAS (sorridentes) – Com todo o gosto.
NARRADORA - O Elfo e as Fadas continuam a tocar suavemente, e toda a gente sai das casas, maravilhada, apaixonada e embalada pelas músicas, para o pátio e todos os casais dançam ao som das músicas. Que lindo! As Fadas e o Elfo até deixam escapar umas lágrimas de felicidade e de encanto ao ver aquele momento. No fim aplaudem-se uns aos outros.   
PASSARINHO (sorridente, surpreso) – Uaaaauuu…o que é que aconteceu aqui?
MACACO (ri) – O lateiro barulhento, parece que aprendeu a tocar e a cantar.
PASSARINHO (sorridente) – Que mudança…
MACACO – Como é que pode ser?
PASSARINHO – Eu, suspeito que tenham sido as fadas.
MACACA (sorridente) – Claro que foram elas…quem mais…? (p.c) Tinha que ter toque feminino.
MACACO (sorri) – Mas que belo trabalho.
PASSARINHO (sorri) – Que maravilha…!
ELFO (sorridente) – Agora…toco com o coração…! E não estou sozinho…! (p.c) Muito obrigado, e muito boa noite a todos.
MACACA (sorri) – Ááááhhh…então ele queria afugentar a solidão, ao tocar e ao cantar…para que alguém reparasse nele.
FADAS (sorriem) – Sim!
FADA AZUL – Ele tem uma voz linda, mas não cantava com o coração.
FADA VERDE (sorri) – Nós ensinamo-lo a cantar e a tocar com o coração.
MACACA (sorridente) – Que lindo!
NARRADORA – Pois é! Às vezes julgamo-nos uns aos outros, por fazermos coisas que nos parecem um pouco estranhas, ou absurdas…parecem maluquinhos…mas não devíamos julgar, gozar ou humilhar quando vemos pessoas com comportamentos esquisitos, porque elas têm a sua razão…como quebrar a solidão. Em vez de julgarmos, deveríamos todos contribuir para que não houvesse pessoas a sentir-se sozinhas. Porque a solidão é muito triste. Devíamos ser todas amigas, e conviver, fazer coisas juntos…. Não se esqueçam…! Todos juntos viveremos num mundo melhor, nem que cada um faça uma coisa pequena pelo outro.

FIM
Lálá
(3/Novembro/2012)








sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A LIBERDADE DA LUZ






NARRADORA - Era uma vez uma linda unicórnio, branca, elegante, de crinas longas e reluzentes, que vivia aprisionada numa quinta enorme, e era maltratada pelos outros cavalos, éguas e unicórnios e pelos humanos que a exploravam e usavam para competição.Ela não sabia o quanto era bonita, porque não se olhava ao espelho…não tinha tempo. Apesar do seu sofrimento, a pobre unicórnio não conseguia ser má, e sujeitava-se, era obediente e sorria sempre. Todas as noites, desde há muito tempo, a Luz sonhava com a sua liberdade…imaginava-se a correr livre pelos montes e pelas praias, com as crinas ao vento, e a conhecer novos lugares…e sentia-se muito feliz ao imaginar isso, mas logo a tristeza voltava, quando se apercebia que estava naquele estábulo a ser mal tratada. Num certo dia, começou a ficar farta de todo aquele ambiente, e estava muito cansada, fraca…no silêncio e sossego da noite, desloca-se ao lago da quinta em passo lento, e arrastado, com as lágrimas a cair-lhe dos olhos. Pára à beira lago e suspira, geme, chora e murmura a soluçar:
LUZ – Que sorte a minha…! Nasci…fiquei longe dos meus pais…porque fui vendida a estes monstros…humanos…ridículos…para ser maltratada…explorada…fazem de mim…gato-sapato! (p.c) Estou a ficar farta…mas…sou tão mole…tão chocha…que não tenho coragem de ser má para eles…talvez eles achem que mereço ser tratada assim! (p.c) Mas não sei o que lhes fiz para eles ficarem tão zangados comigo…! (p.c) Sou educada de mais…! (p.c) Óóóóhhh…eu não queria isto para mim…Até quando é que isto vai durar…?
(Uma fadinha sentada num ramo, vê a Unicórnio e murmura).
FADINHA – Vai durar até quando tu quiseres e permitires…! Já podias ter acabado com isso, Luz! (p.c) Acaba com isso…tu podes…e tu consegues.
NARRADORA – A unicórnio continua a murmurar e a lamentar-se, e de repente, sai uma luzinha da água, redonda e chama a sua atenção. Ela olha para a água e vê a sua imagem reflectida…e à sua volta, sobrevoa a luzinha, parando à sua frente. É uma linda, pequenina e adorável fadinha, de roupa azul, asinhas muito fininhas, e olhos azuis, cabelos pretos…que delicia. A unicórnio Luz olha para a sua imagem na água, muito admirada, e para a Fadinha.
LUZ – Óóóóhhh…está uma unicórnio ali debaixo de água…! O que é que ela está ali a fazer…? Coitada…caiu…? Alguém a ajude…!
