Número total de visualizações de páginas

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A nuvenzinha e o monte

                                  
foto tirada por Lara Rocha 


Era uma vez um monte muito alto, que circundava toda uma aldeia. Nesse monte habitam alguns pastores, anões, e animais como: cavalos, ovelhas, vacas, bois, vitelos, porcos, patos, coelhos galinhas, cães, gatos, pássaros, e de longe a longe lobos. É um sítio verdejante, sossegado, com muita variedade de flores e floresta.
A vida dos pastores e dos anões é a mesma de sempre: trabalho, casa, levar o gado a pastar, alimentar os outros animais, tratar das culturas, lavrar a terra, as esposas tomam conta dos filhos, da casa e ajudam os maridos.
O tempo no monte já se sabe…não é sempre igual. Pode estar sol e frio, ou frio e nublado, ou sol e muito calor…vento… tudo é preciso para a terra, e os agricultores já estão habituados.
Certo dia, uma nuvem roxa decidiu ir passear…pelo céu, bem lá no alto. Passou por várias cidades e aldeias, e como estava a ficar cansada procurou o melhor sítio para descansar. Onde? Exatamente neste monte! Ao passar por cima da aldeia clara, situada na cidade Paraladoespelho parou e pôs-se a ver a paisagem.
Enche-se de ar, e exclama ao ver toda aquela paisagem maravilhosa:
- Ááááááhhhh…que sítio tão liiiiinnnndoooo…Nunca vi coisa igual! (P.C) Tanto verde…e…Huuuummmm (inspira) e estes cheiros…?! Nunca tinha sentido. (P.C.) E….aqueles seres tão pequeninos?! (gargalhada, baixa mais um bocadinho) Áááááááhhh…são os anões! Já vi outros parecidos noutros sítios. Também vieram para aqui?!
            A nuvem roxa lembra-se do seu amigo vento e chama-o para ver se ele está por perto.
- Vento…também estás aqui?
            O vento responde e falam um com o outro:
- Claro querida! Eu ando por todo o lado! Estou sempre ao serviço da população. Muita gente não gosta de mim, porque às vezes sinto-me tão livre e tão feliz, outras vezes também fico muito zangado e levo tudo pelo ar. Não faço por maldade, é só que em certos momentos, a Mãe fica tão poluída, é tão maltratada pelas pessoas que eu tenho que ficar chateado não é? Acho que ninguém gosta de ver a sua Mãe ser ofendida ou magoada… só faço isso para ajudar a Mãe e limpá-la, para ficar outra vez bonita. Já que o ser humano não o faz, tenho que o fazer eu. Mas no fundo todos precisam de mim. Sem mim, quando o Rei está no seu máximo, as pessoas da Terra desapareciam…ficavam sem ar…não aguentavam não é?
- Sim, claro. Compreendo-te muito bem! Comigo acontece o mesmo. Às vezes também fico muito chateada e despejo muita água, para ver se refresco as ideias das pessoas e para te ajudar a limpar a Mãe…
- Tu e eu somos muito importantes. Temos funções parecidas e trabalhamos em conjunto, mas muita gente não gosta de nós, nem nos dá valor. Mas… o que fazes aqui, hoje?
- Eu…andei a passear…já fui a muitos sítios antes deste, mas agora estou um bocadinho cansada…procuro um sítio para repousar. (P.C.) Achas que posso ficar aqui?
- Olha, se fosse eu deixava-te…mas não sei se vão gostar lá em baixo de te ver!
Uma rocha do monte ouviu a conversa e grita:
- Podes ficar! (P.C) Mas por favor não despejes lá para baixo…tens ali uns riachos a precisar de água, vai lá se não te importas.
            A nuvem roxa confirma se entendeu bem e pergunta feliz:
- Então, quer dizer que posso ficar?! Há aqui lugar para mim?!
            A rocha do monte confirma novamente:
- Sim!
            A nuvem roxa responde feliz:
- Ááááááhhhh…! Que bom! Muito obrigada! (P.C) Onde são os riachos?
A rocha do monte dá-lhe as indicações e despeja a sua água nos riachos que ficam com o dobro do caudal. Os riachos agradecem felizes e exclamam:
- Uuuuaaaaaaaauuuuu…muito obrigada. Estávamos mesmo a precisar.
            As pedrinhas dos riachos respiram de alívio e exclama felizes:
- Finalmente…!
            Uma pedrinha branca acrescenta:
- Estávamos aqui encalhadas…demoraste a aparecer mas agora já podemos viajar em liberdade.
            O riacho médio comenta feliz e agradece:
- Os agricultores vão ficar orgulhosos de nós…obrigada nuvem.
            A nuvem roxa responde vaidosa e sorridente, e faz uma promessa:
- De nada! Hei-de voltar…
As águas começam a correr mais de força, e os riachos estão cheios, só param nos campos dos agricultores, descem felizes monte abaixo, formando lindas cascatinhas que até àquele dia estavam praticamente secas.
Os peixinhos saltam na água radiantes.
Algumas pedrinhas seguem viagem.
Uma criança com um balde chama a nuvem docemente:
- Óh nuvem…podes encher o balde? É para dar de beber e para a minha mãe cozinhar para os bichinhos da casa.
            A nuvem roxa sorri e faz-lhe a vontade:
- Claro, querido.
            A nuvem abana-se, torce-se, e enche o balde da criança. A criança bate palminhas e exclama sorridente:
- Que bom! Tanta água.
            A nuvem roxa fica preocupada ao ver tanta água e diz à criança:
- Tu não consegues levar o balde com essa água toda…
            A criança mostra-se confiante e exclama:
- Eu vou levando…paro muitas vezes, mas chego lá…
            A nuvem roxa fica com pena da criança e oferece-lhe ajuda:
- Não, sobe para cima de mim! Eu levo-te a casa.
            A criança sobe para a nuvem que se baixa e pega no balde, pondo também em cima.
As duas (criança e nuvem roxa) falam uma com a outra: 
- Os adultos dizem que não é possível tocar nas nuvens…
- Pois…mas as crianças conseguem…é aquilo a que os adultos chamam de imaginação. Eles não vão acreditar que vieste numa nuvem…vão fingir que acreditam, mas não te preocupes.
- Os adultos são estranhos…olha, como é que tu vieste aqui parar?! Eu nunca te vi por estes lados! Quando chove muito, vejo muitas nuvens…mas nunca vi uma sozinha!
- Fui passear. Agora, como já andei muito vim à procura de um sítio para descansar. Onde moras?
