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segunda-feira, 23 de julho de 2012

Áh! Que surpresa para todos.

Era uma vez umas meninas que estavam a passear pela sua aldeia, muito perto das suas casas, alegremente e uns cãezinhos que as seguiam.
O dia estava quente, sentia-se um vento igualmente quente, viam-se umas nuvens no céu, e toda a paisagem em volta já indicava que a chegada do Outono estava para muito breve. Havia castanhas no chão e muitas folhas verdes, amarelas, vermelhas, castanhas, e com cores misturadas, bugalhos e pauzinhos, e as uvas penduradas. Os campos estavam carregados de espigas grandes, cabacinhos e outros produtos que tinham sido cultivados. Uma paisagem maravilhosa. Linda.  
As amiguinhas caminhavam a cantarolar alegremente, e a falar umas com as outras. Paravam e apanhavam flores silvestres amarelas, roxas, brancas, alguns malmequeres e construíam lindos raminhos para oferecer às mães e às avós, enrolando-as em grandes folhas de árvores verdes, que estavam caídas e atavam com barba de milho das espigas que estavam no chão.
Enquanto isso, os cãezinhos das meninas brincavam juntos: corriam, saltitavam, ladravam, cheiravam tudo o que encontravam, rebolavam na terra, bebiam água que caía de um tubo num tanque de pedra, e seguiam as meninas.
Mais à frente, nesse monte, as meninas vão ter a um campo que está ao abandono: seco, cheio de paus enormes, uns mais grossos, outros mais finos, ervas enormes, secas, palha espalhada por todo o terreno, silvas, terra sem qualquer cultivo. Como já não chovia há muito tempo, a terra estava demasiado seca. Metia medo!
As meninas não queriam acreditar no que estavam a ver. Elas que estavam habituadas a ver os campos todos verdinhos, bem tratados, organizados, com aspecto de frescos e carregados de plantações…aquele pedaço de terra não tinham nada! Soltam todas uma grande exclamação, tristes, e com pena do que viram.
TODAS – Ááááhhh…!
NÁRA – Olhem para isto!
ISABEL – Isto é um campo?
TODAS – Acho que sim.
MARGARIDA – Mas o que é que aconteceu aos legumes, e ao milho…e às couves, aos cabaços, às flores…e a muitas outras coisas boas?
TODAS – Não tem nada!
DIANA – Isto não é dos nossos avós nem dos nossos pais, pois não?
TODAS – Acho que não.
DIANA – Acham mesmo que os nossos avós e os nossos pais deixavam isto assim?
TODAS – Não!
SOFIA – Isto não parece nada um campo…não é igual ao nosso!
NICOLE – Ai, será que nos perdemos, e viemos ter a um monte que não é o nosso?
            Elas olham em volta.
MARGARIDA – Não, isto é o caminho por onde viemos, porque viemos sempre em frente, não desviamos caminho.
NÁRA – Pois. Olha ali aquele tanque onde os cães beberam água…
ISABEL – E aquele campo das cabacinhas e das espigas.
DIANA – Mas…de quem será este campo?
SOFIA – Será que não tem dono?
NICOLE – Se calhar os donos foram para a cidade.
MARGARIDA – Mas…e será que os nossos pais e os nossos avós sabem deste campo?
TODAS – Não sei.
NÁRA – Mas não devem saber, porque se soubessem não deixavam isto assim.
TODAS – Pois não.
ISABEL – Os nossos avós e os nossos pais tratam muito bem dos campos, não iam deixar isto assim.
DIANA – Vamos dizer aos nossos pais e aos nossos avós…! Isto não pode ficar assim tão feio…
TODAS – Pois.
NÁRA – Também acho que devíamos fazer alguma coisa por este campo.
ISABEL – Olhem, vamos pedir ajuda aos nossos avós e aos nossos pais.
TODAS – Sim, vamos.
            Vão todas apressadas de volta para casa onde estão os pais, os avós, os tios e outros meninos. Os adultos estão a trabalhar na terra, com os animais e com os instrumentos, a lavrar, a cultivar, a apanhar as colheitas…e as outras crianças estão a brincar...os bebés dormem à sombra. As meninas gritam:
TODAS – Papás…Avós...tios…!
