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segunda-feira, 23 de julho de 2012

A transformação do sótão poeirento

                                                  foto de Lara Rocha 


Era uma vez uma menina que foi visitar a Avó, como fazia há muito tempo. Há muito tempo que ela via nessa casa antiga umas escadas que nunca tinha subido e que não sabia onde iam dar.
A Avó, sempre que ela perguntava onde é que aquelas escadas iam dar, e o que é que tinha lá nesse sítio, nunca lhe respondia, mudava de assunto e dizia-lhe simplesmente que não podia ir para lá! Era um sítio escuro, feio, sujo…e perigoso.
À medida que a menina foi crescendo, a curiosidade de ver esse sítio era cada vez maior. Agora não acreditava que esse sítio fosse como a Avó o descrevia. Ela queria mesmo conhecer esse sítio, mesmo sabendo que podiam não gostar que ela fosse para lá.
Enquanto estavam todos os familiares distraídos e animados, ela saiu da sua beira e com pezinhos de lã, subiu a escada. No cimo da escada tinha uma porta. Ela abriu a porta, espreitou e viu um sótão, em cimento no chão, parecia uma divisória de uma casa. A janela…tinha tanto pó que estava cinzenta, não se via através dela. E caixotes, baús e sacos para lá espalhados, fechados. A menina não percebe o que é que aquele sítio tinha de tão aterrador e comenta:
– Mas…o que é que este sítio tem de tão perigoso e feio?! (P.C) De momento está feio…mas é só porque tem pó… não percebo porque é que a Avó, a Mãe…e toda a família não me deixavam vir para aqui!? (P.C) É só uma parte da casa como outra qualquer! (p.c) E tem aqui baús, caixotes…nada de mais… (P.C) Ali nos baús deve ter roupa antiga…ou louças…qual é o perigo disto? Serão baús, caixotes e outras coisas…carnívoras…? (ri-se) Que palermice…nunca outra ouvi…! (P.C) Se calhar a Avó achava que havia monstros…ou até seria ela que os imaginava…! (P.C) Mas eu não tenho medo dessas coisas, por isso…tenho que ver o que há aqui. Antes, preciso de luz…onde está o interruptor…? (olha para todo o lado) Não tem luz…?! Que estranho…então…a solução é…limpar aquela desgraçada de janela.
A menina desce as escadas, pega numa bacia com água, sabão da roupa em pó e um pano...quer dizer… não sei se seria bem um pano…pega numas cuecas velhas que estão a servir de pano. Levanta as cuecas, abre-as um pouco rotas e desfeitas, ri-se e comenta:  
– Não sei se isto limpa alguma coisa, mas para estar aqui a monte é porque está a servir de pano. Se não é pano, passa a ser. (ri) Quem é que vestiria uma coisa destas…? Tinha cá uma peida… (ri) Cruzes…até parece uma cueca de animal de grande porte… (ri) Até parece que ainda me cheira a peido… (ri-se, mergulha o pano na bacia, mexe-o no sabão) Parece que estou a mexer um caldeirão… (gargalhadas). Ou que estou a lavar as cuecas num tanque público como faziam antigamente… só faltava aqui mais umas quantas, estarmos todas a cantar, no corte e costura, e a coscuvilhar umas com as outras… (gargalhadas) Ia ser bonito.
A menina levanta-se com a bacia e sobe as escadas para o sótão. Limpa a janela.
– Ááááhhh… (sorri) Alguma luz do dia… (volta a passar o pano) Sim…agora sim! Já se vê! Há quanto tempo este sótão não via luz. (P.C) Talvez fosse por isto que diziam que era um sítio horrível, feio, escuro, sujo…e essas tretas…poderá…se não o limpavam…!
As bonecas dos caixotes espirram, pois acabam de despertar com as fadas. A menina dá um espirro e tosse, estremece… molha outra vez o pano na água e limpa outra vez a janela e comenta:
– Ai, estou a ficar com alergia. Que desleixo desta gente…deixar uma divisória da casa chegar a este estado…só por causa do que diziam… (P.C) possivelmente a Avó e a Mãe nem se deram ao trabalho de vir aqui e ver se era verdade o que diziam. Que limitações…! (P.C) Se eu fosse mãe deixava os meus rebentos virem para aqui brincar.
A menina acaba de limpar, sorri, olha em volta, passa o pano nos caixotes e sacos, espirra de vez em quando, e abre os caixotes. Ela nem quer acreditar no que está a ver. 
Dentro dos caixotes estão umas lindas bonecas antigas, com vestidos e acessórios, cada qual o mais bonito…de fazer inveja a qualquer rapariga e sorridente e espantada diz:
– Ááááhhh…! Que bonecas incríveis…Uaaaaaauuuu…! Estas bonecas são o sonho de qualquer rapariga…! Quem me dera ter tido umas assim. (P.C) Estas deviam ser da Avó…! (P.C) Tão lindas…como é que a Avó as deixou cá em cima?! (P.C) Umas bonecas destas deviam estar lá em baixo, à vista de todos, numa vitrina, num móvel ou em cima da cama.
Ela tira boneca por boneca, olha para cada uma com atenção e ao pormenor, acaricia-as, mexe nas roupas, sorri-lhes, e enquanto isto, as bonecas trocam impressões entre si… a menina não as ouve. Continua a apreciá-las, enquanto as dez bonecas do caixote partilham a sua tristeza umas com as outras:
– (boceja) Aaaaaahh…parece que dormi o sono da Branca de Neve!
– (boceja) Aaaaaahh…eu também…! A única diferença é que não fui acordada com um beijo mágico de um príncipe, nem tinha os anões à minha volta…nem comi a maçã da bruxa!
Todas riem, e outra boneca responde:
– Olhem, não comeram a maçã envenenada da Bruxa, nem nós, mas fomos todas trazidas para este sítio nojento por uma Bruxa…
        As bonecas estão todas de acordo e respondem em coro:
– Sim, é verdade!
        Outras bonecas acrescentam:
– E nunca mais quiseram saber de nós.
– Que tristeza.
– Todos devem ter sido envenenados por essa Bruxa.
– Sim. Principalmente aquela pequena, que dizia que éramos as melhores amigas dela, lembram-se?
        Respondem todas em coro:
– Sim.
        As outras bonecas continuam a comunicar a sua tristeza:
– Ingrata…essa…sempre estivemos do lado dela, para depois ela dar-nos um chuto no cú…!
        Todas respondem em coro e outra acrescenta:
– Pois…
– Ela foi muito injusta connosco.
        Todas respondem em coro:
– Também acho.
        Outra boneca sente um movimento estranho:
– Esperem…está alguém a mexer-nos não está?
        Todas sentiram o mesmo, respondem em coro:
– Sim…pois está!
        Continuam a trocar impressões:
- Áááhh…o que temos aqui?
– Não sei…parece que é uma visita!
– Será aquela traidora?
        Todas respondem:  
– Humm…
        Continuam a trocar impressões:
– É muito desavergonhada, se for ela…!
– É…vem agora chorar lágrimas de crocodilo…
– Se for ela…vou fazer de conta que não a conheço.
        Todas respondem:
– Eu também.
        Continuam a trocar impressões:  
– Pois eu vou-lhe dizer na cara tudo o que me ficou atravessado…
- Eu também queria, mas acho que não tenho coragem!
- Porquê? Ela come-te? Tu tens o direito de dizer o que quiseres.
- Eu sei, mas acho que tenho pena dela…se calhar nem foi por vontade dela que viemos para aqui.
- Ááááhhhh…és tão inocente…!
– Mas olhem que…ela está diferente!
– Vais perdoá-la?
– Não…não…!
– Como é que sabes que ela está diferente…? Nunca mais falaste com ela…!
– Está diferente…na cara…! Olhem bem…
As bonecas olham atentamente e dizem em coro:
– Realmente…tens razão…!
– Mas…se não é ela…quem é esta?
– Não sei.
– Ai, ai…o que é que esta nos vai fazer?
– Será que nos vai tirar daqui…?
– Para nos vender?
– Ou para nos levar para derreter…
- Ou ainda pior…para o lixo…
– Ai, fico toda arrepiada só de vos ouvir falar assim. Porque é que não pensam antes que esta vai-nos levar para casa…? Um sítio onde merecemos estar…?
– Confias demais numa estranha…
– Estou a ficar com medo...  
– Ela tem um ar simpático…não me parece que nos venha fazer mal…
– O ar…não quer dizer grande coisa…!
– Pois não…a outra com quem estávamos tinha um ar simpático, parecia boazinha e no fim…trouxe-nos para aqui, e nunca mais quis saber de nós…
        Respondem em coro:
– Pois foi.
        Continuam a trocar impressões:
– Que grande mal agradecida.
        Respondem em coro:
– Também acho.
        Continuam a trocar impressões:
– Mas…já repararam que este sítio está diferente?
– Também me parece…tem mais luz…
        Respondem em coro:
– Áááhh…pois é!
        Continuam a trocar impressões:
– Será que vão fazer obras?
– Realmente…parece que não há tanto pó.
        A menina está encantada com as bonecas e diz:
– Que perfeição de bonecas…parecem meninas a sério…! Tão lindas…! Eu nunca tive bonecas destas…só tinha uma da minha mãe…parecida…que também achava uma delícia. (P.C) Vou dar um banho a estas beldades.
        As bonecas perguntam em coro:
– Vamos ao banho…? Uuuuuuhhhh…! (festejam felizes)
        Uma boneca quer confirmar e pergunta às outras a sorrir se ouviu bem:
– Eu ouvi bem…? Vamos ao banho…?
        As bonecas respondem em coro, sorridentes:
– Sim. Também ouvi.