(A fadinha ri às gargalhadas)
LUZ – Estás a rir de quê? (p.c) Que maldade…!
FADINHA (a rir) – Maldade…? Qual…?
LUZ – Estás a rir-te desta unicórnio que caiu aqui ao lago…?
FADINHA (a rir) – Não vi ninguém a cair aqui no lago.
LUZ – Olha bem…esta aqui…!
FADINHA (a rir) – Olha bem para a água…achas mesmo que é outra unicórnio que aqui está?
LUZ – Sim…e está lá em baixo.
FADINHA (a rir) – Óh, querida…olha bem…com olhos de ver.
LUZ – Estou a ver. É uma unicórnio que está ali debaixo da água.
FADINHA – Achas que sim?
LUZ – Sim.
FADINHA – Não…não é nenhuma outra unicórnio debaixo da água…é o teu reflexo!
LUZ – O quê? Estás a gozar comigo!
FADINHA – Não estou nada…estou a falar muito a sério. Essa és tu!
LUZ – Eu…? Mas…eu estou aqui…fora de água.
FADINHA – Sim, mas tu podes ver-te na água do lago…é como um espelho. (p.c) Olha para ti sem medo…
(A unicórnio olha-se fixamente)
FADINHA – Olha para ti…como tu estás!
LUZ – Aparentemente estou…normal, acho eu…não?
FADINHA – Não…! Quer dizer, estás normal, tens tudo no sítio, direitinho…tens…focinho…dois olhos…nariz, boca…orelhas, crina…pêlo, patas…cauda…mas olha como tu és linda!
LUZ (sorri) – Achas…? (p.c) Nunca ninguém me tinha dito isso.
FADINHA – Que insensibilidade…mas és mesmo muito bonita…! Não estou a ser simpática…olha bem para ti…gostas do reflexo que vês? (p.c) Acha-lo bonito?
LUZ (sorri) – Sim…! E se eu sou este reflexo…então…sou bonita!
FADINHA (sorri) – Muito bem…! Claro que sim! (p.c) Agora…olha bem para os teus olhos…!
LUZ – Para os meus olhos…? Como é que eu vou olhar para os meus olhos, se não posso tirá-los da minha cara…?
FADINHA – Olha para os teus olhos no reflexo!
LUZ – Áááááhhh…! Está bem.
(A Luz olha para ela própria, para os seus olhos, assusta-se e desvia-se)
FADINHA – Então…?
LUZ – Vi uns olhos assustadores.
FADINHA – Não são assustadores…são os teus olhos e são muito bonitos…mas porque é que os achaste assustadores?
LUZ – Não sei…não gostei…estavam…estranhos…!
FADINHA – Estranhos…como?
LUZ – Feios…
FADINHA – Não podem estar feios, porque tu tens uns olhos muito bonitos.
LUZ – Mais bonitos são os teus olhos…querida!
FADINHA – Não. Os meus são bonitos, mas os teus também são…! Os meus não são mais que os teus…cada um tem o seu formato diferente…e uma cor diferente. (p.c) Mas…o que não gostaste neles?
LUZ – Assustaram-me.
FADINHA – Mas assustaram-te porquê? (p.c) Olha outra vez para eles, sem medo…e descreve-me o que vês!
A Luz olha para a sua imagem, novamente, fixamente, e vê uma unicórnio a chorar.
LUZ – Está a chorar…que feia…!
FADINHA – Dizes que o teu reflexo está a chorar…por isso é feio…?
LUZ – Sim.
FADINHA – Mentira! (p.c) Tu achas feio porque nunca antes tinhas visto…mas lembra-te…é o teu reflexo…e se ele está a chorar…é porque tu também estás! (p.c) O teu reflexo mostra tudo o que sentes…mostra a verdade nos teus olhos, sem máscaras… (p.c) Mas por isso mesmo é que este reflexo é ainda mais bonito…por mostrar o teu coração…!
LUZ – Mas…isso é possível?
FADINHA – Sim.
LUZ – Mas, como é que ele faz isso?
FADINHA – Não sei, só sei que faz isso.
LUZ – Óóóóhhh…mas ele não tinha nada que fazer isso.
FADINHA – E porque não?
LUZ – Porque nunca se mostra o que estamos a sentir.
FADINHA – E porque é que não se mostra o que estamos a sentir…?
LUZ – Porque se mostramos o que sentimos…os outros fogem de nós, principalmente se estivermos tristes, ou a chorar, ou com raiva…ou com dores…!
FADINHA – Mas que disparate. Quem é que te disse essas coisas horríveis?
LUZ – Toda a gente à minha volta…!
FADINHA – E tu achas que isso é correcto?
LUZ – Bem…deve ser…se toda a gente diz…todos os adultos, os outros animais, os humanos…! Se eles dizem isso, é porque é mesmo verdade…não?
FADINHA – Não…isso pode ser verdade para eles, coitados…foi o que lhes ensinaram…! (p.c) Mas achas que eles conseguem mesmo fazer isso?
LUZ – Sim…!
FADINHA – E achas que eles são felizes por fazer isso?
LUZ – Felizes, por não mostrar aos outros o que sentem…?