            A criança indica o caminho, e a nuvem roxa pede ajuda ao vento:
- Vento…dá aí um empurrãozinho! Mas não muito forte.
            O vento responde:  
- Com todo o gosto.
            O vento dá uma sopradela, a criança ri feliz e a nuvem roxa ainda o põe mais à vontade:
- Se quiseres podes deitar-te ou agarrar-te a mim…
            A criança deita-se, ri e diz feliz:
- Ááááhhh…que bom! És tão fofinha…pareces a minha cama…!
            A nuvem roxa ri e informa a criança:
- Chegamos!
            A nuvem baixa para a criança sair e tira o balde, põe-no mesmo à porta. A criança agradece à nuvem roxa com um grande sorriso:
- Obrigada pela boleia.
            A nuvem roxa sorri e diz:
- De nada!
            A criança faz um convite à nuvem, e esta faz-lhe uma promessa:
- Quero ver-te aqui mais vezes …eu gosto de ti!
- Sim! Voltarei! Até à próxima…porta-te bem!
            A mãe da criança nem quer acreditar no que está a ver e exclama muito surpresa:
- Humm…já? Que rápido…e trouxeste muita água…! Quem te ajudou?
            A criança responde a verdade sorridente:
- Foi aquela nuvem.
            A Mãe faz de conta que acredita e diz:
- Ahh…está bem! Que nuvem tão simpática! Obrigada nuvem… (ri, pega no balde e entra.)
            A nuvem roxa olha em volta, deliciada com a paisagem e exclama:
- Este sítio é mesmo um sonho.
            Repara num pico do monte mesmo à frente dela. Ela sobe e vai para lá. Nem quer acreditar no que está a ver e exclama maravilhada:
- Ááááhhh…que lindooo! Vê-se tudo daqui!
            O pico do monte implora à nuvem roxa:
- Nuvem…imploro-te…dá-me um bocadinho da tua água! Por favor… (P.C.) Sinto-me tão seco…desidratado…
            A nuvem rega o monte, e este fica muito feliz, como por magia, torna-se muito verdejante, com ar fresco, até nasce erva alta e fofa, algumas flores de monte…até crescem amoras. O vento dá uma ajuda varrendo e a nuvem roxa aprecia o trabalho dizendo:
- Ááááááhhhh…ainda estás mais bonito agora! Realmente estavas com mau aspecto.
            O pico do monte e a nuvem roxa pedem favores um ao outro:  
– (consolado e feliz) Mil obrigados…não sei como te retribuir!
- (sorri) De nada. É para isto que sirvo, este é um dos meus trabalhos! (P.C) Sabes de algum sítio onde eu ficar por aqui? (P.C.) É que vim passear mas estou cansada…gostei muito deste sítio.
- Podes ficar aqui mesmo. É uma forma de te retribuir (P.C) Podes ficar o tempo que quiseres…até porque vais ser muito precisa! (P.C) Os lavradores estão com falta de água…está a ficar a erva seca…o que é mau para os animais. Os riachos também estão com pouca água e demora a chegar lá abaixo! A situação é preocupante.
- Ááááhhh…estou a perceber! Tu queres que eu fique aqui contigo neste sítio de sonho, para ajudar os animais, os lavradores…?
- Sim! Até se quiseres chama a tua família.
- Se calhar… (boceja) não te importas que… (boceja outra vez) eu durma um bocadinho? É que preciso de descansar senão, não tenho força para fazer o meu serviço em condições…! (P.C) Prometo que quando acordar faço isso está bem?
- Claro, querida! Descansa o que for preciso! Fica à vontade.
- Muito obrigada…
            A nuvem repousa sobre o pico do monte, enrola-se à sua volta, deitada na relva fofa, abraça-se a ele, dá-lhe um beijinho, o pico sorri.
Em baixo, os lavradores e os anões estão radiantes com o aumento da água. Repararam que o pico do monte está muito diferente.
A senhora Quica dá o sinal:
- Que engraçado…o monte do lobo está muito mais bonito…parece…muito mais verde… e… tem ali uma nuvem…!
            Perguntam todos em coro:
- Uma nuvem?!
            Olham todos admirados. O Anão Francisco questiona:
- Humm…será um bom sinal?
            O Senhor André expressa uma frase de esperança:
- Será que finalmente vamos ter chuva?
            O Senhor Rui exclama com certeza:
- Sim!
            Por muito que a Senhora Isabel queira, ela não acredita muito na presença daquela nuvem e diz:  
- Ai, eu acho que não vai dar em nada…uma simples nuvem não dá chuva….
            A Senhora Paula tem mais esperança:
- Mas atrás de uma podem vir muitas mais…
            A Senhora Alexandra concorda totalmente:
- Claro…eu acho melhor irmos perguntar ao sábio…
            Todos concordam:
- Isso!
            O Senhor Gabriel informa:
- Os meus ossos estão a dar sinal…
            O Senhor Gabriel expressa o seu desejo:
- Espero que chova brevemente.
            O Senhor António que esteve a observar atentamente tudo à sua volta comunica as diferenças que encontrou:
- Humm…houve transformações…e os passarinhos andam mais baixo…
            A Senhora Isabel também reparou e acrescenta outra modificação:
– Sim … e o vento está mais fresco, mais forte…
            A Senhora Paula apercebeu-se de outra coisa:
- A água aumentou…
            A Senhora Alexandra está feliz e comunica:
- Que venha…estamos mesmo a precisar de chuva. E muita.
             A pequena Natasha grita, feliz:
- Olhaa…aquela nuvem está a dormir no monte!
            A pequena Luciana acrescenta:
- Pois é… espero que acorde e traga água.
            A Senhora Quica partilha a sua esperança com as meninas e diz:
- Sim filhas vai trazer água…
            Os lavradores dão gargalhadas.
As crianças começam todas a gritar ao mesmo tempo.
A nuvem está tão cansada que não acorda nem ouve.
O pico do monte ri e murmura:
- Xiiiiuuuu…meninas…silêncio! Deixem a nuvenzinha descansar…ela vai fazer-vos a vontade, mas tem de dormir um bocadinho para ganhar força.
            A criança a quem a nuvem encheu o balde, vai á janela ver se a vê…mas não a vê e exclama triste:
- Óóóhhhh…a nuvem foi embora…
            A flor que está por baixo da janela do quarto do menino para se abrigar do calor mostra-se e fala com o menino:
- Não, Rafael…a nuvem não foi embora!