Os adultos olham para elas, preocupados, param de trabalhar.
AVÓ TERESA – Então, queridas…?
TODOS – O que é que se passa?
AVÓ MÓNICA – Vem alguém atrás de vocês ou viram algum monstro…?
NÁRA – Não! Não estamos a fugir a alguém, nem de um monstro.
DIANA – Mas temos uma coisa muito séria para vos dizer!
            Os adultos estão preocupados.
ISABEL – Venham connosco. Temos que vos mostrar uma coisa!
SOFIA – E é muito feia.
AVÓ MARINA – Elas querem atenção…
MÃE FILIPA – Óh filhas, agora não podemos, estamos a trabalhar!
MARGARIDA – Mas isto é muito urgente.
AVÔ MARCO – Óh, queridas, não há coisa mais urgente neste momento do que trabalhar na terra. Vão brincar vão…
MÃE CAROLINA – Mais tarde, vamos convosco ver o que tem para nos mostrar de tão feio.
            As meninas ficam desiludidas, tristes, zangadas e amuadas e vão para o quarto dos brinquedos.
NICOLE – Pensei que os nossos pais e os avós iam ouvir-nos.
ISABEL – Eu também pensei que vinham logo ver.
NÁRA – Eles tinham que ter vindo connosco…não estávamos a brincar, dissemos uma coisa muito séria.
DIANA – Pois, mas eles não acreditaram em nós.
TODAS – Pois não!
SOFIA – Eu já queria ser grande, porque, se fosse grande, já estava naquele campo, e ele já não estava assim tão feio…sem nada…
MARGARIDA – Eu também. Se aquele campo fosse meu…já estava cheio de coisas bonitas e boas.
DIANA – Esperem…nós somos pequeninas, mas acho que podemos fazer alguma coisa por aquele campo…sem os adultos. Não acham?
            As meninas ficam pensativas.
NÁRA – Mas…não sabemos fazer nada!
DIANA – Sim, temos de pedir ajuda aos grandes, mas acho que sabemos alguma coisa.
TODAS – O quê?
DIANA – Olhem, todas já apanhamos pauzinhos, folhinhas, ervinhas, não já?
TODAS – Sim, muitas vezes.
DIANA – Então…podemos ir para lá, e vamos tirando os paus do campo…aqueles grandes…e os que estão soltos.
TODAS (sorriem) – Boa…pois é!

MARGARIDA – Aqueles pauzinhos fininhos e as ervas enormes, acho que conseguimos arrancar.
TODAS (sorriem) – Sim.
DIANA (sorri) – Então…vamos?
TODAS (sorriem) – Vamos.
SOFIA – As nossas mamãs conseguem, nós também conseguimos.
NICOLE (sorri) – Sim, a minha mamã também diz isso.
NÁRA (sorri) – A minha mamã diz que as meninas conseguem tudo.
TODAS (sorriem) – E é verdade!
ISABEL – E os meninos vão connosco?
TODAS – Acho que não vão querer.
NICOLE – É, só querem jogar à bola.
MARGARIDA – Mas na passagem podemos perguntar.
TODAS – Sim.
NÁRA – E levamos os cães.
TODAS – Sim, esses sim.
ISABEL – Temos que levar sacos plásticos para deitar o lixo!
TODAS – Sim.
NICOLE – Os papás e os Avós não irão ficar zangados connosco?
TODAS – Não.
NÁRA – Eu acho que eles até vão ficar orgulhosos de nós.
TODAS – Sim.
            As meninas reúnem tudo o que precisam: sacos para o lixo, chapéus, os cantis de água de cada uma, e chamam os cães. Lá vão elas todas despachadas, com os cães atrás outra vez para o monte, e para o campo abandonado.
Cada uma apanha os paus e mete nos sacos. Num instante o campo fica limpo. Os cães também ajudam, pondo os paus na boca e levando também para os sacos.
Depois de acomodarem os paus, as meninas arrancam as ervas enormes e secas, algumas só as arrancam todas juntas a puxar por elas, e metem-nas nos sacos. Bebem água e dão água aos cães. Estão cheias de calor, a transpirar e com as bochechas prestes a explodir de tão vermelhas, mas estão felizes.