        Outra boneca interroga-se:
– Mas…será com água a sério…?
        Respondem em coro:
– Sim, claro…
        Outra boneca pergunta-lhe e outras completam:
– Como querias tomar banho sem água?
– A nossa amiga falsa dizia muitas vezes que íamos tomar banho, mas não nos metia na água…era só a fingir.
– Já aí dava para ver que ela era uma Bruxa. Se gostasse mesmo de nós como dizia, metia-nos mesmo na água.
– Pois.
– Foi uma grande desilusão, esta amiga…
        Respondem em coro:
– Acredita!
        Outra boneca acrescenta:
– O meu coração ainda está partido por causa disso.
        Respondem em coro:
– O meu também.
        As bonecas continuam a partilhar o sofrimento:
– Eu choro quase todas as noites, a pensar na maldade que ela nos fez, depois de tudo o que fizemos por ela.
– Eu também.
– Ela não merece as nossas lágrimas…
        Respondem em coro:
– Pois não.
        A boneca reforça:
– Mas eu não consigo evitá-las…
        Outra boneca, triste acrescenta:
– Apesar da maldade que ela nos fez…eu gostei muito dela…enquanto estive com ela.
        Respondem em coro:
– Eu também.
        Outras bonecas reconhecem uma coisa positiva:  
– Fomos muito felizes com ela
– Sim…e passamos momentos muito bons juntas.
        Todas concordam:
– Pois foi.
        A outra boneca explica:
– É por isso que me custa tanto a aceitar o que ela nos fez…!
        As bonecas concordam e respondem em coro:
– Sim.
A menina pousa as bonecas, abre os outros caixotes e tira de lá lindos brinquedos, loucinhas, roupas de bonecas, mais bonecas diferentes, camas de bonecas, uma casa de bonecas grande, espaçosa, sofás de bonecas, cozinha de bonecas…tudo…carrosséis de madeira e musicais.
Ela põe tudo num canto, varre e limpa todo o sótão com todo o gosto e carinho, acomoda as coisas em prateleiras depois de limpar o pó, põe música das caixas e dos brinquedos a tocar, sorri…as bonecas seguem – lhe todos os passos, deliciadas, felizes.
As bonecas estão boquiabertas e partilham essas impressões umas com as outras:
– Meninas…enganamo-nos sobre a rapariga.
– Pois.
– Ainda bem que os nossos medos não se materializaram.
        Respondem em coro:
– Também acho.
        Outra boneca muito surpresa exclama sorridente:
– Olhem que bonito que isto está!
        Todas concordam e respondem a sorrir:  
– Sim!
        Continuam a comentar:
– (sorri) A rapariga tem bom gosto…
– (sorri) E ela tratou-nos com carinho.
– (sorri) É bonita…e faz-me lembrar a nossa falsa amiga…
– Será que ela?
        Respondem em coro:
– Acho que não…
        Outras bonecas dizem:
– Não, ela não deve ser…acho que não nos vinha buscar depois de nos trazer para aqui…e se viesse…não seria por boas razões…acho eu.
– (sorri) Olhem aquelas que estavam connosco…há que tempos não as víamos…
        As Barriguitas reconhecem as amigas e respondem em coro a sorrir:
– Olá…! Amigas…
        As bonecas sorriem e retribuem:
– Olá!
        As bonecas e as barriguitas falam umas com as outras. Uma boneca pergunta:
– Onde estavam?
        Duas barriguitas respondem sorridentes:
– Aqui…bem perto de vocês…num destes caixotes…
– E vocês?
        As bonecas respondem em coro:
– Aqui.
        Outra barriguita partilha a sua decepção:
– Para nós foi uma humilhação vir para aqui.
        As bonecas concordam:
– Para nós também.
        Outra barriguita comenta chateada:
– Já não víamos luz há muito tempo…
        As bonecas respondem em coro:
– Nós também não.
        Outra barriguita pergunta:
– E esta menina…sabem quem é?
        As bonecas respondem em coro:
– Não…e vocês?
        Respondem em coro:
– Não.
        Outra barriguita acrescenta:
– Mesmo não sabendo quem é…já gosto dela.
        As bonecas riem e respondem:
– Eu também.
        Outra barriguita diz:
– Eu não consigo perdoar a outra traidora…
        As bonecas:
– Eu também não.
A Mãe e a Avó andam à procura da menina e chamam por ela…
– Diaaaaaaaanaaaaaaaa…
– Onde estás, filha?
– Diana…
A rapariga faz de conta que não ouve e murmura:
– Estou naquele sítio que vocês diziam que era horrível, sujo…perigoso… onde nunca me deixaram ir…aquele…onde tem bonecas lindas…dentro de caixotes e baús…que pecado…encontrem-me se quiserem…!
        A Avó preocupada pergunta à mãe, a mãe também está preocupada:
– Onde é que o raio da rapariga se meteu? Será que fugiu? Ela não costuma sair sem dizer nada…