FADINHA – Sim. Achas que são felizes?
LUZ – Bem…não sei…devem ser.
FADINHA – E tu, ficas feliz por não mostrares o que sentes?
LUZ – Huuummm…isso é uma pergunta muito difícil…!
FADINHA – Olha para o reflexo dos teus olhos…e verás qual é a resposta…!
(A Luz olha para o reflexo)
LUZ – Óóóóhhh…o meu reflexo diz que não se sente feliz por ter de esconder o que sente, dos outros.
FADINHA – Muito bem! (p.c) É óbvio que eles não se sentem felizes por ter de esconder os sentimentos! Isso é sufocar o coração! E é muito mau…faz mal à saúde, mas…não pensam nisso! Que coisa mais feia!
LUZ – Faz mal à saúde?
FADINHA – Sim, muito mal…põe as pessoas doentes…porque ao sufocar os sentimentos, eles têm de sair por algum lado…gostam de liberdade…de sair…de respirar…é como tu te sentiste quando vieste aqui parar…verdade?
LUZ – Quem não gosta da sua liberdade! Sim…é verdade…foi assim que me senti…e é assim que ainda me sinto! 
FADINHA - E…achas que quando não mostram os sentimentos, eles sentem-se livres por dentro?
LUZ – Livres por dentro…? O que é isso?
FADINHA – Sim, livres por dentro…quer dizer…somos livres por dentro quando mostramos aos outros o que sentimos…quando mostramos…lágrimas por estarmos tristes…quando…gritamos…se estamos com raiva ou muito zangados…ou quando sorrimos ou rimos de alguma situação…por exemplo…de felicidade…!
LUZ – Ááááhhh…que lindo! E isso acontece mesmo…?
FADINHA – Sim…pensaste que os sentimentos eram o quê…? Eles também têm vida…o mal é que toda a gente os prende…têm medo…não percebo de quê…afinal de contas…os sentimentos são vivos…e fazem parte do ser vivo…e…mantém as pessoas vivas! (p.c) Achas que os seres humanos se sentem livres por dentro?
LUZ - Bem…depois do que tu me disseste agora…acho que não!
FADINHA – Podes ter a certeza que não! Tu sentes-te livre por dentro, por não poderes mostrar os teus sentimentos?
LUZ – Não…mas tem de ser.
FADINHA – Porque é que tem de ser?
LUZ – Porque não podemos mostrar aos outros o que sentimos…porque se não…ainda nos magoam…!
FADINHA – Que disparate! (p.c) Existe alguma lei escrita em algum sítio, a dizer que não se pode mostrar o que sentimos…?
LUZ – Bem…não sei…eu nunca vi essa lei, mas se os adultos dizem isso, é porque existe!
FADINHA – Eu já existo há…olha… tempo sem fim…não sei quanto…e nunca vi lei alguma! Muito menos essa horrível… (p.c) Se a visse, destruía-a logo! Que coisa mais feia! (p.c) Sabes uma coisa, amiga…além de seres maltratada, ainda te prendem de outra maneira…! (p.c) Tu, e todos os que te rodeiam…vivem em prisões...
LUZ – Não, vivem em casas…!
FADINHA – Prisões…não estou a dizer…casas…estou a dizer…prisões…embora andem por aí…andam por andar…porque tem pernas e pés…mas na verdade…andam com máscaras…presos nos seus sentimentos, que não podem mostrar…que horror…isso é um pesadelo…é por isso que o mundo está assim…só loucos…e…doentes…precisamente porque prendem por exemplo a tristeza…usam máscara, para suportar a dor e sufocam-se, para que os outros não vejam, nem se afastem…que maldade…!
LUZ – Sim, deves ter razão.
FADINHA – Como te sentes…?
LUZ – Bem…
FADINHA – Olha para o teu reflexo…! (p.c) De certeza que te sentes bem? Olha que o teu reflexo não usa máscaras…e não as ponhas agora…vê só o que ele te diz sobre como te sentes…!
(A Luz olha para o reflexo, e desata a chorar)
LUZ (a chorar) – Óóóóhhh…não me sinto nada bem…estou muito triste!
FADINHA (sorri) – Boa…! Muito bem…! E porque é que estás muito triste?
LUZ (a chorar) – Porque sou maltratada! Vivo naquela casota…fechada…presa…sou maltratada, usada, gozada…eu não gosto de estar lá…toda a gente me humilha e goza…fui obrigada a separar-me dos meus pais…fui vendida para aqui…e…sinto-me sufocada!
FADINHA – E nunca mostraste esses sentimentos a quem te rodeia?
LUZ (a chorar) – Não!
FADINHA – Porquê?
LUZ (a chorar) – Porque não podia…ainda me maltratavam mais…eu tinha que respeitar todos…! E se mostrasse o que sentia…a minha tristeza…ainda seria muito pior….todos se afastavam…! E eu não queria…!
FADINHA – Porquê? É contagioso?
LUZ (a chorar) – Acho que não…mas toda a gente nos ensinou a sermos assim.
FADINHA – Mas, que palermice! Nunca outra vi, nem ouvi. E tu, concordavas com isso?