Enquanto acomodam o lixo, olham em volta, orgulhosas, a sorrir.
TODAS – Uaaaauuu…!
NÁRA (sorri) – Está lindo!
ISABEL (sorri) – Nós fizemos isto tudo?
DIANA (sorri) – Eu disse-te que não precisávamos dos grandes para fazer isto.
TODAS (sorriem) – Pois.
NICOLE (sorri) – Boa! A mamã tinha razão.
TODAS (sorriem) – Sim.
MARGARIDA (sorridente) – Ááááááhhhh…! Agora, isto sim, já parece um campo de verdade!
SOFIA (sorridente) – E agora é que se vê que é grande!
TODAS (sorriem) – Pois é!
NÁRA (sorridente) – Já estou a imaginar, este campo cheio de flores plantadas, de todas as cores, e a quantidade de legumes deliciosos que podem ser aqui plantados.
ISABEL (sorridente) – Muitas, muitas coisas.
DIANA (sorri) – Pois é. Mas para isso precisamos da ajuda dos adultos.
            Os cães ouvem vozes das mães a chamar por elas, preocupadas, porque é hora de almoço e as meninas não estavam em casa. Os cães vão ter com as mães e encaminham-nas para o campo onde estão as meninas. As mães ralham-lhes.
MÃE GABRIELA (ralha) – Então as meninas estão aqui…? Saem sem dizer nada…como é?
MÃE DANIELA (ralha) – Ai, ai, ai, ai…! Suas malvadas…nós aqui todas preocupadas…!
DIANA – Óh mãe…em vez de estarem ai a ralhar connosco, deviam olhar para o sítio onde estão.
            As mães olham em volta.
DIANA – Deviam ficar orgulhosas de nós.
MÃE RITA – Orgulhosas…?! Depois de terem saído sem nos dizer nada, e terem vindo para aqui…?
TODAS – Sim.
ISABEL – Porque já viram bem este sítio, como está?
NÁRA – Conheciam este sítio?
MÃE SARA – Não, não conhecíamos, era quase impossível entrar aqui. Não sei como é que as meninas conseguiram entrar aqui.
            As mães estão surpresas.
DIANA – Nós limpamos o campo! Tiramos os paus e as ervas secas enormes…estão aqui nestes sacos.
NICOLE – Isto era o que nós vos queríamos mostrar há bocado.
SOFIA – Este campo estava assustador. Nem parecia um campo.
MARGARIDA – Os cães também ajudaram.
            As mães ficam sem palavras, surpresas, sorriem orgulhosas.
MÃES (sorridentes) – Que lindas!
MÃE SARA – Mas…como é que conseguiram?
MÃE FILIPA – Como é que chegaram a este sítio?
            As meninas sorriem orgulhosas.
DIANA – Somos pequeninas, mas não somos bebés.
ISABEL – Temos mãos.
NÁRA – E sabemos fazer algumas coisas que já fizemos muitas vezes convosco…limpar os campos e arrancar ervas…!
MÃES (sorriem) – Maravilhoso.
MARGARIDA – Agora, só precisamos da vossa ajuda para…plantar aqui algumas coisas. Se deixarem.
NICOLE – Ele estava muito feio…
NÁRA – Ficamos com pena de ver assim o campo.
MÃES (sorriem) – Muito bem.
MÃE RITA (sorridente) – Claro filhotas…nós vimos de tarde fazer o resto…agora temos que ir almoçar.
MÃE INÊS (sorridente) – É. Vamos levar já este lixo!
            As mães seguem para casa, de mão dada com as filhas e os cães atrás, a falar umas com as outras e a rir. Ao chegar a casa, mudam de roupa, refrescam-se, e oferecem as flores às mães e às avós.
            Almoçam, e as mães e as avós contam o que as meninas fizeram no monte. Os pais e os Avós ficam igualmente orgulhosos e prometem ajuda.
No fim do almoço, as meninas voltam para o campo do monte, com a família toda, os instrumentos agrícolas e as sementes, e a água para regar. Os adultos lavram o campo, as meninas ajudam a plantar flores, legumes e frutas, deitando as sementes na terra e regando.