– Realmente…óh Diana…aparece…já não és nenhuma criança… que palerminha…a brincar ao esconde-esconde…
        A menina murmura:
– Eu estou bem visível…
        A Avó lembra-se de um sítio onde ela pode estar, mas a mãe acha que não pode estar lá:
– Espera…agora que falaste em criança… (a Avó sobe as escadas) Deve estar aqui.
– Mas…nunca a deixamos ir para ali…porque é que estaria ali…?
– Por isso mesmo…sempre teve tanta curiosidade, e nunca a deixamos vir…deve ter aproveitado agora…
– Mas ela nunca me falou de querer vir ao sótão…
A Avó espreita, assusta-se, dá um grito, estremece, recua, a menina ri-se e pergunta a rir:
– Assustou-se Avó…? Não sou nenhum monstro…ou fantasma…apesar de estar no sítio onde disse que havia essas coisas…
        A Avó responde assustada e nervosa:
– Quem é que te autorizou a subir para aí, meu estupor?
        A menina responde:
– Se eu pedisse autorização nunca a teria…nunca viria cá acima.
        A Avó ordena muito zangada:
– Sai daí, rapariga…
        Uma boneca reconhece a Avó e diz:
– Olhem…foi esta… que nos trouxe para aqui.
        Todas respondem em coro:
– Ááááhhh…Sim…foi esta…!
        Outra boneca tem dúvidas:
– Mas…se foi esta está diferente…
        Uma barriguita também partilha a mesma opinião:
– Sim, foi esta…só que já vai há muito tempo.
        A rapariga incentiva a Avó:
– Avó…deixe-se de coisas. Eu já não sou bebé. (P.C) Não percebo o que é que tem este sótão de tão horrível. (P.C) Olhe, eu achei-o tão horrível, tão horrível que me perdi aqui, limpei-o, arrumei-o e tirei tudo do sítio.
        As bonecas estão a gostar do que estão a ouvir e incentivam:
– Dá-lhe…!
        Uma barriguita acrescenta:
- Isso, diz-lhas boas…ela merece ouvir isso!
        A mãe da rapariga não gostou nada da brincadeira:
– Diana…desobedeceste à Avó…
        A rapariga mantém a sua:
– Mãe…eu nem vou responder a isso…entrem no local do crime…!
        A Avó e a mãe não entendem e respondem:
– Crime?
        A Avó quer ver se compreende e pergunta:
– Que crime, criatura?
        A rapariga responde:
– O crime de deixar estas bonecas tão lindas, e estes brinquedos todos espetaculares aqui, num sítio destes. Olhem…que lindo…parece um sonho de uma criança. Umas coisas destas não deviam estar aqui. Deviam estar bem visíveis e à sua beira.
        As bonecas manifestam a sua alegria, gritando e batendo palmas:
– Apoiado!
A Avó suspira, sorri ligeiramente e fala com a neta, a qual tem sempre a resposta na língua e mostra incompreensão:
– Há quanto tempo não via isto…!
– Não viu porque não quis. Estava aqui tão perto de si.
– Eu queria…até queria…mas não consegui.
– Porquê, Avó? Quem me dera ter tido isto tudo na minha infância…e até agora não me importava.
– Sim, eram coisas muito bonitas, e fizeram parte de uma infância feliz…mas curta. Os teus bisavós é que me tiraram isto tudo, desde que entrei na Adolescência…e mais…adorava isto tudo…esse foi um dos piores dias da minha vida!
– E Avó não sabia vir aqui acima na mesma?
– Não podia desobedecer-lhes…Diziam-me coisas horríveis deste lugar para que eu não viesse cá.
– Isso não é desculpa, Avó. A Avó podia vir, e eles nem precisavam de saber. Imagino, devem ter dito tudo que a Avó e a Mãe me diziam.
– (sorri) Sim. Por muito que me custasse tive que esquecer…quer dizer…lembrei-me muitas vezes mas não adiantava de nada.
A Avó ajoelha-se, pega nas bonecas uma por uma, abraça-as, acaricia-as, suspira, sorri e diz às bonecas:
– Ai…que saudades…! Minhas queridas…!
        As bonecas não estão a perceber nada, e sentem-se magoadas, dizendo em coro:
– Agora somos queridas…
        A neta não compreende a atitude da Avó e diz:
– Avó, não tinha nada que repetir o que os bibós lhe diziam para não vir para aqui…devia ter vindo e devia ter brincado comigo, com estas coisas todas!
        A Avó ri-se e responde:
– (ri) Ora essa…que disparate…! (P.C) Uma velha a brincar com bonecas…muitas vezes apeteceu-me, mas com certeza que ficava mal vista.
        A neta não aceita isso como desculpa e acrescenta:
- As boas Avós brincam com os netos. E se as outras dissessem alguma coisa, a Avó convidava-as para irem brincar consigo.
A Avó ri, e a neta faz um pedido:
– Avó…leve estas belezas lá para baixo. Eu ajudo-a. Estes tesouros não podem continuar aqui. Têm que estar bem perto de si…no seu quarto, no quarto de arrumos, na sala…não falta onde.
        A mãe está deliciada ao ver o brilho no olhar e na cara da mãe e acrescenta:
– A sua neta tem razão Mãe. A Mãe ficou tão feliz quando viu estes brinquedos que tem de os ter perto para ficar mais jovem, com um olhar mais luminoso!
        A neta reforça, e a Avó está um pouco envergonhada, mas sente-se mais feliz. A neta anima-a:
– Sim, claro, Avó… eu ajudo-a a levar isto.
– (a rir) Ai, que vergonha!
– (sorri) Até está com menos rugas…se eu os levar para a sua beira, vai ficar ainda com menos rugas.
A Avó acaricia a cara e riem. Depois desta frase da neta, a Avó está mais convencida:
– Pronto…está bem! Convenceste-me.
        A menina sente-se realizada e saltita de alegria, feliz:
– Fixe! Boa Avó…
A Avó seleciona com a neta e a filha os brinquedos e as bonecas e dispõem-nos pelo quarto da Avó e pelo quarto do lado em prateleiras, em cima das cadeiras e camas e sofás…numa conversa muito animada umas com as outras, gargalhadas.
Estão as três felizes e as bonecas também:
– (sorriem) Uaaaaaauuuu…!
        Partilham entre si o que sentem: 
– Isto sim é uma casa para nós.
– (sorri) Claro. Nós merecemos isto.
– (sorri) Este espaço sim…!
– (sorri) Que lindo…
– (sorridente) Aquela rapariga… salvou-nos.
        Todas respondem em coro:  
– Sim.
        Continuam a dizer o que sentem:
– (sorriem) Ááááhhh…que alívio…aqui consigo respirar.
        Todas respondem em coro sorridentes:
– Sim. Que bom.
Outra boneca acrescenta:
– E sem pó…
        Todas respondem em coro:
– (sorridentes) Pois é.
        Outras bonecas acrescentam:  
– (sorridente) Que maravilha…!
– (sorri) Esta cama é muito confortável…
– (sorridente) Há que séculos não víamos uma luz desta…!
        Todas respondem em coro:
– Sim…é verdade.
        Continuam a trocar impressões felizes e sorridentes:
– Que luz fantástica…!
– É tudo tão bonito aqui.
– Finalmente deixamos de estar enfiadas num caixote sufocante. – E estamos juntas…!
– Sabem, eu estava magoada com a Avó da rapariga, mas quando ouvi a história dela, até fiquei com pena! Vocês não?
        Todas concordam:
– Sim, também.
        Outra boneca mostra compreensão:
– Para nós não foi fácil, mas para ela também não…!
        Todas concordam:
– Pois.
        Outras bonecas acrescentam:
– Eu acho que ela também gostava muito de nós.
– Sim, ela era querida connosco…cobria-nos…dava-nos carinho…vestia-nos roupas bonitas…alimentava-nos com aqueles petiscos…
– Pois era.
– Há pessoas boas…
– Acho que apesar de tudo, tivemos sorte com a pessoa a quem viemos ter.
        Todas concordam:
– Sim.
        Outra boneca acrescenta:
– Nem quero pensar se nos calhava a mãe dela…
        Todas respondem:
– Cruzes…
        Mais duas bonecas dizem:
– Se calha já não existíamos…
– Sim, acho que ela desfazia-nos.
A menina, a Mãe e Avó voltam a entrar no quarto onde estão as bonecas e apreciam deliciadas. As três exclamam:
– Que quarto tão bonito!
        A Avó, a Mãe e a rapariga acrescentam sorridentes:
– Está muito mais bonito…
– Colorido…
– Muito mais confortável e acolhedor.
        As três concordam:
– Sim.
        A Avó elogia a neta a sorrir:
– Tiveste uma boa ideia querida…e deixaste-me muito feliz! (P.C suspira) Já não me sentia tão bem…tão feliz…tão nova…há muitos anos.
        A mãe completa sorridente:
– Desde que te tiraram estas coisas de sonho!
        A Avó concorda:
– Pois.
        A neta relembra e a Avó concorda e acrescenta:
– Avó…nunca é tarde para voltar a brincar!
– (sorridente) Sim, filha é verdade…! (P.C) Muito obrigada querida neta…e podes brincar com tudo isto sempre que quiseres! – (feliz e sorridente) Óh! Fantástico. Com todo o gosto. Obrigada Avó…e a Avó vai brincar também comigo! E a Mamã também…
E é isso que as três fazem. Brincam juntas e felizes, como se fossem outra vez crianças. A menina acrescenta sorridente:
– Até as rugas desaparecem…
        As bonecas agradecem à menina, felizes:
– Obrigada, Diana…
        A menina sorri-lhe e agradece às bonecas:
– Obrigada por voltarem a fazer a minha Avó feliz e sorridente!
        A avó sorri e diz:
– Que bom, brincar… até me esqueço da idade…! Nunca é tarde para voltar a viver e a sentir toda a felicidade da idade da inocência…!