- Viste-a? Onde é que ela está?
– (sorri) Sim. Está a repousar no pico do monte dos lobos!
- Óóóóóóóhhhh… não…! Aquele sítio é perigoso.
- Não é nada! Isso é conversa dos grandes para os pequenos não irem para lá. Além disso…o pico protege-a.
- Sabes que eu andei nela? Ela ajudou-me a carregar o balde. É tão bom andar de nuvem…já andaste?
– (a rir) Claro que não! Mas gosto muito dela e da família dela.
- Ela também tem Mamã e Papá…e manos?
- Claro que tem!
- Mas achas que ela vai voltar a ver-me?
- Sim. Ela ainda não vai sair daqui…as pessoas como tu, lá em baixo estão a pedir água delas.
- Não gostavas de andar de nuvem?
– (pensa um pouco) Humm…não sei…talvez não! (P.C) Eu estou habituada a estar na terra.
- Mas…eu também sou da terra, mas gosto de andar nas nuvens.
            O menino e a flor falam mais um bocado. As meninas: Natashinha, Luciana, Isabel, Graça, Glória, Diana, Sofia e Ana vão ter com o amigo Rafael. Elas dizem em coro:  
- Olá Rafa…
            Rafael sorri e responde-lhes:
- Olá.
            Natashinha faz-lhe um convite:
- Vamos brincar?
            Rafael aceita a sorrir e acrescenta:
- Vamos. E chamamos os outros.
            As meninas respondem em coro:
- Sim, claro.
            Rafael passa a correr pela Mãe e informa-a:
- Mamã vou brincar.
            A mãe autoriza mas recomenda:
- Está bem. Mas não te afastes muito! Vais sozinho?
            Rafael responde:
- Não. Vou com as meninas e vamos chamar os meninos.
            A mãe faz outra recomendação:
- Está bem! Juízo.
            A mãe vai à janela e cumprimenta as meninas:
- Olá queridas…
            Todas respondem em coro a sorrir:
- Olá Tia Jú…
            A mãe pergunta:
- Os pais estão bons?
            Todas sorriem e respondem em coro:
- Sim.
            Rafael sai e diz:
- Até já mamã.
            A mãe sorri e diz:
- Até já! (P.C) Beijinhos para os vossos pais.
            Todas sorriem e agradecem:
- Obrigada. Até logo.
            A mãe acrescenta:
- Até logo.
            As meninas seguem com o Rafael.
Param nas outras casas para ir buscar: o Pedrinho, o Nuninho, o Dioguinho, o Huguinho, o Filipinho, o Daniel, o David e o Francisco.
Vão para o monte verde, pequeno, onde já costumam brincar todos os dias e é perto de casa. Já brincam pelo caminho atrás de alguns passarinhos, e coelhos. David pergunta aos amigos e todos respondem em coro. Rafael confessa, mas os amigos não acreditam, ele aforma convictamente, mas Daniel e Dioguinho contrariam-no:
- Sim.
- Eu até andei nela.
- Andaste nela?
- Sim, ela encheu-me o balde e levou-me a casa! (P.C) Vocês nunca andaram?
- Se calha sonhaste que andaste na nuvem e que ela te levou a casa.
- Sim, porque os grandes dizem que não se pode andar nas nuvens.
Rafael relembra o que disse a Nuvem:
- A nuvem diz que os grandes não acreditam em nós…acham que é da nossa irmã…ai…qual é a palavra…
Huguinho não percebe o que diz Rafael, e pergunta a Rafael. Este explica:
- Imaginação?!
- Isso. Também já te disseram isso?
- Sim.
- A nuvem diz que só as crianças é que conseguem voar nas nuvens. (P.C) Eu também ainda não tinha andado, mas é muito bom!
Pedrinho, Graça e Sofia perguntam:
- Mas como é que ela foi parar ali?
- Também já estive a pensar nisso…. Será que foi alguém que a levou para lá?
- Ela está a dormir?
Todas respondem:
- Parece.
Ana, Rafael, Natasha e Diana comentam:
- Mas se ela está ali é melhor avisá-la que ali é perigoso.
- A flor da minha casa que vive debaixo da minha janela diz que não é perigoso…e o pico também está a protegê-la.
- Os grandes disseram-nos para pedirmos à nuvem a água dela.
- Os grandes são estranhos.
Todos concordam e respondem em coro:
- Pois são!
Isabel sugere:
- E se perguntarmos ao pico como é que ela foi ali parar?
Todos concordam:
- Isso…boa…
            Chamam todos o pico em gritos:
- Piiiiiiicoooooooo….Picooooooooooo….
            Faz eco no monte onde está a dormir a nuvem.
Pico ralha, esticando 1 braço de 1 árvore que bate no outro monte chateado
– Crianças…! Façam pouco barulho…se voltam a gritar já sabem que o tronco funciona.
            As crianças recuam assustadas. Ana pede desculpa, e Graça pergunta. Pico explica:
- Desculpa…
- Porque é que agora ficaste tão chateado?
- A nuvem está a descansar.
Isabel não percebe como é que a nuvem foi ali parar e pergunta a pico. Pico explica:
- Olha, e como é que ela foi aí parar?
- Diz que veio passear e estava muito cansada de tanto andar. Eu pedi-lhe que me desse banho e em troca deixei-a ficar aqui…num sítio que ela gostou muito.
Respondem em coro:
- ÁÁÁÁáááhhhh…
Pedrinho elogia Pico, e este, responde vaidoso e sorridente:
- Tu realmente estás mais bonito. A minha mamã reparou que estás mais verde…fresco…
- Sim! Foi o banho fabuloso que a nuvem me deu. Também aumentou a água aos riachos.
Nuninho, Francisco, Luciana, Sofia e Diana perguntam, cada um na sua vez ao pico, e este responde a todos:
- Lá em baixo está tudo à espera dela!
- Sim…e ela prometeu ajudar, mas primeiro tem de descansar!
- De onde é que ela vem?
- Não sei…só disse que vinha de muito longe.
- Achas que ela vai mesmo ajudar? Sozinha…? Não sei se conseguirá…
- Se ela não conseguir…chama a família.
- Como é que ela se segura?
- Está pousada na relva e abraçada a mim.
- Como é que ela se aquece?! Não tem frio?
- Claro que não tem frio! Está habituada…
Sofia acrescenta:
- Mas à noite fica mais frio…
Pico responde:
- Se ela tiver frio à noite abriga-se por aqui…nas rochas.
As crianças continuam numa conversa muito animada com o pico do monte. A nuvem continua a dormir. Passado um bom bocado, as crianças vão brincar, almoçam e no fim voltam. A nuvem Roxa acorda, espreguiça-se, boceja novamente e fala com o Pico:
- Hummm…está-se aqui tão bem! (espreguiça-se) nunca tinha parado aqui. Se calhar os da minha família já estiveram aqui…mas eu não!