Passam uma excelente tarde, em família, muito felizes, a cantar, a trabalhar todos juntos, brincam e lancham nesse sítio. O campo está maravilhoso, limpo, renovado, bem tratado. As crianças passam a ir todos os dias a esse campo, regar, limpar, arrancar as ervas daninhas…com os adultos.
Com o passar do tempo, ficam contentíssimos quando tudo o que plantaram começa a dar frutos…as flores e os legumes a crescer, deliciam-se com os pequeninos pormenores que vão surgindo, pelas mãos da mãe natureza. Colhem o que a terra dá, e até recebem a visita de passarinhos, a quem deixam também comida para que não estraguem as plantações, joaninhas e borboletas que poisam sobre as flores.
Vale a pena apreciar.
E o campo que até aí parecia um matagal, cheio de lixo, ervas secas e enormes, maltratado, desorganizado, passou a ser um meio auxiliar de produção e rendimento para aquela família, pois essa terra desse campo produziu tanto, tanto que até puderam dividir com outras pessoas, e vender.
Às vezes temos recursos naturais e não os aproveitamos. Tantos campos ao abandono…maltratados…e é pena, pois poderiam ser um meio de sobrevivência para quem está no desemprego, e ao mesmo tempo, estavam a proteger a Natureza, evitando dessa forma que houvesse incêndios.

FIM!
Lálá
(15/Fevereiro/2012)

















A TRANSFORMAÇÃO DO JARDIM…

Era uma vez uma aldeia pequenina que ficava na terra Sonharacordada. Ficava entre grandes montanhas, com pastos muito verdes, lindas casinhas de pedra não muito grandes, mas todas muito confortáveis e têm um jardim. Parece um condomínio fechado de casinhas de bonecas.
            Nessa aldeia não havia poluição. Respirava-se ar puro, fresco, não circulavam carros, só de bois e carroças puxadas a cavalos e a burros.
As pessoas eram limpas, simpáticas, todas se conhecem e todas são amigas, trabalhadoras e saudáveis pois só comiam produtos que a terra dava, sem antibióticos e sem outros químicos, e bebiam água da mina, limpa, pura e fresca.
Aqui os animais andavam à vontade, livres, soltos, comiam erva natural e sempre fresca, bebiam água potável, leve, fresca.
Hoje o céu está assustador: cinzento, escuro, sente-se um vento gelado vindo do cimo das montanhas. Parece que as nuvens se vão despenhar do céu. Ameaça chover a qualquer momento e não há sol. Os cães estão muito agitados…uivam de tal maneira que até parece que os lobos da montanha desceram para a aldeia, gemem, ladram virados para a montanha.
Duas senhoras com bastante idade: Avó Clara e Avó Fernanda encontram-se, cumprimentam-se, e falam uma com a outra.
- Bom dia, Fernanda…!
- Bom dia, Clara…como estás?
- Ai, hoje estou com muito frio…e os meus ossinhos…estão a queixar-se! E tu?
- Eu também estou com muito frio! O meu nariz está a dizer que vai haver mudança de tempo.
- Pois é! Vem aí o Outono…
- Ou quem sabe, nem teremos Outono e passaremos logo para o Inverno.
- Pois, as folhas já estão todas no chão, e este vento…
- Sim, e olha para aquele céu…
- Ui, que feio! Mete medo… (p.c) Será que ainda vai chover hoje?
- Não me admirava nada!
- Nem eu, e é o mais certo, porque este vento agreste, vem lá do cimo das montanhas.
- Sim, até corta o ar.
- E os cães…coitadinhos…já não param de uivar…
- Até arrepia…parece que os lobos da montanha desceram para a aldeia. Mas são os cães com medo!
- Pois são. Até tenho medo do que eles possam estar a pressentir e a anunciar…
- Acredita! Eu também. Quer dizer…não deve ser nada a que não estejamos já habituados, mas com um Verão tão bom, esquecemo-nos e parece-nos terrível a estação do Outono e Inverno.
- Pois é! Mas sabes que quanto mais encarquilhadas ficamos, mais o frio nos atravessa, e o rigor dos Invernos…
- Pode ser que não…! Estaremos preparadas, com certeza! (p.c) Olha, vais para onde?