FIM
Lara Rocha 
12/Junho/2011







A surpresa da bailarininha Sofia





Era uma vez uma menina pequenina que se chamava Sofia. Era linda, simpática, doce, meiga, educada, elegante, que adorava dançar e tinha muito jeito.
Sofia vivia com a Mãe, que sempre a elogiou e incentivou. Em tudo o que a menina fazia, a Mãe encontrava sempre algum aspecto positivo para referir. Recompensava sempre com sorrisos ou beijos, e palavras meigas, mesmo quando as coisas não estavam na perfeição total, a Mãe dava valor, ao contrário do pai que só criticava o que ela fazia, e ralhava. Nunca estava orgulhoso da filha, nem valorizava o que ela fazia. Foi por isto que os seus pais se separaram há muito tempo.
A menina vivia feliz com a Mãe.
Certo dia foram ver um espectáculo de balé de uma prima da idade da Sofia. A sala estava cheia de familiares entusiasmados, orgulhosos dos pequenos, e com sorrisos abertos.
Mãe e filha sentam-se, na primeira fila. A professora Jú dá as boas vindas a todas as pessoas, e anuncia que o espectáculo vai começar. Faz-se silêncio. Abrem-se as cortinas…começa a música…acendem-se luzes diferentes, e os meninos vão entrando, dançando graciosamente, tão bem e tão bonito que todos ficam deliciados, com os olhos brilhantes e sorridentes.
Sofia parece que está hipnotizada, e de repente, levanta-se…e começa a dançar como as crianças do palco, de um lado para o outro, a rodopiar, em biquinhos de pés, e repete as coreografias. A mãe nem quer acreditar no que os seus olhos estão a ver.
Os olhos da professora que estavam pregados no palco, ao ver Sofia a passar por ela e a dançar tão bem, volta a sua atenção para a menina. A professora está totalmente rendida aos encantos da pequenita Sofia. Jú vai ter com ela e fala baixinho:
JÚ – Querida…vai para o palco dançar!