LUZ – Não. Mas tinha que obedecer e respeitar os donos.
FADINHA – E a ti, respeitavam-te?
LUZ – Não…nunca me respeitaram…mas eu estava a servi-los…tinha que os respeitar, antes que acabassem comigo. (triste) Acho que todos éramos um bando de falsos…
FADINHA – Com certeza…falsos, infelizes e doentes! (p.c) Sentias-te bem no meu deles, naquele sítio…? (p.c) Responde…sem máscaras…!
LUZ (triste) – Não…nunca me senti bem ali, nem naquele espaço, nem com aqueles monstros…! Sempre detestei estar lá…mas tive que me render…e suportar.
FADINHA – Porque é que continuaste lá, se não te sentias bem?
LUZ – Porque, eles estavam sempre em cima de mim, e não me davam espaço! (p.c) Não me largavam um segundo…!
FADINHA – Fugias…! Nem que fosse à noite…!
LUZ – Não podia…ainda pensei nisso, mas nunca conseguia, porque os desgraçados dos cães começavam logo a ladrar, e os donos da casa iam logo ver o que se passava. (p.c) Tentei várias vezes…mas estava já muito cansada, sempre…depois de tanto trabalho…! A única maneira de eu ser livre era na minha imaginação…quando me imaginava a correr…livre…solta…feliz…a sentir o vento no focinho e nas minhas crinas…a correr pelas praias…e pela beira do mar…aí sim...mas logo voltava a minha tristeza, quando abria os olhos, e via que estava naquele sítio horrível, com aqueles animais horríveis…!  
FADINHA – Tu queres ser livre não queres?
LUZ – Sim, claro que quero…é o que eu mais quero…!
FADINHA – O que é que te impede, neste momento de seres livre…?
LUZ – O mesmo de sempre!
FADINHA – Mas…conseguiste sair para vir ao lago, e os cães não ladraram, nem os donos vieram à janela…! (p.c) O que te impede é o medo…certo?
LUZ – A única coisa que tenho medo, é de ser apanhada, e de sofrer as consequências…de me magoarem ou de me fazerem ainda pior.
FADINHA – Mas quem são eles para te impedir de fugires…?
LUZ – São os meus donos.
FADINHA – E o que é que te prende a eles…se eles te maltratam? Gostas deles?
LUZ – Não…não gosto deles…! Mas…
FADINHA – Mas… (p.c) Não existe mas…tu não os podes obrigar a nada…nem eles te podem obrigar a ficar aqui presa o resto dos teus dias…!
LUZ – São meus donos…!
FADINHA – De maneira nenhuma, querida…não tens que ficar aqui…a aguentar as humilhações e os maus tratos, e o uso que fazem de ti! (p.c) Vai…põe-te a andar…! (p.c) Corre…agora…! (p.c) Ninguém é dono de ninguém… (p.c) Eles não são teus donos…! (p.c) Enfiaram-te na casa deles, para te explorar e usar-te…e tu não mereces isso…não nasceste para isso! (p.c) Ninguém pode prender-te…tu…és mulher…tens todo o direito de ser muito bem tratada, e respeitada, tu podes ser livre…e não só na tua imaginação…! (p.c) Vai…corre solta, livre…brinca, desliza, mergulha…come erva…sai daqui…vai viver a tua liberdade…a tua vida é lá fora! Não é presa num estábulo…!  
LUZ – Mas…e os outros?
FADINHA – Os outros…? Que outros…? (p.c) Os que te merecem, e os que te amam…e os que te valorizam…? (p.c) Esses esperam-te ansiosamente, no estábulo de onde saíste…onde tinhas os teus pais e onde eras verdadeiramente feliz… (p.c) É lá…na tua casa que tens de estar…rodeada da tua família que te ama. (p.c) Estes aqui não valem nada…não te merecem…não te amam…sai, rapariga…esquece os outros… (p.c) segue o teu desejo de liberdade…segue a tua liberdade…! (p.c) Tu mereces… (p.c) Vai…não voltes a permitir que te maltratem…exige que te respeitem…que é o que tu mereces…! (p.c) Tu és livre para não permitir que te usem…! (p.c) Tu não mereces isso…! (p.c) Vai só atrás do que mereces…! E mereces tudo de bom… (p.c) Vai, linda…!
LUZ (sorri) – Sim…Tens toda a razão…! Está bem…eu vou…obrigada por todas as coisas bonitas que disseste a meu respeito…!
FADINHA (feliz e sorridente) – Não estou a dizer isto de ti, para ser simpática…não uso máscaras…só falo com o coração! Por isso…tudo o que te disse, é verdade!
LUZ (sorri) – E agora…vou ter que me separar de ti…? Gostei tanto de falar contigo…!
FADINHA (sorri) – Não…eu vou estar sempre por aqui perto! (p.c) Vamos encontrar-nos mais vezes, e qualquer coisa é só chamares! (p.c) Vamos…segue-me! 