- Ia pedir ao Nuno para me levar a casa lenha…para a lareira. (p.c) É que os meus filhos e netos foram trabalhar…só voltam à noite…todos temos frio…!
- Claro! As lareiras dão muito conforto às casas. (p.c) Eu vou contigo e também peço para mim.
- Está bem! Vamos então…!
            Lá vão as duas senhoras de braço dado, sem pressa, todas encolhidas com o frio, cumprimentam outras pessoas que aparecem, trocam algumas palavras, falam uma com a outra e vão ao Nuno, um rapaz novo que fornece lenha no Inverno a todos os habitantes.
            Entretanto, os lavradores soltam o gado e todos comentam que o tempo vai mudar, e que o Outono, que na montanha parece Inverno, chegou. Vão a casa vestir-se mais quentes e avisam as famílias.
            As crianças juntam-se para brincar, no monte chamado Trufa…porque é redondo, pequenino, muito perto de todas as casas e tem calhauzinhos espetados, como se fosse um bolo salteado com pepitas de chocolate.
Elas já estão todas encasacadas. E brincam alegremente umas com as outras. De repente…o vento torna-se mais forte, as crianças quase não conseguem correr, nem andar e começam todas a gritar.
Passa o Avô Zé de uma das crianças, o Filipinho, também com algum esforço para se segurar, encosta-se aos rochedos, que ladeiam o monte, e aí há menos vento.
O senhor tosse, e ouve as crianças a gritar e a lutar contra o vento, cheios de frio, com a cara vermelha e as mãos também.
            Filipinho grita e fala com o Avô:
- Avô…!
- (preocupado) Óh meu querido…! Com este frio vieram para aqui brincar…?! Como é que vos deixaram?
- Viemos…a mamã deixou.
- (chateado) A tua mãe é sempre a mesma doida…então não percebeu que o Verão já acabou e que é Outono, que mais parece Inverno?! (p.c) O tempo está muito imprevisível. (p.c) Venham comigo! (p.c) Se continuarem aqui vão ficar doentes. Está muito frio… (p.c) o vento está de cortar a respiração… (p.c)
            Mariana está assustada e grita:
- Mas eu não consigo andar. Como é que eu vou para baixo? O vento leva-nos…
            O Avô Zé percebe o medo das crianças, e tenta acalmá-los. O Avô já está habituado, mas as crianças não.
As crianças começam a chorar e a gritar, a chamar pelas mães…mas o Avô não se deixa impressionar e mostra-se calmo recomendando às crianças:
- Vá, não tenham medo, estão comigo…e o vento não vos vai levar. Dêem as mãozinhas uns aos outros, eu dou a mão ao que estiver na frente…e vamos sempre por aqui…encostados aos rochedos. Está bem?
            Os meninos assustados respondem em coro.
- Está bem.
            As meninas gritam e choram pelos brinquedos e gritam em coro: - Espere…
            Natashinha justifica-se:
-Não podemos deixar aqui os nossos brinquedos, e os nossos bonecos…
            O Avô compreende-as, mas não podem esperar porque está muito frio, e grita:
- Deixem lá os brinquedos e os bonecos…vocês são mais importantes que eles. Depois vimos aqui buscá-los.
            As meninas estão tristíssimas, a chorar pelos bonecos e brinquedos, o Avô tem pena delas, mas não quer ficar mais ali com eles, e grita:
- Dêem as mãos uns aos outros.
            Dão as mãozinhas, e o Filipinho, o primeiro da fila dá a mão ao Avô.
Pelo caminho, o vento empurra-os várias vezes para trás, eles param, quase ficam sem ar, e com os cabelos todos no ar.
Passam por eles seis cães da casa, a correr e a ladrar. O Avô reconhece-os, assobia-lhes, e ordena-lhes:  
- Busquem…brinquedos…busquem, busquem…
            O Avô ordena aos meninos:
- Meninos, baixem-se mais um bocadinho para cortar o vento…estamos quase a chegar…
            O céu está cada vez mais carregado, e vê-se um enorme clarão de um trovão, mesmo diante dos olhos do Avô e das crianças.