- (sorri) Que bom! Sentiste-te mais forte para o teu trabalho?
- Sim, já estou ótima e pronta para o trabalho.
- Enquanto dormias nos meus braços. Umas crianças quiseram saber de ti.
- (a rir) Imagino quem seja…deixa-me adivinhar…o Rafael e amigos…?!
- Eles acordaram-te?
- Não.
- Já conheces esses meninos?
- (a rir) Sim. Ainda há bocado falei com o Rafael, levei-o a casa no meu colo. Ele pediu-me água para o balde! Foi dizer à Mãe que fui eu que lhe dei boleia, mas a mãe não acreditou…fez de conta…mas eu percebi que ela estava a brincar com ele.
            Os dois riem, e Pico e a Nuvem Roxa continuam a falar:
- Esquecem-se que já foram também crianças…só elas é que tem capacidade de voar nas nuvens…
- (a rir) É pena que os adultos percam esse poder de imaginar. Bem, vou ao meu trabalho, lindo monte. Até já.
- (sorridente) Até já. No fim do teu trabalho volta, se quiseres. 
- Claro que quero!
            A nuvem chama algumas amigas, e de repente fica tudo cheio de nuvens. Em vez de azul claro, o céu fica roxo, misturado com cor de laranja, e avermelhado…o vento fica mais forte. Na aldeia estão todos felizes. O Sábio da Aldeia comenta sorridente:
- Eu sabia, que o tempo ia mudar…as nuvens finalmente ouviram-nos. (grita) Recolham os animais e vão para as vossas casas! Rápido, …(para as nuvens) obrigado mãe natureza…mas espera só mais um bocadinho…por favor…deixa os animais recolherem. (P.C) Obrigado, vento, por teres trazido as tuas amigas para cá.
A Nuvem Roxa nunca ouviu aquilo, e pergunta ao vento. O vento ri e responde:
- Mas o que é que ele está para aí a dizer? O que é que eu tenho a haver contigo?
- Todos acham que sou eu que trago a chuva…
            Os dois riem. A Nuvem Roxa elogia o vento. Este ri-se e responde:
- Estás cheio de energia.
- Tem que ser assim.
            Os lavradores recolhem os animais e vão para dentro de casa. A nuvem dá uma gargalhada. O vento explica a rir:
- Eles acham que o sábio…este anão…fala com a natureza e que eles…os elementos da terra o ouvem e concretizam o que ele pede.
            Os dois riem, e a Nuvem Roxa acrescenta:
- Não é proibido sonhar… (gargalhada)
            A nuvem de tanto rir, larga umas gotas mais pesadas, comentando:
- Realmente…isto precisa de uma reviravolta! Está tudo tão seco…
            A nuvem dança sensualmente, e quanto mais se mexe, mais chuva cai, anda de um lado para o outro, com a ajuda do vento e rega tudo bem regado por onde passa. Como num passo de mágica, ao fim de umas boas e várias regadelas tudo ganha novas cores, a relva fica muito mais fresca e fofa, grande, …os riachos aumentam mais a água, onde os peixes brincam felizes, as pedrinhas passeiam alegremente ao sabor da corrente, e vão ficando em sítios ao longo do caminho onde se sentem bem. Os tanques e outras fontes, as pias dos animais quase transbordam. Está tudo tão fresco que dá gosto ver. As pessoas estão felizes em casa a ver chover. As nuvens estão divertidíssimas a passear e a brincar de braço dado, fazem rodinhas e dão gargalhadas, é por isso que está a chover tanto. Já nem parece o mesmo sítio. De manhã quando as nuvens veem o resultado final de um dia e de uma noite de grande festa para elas, dizem em coro:
- (sorriem orgulhosas) - Bom trabalho!
A Nuvem Roxa agradece, sorridente:
- Obrigada amigas!
Respondem em coro, e a Nuvem azul escura relembra:
- De nada.
- Já sabes que podes contar sempre connosco.
O Sol sorridente elogia o trabalho das nuvens:
- Muito bem meninas…mas vá…agora vão descansar…! Está na hora do meu trabalho…
A Nuvem Cor-de-laranja promete:
- Havemos de voltar! Aqui há imenso trabalho para nós.
A Nuvem Roxa informa, e a Nuvem Cor-de-rosa felicita:
- Sim… eu vou ficar por aqui…se precisarem de mim, também é só chamar. Neste pico.
- Hum… muito bem escolhido…tens uma vista privilegiada e fantástica…
Respondem em coro e a Nuvem Roxa acrescenta:
- Até à próxima…
- Até à próxima.
            As outras nuvens são levadas pelo vento, e o sol aparece lindo, forte, brilhante, o céu fica azul. A nuvem roxa volta para o pico do monte. Pico do Monte comenta feliz:
- És maravilhosa…excelente trabalho! Estou tão feliz…
A Nuvem e o pico do monte tem uma longa e animada conversa, riem, falam de muita coisa. Na população, em baixo, os animais pastam deliciados com a relva, os agricultores estão radiantes com a abundância de água e com a mudança na paisagem. Todos e todas dizem em coro, sorridentes:
- Bendita chuva!
            As crianças também brincam felizes. As meninas constroem coroas de flores do campo, lindas e coloridas, variadas, e oferecem-nas ao monte ao lado do pico. O pico recolhe as flores e dá-as à nuvem. A nuvem como reconhecimento leva os meninos e meninas a passear em cima dela. As crianças não podem estar mais felizes. Umas vão sentadas a ver a paisagem de cima, outras falam alegremente com a nuvem, outras deitam-se nela, e falam alegremente, há muitas gargalhadas com a nuvem.
            As pessoas da aldeia estão tão agradecidas à nuvenzinha que a adoptam como se fosse uma pessoa. Adoram-na, olham para ela todos os dias, levam-lhe flores, as cigarras e grilos dedicam-lhe canções, e tocam para ela. o Pico protege-a, as crianças vão vê-la todos os dias e brincar com ela. Como gratidão, a nuvem passa a ajudar os habitantes, dando a sua água, enchendo as pias dos animais, tanques e riachos para chegar em abundância aos terrenos, e outros serviços como ajudar as flores e os legumes a crescer. O Sábio da Aldeia lembra, e deixa um conselho:
- Meninos que estão a ouvir ou a ler esta história: não peçam só a presença do rei sol…ele é preciso e é bom, mas a chuva não é menos preciosa; faz muita falta para a sobrevivência da terra e nossa que fazemos parte dela. Cuidem bem da água, não a poluam, nem a usem mal. Sem água não há vida!