NARRADORA – A Luz olha para trás, saltita, sorri e desata a correr pelo campo fora, atrás da fadinha, feliz, ri, corre livre, solta…pára para sentir o ar fresco…respira fundo…inspira…e expira…e sorri deliciada. A fadinha guia-a até aos pais…que estão noutra herdade, igualmente tristes por estarem longe da filha, mas reconhecem-na muito felizes, e vão a correr ter com ela…
LUZ (Sorridente) – Mamã…! Papá…!
MÃE E PAI (Sorridentes e felizes) – Filha…!
MÃE (sorridente e emocionada) – Voltaste…?
LUZ (sorridente e feliz) – Sim…voltei! (p.c) E ficarei sempre aqui…o resto dos meus dias. (p.c) Ááááááhhhh…este espaço sim…é de verdadeira liberdade…paz…e beleza! (p.c) Aqui respira-se!
PAI (sorridente) – O que aconteceu…?
LUZ (sorridente) – Eu…decidi ser livre, e feliz…!
MÃE (feliz e sorridente) – Que maravilha…e fugiste?
LUZ (sorridente) – Sim, fugi…já não aguentava mais! (p.c) A minha amiga…ela…é que me abriu os olhos! (p.c) Eu estava num sítio onde me odiavam, exploravam, gozavam, humilhavam…e a minha amiga estava cheia de razão…eu não merecia isso… (p.c) Aqui sei que vou ser muito bem tratada!  
MÃE E PAI (preocupados) – Foste maltratada…?
LUZ – Sim…!
PAI (zangado) – Malditos…! (p.c) Vão pagar bem caro…eles que aguardem…!
MÃE (triste) – Que injustiça…!
LUZ – Não percam tempo com vinganças…mais cedo ou mais tarde, eles vão ter o que merecem! (p.c) Eu consegui finalmente fugir…talvez agora sintam a minha falta, e me dêem valor…mas não vai adiantar de nada…! (p.c) Não quero mais saber deles…daqueles…miseráveis…infelizes…doentes…!
FADINHA (bate palmas) – Isso mesmo…linda…estás coberta de razão…! (p.c) Vês…? Sentes-te livre?
LUZ (sorri) – Sim…livre por dentro…e livre…em todos os sentidos…!
FADINHA (sorri) – Eu disse-te!
MÃE (sorri) – Mas que diferente que está o meu rebento…!
FADINHA (sorri) – Sim…é normal, mãe…ela voltou a encontrar a felicidade, com a sua liberdade, e aprendeu a olhar para ela…como ela é bonita…! (p.c) Deve ter muitos admiradores…! (Riem) Ela merece esta liberdade, e felicidade…e merece ser bem tratada, respeitada…!
MÃE (sorri) – Com certeza! (p.c) Obrigada, querida…fadinha.
FADA (sorri) – Ora essa…estou sempre por aqui.
MÃE (sorri) – És mulher…compreendes…!
FADINHA (sorri) – Nem mais…!
PAI – Ai, ai, ai, ai…mulheres juntas…é uma desgraça…!
(Todas riem)
LUZ (sorridente) – Que ciumento…! (p.c) Sim, Paizinho…tu também és maravilhoso…
PAI (vaidoso) – Óhhh…eu sei, minha filha…! (p.c) Isto é tudo pela felicidade de te ter de volta…!
(As três riem)
MÃE (a rir) – Este meu marido…é demais…! (p.c) Disfarça muito bem, não disfarça…?
LUZ (a rir) – Tantas máscaras que vocês usam…homens…!
(A FADINHA e a MÃE aplaudem, a sorrir)
FADINHA E MÃE (a rir) – Grande verdade…muito bem! Lindo…! (Riem)
PAI – Ahhh…mulheres…! O que nós temos de aturar… (p.c) Mas não sabemos viver sem elas…!
TODAS (a rir) – Pois…! Vês…!
PAI (a rir) – Sim, sim…! Venenozinhas deliciosas, encantadoras…! Sedutoras.
LUZ (sorridente) – Vamos dar uma volta…quero matar saudades da liberdade que perdi…e quero recuperá-la outra vez…!
MÃE E PAI (sorridentes) – Claro…vamos.