As mães e Avós que estão em casa, vêem o clarão, benzem-se, ficam muito preocupadas, vestem-se mais agasalhadas e saem a porta para ir buscar os filhos.
Os cães desatam a correr, e a cheirar, e mais atrás entram na gruta, apanham todos os brinquedos e bonecos dos meninos, e vão direitinhos para casa.
Pelo caminho, encontram-se, as mães e as Avós, com o Avô e os meninos.
As meninas correm para o colo das mães e das Avós, chegam exaustos, quase regelados, com a respiração ofegante, as meninas a chorar.
As mães e as Avós já acenderam as lareiras, e ficam preocupadas. A mãe do Filipinho diz:
- Sentem-se aí junto da lareira para se aquecerem, e vão tomar aqui um chazinho bem quente.
            A Avó Jandira recomenda ao Avô que também faça o mesmo.
Os cães ladram á beira dos brinquedos e bonecos das crianças. Estão á porta. As mães e as Avós deixam os cães entrar, também com frio, e sorriem, acariciam-nos.
A Mãe da Márcia dá uma boa noticia às crianças:
Mãe
- Olhem, os bichinhos trouxeram os brinquedos…tão queridos…!
            As meninas correm, vão ter com os cães, abraçam-se aos cães, e dão beijinhos. Elas agradecem em coro:
- Obrigada cãezinhos lindos…!
            Glorinha reforça:
- Trouxeram os nossos brinquedos…!
            Mariana quer que os cães vão com elas para a cozinha, e pergunta à mãe:
- Venham para a cozinha connosco…Podem vir Mamã…?
            As mães respondem que sim, acariciam os cães, as meninas abraçam os bonecos, e levam-nos para junto da lareira.
Estão lá todos reunidos, tomam um chá bem quente, e ouve-se outro grande trovão com barulho. As crianças gritam assustadas.
O Avô Zé responde-lhes para os tranquilizar:
- Não se assustem…foi só um trovão! Já estamos cá dentro…está tudo bem. Ainda está longe…e está lá fora. (p.c) Onde estão os outros, Jandira?
            A Avó Jandira responde:
- Estão a chegar. Foram buscar mantimentos. Já estou a vê-los.
            O Avô responde mais aliviado:
- Óptimo. O gado já está recolhido?
            A Avó Nicole responde:
- Penso que vão fazer isso agora…!
            O Avô Zé disponibiliza-se para ajudar:
- Vou lá ajudá-los.
            As Avós recomendam.
- Vai agasalhado.
            A Avó Nicole, a Avó Rosa e a Avó Jandira também querem ajudar e acrescentam:
- Eu vou contigo, e levo roupa mais quente para eles.
- Eu vou contigo e levo na termos um chá para os aquecer.
- Então eu vou convosco para ajudar e levo os copos num tabuleiro.
            O Avô resmunga:
- Que exagero…não precisam de sair de casa. Eles aguentam este frio…já aí vem.
            As senhoras não ligam ao que ele diz, saem com as coisas para os homens.
Passado um bocadinho, entram todos, encasacados, e já reconfortados. Falam animadamente uns com os outros, riem, e lá fora está um temporal.
Chove fortemente, parecem pedras a cair, ouvem-se grandes trovões, o vento está forte e faz muito barulho (assobia, abana as janelas e as portas).
Vêem televisão, e com trovões mais fortes ficam sem luz...as crianças gritam…quando volta a luz…ficam contentes. As mães e as Avós tratam do almoço.
            De repente pára de chover, mas continua frio e vento. As crianças estão amuadas porque não podem sair e brincar ao ar livre, pois está tudo molhado e muito frio. Tem de ficar em casa.
            À noite, as crianças deitam-se cedo, e nem se apercebem do primeiro grande nevão…os pais antes de irem dormir ainda vêem pelas janelas os flocos brancos que batem nos vidros das janelas, assistem deliciados…amanhã, as crianças vão querer ir brincar lá para fora, se não derreter entretanto.
            De manhã bem cedo…ao romper do dia ainda há muita neve, mas não chove, nem está demasiado frio, mas só na zona das casas, porque nas montanhas há muita neve e muito vento.