                                               FIM.
                                              Lálá 
                                    (Setembro de 2008)
                  
        






De onde vem as músicas (peça de teatro infantil, para todas as idades)

De onde vem as músicas?


VOZ - Era uma vez uma linda borboleta, muito atraente, doce, simpática, que vivia num jardim de uma grande casa. Essa casa ficava situada na aldeia, onde vivia D. Fernanda, uma senhora de meia-idade, divorciada, com os seus animais. 
        Durante a semana, a senhora estava sozinha, sem os filhos e netos, pois estes viviam nos arredores, embora a fossem visitar muitas vezes, e ao fim-de-semana juntavam-se todos. 
    Apesar disto, nunca se sentia sozinha, porque tinha sempre saídas com amigas e coisas imensas para fazer fora de casa. Era uma senhora que vivia feliz.
      Recentemente, a Dona Fernanda andava a ouvir umas músicas suaves, lindas, melódicas, e de embalar, que a relaxavam muito, e até a faziam sonhar. 
     Embora gostasse muito das músicas, não sabia de onde vinha…o som era de muito perto, mas quando ia à janela nunca via nada. E era estranho porque os animais também mostravam agrado pelas músicas, e não ficavam agitados.

         Dona Fernanda começou a ficar seriamente preocupada consigo mesma…vai á janela quando ouve a música, e pensa alto:

DONA FERNANDA - Será que estou a ouvir coisas…? Não sei…talvez seja eu a imaginar por estar sozinha. (p.c) Mas que disparate, estou para aqui a dizer…?! Eu não estou sozinha…os bichinhos estão comigo, tenho os meus filhos…as minhas amigas…e os meus vizinhos…! (p.c) Mas será que estou a ficar louca? E…a ouvir coisas? (p.c) É que…se os animais ouvissem a música davam logo sinal, e logo eles que são tão sensíveis, e que ouvem tudo…estão tão calmos! E eu a ouvir a música. (p.c) Acho que vou ter que ir ao neurologista…devo estar com algum problema. (p.c) Que música tão bonita! (p.c) De onde virá? (p.c) Parece-me tão perto…mas ainda ninguém comentou comigo sobre música…será que só eu é que a oiço? (p.c) Isto é um meio pequeno, se ouvissem eu já sabia! (p.c) Quem tocará assim tão bem?! (p.c) Não vejo ninguém. Está tudo tranquilo! (p.c) Pensando bem…acho que não vou ao neurologista…pode dar-me alguma coisa para eu deixar de ouvir o que não existe…e se deixo de ouvir estas músicas tão bonitas, e passo a ouvir coisas piores?! (p.c) Não…! (p.c) Já me bastou ouvir coisas horríveis daquele monstro…! (p.c) Eu quero continuar a ouvir estas músicas, nem que pareça que estou a ficar louca! (p.c) Só irei se sentir outras coisas estranhas, e a ouvir coisas feias. (p.c) Ai, mas é muito assustador, ouvir a música e não saber de onde ela vem. (p.c) E também estou preocupada por ouvir música, e os animais não reagirem…se calhar não ouvem…mas é muito estranho! (p.c) Já revirei a casa toda a ver se será de algum brinquedo das minhas netas mas não… (p.c) nenhum dos bonecos e brinquedos que deixam aqui tem músicas. (p.c) É melhor nem dizer aos meus filhos e amigas que oiço as músicas, se não, vão achar que estou pirada da cabeça e mandam-me para a casa de saúde…ou que me estou a deixar influenciar pelas minhas netas…! (p.c) Ai, que aflição…querer partilhar esta dúvida, e não ter com quem…sim, quer dizer, eu tenho com quem partilhar…poderei contar às minhas netas, ou aos meus filhos e amigas, mas tenho a certeza que ninguém vai acreditar, e ainda me irão julgar mal! (p.c) As minhas netas, como são crianças, até poderão acreditar, mas…não…acho que não vou contar… (p.c) Ai…só que eu tenho que saber se estou com algum problema na cabeça, ou se existem mesmo estas músicas e outras pessoas as ouvem! (p.c) Ai…mas não posso contar…não…não…! Só se…abordar o assunto, como quem não quer a coisa…e averiguar se mais alguém ouve! (p.c) Óóóhhhh…! Alguém me ajude…! (p.c) É melhor não pensar muito nisto. Vou às compras e depois logo se vê.

Dona Fernanda pega na carteira, ajeita o cabelo, espreita os animais e diz-lhes:

DONA FERNANDA – Até já meus amores. (Eles ladram e miam de volta da dona, ela acaricia-os) Não demoro nada! Tomem conta da casa! Lindos…!

VOZ – Os animais acompanham-na até à porta, e voltam para o jardim. Eles também ouvem as músicas e é por isso que ficam calmos e não reagem. Mas também eles não sabem de onde vem a música. Nesse dia, a gata Mirró tem uma suspeita, e está decidida a encontrar a origem da música. Olha em volta para ver de onde lhe parece vir o som e fica a ouvir atentamente. A gata Lua interrompe a concentração da amiga e pergunta:

LUA – Ei, amiga…tudo bem?