NARRADORA – E a unicórnio Luz, vai com os pais, feliz, passear a noite toda, corre com eles, livremente pelos campos, herdades, montes, e vales…ri com eles, brinca com eles, feliz, relincham de felicidade, trocam muitos mimos, comem erva e bebem água, e falam de tudo. Estão felizes por estarem juntos, em liberdade e a Luz passou a viver com os pais, na corte onde respeitavam todos os animais, onde todos andavam à solta, eram muito bem alimentados, e muito acarinhados, e adorados pelos humanos…levando-os a passear, e defendendo-os com coices sempre que os seus donos estavam em perigo. Mas a Luz, e os seus pais, ainda se tornaram mais livres, por poderem expressar e mostrar aos outros, os seus verdadeiros sentimentos, sem máscaras, e até os humanos mostravam sem medo e sem vergonha o que sentiam. Eram ouvidos por todos, e sabiam ouvir, compreendiam e ajudavam a animar quando estavam tristes. A Luz conquistou a sua liberdade, tão sonhada…a liberdade de poder e de querer ser respeitada, a liberdade de escolher ser livre e feliz, a liberdade de mostrar os seus verdadeiros sentimentos sem máscaras, sem medo que os outros se afastassem…porque como eram verdadeiros amigos, e gostavam mesmo muito uns dos outros, respeitavam os sentimentos, não gozavam nem humilhavam, porque todos os seres vivos têm sentimentos, e uns dias estão melhores, outros dias estão piores…faz parte! O ser humano não devia usar máscaras, e todos devíamos respeitar os sentimentos…bons e menos bons…e saber estar ao lado de quem precisa, em vez de usarmos o silêncio, ou de virarmos as costas aos amigos só porque eles estão tristes…até porque…a verdadeira amizade não existe só nos momentos de felicidade e de festa! Os sentimentos existem, em todos nós, e todos nós devíamos…e devemos mostrá-los sem medo…sem os disfarçar…pois somos todos seres humanos e todos precisamos uns dos outros…quanto mais não seja, precisamos muitas vezes de partilhar com alguém o que sentimos, e que às vezes nos faz tão mal, se não dividirmos…! Se todos fizéssemos isso, todos seriamos muito mais felizes, muito mais humanos, e muito mais saudáveis. Temos liberdade…pelo menos…liberdade para sermos quem somos, sem máscaras, e temos o direito de sermos bem tratados, e acarinhados, e amados…! E temos a liberdade para sermos livres, nos sonhos e no dia-a-dia. 




FIM
LÁLÁ
17/AGOSTO/2012


O JARDIM CONSTRUIDO PELA MENINA…












foto de Lara Rocha 
            Era uma vez uma pequenina aldeia perdida num monte muito alto. O acesso para aqui entrar era em Terra, e aqui viviam poucas pessoas. Numas casas em pedra, que trabalhavam na cidade, mas todos cultivavam os seus campos. Todos os habitantes eram amigos, respeitavam-se e ajudavam-se…eram como família.
        Adoravam este recantinho da natureza. Certo dia…uma menina pequenina, vai passear com o cãozinho, pela montanha e não muito longe da sua casa, no caminho, a menina depara-se com um cenário desolador que ela nunca tinha reparado. O cão foge para o terreno completamente maltratado, ao abandono…uma parte incendiada e preta…outra parte…com ervas enormes e amontoadas.
Ááááááhhhh…! Nunca tinha visto isto…! Como pode ser? Mas…isto é perto de casa…e eu passo aqui…Como é que nunca tinha visto…? Que feio…! Não acredito! Quem foi o criminoso que fez esta maldade? Isto não pode ficar assim…A mãe natureza deve estar muito, muito mesmo muito zangada por lhe terem feito isto! Tenho de dizer aos Avós, aos Tios e aos meninos que este sítio é muito feio…e não pode ser…feio! Tudo aqui é lindo, mas este pedaço não! Que horror…Onde é a entrada para aqui…? - exclama a menina chocada com o que estava a ver 
        A menina começa a procurar, e de repente passa um rebanho de ovelhas e cabras a bramir. Elas param.
Óh, óh…ovelhinhas, cabrinhas, bodinhos, cabritinhos e todos…os outros… por favor…preciso da vossa ajuda. Olhem…quando tiverem muita fome…ou…fome…comam estas ervas horríveis, está bem? Mas não demorem muito está bem? Arranjem fome rápido…é que eu preciso de entrar aqui…neste terreno…quer dizer…eu gostava de entrar, mas nem sequer vejo a entrada. Será que tem entrada…? Se a encontrarem digam-me está bem? Será que…elas me entenderam? Aaaaaahh…acho que não…Que pena…queria tanto entrar aqui, e queria tanto ver isto de outra maneira…! Anda bicho… vamos dar uma voltinha…não quero ver mais esta coisa feia…tudo preto…e assim…cheio de ervas que parecem cobras gigantescas de pé! Sou tão pequena…que não posso fazer nada por isto…sozinha! Óhhh…porque é que eu ainda sou tão pequena…se eu já fosse grande, já podia fazer alguma coisa por isto, tratar deste pedaço de terra…plantar aqui coisas…! E estas…também já vi que não vão fazer nada! Eu volto aqui mais tarde com alguém crescido.
        A menina continua a andar, triste. O rebanho cheira as ervas daninhas, e come-as todas, num abrir e fechar de olhos…fica tudo limpo, e deixam um portão de madeira à mostra. Depois de as comer, voltam para a sua corte. A menina passa por ali novamente e nem quer acreditar no que vê.
Ááááhhh…mas…onde estão as ervas chicotes…? Claro...As ovelhinhas…as cabrinhas…os bodinhos e os outros comeram-nas! Boa…! Obrigada! Mas…este portão não estava aqui…Ou…se calhar devia estar tapado com as ervas…óhhh…muito obrigada amigas e amigos…Será que se pode entrar? Eu…vou entrar…anda bicho! Vamos ver o que há ali.
        Ela abre o portão, e entra, mas vê outra vez o terreno queimado de um lado, e do outro lado, um pedaço de terreno seco, sem uma única flor.