Homens e mulheres tomam um bom pequeno-almoço, vestem bastante roupa e abrem a porta ao gado, encaminham-nos para as pastagens e vão fazer outras coisas…uns são carpinteiros, outros são cozinheiros, outros agricultores, as senhoras são costureiras, outras trabalham no mercado da aldeia, e fazem muitas outras coisas.
A escola das crianças ainda não começou, e elas ficam na cama até mais tarde. Quando acordam, vão á janela ver se podem ir brincar. Ficam contentíssimas…o sol espreita tímido, entre nuvens carregadíssimas de chuva. Não dá para aquecer. As mães vestem as crianças bem quentes, tomam o pequeno-almoço e encontram-se todos num larguinho da aldeia, eufóricos para brincarem uns com os outros.
As crianças adoram neve, mexem nela, pegam nela, fazem bolas e atiram uns aos outros, constroem bonecos de neve, correm uns atrás dos outros, escorregam, riem…de repente começa a chover novamente. As mães das crianças chamam-nas e elas desatam todas a correr. Cai um grande pé de água e a seguir neve. As crianças mudam de roupa e ficam em casa, a ver a neve a cair. Soltam exclamações e sorrisos ao ver os floquinhos nos vidros, e num instante…tudo fica branco. Que lindo! A neve está muito alta.
Glorinha, Guidinha, Belinha, Natashinha e Tatiana, falam entre si, após uma exclamação colectiva. As outras meninas e meninos estão nas suas casas. Estas é que foram para a mesma.
- Ááááhhh…! Que lindo!
- Está tudo branquinho…
- Quem me dera andar ali em cima…
- Também eu.
- E já andamos ali em cima, hoje já brincamos com a neve!
- Foi tão divertido!
- Pois foi.
- Que pena ter começado a chover outra vez!
            Respondem em coro:
- Pois foi.
            Natashinha recorda:  
– Fizemos lindos bonecos de neve!
            As outras meninas também se lembram:
– Pois foi!
            Continuam a falar umas com as outras:
– Mas eu queria tanto apanhar aqueles floquinhos…
– Sim, deve ser muito bom apanhar floquinhos…só que para isso tinhas de estar lá fora, com as mãos esticadas e agarrá-los…
– Eu também gostava, mas se calhar eles derretiam nas nossas mãos…!
– Será que a neve dá para comer? A que é que saberá?
            Todas respondem em coro:
– Claro que não.
            Natashinha, Tatiana e Glorinha acrescentam:
– Os únicos floquinhos que dão para comer são os cereais que comemos no leite.
– Deve saber a…gelo…!
– O gelo não se come.
            Respondem todas:  
– Pois não.
            Guidinha compara esta paisagem:  
– Parece um postal de Natal.
            Todas respondem:
– Pois é…!
            Belinha lembra-se:
– Os lagos já devem estar congelados.
            Natashinha tem uma ideia:
– Olha, podíamos andar de patins lá em cima.
            Tatiana acrescenta:
– Sim…mas será que o gelo não partia e não caiamos à água…?
            Todas respondem:
– Não.
            Entretanto deitam-se junto da lareira nos almofadões e começam a imaginar um jardim diferente…Glorinha, Guidinha, Belinha, Natashinha e Tatiana partilham umas com as outras esse jardim diferente que imaginaram:  
– Olhem…sabem o que eu queria que acontecesse agora?
            Perguntam em coro:
– O quê?
– Que aparecesse lá fora nos jardins todos que estão cheios de neve…uma linda fada que enchesse tudo de luzes: as árvores, as estátuas de pedra…tudo ficava iluminado…
            Todas conseguem imaginar como ficaria e exclamam em coro:
– Áááhh…era…
– Olha, e se as estátuas de pedra dos jardins…sacudissem a neve, e se transformassem em pessoas...se passeassem pelo jardim, e falassem umas com as outras…
            Todas dizem a rir:
– Sim, era muito giro…!
            Belinha imagina outra coisa:
– E se além das estátuas de pedra que se transformavam em pessoas, e das luzes…se houvesse bailarinas em patins a dançar ao som de músicas diferentes, sobre o gelo dos laguinhos?