SOFIA (baixinho) – Eu…? Para o palco? Para a beira dos meninos…? Mas…eu não sei dançar.

JÚ – Sabes, sim…estás é com vergonha não é? (p.c, Sofia sorri) Mas não tens de ter vergonha…estás a dançar tão bem!

SOFIA – Eu sou prima da Márcia, não ando no balé…só vim ver a minha prima!

JÚ – Onde está a tua mamã?

SOFIA – Aqui…

JÚ – Então, no fim dos meninos dançarem, diz à tua mamã que eu quero falar com ela, está bem?

SOFIA (sorri) – Está bem!

        A menina continua a dançar maravilhosamente bem, como os meninos.
A música acaba, todos batem palmas de pé, encantados. A professora Jú lembra-se que falta uma menina no grupo a seguir. Ela vai ter com a mãe e diz para a acompanhar atrás do palco. Há um grupo que faz animação no intervalo, enquanto preparam a dança seguinte.
        Atrás do palco, Jú apresenta-se e faz um pedido à mãe de Sofia:

JÚ – Olhe…eu tive oportunidade de apreciar a sua filha...que delicia vê-la dançar…ela faz parte de algum grupo?

MÃE – Não! Mas eu também fiquei muito surpresa…eu sabia, e sei que ela gosta muito de dançar, mas nunca a tinha visto a dançar balé.

JÚ (sorridente) – Ela é maravilhosa. Não se importa que ela participe no número a seguir…? É que falta uma menina.

MÃE – Mas…ela nunca teve aulas, acho que sabe dançar só por ver…

JÚ (sorri) – Sim. Mas por favor, deixe-a participar. Ela merece esta oportunidade…!

MÃE – Mas…ela não conhece os passos, nem as danças…não acha arriscado?

JÚ (sorri) - É uma menina muito especial, eu sinto que ela se vai sair muito bem…confie em mim, e pode confiar na sua filha também.

MÃE (sorri) – Bem, eu…por mim…ela pode participar, mas não sei se quer…se ela quiser participar, quem sou eu para a impedir. (p.c) Ela está feliz. (p.c) Mas acha que ela não vai estragar o espectáculo?

JÚ (sorri) – Tenho a certeza que não vai estragar nada! Vai ser um sucesso, acredite…eu não a conheço, mas sei que ela tem muito talento e vai correr tudo bem. (chama Sofia) Querida princesinha…!

MÃE (sorri) – Sofia…

        A menina vai ter com elas.

JÚ (sorridente) – Olá fofinha, olha…tu gostas de dançar?

SOFIA (sorri) – Sim, adoro dançar.

JÚ (sorridente) – E de balé, como a Márcia? Isto que dançaste há bocadinho tão bem?

SOFIA (sorridente) – Sim, adoro. Mas não sei dançar como a minha prima.

JÚ (sorridente) – Queres dançar com estes meninos?

SOFIA (sorridente) – Quero…mas…agora?

JÚ (sorridente) – Sim. Vestida como eles.

SOFIA – Mas…eu não tenho estas roupas.

JÚ (sorridente) – Eu tenho para ti.

SOFIA – Mas…eu acho que não sei dançar isto.

JÚ (sorridente) – Claro que sabes dançar princesinha…vamos vestir então?

SOFIA (sorri) – Deixas, Mamã?

MÃE (sorridente) – Sim, filha, vai!

JÚ (sorridente) – Até já, Mãe.


MÃE (sorri) – Quer ajuda?

JÚ (sorri) – Não, muito obrigada. (p.c) Nós já aparecemos. (p.c) Vai ver que não se vai arrepender.

MÃE (sorri) – Está bem…até já.

        A Mãe volta para a plateia. Ela está nervosa e preocupada, mas ao mesmo tempo acredita que a filha se vai sair muito bem. Jú veste a menina e maquilha-a. Todos os meninos põe-se de volta da Sofia, incluindo a prima que está feliz. Jú está orgulhosa de todos os meninos. Sofia sente-se um pouco perdida. Jú recomenda:

JÚ (sorridente) – Olha linda, só tens que dançar, como estavas a fazer há bocadinho lá em baixo, está bem?