         (Mirró abre os olhos lentamente e chateada responde)

MIRRÓ – Xiu…! Cala-te!

LUA (surpresa) – Ai, desculpa! Estavas a descansar?

MIRRÓ – Não. Estava a concentrar-me. Cala-te por favor. Não me interrompas outra vez!

LUA – Mas, estás a concentrar-te para quê?

MIRRÓ – Outra vez…? (p.c) Pára de me fazeres perguntas, e deixa-me concentrar, ok?

LUA – Mas…vais à caça é?

MIRRÓ – Sim, vou à caça.

LUA – E não me levas contigo?

MIRRÓ – Não.

LUA – Que grande amiga!

MIRRÓ – Olha, eu gosto muito de ti, e sou tua amiga, mas isto tenho de fazer sozinha, entendes?

LUA – Óóóhhhh…! (fica triste)

MIRRÓ – Agora está calada! Preciso de me concentrar…por favor! (p.c) Depois explico-te.

LUA – Está bem, desculpa.

VOZ – A Gata Mirró volta a fechar os olhos, inspira e expira, e espeta as orelhas, gira a cabeça de um lado para o outro. A música continua a tocar. Mirró dá uns passinhos a cheirar de olhos fechados, e segue o som, abre os olhos e sem saber bem como foi ter às flores.

MIRRÓ – Ááááááhhhh…a música vem daqui! Mas…não sinto cheiro algum. Humm…!

(Pergunta à sua amiga Lua e aos seus amigos Xuxu e Pipinho):

MIRRÓ – Lua…anda cá, se faz favor.

(Lua vai ter com ela, ainda um pouco triste)

LUA – Boa! Já me vais dizer o que estavas a fazer de tão misterioso e tão importante, que até me mandaste calar?

MIRRÓ – Sim! (p.c) Já vais perceber como o assunto é sério! (p.c) Tu estás a ouvir esta música não estás?

LUA – Qual música…? Não estou na tua cabeça para saber que música estás a ouvir.

MIRRÓ – Estás a ouvir uma música ou não ouves?

LUA – Sim, oiço uma música, bem bonita por sinal. Mas não sei de onde vem! Agora…parece-me aqui nas flores. Só que…não vejo nada que dê música, como um rádio, ou um brinquedo das meninas…!

MIRRÓ – Pois, também estou a ouvir uma música! E vem daqui das flores, mas não há cheiro algum! Nem a humano, nem nada.

LUA – Não me parece que sejam as flores a tocar! Acho eu!

MIRRÓ – Claro que não. Isso podia acontecer na imaginação das meninas. (p.c) Será que a nossa dona também ouve esta música?

LUA – Eu tenho a sensação que sim.

MIRRÓ – E eles? Também ouvem?

LUA – Acho que sim…óh amigos Xuxu e Pipinho…estão a ouvir alguma coisa?
(Os cães respondem em coro, e as gatas também em coro):

CÃES – Sim, música.

GATASNós também.

XUXU – Eu já ando a ouvir músicas há uns dias, mas não dizia nada, porque achava que talvez mais ninguém ouvisse! (p.c) Só não sei de onde vem!

PIPINHO – Talvez seja de algum brinquedo das meninas.

XUXU – Eu também já me lembrei disso! Mas fui procurar por aí e não vi brinquedo nenhum…só que as músicas continuam a tocar…e sempre diferentes.

PIPINHO – Eu também já procurei e não vi nada…e não pode ser de um brinquedo, porque são músicas diferentes.

XUXU – As meninas têm um brinquedo que dá músicas diferentes, mas tenho a certeza que não são estas que oiço.

TODOS – Pois é!

PIPINHO – Esperem aí…pode vir de uma casa aqui do lado…! Algum brinquedo, ou algum humano que toca instrumentos.

LUA – Se é um humano…toca tão bem…! Faz-me sonhar! São sempre melodias tão suaves!

MIRRÓ – Essa era a minha ideia inicial, mas se fosse de um humano, mesmo que estivesse noutra casa aqui nas redondezas…sentíamos…cheiro…certo? E não sentimos cheiro algum.

TODOS – Pois…! Bem lembrado!

MIRRÓ – O som vem daqui…das flores! Ora…cheguem aqui mais perto!

(Os dois cães e as gatas reúnem-se à volta das flores, de onde ouvem as músicas).

PIPINHO – Isto é muito estranho!

VOZ – De repente a música para. Os bichos ficam quietos e em silêncio, de olhos muito abertos. Eles ainda não sabem, mas vive no seu jardim, dentro de uma linda flor fechada, uma borboleta maravilhosa, cheia de cores, e é ela que toca as músicas deliciosas que todos ouvem. A borboleta é um pouco tímida, e não sabe que os bichos da casa estão de volta dela. Eles veem uma flor fechada a abrir uma pétala, e em silêncio ficam na expectativa a olhar para ver o que vai acontecer. A borboleta sai da flor e os animais nem querem acreditar no que veem…estão tão encantados que parece que ficaram hipnotizados. Nunca tinham visto uma borboleta assim, nem por ali, nem por outros sítios onde andaram. A borboleta assusta-se e fica tão envergonhada por estarem todos a olhar para ela que volta para a flor. As gatas e os cães seguem-lhe os movimentos todos, e quando ela fecha a flor, eles olham-se pasmados.

MIRRÓ – Óóóhhhh…uma visita!  

LUA – Uma vizinha nova…! Humm…

XUXU – Pelos vistos veio para aqui viver!

PIPINHO – Como é que ela veio aqui parar?

MIRRÓ – Eu não dei por nada!

TODOS – Nem eu!

LUA – Pode ter sido num momento em que estávamos distraídos ou a dormir.  

XUXU – Eu não sei se a nossa dona vai gostar.

MIRRÓ – Eu tenho a certeza que vai gostar.

LUA – Viram aquilo…? É tão bonita!

TODOS – Sim.

MIRRÓ – Mas eu acho que a assustamos!

LUA – Pois…ela entrou tão rápido na flor…!