Óóóhhhh…não há uma única flor aqui…mas…como é possível…?
        De repente levanta-se uma forte ventania e leva Terra pelo ar. Juntamente com a Terra e com o vento, vem sementes de flores a voar, uns nabinhos de mais flores no bico de uma cegonha, e outras flores são trazidas nas patinhas de um bando de lindas borboletas. A menina fica estarrecida a olhar para aqueles animais…o que irão fazer…? Ela fica a ver. Depois da ventania parar, uns passarinhos pequeninos saltitam em cima da terra para a assentar e alisar. A cegonha e as lindas borboletas abrem buraquinhos e lá colocam os nabinhos e sementes de flores, tapam-nas delicadamente, espalhadas por todo o terreno…é lindo de ver! A menina sorri deliciada ao ver aquele movimento todo. No fim de plantarem, todos batem palminhas, e a voar vem uma séria de fadinhas pequeninas, levezinhas, lindas, brilhantes, de várias cores, com regadores, e despejam a água em cima da terra, e das flores. Ááááááhhhh…! Que lindo! A menina vê encantada, com um sorriso e todas batem palmas, a menina também.
Ááááááhhhh…que lindo! (sorri) O que vai sair daqui…? Plantaram qualquer coisa… Muito obrigada, amigas! Como é que adivinharam que eu queria plantar alguma coisa aqui…? Estava tão feio! Mas…sozinha…sou tão pequena, que…não ia conseguir! Muito obrigada! E muito obrigada, vento…porque limpaste toda aquela terra. Que bom! Não sei o que vai nascer aqui…mas…de certeza que vai ficar muito mais bonito do que estava!
        A cegonha, as borboletas, os passarinhos e as fadinhas batem palminhas sorridentes e retiram-se.
O que haverá mais para a frente…? Será que vive alguém aqui…? E animais? Haverá… - pergunta a menina, feliz 
        De repente…enquanto a menina pensava, e tentava descobrir as respostas, passa por ela a correr um lindíssimo unicórnio e vai para o campo, igualmente seco, mas com alguma erva e um laguinho. A menina assusta-se, mas segue o Unicórnio para ver onde vai.
Óóóhhhh…coitadinho do Unicórnio…isto está tão seco…como é que eles arranjam alimento? E…onde é que vão beber água? Um lago…? Deve ser ali (espreita) Óóóhhhh… não tem água…! Que mau! Coitadinhos dos bichos…Vou pedir aos adultos para me ajudar a encher isto…os bichos não podem ficar sem beber…nem sem comer. Devem ir comer e beber a outro sítio…mas não é justo…se eles vivem aqui…devem ter aqui tudo! - diz a menina 
        A menina acabei de fazer isto e por cima do lago aparecem várias nuvenzinhas, a estourar de água…pesadíssimas…encostam-se umas às outras, abraçam-se, e despejam litros de água que num instante enchem o lago…e outras nuvens maiores, juntem-se e enchem o depósito de água…uma água muito limpa, pura e fresca. A menina fica estupefacta, surpresa e encantada…maravilhada. Ela molha as mãos e a cara na água do lago, com um grande sorriso, e bebe a água do depósito.
Ááááhhh… que boa! - suspira a menina sorridente 
Podes beber à vontade…é pura…limpa…fresca…e nunca faltará água para os animais que aqui vivem! - convida a nuvem, sorridente 
Óóóhhhh…muito obrigada, nuvens…Eu estava triste, porque passei por um unicórnio e…pensei que…como estava tudo seco…ele não teria que comer nem beber! E se houvesse aqui mais animais também…coitadinhos! Eu queria trazer-lhes água…e comida…encher este lago…mas…sozinha…não podia fazer nada…nem conseguia sou tão pequena…que só podia fazer alguma coisa com os grandes! Muito obrigada, nuvens! - comenta a menina sorridente, e feliz 
Voltaremos! - garantem as nuvens 
        A menina olha em volta e não vê uma única erva…mas vê uma série de casais de coelhos.
Óóóhhhh…que lindos coelhinhos. Vivem aqui…? Não tem que comer.
Comemos e bebemos noutros sítios, mas vivemos aqui! - diz a coelhinha 
Água já têm ali…no lago! Podem beber…! - diz a menina 
        Os coelhos desatam a correr para o lago e ficam felizes, maravilhados a contemplar a água! Deliciam-se com a água e um deles assobia…e aos coelhos junta-se uma manada de unicórnios, cavalos, éguas que correm livremente, e pássaros…e outros animais que se reúnem à volta do lago para beber e refrescar-se, felizes. A menina observa maravilhada, sorri.
Que liiiindoooss…! Tantos animais que vivem aqui. Só falta comida para eles…
        A menina diz isto, e de repente vê várias famílias de joaninhas e borboletas, a ajudar os anões a semear relva e erva e outras plantas, tenras e suculentas para alimentar todos os animais. Elas alisam a terra, abrem os buraquinhos, e plantam e tapam. As nuvens aparecem novamente e despejam toneladas de água pelo terreno todo. Todos apreciam deliciados, batem palmas.