PRIMA (contente) – Vais dançar connosco?

SOFIA (sorridente) – Sim!

PRIMA (contente) – Boa!

JÚ (sorridente) – Vocês estão todos lindos…e são excelentes bailarinas e bailarinos…vai correr tudo bem….tenho muito orgulho em vocês, meus amores. (p.c) Vamos…vamos…

PRIMA (baixinho) – Olha para nós, e faz o que nós fizermos.

SOFIA (sorri, diz baixinho) – Está bem.

        As primas vão de mãozinha dada. Sofia está muito vaidosa, sorridente e feliz. A professora anuncia o novo espectáculo, a música começa, e a mãe de Sofia vê a filha, sorridente e orgulhosa. Começam todos a dançar lindamente, Sofia segue todos os movimentos e todos os meninos com um grande à-vontade, feliz, parecia que já dançava balé há muito tempo. Todos os meninos integram-na no grupo, e discretamente dão-lhe indicações para ela os seguir. Estão todos maravilhosos, dançam com elegância, e sorridentes, toda a plateia fica encantada. A Mãe da Sofia e a professora, vêem o espectáculo muito orgulhosas, surpresas, com os olhos brilhantes e sorridentes.
A Jú, que está sentada à beira da mãe, murmura:

JÚ – Muitos parabéns pela filha que tem.

MÃE (feliz e orgulhosa) – Muito obrigada.

JÚ (sorridente) – Que bem que ela dança! Parece uma grande profissional. Tão linda… (p.c) Eu sabia que ela ia sair-se muito bem. Que maravilha…! (p.c) Foi delicioso vê-la.

MÃE (sorridente) – Sim, dançou mesmo muito bem. Eu não conhecia esta faceta da minha filha.

JÚ – Por favor, Mãe…deixe-a frequentar aulas de balé. (p.c) Esta boneca tem muito para dar. Vai dar gente com certeza! (p.c) Não a prenda…deixa-a crescer no balé.

MÃE (sorri) – Se ela quiser…quem sou eu para a impedir. Ela está muito feliz e muito vaidosa.

JÚ (sorridente) – Sim, é normal, e é excelente! Até nós as duas estamos vaidosas por ela. Ela é maravilhosa!

MÃE (sorri) – Sim, sem dúvida. Vai ser a professora dela?

JÚ (sorri) – Sim. Por favor…trate-me por «tu» …por Jú.

MÃE (sorri) – Como quiseres…muito obrigada por teres descoberto o talento da minha filhota.

JÚ (sorri) – Era impossível ninguém reparar no talento dela…e era impossível eu deixá-la fugir…na…na..nan…

        As duas sorriem e aplaudem de pé. A música acaba e seguem-se mais algumas músicas. Estão todas orgulhosas de ver dançar. No fim do espectáculo, a Mãe abraça a filha orgulhosa, sorridente, beija-a e diz feliz:

MÃE (sorridente) – Muitos parabéns querida! Dançaste muito bem…estou muito orgulhosa de ti!

JÚ (feliz) – Muito bem, princesinha! Muitos parabéns…viste como sabes dançar?! (p.c) Estou muito orgulhosa de vocês todos, e de ti também! (p.c) Gostaste de dançar?

SOFIA (feliz e sorridente) – Sim, adorei dançar!

JÚ (sorridente) – Queres continuar a dançar aqui connosco?

SOFIA (sorri, feliz e vaidosa) – Sim, quero continuar a dançar. (p.c) Eu posso, Mamã?

MÃE (sorri) – Claro que sim, meu amor!

SOFIA (sorri) – Boa Mamã…! Obrigada! És a melhor…Adoro-te…és a melhor Mamã do Mundo todo.

        Riem, as duas abraçam-se e beijam-se carinhosamente. Os pais dos outros meninos entram nos camarins, dão os parabéns uns aos outros. A partir deste dia, a Sofia que era uma pequenina bailarina, passou a frequentar aulas de balé, sempre muito aplicada, empenhada, dedicada e empenhada, cresceu cada vez mais, aprendeu novos estilos, sempre com muito sucesso, e tornou-se uma grande bailarina, reconhecida, e de quem toda a gente tinha muito orgulho.



FIM.
Lalá
(31/Dezembro/2011)