XUXU – Mas espera aí…nós estávamos à procura das músicas, não era de uma borboleta…ou será que…

PIPINHO – Espera…não estás a querer dizer que…é dela que vem as músicas…?!

XUXU – E porque não?!

LUA – Sim, pode ser…um rádio que ela tenha.

MIRRÓ – Ela será surda…?

TODOS – O quê?

MIRRÓ – Sim, se ela tem a música naquelas alturas…que toda a gente ouve, fora da flor…deve ser muito surda.

(todos riem)

LUA – Vamos ver se ela sai outra vez…pode ter ido buscar qualquer coisa que se esqueceu…!

(Entretanto, a borboleta ainda assustada, e envergonhada dentro da flor murmura a olhar pelas frinchas das pétalas):

BORBOLETA – Mas…que susto! (p.c) Eu não acredito que tenho animais como vizinhos…como é que eu não reparei…?! (p.c) ainda por cima cães…e gatos…! (p.c) Mas que pouca sorte a minha! (p.c) Como é que eu vou sair agora…com aqueles todos a olhar para mim…? (p.c) Ai…raios…! (p.c) Alguém me ajuda!

(Aparece uma fada, amiga da Borboleta)

FADA – Então, borboleta…chamaste-me?

BORBOLETA – Óh, sim querida amiga! (p.c) Que bom que apareceste!

FADA – Já sabes que estou sempre presente! Sou tua amiga! (p.c) Mas…estás tão nervosa…o que aconteceu?

BORBOLETA – Ai, senta-te! (p.c) Queres tomar alguma coisa ou comer?

FADA – Não, obrigada! (p.c) Mas conta então o que aconteceu?

BORBOLETA – Olha…como tu sabes, eu instalei-me aqui…porque gostei muito deste sítio (p.c) Estou aqui há poucos dias, e toco muitas vezes as músicas para ensaiar para os meus espetáculos. (p.c) Nas minhas, muitas…saídas, eu estava à vontade! Não havia no jardim ninguém para me ver sair…mas hoje…há bocadinho…ia sair e estava um ramalhete de olhos espetados em mim…e bocarras enormes abertas viradas para mim (p.c) Fiquei muito assustada

FADA (ri) – Eles não te iam fazer mal, tenho a certeza! Só ficaram curiosos para saber quem és! (p.c) É normal, nunca te viram por aqui! (p.c) iam dar-te as boas-vindas…não precisavas de ter fugido!

BORBOLETA – Tu sabes…eu não gosto de ser vista.

FADA – Mas nos teus espetáculos és vista por milhares de animais! (p.c) Eles ouvem as tuas músicas, e vêem-te.

BORBOLETA – Mas nos espetáculos é diferente, estou mascarada…estou concentrada nas minhas músicas e nos meus instrumentos…quase nem vejo a plateia! E amo o que faço, estou segura de mim…! Esqueço tudo o resto. (p.c) Mas no dia-a-dia não sou assim…gosto de sair à vontade, de passear…claro que há sempre alguém que repara em mim, e pedem-me autógrafos…mas gosto mais de estar sossegada.

FADA – Claro que toda a gente repara em ti…é impossível não reparem em ti…tão bonita, com essas cores todas! (p.c) É bom que conheças os teus vizinhos, pelo menos cumprimenta-os. É que ainda podes precisar deles alguma vez…em algum dia, para te ajudarem! (p.c) Se não falares com eles, nunca te irão ajudar.

BORBOLETA – Mas eles têm um ar tão assustador!

FADA – É só aparência, tenho a certeza! E já não são assim uns seres tão estranhos para ti, pois não? Já lidaste muito com cães e gatos…qual é o problema?! (p.c) Não tens amigos, e admiradores cães e gatos?

BORBOLETA – Tenho, claro. E gosto deles.

FADA – Então porque é que agora estás a avaliá-los sem falares com eles…só porque têm aquele aspeto…?! (p.c) É o aspeto deles…não podemos ser todos lindíssimos como tu, ou como eu…mas por terem garras grandes, pelos e dentes grandes, não quer dizer que não tenham coração…certo?! E tu sabes que estou a dizer a verdade!

BORBOLETA – Sim, eu sei…tenho amigos com ar ameaçador, mas são bons. Mas eles olharam para mim de uma maneira…assustadora! Com um ar muito estranho…uns olhos…

FADA – Mas o que é que tem os olhos deles…? São os olhos deles…como os nossos…uns azuis, outros verdes, outros castanhos…têm a cor que têm…! Eu até acho os olhos deles bem bonitos e meigos.

BORBOLETA – Meigos…?! Estes…? Duvido!

FADA – Claro que são. Despacha-te…sai da tua bela casinha e vai conhecer os teus novos vizinhos…! XÔÔÔÔÔ…fora da toca…! Não te deixes levar pelo ar deles.

BORBOLETA – Está bem, eu vou…mas por favor…fica por perto, para já está bem?

FADA (ri) – Está bem…vai…!

(As duas riem).

VOZ  – A borboleta sai devagar e a fada fica a ver. Os cães e as gatas olham-na e dizem em coro.

CÃES E GATAS – Bom dia!

VOZ – A borboleta fica gelada, estremece, mas disfarça o nervosismo. Sorri e falam uns com os outros:

BORBOLETA (sorri) – Bom dia!

LUA – És nova aqui não és?

BORBOLETA (sorri) – Sim, cheguei há muito poucos dias, e vocês…? Já estão aqui há muito tempo?

TODOS – Sim.

MIRRÓ – Há mesmo muito tempo.

XUXU – Como é que vieste aqui parar?

BORBOLETA – Vim…a voar…!

TODOS – Claro…(riem)

PIPINHO – O que queremos saber é…como descobriste esta casa?

BORBOLETA – Olha…estava a voar, e adoro jardins…vi muitos deliciosos, e lindos…mas este…não sei explicar como…foi onde me senti melhor!

LUA (sorri) – Sentiste a nossa energia não foi?

BORBOLETA – Sim! Acho que foi isso.

MIRRÓ – E vives nesta flor?

BORBOLETA – Sim!

TODOS – Porquê?

BORBOLETA – Porque experimentei várias, mas foi nesta que me senti melhor…mais aconchegante. E vocês onde vivem?

TODOS – Aqui.

BORBOLETA – Mas não têm uma casa para cada um?