            Todas respondem a rir:
– Ei…sim…era lindo…!
            Natashinha acrescenta a sorrir:
– E nós dançávamos com elas!
            Todas dizem em coro:
– Claro.
            Tatiana imagina outra situação:
– Olhem, e se nesses jardim, de repente aparecessem montes de bonecos de neve…por todo o lado…giríssimos, com roupas diferentes, e fizessem uma festa com um piquenique cheio de coisas boas para comer…?
            Dizem todas em coro deliciadas a sorrir:
– Humm…muito bom…
            Natashinha lança outra:
– Também podia haver um baile de máscaras…e todas participávamos com os bonecos de neve e com as bailarinas no gelo…
            Agrada a todas e respondem em coro a sorrir:
– Sim…era giro…! Eu gostava.
            E continuam a imaginar, sem limites. De repente sentem no ar, um delicioso cheirinho a bolo de chocolate. Glorinha pergunta:
– Áááhh…será que estamos a sonhar…com um bolo de chocolate…?
            Entra a mãe de Glorinha com um delicioso bolo de chocolate e uns copinhos de chá. A mãe responde a rir:
– Não…não é da tua imaginação. É mesmo um bolo de chocolate que acabei de fazer.
            Elas levantam-se contentes, vão á janela e soltam uma grande exclamação de decepção. Natashinha, Glorinha, Guidinha, Tatiana, Belinha, comentam tristes:
– Óóóhhhh…
– O jardim continua todo branco…
– E a neve a cair…
– Óhhh…não há bonecos de neve vestidos de diferente…
– Pois não…nem luzes…
– Nem…lagos congelados com bailarinas…
– Nem estátuas que se transformam em pessoas…
            Dizem em coro:
– É só um jardim com neve!
            Natashinha acrescenta:
– Óh…estávamos num jardim tão bonito…!
            A mãe sorri e responde:
– Estavam a imaginar um jardim diferente…! Podem voltar para lá…mas primeiro comam o bolo e bebam o chá quente.
            Pára a neve e vão brincar outra vez contentes.
Nos dias seguintes mesmo com neve, brincam todos juntos e alegremente (meninos e meninas, e até adultos).
Depressa chega o Natal vivido com muita alegria.
            Depois de tanto tempo com neve, frio, vento, chuva, trovoada, o sol reaparece forte, quente.
O vento torna-se muito mais suave, e tudo volta a ficar verde, florido, colorido, com as fontes cheias de água…e as pessoas (crianças e adultos) com sorrisos abertos na cara, e trabalham com mais vontade.
            É mesmo assim…a Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno…são grandes artistas…cada um no seu estilo, com os seus gostos e jeitos…retoques…pintam os jardins e a natureza de cores diferentes, com surpresas agradáveis e belezas raras.
Tal como fizeram as crianças com a sua imaginação, quando não puderam ir brincar. Na imaginação…tudo se transforma, e tudo volta ao normal.
            Enquanto as crianças imaginavam um jardim diferente, este ganhou novas formas, novos sons, novas cores…foi povoado por personagens que as crianças desejavam…ficaram felizes…e quebraram o gelo do jardim lá fora…que continuava imóvel, gelado, silencioso…branco…!
            Com a sua imaginação as crianças transformaram um jardim e uma paisagem.
A nossa imaginação é uma capacidades fantástica, e com ela podemos fazer tudo o que quisermos, sem magoar os outros e a nós mesmos, podemos fazer algumas asneiras sem prejudicar a nós mesmos e aos outros, ou sem estragar o espaço onde estamos…podemos ser tudo o que quisermos…divertirmo-nos…e…modificar os espaços onde estamos, para nos sentirmos melhor.
            Quanto mais imaginarmos, principalmente coisas boas, mais felizes poderemos ser…!
            A Natureza tem uma imaginação muito particular.
Proporciona-nos momentos únicos e irrepetíveis.
Devemos aproveitar todos esses momentos que ela nos oferece sem a transformarmos e destruirmos.
Tal como a nossa imaginação não tem limites, e ninguém nos impede de os fazermos, devemos deixar a Natureza também imaginar livremente.
Ela gosta e nós também.

                                                           FIM.
                                               Lálá