Muito em breve, todos terão alimento mais que suficiente para não precisarem de procurar noutros sítios! - diz um anão a sorri
(Todos batem palmas e a menina saltita feliz e sorridente).
Muito obrigada, anões, anãs, joaninhas, borboletinhas, e nuvens…! Eu queria que estes bichos tivessem todos alimento…mas sozinha…não podia, nem conseguia fazer nada. Agora, estou muito, muito feliz! Estava tudo tão feio…seco…escuro…maltratado…muito obrigada, amigos…agora…tudo está a ficar muito mais bonito! Faltava aqui…também…mais árvores…para dar sombra e fresco para os animais… - diz a menina sorridente 
        Os anões prontamente, e em conjunto com passarinhos e joaninhas, e formigas, todos plantam sementes de futuras árvores, que farão sombra. As nuvens regam as plantações. Todos batem palmas felizes.
Muito em breve haverá muitas árvores de fruta e que farão sombra. - diz outro anão 
(Todos os animais batem palmas).
Óóóhhhh…muito obrigada!  Agora sim…um terreno que parecia uma gruta…abandonada…vai ficar um recanto de natureza…liiiinndddoooo…! Mas…o que fazer naquele terreno feio, queimado…? - diz a menina 
        A menina diz isto, e nesse terreno queimado, levanta-se uma grande ventania, e varre toda a terra queimada. Depois…outra ventania arrasta sementes de flores, de árvores, erva, e de frutas e legumes que vem não se sabe de onde…pelo ar…e aterram na terra. Os anões vão para lá e com a ajuda das borboletas, dos passarinhos, da cegonha, das fadinhas e das nuvens, o terreno fica repleto de plantações, já bem regadas e muito em breve todos terão uma surpresa muito boa. A menina e todos ficam felizes, batem palmas.
Muito obrigada a todos…! - diz a menina a sorrir 
Volta cá daqui a uns dias, e verás o que vai acontecer. - diz a anã 1 a sorrir 
Está bem…tenho a certeza que vai ser tudo muito bonito! Muito obrigada a todos…sem vocês não conseguia fazer nada…por muitas coisas que quisesse fazer por este terreno que era feio, assustador…abandonado…sou pequena…sozinha não conseguia. 
        A menina regressa a casa muito feliz. Os anões e todos os animais melhoram o terreno, plantam mais coisas, concertam o caminho, colocando pedras. Constroem mais fontes e mais lagos com estátuas, constroem mesas e cadeiras para que se possa estar à sombra e a conviver…transformam aquilo numa linda aldeia em miniatura, com casinhas novas para os animais, cafés, restaurantes…! De noite, os índios das estrelas e da floresta lançam estrelas brilhantes sobre as plantações e alguns dias mais tarde, tudo começa a nascer! A menina volta lá, e todos apreciam as belezas que começam a despertar da terra, e passeia pela aldeia, vê as obras feitas e convive alegremente com os animais. E rapidamente…tudo cresce…lindo e fresco…a relva forte, grande, tenra, suculenta, e fresca que alimenta todos os animais, e de seguida nascem centenas de flores por todo o lado…muito variadas, com uma cor só, e com cores misturadas. Todos os animais convivem e caminham livremente, felizes, naquele espaço novo. E esse terreno que era assustador, estava ao abandono, com o trabalho em conjunto, a dedicação e o carinho de todos, renasceu mais um recanto de natureza maravilhoso. Todos batem palmas, felizes
Muitos parabéns, e muito obrigada a todos vocês! Graças a todos, graças à vossa dedicação, carinho e amizade…e por terem trabalhado todos juntos, tornaram possível a vida e a paz entre a Natureza…! Graças a todos vocês, o meu sonho tornou-se possível e realidade. (p.c) Está tudo lindo. - diz a menina a sorrir 
        Todos batem palmas, e fazem um lanche colectivo, onde cada um levou alguma coisa, e juntaram tudo numa grande festa, todos convivem alegremente, comem, bebem…umas cigarras, uns grilos, uns sapos, umas rãs, e uns passarinhos, que pertencem todos a um coro, cantam e tocam, alegremente, os outros dançam, riem, cantam, batem palmas…! Há muita água e muita comida…ar puro, erva, flores de todas as cores e feitios e tamanhos…e todos adoram viver lá…todos são felizes! Pois é…não se esqueçam…todos precisamos uns dos outros, e não fazemos nada sozinhos. Cada um sabe fazer uma coisa, todos sabem fazer as mesmas coisas…e todos juntos se completa um projecto. Para concretizar uma obra são precisas mais que uma pessoa…e para construir o que quer que seja, são necessárias muitas pessoas. O importante é sabermos viver e conviver uns com os outros, respeitarmo-nos uns aos outros, e aceitar o que cada um nos dá…todos aprendemos uns com os outros…e com os outros…a nossa vida é muito mais feliz e rica…recheada! Não se esqueçam de ser amigos…e todos juntos podem fazer coisas muito bonitas…tornar o nosso Mundo muito mais agradável e feliz.

FIM
Lálá
(24/Agosto/2012)