TODOS – Não.

LUA – Dormimos todos onde calha…quando está frio ou a chover, abrigamo-nos todos no abrigo…ali…!

MIRRÓ – E de vez em quando, temos a sorte de dormir ali na sala…com a nossa dona.

BORBOLETA (sorri) – A vossa dona é simpática?

TODOS – Sim!

PIPINHO – Muito boa senhora…trata-nos como membros da sua família.

XUXU – Sim, o seu marido foi-se embora de casa.

BORBOLETA – A sério…? Mas porquê?

LUA – Era um verdadeiro monstro…chegamos a atacá-lo várias vezes, porque ele batia na nossa dona, insultava-a, magoava-a…e a nós também tentou magoar-nos, mas não permitimos.

BORBOLETA – Mas isso é horrível. Ainda bem que vocês estavam presentes e que esse anormal saiu.

XUXU – E os teus pais?

BORBOLETA – Ficaram na floresta!

PIPINHO – Mas…porque é que não vieram viver contigo para aqui?

BORBOLETA – Porque eu toco muitos instrumentos musicais, e os meus pais não têm obrigação de aguentar o barulho dos meus ensaios…!

(Os animais perguntam em coro):

TODOS – Tocas instrumentos?

BORBOLETA – Sim. Muitos. Querem ver?

(Ela abre uma pétala e mostra vários instrumentos musicais diferentes. Ficam todos boquiabertos).

TODOS – Uaaaaaauuuu…!

LUA – Tu tocas isto tudo?

BORBOLETA – Sim. Umas vezes em separado…um de cada vez, outras vezes uso mais que um ao mesmo tempo.

MIRRÓ – Então…as músicas que ouvimos…vêm daqui?

BORBOLETA – Vocês…ouvem músicas?

TODOS – Sim.

LUA – Já há vários dias que ouvimos muitas músicas, lindas…mas não víamos ninguém, nem sabíamos de onde vinham.

BORBOLETA – Então…devem ser mesmo as minhas…! Mas…faço muito barulho?

TODOS – Não.

XUXU – As tuas músicas são uma doçura!

BORBOLETA (sorri) – Obrigada.

MIRRÓ – Olha, podes tocar para nós…um instrumento de cada vez?

BORBOLETA – Claro que sim…com todo o gosto. Querem ver as diferenças?!

TODOS (sorriem) – Sim.

VOZ - Sentam-se todos, e ouvem atentamente a borboleta a tocar um instrumento de cada vez…deliciados…sorridentes…embalados…batem palmas, no fim de cada demonstração. A borboleta sorri e explica.

LUA (sorridente) – Que instrumentos tão lindos! (p.c) Nós chegamos a pensar que as músicas seriam de algum brinquedo das meninas, mas não víamos brinquedo nenhum.

MIRRÓ (sorridente) – Estes instrumentos são muito mais bonitos, e fazem uma música muito mais bonita do que os brinquedos das meninas todos juntos.

TODOS (sorriem) – Sim, é verdade!

PIPINHO – Olha…não querendo abusar de ti…podes tocar uma das músicas para nós?

BORBOLETA (sorri) – Sim, claro…! Com todo o gosto! E querem com um só instrumento, ou com vários…?

TODOS – Com vários.

LUA (sorri) – Se não te importares, claro!

BORBOLETA (sorridente) – Claro que não me importo!

VOZ – E a simpática e linda borboleta toca uma deliciosa música com vários instrumentos. Todos ficam encantados, sorridentes, e batem palmas.

TODOS (sorridentes) – Óóóhhhh…que linda música…!

LUA (sorri) – Até arrepia…fiquei comovida!

BORBOLETA (sorri) – Muito obrigada.

VOZ – Chega a Dona Fernanda, e vê os bichinhos todos reunidos de volta da flor, divertidíssimos, e ouve uma das músicas. Chega mais perto, e muito surpresa vê a borboleta e pergunta-lhe:

DONA FERNANDA – Mas, mas…o que é que se passa aqui? (p.c) Que linda borboleta! (p.c) Nunca vi igual…

BORBOLETA (sorri) – Bom Dia…a Sra. Deve ser a dona da casa, não?

DONA FERNANDA – Sim…!

BORBOLETA (sorri) – Desculpe eu ter invadido o seu jardim…mas gostei muito dele. Aqui senti-me muito bem, e posso ensaiar à vontade. Não se importa que fique?

DONA FERNANDA – Ensaiar…?

BORBOLETA – Sim…eu toco música.

DONA FERNANDA – Tocas músicas...?! (ri-se)

VOZ - Os bichos reagem, como que a confirmar, e a borboleta toca uma música. A Dona Fernanda nem quer acreditar! A música que acaba de ouvir era uma que já tinha ouvido, e não sabia de onde vinha. Dona Fernanda ouve deliciada e embalada, sorridente. Bate palmas no fim, completamente seduzida e rendida aos encantos da borboleta e da sua música.

DONA FERNANDA (sorri) – Então as músicas vinham daqui! (p.c) Que maravilha! (p.c) Fartei-me de procurar de onde vinham as músicas…e até pensei que estaria a ficar louca…a ouvir coisas…ou que seria um brinquedo das minhas netas…e afinal…eras tu…uma obra perfeita da Natureza! (p.c) É incrível…tão bonito e tão bom ouvir-te! (p.c) Fica à vontade…o jardim é todo teu.

BORBOLETA (sorri) – Obrigada. Espero não a incomodar.

DONA FERNANDA – Não incomodas nada…! Vou mostrar-te às minhas netas. Elas vão adorar.

VOZ – Todos estão felizes. A Borboleta, os cães, as gatas e a Dona Fernanda tornam-se grandes amigos. A borboleta continua a ensaiar e a dar espetáculos, a tocar e a brincar com os novos amigos e como prometido, a Dona Fernanda chama as netas e apresenta-as à borboleta. As netas ficam maravilhadas, e também passam a brincar com a borboleta. E afinal…as lindas músicas que se ouviam, vinham de uma linda e mágica borboleta que tocava música, naquele jardim.

(Aparecem no final, todas as personagens a dançar alegremente umas com as outras ao som de uma música da borboleta que toca).

FIM!!

Lara Rocha 
(15/JUNHO/2012)